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As ideias cristãs fazem parte do NÚCLEO original das ideias socialistas, a parte do Trigo

“Mensagem dos bispos do Terceiro Mundo” (um documento firmado por Dom Hélder e outros bispos em 1968) é claríssima sobre o mal do capitalismo e a defesa de um modelo de socialismo democrático:

“… a Igreja, de um século para cá, tem tolerado o capitalismo com o empréstimo a juros legais e outros uso dele, pouco conformes com a moral dos Profetas e do Evangelho. Mas, ela não pode senão regozijar-se ao ver aparecer no meio dos homens outro sistema social menos distante desta moral. Caberá aos cristãos de amanhã, segundo a iniciativa de Paulo VI, reconduzir as suas verdadeiras fontes cristãs essas correntes de valores cristãos que são a solidariedade, a fraternidade (cf. “Ecclesiam Suam”). Os cristãos têm o dever de mostrar que “o verdadeiro socialismo é o cristianismo integralmente vivido, na justa repartiçaõ dos bens e a igualdade fundamental”.

“Longe de nós mostrar-nos contrários a ele; é, antes, necessário que adiramos com alegria, como a uma forma de vida melhor adaptada a nosso tempo e mais conforme com o Espírito do Evangelho” (“Cuadernos de Marcha, n. 9, janeiro de 1968. De Camilo Torres a Helder Câmara)”.

No núcleo mais profundo do movimento democrático e das correntes socialistas e comunistas há inúmeras sementes de verdade e idéias cristãs, como reconheceram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

O principal é distinguir os bons elementos (os bons sinais, sementes do Verbo) e acolhendo-os, jogando fora os erros das partes más (a água suja que lavou o bebê).

Por exemplo, a Liga dos Justos nasceu cristã, inspirada nos textos cristãos de Lamennais, Sismondi, dos carbonários, de Philip Buonarotti (1761-1837), Giuzeppe Mazzini, Saint-Simon, Weitling, Ludwig Borne (1786-1837, cristão), Victor Considerant (1808-1893), Benjamin Buchez (1796-1865) e de Etienne Cabet.

A Liga defendia, antes de Marx, a “teoria da comunidade de bens”, com base no livro “Atos dos Apóstolos”, usando os textos de Santo Tomás Morus, Campanella, Mably, Morelly.

Os primeiros socialistas usavam textos do cristianismo primitivo, de São Basílio e Moisés. Esta comunidade de bens é o princípio da destinação universal dos bens e faz parte essencial da ética cristã e hebraica.

Os carbonários, por exemplo, lutavam pela democracia e também abonam a tese deste livro sobre a harmonia entre a religião e a democracia social.

A religiosidade dos carbonários fica mais do que evidente nos textos históricos da seita, nos seus ritos e na própria fórmula do juramento.

Esta religiosidade foi reconhecida inclusive no documento “Ecclesiam a Jesu Christo” (13.09.1821), onde Pio VII constata o apreço dos carbonários por Cristo, pelo cristianismo e pela Igreja.

Nos ritos e dogmas carbonários há o amor à paixão de Cristo e por outros “mistérios” religiosos. Em seus juramentos, a base é religiosa. Tinham erros teológicos, mas também bases verdadeiras.

Na França, os líderes iniciais da Carbonária foram homens religiosos como Buchez e mesmo Bazard.

Na Itália, um de seus líderes principais foi Giuseppe Mazzini, um italiano com grande religiosidade, defensor de uma democracia social e econômica, com fundamentação religiosa.

A religiosidade dos carbonários foi atestada pelo próprio Pio VII, na bula “Eccles. à Jesu-Christo”, em 1821: “eles afetam singular respeito e um zelo admirável pela religião e pela doutrina e pessoa de Jesus Cristo, a quem” chamam de “seu grão-mestre e o chefe da sua sociedade”. Usam “discursos que parecem mais suaves que o óleo”.

Neste documento, Pio VII condenou o juramento de segredo dos carbonários, com o mesmo argumento da proibição da maçonaria.

As sociedades secretas são anti-democráticas, pois fogem à luz pública do dia. Esta premissa foi adotada pelo Cardeal Salvatore Pappalardo, arcebispo de Palermo, no conflito contra a máfia, na Sicília.

O diálogo ecumênico (ecletismo racional) e aberto entre correntes de idéias contrapostas é essencial na ética cristã, como ressaltava Alceu.

Este diálogo auxilia no surgimento de uma democracia participativa. Em outros termos, auxilia no parto de uma forma boa de socialismo humanista e participativo.

Conclusão: a difusão do controle (do poder, dos bens), ou seja, a democratização (o poder do povo em todas as instâncias) da sociedade, é uma exigência cristã e natural.

Os maiores socialistas eram cristãos e pró economia mista

François Huet, Fichte, Thomas Paine, Cobbett, Sismondi, Rousseau e muitíssimos outros escritores, quase todos socialistas cristãos (especialmente católicos), inclusive Constantin Pecqueur, defenderam economia mista.

Souberam diferenciar a parte boa da economia, que é a pequena propriedade limitada e regrada (que também deve ser organizada cooperativamente e estar sujeita ao bem comum) dos artesãos, dos camponeses e dos pequenos produtores, complementada por estatais e cooperativas. 

E a parte má da economia, a horrenda propriedade liberal-capitalista, latifúndios e grandes fábricas privadas, grandes bancos, que deve ser substituída por estatais com co-gestão, por cooperativas de produção, com planejamento estatal participativo e outras formas jurídicas que assegurem o primado do trabalho e do bem comum (correlatos ao primado da pessoa, da vida), economia mista.

Charles Gide, considerado em geral o maior teórico sobre o cooperativismo, elogiou François Huet, Charles Renouvier e outros defensores de medidas dirigistas, classificando Huet como “socialista cristão”.

Algumas das várias fontes cristãs e hebraicas do pensamento socialismo e do marxismo

Alceu Amoroso Lima, na obra Introdução à Economia Moderna (Rio, Livraria Agir Editora, 3.ª Edição, 1961, p. 281) transcreveu um texto de Otto Ruhele, célebre biógrafo de Karl Marx, onde fica patente a influência cristã no surgimento do socialismo e do próprio marxismo.

Paris hospedou MARX por pouco mais de um ano… De Paris data a sua época socialista (sic)… Paris, no tempo em que MARX aí viveu, era um cadinho de idéias socialistas e revolucionárias. Havia restos de sansimonismo, devaneios do movimento de FOURIER continuado por CONSIDÉRANT, socialismo cristão com LAMENNAIS, socialismo burguês da espécie do de SISMONDI, BURET, PECQUEUR, LEROY, VIDAL etc.” (OTTO RUHELE, Karl Marx, Leben un Werk, op. cit., pág. 87).

Marx tornou-se socialista mais ou menos no final de 1842, quando trabalhava ao lado de Moses Hess.

Foi Moses Hess quem converteu Frederico Engels ao comunismo entre outubro e novembro de 1842, quando Engels passou por Colônia em direção a Londres e depois a Manchester. É possível que Engels tenha precedido Marx, nesta via. Há uma carta de Marx a Engels, onde Marx elogia Engels por ver as coisas antes dele mesmo e que, depois, Marx segue no mesmo sentido. Claro que aí, o velho Marx ia além de Engels, a meu ver. 

Moses Hess, considerado o primeiro socialista alemão por Lassalle, tornou-se socialista pela influência francesa, tendo trocado cartas com Weitling, também alemão mas vivendo em Paris, e publicado textos deste na Gazeta Renana.

Tanto Moses Hess quanto Weitling tinham ideias religiosas fortes e boas. 

Engels, indo para Londres, encontrou-se, no início de 1843, com os líderes da Liga dos Justos na Inglaterra ( Schapper e Bauer).

Marx, quando chega a Paris, vai morar num quarto vizinho aos quartos dos líderes da Liga dos Justos (Maurer).

Das fontes apontadas por Ruhele, o sansimonismo, Fourier, Considerant, Lamennais, Sismondi, Buret, Pecqueur, Leroy, Vidal – todos tinham idéias e sentimentos religiosos. Foram estas ideias, de origem religiosa, que formaram o núcleo do ideário socialista pré-marxista e cristão, tendo também fontes hebraicas. 

O socialismo cristão pré marxista foi a matriz principal das ideias de Marx, suas principais ideias são ideias cristãs anteriores

Foi na Bíblia que os grandes expoentes da democracia e do socialismo retiraram o sumo de suas idéias.

Isto fica claro nos textos de homens como os Santos Padres, Santo Tomás Morus, Campanella (cf. “A Cidade do Sol”, 1623), Morelly, Mably, Rousseau, Babeuf, Buonarotti, o Círculo Social (com o padre Faucher e outros), o padre Jacques Roux, os “enraivecidos”, a antiga Liga dos Justos (baseada nos textos de Weitling, Sismondi, Lamennais e em outros autores religiosos), os cabetistas e centenas de outros autores.

Karl Marx, a partir de 1842, sintetizou idéias destas correntes cristãs e religiosas, mais antigas, esboçando sua síntese, baseada nestes antigos conteúdos, mantendo-os, como núcleo de seu ensinamento, mas dentro de termos da terminologia hegeliana e dos economistas da época.

Lembro que Marx estudou num Ginásio criado pelos jesuítas, o Ginásio de Trier, de 1830 a 1835, dos 12 aos 17 anos, tendo como 32 colegas, dos quais 25 eram católicos, quase todos seminaristas, que se preparavam para o Seminário Maior. Ou seja, teve escola secundária e parte da fundamental, católicas. Tinha inclusive um tio católico, o tio Hirsh, irmão de seu pai. 

Harold Laski elogiou como precursores de Marx os seguintes autores: Mably, Morelly, Sismondi, Coleridge (1772-1834, anglicano ecumênico), Thomas Carlyle, Southey, Linguet e especialmente Antonio Eugênio Buret (1811-1842).

Buret era discípulo de Sismondi e foi um dos principais socialistas pequeno-burgueses, cristão e precursor direto de Engels.

Marx elogiou Buret, nos “Manuscritos”, de 1844.

Laski também considerou Phillipe-Joseph Buchez (1796-1865) como outro dos precursores diretos de Marx. Buchez foi um socialista católico, citado por Marx desde suas primeiras obras, como, por exemplo, no ensaio “Sobre a questão judaica” (1843).

Ocorre que todos estes autores eram bons cristãos, em geral católicos ou anglicanos.

Carlyle (1795-1881), por exemplo, foi extremamente lido pelo jovem Engels e criticou as mazelas do capitalismo, tendo escrito boas obras como “A Revolução francesa” (1837), “Os heróis” (1841) e “Sartor resartus” (1834), sendo esta última um bom elogio aos artesãos.

Carlyle se inspirava em Buchez, especialmente no livro sobre “A Revolução Francesa” (1837) e em Sismondi.

Carlyle ensinava que o poder de Deus fica patente (explícito) no heroísmo, na prática das virtudes, sendo esta a principal forma de atuação divina no mundo. Heroísmo não significa apenas morrer pela pátria ou para salvar outra pessoa, mas agir corretamente, com bondade (visando sempre o bem comum), durante a vida.

Marx foi um codificador, elaborando sínteses com bases em fontes pré-marxistas, praticamente todas inspiradas no cristianismo ou no pensamento hebraico (por exemplo, Moses Hess).

Babeuf e Buonarotti eram teístas, seguindo a linha teórica cristã de Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly e de Mably (também de Rousseau).

Da mesma forma, o Círculo Social, Robespierre, Marat, Saint-Just, os curas vermelhos, Jacques Roux, Petit-Jean, Croissy, Carion, Cournand ou Pierre Dolivier.

O próprio Marx, tal como Engels, reconheceram que estes autores foram seus precursores.

Este ponto fica patente no “Manifesto” e também no livro “Anti-Dühring”, a síntese de Engels. Idem, para o “Manifesto Comunista”. 

A Liga dos Justos tem origem cristã, em autores cristãos pré marxistas

No núcleo mais profundo do movimento democrático e das correntes socialistas e comunistas há inúmeras sementes de verdade e idéias cristãs, como reconheceram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

O principal é distinguir os bons elementos (os bons sinais, sementes do Verbo) e acolhendo-os, jogando fora os erros das partes más (a água suja que lavou o bebê).

Por exemplo, a Liga dos Justos, que praticamente ensinou a Marx o abc do socialismo, nasceu cristã, inspirada nos textos cristãos de Lamennais, Sismondi, dos carbonários, de Philip Buonarotti (1761-1837), Giuzeppe Mazzini, Saint-Simon (vide “O novo cristianismo”), Weitling, Ludwig Borne (1786-1837, cristão), Victor Considerant (1808-1893), Benjamin Buchez (1796-1865) e de Etienne Cabet.

A Liga defendia, antes de Marx, a “teoria da comunidade de bens”, com base no livro “Atos dos Apóstolos”, usando os textos de Santo Tomás Morus, Campanella, Mably, Morelly.

A Liga usava textos do cristianismo primitivo, de São Basílio e Moisés, o mesmo fazendo, depois, Rosa de Luxemburgo e outros expoentes do socialismo.

Esta comunidade de bens é o princípio da destinação universal dos bens e faz parte essencial da ética cristã e hebraica. Não exige a eliminação da propriedade, só da propriedade baseada na exploração e na acumulação. 

O ideal histórico concreto dos cristãos é uma Democracia Popular, de economia mista com Estado social

Jacques Maritain escreveu o livro “Humanismo integral” (São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1941), onde expõe o ideal histórico concreto dos cristãos.

Maritain lembra que as ideias cristãs têm ideias éticas comuns a todas as pessoas. Estas ideias, marcadas pela universalidade (católico é uma palavra grega, cujo significado é “universal”), na vida prática, geram um ideal prático histórico. 

Este ideal exige, nas palavras de Maritain, “novas estruturas sociais”, “um regime novo de vida social que suceda ao capitalismo” (pp. 46 a 56, do livro citado).

Maritain trabalhava em parceria com Emmanuel Mounier e auxiliou este na fundação da Revista “Esprit”.

Maritain apenas continuou a linha das ideias de Mably, William Cobbett, Sismondi, Lamennais, Ozanam, Buchez, Ketteler, Hitze, Lacordaire, De Mun, Tocqueville, Antoine, Liberatore, Adolph Wagner, Pesch, John Ryan, Chesterton e outros, defensores de um modelo de economia mista, democracia popular e vasto Estado social.

Uma parte destas fontes também geraram boa parte das ideias de Marx (especialmente Cobbett, Sismondi, Lamennais, Buchez e outros). São ideias católicas dentro do marxismo, que devem ser resgatadas, com atribuição correta das fontes. 

O ideal histórico concreto é basicamente uma Democracia popular participativa, com economia mista (grandes estatais, cooperativas e um setor privado com pequenas e médias empresas familiares, sendo este o tripé do núcleo da economia), amplo Estado social, planejamento público participativo da economia, redução maciça da jornada de trabalho, estabilidade no emprego, participação na gestão da produção e nos lucros, imensa legislação trabalhista e previdência, renda básica para todos etc. 

Convergência entre católicos e socialistas decorre das fontes comuns, da ética social cristã e hebraica

Houve, no século XIX, uma convergência entre socialistas católicos e cristãos, democratas sociais ligados à religão (como Stuart Mill) e outras correntes.

Esta convergência, mais tarde apontada por Pio XI, na “Quadragesimo anno” (1931), reatava as ligações entre socialismo, democracia e religião, como existiam, já, em várias correntes do socialismo utópico.

Por isso, Schmoller ligava suas posições de intervencionismo estatal na economia à corrente de Sismondi, Dupont White (“O indivíduo e o Estado” e “A liberdade política”), Mathew Carey, Henry Carey, Friedrich List e Stuart Mill.

O “Manifesto de Eisenhach”, do socialismo de cátedra, de 1872, diz que o Estado deve ser um “grande instituto moral de educação” e que deve ter como ideal “fazer participar uma fração cada vez maior de nosso povo em todos os bens da civilização”, a parte de cada no bem comum, como destacou Bento XVI, na sua encíclica social, antes de renunciar e abrir caminho a Francisco I.

O socialismo com base na ética social era a tônica de Adolf Wagner. Esta linha socialista, hegemonicamente cristã, admitia amplo distributismo de pequenos e médios bens, com a estatização de grandes bens produtivos, planificação e democracia (convenceram Bismarck a cessar a perseguição à Igreja e instaurar seguros sociais e o voto universal).

No mesmo sentido, vale à pena a leitura do “Programa dos deputados católicos da Holanda”, elaborado em Utrecht, em 1897.

O socialismo de cátedra e dos historicistas teve amplos pontos em comuns com a dos melhores expoentes da doutrina social da Igreja, como destacou o padre Heinrich Pesch (1854-1926) e outros escritores, especialmente Ketteler e Buchez.

Pesch, tal como seu irmão Tilmann Pesch (1836-1899), ensinava inúmeros pontos comuns com os melhores textos de socialistas cristãos como Adolfo Wagner.

O livro de Pesch, “Tratado da economia nacional” (1905-1923), mostra como toda a doutrina social da Igreja é centrada nas exigências racionais do bem comum, expondo as linhas gerais do solidarismo cristão, semelhantes à corrente do solidarismo na França, da III República, onde também houve uma convergência entre católicos sociais e socialistas possibilistas e cristãos.

O solidarismo foi uma busca para elaborar as linhas gerais de uma democracia social, participativa e popular.

Os textos de Pesch são, em vários pontos, semelhantes aos de expoentes como Ketteler, Buchez, e também socialistas cristãos como Rufolf Meyer (amigo pessoal de Engels), Rodbertus, Schmoller, Roscher e outros.

Reforma agrária é um plano geral, bem amplo, de Estado social

A Reforma Agrária exige ampla intervenção estatal na economia, apoio do Estado à produção agrícola campesina e orgânica, tal como acesso de todos ao solo, aos bens. 

Exige economia mista, grande propriedade pública, e difusão de pequenas e médias, numa boa combinação, de ativos públicos e privados de pequeno porte.

No fundo, reforma agrária é uma forma de socialização, que deveria adotar os moldes arquitetônicos esboçados pelo espanhol católico, Arturo Soria y Mata (1844-1920), especialmente nas formas de cidades lineares (uma espécie de cidade-jardim e neste ponto vale a pena ler também Ebenezer Howard, “Cidades-jardins de amanhã”).

Este tipo de estrutura arquitetônica oferece, acredito, a melhor base para uma boa reforma agrária.

Uma boa reforma agrária deve fundir o campo e a cidade, espalhando no campo as estruturas boas próprias das cidades.

A separação entre cidade campo, como se fossem “duas nações hostis”, foi bem criticada por David Urquhart, escritor católico ou calvinista que atuou numa parceria informal com Karl Marx e foi citado por este com elogios. Urquhart, Sismondi e Pitt elogiavam os textos dos Papas.

A eletrificação, como apontou Alceu, permite esta fusão.

Soria y Mata foi um republicano católico abolicionista, pitagórico (fascinado pelo tetraedro) que, em obras como “A cidade linear” (1894) ou “Gênesis” (1913), deixou esboços para a união entre campo e cidade.

Em suas idéias, combina o que há de bom nas cidades pequenas (o modelo predileto de Rousseau, Jefferson ou Chesterton) com uma estrutura de transporte estatal (ferrovias) que as une, o que lembra as idéias de cooperativismo com planejamento e apoio estatal, de Buchez e João XXIII.

Antônio Pedro de Figueiredo, negro, socialista e católico. Precursor do socialismo no Brasil. Discípulo de Buchez, de Victor Cousin, eclético

Amaro Quintas – bom amigo de José Honório Rodrigues, um historiador católico, eminente, do PSB, elogiadíssimo por Alceu –, no livro “O sentido social da Revolução Praieira” (Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1967, pp. 147-148), fez um bom elogio da revolução praieira e do papel de líder intelectual, de Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1850).

Antônio era negro, socialista e católico, como Domingos Velasco, outra grande liderança católica e socialista (idem para Alceu, Pontes de Miranda, Sérgio Buarque de Holanda e outros).

Vejamos o texto de Amaro:

“Diz Pereira da Costa ter Antonio Pedro de Figueiredo nascido em Igaraçu no dia 22 de maio de 1822. Essa afirmativa na me parece, entretanto, retratar fielmente a verdade. Noticiando o falecimento do mulato socialista afirma historiógrafo pernambucano que a “morte o arrebatou a vida da eternidade, aos trinta e sete anos de idade, no dia 21 de agosto de 1850”.

Mas o jornal Liberal Pernambucano de 25 e agosto de 1859 anota: “Obituário das pessoas que foram sepultadas no cemitério público. Dia 22, Antonio Pedro de Figueiredo, pernambucano 45 anos, solteiro, São José, congestão cerebral”. A mesma coisa encontramos no Diário de Pernambuco de 23 de agosto de 1859; “Mortalidade do dia 22: Antonio Pedro de Figueiredo, pardo, solteiro 45 anos, conforme atestam os dois jornais acima citados, o seu nascimento não ocorreu em 1822, como declara Pereira da Costa, e sim em 1814.

São obscuras as suas origens. Sabemos quase somente terem sido elas humildes. Falam os jornalecos da época em um pardo Basílio como o seu pai. É o que diz o Volcão de 30 de agosto de 1847; “… o ridículo Cousin Fusco, filho do pardo Bazílio lá de Iguarassu, onde sempre viveu de limpar a estribaria do pai, e de pescar os seus ciris e bodiões”.

Vindo para o Recife procurou o amparo de um amigo que não correspondeu as suas esperanças, expulsando-o de sua casa. João Sinhô, assim se chamava – conforme O Proletário de 1 de setembro de 187 – esse falso amigo que o desprezou numa ocasião em que Antonio Pedro tanto necessitava de uma ajuda. Mas, buscando abrigo junto aos frades do Convento do Carmo lá encontrou acolhimento e amparo material para aprofundar-se nos estudos”.

Antônio Pedro de Figueiredo era católico, negro, pobre, eclético ligado a Victor Cousin e ao ecletismo católico.Nasceu antes de Marx e era socialista católico, pré-marxista. Lembro que as melhores ideias do socialismo nasceram no socialismo cristão-católico, pré-marxista. 

Antônio Pedro de Figueiredo formou-se no Convento do Carmo, o que, com certeza, contribuiu para a síntese entre catolicismo e socialismo.

Antônio Pedro de Figueiredo foi decisivo para sua liderança na Revolução Praieira, continuando os esforços dos padres da Revolução de 1817, de Frei Caneca e outros. O desembargador Nunes Machado foi outro líder principal, tendo sido morto em combate (em fevereiro de 1849), mas o teórico era Antônio Pedro Figueiredo.

O pensamento socialista deste negro socialista e católico foi descrito da seguinte forma, por Amaro (pp. 152-153):

“Replicando a Autran assegura Figueiredo: “Esta aparição (o socialismo) tende a reformar o estado social em prol do melhoramento da moral e material de todos os membros da sociedade. Para esse fim cada escola socialista oferece meios diferentes, mas não há uma sequer cujas intenções deixem de ser puras e generosas, cujo ideal não seja a realização na terra dos princípios de liberdade e fraternidade”.

Pouco depois acrescenta: “A formula geral da escola socialista a que pertenço, é a realização progressiva do principio cristão de liberdade, igualdade e fraternidade, efetuada sem violência e por meio de medidas apropriadas as necessidades dos diversos países.

E justificando o seu conceito cristão do problema social enumera os argumentos dos grandes doutores da Igreja todos contrários a exploração do homem pelo homem.

Começa com São Clemente: “O uso de todas as coisas que estão neste mundo deve ser comum a todos os homens. A iniquidade foi que permitiu que um dissesse; isto é meu; e outro; isto me pertence. Deste fato proveio a discórdia entre os mortais”(Os grifos são de Figueiredo). Vem depois com Santo Ambrósio: “A natureza ministrou em comum todos os bens a todos os homens. Com efeito, Deus criou todas as coisas a fim de que o gozo delas fosse comum a todos, e a terra se tornasse a posse comum de todos. Assim a natureza gerou o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade”. Em seguida cita as palavras incisivas de São Gregório: “Saibam que a terra de que eles foram tirados é comum a todos os homens, e que por isso os frutos que ela produz pertence a todos indistintamente”.

As fontes de Antônio Pedro de Figueiredo são as mesmas deste meu humilde blog e mostram – tal como as figuras de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Assis Brasil – que os católicos democratas já falavam em socialismo bem antes da influência marxista. Vejamos, na página 157 do livro de Amaro, a ligação de Antônio Pedro de Figueiredo com Buchez, também ligado ao General Abreu e Lima:

“Aproxima-se antes Figueiredo do socialismo cristão de Buchez ou da tendência romântica – tendência essa que não prejudica seu objetivismo em relação ao estudo de nossa situação social – de Pierre Leroux e de seus discípulos.

Talvez a influência de Buchez se tenha feito sentir na sua tentativa de conciliação entre o cristianismo e a doutrina socialista, especialmente depois que Buchez rompeu, em parte, com os sansimonianos, quando Enfantin e Bazard foram proclamados “Pais Supremos”. Não é de desprezar a hipótese de uma possível contribuição de Lamennais e de Lacordaire na obra de Figueiredo. Em relação ao autor das “Palavras de um crente” destacou Aprígio de Guimarães o quanto ele influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo, vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

No mesmo sentido, há o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico.

Na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos, antes de Marx.

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio deste livro. Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824.

Abreu foi para a Colômbia e teve a honra de lutar ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

Vamireh Chacon considerou Antônio Pedro como “o ideólogo da revolução de 1848”, no livro “História das idéias socialistas no Brasil” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1981, p. 74). Chacon afirmou que este pensador católico é “uma indispensável etapa do itinerário ideológico do Brasil”.

O livro de Chacon, “Cooperativismo e comunitarismo” (Rio, Ed. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1959) mostra como o cooperativismo e o comunitarismo também fazem parte da tradição política da Igreja.

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