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Buchez, a fonte de Louis Blanc, de Lassalle e dos melhores textos da Internacional

Philippe-Joseph-Benjamin Buchez (1796-1865) é considerado o fundador das cooperativas de produção para os trabalhadores. Houve alguns esboços antes, mas Buchez é o principal autor. É o expoente do socialismo católico.

Buchez difundia suas ideias na revista Europée, nos anos de 1830.

Buchez dirigiu a revista “L´Atelier”, de 1840 a 1850, em Paris, difundindo a ideia de criação de cooperativas de produção, com a ajuda do Estado.

Boa parte das cooperativas fundadas em Paris, depois da revolução de 1848, que teve Buchez como um dos principais expoentes, deve-se às ideias de Buchez.

Buchez foi presidente da Assembléia Constitucional Francesa, em 1848. Foi eleito deputado com maior número de votos que os outros representantes da esquerda. 

O próprio Marx e Engels escreveram, em vários textos, que Buchez está na origem dos melhores textos de Louis Blanc e de Lassalle.

Lassalle conhecia os textos de Louis Blanc, que citava Buchez.

Como Marx reconheceu, numa carta a Engels, em setembro de 1868, há uma grande semelhança entre a “descoberta lassalliana” e textos de Buchez, especialmente de um artigo no primeiro número da revista “L´Atelier”, de setembro de 1840.

Da mesma forma, Buchez combinava a ideia de democratização do Estado com apoio estatal às cooperativas de trabalhadores, ou seja, o núcleo das ideias de Lassalle.

A ideia de democratizar o Estado e criar cooperativas de produção com ajuda do Estado é o núcleo das ideias do “Manifesto” e dos melhores documentos da Internacional.

Estas ideias nascem de um católico, o pai do socialismo católico, Buchez. Foram apoiadas por Ketteler, na Alemanha.

Buchez escreveu obras essenciais como “Introdução á ciência da história ou ciência do desenvolvimento da humanidade” (1833), “História parlamentar da Revolução Francesa” (de 1833 a 1838, em 40 volumes, obra citada por Marx, várias vezes).

Mais importante, Buchez escreveu “Ensaio de um Tratado completo de filosofia do ponto de vista do Catolicismo e do Progresso” (1839 a 1840).

Outro expoente do cooperativismo foi o padre Theodor Amstad. 

Partidários da economia mista, na história

Os mercantilistas, especialmente os cameralistas, seguiram a linha de Platão, no livro “Leis”, adotando a economia mista, que foi o modelo mais seguido no mundo todo, na prática. O mesmo na Bíblia, como fica claro nas leis de Moisés e nas regras éticas. 

Millerand e Jaurés, na França; Bernstein, Kautsky, e mesmo Liebknecht e Bebel, tal como Lassalle; o Partido Trabalhista inglês (especialmente James Keir Hardie, Ramsay MacDonald, Attlee, Lasky e outros); Bukharin; estes e outros buscavam um esboço de Estado social, de economia mista, de economia popular, distributismo. 

Há milhares de outros pensadores, que sabiam que uma boa organização social e econômica é baseada em amplo setor público, combinado com milhões de propriedades particulares e familiares (casas etc) de pequeno e médio porte, regras publicamente, para que o uso da liberdade seja compatível com o bem comum. 

O Partido do Centro, Walter Rathenau e a Constituição de Weimar, na Alemanha. Democracia popular

Walter Rathenau foi um grande judeu. Ele foi Ministro da Reconstrução nacional, na Alemanha, de maio a outubro de 1921. Foi assassinado por direitistas bélicos. Rathenau escreveu o livro “A nova sociedade”, onde defendia a economia mista. Criticava os extremos, a ideia de estatização de tudo e a ideia de privatização de tudo (capitalismo). Propunha uma terceira via, Estado social, planificador, com estatais, cooperativas e amplo setor privado de micros, pequenas e médias empresas familiares. O mesmo modelo defendido pelos Papas, em geral. 

No mesmo sentido de Rathenau, a Alemanha teve a “Constituição de Weimar”, em 1919, que durou até 1933. Esta constituição previa um Estado social e influenciou positivamente a Constituição do Brasil, de 1934, que teve o apoio da Igreja.

Na Alemanha, boa parte dos avanços sociais da “Constituição de Weimar” tem origem no “Partido do Centro” (“Zentrum”), fundado em 1870. O próprio termo “Centro” já mostra que eles defendiam um modelo de economia mista, de centro, com setor privado e setor público, mais setor cooperativo. 

O Partido do Centro era o partido dos católicos na Alemanha. Era tão forte que venceu a guerra anticlerical feita por Bismarck. Bismarck mesmo terminou por compor com o Partido do Centro, ao fundar a Previdência Social na Alemanha, nos anos de 1878 em diante, já no papado de Leão XIII. A estrela do Partido do Centro era o bispo Ketteler, várias vezes elogiado publicamente por Lassalle, a principal estrela do então Partido Comunista, na Alemanha. 

Os ideais sociais dos Católicos, especialmente do Partido do Centro, foram uma das principais influências da “Constituição de Weimar” (1919). Esta Constituição é um dos principais marcos do Estado social, no século XX. 

 

O Conde de Mun, o bisneto de Helvetius. Bom exemplo da doutrina social da Igreja

O Conde Albert de Mun, o bisneto de Helvétius, foi um dos expoentes da doutrina social da Igreja. Na França, foi deputado federal várias vezes. Na sessão de 09.12.1891, ele disse boas palavras sobre o genro de Karl Marx, Paul Lafargue e sobre o socialismo. Vejamos o que De Mun disse:

“Estou de acordo com os socialistas, com o que agora mesmo estava na tribuna [discursando, Paul Lafargue, genro de Marx], sobre a crítica da ordem econômica, assim como, também, sobre um grande número de reformas sociais diariamente reclamadas pelos trabalhadores”. 

A Escola de Liège, na França e na Bélgica, defendia economia mista, vasta intervenção estatal, a favor dos trabalhadores. 

Leão XIII escreveu carta ao Conde de Mun, em 07.02.1893, elogiando os esforços do Partido católico. O Cardeal Rampolla, o Secretário de Estado de Leão XIII, escreveu carta ao Conde de Mun, em 09.05.1894, apoiando o “Partido Social cristão”, a Escola de Liège e os discursos e projetos do Conde de Mun. 

Francesco Nitti, no livro “Socialismo católico”, no final do século XIX, ataca o “socialismo católico do Conde de Mun”. Na Ástria, Vogelsang defendia também vasta intervenção estatal, economia mista, o Estado ao serviço dos trabalhadores. O mesmo fazia o bispo Ketteler, na Alemanha, um bispo elogiado publicamente por Lassalle, o chefe principal do Partido Social Democrático, Comunista, na Alemanha, naquela época. 

Emílio Zola, no livro “Roma”, descreve a formação da Doutrina social da Igreja, elogiando vários expoentes católicos. 

João XXIII queria uma boa democracia popular, com economia mista, controle dos trabalhadores sobre os fluxos econômicos

Nas palavras de João XXIII, na “Mater et Magistra” (parágrafos 215, 216 e 217), “a concepção” da Igreja sobre a “convivência social”, que é sua “doutrina social” ensina que “o princípio fundamental desta concepção consiste em cada um dos seres humanos ser e dever ser o fundamento, o fim e o sujeito de todas as instituições em que se expressa e realiza a vida social”.

O cristianismo condena o quietismo, a alienação, a reificação do ser humano, ou seja, a redução da pessoa a um objeto manipulável, sem consciência.

Segundo São João XXIII, cada pessoa deve ser um agente, o fundamento (causa, origem popular do poder legítimo), a finalidade do poder (servir ao bem comum, realizar o bem comum) e o sujeito do poder, controle do povo organizado sobre o poder (o Estado etc) e a economia, a cultura etc. 

João XXIII condenou o capitalismo liberal e estatal, pelo mesmo fundamento: o desenvolvimento só é justo e autêntico, se for participativo, do “homem todo” e de “todos os homens”, seres humanos.

O capitalismo liberal e o estatal, ao se basearem no trabalho assalariado, reificam o ser humano, reduzem a pessoa a uma engrenagem. É essencial superar os erros de Fayol, de Taylor, do fordismo, erros que foram, infelizmente, acolhidos mesmo na URSS. 

A solução correta é uma democracia popular, um socialismo humanista cooperativista, de economia mista, distributista, participativo, baseado na co-gestão, na autogestão e no planejamento participativo.

A doutrina da Igreja quer a superação do regime assalariado, instaurando formas comunitárias e cooperativas de gestão dos meios de produção, para que o setor cooperativo seja o setor principal da economia.

Todas as estruturas de poder e todas as estruturas econômicas devem estar sob o controle dos trabalhadores, devem ser PARTICIPATIVAS, de gestão participativa. Os trabalhadores devem ser os CEOS, os gestores da economia, tal como os gestores do poder, do Estado. 

Trata-se da antiga fórmula de Buchez, que inspirou Luis Blanc, Cabet, Lassalle e o próprio Marx.

Os trabalhadores devem ser desreificados, devem ser os SUJEITOS do processo produtivo, junto com a presença estatal, social, sintetizando o bem de cada pessoa com o bem da sociedade. Mesmo as estatais devem ter estrutura de cooperativas, com amplas formas de co-gestão, de controle dos trabalhadores. 

Neste setor cooperativista, como explicou João XXIII, as pequenas e médias unidades, pequenas e médias propriedades familiares, pessoais, na cidade e no campo, estariam associadas.

Da mesma forma, o setor cooperativo teria grandes unidades cooperativas, como ocorre em Mondragón, um dos maiores complexos cooperativistas do mundo, criado com a ajuda essencial de um padre.

A doutrina da Igreja busca um amplo distributismo com formas de planejamento participativo e democrático, tudo em boa harmonia com boas estatais, erradicação da miséria (todas as pessoas devem ter pequenos e médios bens, para proteção da pessoa, e amplos direitos sociais).

Da mesma forma, é urgente a erradicação das grandes fortunas privadas, construindo uma sociedade baseada na mediania, na vida simples, na vida digna, feliz, plena, abundante, para todos.

Na “Mater et magistra”, João XXIII ensinou que, “quando as estruturas e o funcionamento de um sistema econômico comprometem a dignidade humana dos que nele trabalham, enfraquecem o sentido de sua responsabilidade [participação] ou impedem seu poder de iniciativa, este sistema é injusto”.

Paulo VI, na “Populorum Progressio” (n. 6), ensinou que é uma aspiração legítima do ser humano, um direito natural, “ter maior participação nas responsabilidades”, participar nas decisões (políticas e econômicas) que dizem respeito a seu próprio destino, gerando uma sociedade pautada pela libertação, pela não reificação, pela não exploração, pela subjetividade de todos, pelo respeito à dignidade de cada pessoa.

Função social dos direitos subjetivos, outro nome para economia mista

A defesa da economia mista, do bem comum como síntese do bem pessoal e do bem social, está clara na Bíblia, nas “Leis” de Platão, na “Política” (e nos três livros de ética, e na economia) de Aristóteles e está no estoicismo. 

A concepção de bem comum está presente nos melhores textos de Stuart Mill, no utilitarismo social, que Harold Laski defendeu. E há o mesmo em Gunnar Myrdal.

No fundo, esta ideia de resgate do bem comum, da utilidade social (bem comum, social) como núcleo da ética, foi resgatada por Saint Simon, mestre de Comte. Daí, passou a Stuart Mill etc.

A mesma ideia de bem comum, de utilidade social como núcleo da ética social e de todo o Direito e todo o Estado, está também nos tratados éticos estoicos, tendo sido adotado por Cícero, em várias obras como “Leis” ou “Tratado dos deveres” (traduzido também como “Dos ofícios” ou “Das obrigações”), sendo esta última obra elogiada por praticamente todos os grandes Santos Padres, com destaque para Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Suarez, Bellarmino, São Clemente de Alexandria e outros. 

Comte e Stuart Mill mantiveram correspondência por vários anos.

Augusto Comte, no livro “Política positiva”(1/154-155), escreveu textos bem próximos do catolicismo, como “cada cidadão constitui” (se torna), de certa forma, “um funcionário público” (servidor público, da sociedade), com “atribuições” (poderes, deveres, direitos) que “determinam” suas “obrigações e suas pretensões”. Trata-se, para Comte, de um “princípio universal”. Cada ato social tem uma “função social” inerente ao ato. 

Por esta ligação entre catolicismo e positivismo, fica fácil entender a conversão de Borges de Medeiros, de Barbosa Lima, de Getúlio Vargas, de Roberto Lyra e outros. E a proximidade de Alceu com os positivistas, tal como a política de Mãos estendidas dos positivistas aos católicos, na década de 30.

Católicos e positivistas trabalharam juntos para criarem o melhor de nosso direito trabalhista e previdenciário.

Da mesma forma, Castilhos admitiu o ensino religioso nas escolas públicas do RS, ponto que foi depois admitido por Antônio Carlos, governador de MG. E depois foi estendido a toda rede escolar pública nacional, por Getúlio Vargas. 

Estas ideias, oriundas do sansimonismo cristão, inspiraram Leon Duguit”, grande civilista francês, na obra “As transfigurações do direito privado depois do Código de Napoleão”. É a mesma base de Lassalle, em sua boa obra sobre o direito privado na história.

Também é a mesma ideia geral das obras geniais de Karl Renner, de Campion e do grande Louis Josserand. A mesma da obra do grande Anton Menger, “O direito civil e os pobres”. 

No mesmo sentido, João XXIII destacou a função social inerente a todo direito subjetivo, inclusive os privados.

Cada direito pessoal deve ser modulado, regrado, limitado, ordenado, ao bem comum. Cada ato humano tem um lado pessoal e outro lado social, à imagem da Trindade, economia mista. 

O mercantilismo tinha boas coisas, pois exigia ampla intervenção estatal na economia e economia mista

O próprio Marx admite pontos positivos no mercantilismo, quando destaca que os mercantilistas começavam a análise pelo todo, pela estrutura geral da economia. Marx praticamente iniciou seus estudos com base no cameralismo, o mercantilismo alemão e austríaco. 

Por esta razão, no século XIX, na crítica ao capitalismo, houve vários autores quase socialistas que elogiaram corretamente alguns pontos do mercantilismo, no fundo, elogiavam a ampla intervenção estatal na economia, elemento tradicional. Esta parte do mercantilismo é sadia. Os sansimonistas destacaram isso bem.

A defesa da ampla intervenção estatal na economia, das estatais, do controle dos preços, tudo isso são teses hiper tradicionais, expressões da Tradição católica. Não são teses marxistas, e sim teses centenárias, até milenárias. Prova? basta pensar no controle do Estado sobre a irrigação (hidráulica) e as obras públicas, há milhares de anos, na Suméria, no Egito etc. 

A defesa da intervenção estatal fica claro em Mably, Diderot, Voltaire e outros, que elogiaram o grande Colbert, o colbertismo, na França. Há ainda o “Elogio de Colbert”, por Jacques Necker. O mesmo no livro do Abade Morellet, nos melhores textos de Babeuf. É a mesma ideia de Moisés, de Platão, de Thomas Morus e outros. Economia mista, ampla intervenção estatal, difusão de bens etc. 

O Estado criou várias estatais e protegeu a economia nacional, para desenvolver uma base industrial, para não exportar matérias primas, só permitindo a exportação de produtos elaborados.

O Estado deve substituir as grandes corporações privadas por boas estatais e por boas cooperativas produtivas e outras formas de cooperativismo. 

Além de Colbert, houve Montcrétien, “Tratado de economia política” (1615), Antônio Serra, o próprio Campanella, Laffemas (controlador geral do comércio, no governo de Henrique IV). Há o “Regulamento para desenvolver as manufaturas do Reino” (1597). Há as obras de Sully, de Richelieu e de Colbert (1651). 

Mercantilismo, protecionismo e intervenção estatal seguem sempre juntos, ponto que List (“Sistema nacional de economia política”) ilustra com bastante ênfase. Idem para Lincoln, nos EUA. O relatório sobre a necessidade do Estado incentivar a industrialização, de Hamilton, nos EUA, tem a mesma base.

O Estado é essencial para o desenvolvimento econômico. Isso também foi visto pelo Padre Vieira, por Pombal e outros.

Todos os países desenvolvidos da Europa se desenvolveram pelo protecionismo, pela ampla intervenção estatal na economia. O mesmo para o Japão, frise-se e isso foi amplamente demonstrado por dois grandes católicos: Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e por Barbosa Lima Sobrinho.

O elogio do protecionismo e da intervenção estatal para a industrialização está no núcleo das obras de Roberto Simonsen, na prática e nos textos de Getúlio e outros. Estes autores se basearam em várias fontes, inclusive Manoilesco, que ensinou grosseiro antissemitismo, sendo este o joio de seus textos, mas há partes boas, na ênfase ao nacionalismo e no combate ao imperialismo econômico.

Os estruturalistas também enfatizavam a estrutura geral, na linha antiga, ponto destacado por Keynes. Os melhores textos da aguada e branda CEPAL têm o elogio da intervenção estatal e da proteção estatal à economia. 

Este ponto também fica claro no livro de Schmoller, “O sistema mercantilista e sua significação histórica” (1884). E fica claro nos livros de Wilhelm Roscher (1817-1894), Adolf Wagner, de Lucien Brocard, Cunningham (1907) e outros. Há análise parecida no livro de André Marchal, “A concepção da economia nacional nos mercantilistas franceses” (Paris, 1931). O mesmo ocorreu na Escola Histórica da Economia, com Bruno Hildebrand e outros.

Lembro que o padre Henrich Pesch (1854-1926), expoente do solidarismo católico, foi aluno de Adolf Wagner, de 1901 a 1903). O solidarismo do Padre Fernando Bastos de Ávila é um socialismo participativo, distributista, uma economia pautada pela democracia popular. Idem para Dom Hélder e Alceu. 

Basta ler os textos de Constantin Pecqueur, para ficar claro o elogio da intervenção estatal na economia. A influência de Buchez sobre Lassalle foi atestada por Marx e Engels. Buchez era o chefe do socialismo católico. E a ideia do Estado apoiar o surgimento de cooperativas de produção vem de Buchez, para Luiz Blanc, Karl Rodbertus, Lassalle e, daí, para o “Programa de Gotha” (cooperativas de produção). Sobre estes pontos, vide Charles Andler (“Les origines du socialismo d´Etat en Allemagne”, Paris, 1897). Outra obra magnífica é a “História do pensamento socialista” (7 volumes), de G.D. H. Cole.

Os inimigos do protecionismo eram os livres cambistas, como Cobden e, depois, Viner. Todos os defensores do imperialismo são pró livre cambismo.

Os inimigos do imperialismo econômico eram a favor de ampla intervenção estatal, ampla proteção estatal ao florescimento econômico, para obter a prosperidade geral. Basta pensar em Keynes, Joan, Robinson, Gunnar Myrdal, Harold Laski e a CEPAL e outros, que fizeram o elogio da intervenção estatal e, implicitamente, do protecionismo. Protecionismo é principalmente proteção do Estado. 

A ideia de substituição das importações por produção industrial nacional está no núcleo do mercantilismo, do protecionismo. Da mesma forma a ênfase na necessidade da difusão de ampla educação pública e profissional a todos os trabalhadores, para desenvolver a tecnologia nativa, para o controle da tecnologia, da ciência. 

Pode e deve haver um protecionismo não explorador, não imperialismo. Todas as nações devem ter Estados nacionais amplamente intervencionistas na economia. Todos os continentes devem ter Uniões Continentais. A ONU deve ser convertida num Estado mundial, amplamente interventor, que dirija a economia, os fluxos econômicos, para o bem comum, com uma moeda internacional, como o Bancor, retirando este privilégio do dólar (cf. Santiago Fernandes, Keynes e outros). 

Economia mista. Os interesses pessoais também são relevantes e explico

Adam Smith explicava o capitalismo dizendo que os interesses privados, por si sós, levavam, pela “mão invisível” do mercado, ao interesse social. Estava errado. O mercado, deixado a si mesmo, se autodestrói, gera desigualdades brutais, crises periódicas, e revoluções, pela proletarização geral da sociedade e a concentração do capital. 

Marx criticou o erro de Adam Smith. Mas, exagerou ao não considerar o interesse pessoal. 

A crítica de Marx foi feita com ajuda dos românticos (Sismondi, Buchez, Cabet, Saint Simon, Weitling e outros gênios) e do socialismo pré marxista, quase todo cristão, católico, frise-se. Isso eu demonstrei bem no meu livro, de quase 1.200 páginas, sobre a história do socialismo, mostrando que o socialismo utópico cristão foi a base principal das melhores críticas de Marx.

Marx se baseou no melhor da ética católica e hebraica, em seus melhores textos contra o capitalismo. 

O correto é a fórmula do bem comum, fórmula do melhor da Tradição milenar, de Platão, de Aristóteles, dos estoicos, dos epicureus mesmo, tal como do melhor do pensamento hebraico.

A fórmula do bem comum exige uma economia mista, que seja voltada para os interesses das pessoas, das famílias e da sociedade, com prioridade para os que mais sofrem, os mais pobres, os mais pisados, os doentes etc.

Os interesses (bens) pessoais contam e são essenciais, mas limitados, restritos, aos limites do bem comum, difundidos. Enfim, bens pequenos para todos, moradias, móveis, pequenas ferramentas, carros populares, renda universal, herança para todos, pela suplementação estatal, renda universal.

O Estado deve promover o bem comum, ou seja, bens para todos, erradicando a miséria e as grandes fortunas privadas, implantando a santa igualdade, mediania, que a Tradição bíblica e do melhor da filosofia grega e antiga tanto amavam. 

O ideal da mediania, da difusão de bens, do distributismo, do bem comum realizado, está também no núcleo da ética budista, hindu, muçulmana, taoísta, confuciana, indígena, africana. Faz parte do melhor do pensamento religioso e filosófico, espalhado no mundo todo. 

O princípio da subsidiariedade, da doutrina social da Igreja, exige ajuda do Estado para todos, difusão de bens, via estatal, com intenso papel redistribuidor do Estado, via tributos, regras públicas etc. 

Todos devem ter bens, poder, controle sobre as vidas próprias, dignidade, esfera jurídica de proteção da vida pessoal e social, uma boa proteção via direito civil e comercial nos moldes de Menger, atenuado, como queria Lassalle e outros. Karl Renner e os grandes civilistas católicos franceses viram isso corretamente. Os fabianos, Duguit e outros, idem. 

A economia deve ser pautada pelo controle dos trabalhadores sobre o fluxo da economia, pela difusão de bens, pela destinação universal dos bens. Todos devem ser pequenos e médios proprietários, sendo o direito de propriedade relativizado, atenuado, pela função social implícita, pelo controle estatal. Ao lado de uma base ampla de difusão de bens (distributismo), devem haver estatais, cooperativas e um setor privado, pequeno e médio, também sujeito a controles sociais, estatais e co-gestão.

Nada de miséria. Nada de opulência privada. Mediania, sobriedade, vida plena, abundante, para todos. 

A ética cristã e judaica formam o núcleo mais profundo do que há de melhor nas ideias socialistas

Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (Lisboa e Moscou, Edições Avante! e Edições Progresso, 1981, “Obras escolhidas”, tomo 2, p. 251), reconheceu expressamente o “espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”. Em 1905, Lênin, num artigo chamado “O terceiro congresso”, ressaltou a “efervescência entre o clero, que aspira a novas formas de vida”, principalmente “os socialistas cristãos e os democratas cristãos”. Marx também constatou a importância do movimento operário liderado por Ketteler, na Alemanha, tal como por Montalembert e Lacordaire, na França.

O bispo Ketteler, de Maguncia, em 1864, escreveu o livro “A questão operária e o cristianismo”, defendendo as ideias básicas de Buchez, que também eram defendidas por Lassalle. Ideias de fortalecimento do Estado, da criação de um Estado social, de um Estado do bem estar social. Defendia que o Estado apoiasse as pequenas e médias empresas e as cooperativas. Assim, a economia seria formada por milhões de pequenas empresas familiares organizadas em cooperativas e por grandes cooperativas, que iriam gerir os meios de produção. Buchez e Ketteler foram as grandes estrelas do catolicismo social. 

Foi pena que Lênin não tenha desenvolvido mais esta bela proposição. O livro do padre Affonso Urbano Thiesen S.J., “A ética política de Lênine” (Porto Alegre RS, Ed. Instituto de Filosofia da UFRS, 1967) também mostra como Lênin usava termos religiosos em suas cartas e textos. As fontes cristãs e hebraicas ficam claras nos textos de Lênin. Por exemplo, num artigo de 1905, ele defendeu que o ateísmo não deveria integrar o programa do partido comunista, pois, segundo ele, o importante era transformar a terra num paraíso, sendo esta exatamente a meta do judaísmo e do cristianismo. Na verdade, o cristianismo busca algo mais: quer transformar o universo no Céu, interpenetrando-os, renovando o universo e unindo-o ao Céu.

O espírito democrático e socialista do cristianismo foi também registrado por autores como: Michael Lowy; Ernst Bloch; os expoentes da Escola da Frankfurt, como Max Horkheimer; Erich Fromm (1900-1980, com Horney, depurou erros das idéias freudianas e aproximou-se das idéias religiosas e de um socialismo humanista); Walter Benjamin; Garaudy e outros.

Estes autores redigiram textos de reconhecimento e apreço ao cristianismo primitivo, como fizeram Engels, Kaustky, Bebel, Rosa de Luxemburgo e Marx. Por exemplo, a carta de Marx a Domela (um pastor), em 1881, contém um elogio ao cristianismo primitivo. Engels deixou vários textos de elogio. Rosa de Luxemburgo (no livro “O socialismo e as igrejas”), Bakunin, Trotski, Marx, Engels, Kautsky (“A origem do cristianismo”), Bebel (em vários textos no livro “A mulher” e em discursos), Liebknecht e outros marxistas elogiaram o “cristianismo primitivo”. No fundo, estes autores elogiaram a ética cristã.

Fidel Castro elogiou inúmeros pontos do cristianismo. Estes autores constataram, assim, que os primeiros cristãos eram “comunistas” (na verdade, comunitários e solidários, partidários da comunhão dos bens, do bem comum), favoráveis a propriedades comunitárias, de auto-ajuda etc. Por via oblíqua, reconheceram que o cristianismo é o movimento precursor do socialismo, tendo sido a alma do socialismo utópico, pré-marxista. Os melhores textos de Mao Tse Tung, especialmente sobre a ética do “servir ao povo”, tem a mesma base. No Vietnam, há também textos praticamente cristãos de Ho Chi Minh (1890-1969, que inclusive esteve no Brasil, lá por 1911). O próprio pseudônimo de “Ho Chi Minh” significa “Aquele que ilumina”.

A 3ª. Internacional lançou, na década de 30, a política das mãos estendidas aos católicos, política que implicitamente reconhece e aprecia a crítica cristã ao capitalismo. O livro do Deão de Canterbury, anglicano,com edições em vários países, foi editado por orientação da Internacional (sob o controle de Stalin, que estudou em seminário ortodoxo por uns nove anos) explicitando a tese que o cristianismo condenava o capitalismo, o latifúndio, o imperialismo, o belicismo etc. Este livro lançou vastas pontes entre os ortodoxos e parte dos anglicanos com o movimento socialista. Dentre os ortodoxos, houve a aproximação com Stalin, na 2ª. Guerra, aproximação fácil, pois Stalin foi praticamente criado em escola religiosa ortodoxa e no seminário ortodoxo, na Geórgia, onde brilhou entre os alunos pelos estudos.

O cristianismo é o precursor do socialismo, pelo movimento do socialismo utópico. Assim, fica claro que, mesmo no bojo do socialismo marxista, há elementos cristãos, tal como há nas outras correntes socialistas. Afinal, o precursor e o movimento subseqüente têm, por força, elementos comuns e, por isso, a antecedência é considerada como precursora. Por esta forma, por via oblíqua e às vezes explícita, estes grandes marxistas reconheceram a prioridade dos ensinamentos cristãos. Reconheceram implicitamente que no bojo do que se chama socialismo/comunismo há uma porção de idéias cristãs, oriundas do socialismo utópico e do movimento democrático universal, quase todo movido por idéias cristãs e hebraicas.

Um exemplo basta para provar a existência destes elementos cristãos e também racionais e naturais: a máxima “a cada um de acordo com suas necessidades”, que é o princípio mais importante para Marx de uma sociedade comunista consta expressamente duas vezes no livro “Atos dos Apóstolos” (capítulos 2 e 4) como característica (princípio dirigente) que distinguia as comunidades cristãs, a marca específica de uma sociedade cristã.

As idéias éticas deste livro, que narra os primeiros 30 anos da Igreja (de 33 a 63 d.C.), são claras: “não havia entre eles necessitado algum”; tinham “um só coração e uma só alma”; dividiam tudo “entre todos, segundo as necessidades de cada um”; “tudo entre eles era comum”; e distribuíam “a cada um, segundo a sua necessidade”. Estas idéias formam o núcleo do ideal do bem comum e do que há de bom nas idéias democráticas e socialistas.

A comunhão (ou socialização) de bens não é a estatização dos bens. É, isso sim, a titularidade (o controle) pela sociedade de todos os bens, inclusive do poder, para que todos tenham os bens necessários e suficientes para uma vida digna. Deus deu os bens todos à humanidade, para que a sociedade organizasse a distribuição e o controle, de acordo com as necessidades de cada pessoa. E também para que todos controlassem os bens (pelo trabalho desalienado), como está claro no “Genêsis” (1,26-29). Os bens foram criados para que as pessoas pudessem povoar, multiplicar e controlar a terra, todos os bens. Moisés, que ouvia a voz de Deus e do povo, explicou bem estes pontos.

Os bispos católicos de todo o mundo, na “Gaudium et spes (n. 57), resumiram bem: as pessoas devem cultivar (controlar) a “terra” (os bens), controlando-a, para construírem “uma habitação digna da família humana” e, para isso, é um dever a participação consciente na vida da sociedade, sendo este o plano de Deus. “Dominar a terra e completar a criação” implica em formas de co-gestão, autogestão (comunidades “autogestionárias”, cf. Leonardo Boff, em entrevista na “Caros Amigos”, n. 3, junho de 1997, pp. 27-35), de trabalhos livres, de planificação participativa (como ensinaram Karl Manheim e Jaspers). Os bens, para que atendam às necessidades de cada pessoa, devem estar sob o controle destas mesmas pessoas (destinatários naturais dos bens), sujeitos às idéias verdadeiras de cada pessoa. Este é o conteúdo da expressão “comunhão de bens”, “bem comum”, comunhão das almas (nos bens etc) etc.

O projeto carro-chefe do catolicismo social passa pela desproletarização (de-reificação, desalienação) dos trabalhadores, para que todas as pessoas tenham pequenos bens, círculo de proteção, poder sobre pequenas porções, para não serem reificados, transformados em objetos, em robos, em marionetes. 

Foi na Bíblia que os grandes expoentes da democracia e do socialismo retiraram o sumo de suas idéias. Isto fica claro nos textos de homens como os Santos Padres, Santo Tomás Morus, Campanella (cf. “A Cidade do Sol”, 1623), Morelly, Mably, Rousseau, Babeuf, Buonarotti, o Círculo Social (com o padre Faucher e outros), o padre Jacques Roux e nos “enraivecidos”. Outras pessoas influenciadas profundamente pelas idéias cristãs foram: a antiga Liga dos Justos (baseada nos textos de Weitling, Sismondi, Lamennais e de outros autores religiosos), os cabetistas e centenas de outros autores.

Karl Marx, a partir de 1842, sintetizou idéias destas correntes cristãs e religiosas, mais antigas, esboçando sua síntese, baseada nestes antigos conteúdos, mantendo-os, como núcleo de seu ensinamento, mas dentro de termos da terminologia hegeliana e dos economistas da época. Em Marx, há boas ideias e ideias ruins. O catolicismo defende a depuração, ficamos com o bom trigo, e deixamos o joio. 

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