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A influência de Franz von Baader sobre Marx. A linha de Franz von Baader é a linha dos Cameralistas católicos, Buchez, Rodbertus, Keteller, Schmoller, Adolph Wagner, Pesch, Gundlach, Nell Breuning e outros luminares

A Igreja já defendia um socialismo católico antes de Marx. Um dos nomes deste socialismo católico é socialismo cooperativista (o “socialismo católico”, que Marx dizia que Buchez era o chefe), democracia econômica, ou “solidarismo”.

O padre jesuíta, Pe. Walter Brugger, em seu abalizado “Dicionário de filosofia” (São Paulo, Ed. Herder, 1962), explica, em poucas linhas, o “solidarismo”.

O socialismo católico é uma corrente contraposta ao individualismo (capitalismo) e ao coletivismo (socialismo marxista), adota a Economia mista, com “primazia do trabalho” (cf. p. 499), um “sistema social do trabalho”.

Enfim, um socialismo cooperativista, democracia econômica, a linha de Buchez, Alceu, Mounier e outros, a minha linha, a linha majoritária na Doutrina social da Igreja.

Na “Laborem”, João Paulo II trata da mesma linha, também presente na “Mater”, na “Pacem”, na “Populorum”, na “Octagesima”, na “Rerum”, em “Medellin”, “Puebla” etc. 

No Brasil, teve como expoente o padre Fernando Bastos de Ávila, que explicava que o solidarismo também poderia ser chamado de democracia econômica, social, cultural, política etc, ou socialismo participativo democrático. A mesma linha de Alceu, tal como de Marciano Vidal, ou de Mounier. 

Esta corrente admite ampla intervenção estatal na economia, na linha dos grandes cameralistas católicos.

Na linha de Buchez, Rodbertus, Ketteler, Schmoller, Adolph Wagner, Pesch, Gundlach, Nell Breuning e outros.

Também era a linha dos grandes padres Henrique Rommen, O. Schilling, Llovera e outros.

Também é a mesma linha presente em FRANZ OPPENHEIMER, um grande judeu, autor do livro “A questão social”, defendendo um SOCIALISMO COOPERATIVO, que é a DEMOCRACIA ECONÔMICA de Polanyi, o mesmo solidarismo, socialismo católico, de Buchez etc. 

No fundo, esta corrente vem antes de Marx, é um tipo de socialismo católico democrático, já existente na Renânia CATÓLICA (Marx teve contato com ela já no Liceu de Trevés, uma cidade católica e o Liceu era um Seminário católico, um antigo Colégio Jesuíta) e outros lugares, antes de Marx.

Esta corrente está ligada a Franz von Baader, a Lorenz von Stein, autores que influenciaram o jovem Marx.

O grande Franz Xaver von Baader (1765-1841), foi um grande filósofo e teólogo católico, que foi PRECURSOR DE MARX em várias coisas. Ele chegou a defender a criação de Diáconos do trabalho e padres operários, que trabalhassem ao lado dos trabalhadores, na luta contra a exploração. 

Franz von Baader também gostava de citar autores como Jacob Boehme, Saint Martin, Eckhart, Paracelso e outros. E influenciou o próprio Schelling, o jovem Schelling, que foi elogiado por Engels, em seus textos de 1841. Franz von Baader tinha sido mineralogista antes de ser teólogo.

Franz von Baader esteve na Inglaterra, igual a Engels, mas antes de Engels. E escreveu textos como o ensaio “Sobre o evolucionismo e o revolucionismo” (1835) e outro sobre o “proletariado” como “classe oprimida”, também em 1835.

Baader mostrava que os salários dos trabalhadores sempre estava aquém do valor correto, por causa da acumulação do capital e da omissão do Estado.

Os salários estavam  “muito abaixo do preço natural”, ou seja, os capitalistas feriam a justiça comutativa, pagando a menos, ficando com um excedente (mais valia) nos contratos de trabalho. Até o termo “ideologia” era usado por Franz von Baader. 

Mais tarde, esta corrente influencia e aflora nos textos de Wilhelm Roscher, tal como de Gustav Schmoller.

Schmoller é o grande historiador do cameralismo, do mercantilismo, que influenciou o jovem Marx. Marx, na Universidade de Berlim, a partir de 1836, estudava para ser cameralista. 

Também aparece na França, antes de 1848, e também depois de 1870. Por exemplo, aparece entre católicos, socialistas democráticos e radicais. Tem como expoente a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República.

A III República, Francesa, assim como a República de 1848, como as outras, nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também de quase todos os expoentes do socialismo de cátedra, inclusive Karl von Vogelsang.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais … sejam por si sós insuficientes” etc.

 

 

Convergência entre católicos e socialistas decorre das fontes comuns, da ética social cristã e hebraica

Houve, no século XIX, uma convergência entre socialistas católicos e cristãos, democratas sociais ligados à religão (como Stuart Mill) e outras correntes.

Esta convergência, mais tarde apontada por Pio XI, na “Quadragesimo anno” (1931), reatava as ligações entre socialismo, democracia e religião, como existiam, já, em várias correntes do socialismo utópico.

Por isso, Schmoller ligava suas posições de intervencionismo estatal na economia à corrente de Sismondi, Dupont White (“O indivíduo e o Estado” e “A liberdade política”), Mathew Carey, Henry Carey, Friedrich List e Stuart Mill.

O “Manifesto de Eisenhach”, do socialismo de cátedra, de 1872, diz que o Estado deve ser um “grande instituto moral de educação” e que deve ter como ideal “fazer participar uma fração cada vez maior de nosso povo em todos os bens da civilização”, a parte de cada no bem comum, como destacou Bento XVI, na sua encíclica social, antes de renunciar e abrir caminho a Francisco I.

O socialismo com base na ética social era a tônica de Adolf Wagner. Esta linha socialista, hegemonicamente cristã, admitia amplo distributismo de pequenos e médios bens, com a estatização de grandes bens produtivos, planificação e democracia (convenceram Bismarck a cessar a perseguição à Igreja e instaurar seguros sociais e o voto universal).

No mesmo sentido, vale à pena a leitura do “Programa dos deputados católicos da Holanda”, elaborado em Utrecht, em 1897.

O socialismo de cátedra e dos historicistas teve amplos pontos em comuns com a dos melhores expoentes da doutrina social da Igreja, como destacou o padre Heinrich Pesch (1854-1926) e outros escritores, especialmente Ketteler e Buchez.

Pesch, tal como seu irmão Tilmann Pesch (1836-1899), ensinava inúmeros pontos comuns com os melhores textos de socialistas cristãos como Adolfo Wagner.

O livro de Pesch, “Tratado da economia nacional” (1905-1923), mostra como toda a doutrina social da Igreja é centrada nas exigências racionais do bem comum, expondo as linhas gerais do solidarismo cristão, semelhantes à corrente do solidarismo na França, da III República, onde também houve uma convergência entre católicos sociais e socialistas possibilistas e cristãos.

O solidarismo foi uma busca para elaborar as linhas gerais de uma democracia social, participativa e popular.

Os textos de Pesch são, em vários pontos, semelhantes aos de expoentes como Ketteler, Buchez, e também socialistas cristãos como Rufolf Meyer (amigo pessoal de Engels), Rodbertus, Schmoller, Roscher e outros.

Economia mista, defendida por Buchez, Ketteler, Pesch, Liberatore e Haring

O padre Heinrich Pesch (1854-1926), um grande padre jesuíta e economista, adotou o nome de solidarismo, para sua síntese da doutrina social da Igreja. Um nome já adotado pelo melhor do socialismo possibilista e democrático, com Renouvier, Bourgeois, Peguy, Paul Magnaud (“o bom juiz”, compassivo) e outros. 

Pesch queria um sistema misto, como foi proposto por Moisés, Platão (“As leis”), Aristóteles (“Política”), os estoicos, Confúcio e outros. O padre Pesch escreveu o livro “Tratado da economia nacional” (1905 a 1923, 5 volumes), que foi a base principal da minuta da “Quadragesimo anno” (1931), de Pio XI, consagrando a economia mista (os bens que atribuem muito poder devem ser socializados, estatais ou cooperativas sob controles estatais). 

Pesch queria uma síntese entre o “princípio individual” (pessoal) e o “princípio social”, do melhor da economia de mercado com o melhor das ideias socialistas (de origem cristã, pois o marxismo mesmo nasce de ideias pré-marxistas, ideias cristãs, do socialismo utópico). 

A mesma síntese é a conclusão e as linhas gerais do livro “Princípios de economia política”, do padre Matteo Liberatore (1810-1892), antes de Pesch, lá por 1890. Os textos do padre Liberatore, junto com os textos do Cardeal Zigliara, foram a base da minuta da “Rerum novarum” (1891), de Leão XIII. 

O padre Heinrich Pesch seguia as ideias de Rodbertus, Rudolf Meyer (amigo de Frederico Engels) e de Adolf Wagner, que, por sua vez, seguiam as ideias anteriores de Buchez. 

Em todos estes autores, há a ideia de síntese entre defesa das liberdades e socialização, de planificação com liberdades, de Estado social, com democracia popular (real, participativa) e economia mista. 

No fundo, são as mesmas ideias católicas. Basta pensar na condenação dos erros do jansenismo. O Papa Inocêncio X condenou os erros do jansenismo, na bula “Cum occasione”, deixando claro que a graça é dada a todos, que a graça (a ação de Deus, pelo Espírito Santo) ocorre em cooperação com a ação humana (liberdades).

O molinismo tentou uma síntese, para mostrar como a ação de Deus (e o mesmo pode ser dito do Estado, da sociedade) ocorre sem anular a liberdade, como é possível o máximo de socialização com o máximo de personalização (liberdades).

A predestinação (planos de Deus) ocorre como ajuda à ação humana (cooperação entre as pessoas e Deus, ação humana e ação divina e ação social, em boa síntese). A Comunhão não suprime a liberdade.

O Céu é a libertação, a participação das pessoas no governo do universo, com autogestão, autogoverno em boa síntese com autogestão social, com gestão participativa, democrática, pois Deus não anula a criação, e sim a plenifica.

Autonomia humana e socialização, autonomia humana, cooperação humana e ação divina, em boa síntese. Os melhores teólogos jesuítas, dominicanos, franciscanos, redentoristas defenderam esta síntese, que está no núcleo do catolicismo. 

O Céu é uma República popular, democrática, Cooperativa, com gestão participativa, e assim devem ser os governos humanos, prenúncios do Céu, portas, participação em Deus.

Comunhão participativa, como bons administradores, bons pastores da Criação, bons agricultores, bons trabalhadores cooperativos na Criação.

O primado do trabalho e da destinação universal dos bens são núcleos do Céu.

A ressurreição é um processo, que inicia na vida e continua pela eternidade, como a parusia.

A parusia não é um ponto final, e sim um processo. A renovação do universo ocorre por dentro, dentro da Criação, como um parto. O novo mantém as coisas antigas e as eleva, mantém e melhora. 

Da mesma forma, o equiprobabilismo de Santo Afonso de Ligório, Padroeiro dos teólogos morais e dos confessores, bem exposto pelo padre Bernard Haring (“Livres e fiéis em Cristo”), mostra a síntese entre a liberdade criativa e a ética, uma consciência ética age baseada em boas razões, pela luz da razão, da consciência (as regras éticas, a lei natural, são perfeitamente conciliadas com a liberdade humana). 

Há a mesma síntese em Mounier, Thomas Merton, Alceu e também em Teilhard de Chardin e Berson.

Evolucionismo que exige a ação humana, a humanização do universo, a ação humana, o trabalho humano, continuando, em colaboração com Deus, o processo criador-renovador do universo. 

 

 

O mercantilismo tinha boas coisas, pois exigia ampla intervenção estatal na economia e economia mista

O próprio Marx admite pontos positivos no mercantilismo, quando destaca que os mercantilistas começavam a análise pelo todo, pela estrutura geral da economia. Marx praticamente iniciou seus estudos com base no cameralismo, o mercantilismo alemão e austríaco. 

Por esta razão, no século XIX, na crítica ao capitalismo, houve vários autores quase socialistas que elogiaram corretamente alguns pontos do mercantilismo, no fundo, elogiavam a ampla intervenção estatal na economia, elemento tradicional. Esta parte do mercantilismo é sadia. Os sansimonistas destacaram isso bem.

A defesa da ampla intervenção estatal na economia, das estatais, do controle dos preços, tudo isso são teses hiper tradicionais, expressões da Tradição católica. Não são teses marxistas, e sim teses centenárias, até milenárias. Prova? basta pensar no controle do Estado sobre a irrigação (hidráulica) e as obras públicas, há milhares de anos, na Suméria, no Egito etc. 

A defesa da intervenção estatal fica claro em Mably, Diderot, Voltaire e outros, que elogiaram o grande Colbert, o colbertismo, na França. Há ainda o “Elogio de Colbert”, por Jacques Necker. O mesmo no livro do Abade Morellet, nos melhores textos de Babeuf. É a mesma ideia de Moisés, de Platão, de Thomas Morus e outros. Economia mista, ampla intervenção estatal, difusão de bens etc. 

O Estado criou várias estatais e protegeu a economia nacional, para desenvolver uma base industrial, para não exportar matérias primas, só permitindo a exportação de produtos elaborados.

O Estado deve substituir as grandes corporações privadas por boas estatais e por boas cooperativas produtivas e outras formas de cooperativismo. 

Além de Colbert, houve Montcrétien, “Tratado de economia política” (1615), Antônio Serra, o próprio Campanella, Laffemas (controlador geral do comércio, no governo de Henrique IV). Há o “Regulamento para desenvolver as manufaturas do Reino” (1597). Há as obras de Sully, de Richelieu e de Colbert (1651). 

Mercantilismo, protecionismo e intervenção estatal seguem sempre juntos, ponto que List (“Sistema nacional de economia política”) ilustra com bastante ênfase. Idem para Lincoln, nos EUA. O relatório sobre a necessidade do Estado incentivar a industrialização, de Hamilton, nos EUA, tem a mesma base.

O Estado é essencial para o desenvolvimento econômico. Isso também foi visto pelo Padre Vieira, por Pombal e outros.

Todos os países desenvolvidos da Europa se desenvolveram pelo protecionismo, pela ampla intervenção estatal na economia. O mesmo para o Japão, frise-se e isso foi amplamente demonstrado por dois grandes católicos: Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e por Barbosa Lima Sobrinho.

O elogio do protecionismo e da intervenção estatal para a industrialização está no núcleo das obras de Roberto Simonsen, na prática e nos textos de Getúlio e outros. Estes autores se basearam em várias fontes, inclusive Manoilesco, que ensinou grosseiro antissemitismo, sendo este o joio de seus textos, mas há partes boas, na ênfase ao nacionalismo e no combate ao imperialismo econômico.

Os estruturalistas também enfatizavam a estrutura geral, na linha antiga, ponto destacado por Keynes. Os melhores textos da aguada e branda CEPAL têm o elogio da intervenção estatal e da proteção estatal à economia. 

Este ponto também fica claro no livro de Schmoller, “O sistema mercantilista e sua significação histórica” (1884). E fica claro nos livros de Wilhelm Roscher (1817-1894), Adolf Wagner, de Lucien Brocard, Cunningham (1907) e outros. Há análise parecida no livro de André Marchal, “A concepção da economia nacional nos mercantilistas franceses” (Paris, 1931). O mesmo ocorreu na Escola Histórica da Economia, com Bruno Hildebrand e outros.

Lembro que o padre Henrich Pesch (1854-1926), expoente do solidarismo católico, foi aluno de Adolf Wagner, de 1901 a 1903). O solidarismo do Padre Fernando Bastos de Ávila é um socialismo participativo, distributista, uma economia pautada pela democracia popular. Idem para Dom Hélder e Alceu. 

Basta ler os textos de Constantin Pecqueur, para ficar claro o elogio da intervenção estatal na economia. A influência de Buchez sobre Lassalle foi atestada por Marx e Engels. Buchez era o chefe do socialismo católico. E a ideia do Estado apoiar o surgimento de cooperativas de produção vem de Buchez, para Luiz Blanc, Karl Rodbertus, Lassalle e, daí, para o “Programa de Gotha” (cooperativas de produção). Sobre estes pontos, vide Charles Andler (“Les origines du socialismo d´Etat en Allemagne”, Paris, 1897). Outra obra magnífica é a “História do pensamento socialista” (7 volumes), de G.D. H. Cole.

Os inimigos do protecionismo eram os livres cambistas, como Cobden e, depois, Viner. Todos os defensores do imperialismo são pró livre cambismo.

Os inimigos do imperialismo econômico eram a favor de ampla intervenção estatal, ampla proteção estatal ao florescimento econômico, para obter a prosperidade geral. Basta pensar em Keynes, Joan, Robinson, Gunnar Myrdal, Harold Laski e a CEPAL e outros, que fizeram o elogio da intervenção estatal e, implicitamente, do protecionismo. Protecionismo é principalmente proteção do Estado. 

A ideia de substituição das importações por produção industrial nacional está no núcleo do mercantilismo, do protecionismo. Da mesma forma a ênfase na necessidade da difusão de ampla educação pública e profissional a todos os trabalhadores, para desenvolver a tecnologia nativa, para o controle da tecnologia, da ciência. 

Pode e deve haver um protecionismo não explorador, não imperialismo. Todas as nações devem ter Estados nacionais amplamente intervencionistas na economia. Todos os continentes devem ter Uniões Continentais. A ONU deve ser convertida num Estado mundial, amplamente interventor, que dirija a economia, os fluxos econômicos, para o bem comum, com uma moeda internacional, como o Bancor, retirando este privilégio do dólar (cf. Santiago Fernandes, Keynes e outros). 

O marxismo é formado por dezenas de ideias cristãs e algumas ideias erradas….

Harold Laski elogiou como precursores de Marx os seguintes autores: Mably, Morelly, Sismondi, Coleridge (1772-1834, anglicano ecumênico), Thomas Carlyle, Southey, Linguet e especialmente Antonio Eugênio Buret (1811-1842). Buret era discípulo de Sismondi e foi um dos principais socialistas pequeno-burgueses, cristão e precursor direto de Engels. Marx elogiou Buret, nos “Manuscritos”, de 1844. Laski também considerou Phillipe-Joseph Buchez (1796-1865) como outro dos precursores diretos de Marx. Buchez foi um socialista católico, citado por Marx desde suas primeiras obras, como, por exemplo, no ensaio “sobre a questão judaica”.

Ocorre que todos estes autores eram bons cristãos, em geral católicos ou anglicanos. Carlyle (1795-1881), por exemplo, foi extremamente lido pelo jovem Engels e criticou as mazelas do capitalismo, tendo escrito boas obras como “A Revolução francesa” (1837), “Os heróis” (1841) e “Sartor resartus” (1834), sendo esta última um bom elogio aos artesãos. Carlyle ensinava que o poder de Deus fica patente (explícito) no heroísmo, na prática das virtudes, sendo esta a principal forma de atuação divina no mundo. Heroísmo não significa apenas morrer pela pátria ou para salvar outra pessoa, mas agir corretamente, com bondade (visando sempre o bem comum), durante a vida.

Marx foi um codificador, elaborando sínteses com bases em fontes pré-marxistas, praticamente todas inspiradas no cristianismo ou no pensamento hebraico (por exemplo, Moses Hess). Babeuf e Buonarotti eram teístas, seguindo a linha teórica cristã de Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly e de Mably (também de Rousseau). Da mesma forma, o Círculo Social, Robespierre, Marat, Saint-Just, os curas vermelhos, Jacques Roux, Petit-Jean, Croissy, Carion, Cournand ou Pierre Dolivier. O próprio Marx, tal como Engels, reconheceram que estes autores foram seus precursores. Este ponto fica patente no “Manifesto” e também no livro “Anti-Dühring”, a síntese de Engels.

A Liga dos Justos, que Marx encontrou atuante desde 1844 (embora existissse desde o início da década de 30 do século XIX), seguia uma linha teísta. Esta linha é clara como um sol nos textos seguidos pela Liga, os textos de Sismondi, Saint-Simon, Lamennais, Buonarrotti e Weitling, Buchez, Cabet e outros. Foram estes os textos que cativaram Marx. A mesma base jusnaturalista e religiosa está presente em Fourier, Owen e Saint-Simon (basta ver o título da obra-testamento deste último: “O novo cristianismo”).

Os textos de Weitling, Pierre Leroux, Thomas Hughes, Rodbertus ou de um Cabet deveriam ser reeditados, pois são textos recheados de boas verdades, na mesma linha das CEBs (comunidades eclesiais de base). Por exemplo, Leroux (1797-1871) escreveu: “Do cristianismo e de suas origens” (1848), esboçando um socialismo religioso, democrata e cristão, com pitadas de pitagorismo e budismo (de ecumenismo, que também caracterizam os textos de vários Santos Padres, apreciadores dos textos pitagóricos, presentes também no platonismo, porque muito do platonismo vem dos pitagóricos). Etienne Cabet (1788-1856) também trouxe grandes pontos positivos, tendo deixado obras como “O verdadeiro cristianismo” (1848).

O socialismo difundiu-se na França e na Europa graças às verdades cristãs e hebraicas, presentes nos primeiros socialistas, inclusive Marx. Outro autor que desenvolveu as linhas gerais de um socialismo democrático e cristão foi Louis Blanc. Na Rússia, basta ver os textos católicos de Petr Jakovlevic Chaadaev (1794-1856) e os de Tolstoi (anarquista cristão, tendo influenciado Gandhi).

Conclusão: como Lênin constatou, há um “espírito [fundo, núcleo de idéias] democrático revolucionário” no “cristianismo”. Este núcleo é a base da doutrina social e da teologia da libertação. Sobre a identidade, em linhas gerais, tal como a complementariedade, entre a doutrina social da Igreja e a teologia da libertação, vale à pena ler o livro de Francisco Ivern S.J. e Maria Clara Bingemer, “Doutrina social da Igreja e teologia da libertação” (São Paulo, Ed. Loyola, 1994).

Schmoller, Sismondi, Pesch, socialistas de cátedra e a Igreja

Schmoller ligava suas posições de intervencionismo estatal na economia à corrente de Sismondi, Dupont White (“O indivíduo e o Estado” e “A liberdade política”), Mathew Carey, Henry Carey, Friedrich List e Stuart Mill. Estava coberto de razão. O próprio Lenin escreveu um livro atacando Sismondi, pois Sismondi foi um grande precursor da doutrina social da Igreja. 

Schmoller poderia ter mencionado também Dupont White, no livro “O indivíduo e o Estado”.

O “Manifesto de Eisenhach”, do socialismo de cátedra, de 1872, diz que o Estado deve ser um “grande instituto moral de educação” e que deve ter como ideal “fazer participar uma fração cada vez maior de nosso povo em todos os bens da civilização”. Era a mesma tônica de Adolf Wagner.

Esta linha socialista, hegemonicamente cristã, admitia amplo distributismo de pequenos e médios bens, com a estatização de grandes bens produtivos, planificação e democracia (convenceram Bismarck a cessar a perseguição à Igreja e instaurar seguros sociais e o voto universal). No mesmo sentido, vale à pena a leitura do “Programa dos deputados católicos da Holanda”, elaborado em Utrecht, em 1897.

O socialismo de cátedra e dos historicistas teve amplos pontos em comuns com a dos melhores expoentes da doutrina social da Igreja, como destacou o padre Heinrich Pesch (1854-1926) e outros escritores, especialmente Ketteler e Buchez. Pesch, tal como seu irmão Tilmann Pesch (1836-1899), ensinava inúmeros pontos comuns com os melhores textos de socialistas cristãos como Adolfo Wagner.

O livro de Pesch, “Tratado da economia nacional” (1905-1923), mostra como toda a doutrina social da Igreja é centrada nas exigências racionais do bem comum, expondo as linhas gerais do solidarismo cristão, semelhantes à corrente do solidarismo. O solidarismo foi uma busca para elaborar as linhas gerais de uma democracia social, participativa e popular.

Os textos de Pesch são, em vários pontos, semelhantes aos de expoentes socialistas cristãos como Rudolf Meyer (amigo pessoal de Engels), Rodbertus, Schmoller, Roscher e outros.

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