Arquivos para : A “Fórmula” – BABOVISTA, de Babeuf, Buonarrotti, Mably, Morelli e Morus. Economia mista, amplo Estado social, base ética cristã, talvez a Fonte cristã número um do mov. socialista

O Cristianismo foi o precursor das melhores ideias do socialismo democrático moderno.

O Cristianismo foi o precursor das melhores ideias do socialismo democrático moderno.

 O cristianismo foi o precursor do socialismo, pelo movimento do socialismo utópico, o socialismo cristão pré-marxista.

Assim, fica claro que, mesmo no bojo do socialismo marxista, há elementos cristãos, tal como há nas outras correntes socialistas.

Afinal, o precursor e o movimento subsequente têm, por força, elementos comuns e, por isso, a antecedência é considerada como precursora. O próprio “marxismo” é um conjunto de ideias misturadas, sendo as melhores, de origem cristã (vide Dussel e Miranda). 

 Por esta forma, por via oblíqua e às vezes explícita, grandes marxistas reconheceram a prioridade dos ensinamentos cristãos.

Reconheceram implicitamente que no bojo do que se chama socialismo/comunismo há uma porção de ideias cristãs, oriundas do socialismo utópico e do movimento democrático universal, quase todo movido por ideias cristãs e hebraicas.

 Um exemplo basta para provar a existência destes elementos cristãos e racionais e naturais: a máxima “a cada um de acordo com suas necessidades”, que é o princípio mais importante para Marx de uma sociedade comunista consta expressamente duas vezes no livro “Atos dos Apóstolos” (capítulos 2 e 4) como característica (princípio dirigente) que distinguia as comunidades cristãs, a marca específica de uma sociedade cristã. Vejamos os textos do livro “Atos dos Apóstolos” (2,44-45; e 4,32):

 “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (At 2,44-45);

“A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32); e

“Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um, segundo a sua necessidade”.

 A fórmula “a cada um de acordo com suas necessidades” é expressamente bíblica. Idem para “de cada um de acordo com suas capacidades” (poder). E idem para comunhão de bens, que não significa eliminar a pequena propriedade pessoal, e sim amplo setor público de apoio às pessoas, para estas, um dia, pintarem, outro plantarem e terem as ações produtivas que entenderem, nos limites do bem comum. Foram textos de Saint Simon, Luis Blanc, Weitling e outros, que estes colheram na Bíblia. 

As ideias éticas do “Atos dos Apóstolos”, que narra os primeiros 30 anos da Igreja (de 33 a 63 d.C.), são claras: “não havia entre eles necessitado algum”; tinham “um só coração e uma só alma”; dividiam tudo “entre todos, segundo as necessidades de cada um”; “tudo entre eles era comum”; e distribuíam “a cada um, segundo a sua necessidade”. Estas ideias formam o núcleo do ideal do bem comum e do que há de bom nas ideias democráticas e socialistas.

 A comunhão de bens não é a estatização dos bens, e sim a titularidade (o controle) pela sociedade de todos os bens, inclusive do poder, para que todos tenham os bens necessários e suficientes para uma vida digna. Fomos criados para sermos co criadores, co governantes, co redentores, para a divinização, por participação na natureza divina, Deus habitando em nós, como base de ótimo diálogo interno, pessoal e social. 

 Deus deu os bens todos à humanidade, para que a sociedade organizasse a distribuição e o controle, de acordo com as necessidades de cada pessoa. E para que todos controlassem os bens (pelo trabalho desalienado), como está claro no “Genesis” (1,26-29). Os bens foram criados para que as pessoas pudessem povoar, multiplicar e controlar a terra, todos os bens. Moisés, que ouvia a voz de Deus e do povo, explicou bem estes pontos.

Os dez PONTOS ESSENCIAIS da ÉTICA para uma economia humana, justa, sem miséria

Os 10 pontos essenciais

Os pontos essenciais que sugerimos para discussão, em torno desse projeto, a “Economia de Francisco”, são os seguintes:

1 – Democracia econômica: trata-se de resgatar a governança corporativa, sistemas transparentes de informação, e de gerar maior equilíbrio entre o Estado, as corporações e as organizações da sociedade civil. Não há democracia política sem democracia econômica.

2 – Democracia participativa: os processos decisórios sobre como definimos as nossas opções, como priorizamos o uso dos nossos recursos, não podem depender apenas de um voto a cada dois ou a cada quatro anos. Com sistemas adequados de informação, gestão descentralizada e ampla participação da sociedade civil organizada precisamos alcançar um outro nível de racionalidade na organização econômica e social. As novas tecnologias abrem imensos potenciais que se podem ser explorados.

3 – Taxação dos fluxos financeiros: essencial para assegurar a informação sobre os capitais especulativos, e para que os recursos financeiros possam financiar tanto a redução da desigualdade como para estimular processos produtivos sustentáveis. Na realidade os sistemas tributários no seu conjunto devem servir ao maior equilíbrio distributivo e à produtividade maior dos recursos.

4 – Renda básica universal: no quadro de uma visão geral de que algumas coisas não podem faltar a ninguém, uma forma simples e direta, em particular com as técnicas modernas de transferência, é assegurar um mínimo para cada família. Não se trata de custos, pois a dinamização do consumo simples na base da sociedade dinamiza a economia e gera o retorno correspondente.

5 – Políticas sociais de acesso universal, público e gratuito: o acesso à saúde, educação, cultura, segurança, habitação e outros itens básicos de sobrevivência devem fazer parte das prioridades absolutas. Não se trata de custos, e sim de investimentos nas pessoas, que dinamizam a produtividade e liberam recursos das famílias para outras formas de consumo.

6 – Desenvolvimento local integrado: somos populações hoje essencialmente urbanizadas, e o essencial das políticas que asseguram o bem-estar da comunidade e o manejo sustentável dos recursos naturais deve ter raízes em cada município, construindo assim o equilíbrio econômico, social e ambiental na própria base da sociedade.

7 – Sistemas financeiros como serviço público: o dinheiro que manejam os sistemas financeiros tem origem nas nossas poupanças e impostos, constituem recursos do público, e neste sentido devem responder às necessidades do desenvolvimento sustentável. Bancos públicos, bancos comunitários, cooperativas de crédito e outras soluções, como moedas virtuais diversificadas, são essenciais para que as nossas opções tenham os recursos correspondentes.

8 – Economia do conhecimento: o conhecimento hoje constitui o principal fator de produção. Sendo imaterial, e indefinidamente reproduzível, podemos gerar uma sociedade não só devidamente informada, mas com acesso universal e gratuito aos avanços tecnológicos de ponta. Temos de rever o conjunto das políticas de patentes, copyrights, royalties de diversos tipos que travam desnecessariamente o acesso aos avanços. O conhecimento é um fator de produção cujo uso, contrariamente aos bens materiais, não reduz o estoque.

9 – Democratização dos meios de comunicação: os recentes avanços do populismo de direita e a erosão dos processos democráticos mostram a que ponto o oligopólio dos meios de comunicação gera deformações insustentáveis, climas de acerbamento de divisões e aprofundamento de ódios e preconceitos. Uma sociedade informada é absolutamente essencial para o próprio funcionamento de uma economia a serviço do bem comum.

10 – Pedagogia da economia: a “economia” consiste essencialmente em regras do jogo pactuadas pela sociedade ou impostas por grupos de interesse. A democracia econômica depende vitalmente da compreensão generalizada dos mecanismos e das regras. Os currículos obscuros e falsamente científicos têm de ser substituídos por ferramentas de análise do mundo econômico real, de maneira a formar gestores competentes de uma economia voltada para o bem comum.

Democracia econômica e democracia política

Esses eixos de análise se referem essencialmente ao processo decisório, às ferramentas de governança de que a sociedade deve dispor para resgatar a funcionalidade dos sistemas econômicos. Neste sentido, são aplicáveis tanto às atividades produtivas como indústria e agricultura, como a políticas sociais como saúde e educação e assim por diante.

A Igreja ja deixou claro que a parte boa e correta do socialismo coincide com as ideias da Doutrina Social da Igreja

Na enciclica de 1879, que trata sobre socialismo, Leao XIII destacou que os socialistas usavam textos do Evangelho e da Bíblia. Na Quadragesimo anno, em 1931, Pio XI destaca que o socialismo democrático defende formulas e ideias que a Igreja defende. Depois, em 1971, Paulo VI aponta o mesmo. Vou desenvolver este ponto, amanha. 

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Há várias formas de socialismo. A Igreja só condenou alguns erros e formas. Há socialismo em boa adequação a doutrina da Igreja

A Igreja não condenou todas as formas de socialismo. Condenou algumas ideias e algumas formas concretas, sem democracia, sem difusão de bens, sem direitos civis, políticos, humanos.

Como explicou Dom Hélder, há várias formas de socialismo.

Por isso, por exemplo, no Reino Unido, a Igreja permitiu que os católicos se filiassem no Partido Trabalhista e o mesmo ocorreu em vários países, em Partidos socialistas. As formas de socialismo existentes são todas insuficientes, falhas.

A Igreja condenou o capitalismo, o imperialismo, as grandes fortunas privadas, os latifúndios.

O Grande PARASITA que representa os PARASITAS do país, os bilionários rentistas

O Brasil poderia facilmente ERRADICAR a MISÉRIA e a OLIGARQUIA, criando uma nação justa, pautada pela justiça social

O governo do Bozó quer que milhões morram sem emprego, em empregos precários, subempregados. Quer dar licença para a polícia, os ricos e os militares para matarem pobres e quer destruir o MEIO AMBIENTE, tal como DIZIMAR a Previdência e as estatais.

Eduardo Bolsonaro prega DESMATAMENTO e DESTRUIÇÃO AMBIENTAL, citando o livro asqueroso, “Psicose ambientalista”, de Dom Bertrand, da antiga horrorosa TPF.

O Ministério da Agricultura libera agrotóxicos a cada dia ou semana e a dezenas, para ampliar o envenenamento das pessoas. Já LIBEROU 161 agrotóxicos, só nestes 4 meses. Os agrotóxicos vão competir com o número de laranjas…

Um outro decreto, liberou até FUZIS para que as milícias possam ter ferramentas para suas operações, como a morte de Marielle…

Bilhões ou trilhões de abelhas são mortas, pelo sulfoxaflor, liberado pelo bozó, dizimando nossos apicultores, nossa agricultura. O doido nem sabe a densidade demográfica no Brasil em relação a Europa.

Os bozós são defendidos por pessoas horríveis, como Luciano Hang, Ratinho, Sílvio Santos, Datena, Luciana Gimenez, Renata Alves, Ana Hickmann, Rodrigo Faro e outros, que ganham milhões para defender a destruição da PREVIDÊNCIA SOCIAL.

O bozó aumentou e aumenta a gasolina, o álcool e o diesel, e quase todos os dias, tendo a gasolina em cerca de cinco reais. O gás de cozinha chega a uns 80 reais, em alguns lugares, 90 reais ou mais. E o bozó quer aumentar a energia elétrica em 50%, para matar o resto do povo. 

As pessoas de que gosto são gente como Marielle (morta, tudo indica, pelo vizinho de Bozó…), Haddad, Boulos, Marcelo Freixo, Manuela, Frei Anastácio, padre João de MG, padre Luiz Couto, Stédile, Frei Betto, Oliver Stone, Maria do Rosário, José Guimarães, Cynara Menezes, Luiz Nassif, Bob Fernandes, Marcelo Auler e outros.

Pesquisa Gallup diz, recentemente, que 40% das pessoas do EUA aceitam o socialismo democrático (“four in 10 Americans embrace socialism, Gallup poll says, ponto que colhi nos sites de apoio do excelente Sanders, nos EUA).

No Reino Unido, Jeremy Corbin é minha esperança maior.

No orçamento de 2019, no Brasil, mais de 40 % foi para os rentistas, cerca de CINCO MIL FAMÍLIAS ULTRA RICAS RENTISTAS, no total de R$ 1,065 trilhões de reais, 40,66%. A Bolsa Família só gasta uns 30 bilhões. Ou seja, um trilhão para cinco mil famílias ricas, ultra ricas, e 30 bilhões para 54 milhões de pessoas pobres. E tem ricos que chamam estes pobres de vagabundos e parasitas, o que é CINISMO PANTAGRUÉLICO. 

A Previdência que ajuda dezenas de milhões gasta apenas 24,48%.

Saúde, apenas 4%. Educação, apenas 3,6%.  Assistência Social, 3,2%. Já a Defesa Nacional, as 3 Forças, 2,57.

A Administração custa apenas 1,04%, quase nada. Do total das rendas da União, cerca de 10% voltam para os Estados membros e Municípios, 9,82%. 

Só na propaganda FALSA da “reforma” (destruição) da Previdência, foram gastos cerca de 250 mihões ou mais, de Temer ao Bozó. E este corta recursos para a educação, mas paga o Ratinho, a Globo, a Record, o SBT, Datena e outras pragas para fazer propaganda do Projeto de PEC GENOCIDA.

O Bozó insulta a religião, usando pastores milionários, tal como maculando o nome de Maria, Imaculada Conceição, coisas que são asquerosas, pois está usando do sentimento religioso das pessoas para manipular, e veicular leis e medidas iníquas. 

 

A religião, toda religião verdadeira, exige a construção de um amplo Estado socialista, Providência, protetor do Trabalho, das Pessoas

A Igreja sempre teve uma teoria (conjunto de ideias para explicar) DEMOCRÁTICA POPULAR, socialista democrática, TRABALHISTA, sobre o poder, o Estado. Uma teoria chamada da mediação popular ou da translação, que é a teoria da Paidéia.

Esta teoria-concepção democrática popular, SOCIALISTA DEMOCRÁTICA, foi sempre a teoria (concepção) mais acatada pelos Doutores da Igreja e pelos grandes teólogos

A teoria mais adotada na Igreja (por leigos, clero e expoentes), ao longo dos séculos, foi a teoria jusnaturalista da mediação popular, que teve sua melhor formulação nos textos de São Roberto Bellarmino, um dos 33 Doutores da Igreja.

Os livros de Rommen, sobre o Estado e o direito natural, demonstram bem esta tese. Esta era a teoria dos Santos Padres, com base na Bíblia e nos textos de Aristóteles, Cícero e outros.

A segunda teoria mais acatada por teólogos, a teoria da designação, com fundamentação jusnaturalista e racional, tem praticamente o mesmo conteúdo da teoria da translação, pois são teorias jusnaturalistas e pautadas pelo bem comum, pelo bem do povo.

Nas duas teorias, o poder e os direitos positivos devem ser limitados e pautados pelo direito natural do povo, ou seja, pelas idéias e necessidades (aspirações, projetos, ideias, sonhos, imaginações, desejos…) da sociedade, tendo a sociedade o direito de escolher os agentes públicos, as estruturas e de depor agentes públicos corrompidos, que atentem contra o bem comum.

A teoria mais tradicional, no entanto, é a teoria da translação, que é a teoria da Paidéia (de Sófocles, Protágoras, Aristóteles, Péricles e outros) e dos Santos Padres. Como expliquei, as duas teorias têm um fundo socialista.

As duas teorias visam a criação de um amplo Estado social, tal como um Estado Mundial, com Uniões Continentais como mediações. Por isso, os melhores textos de Platão são socialistas, tal como os melhores textos de Moisés, de Aristóteles e dos Estoicos. 

O padre dominicano Lacordaire também interpretou as idéias de Santo Tomás na linha de Morus, Juan Luís Vives (1492-1540), Frei Francisco de Vitória (1483-1546), Domingos las Casas (1484-1566), Luiz de Molina (1535-1600), Francisco Suárez (1548-1617), João de Lugo (1583-1660) e dos grandes juristas e teólogos da 1ª. e 2ª.Escolástica.

Esta linha foi adotada por milhares de juristas e escritores, inclusive Luiz Vaz de Camões e Bartolomeu Las Casas (1470-1576), o bispo de Chiapas.

Outra estrela de primeira ordem é o padre Juan de Miranda (1537-1623), autor de obras como “De mutatione Monetae” (1601, onde explica que a moeda deve estar sob o controle do povo), “Do rei e da instituição real” (1598), “História geral da Espanha”, “Tratado contra os jogos públicos” e outras.

Os textos de Mariana seguiam a linha humanista e socializante do catolicismo.

Joaquín Costa, no livro “Colectivismo agrario en España”, elogia Mariana. Os textos de Antônio Nebrija também trazem forte apologia da Paidéia.

A interpretação correta do tomismo foi feita por Vitória, Suárez e Bellarmino e é democrática e participativa (popular), como também demonstrou Maritain e Alceu Amoroso Lima.

Foi esta a linha correta durante a Resistência Francesa, onde católicos marcharam ao lado de socialistas e mesmo comunistas contra o nazismo. O tomismo influenciou inclusive bispos anglicanos, como pode ser visto nos livros do bispo de Oxford, Kenneth Kirk (1886-1954), em obras como “Alguns problemas de teologia moral” (1920).

Há as mesmas teses pró-democracia social, pró socialismo democrático trabalhista, nos textos de Karl Rahner (1904-1984), tal como em grandes expoentes como: Alceu Amoroso Lima, Plínio de Arruda Sampaio; Frei Betto; Francisco Whitaker; o padre Louis Joseph Lebret (1897-1966); o padre Houtard (de Louvain); Monsenhor Pavan; o padre Loew; Desroches; Haubtmann; Suavet; Marcel Barbu; Gatheron; o padre Riquet; Jean Guitton (1901-1999), o padre dominicano Joseph Vincent Ducatillon (elogiado por Prestes e por Benjamin Vargas, lá por 1944); o cardeal Frings; o padre Arrupe; o Cardeal Lercaro; o cardeal Suhard; o cardeal Suenens; o cardeal Köenig; o Cardeal Charles Journet; o cardeal Jean Daniélou; o Cardeal Carlo Maria Martini; Dom Oscar Romero (assassinado em 2405.1980); Dom Hélder; o Cardeal Jean-Marie Lustiger (1927-2007, arcebispo de Paris, judeu convertido); e milhões de leigos, especialmente os ligados ao comunitarismo de Mounier.

Outro grande nome foi Monsenhor Méndez Arceo, no México. Há ainda autores como Christopher Dawson, que mostram a tendência democrática na Igreja.

O ideal da democracia social, do SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, também está presente nos textos do cardeal John Courtney Murray (1904-1967), tal como no pensamento de estrelas como: o Cardeal Suenens, que foi Primaz da Bélgica; o Cardeal Dopfner; o abade Pierre; o padre Luigi Sturzo (1871-1959); o beato Pedro Jorge Frassati (antifascista); o padre Chaillet; Yves Congar (1904-1995); Cardonnel; Bernanos; François Mauriac; Graham Greene; Luiz Pinto Ferreira (católico e socialista); o cardeal Joseph Elmer Ritter (1892-1967, que combateu o racismo nos EUA); o cardeal Ernesto Ruffini (1888-1967); João XXIII; Bernhard Haring (1912-1998); Ada Maria Isasi-Díaz (n. 1943); Marciano Vidal; padre Camilo Torres (morto em 16.02.1966); padre Manuel Peréz Martinez (1943-1998, chefe da ELN, na Colômbia); o padre Giulio Girardi, do movimento “Cristãos pelo socialismo”, na Itália; Luiz Alberto Gomez de Souza; Cândido Antônio Marques de Almeida e milhares de outros expoentes do catolicismo.

Estes pontos sempre foram ensinados no jornal “La Croix”, diário católico francês; na revista “Études”, dirigida pelos jesuíts; no “Le Figaro”; “Le Matin”; em “L´Etoile Belge”; “Razón y Fe”; no “Osservatore Romano”; em “Civitta Cattolica”; “Ciencia Tomista”; “Vita e Pensiero”; “Estudios Franciscanos”; na “Revista Eclesiástica”, em dezenas de jornais e revistas católicas no Brasil; e em outras fontes múltiplas do pensamento católico.

No Brasil, esta foi a linha da Ação Católica, inspirada em Maritain e em Alceu Amoroso Lima. O ideal de uma democracia popular-social participativa, SOCIALISMO COOPERATIVISTA PARTICIPATIVO, era também o ideal do jornal “Brasil, Urgente”, tal como da revista “Síntese” (tenho todos os números, dirigida pelo padre Fernando Bastos de Ávila).

O texto da Campanha da Fraternidade, da CNBB, de 1996, tem o título: “Justiça e paz se abraçarão” (São Paulo, Ed. Salesiana Dom Bosco, 1996). Este texto repete as mesmas idéias fundamentais da concepção democrática cristã, que postula uma democracia não-capitalista, não-latifundiária, sem oligarquias, sem imperialismo etc.

Este documento cita, como “modelos” a serem seguidos, expoentes como “Alceu Amoroso Lima”, “Santo Dias da Silva” e “Margarida Alves”.

Uma das grandes estrelas democráticas do catolicismo brasileiro foi o padre Júlio Maria.

Este, tal como o Cardeal Sebastião Leme, sempre incentivou a participação ativa dos católicos no poder público, para tornar o poder público algo ético, racional e conforme ao bem de todos. Houve a mesma idéia na participação de grandes sacerdotes na vida política, como pode ser visto nos exemplos de Padre Cícero, Padre Ibiapina, Frei Caneca, Padre Francisco Lage, Padre Hugo Paiva, Padre Ezequiel Ramin, Padre Gabriel, Padre Josimo, Dom Oscar Romero e até mesmo Dom Aquino Correia.

A concepção cristã sobre o poder é, no fundo, bem simples: a liberdade natural, o livre arbítrio, é natural e boa, quando age naturalmente (de forma adequada à razão e ao bem comum), pois a liberdade (tal como o poder) decorre da razão, da consciência, que é feita à imagem da Consciência divina, movendo-se sempre pelo ideal do bem comum (causa final da sociedade). A liberdade só existe com AJUDA ESTATAL, com a ajuda de um AMPLO ESTADO POPULAR, SOCIALISTA, PROTETOR, um ESTADO PROVIDÊNCIA, um Estado à imagem de Deus, da Comunhão, um Estado COMUNHÃO, socialista democrático. 

Estes pontos foi bem destacados por São Francisco de Assis, Abelardo, Roberto Grosseteste (1175-1253, bispo de Lincoln, tradutor de Aristóteles, do Pseudo-Dionísio e um dos fundadores da Escola de Oxford), Santo Alberto Magno (1200-1280), Tomás de Aquino, Roger Bacon, os probabilistas, molinistas, São Francisco de Sales (1567-1622), São Vicente de Paulo e outros.

São Francisco de Sales é um dos 33 Doutores da Igreja e deixou 21.000 cartas, 4.000 sermões e obras geniais como “Tratado do amor de Deus” e “Filotéia”. Seus textos sobre o Estado, o poder público e as leis deixam claro o fundo jusnaturalista, ligado à Tradição e à Paidéia.

A liberdade natural e a relação desta com a razão e com o bem comum foi um dos pontos principais destacados no Concílio de Trento e no Renascimento. Consta claramente no livro de Erasmo de Rotterdam, “Do livre arbítrio”, inspirado nos livros com o mesmo título de Orígenes e de Santo Agostinho. Afinal, a natureza humana (especialmente a razão) é uma criação divina e artística do próprio Deus, que criou nossa consciência (espírito, com as duas faculdades centrais da inteligência e da vontade livre) á Sua imagem e semelhança, ou seja, para mover-se pelo ideal racional do bem comum. Como toda faculdade humana, se a liberdade natural foi exercida de forma irracional e contrária ao bem comum, ela, aos poucos, se extingue, corrompe-se.

A liberdade pessoal, como destacava Lacordaire, requer um conjunto básico de bens materiais, cuja difusão constitui parte essencial, intrinsecamente boa, do conceito de “bem comum”, que abarca o bem pessoal, familiar e social.

A lição de Santo Tomás de Aquino foi reprisada por Pio XI, na “Quadragésimo anno” (n. 82): os bens “devem ser abundantes para satisfazer às necessidades de uma honesta subsistência e para elevar as pessoas a um grau de cultura que, usada sabiamente [de forma racional], não é um obstáculo à virtude, e sim facilita singularmente o exercício” das virtudes, das boas obras, racionais e adequadas ao bem comum.

A ação natural da razão é correlata com o bem comum (geral). Afinal, a razão foi criada por Deus para ser nosso lume natural, nosso caminho (“tao”, “caminho”, “verdade”, “vida”), para a felicidade pessoal e social (comunhão).

Abreviando, o bem comum é a causa final do universo, da sociedade e o ideal que é a essência do Plano de Deus, pois a essência divina é o Amor (cf. Jo 4,8), a Bondade (de “bonitas”, “bonus”, “bom”), a Misericórdia, a Caridade, o ideal do bem comum. Como explicou João XXIII, na “Pacem in terris”, “a própria razão de ser dos poderes públicos” é “a realização do bem comum”.

Os “poderes públicos” devem “promovê-lo” nos “elementos essenciais” e de forma adaptada com “as exigências” das “atuais condições históricas”. Os “filhos da luz” (Ef 5,8) devem primar no caminho da “bondade, justiça e verdade” (Ef 5,9), ou seja, na difusão do bem para todos, do bem comum.

João XXIII repetia a lição de Leão XIII, dos Santos Padres e de Aristóteles: o poder legítimo, “a autoridade civil”, foi “constituída para o bem comum de todos”. Este é o critério central de legitimação, de justificação do poder, da sociedade e mesmo de cada pessoa, o que mostra a relação da teoria de justificação da graça com a doutrina social da Igreja sobre o poder.

João Paulo II, na Favela do Vidigal (n. 19), repetiu a lição, dizendo: “a Igreja dos pobres” prega a “nobre luta pela verdade e pela justiça”, a “batalha pelo bem verdadeiro”, a “nobre luta a favor da justiça social” (cf. “Discurso aos operários em São Paulo, 8 e 9).

Os cristãos primitivos, diante do poder, só obedeciam às leis justas, às leis racionais e adequadas ao bem comum. As leis iníquas eram desobedecidas.

Esta postura jusnaturalista, racional e santa foi bem explicitada pelos Mártires, seguindo a linha de Isaías, que também morreu mártir, tendo sido serrado. Isaías ensinou: “ai dos que constituem leis iníquas” (cf. Is 10,1), explicitando o fundo jusnaturalismo da Bíblia.

Nesta linha tradicional, Pio IX, na “Quod nunquam” (05.02.1875), neste sentido, declarou que as leis da “Kulturkampf”, de Bismarck, eram nulas e irrítas. Paulo III, em 1537, disse o mesmo sobre as leis que previam a escravidão dos indígenas.

São Pedro e São Paulo ensinaram que o poder racional e conforme ao bem comum vem de Deus, faz parte do Plano de Deus. No entanto, quando o poder explicita regras não-racionais e não-condizentes com o bem comum (iníquas), devemos desobedecer, pois as regras iníquas não são racionais e ferem a consciência.

As palavras e a prática de Cristo são exemplos claros desta doutrina. Cristo cumpre as leis positivas justas, interpreta-as conforme ao bem comum e não obedece às leis irracionais e não condizentes com o bem comum.

Sobre estes pontos, como abonação, há vários textos de Engels e Marx (vide carta a Domela, 1881, sendo Domela um ex-pastor). Também é importante a leitura dos textos sobre a Igreja e o socialismo, de autoria de Rosa de Luxemburgo, Karl Kautsky (“Origens do cristianismo”, 1908), Anatoli Lunatcharski (“Religião e socialismo”) e outros. Há, ainda, a abonação de Lenin, em sua obra principal, “O Estado e a revolução”, onde Lenin menciona o “espírito democrático” do cristianismo primitivo.

Outro autor marxista que escreveu sobre a relação do cristianismo com o socialismo foi Auguste Bebel (1840-1913). Bebel, no livro “Cristianismo e socialismo”, escreveu que “o socialismo é a doutrina” que “deseja, de verdade, aplicar à vida as leis morais que durante dezoito séculos utilizou a Igreja unicamente como rótulo”.

Em outras palavras, o socialismo adota, na visão de Bebel, a ética cristã, da Igreja.

Além destes autores, também vale à pena a leitura de Ernest Troeltsch (1865-1923), “As doutrinas sociais das Igrejas cristãs” (1911). Vladimir Soloviev e Nicolau Berdiaef (1874-1948) também destacaram que, no socialismo, há uma parte boa, uma parte boa, oriunda do cristianismo, da Bíblia e da Paidéia.

Berdiaef tentou conciliar o anseio de justiça social com a liberdade humana, comunitarismo e personalismo, socialização com personalização. Berdiaef recebeu o doutoramento “honoris causa” pela Universidade de Cambridge.

São Roberto Bellarmino (1542-1621) foi o teólogo do Papa Clemente VIII, Cardeal e Arcebisppo de Cápua. Foi canonizado em 1930 e declarado Doutor da Igreja, em 1931. Em sua explicação tomista sobre o poder, também adotava a teoria tradicional da translação. Esta teoria, tal como a teoria da “designação”, parte da premissa fundamental da isonomia ou igualdade jurídica de todas as pessoas. A igualdade da natureza humana é uma premissa jusnaturalista. Por esta premissa, Deus “não deu o poder a nenhum homem em particular; e sim à comunidade” (cf. o livro “De Laiciis”, I, III, c. VI).

Bellarmino foi declarado santo e é um dos 33 Doutores da Igreja. Pois bem, Bellarmino apenas reprisava as idéias bíblicas e da Paidéia sobre o poder, teoria já exposta pelo Cardeal Cajetano, em 1512; e por Francisco de Vitória, em 1528, no livro “Do poder civil”. Vitória também escreveu “Relectiones Theologicae”, abordando a origem e fim do poder.

Num parêntese, o Cardeal Tomás Vio de Cajetano (1468-1534, também se escreve Caetano, em Portugal) era italiano, dominicano e ensinou em Pádua. A obra mais importante do Cardeal Cajetano foi o comentário à “Suma Teológica” de Aquino, comentário elogiado por Leão XIII, que mandou incluir o comentário na edição oficial da “Suma Teológica” de Aquino. O Cardeal Cajetano deixou mais de cem livros, indlusive sobre economia (a lista está no “Dictionnaire de Théologie Catholique”). Cajetano foi Geral dos Dominicanos e teve participação na lide contra os luteranos.

Para a maior parte dos grandes teólogos, a teoria da transmissão (da translação, da mediação) exposta por Suárez e por Bellarmino é a teoria tradicional, a mais difundida entre os fiéis e esposada pelos grandes escritores e Doutores da Igreja; Para abonar este ponto, há textos marcantes de Santo Ambrósio (333-397), São Basílio Magno (330-379), São Jerônimo, Santo Agostinho (adotando a teoria sobre o poder, de Cícero e dos grandes juristas gregos e romanos), São Pedro Crisólogo (406-450), São Valeriano, São Salviano, São Leão Magno, São Máximo de Turim, São Gregório Magno (540-604), São João Crisóstomo, São Isidoro de Sevilha (560-636), Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, São Afonso de Ligório e milhares de outros autores.

Tradicionalmente, os quatro grandes Doutores, aceitos inclusive pelos anglicanos, foram arrolados por Bento XIV, no documento “De Servorum Dei Beatificatione” (IV) e são: Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Gregório, o Grande.

Leão XIII, na “Aeterni Patris” (n. 42), também lista “os sumos doutores da Igreja: Gregório, Ambrósio, Agostinho e Jerônimo”, destacando que a Santo Tomás de Aquino é devido “as mesmas honras que são tributadas aos sumos doutores da Igreja”. Estes quatro Doutores acolheram a teoria política de Cícero e de Aristóteles.

Adotaram as idéias jurídicas e políticas de Cícero (baseadas no melhor do estoicismo, de Aristóteles, Platão e da tradição romana) por expressarem o melhor da Paidéia e coincidirem com as idéias bíblicas.

A importância de Cícero está no fato deste resumir, em bons textos, a teoria política da Paidéia. Em outros termos, a teoria democrática, defendida por Hesíodo, Sófocles, Protágoras, Aristóteles, Górgias, Isócrates, Sófocles, Péricles, Clístenes e outros grandes expoentes da cultura grega-romana.

São João Crisóstomo também explicou que a frase de São Paulo, “todo poder vem de Deus” não se aplica aos “governantes particulares”, “mas ao governar” em sentido abstrato, especialmente à importância de boas regras objetivas, racionais e sociais para assegurar e promover o bem comum. Assim, é uma “disposição da Sabedoria divina que haja autoridade”, que “não se deixe ao acaso” os atos humanos. Os atos humanos devem ser ordenados racionalmente e de acordo com o bem de todos. Há a mesma doutrina em Santo Isidoro de Sevilha, em Lactâncio (no livro “Instituições divinas”), em Arnóbio, tal como, antes, em São Justino e São Clemente de Alexandria.

Bento XVI chamou São João Crisóstomos de “grande pai da doutrina social da Igreja” (discurso em 08.10.2008), porque propôs “o modelo da Igreja primitiva” (exposta em Atos dos Apóstolos) “como modelo da sociedade, desenvolvendo uma utopia social”.

Crisóstomo deixou claro, nas palavras de Bento XVI, “que não era suficiente dar esmolas, ajudar os pobres, caso por caso; era necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade.. baseado na visão do Novo Testamento”. Uma “polis” de irmãos, reformando a “polis” grega, onde “vastos setores da população estavam excluídos do direito à cidadania”. Na “cidade cristã”, “todos são irmãos com os mesmos direitos”, sendo este o “plano” de “Deus para a humanidade”, dado que “Deus ama a cada um de nós com um amor infinito e, por isso, quer a salvação [o bem, a libertação, vida plena] de todos”.

O plano de Deus é realizar o bem comum.

O livro “Atos dos Apóstolos” (vide 2,44; e 4,32) prevê claramente a destinação universal dos bens para atender às necessidades pessoais e sociais (“a cada um de acordo com suas necessidades”, para não haver mais “necessitados”).

O livro “Atos dos Apóstolos” foi o livro que influenciou o movimento socialista, especialmente a Liga dos Justos, precursora da Liga dos Comunistas, onde Marx aprendeu boa parte de seu “credo”.

As idéias (regras) práticas sociais e racionais exigidas pelo bem comum refletem (são como que imagens, tal somos feitos à imagem divina), nos limites e no modo humano, a “lei eterna” (as idéias, a vontade, o Projeto de Deus), formando o que se convencionou chamar de “lei natural”, “lei moral”, “honestidade”, “justiça”, “direito natural” etc.

O “direito natural” é formado pelo conjunto das consciências (do conteúdo destas) em interação constante (pela via unitiva do diálogo), constituindo um conjunto de regras (ideias, palavras, imagens) práticas e racionais (uma constituição natural e social) para pautar a vida pessoal e social, visando o bem comum (pessoal, familiar e social).

Nas palavras de Santo Tomás, toda lei positiva, todo ato estatal, deve ser “ordenação” (ordenamento, ordem, preceito, organização, estrutura, regras) “racional” (razão experimental, cf. concepção aristotélica) “para o bem comum”, “promulgada” (explicitada) pela “comunidade” ou pelos que “fazem às vezes da sociedade”.

Em bom latim, “ordinatio rationis ad bonum commune ab eo qui curam habet communitatis promulgata” (organização racional em prol do bem comum, nascida dos que cuidam, dos representes da sociedade, promulgada pelos representantes do povo). Esta definição de lei, como destacou Canotilho, é uma concepção democrática, que destaca o processo de nomogênese social, pelo diálogo, visando o bem comum.

Conclusão: “lei natural” ou “lei racional”, que reside na consciência das pessoas, em termos políticos, significa o mesmo que a proposição “a soberania reside na sociedade”, no povo, como foi ensinado por Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Suárez, Bellarmino, Locke, Rousseau, Mably e milhares e milhares de outros autores.

Paul Lafargue tinha razão: a jornada de trabalho deveria ser reduzida a três horas por dia. Isso basta e sobra para a produção de bens para todos

Recomendo o livro “Estatais”, de Alessandro Octaviani e Irene Patrícia Nohara, defendendo as ESTATAIS como VITAIS e ESSENCIAIS para a SOBERANIA POPULAR E NACIONAL, para que o POVO controle o Estado e a economia, sua própria vida…

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Gramsci também mostrou os pontos comuns entre Cristianismo, socialismo e democracia.

Gramsci descreveu a reaproximação da Igreja com o socialismo democrático e participativo

Gramsci, ao comentar a encíclica “Pascendi” de Pio X, reconheceu que Pio X “não combate… o pensamento moderno como tal”.

Não, Pio X, na análise de Gramsci, “fulminou o modernismo como tendência reformadora da Igreja e da religião católica, mas desenvolveu o popularismo, ou seja, a base econômico-social do modernismo, e fez dele, hoje, com Pio XI, o ponto de apoio de sua estrutura mundial”.

O que Gramsci chamou de “popularismo” (no fundo, populismo, ênfase no povo) é justamente a base do movimento social da Igreja, bem nítido na Ação Católica.

Trata-se da continuidade da linha histórica luminosa da Igreja, do rio da vida, especialmente na forma como a Igreja acolheu e participou na Revolução Francesa com os leigos católicos e parte dos Bispos, com a Concordata com Napoleão, e nas Revoluções de 1830 e 1848, com o apoio de Pio XI.

Depois, houve o reforço deste movimento com os textos brilhantes de Leão XIII, elogiados por Eça de Queiroz, Rui Barbosa e outros.

Para Gramsci, o “modernismo” era uma corrente complexa, com duas tendências principais: uma “social” e outra “científico-religiosa”.

Gramsci constatou corretamente que a Igreja aceitou a tendência “político-social que tendia a aproximar a Igreja das classes populares, portanto favorável ao socialismo reformista e à democracia”.

Esta tendência “político-social” era a retomada dos textos de grandes católicos do movimento iluminista católico e cristão.

Era a continuação da linha de Cristo, dos Santos Padres, dos Doutores da Igreja, de Morus, Suarez, Bellarmino, de Montesquieu, Mably, do padre Sieyes, do bispo Gregório, do Cardeal Consalvi, de Lamennais, Buchez, Ozanam, Tocqueville, Lacordaire e outros.

Na Itália, esta tendência explicita-se nos textos de Toniolo e no partido popular de Sturzo, que o próprio Gramsci reconhece que tem raízes no “neo-guelfismo antes de 1848”, tendo como expoentes o padre Gioberti, Rômulo Murri e a corrente da “democracia cristã”.

Manzoni, Gioberti, César Cantu, Carlo Cattaneo e centenas de outros autores (o próprio Cavour) precederam e prepararam a linha democrática e socializante de Romolo Murri-Luigi Sturzo.

Esta linha foi sucedida por Giorgio La Pira, Giuseppe Dossetti. Estes dois juristas participaram da Constituinte italiana, de 1946, tendo bons diálogos com Togliatti. Com Aldo Moro, esta tendência reforçou-se, buscando coligações com os partidos comunistas democráticos. Hoje, está presente no Partido Margarita, o Partido Democrático, que une católicos, socialistas e comunistas do antigo PCI.

Na França, esta tendência está ligada a Lamennais, Buchez, aos grandes românticos e depois retoma com elos como Charles Renouvier (1815-1903, no livro “O personalismo”, 1903), Marc Sangnier, Maritain, o personalismo de Mounier (1905-1950) e Lacroix.

Mais tarde, fica presente na presença e mesmo liderança católica na Resistência Francesa. Continua nos melhores textos de De Gaulle e, depois, na presença católica no Partido Socialista Francês.

Foi esta linha democrática e socializante que levou a coligações com os socialistas italianos especialmente a partir da segunda Guerra e depois de 1961.

Com Aldo Moro, houve mesmo a chance de uma coligação com os comunistas italianos, inspirados em Gramsci, Togliatti e outros defensores da política de mãos estendidas.

Norberto Bobbio, no livro “Teoria geral da política” (Rio de Janeiro, Ed. Elsevier, 2000, p. 335), mostra que estes autores católicos “partilhavam com os socialistas da oposição entre sociedade civil e Estado e da defesa da primeira [da sociedade] contra o segundo”, o que abona a proximidade entre socialistas democráticos e catolicismo.

Para Gramsci, a outra tendência do modernismo foi a “científico-religiosa”, com idéias sobre os dogmas, a “crítica histórica” etc. Foi esta principalmente a tendência perseguida mesmo por Pio X.

Mesmo em seu pontificado, de Pio X, com tantos pontos que um Alceu soube criticar, houve o aprofundamento do que Gramsci chamou de “popularismo”, mesclado com nacionalismo (intrinsecamente ligado ao romantismo e ao movimento democrático), especialmente nas antigas colônias, com os intelectuais nativos, gerando uma onda “nacionalista católica”.

Gramsci destacou, para provar sua análise, a aliança informal entre católicos e radicais com Herriot, em 1926, com a figura do “radical católico”.

Gramsci ressalta que estes movimentos coincidem com a condenação pelo Papa, em 1926, da Ação Francesa, de Maurras.

Edouard Herriot (1872-1943), amigo de João XXIII, foi Ministro das Obras Públicas no governo de Briand e organizou um “Cartel das Esquerdas”, em 1924. Participou da Frente Popular ligada a Blum, lá por 1936. Escreveu o livro “Os Estados Unidos da Europa”.

Na Bélgica, os bispos católicos redigiram, em 18.08.1925, uma carta coletiva aprovando a coaliação entre católicos e socialistas num gabinete ministerial.

Os bispos católicos da Inglaterra, da Suiça, da Áustria e de outros países seguiram a mesma linha de reaproximação, ratificando o movimento que já ocorria com marcos como o solidarismo, o socialismo de cátedra, no final do século XIX; e, antes, com o socialismo utópico e as lutas pela democracia.

Em 1926, houve também um bom discurso de Pio XI, no 35º aniversário da “Rerum novarum”, onde este Papa lembra que:

“os elementos sociais” [são mutáveis, especialmente as formas de] “organização da produção” [o mesmo raciocínio vale para as formas de poder, desde] “o trabalho primitivo da Idade da Pedra até” [às grandes unidades produtivas e isso vale para as demais] “instituições humanas, que não são perfeitas na sua totalidade, mas antes necessariamente imperfeitas e susceptíveis de mudanças”.

A análise histórica e sociológica de Gramsci estava corretíssima.

Tanto é verdade que Léon Bourgeois, que foi primeiro-ministro da França, o primeiro do partido radical, seguiu os passos de Charles Renouvier, na obra “Ciência da moral” (1869), com base no solidarismo, uma forma de socialismo democrático, que teve o apoio de Mounier e outros.

Na Espanha, os socialistas da Frente Popular eram liderados por políticos não-ateus e a Frente Popular teve o apoio de Maritain e outros expoentes do catolicismo.

A guerra civil espanhola teve excessos violentos praticados pelas duas partes e não deve ser confundida com os ideais republicanos anteriores.

Renouvier (1815-1903) foi um grande republicano cristão. Teve o mérito de ter sido um dos principais ideólogos da III República.

Como Gaetano Mosca e Bouthoul reconheceram, Renouvier “exerceu grande influência sobre os primeiros dirigentes da Terceira República”. Renouvier tinha como ideário, idéias como: “a lei moral está em todos porque está em cada um”, é “universal porque é eminentemente particular e inegavelmente própria e constitutiva de cada consciência”.

Renouvier defendia um “socialismo bastante extenso, mas que respeita escrupulosamente a liberdade e a autonomia dos indivíduos” (cf. Mosca, no livro “História das doutrinas políticas”, p. 370), defendendo uma República democrática e social. Seus textos também mereciam figurar em manuais da teologia da libertação nas CEBs e paróquias.

Os textos de Léon Bourgeois, como o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçaram uma forma de socialismo democrático. Bourgeois chamou esta forma de “solidarismo”, unindo, numa síntese o melhor do pensamento democrático e socialista.

O solidarismo é um socialismo humanista, com liberdade. Bourgeois escreveu obras conjuntas com outros autores da mesma linha. Por exemplo, o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade”, 1902, que tem textos de Charles Gide (1847-1932), Boutroux, Croiset e outros.

Nestes autores, há uma tentativa de síntese entre socialismo e democracia e parte expressiva concilia estas sínteses com o apreço ou o respeito à religião. denominou de “solidarismo”, unindo, numa saio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçam um forma de socialismo.

Gramsci lembra que vários católicos aceitaram “fazer parte do Gabinete de unidade nacional de Herriot” e que “também aceitara colaborar com Herriot o chefe do grupo católico parlamentar francês, formado pouco antes. Estes católicos organizaram a Semana Social de Nancy de 1927”.

Esta Semana, no documento final, teve “conclusões favoráveis a uma maior participação feminina na vida política” e estas conclusões “foram aprovadas pelo Cardeal Gasparri, em nome de Pio IX” (ver estes textos no livro de Gramsci, “Cadernos do cárcere”, vol. IV, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2001, p. 195).

Gramsci constatou corretamente que entre os integristas e os modernistas, o Papa moveu-se numa linha média, a dos “jesuítas”. Também apontou que a aliança informal com os radicais de Herriot era a mesma do Partido Popular do padre Luigi Sturzo, na Itália e em parte a linha do Partido do Centro (basta ver Luís Windthorst, elogiado por Pio X, em 12.07.1912), na Alemanha. Na Bélgica, havia o mesmo movimento.

Conclusão: com Pio XI, especialmente com a mediação da Ação Católica (liderada, no Brasil, por Alceu Amoroso Lima, da linha de Maritain), vence a linha média, esposada pelos jesuítas e outros expoentes.

Gramsci constatou que “os jesuítas foram, indubitavelmente, os maiores artífices deste equilíbrio e, para conservá-los, eles imprimiram à Igreja um movimento progressivo que tende a satisfazer parcialmente as exigências da ciência e da filosofia”.

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