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As ideias mais importantes do socialismo têm origem em grandes Católicos, na Igreja Católica

A “doutrina social” da Igreja, desde o início da formulação mais moderna, que apenas reprisa o melhor da Bíblia e da Paideia, exposta por autores como Mably, o bispo Gregório, Lamennais, Buchez e Keteller, tem conteúdos semelhantes com a teologia da libertação

O termo “socialismo” nasceu nos meios religiosos italianos, lá por 1820. Nasceu em repúdio às ideias liberais de Adam Smith, Ricardo, dos Fisiocratas etc, ideias que atacam a doutrina tradicional da Igreja, defendendo o individualismo, o capitalismo. 

Depois, foi ressuscitado por alguns owenistas religiosos, em 1827. Também foi a linha de Saint-Simon, a linha de um socialismo inspirado nas idéias cristãs, expostas em seu último livro de cristianismo social.

Frise-se: Owen, Saint Simon, Fourier e outros eram profundamente religiosos, tal como era a Liga dos Justos, que Marx apenas deu sequência, pois a antiga Liga, chefiada por Weitling, e mesmo antes de Weitling, seguia as ideias de Lamennais, um padre católico. 

Pierre Leroux (1798-1871) continuou a linha de Saint-Simon, tendo, em paralelo, a ação de homens como Buchez e Etienne Cabet, que foram grandes cristãos.

Leroux, católico e com boa religiosidade, foi o principal divulgador do termo, usando-o a partir de 1832.

Os seguidores de Fourier também passaram a usar esta palavra, para se autodenominarem, especialmente Victor Considerant (cujos textos cristãos mereceriam ser reunidos para serem lidos nas CEBs).

Owen consagrou o termo “socialismo” em 1841.

Os livros de Owen são éticos e têm um fundo religioso, especialmente seus primeiros e últimos textos, de utopia social e religiosa. O mesmo ocorre com Considerant, Leroux e Fourier. Há o mesmo no melhor do iluminismo, basta pensar em Mably, Montesquieu, Morelly, o padre Raynal e outras estrelas católicas. 

Os textos de Leroux são os mais importantes na difusão do socialismo pré-marxista, de feitio cristão.

Os títulos de seus livros falam por si mesmo: “Do cristianismo e de sua origem democrática”, “Uma religião nacional ou do culto” (1844), “Da plutocracia ou dos governos dos ricos” (1848) e outras.

Leroux era sansimoniano e se inspirava nos textos de Saint-Simon, que era, por sua vez, também um grande autor socialista cristão, que se inspirou nos textos de Bonald, sobre o primado da sociedade.

A religiosidade de Saint-Simon é mais do que explícita e o mesmo vale para Enfantin, seu principal seguidor. Saint Simon acreditava em Santos, em almas “mortas” vivas etc, bem católico. 

François Huet, um católico social, no livro “O reino social do cristianismo” (1853, livro lido por Marx), usava a expressão “socialismo cristão”. Numa linha paralela com Leroux, houve os textos de Buchez.

No Brasil, o socialismo também nasce na forma utópica, cristã.

O general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Bolivar, escreveu o livro “O socialismo”. Além disso, homens como Antônio Pedro Figueiredo, o principal ideólogo da Revolução Praieira, em 1848, na cidade de Recife, tentaram colocar em prática as idéias de uma democracia social.

O livro de Tiago Adão Lara, “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo” (São João del Rei MG, Ed. Faculdade Dom Bosco, 1977), ilustra bem a presença do socialismo cristão na vida política brasileira. Mais tarde, há homens como João Mangabeira, Alceu e centenas de outros escritores.

Buchez (1796-1865) era discípulo de Saint-Simon (1760-1825).

Simon foi um cristão socialista, com firmes crenças religiosas. Saint-Simon não usava o termo “socialista”, e sim “cristão”. Sua última obra tem o título “Novo cristianismo” e é a mais religiosa e avançada de sua bibliografia. Os sansimonianos eram todos religiosos, a começar por Enfantin.

Tal como seu mestre imediato, Saint-Simon, Buchez unia catolicismo e sansimonismo.

A influência de Buchez foi tamanha que foi chamado, por Marx, de “o chefe do partido socialista católico”. Buchez ensinava que “o objetivo humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução [Francesa]: o primeiro é que inspirou o segundo” (cf. “Traité de la politique”, t. III, p. 504).

Marx e Engels fizeram dezenas de referências aos textos de Buchez, em cartas e livros.

Marx o cita desde o livro “Sobre a questão judaica” (texto de abril ou maio de 1843), como historiador da Revolução Francesa.

Marx o chamava de chefe da escola francesa católica-revolucionária, do “partido socialista católico”.

Ao lado de Buchez militavam homens como Pierre Pradié (1816-1892), um advogado de esquerda, republicano, deputado na Assembléia Geral da 2ª República, tendo Buchez presidido a Assembléia, em 1848.

Desde 1831, Buchez, em várias obras, como o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso” (1838-1840), desenvolveu suas idéias sobre cooperativas de produção com apoio do Estado.

Esta foi a fórmula usada por Louis Blanc e por Lassale, como reconheceu Marx, no texto “Crítica ao Programa de Gotha”.

Buchez tem também o mérito de ter sido o precursor da defesa das cooperativas de produção. Seu trabalho não era apenas teórico, pois, em 1834, ele auxiliou a criação de uma cooperativa de trabalhadores, que continuou a existir até 1873. A cooperativa de Rochedale, para comparar, era apenas de consumo e foi criada em 1844, em Manchester.

Numa linha paralela, Lamennais defendeu o cooperativismo com apoio de um Estado democrático, em obras como “A questão do trabalho” (1848).

A idéia de cooperativas com o apoio do Estado também foi adotada por Luís Blanc, que era teísta, tal como por Ledru-Rollin.

Num parêntese, é bom recordar que no próprio texto do “Manifesto Comunista”, Marx e Engels consideraram o “partido democrático” e popular de Louis Blanc, aliado e discípulo de Buchez, como o partido aliado, na França.

A tese da difusão das cooperativas com apoio estatal está presente também nos textos de Etienne Cabet e reaparece, mais tarde, nos textos de Lassalle, de Ketteler e dos socialistas cristãos, na Inglaterra, influenciados por Lamennais e outros.

A fórmula de Buchez de cooperativismo com intervenção e apoio do Estado consta também do “Programa de Gotha” de 1875 e também no “Manifesto” da 1ª Internacional.

Luís Blanc foi teísta durante toda a vida e há autores que consideram que foi ele que cunhou o termo “capitalismo”, para significar o sistema econômico liberal.

Blanc e Victor Hugo eram amigos, teístas e socialistas democráticos, adotando a mesma fórmula de Buchez. No século XX, o cooperativismo foi bem defendido por Antônio Sérgio, um socialista cooperativista.

Conclusão: Karl Marx, em carta de 13.10.1868, a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale, tal como em outros textos (“Crítica ao programa de Gotha”), reconheceu que Buchez foi o precursor das idéias de Lassale.

Marx citou Buchez em várias obras como “A questão judaica”, “A ideologia alemã”, “A sagrada família”, “Crítica ao Programa de Gotha” e em outras, mostrando, assim, que recebeu também a influência das idéias católicas de Buchez.

Frise-se que Marx teve professores padres jesuítas, na Escola média onde cursou, em Trier, dos 12 aos 18 anos. E esta Escola média era um antigo Colégio Jesuíta.

Quase todos os colegas de Marx, na escola média, eram SEMINARISTAS CATÓLICOS, inclusive o futuro Bispo de Trier. Marx era amigo de um excelente padre jesuíta, que o influenciou muito, e do qual ele faz menção em cartas posteriores.

Vou tratar deste padre jesuíta, em outro post. O método de Marx de fazer apontamentos é o Método jesuíta de fichar, de transcrever trechos mais importantes das obras lidas. Marx cultivou este método a vida toda. 

Em várias obras, Marx e Engels reconheceram que o núcleo do pensamento de Lassale tinha origem em Buchez e, por isso, chamaram Lassale de plagiário.

O próprio Schweitzer, nos passos de Lassalle, elogiava a santidade de Ketteler e o considerava como aliado.

Schweitzer escreveu obras como “O espírito do tempo e o cristianismo” (1861) e “Lucinda” (1864). Bebel, em sua autobiografia, “Minha vida” (3 vols., Stuttgart, 1910-1914), lembra que Schweitzer usava o nome de Ketteler para fortalecer o partido fundado por Lassalle.

Outras raízes históricas do Socialismo democrático católico, da Democracia Popular

Renouvier e outros elos entre o catolicismo e o socialismo democrático e participativo

Entre os elos entre católicos, socialistas democráticos e radicais há também a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República. Esta nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também quase todos os expoentes do socialismo de cátedra.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais e corporativas sejam por si sós insuficientes” etc.

Buchez, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, um César Cantu, na Itália, são bons exemplos do papel progressista dos católicos no século XIX.

Renouvier (expoente do neo-criticismo, o que mostra como Kant, teísta, também reaproximou o socialismo da religião) deixou obras importantes como “Manual republicano do homem e do cidadão” (1848), “Ucronia” e “O personalismo”.

Esta última obra praticamente o relaciona com Mounier, mostrando o elo correto das idéias de Renouvier com as idéias da militância católica.

O personalismo de Mounier é um desdobramento do personalismo de Renouvier e tem inúmeros pontos em comum com o radicalismo, especialmente no apreço pela democracia socialista. O mesmo vale para a corrente do existencialismo cristão.

Autores como Léon Bourgeois (1851-1925), em livros excelentes como “Solidarismo” (1896), também são evidências claras da ligação entre católicos e radicais.

O movimento solidarista, em busca de uma democracia popular sócio-econômica e política, brotou de católicos e de radicais, gerando, lá por 1926, na França, uma boa síntese e aliança implícita, inclusive com a condenação da “Ação Francesa”.

Pio XI condenou o movimento de Charles de Maurras (1868-1952) e isso foi decisivo para a Igreja. Herriot, socialista e católico, foi uma das pontes desta aliança, graças à atuação de João XXIII, que era Núncio em Paris.

Outro escritor neste campo democrata e cristão é Charles Secrétan (1815-1895), autor de obras como “A filosofia de Leibnitz” (1840); “A filosofia da liberdade” (1848); “Teologia e religião” (1883) e “Estudos sociais” (1888).

Secrétan seguiu os passos do católico Franz Baader, que influenciou o marxismo, e destacava a importância da liberdade, da razão, da caridade e da justiça, especialmente no livro “A razão e o cristianismo” (1863).

Há, nesta linha de opiniões, outros milhares de escritores. Por exemplo, Charles Bois, Recolin, Célestin Bouglé (1870-1940, autor do livro “O solidarismo”, 1907), Fleurant (“A solidariedade”, 1907) e ainda a Escola Católica com Cláudio Janet.

Também há o cooperativismo cristão de Charles Gide e outras correntes semelhantes.

O velho Comte também escreveu: “nascemos carregados de obrigações de toda espécie para com a sociedade”, expressando o conteúdo da linha sansimoniana e cristã, pois estas são as raízes católicas do contismo, em seus melhores textos.

O partido radical-socialista, na França, foi organizado em 1901, quase simultaneamente ao Partido Trabalhista inglês, com base num socialismo cristão.

No entanto, esta tendência existia como tendência desde os anos 80 do século XIX e, no fundo, era um desdobramento do socialismo cristão pré marxista, de 1820 em diante.

O partido radical representava principalmente os interesses do campesinato, da pequena e média burguesia e de partes do proletariado (enfim, do povo) e governou a França por vários anos, aproximando-se aos poucos das posições da Igreja.

Isso preparou os movimentos de síntese e de alianças entre catolicismo e socialismo democrático, após a Segunda Guerra, nos anos 60, 70 e 80. Este impulso diminuiu com a ofensiva neoliberal nos anos 90, com a queda do socialismo na Rússia, mas foi retomado a partir de 1999.

O radicalismo gerou uma forma de solidarismo, próxima do solidarismo católico e cristão, preparando uma base de socialismo democrático de fundo cristão. Basta considerar Leon Bourgeois e no bom juiz Magnaud. Esta tendência é praticamente idêntica ao solidarismo de Pesch.

No Brasil, nesta linha, houve o padre Fernando Bastos de Ávila, que ressaltou que o solidarismo é a democracia plena, na esfera econômica, política, cultural etc e tem praticamente o mesmo âmbito do socialismo democrático.

Na França, houve também o solidarismo de Leon Duguit, com o culto ao bem comum como finalidade do Estado e da sociedade, que foi um jurista bem apreciado na URSS e com fundamentação cristã.

Nestes movimentos, já estava esboçado a renovação da ligação do socialismo com a religião, ligação esta que está nas origens do socialismo (especialmente no socialismo utópico), o socialismo pré-marxista, cristão.

Em Portugal, a reconciliação entre democracia, socialismo e nacionalismo fica patente nas obras do velho Eça de Queiroz. Suas últimas obras são religiosas e pró-socialismo, pró-democracia social e pró-catolicismo.

No solidarismo de Antônio Sérgio em Portugal, há a mesma marca, presente também nos textos de Antero de Quental, de Oliveira Martins e de outros escritores socialistas e religiosos.

Na Espanha, basta considerar Eduardo Sanz y Escartín, que defendeu reformas sociais favoráveis aos operários, colonização interior (reforma agrária, como explicava Brizola), municipalização de serviços públicos, seguros sociais obrigatórios etc. Escartín deixou boas obras como “A questão econômica” (1890) ou “O Estado e a reforma social” (1896).

Conclusão: a ligação entre cristianismo, democracia, socialismo utópico, nacionalismo, solidarismo, cooperativismo, sindicalismo e outros movimentos mostram que há um fundo subjacente comum, um fundo jusnaturalista, bem antigo, com raízes no melhor da Paidéia e do melhor das idéias hebraicas.

A corrente jusnaturalista (que ensina que o direito real nasce da consciência social) movimenta-se subjacente ao movimento histórico, nas entranhas deste. Como ideal histórico, explicita-se, aflorando na maior parte do movimento literário e na cultura popular.

O jusnaturalismo é natural ao ser humano, tendo, também, base nas idéias hebraicas e no melhor do pensamento antigo (grego, romano etc, na “Paidéia”, cf. Werner Jaeger).

A Paidéia foi conservada e ampliada, em suas concepções jurídicas e políticas da Igreja (como exemplo, basta pensar no direito romano, codificado por Justiniano, um imperador católico, sendo exaltado por Rousseau).

Estas concepções foram, mais tarde, cristalizadas no que se convencionou chamar de “doutrina social da Igreja”, que tem amplas ligações e muitíssimos pontos comuns com a teologia da libertação.

O Socialismo Católico é a principal fonte do Socialismo, na Alemanha, inclusive Lassalle e o partido de Marx

Buchez foi chamado, por Marx, de o chefe do partido socialista católico. Da mesma forma, Buchez é a fonte da fórmula do cooperativismo apoiado e coordenado pelo Estado, segundo Marx

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs, católicas e socialistas de Saint-Simon.

Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana.

Em 1832, Buchez criou as primeiras associações cooperativas de produção, como destacou Charles Gide.

Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil.

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a tendência cristã-democrata e socialista.

A linha que passa entre Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, teologia política européia etc representa, a meu ver, a linha dourada que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa democracia política, econômica, social e cultural.

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras.

Por exemplo, Marx menciona Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital”.

Marx citou, nos primeiros escritos, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX e redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant,

Dois anos após a morte de Lassalle, em 1868, Marx, em carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, diz que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”:

“Depois de um sono de quinze anos [1868 menos 15, igual a 1843], o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle–e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante–sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch–o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele [Lassalle] repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez–assistência do Estado às sociedades operárias–com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

Como fica claro, Marx, como Rosa de Luxemburgo, sabia que existiam várias correntes de socialismo.

E sabia que uma destas correntes, o SOCIALISMO CATÓLICO, já existia em 1843, quando Marx nem tinha ainda criado as bases do “socialismo marxista”, que são frágeis, pois o próprio Marx, em 1882, um ano antes de morrer, no último escrito econômico, sobre Wagner, diz que não existia um socialismo marxista, um projeto delineado de Estado ou sociedade socialistas. Marx cuidava principalmente da crítica ao capital.

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez.

Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. E Engels escreveu no mesmo sentido, frise-se.

O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez.

Ou seja, BUCHEZ, o Socialismo católico, é a origem direta do primeiro partido operário na Alemanha, em 1863, criado por Lassalle.

Engels combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”.

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels, com ciência de Marx:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada. Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

CONCLUSÃO: o partido lassalista usou, assim, em seu programa, idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde vários católicos também militavam e, como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875, e no “Programa de Gotha”, de 1875, usou a fórmula de Buchez.

A fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”.

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto.

Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez que está na origem da tese de substituir o patronato por cooperativas de produção, com a ajuda do Estado. 

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem:

“o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”.

Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez e também de Cabet e Luís Blanc.

Numa linha semelhante, Benoit-Malon, socialista com religiosidade, queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”.

Malon tinha religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos…libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, o livro “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas.

Foi esta também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

O núcleo da Doutrina Social da Igreja é antigo, tradicional, e quer uma DEMOCRACIA POPULAR PARTICIPATIVA, econômica, política, cultural etc

Albert Mun – tal como Étienne Lamy ou Jacques Piou – destacava corretamente a boa linha doutrinária da Igreja, no século XIX, ao escrever: “muitas de nossas idéias estão em germe em Lamennais, Montalembert, Lacordaire e a escola de Buchez”.

O mesmo foi dito, alguns anos depois, por Marc Sangnier, no livro “Reformadores sociais” (1932).

A “Rerum novarum” (15.05.1891) apenas chancelou algumas idéias bem mais antigas, condensadas e expostas por Buchez, Lamennais, Lacordaire, Montalembert, Ozanam, Ketteler, a União de Friburgo, De Mun, a Escola de Liège, Péguy, Mounier e outras boas correntes, precursoras da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja.

Ora, as idéias de Buchez e de Ozanam podem ser resumidas no ideal de uma “democracia participativa e social”.

Este ideal concreto está nas entranhas da “doutrina social da Igreja” e na teologia da libertação.

De fato, há como que uma linha solar e brilhante entre os textos bíblicos, da Paidéia, dos Santos Padres, da escolástica, de Santo Tomás Morus, Vives, Gil Vicente, Montaigne, Las Casas, Vitória, Suárez, Bellarmino, Vieira, Montesquieu, Mably e os políticos latino-americanos que participaram do movimento de independência de seus países.

Esta linha é a mesma de Manzoni, Daniel O´Connell, Tocqueville, Ozanam, Buchez, Balmes, Ketteler, Toniolo, Georges Goyau (um grande apóstolo), Antônio Pottier (1849-1923), Marc Sangnier e os grandes românticos.

Há o mesmo conjunto de idéias cristãs e racionais sobre a democracia nos textos de líderes e organizações como: Albert de Mun, Antônio Fogozzaro (a quem Pio X apreciava e elogiava em cartas ao mesmo, embora censurasse o livro “O santo”, por conter erros envolvendo o darwinismo), a União de Friburgo, a Escola de Liège, Decurtins, o grupo da Democracia Cristã, Leão XIII, Pio XI, Renard, Hauriou, Deploige, Maritain, Mounier, Salleiles, o Cardeal Joseph Cardijn (fundador da JOC, em 1924), Armand Cuvillier, Rutten, Lacroix, Pio XII, Pietro Pavan, João XXIII, o Vaticano II, Paulo VI, Medellin, até chegar à teologia da libertação.

Esta é, também, a linha do grande distributista, Sismondi, em obras como “Novos princípios da economia política” (1819) e “Constituição dos povos livres”.

Marx, no “Manifesto Comunista”, considera Sismondi como o principal expoente do “socialismo pequeno-burguês” e o elogiava por desvendar as causas da exploração do trabalhador, das crises e da contradição implícita no capitalismo, entre o consumo e a produção.

Nos textos marxistas, há uma parte significativa, composta de textos gerados pelas idéias de Sismondi, tal como há textos oriundos de Thomas Morus, Morelly, Mably, Montesquieu, dos estóicos e de outras fontes cristãs. São, no fundo, idéias cristãs, “enlouquecidas”, como dizia Chesterton, idéias que devem ser resgatadas, como parte do legado cristão.

Dentre os elos relevantes da boa corrente de água viva, Albert de Mun poderia ter mencionado homens como: Santo Ambrósio, São Basílio, Gregório Nazianzeno, Lactâncio, Santo Agostinho, São Bento, Vicente de Lérins, Santo Isidoro, São Francisco de Assis, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Erasmo, Luis Vives, Las Casas, Francisco Vitória, Suárez, Montesquieu, Antônio Genovesi (1712-1769), Condillac, Beccaria e o padre Sieyès.

Houve também mais de três quartos dos representantes do clero nos Estados Gerais de 1789, que se juntaram ao Terceiro Estado.

O clero era representado por 208 padres e 47 bispos. Pois bem, Mirabeau teve o discernimento de chamar o clero a juntar-se ao terceiro estado, para formar a Assembléia Nacional, tendo o acatamento de quase todos os representantes do clero, que ficaram ao lado do povo.

Mirabeau redigiu obras como “Sobre a educação pública”, “Ensaio sobre o despotismo” e outras, de fundo cristão e democrático. Boa parte dos textos de Mirabeau eram textos de seu assessor, um padre Jesuíta.

Na mesma linha, existiam milhares de militantes leigos católicos. Houve ainda estrelas de primeira grandeza, como o bispo Henri Gregório (1750-1831). Este teve grande participação na reunião das três ordens em 1789. Na Convenção, em 1792, foi o primeiro a propor a abolição da monarquia e a criação da república. Propôs a abolição da pena de morte. Foi o principal responsável pela restituição aos judeus dos direitos civis e pela abolição da escravatura, em 1794.

O bispo Gregório também defendeu a Declaração dos Direitos e a queria mais social, como deveres sociais. Este bispo lutou pela igualdade civil, a liberdade de cultos e pela tolerância religiosa. Redigiu obras como “Ensaio sobre a regeneração física, moral e política dos judeus” (1789); “Discurso sobre a liberdade dos cultos” (1794); “Ensaio histórico e patriótico sobre as árvores da liberdade” (1794); “Da liberdade de consciência e do culto no Haiti”; “Da Constituição francesa do ano de 1814”; “Apologia de Bartolomeu de las Casas”; “Da literatura dos negros”; “Da influência do cristianismo sobre a condição das mulheres” (1821) e outras.

Ocupou cargos na rede pública de educação e criou várias bibliotecas públicas, organizou livros didáticos simples e baratos etc.

Hipólito Carnot redigiu sua biografia, com o título “Henri Gregóire, bispo republicano” (Paris, 1882).

Numa linha próxima, na época, o bispo Jean Baptist Gobel (1727-1794), de Paris, sempre defendeu a soberania do povo. Disse, em boa voz, que sempre buscara “aumentar” no “povo”, o “amor aos princípios eternos da liberdade, da igualdade e da moral”.

Além do bispo Gregório, de Gobel e outros, houve o padre Sieyès, o bispo Claude Fauchet, Nicolau de Bonneville (1760-1828, autor de “Do espírito das religiões”, Fauchet e Bonneville eram os bispos católicos do Círculo Social) o bispo Antônio Pascoal Jacintho Sermet (1732-1808) e o padre Jacques Roux, o principal líder dos “enraivecidos”.

Fauchet e Bonneville fundaram o “Círculo Social”, inspirado nas idéias de Saint-Martin, que são extremamente religiosas, formando parte do iluminismo cristão e religioso (a maior parte do movimento iluminista era cristão e religioso, frise-se).

Por exemplo, os Iluminados de Avinhão tinham como principal líder o beneditino Pernety. Este criou um rito, em 1760, que foi introduzido na Universidade de Montpellier, em 1799, influenciando José Alvarez Maciel, que conspirou para a independência do Brasil.

Outro bispo que teve grande parte na Revolução Francesa e em seus desdobramentos foi Talleyrand (1754-1838). Talleyrand era bispo em Autun e tornou-se presidente da Assembléia Nacional, em 1790, tendo sido várias vezes Ministro de Estado. Teve seus méritos, tal como cometeu vários erros éticos, mas acabou tendo uma boa morte, graças à mediação de Dupanloup, um dos maiores bispos do século XIX.

Num parêntese, mesmo Metternich e Talleyrand não eram partidários da teoria do direito divino dos reis. Talleyrand e Metternich esposavam uma teoria consensual (jusnaturalista) de fundo histórico, flexível, parecida com a de Burke, um dos líderes do whig.

Houve, ainda, milhões de leigos católicos que conciliavam perfeitamente catolicismo com a luta pela democracia.

Mais tarde, houve homens como o cardeal Consavi; Sismondi (próximo ao catolicismo); Béranger; Buchez; Lamennais; e Villeneuve-Bargemont. Villeneuve-Bargemont (1784-1850) escreveu o livro “Economia política cristã” (1834), onde criticou o liberalismo e defendeu a intervenção estatal a favor dos pobres.

Marx, ao começar seus estudos sobre economia política, leu o livro de Villeneuve, recebendo boa influência cristã pré-marxista, tal como Marx leu, já em 1842 ou antes, obras de Buchez, Roux e outros católicos sociais. Numa linha próxima, houve ainda Ozanam (1813-1853), professor na Sorbonna e fundador dos Vicentinos.

O primado do bem comum era a base da concepção de Alban de Villeneuve-Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), onde critica a “concentração de riqueza e do poder” nas mãos da nobreza, como a causa principal da revolução francesa. Alban atacou o “absenteísmo” dos grandes proprietários. Criticou também a burguesia, a “nova feudalidade”, “do dinheiro e da indústria”, que “começa pela servidão das massas e termina com a usurpação dos poderes públicos”. Alban criticou o capitalismo, na mesma linha de Sismondi, um dos autores que mais citava.

Karl Marx, quando era jovem, leu Villeneuve-Bargemont e também Sismondi e Buchez, sendo estas algumas de suas fontes cristãs.

Os textos de Karl Marx estão cheios de metáforas religiosas, de textos bíblicos e de grandes autores cristãos (inclusive Montalembert).

Petr Yákovlevich Chaadaev (1794-1856) foi um pensador russo, católico, influenciado por Lamennais. Chaadaev militou ao lado de Alexandre Herzen (1812-1870), pela democracia e a igualdade, tal como faziam os católicos que militavam ao lado de Mazzini e Garibaldi, apesar do anticlericalismo destes líderes que tinham ampla religiosidade.

Outro expoente foi Daniel O´Connell (1775-1854), o líder do movimento católico na Inglaterra, organizando a luta do povo irlandês em prol da independência da Irlanda. Houve ainda Fergus O`Connor, líder dos cartistas.

Outro marco foi o movimento dos católicos da Renânia, na década de 1830 e 1840, elogiado até por Bakunin.

Nos EUA, os católicos militavam no movimento dos Cavaleiros do Trabalho, chegando à liderança deste movimento operário (elogiado por Lenin), com Powderly.

Na Itália, houve líderes emblemáticos como Alexandre Manzoni (1785-1873, elogiado por Pio XI, na “Divini Illius”), Rosmini e Gioberti.

Além destes, vale à pena lembrar dos padres Gallupi, Garelli, Billia, Sanseverino, Liberatore, Cornoldi, Satolli, Prisco e outros.

Na França, devem ser recordados expoentes como Tocqueville, Ozanam, Buchez, Albert de Broglie, Augustin Cochin, Montalembert, Lacordaire, Dupanloup e outros.

Tocqueville, por exemplo, influenciou autores como Edouard Laboulaye (1811-1883), na obra “O partido liberal” (1863), que teve influência no Partido Liberal, no Brasil, no século XIX, para ampliar a Democracia, no Brasil.

Há ainda Huit, Piat, Desdouits, Fonsegrive, Graty, Ollè-Laprunne, Domet de Vorges, Farges, Peillaube e outros que foram precursores de Maritain.

Há ainda expoentes como John Acton (1834-1902); Skrzynecki; Montalembert; Lacordaire; Ketteler; Ludwig Windsthorst (1812-1891, líder do Partido do Centro, crítico de Bismarck); César Cantu; Albert de Mun e outros.

Na Polônia, houve o carmelita São Rafael Kalinowski (1835-1907), um dos líderes da insurreição polonesa e lituana, de 1863, contra a opressão russa contra a Polônia, tendo sido mandado para a Sibéria, por dez anos.

Depois, o próprio Leão XIII, Newmann (elogiado por Henri Brémond), Manning, Gibbon, Péguy, Marc Sangnier, Maritain, Mounier, o abade Pierre, João XXIII, Dom Hélder, Alceu e há milhões de outros expoentes, que, por sua vez, refletem o rio vivo de verdades que corre na consciência (“coração”) do povo, tal como do coração de Deus (cf. Ap. 22).

Napoleão ressaltou que o catolicismo é perfeitamente compatível com um “governo democrático e republicano”. Em seu testamento, Bonaparte escreveu: “morro na religião apostólica e romana, na qual nasci há mais de cinqüenta anos”. Convém lembrar que até Marx reconhecia o papel positivo de Napoleão ao disseminar na Europa os princípios da Revolução Francesa.

O livro de Daniel-Rops (1901-1965), “A Igreja das revoluções” (São Paulo, Ed. Quadrante, 2003), em quase 900 páginas, deixou algumas boas páginas sobre a participação da Igreja nos movimentos democráticos do século XIX, reconhecendo que “os escolásticos, com Santo Tomás e depois Bellarmino (acrescentemos, naturalmente, Suárez, para não irmos mais longe)” corroboravam a tese da “soberania do povo”.

Sobre Bellarmino, o papa Clemente VIII, quando o escolheu para ser cardeal, proferiu as seguintes palavras: “elegemos este porque a Igreja não possui outro igual em sabedoria”.

Prova clara da matriz “ideológica” do jusnaturalismo teísta é o preâmbulo da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, de 1789, com referência explícita a Deus, “o Ser Supremo”.

O livro de Guizot, “História das origens do governo representativo e das instituições políticas da Europa depois da queda do Império romano até o século XIV” (Paris, Ed. Didier, 1855), também atesta as origens cristãs e naturais da democracia.

Os textos do Visconde de Ouguella (1830-1897) também combinavam jusnaturalismo, catolicismo, democracia e socialismo.

Os elos mais relevantes e atuais são (a meu ver): Mably; Lamennais; Ozanam; Lacordaire; Daniel O´Connell e o movimento irlandês e a relação do movimento irlandês com os cartistas; e a participação hegemônica dos católicos na independência da Bélgica em 1830; a constituição belga (avançada para a época), defendida por Leão XIII, que foi núncio em Bruxelas, por vários anos.

Outro elo vital entre Suarez e a teologia da libertação é o movimento de independência e dos católicos republicanos da América Latina.

Na mesma linha, há a ampla participação da Igreja nas Revoluções de 1848, tal como o apoio de Leão XIII ao surgimento das leis sociais, na Alemanha, na França, no Brasil (contra a escravidão).

A luta por democracia e independência dos poloneses também merece destaque, contando com homens como Adam Chmielowski (Frei Alberto, beatificado).

Na Itália, a maior parte dos católicos, especialmente dos leigos e do baixo clero, participou do “risorgimento” e da unificação italiana.

Houve lideranças como Rosmini (“Filosofia da política”, Milão, 1837); Manzoni, o padre Gioberti, César Cantu e outros.

No mesmo sentido, o cartismo, na Inglaterra, também foi um movimento organizado por idéias cristãs. Lênin elogiou o cartismo, escrevendo: “a Inglaterra deu ao mundo o primeiro movimento amplo, verdadeiramente de massas, políticamente formado, um movimento proletário revolucionário, o cartismo”.

Stalin, nas “Conversas com Wells” (embutida no livro “Questões do leninismo”, 1936), também elogiou o cartismo, como movimento precursor.

O líder principal dos cartistas foi Daniel O´Connor, um irlandês católico, “distributista”, que lutava por democracia, reforma agrária e outras reformas sociais.

Na Alemanha, houve Ketteler e o Partido do Centro (o “Zentrum” foi criado em 1870-71 e durou até 1933, tendo sido extinto por Hitler); na Áustria, os cristãos sociais fizeram boas e duras críticas ao capitalismo (ver textos de Vogelsang).

Nos EUA, os católicos tiveram ampla participação na vida pública e, em 1890, existiam 84 bispos católicos nos EUA, e apenas uns 14 no Brasil, por conta do regalismo e da falta de vocações.

Em geral, nos EUA, os católicos votaram no Partido Democrático, tendo candidatos católicos que quase chegaram à Presidência, como Frémont, lá por 1870 e, mais tarde, Al Smith, governador de Nova Iorque, que ajudou Franklin Roosevelt.

Outro nome que merece recordação é John Ireland. Depois, houve John Kennedy, no início da década de 60, que foi morto num complô da direita. Robert Francis Kennedy (1925-1968) também foi assassinado quando era candidato a presidente e tinha chance, criticando a guerra do Vietnam.

Na própria China, houve, lá por 1850, os “taipings”, um movimento cristão de camponeses. O termo “taiping” vem de “tai-pin-tian-go”, “reino celeste da prosperidade eterna” e a base teórica era quase toda cristã. Foi possivelmente a maior rebelião dos camponeses, no século XIX e movida por um ideário de origem cristã, no meio da China.

Na França, houve Buchez, Ozanam, Didon, Charles Perraud, Ramadié, o abade Lagrange (1855-1938), o cardeal Lavigerie e milhares de expoentes combativos.

Antes mesmo de 1848, houve vários cardeais, como Croy, Belmas, Giraud, Bonald, Affre e outros que protestaram contra o capitalismo.

O boulangismo foi derrotado com o discurso de Lavigerie, no brinde a vários altos oficiais da esquadra francesa, em Argel, lá por 1890.

O cardeal Lavigerie disse: “Quando da vontade de um povo se afirma sobre a forma de governo, e quando, para arrancar um povo aos abismos que o ameaçam, é preciso aderir, sem reservas, a esta forma política, é chegado o momento de declarar feita a prova”.

Para o Brasil, foi providencial a explicitação maior das teses papais e católicas que mostram que a República é uma forma de governo aceitável aos católicos, a partir de novembro de 1890.

Mesmo antes a Igreja sempre conviveu bem com repúblicas, basta ver as cidades-repúblicas da Itália, a Suíça etc. Isto facilitou a consolidação da República, na França, e a derrubada de alguns projetos de leis contra a Igreja.

Após o brinde, o cardeal abolicionista Lavigerie mandou tocar a Marselhesa, que ainda é o hino nacional francês, com textos jusnaturalistas e teístas.

Leão XIII, em 16.02.1892, na encíciclica “Au milieu des sollicitudes”, detalhou as razões pelas quais era conveniente a aceitação da Constituição de 1875, com o sufrágio universal etc. O argumento principal era que “os católicos”, tal como todas as pessoas, tinham “liberdade de preferirem uma forma de governo a outra”, pois as formas de governo não são “imutáveis” e são relativas, o que importa é que devem proteger e promover o bem das pessoas, o bem comum.

Depois, Leão XIII, numa entrevista publicada em 17.02.1892, aconselhou os católicos franceses a aceitarem a república.

O próprio Pio X, na alocução ao Consistório, em 15.04.1907, disse que “eles [os que perseguiam a Igreja] esperam fazer crer ao povo que, quando nós defendemos os direitos da Igreja, nós nos opomos ao regime popular; e, no entanto, este regime [o popular], nós o temos sempre aceitado, sempre respeitado”.

O que é trágico é ver que os antigos textos de TFP (hoje, esta organização alinhou-se com a CNBB), espalhavam a mesma calúnia, a mesma mentira dos perseguidores da Igreja.

Os bispos do sul do Brasil, na “Pastoral coletiva de 1915” (n. 88 e 89), ensinaram claramente que “afirmar que a Igreja se opõe à constituição moderna das nações e que sistematicamente rejeita e repele o adiantamento do nosso século, é uma vã e pura calúnia”.

Uma “calúnia”, pois “a Igreja católica foi sempre inventora, fautora ou defensora” “de todas as instituições úteis para pôr côbro à licença dos governantes que abusam do povo; de tudo o que serve para impedir o governo de violar as liberdades municipais ou domésticas; de tudo o que concorre para garantir o dêcoro e a dignidade humana e estabelecer a igualdade”.

Houve, ainda, Taparelli e sua defesa de governos representativos, em obras como o “Exame crítico da ordem representativa” (Roma, 1854); os trabalhos de pesquisa de Villermé; Leão XIII e suas encíclicas democráticas; a reconciliação entre católicos e republicanos, na França e no mundo todo; o grupo de Eduardo Sanz y Escartín (ver “O Estado e a reforma social”, 1896) e a Escola de Liège.

Na mesma linha, houve o círculo de Friburgo e o cardeal Mermillod (autor do livro “A Igreja e os operários no século XIX”, 1868); o episcopado norte-americano com homens como o Cardeal Gibbons (1834-1921); o cardeal Manning; a Liga Democrática Belga (aprovada por Pio X); o Partido Popular Cristão, ligado ao padre Daens; o “solidarismo” do padre Antônio Pottier, do padre Pesch e do padre Llovera; o partido popular, ligado ao padre Sturzo; a corrente do personalismo cristão de Renouvier; Maritain, Mounier, a Resistência Francesa, De Gaulle; a linha de padres como Kothen (seu livro, “Problemas sociais da atualidade”, foi editado no Brasil com o prefácio de Alceu), até chegar à teologia da libertação e aos socialistas cristãos, de hoje, que retomam as linhas históricas mais importantes.

Houve marcos como o movimento da Democracia cristã, com expoentes como Romolo Murri (1870-1944); o abade Naudet; o “Sillon” e Marc Sangnier (1873-1950); Péguy, Giuseppe Toniolo, Sturzo e o partido popular; o padre Olgiatti; Maritain; Mounier e a corrente do personalismo; o próprio De Gaulle (que defendeu corretamente a descolonização, a participação dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas e criticou o imperialismo ianque) e os católicos da |Resistência Francesa; os católicos existencialistas; a JOC e a Ação Católica Operária, especialmente com o Cardeal Cardij; as alianças entre a democracia cristã e os socialistas democráticos; João XXIII; o Concílio Vaticano II; Medellin; a teologia da libertação; o movimento “Cristãos pelo Socialismo”; Puebla; a CPT, o MST e a Via Campesina etc.

Para detalhar um pouco a linha acima esboçada, vejamos o padre Pottier e Pesch, que são bons exemplos de sacerdotes.

O padre Antônio Pottier (1849-1923) foi um dos líderes da Escola de Liège, elaborando bons textos sobre democracia social em 1892 e 1893. Ele participou também do movimento da democracia cristã. Escreveu obras como “De iure et iustitia” (Liège, 1900), “A cooperação e as sociedades operárias” (Liège, 1889); “A Igreja e a democracia cristã” (1901), “A questão operária” (Roma, 1903); “A moral católica e as questões sociais de hoje” (Milão, 1921).

Pottier também atuou ao lado de homens como Georges Goyau (sua obra, “O Cristo”, foi traduzida, no Brasil, por Alceu, em 1942) e Romolo Murri (1870-1944).

Goyau escreveu obras importantíssimas como “O Cristo”, “Ketteler” (1907), “Retratos católicos de precursores” (1921) e “Catolicismo social” (5 volumes).

O padre Heinrich Pesch (1854-1926) foi aluno de Rudolf Meyer (socialista cristão, amigo de Frederico Engels) e de Adolf Wagner (n. em 1835). Adolf Wagner também era socialista cristão e defendia a extensão das funções do Estado, mas com respeito à liberdade etc.

Adolf Wagner era filho de Rodolpho Wagner (1805-1864), que foi um grande cientista alemão, bem ligado à religião. O solidarismo de Pesch era uma forma branda de socialismo com liberdade e distributismo.

O solidarismo e o socialismo de cátedra eram formas de socialismo ligadas à religião. O cristianismo e o pensamento hebraico foram as matrizes do socialismo utópico, pré-marxista.

Pesch, em seu livro “Tratado da economia nacional” (5 volumes, 1905-1923), defendeu o “solidarismo cristão”, ressaltando que o bem comum significa a síntese entre o bem pessoal e o bem da sociedade. Ou seja, o dever de assegurar o bem de cada pessoa em harmonia com o bem da sociedade, o bem comum.

Na linha do socialismo romântico e cristão, há também as figuras dos irmãos Clemente Brentano (1778-1842) e Lujo Brentano, na Alemanha.

Pesch escreveu livros como “Solidarismo” (1919) e outros, bem próximos do radicalismo e do socialismo democrático.

Antes, o padre Hitze (1851-1921) já frisava que “somente uma obra legislativa ampla e profunda, somente a mão onipotente do Estado poderão estabelecer a ordem na vida social”.

O Cardeal Mercier também frisava que “quando trabalha para repartir mais equitativamente a riqueza da sociedade, o socialismo tem toda razão”.

Enfim, a relação entre cristianismo e democracia foi reconhecida até mesmo por Henrique (1908-1999), chamado o Conde de Paris (houve outros, antes, como Luís Filipe Alberto de Órleans, n. em 1838), o herdeiro da família dos Capetos e dos orleanistas, descendente de Luís IX, Henrique IV e Luís XIV. A dinastia dos capetos governou a França por uns 800 anos, descendendo de Hugo de Capeto, que assumiu o poder em 987.

Para mostrar que até os membros das famílias dinásticas aprendem (lentamente.., embora alguns, nunca), o Conde de Paris, no livro “A monarquia de amanhã” (Lisboa, Ed. Gama, 1948, texto no prefácio, p. XXIV), reconheceu que

“a autoridade e o poder têm em Deus a sua origem, mas o suporte terreno dessa autoridade só pode ser, evidentemente, o conjunto de homens que vivem na sociedade; emana, pois, do povo”.

O Conde de Paris também admitiu que “o cristão que se ordena ao bem comum e o democrata humanista que se ordena ao interesse geral encontra-se, lado a lado, nas suas esperanças temporais e políticas”.

Buchez, Rodbertus, Lassalle, Keteller, Louis Blanc, Adolf Wagner e o Socialista de cátedra, correntes próximas da Igreja

O socialismo nasceu de fontes religiosas. Nasceu, lá por 1830 e poucos, antes de Marx, baseado em socialistas de fundo religioso, como Saint Simon, Owen, Fourier, o babovismo (as ideias do padre Morelly e do padre Mably, que Babeuf e Buonarrotti difundiram) e outras.

Outro grande expoente foi Buchez, a quem Marx chamava de chefe do “partido socialista católico”.

Buchez inspirou Louis Blanc e Lassalle (como Marx apontou, na Crítica ao Programa de Gotha). Lassalle era bem próximo da Igreja Católica.

Lassalle manteve correspondência pública com o Bispo católico Ketteler.

Ketteler escreveu um livrinho, mostrando que as linhas do socialismo de Lassalle não tinham nada contra o Catolicismo, sendo possível um católico participar do Partido de Lassalle, criado, na Alemanha, antes do Partido de Marx (houve a fusão, depois).

Lassalle também tinha sólidas ligações com Karl Rodbertus, que escreveu obras sobre socialismo, antes de Marx, obra de 1842. No Brasil, deveriam ser editadas obras como “Cartas de Lassalle a Rodbertus” (Berlim, 1878, com introdução de Adolf Wagner).

Outro livro essencial de Lassalle é a “Teoria sistemática dos Direitos Adquiridos”, onde Lassalle mostra que a evolução histórica consiste numa progressiva restrição dos direitos de propriedade, restrição que, dentro de cem a duzentos anos, levaria a uma sociedade socialista, com usufrutuários (proprietários com função social) gerindo os bens produtivos. Estas ideias são basicamente as ideias da Igreja, de função social inerente a propriedade, de uma propriedade submissa a soberania nacional popular, praticamente usufrutuária. 

É a mesma base de Karl Rodbertus, socialista de fundo religioso, que foi inclusive Ministro de Estado da Religião, dos Cultos.

Lassalle ataca as cooperativas (de crédito e de consumo) de Schulze Delitzisch, que rejeitavam a intervenção do Estado, e defendia a ideia de Buchez, de criação de cooperativas de produção, pelos próprios trabalhadores, com a ajuda do Estado.

Lassalle defendia as ideias políticas de Hegel, Rodbertus e Fichte, de um socialismo estatal democrático. Primeiro, houve o Partido de Lassalle, depois o de Marx. Os dois partidos se fundiram em 1875, após a morte de Lassalle.

Esta fusão ocorreu no Congresso de Gotha, que gerou um programa principalmente ligado a Lassalle e a Buchez, criticado no livro “Crítica ao programa de Gotha”, de Marx. O “Programa de Gotha” só foi substituído em 1891, pelo “Programa de Erfurt”, no Congresso de Erfurt, que gerou uma cisão, com Wollmar e outros, apoiando a difusão da pequena propriedade rural. Bebel e Liebknecht ficaram neutros, até 1898. 

Em 1863, Lassalle atacava o Partido Liberal prussiano, também atacado pela Igreja, pelo Partido do Centro, ligado a Igreja. Obras como “A quintessência do socialismo” (1875), de A. Schaeffle, mostram este conjunto de ideias, que foram clarificadas por Adolf Wagner.

Wagner era pessoa religiosa e sempre foi apreciado pelos grandes teóricos da Doutrina Social da Igreja, como Huet (“O reino social do cristianismo”), Ahrens, Pesch, Liberatore (defensor da economia mista), Albert de Mun, Vogelsang, Franz Hitze, padre Charles Antoine, a Escola de Liège e outros.

Outros grandes católicos foram o Cônego Pottier, Hellepute, Arturo Verhaegen, Monsenhor de Harlez, o grande TONIOLO, Georges Goyau (“Sobre o catolicismo social”), o Abade Six e sua revista “Democratie Chrétienne”), o Abade Lemire, o Cardeal Manning, o Abade Naudet (“Propriedade, capital e trabalho”) e outros.

Este apreço e respeito ocorre pelo conteúdo comum entre as melhores ideias de Adolf Wagner e dos grandes Teóricos da Doutrina social da Igreja. Ideias de uma Civilização do Trabalho. 

Ideias defendidas por autores católicos como Lamennais, Ozanam, Lacordaire, Blome, Belcredi, Thun, Depauli, Zalinger, Falkenstein, o Príncipe de Liechtenstein e outros, para superar o regime assalariado.

A Grande Linha Democrática Popular da Doutrina social da Igreja, a linha de Francisco I

A busca de um regime justo, de uma democracia popular (socialismo democrático) não-capitalista, foi a linha de São Tomás Morus, Las Casas, Campanella, o abade de Saint-Pierre (1658-1743), Mably e outros precursores católicos de Marx. É a linha de João XXIII, de Francisco I.

Foi a linha retomada por Buchez, Lamennais, Ozanam (1813-1853), Lacordaire (1802-1861), Tocqueville, o abade Antônio Rosmini Serbati (1797-1855, um dos maiores luminares do pensamento italiano, no século XIX), Ketteler e outros.

Depois, novamente retomada pela Escola de Liège, por Marc Sangnier, Luigi Sturzo, Jacques Maritain, Mounier, do Cardeal Journet, do Cardeal Lercaro, do beato João XXIII, Alceu, Dom Hélder, Dom Lombardi (Núncio Apostólico no Brasil, de 1954 a 1964, amigo de Dom Hélder), Frei Betto, Dom Balduíno, Dom Hélder, Dom Casaldáliga, do Cardeal Leão José Suenens, do padre Yves Congar e de outros luminares da Igreja.

A linha democrática popular da Igreja também brilhou na luta dos poloneses e dos irlandeses. Por exemplo, na luta de Daniel O´Connor (1775-1847).

O´Connor foi chamado “o grande Agitador”, o “Libertador” da Irlanda, tendo sido aluno dos jesuítas, advogado (jurista mesmo), tribuno, jornalista, escritor, fundador de clubes políticos, deputado, especialista em comícios e lutas políticas.

O´Connor deixou obras como “Memórias sobre a Irlanda” e foi elogiado por grandes sacerdotes como Lacordaire, o padre Ventura d´Raulica e mesmo por Marx.

A combatividade do leigo O´Connor foi exemplar, marcando toda a luta dos irlandês contra o imperialismo inglês e por democracia.

O ideal de uma democracia popular era também o ideal cristão de William Cobbett, autor muito elogiado também por Karl Marx.

Chesterton redigiu uma boa biografia de Cobbett, no livro “La vie de William Cobbett” (Paris, Ed. Gallimard, 1929, com tradução de Marcel Agobert).

A linha Democrática popular é a linha majoritária da Doutrina social da Igreja

A linha democrática-popular de Santo Tomás Morus, Mably, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, William Cobbett, Tocqueville, Ketteler, Acton, Toniolo e outros autores é o núcleo da doutrina social da Igreja.

Lamennais, no ensaio “As formas modernas de escravidão” (1839), ensinou: “o que o povo quer, o próprio Deus o quer também, porque o povo deseja a justiça”, por isso, “a causa do povo é, pois, a causa de Deus. Ela haverá de triunfar”.

Lamennais seguiu os passos de Descartes e de Leibnitz, dois grandes cristãos (Descartes, um grande católico; Leibnitz, um grande luterano ecumênico), destacando corretamente o critério do consenso, conexo com o do bem comum.

Lamennais também ressaltou bem as “causas segundas”, na forma de agir da Providência.

O amor ao povo e à liberdade foi sempre a linha central dos livros de Lamennais.

Seus livros mereceriam ser reeditados, para serem lidos nas CEBs, especialmente as obras “O livro do povo”, “Palavras de um crente” (dedicado “ao povo”), “Hino à Polônia”, “Do passado e do futuro do povo” e “Da escravidão moderna”.

A Igreja, com os Santos Padres, adotou o melhor do pensamento antigo, da Paidéia (cf. constatou Werner Jaeger).

A “recepção” do pensamento antigo foi chamada de “régio caminho traçado pela tradição e pelos santos padres”, como ensinou o papa Gregório XVI, no breve “Dum acerbissimas”, de 26.09.1835.

No neoclassicismo, no fim do século XVIII e no início do século XIX, houve como um novo renascimento, com o elogio da Paidéia. Este elogio fazia parte do método educacional dos jesuítas. No parnasianismo, no final do século XIX, houve outra exaltação da Paidéia, onde os leigos católicos exaltaram os textos da Paidéia, em boa consonância com os textos bíblicos e dos Santos Padres.

A linha de Lamennais era a linha de William Cobbett, um autor católico bem apreciado por Marx.

Cobbett redigiu uma “História da reforma protestante na Inglaterra e na Irlanda” bem simpática ao catolicismo.

Cobbett seguia a linha democrática e radical de Gerrard Winstanley, dos “Levellers” e “Diggers”.

O livro “As opiniões de William Cobbett”, do casal G.D.H. Cole e Beatrice Cole mostram a influência de Cobbett nos cartistas e no surgimento do Partido Trabalhista.

Buchez foi o primeiro que organizou uma teoria organizada sobre as cooperativas de produção para suprimir o patronato, o capitalismo, difundindo as cooperativas com o apoio do Estado.

Buchez escreveu o artigo “As cooperativas operárias de produção”, no “Jornal das ciências morais e políticas” (em 17.12.1831), ressaltando que o excedente das unidades seria distribuído aos sócios em função do trabalho destes e outra parte seria incorporada ao capital social, num fundo indivisível. A idéia do fundo indivisível vem dos mosteiros e conventos.

Buchez seguiu o exemplo dos mosteiros e da instituição dos morgados. O morgado era a instituição dos bens das famílias, na Idade Média. Eram bens inalienáveis e eram administrados em benefício do clã familiar, uma verdadeira pequena aldeia.

Buchez defendeu a indivisibilidade do patrimônio das empresas cooperativas. Ele não era apenas teórico, criou uma cooperativa de produção, com sócios operários.

As idéias de um Fábio Konder Comparato sobre a transformação das unidades produtivas em “cooperativas” (ou “fundações”, cf. Renard) são baseadas no primado do trabalho, combinando com formas de planejamento estatal participativo.

São idéias que têm estruturas comuns com as idéias de Buchez, tal como de Marc Sangnier, Mounier e Alceu Amoroso Lima.

A fórmula de Buchez e de Ketteler é, no fundo, “a propriedade social dos meios de produção”, também defendida por Dom Hélder, no documento “Ouvi os clamores do meu povo”, de 1973, um Manifesto dos Bispos do Nordeste, organizado por Dom Hélder.

Dom Hélder, nos livros “Revolução dentro da paz” (Rio de Janeiro, Ed. Sabiá, 1968, ligada a Rubem Braga e Fernando Sabino), “Terceiro mundo defraudado”, “Utopias peregrinas”, tal como nas “Meditações do padre José”, defendia a mesma tese, da superação do capitalismo, combinando distributismo, cooperativismo e intervenção e planificação do Estado.

Num parêntese, o discurso de Dom Hélder, no “Centro Católico de Intelectuais Franceses”, em 26.05.1970, em Paris, foi um dos marcos mundiais da denúncia de torturas no Brasil, sob o governo da Junta Militar e de Médici.

Dom Hélder teve o apoio do Cardeal Marty, de Paris, mostrando que a linha predominante na Igreja é pró-democracia participativa e social, coincidente com o que Marciano Vidal chama de socialismo participativo, democrático ou humanista.

Buchez, Ozanam, Tocqueville, Ketteler, Lacordaire ou um César Cantu (1804-1895) representam o núcleo mais importante do desenvolvimento da doutrina social da Igreja, no século XIX. O mesmo vale para os grandes textos de Lamennais.

Dom Hélder seguiu os passos do padre Cícero (que elogiava, com oitenta anos, o nacionalismo de Sandino) e de Alceu Amoroso Lima. Numa poesia (de 24.07.1966) com um elogio a Lebret.

Dom Hélder escreveu: “Karl Marx, levado ao céu pela crítica ao capital e pela defesa do trabalhador” (cf. a biografia de Dom Hélder, feita por Nelson Piletti e Walter Praxedes, “Dom Hélder Câmara”, São Paulo, Ed. Ática, 1997, p. 409).

Expoentes como Dom Hélder, Dom Luciano, o abade Pierre (na França), Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Moacir Grechi e outros são a cristalização das melhores idéias do povo, da boa linha evolutiva de nosso povo e da Igreja.

Resumindo, nas palavras de Dom Hélder: “o desenvolvimento recebido do alto, pré-fabricado, sem a participação do povo na criatividade e nas opções, pode ser tudo, menos desenvolvimento”. Neste ponto, Dom Hélder tinha a mesma concepção de Paulo Freire, no livro “Pedagogia do oprimido”.

A ligação de Dom Hélder com Roger Garaudy também é outro grande sinal dos tempos, a meu ver. A palestra feita por Dom Hélder, em outubro de 1974, na Universidade de Chicago, sobre a relação entre Santo Tomás e Karl Marx, também tem a mesma linha libertária e ecumênica, mostrando que o método de Santo Tomás era ecumênico, pois acolhia todas as verdades contidas na Paidéia, nos textos de Maimônides, Averróis e Avicena.

Este método deve adotado para as verdades contidas nos textos de Marx e outros autores, como recomendava Dom Hélder.

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