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O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

A Democracia Participativa é o coração, o cérebro, a alma de um Socialismo participativo democrático e humanista

A organização da sociedade deve lembrar uma constelação ou galáxia, com milhões de estruturas participativas, para assegurar o controle pela base, O CONTROLE DO TRABALHADOR sobre os processos produtivos, os bens de produção.

A doutrina da Igreja defende o controle da sociedade organizada sobre o Estado, pois o Estado deve servir o povo, titular do bem comum.

Pio XII distinguiu entre povo e massa, destacando a importância da organização pela base (princípio da subsidiariedade, federativo, cf. os bons textos de Proudhon), para que o povo seja efetivamente sujeito da história, controlando-a.

O mecanismo mais importante para assegurar este controle democrático de base é estruturar a sociedade em milhões de estruturas intermediárias, de associações e entidades auto-geridas ou co-geridas, especialmente unidades produtivas autogeridas, pelos TRABALHADORES.

Este “plano” estava patente nos textos de Georges Renard e dos institucionalistas, que queriam transformar as grandes empresas em fundações operárias, inspirando-se nos grandes mosteiros da Igreja, como fizeram Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly, Mably, Owen, Fourier e outros socialistas utópicos teístas.

Owen seguia o modelo de Bellers e as pegadas de grandes líderes cristãos como Johann Georg Rapp (1757-1847).

Johann Geog Rapp era cristão, apesar de alguns erros graves e foi o fundador da seita dos rappitas (“Harmony society”) e das colônias Harmonia e Nova Economia. Este autor influenciou Engels, como pode ser lido no ensaio “Descrição das colônias comunistas”, de 1845, onde Engels descreve uma série de colônias comunistas religiosas como prova da possibilidade prática do comunismo.

A religiosidade juvenil de Engels fica patente em suas cartas a Friedrich Graeber, lá por 1839, quando escrevia (em 15.06.1839):

“Comigo ocorre o mesmo que a Gutzkow: quando vejo que alguém desdenha de forma altiva o cristianismo positivo, saio em defesa desta doutrina, que responde à necessidade mais profundamente sentida da natureza humana, ao anelo de ver-nos redimidos do pecado pela graça divina; mas quando se trata de defender a liberdade da razão, protesto contra tudo o que seja coação”.

O jovem Engels já vislumbrava que a razão e a religião são complementares.Durante praticamente toda sua vida, nas cartas pessoais, inclusive a Marx, Engels às vezes faz referência a Deus e até a Cristo (“nosso amigo Cristo” que teria ensinado que devemos ser “bons como as pombas e espertos como a serpente”, ele lembra a Marx rs).

O mesmo ocorre nas cartas pessoais das filhas de Marx, até o final das vidas destas.

A religiosidade juvenil de Marx, Engels e Bakunin foi demonstrada em meu livro sobre a história do socialismo.

Estes autores, quando jovens, escreveram textos bem profundos no sentido teológico.

Os jovens Marx, Engels e Bakunin escreveram textos dignos de figurar na leitura diária das CEBs e nos textos de teologia da libertação.

Um dia, espero que uma boa editora publique uma coletânea dos textos religiosos e juvenis destes três autores, pois são textos teológicos de bom nível.

A concepção (cristã e natural, por ser racional) do controle popular sobre o Estado e sobre a economia (os bens produtivos, os processos produtivos, a organização geral da economia) é corolário (conseqüência) do princípio de subsidiariedade (tal como do bem comum, da solidariedade), que diz que a sociedade deve organizar-se de cima para baixo para que seja assegurado o bem comum.

Por isso, a DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E POPULAR é o CORAÇÃO de um Socialismo participativo e humanista. 

Difusão de bens, do poder, do saber, dos prazeres, eis o Plano Central de Deus

O Estado é uma obra humana, UMA CONSTRUÇÃO HUMANA, um conjunto de atos humanos.

A finalidade intrínseca do Estado e da sociedade, e assim a medida da legitimidade (o critério-chave) é a de defender, proteger e promover a dignidade humana, a vida humana, realizar o bem comum.

A Bíblia ensina que a sociedade deve ter a forma de uma comunhão de bens, uma comunidade participativa, partilhando os bens e o poder.

Na prática, significa todas as famílias terem casas boas (há um texto ótimo de Kautsky sobre isso), lotes, móveis, acesso a internet rápida e gratuita (banda larga), transporte público de ótima qualidade, sistema público de saúde e educação, ótima Previdência (paga pelo Estado e pelas empresas), boas aposentadorias (com 50 anos, o Estado já deveria dar algo, aumentando com a idade), bons empregos (demissão só com justa causa, jornada pequena, ótima remuneração), milhões de micros e pequenas empresas familiares, milhões de cooperativas, milhares de ótimas estatais com co-gestão, planejamento participativo etc. 

Todo poder vem de Deus, por mediações, especialmente pela mediação da consciência do povo, das pessoas

O poder vem de Deus (cf. Rom 13,1), mas mediante as pessoas, a sociedade, o povo, como demonstraram Santo Ambrósio, São Basílio Magno, São João Crisóstomo e os demais Santos Padres.

A mesma lição está nos textos de Boécio, São Isidoro de Sevilha, o Arcebispo John de Salisbury (m. em 1080), Manegold de Lautenbach (m. em 1110), Fernão Lopes, São Tomás Morus, Bartolomeu las Casas, Francisco de Vitória, Francisco Suarez, o abde de Saint Pierre, Fenélon, Montesquieu, Alexander Pope (1688-1744), Santo Alfonso Maria de Ligório (1696-1787), Mably e outros. Merecem destaque estrelas como Salisbury, Morus, Las Casas, Suarez, Bellarmino, Ligório (o patrono da teologia moral), Mably, o bispo John Caroll (1735-1815), Frei Caneca (1774-1825), William Cobbett, O´Connell, Buchez, Ozanam, Dom Félix Dupanloup (1802-1878), Lacordaire, Ketteler, Mun, Lavigerie, Luis Windthorst, Manning, Gibbons, Ireland, Manning, Billot, Maritain, Cardjin, Rommen, Alceu, Dom Hélder e outros luminares, que expuseram corretamente a teoria cristã sobre o poder público.

O poder legítimo nasce imediatamente da sabedoria (das idéias verdadeiras, fruto do diálogo) do povo, da bondade do povo.

O poder legítimo reflete a Trindade, as processões da Trindade.

O poder legítimo é fruto do Logos, do Verbo, do Amor, da Bondade, do Bem comum. O poder legítimo procede de Deus mediante a Sabedoria do povo, atuando pelo Amor, pela realização do bem comum.

A teoria cristã sobre o poder é, assim, a teoria popular sobre o poder. Esta teoria tem como princípio-chave o ideal da destinação universal dos bens, da Comunhão, inclusive do poder, sendo este o ideal do bem comum, a regra suprema do bem comum.

Todos devem usar e fruir dos bens na medida das próprias necessidades (cf. At 4,32), erradicando a miséria e a riqueza privada, organizando a sociedade com base na mediania, na igualdade, pois Deus não faz acepção de pessoas.

A teoria popular sobre o poder é a teoria natural e racional sobre o poder, sendo, assim, a teoria cristã do poder.

Esta teoria sobre o poder e os bens inspirou a Igreja e está bem clara na Bíblia, na recepção cristã do melhor da teoria grega-romana sobre o poder, nos Santos Padres, Isidoro de Sevilha, Manegold, John Salisbury, na Carta Magna de 1215, em Fernão Lopes, Thomas Morus, Las Casas, Vitória, Suarez, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably e outras estrelas do catolicismo.

O ideário de Mably, por exemplo, é o núcleo dos melhores textos inclusive do jornal “O amigo do povo”, de Marat (a parte sangrenta é o joio, tendo ao lado o trigo, vindo de Mably, da Igreja).

O mesmo ocorre nos textos de Babeuf e de Buonarrotti, inspirados em Mably , Morelly, Campanella (1568-1639) e Morus, autores que o próprio Marx considerava como precursores, como seus fundamentos teóricos.

O mesmo ocorria na Liga dos Justos, onde Weitling fundamentava o ideal de comunhão social democrático e socialista nas idéias cristãs.

Estes ideais estão também nos textos religiosos de Saint-Simon, Owen, Leroux, Considerant, Buchez e outras estrelas socialistas.

Conclusão: a ação humana, do povo, é causa eficiente secundária no destino humano, atuando em interação dialógica e concursal com Deus, a Causa Primária de tudo o que é bom.

O poder vem de Deus, mediante o povo, pela consciência do povo, partindo do povo, sendo exercida pelo povo, para o bem do povo.

A Tradição socializante da Igreja, dos católicos, no Brasil e no mundo

A doutrina social da Igreja é formada pela confluência entre o melhor da civilização grega-romana (e fenícia, egípcia, persa, suméria, babilônica, hindu, bantu etc) e o melhor da Tradição hebraica. Esta confluência ou síntese forma, no prisma humano, o cristianismo. Depois, há a Tradição dos Santos Padres, a Escolástica, São Tomás Morus, o abade Saint Pierre, os grandes santos, Mably, Morelly, o bispo Gregório, o bispo Faucher e outros, indo para os precursores da doutrina social (no sentido estrito) e os grandes Papas.

Todas estas fontes confluem em vários movimentos, especialmente a Ação Católica, dirigida principalmente por Alceu e Dom Hélder, no Brasil. Outro marco foi a A.P (Ação Popular, que surgiu da JUC), que defendia idéias de socialismo participativo, com liberdade. Os textos dos irmãos Betinho e Henfil trazem a mesma concepção, relacionando socialismo e democratização radical da sociedade. Esta concepção faz parte das entranhas do PT.

Dom Ivo Lorscheiter, que foi presidente da CNBB, propôs, em 1983, um modelo social cooperativista para o Brasil. Teve, ainda, uma militância na ação comunitária e cooperativista, na região de Santa Maria/RS. Seu irmão, Dom Aloisio Lorscheiter, em Fortaleza, defendia idéias semelhantes.

Outros bispos, como Dom José Gomes, Dom Hélder, Dom Casaldáliga, Dom Paulo E. Arns, Dom Tomás Balbuíno e muitos outros, defenderam idéias socializantes e democráticas (e muitos usaram o termo “socialista”). Vários bispos usaram corretamente a expressão socialismo com liberdade, ou socialismo personalista, ou socialismo participativo. Os marcos são Alceu e Dom Hélder. Na mesma linha, autores como Barbosa Lima Sobrinho, Getúlio, João Goulart, Brizola, San Thiago Dantas e centenas de outros. 

A CNBB, numa Mensagem da Comissão Central, na Páscoa de 1963, defendeu várias reformas de base essenciais, propostas por João Goulart, citando João XXIII e Getúlio Vargas, especialmente a reforma agrária (anti-latifundiária), a empresarial (formas de co-gestão e de participação na propriedade e nos lucros que visavam abolir o regime salarial), tributária (preferência pelos tributos diretos e progressivos, como forma de obter a justiça social, o bem comum), administrativa (democratizando o Estado), eleitoral e do sistema educacional.

Estas idéias eram defendidas, antes, por pensadores cristãos como Loewenstein, Vogelsang e Breda, que queriam a superação do regime assalariado, o mesmo fim almejado pela Liga Democrática belga e aprovada num Congresso de pensadores cristãos, em Roma, em 1894.

O Pe. Luigi Sturzo, na Itália, seguiu idéias semelhantes, que ecoaram na opção de Aldo Moro de aceitar amplas coligações com os socialistas e comunistas. Os governos de coalizão entre democratas cristãos e socialistas, na Itália, desde 1946, ficando mais forte em 1962, demonstram a mesma posição doutrinária. Na Itália, o PDC tinha várias correntes. Alcide Gasperi controlou o PDC após a segunda guerra e colaborou para melhorar a Itália, promulgando uma Constituição, com muitos pontos positivos e aceitava coligações com os socialistas. 

Depois, Amintore Fanfani passou a controlar parte do partido, graças a seguidores na Universidade de Católica de Milão. Aldo Moro, nascido em 21.09.1916, controlava um segmento mais à esquerda. Aldo Moro foi Ministro da Justiça e Ministro da Educação e várias vezes deputado federal. Aldo guiou o PDC na aliança com os socialistas, com o apoio da Igreja. A aliança não foi condenada, pois as idéias socialistas já tinham sido objeto de discernimento e depuração, estando adequadas à doutrina da Igreja. Além disso, muitas idéias socialistas tinham origens bíblicas, ou seja, no próprio Deus. Aldo Moro também admitia coligação com os comunistas. Este movimento foi que gerou o atual Partido Democrático, na Itália, com católicos sociais, socialistas e comunistas italianos eurocomunistas do antigo PCI. 

Fanfani, na década de 30, escreveu bons textos anticapitalistas. Na década de 60, defendeu a coligação com os socialistas. Depois, infelizmente, foi se tornando complacente com o capitalismo, até ser afastado da direção do PDC. Aldo Moro reforçou a ligação com os socialistas e tentou uma aliança com os comunistas, até ser assassinado. Há historiadores que apontam o dedo da CIA, pois a morte de Moro favoreceu as multinacionais.

As atividades da CIA mostram a face cruel e imperialista dos governantes dos EUA, representantes das multinacionais. O livro recente de Lincoln Gordon, que foi Embaixador dos EUA no Brasil, no período do golpe militar de 1964, confessa o que foi apurado na CPI do IBAD: que a CIA, tal como as multinacionais, financia e dá dinheiro (compra as consciências, forma traidores) para candidaturas de parlamentares e governantes, que defendem políticas da preferência do FMI e das multinacionais. Mais claramente, a CIA organiza a atuação das multinacionais, do latifúndio e do grande capital nacional (oligarquia), para o controle do Estado brasileiro. A esquerda combate isso, lutando por um Estado popular, de todo o povo. 

O padre Jacques Roux, o Cura Vermelho, um dos muitos padres precursores do socialismo e da luta pela Democracia popular

O padre Jacques Roux, precursor do socialismo, da Democracia popular e da teologia da libertação.

Jean Jaurès, no livro “História Socialista de la Revolucion Francesa” (Editorial Poseidon, Buenos Aires, Argentina, 1946), elogiou o padre Jacques Roux como o líder dos enragés, dos enraivecidos. Roux combatia o açambarcamento, os juros, os ágios, a usura e atacavam os monopolizadores privados (trustes e cartéis da época), os agiotas (bancos privados) e outros exploradores. Jean Varlet foi outro líder, mas não tinha sequer 20 anos e por isso não é tão citado.

O padre Roux tinha 40 anos na fase mais turbulenta da Revolução Francesa.

Jaurès demonstrou que Roux era mais radical que Robespierre, Marat e Hébert.

Roux e François-Émile Babeuf tinham algumas posições semelhantes, defendendo, como Mably, uma boa economia mista. Vou postar textos de Babeuf e Mably sobre economia mista. Lembro que o próprio Marx, no “Manifesto”, defende, como regime de transição, uma economia mista. Lembro também que Lenin defendia a NEP, Nova Economia Política, economia mista, ideal bem exposto por Bukharin, que Stalin deveria ter mantido, pois isso permitir o florescimento da URSS como economia mista, coisa que Putin tenta realizar hoje.

Robespierre, Danton, Saint-Just e outros tinham fortes sentimentos e idéias religiosas. Na linha de Mably, Morelly, do padre Raynal, de Babeuf e de Buonarrotti, nenhum deles era ateu. Mesmo Diderot morreu como panteísta estóico, elogiando o grande Sêneca, como o maior exemplo de filósofo. Voltaire morreu reconciliado com a Igreja. Voltaire só foi maçon por poucos meses, antes de morrer, morrendo, no entanto, como católico, com os Sacramentos, Unção dos Enfermos etc. 

O próprio Marat entrou em choque com os materialistas epicuristas do século XVIII e defendeu a imortalidade da alma em suas obras sobre medicina e fisiologia.

Da mesma forma, Marat defendeu os presos pobres, escreveu obras de criminologia e sobre reforma do Judiciário, com boa fundamentação jusnaturalista e cristã. A forma como Marat analisava os fatos mostra seu apreço pela ética e pelo povo. Ele errou ao defender medidas sanguinárias, mas sempre foi um jornalista popular, que defendia causas populares.

O padre Roux foi um dos líderes dos enragés, enraivecidos. Atacou duramente o monopólio econômico dos ricos (acúmulo privado dos bens), denunciando os agiotas etc. Defendia os camponeses, os pequenos produtores e os artesãos (no fundo, formas cooperativas), um grande Estado democrático popular, exigindo também limites e regulamentação estatal da produção (formas de planejamento).

O padre Jacques Roux escreveu “Discurso sobre os meios de salvar a França e a liberdade”. No clero, houve vários sacerdotes e bispos que participaram na revolução. Os leigos franceses eram, quase todos, católicos. Bonaparte, ao assinar a Concordata com o Papa, lá por 1804, apenas explicita a reconciliação da Igreja com as melhores ideias da Revolução Francesa, pois estas ideias de igualdade, fraternidade e liberdade eram ideias cristãs (cf. vários Papas, como Leão XIII, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II reconheceram isso, em lindos discursos e textos da Igreja). 

Entre o clero, basta pensar nos exemplos do Bispo de Blois, Dom Henri Grégoire (1750-1831) e do Bispo Talleyrand, podendo ainda serem citados os sacerdotes Sieyés e Fouché.

São exemplos de membros do clero na revolução. Há também o padre Pierre Dolivier, cura de Mauchamp. O clero teve, assim, participação na Revolução Francesa. O Bispo Dom Henri Grégoire defendeu a abolição dos escravos, a República, um Estado social, defendeu os judeus etc. Uma boa estrela da Igreja. 

Houve também membros do alto clero, com indicações palacianas e entre famílias nobres, que ficaram ao lado dos aristocratas e são responsáveis pelos escândalos que afastaram muitas pessoas boas da Igreja, tal como são responsáveis alguns bispos que se omitem hoje e não defendem os pleitos populares.

O “Círculo Social”, outro marco religioso, da história do socialismo

O “Círculo Social” foi fundado por dois grandes padres, Nicolas de Bonneville e Claude Fauchet, que apenas davam continuidade à linha de outros padres como Mably, Morelly, Raynal, Siyès, Condillac (irmão de Mably), o Cura Vermelho Roux e outros.

Estes padres, tal como outros, foram precursores do socialismo, do socialismo pré marxista, estando na origem de boa parte das ideias boas de todas as correntes do socialismo, inclusive do marxismo (que tem, assim, raízes religiosas, parte de suas ideias são bíblicas e oriundas de padres). 

Segundo Milton Meira do Nascimento (um professor de ética e filosofia política na USP), estes dois sacerdotes fundamentavam suas idéias na:

tradição do povo franco, que tinha o costume de redistribuir as terras eqüitativamente todos os 6 anos, para impedir que os grandes estendessem seus domínios e os pobres não tivessem para onde ir e para que o povo mantivesse o espírito de igualdade e não se acomodasse com a fixação num só lugar, o que poderia conduzi-lo a toda espécie de vícios e deixá-lo despreparado para a guerra. Além disso, entre o povo franco, a divisão igualitária da terra era seguida de um culto à natureza, pois os francos reconheciam nela o próprio espírito criador, o pai de toda espécie humana, que Ihe oferecia o pão todos os dias e a esperança de uma vida feliz. O nome da natureza, segundo Bonneville, é o mesmo do Deus de Abraão, Jehova, aquele que é. Diz ele:

“Aceitai pois em vossa consciência a explicação simples e natural do nome Jehova, que, proclamado no universo inteiro por um povo livre, instrumento da verdade, deve enfim consolar a espécie humana e afastar dos homens todos os vícios. Jehova, Jehova! Os homens íntegros te prestam um culto eterno. Teu nome é a palavra de ordem e a lei dos Francos… agrária”.

Bonneville tinha razão. Na própria Idade Média, tal como antes, nas vilas e aldeias, os camponeses tinham lotes próprios e existiam terras comunitárias, da aldeia (do Município, hoje), ou seja, terras próprias e terras comunitárias (públicas), economia mista, uma reforçando a outra. 

A idéia de repartição periódica da terra comunitária, no fundo cooperativismo, é recomendada nos textos de Moisés (sobre o Jubileu) e existiram em quase todas variedades do modo de produção comunitário e também em praticamente todas as espécies do modo de produção asiático.

Moisés queria um povo camponês e artesão, senhor dos próprios meios de produção e das próprias condições de trabalho. A cada 49 anos, a terra retornava a família original, evitando os latifúndios, as grandes fortunas privadas. Também existiam terras comunitárias, públicas, entre os judeus, tal como entre outros povos camponeses. 

Como escreveu o prof. Meira, “a afirmação de que a própria divindade exigia a divisão igualitária da terra dava a essa proposta uma dimensão extraordinária. Nesses termos, fazer a verdadeira revolução significava fazer o povo francês redescobrir as suas origens, que remontam à história do povo franco”.

Meu comentário – o termo “Jehova”, no entanto, deveria ter sido corrigido para Javé, que é o termo mais correto para designar o Deus dos hebreus e dos cristãos (o nome do Pai).

Robespierre também defendia o culto ao Ser Supremo (a Deus), condenando o ateísmo. Esta condenação era apoiada pelos membros do Círculo Social.

Boneville e Fauchet eram sacerdotes. Boneville tornou-se bispo constitucional. Nicolas de Bonneville (1760-1828) escreveu o livro “Do espírito das religiões, obra prometida e necessária para a confederação universal dos amigos da verdade”, em 1791.

Segundo vários autores, este livro influenciou Hegel.

Bonneville dirigia o jornal “A boca de ferro”. O Círculo Social durou de outubro de 1790 até junho de 1793. O livro de Bonneville criticava a divisão iníqua da propriedade e do trabalho. O Círculo Social tinha o apoio de pessoas como o padre Sieyès, Thomas Paine e Brissot e foi uma das fontes religiosas do marxismo.

O ideal da expansão do Estado social e econômico, um ideal cristão e natural, difundido no mundo

O ideal de Beveridge de um grande Estado de bem-estar social, de cobertura integral, é um desdobramento das idéias de Morus, Vives, São Vicente de Paulo, Mably, Morelly, padre Raynal, Padre Roux, bispo Gregório, os bispos do Círculo Social e de Buonarotti, que era cristão e socialista, a alma do babuvismo. E com estatais, planejamento participativo etc. 

O esboço de um “Estado de justiça social”, do padre José Luís Aranguren (1909-1996), tem o mesmo ideal, de um grande Estado do Bem-Estar social (há as mesmas idéias no livro de Aranguren, “Ética e política”, Madrid, 1963).

Em Cuba, este era o ideal cristão de Chibás, do Partido Ortodoxo, que era o partido original de Fidel Castro. O Partido Ortodoxo era ligado a Igreja, ao ideal de uma democracia popular, sendo a base inicial dos textos de Fidel Castro, contra o liberalismo.

O Estado ampliado do bem-estar é o Estado segundo o ideal cristão, preconizado pela doutrina social da Igreja e pelos textos dos teólogos da libertação.

Coincidindo, em muitos pontos, com este ideal, há toda a corrente do socialismo democrático, do nacionalismo de esquerda anti-imperialista, do distributismo etc.

Na mesma linha, há, com diversos matizes, toda uma constelação de textos reformistas e anti-capitalistas.

Por exemplo, para citar de memória, lembro os textos de homens como William Beveridge, Oskar Lange (antigo professor na Universidade de Chicago), os melhores textos de Keynes (a corrente do keynesianismo de esquerda, com Joan Robinson como uma das estrelas), alguns textos de John Kenneth Galbraith, Gunnar Myrdal, Perón, Nasser, Tito, Harold Laski, Sidney Webb, Beatrice Webb, Gandhi e Nehru, do Partido do Congresso, os textos da CEPAL sob Raul Prebisch (aguados e ralos, mas não neoliberais…), o nacionalismo da África do Sul (Mandela) e de centenas de outros movimentos políticos e sociais, que procuram dividir os bens e a renda, atendendo às necessidades do povo.

Os dois erros fundamentais do liberalismo econômico, do economicismo

Lendo as cartas do economista Ricardo, que faleceu lá por 1823, fica claro que Ricardo, James Mill, McCulloch, Malthus, J.B. Say representam as ideias do liberalismo econômico.

A principal ideia é que o Estado não deve ter ingerência, controle e participação na economia, nas relações de produção. Outra ideia chave é que os ricos são os motores do crescimento econômico, ou seja, o elogio dos capitalistas, dos ultra ricos. 

Estas ideias principais do liberalismo econômico nascem com o economicismo dos fisiocratas. Destes, os principais foram François Quesnay, Vincent de Gournay, Turgot e, depois, por Adam Smith. 

Estas ideias liberais foram rebatidas, já durante a vida de Ricardo, pela corrente cristã católica, de Sismondi, William Cobbett, Goodwin, Villeneuve Bargemont e outros precursores de Marx. 

Antes, as ideias fisiocratas foram combatidas pela Escola anterior, de marca católica, o Mercantilismo (colbertismo, Cameralistas). E por defensores das ideias de Colbert, como Mably, Morelly, Diderot, Galiani, Necker, Genovesi e outros. Na Alemanha, houve Justi e Sonnenfels, cameralistas que influenciaram a formação de Marx. E também Verri, Palmieri, James Steuart e Forbonnais. 

Depois, vários autores destacaram o poder de intervenção do Estado, inclusive Napoleão III (uma besta que tentou colonizar o México, mas que, antes de assumir o poder, escreveu bons textos sobre a erradicação da miséria e intervenção do Estado), Bismarck, Buchez e outros.

Os católicos e os socialistas democráticos e possibilistas, tal como os trabalhistas e os socialistas de cátedra, defenderam a extensa intervenção estatal, para controlar as forças produtivas, as relações de produção. 

 

O socialismo cristão pré marxista foi a matriz principal das ideias de Marx, suas principais ideias são ideias cristãs anteriores

Foi na Bíblia que os grandes expoentes da democracia e do socialismo retiraram o sumo de suas idéias.

Isto fica claro nos textos de homens como os Santos Padres, Santo Tomás Morus, Campanella (cf. “A Cidade do Sol”, 1623), Morelly, Mably, Rousseau, Babeuf, Buonarotti, o Círculo Social (com o padre Faucher e outros), o padre Jacques Roux, os “enraivecidos”, a antiga Liga dos Justos (baseada nos textos de Weitling, Sismondi, Lamennais e em outros autores religiosos), os cabetistas e centenas de outros autores.

Karl Marx, a partir de 1842, sintetizou idéias destas correntes cristãs e religiosas, mais antigas, esboçando sua síntese, baseada nestes antigos conteúdos, mantendo-os, como núcleo de seu ensinamento, mas dentro de termos da terminologia hegeliana e dos economistas da época.

Lembro que Marx estudou num Ginásio criado pelos jesuítas, o Ginásio de Trier, de 1830 a 1835, dos 12 aos 17 anos, tendo como 32 colegas, dos quais 25 eram católicos, quase todos seminaristas, que se preparavam para o Seminário Maior. Ou seja, teve escola secundária e parte da fundamental, católicas. Tinha inclusive um tio católico, o tio Hirsh, irmão de seu pai. 

Harold Laski elogiou como precursores de Marx os seguintes autores: Mably, Morelly, Sismondi, Coleridge (1772-1834, anglicano ecumênico), Thomas Carlyle, Southey, Linguet e especialmente Antonio Eugênio Buret (1811-1842).

Buret era discípulo de Sismondi e foi um dos principais socialistas pequeno-burgueses, cristão e precursor direto de Engels.

Marx elogiou Buret, nos “Manuscritos”, de 1844.

Laski também considerou Phillipe-Joseph Buchez (1796-1865) como outro dos precursores diretos de Marx. Buchez foi um socialista católico, citado por Marx desde suas primeiras obras, como, por exemplo, no ensaio “Sobre a questão judaica” (1843).

Ocorre que todos estes autores eram bons cristãos, em geral católicos ou anglicanos.

Carlyle (1795-1881), por exemplo, foi extremamente lido pelo jovem Engels e criticou as mazelas do capitalismo, tendo escrito boas obras como “A Revolução francesa” (1837), “Os heróis” (1841) e “Sartor resartus” (1834), sendo esta última um bom elogio aos artesãos.

Carlyle se inspirava em Buchez, especialmente no livro sobre “A Revolução Francesa” (1837) e em Sismondi.

Carlyle ensinava que o poder de Deus fica patente (explícito) no heroísmo, na prática das virtudes, sendo esta a principal forma de atuação divina no mundo. Heroísmo não significa apenas morrer pela pátria ou para salvar outra pessoa, mas agir corretamente, com bondade (visando sempre o bem comum), durante a vida.

Marx foi um codificador, elaborando sínteses com bases em fontes pré-marxistas, praticamente todas inspiradas no cristianismo ou no pensamento hebraico (por exemplo, Moses Hess).

Babeuf e Buonarotti eram teístas, seguindo a linha teórica cristã de Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly e de Mably (também de Rousseau).

Da mesma forma, o Círculo Social, Robespierre, Marat, Saint-Just, os curas vermelhos, Jacques Roux, Petit-Jean, Croissy, Carion, Cournand ou Pierre Dolivier.

O próprio Marx, tal como Engels, reconheceram que estes autores foram seus precursores.

Este ponto fica patente no “Manifesto” e também no livro “Anti-Dühring”, a síntese de Engels. Idem, para o “Manifesto Comunista”. 

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