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A concepção de um Estado social, com amplo INTERVENÇÃO ESTATAL na economia, é uma IDEIA MUITO ANTIGA, que faz parte da Tradição católica e da história da humanidade

A ideia que o Estado deva ter AMPLA INGERÊNCIA, INTERVENÇÃO, na economia, como um Gerente Geral, Gestor, para a realização do bem comum, a DESTINAÇÃO UNIVERSAL DOS BENS, é uma IDEIA TRADICIONAL e INTRÍNSECA A ÉTICA CATÓLICA E NATURAL.

Faz parte da Tradição mais profunda da Igreja, do melhor da Tradição hebraica, dos Santos Padres, de toda a estrutura dos Monges e das Ordens Religiosas. 

Está no cerne dos primeiros tratados de economia, nos livros de Platão (“A República” e “Leis”), de Aristóteles (“Política” e “Economia”), de Xenofonte (“Sobre as minas do Estado”). 

Também está no esboço do Estado hebraico, na prática das Cidades-Estados da Mesopotâmia (berço da civilização), do Egito, das Cidades Fenícias, na estrutura estatal Hebraica, no Estado Persa, nas Cidades-Estados da Grécia e nas melhores estruturas do vasto Estado Romano.

Tem continuidade no melhor da estrutura dos Estados bárbaros cristãos e dos Estados cristãos ortodoxos do Leste Europeu. Também está na estrutura das Comunas medievais e nas aldeias indígenas de todos os povos.

Mais tarde, estas ideias reaparecem, nos melhores textos do Mercantilismo-Colbertismo, inclusive no livro de Antonio Serra. Também está no livro “Tratado de economia política” (1615), de Antoine Montchresthien (1575-1621), tal como, antes, em Jean Bodin (1530-1596), no livro “A República” (1576). Jean Bodin, um católico, é tido como o pai da Ciência Política.

Os grandes teólogos espanhóis ensinavam que o Estado deveria controlar os preços dos produtos mais importantes, baseado na “estimativa comum”, ou seja, na avaliação comum das coisas. Estes grandes teólogos justificavam, deste modo, o controle estatal sobre a economia, a proibição dos juros, ou a redução pelo Estado dos juros, a proibição da usura etc. 

Vou tentar demonstrar este ponto, em vários postagens, na categoria, deste blog, “Fórmula do Planejamento Público Participativo-Economia mista. 

O próprio Spinoza, no “Tratado Político”, 1677, sua obra socialista, diz que seu modelo era a República católica de Aragão, na Espanha. A família da Spinoza tinha origem em Portugal, perto de Aragão. 

Destaco que as ideias de Morus, em 1516, no livro “A Utopia”, tal como do monge Tommaso Campanella (1568-1639), no livro “A cidade do Sol” (1602), seguem a linha da INTERVENÇÃO ESTATAL MACIÇA, que era seguida na França, com Luis XI, Henrique IX, o Cardeal Mazarino, o Cardeal Richelieu e, depois, por Colbert.

Colbert criou várias estatais, que existem até hoje, na França. 

No fundo, era a linha de Hobbes, mesmo com os erros totalitários de Hobbes, bem criticados por Spinoza, no livro “Tratado Político”.

Hobbes viveu vários anos (cerca de 15 anos ou mais) na França de Richelieu.

Destaco que as ideias do padre Vieira, do Estado criar vários estancos (estatais) e bancos públicos, uma concepção socialista, tem origem neste mesmo núcleo tradicional da Igreja. 

Esta linha foi, depois, elogiada por Necker, Voltaire, Diderot, Mably, Morelli e por vários católicos economistas italianos, especialmente na crítica aos erros capitalistas dos fisiocratas.

Basta citar o padre Galiani, no livro genial “Diálogos sobre o comércio de cereais” e nas suas teorias sobre a moeda, de como a circulação monetária deve ser pautada pelo Estado e pelo povo, pelo Controle social do povo.

O melhor do pensamento econômico, sobre Napoleão, foi escrito por economistas protecionistas-mercantilistas, como Carnot, Ferrier, o irmão de Say e outros. Estes autores foram a base teórica de List, dos Carey, de Lincoln, dos escritores protecionistas dos EUA. 

Foi esta a linha que gerou Babeuf e Buonarotti, e foi este o veio principal das ideias socialistas, na França, a base mais antiga do socialismo, uma BASE DE FUNDO CRISTÃO (e do melhor da tradição hebraica, basta pensar em Moses Hess e outros). 

Grandes Sacerdotes que lutaram por um Estado democrático popular

O Brasil sempre contou com um Clero católico, no mínimo, centro esquerda. Um Clero que difundia ideias que inspiravam leigos a lutarem por um Estado democrático popular amplo, social, popular.

Além disso, parte do Clero atuou diretamente, como agentes políticos lato senso, em prol da construção de um amplo Estado democrático popular. 

Alguns destes grandes padres – o padre Vieira, o Padre Cícero, São Hélder Camara e outros.

Antes, houve o padre Belchior Pinheiro de Oliveira, parente dos Andradas, que deu o conselho para Dom Pedro I dar o grito de independência nas margens do rio Ipiranga. Lembro que Dom Pedro I, com vinte e poucos anos de idade, escrevia, no final de de suas cartas, “pátria ou morte”, antecedendo frases de bons cubanos.

O padre Custódio José Dias (que entregou uma “Representação a Dom Pedro I”, em 17.03.1830, que gerou a abdicação de Dom Pedro I).

O grande padre Manuel Rodrigues da Costa, antigo inconfidente, que lutou ao lado do católico Tiradentes e do Cônego Luiz Vieira da Silva.

O padre Manuel participou do  movimento da Inconfidência, ao lado de Tiradentes, e, depois, do movimento da independência, tendo sido ainda constituinte em 1823.

O padre Manuel militou ao lado de Tiradentes e viu a realização do sonho dos Inconfidentes, o Projeto da Independência do Brasil.

Houve ainda o padre Roma, o padre Miguelinho, o padre Feijó, o padre Lopes Gama, o Padre José Marinho e outros. Grandes lideranças católicas e democráticas. 

Outros grandes nomes de uma teologia política de leigos, no Brasil, é Tiradentes e o padre Luiz Vieira da Silva.

Ao lado de Tiradentes, como um dos grandes ideólogos da Inconfidência mineira, havia o Cônego Luiz Veira da Silva, da então maior e a mais antiga Diocese do Brasil, a Sé de Mariana. Este Cônego já era ecumênico a seu modo, pois, em sua biblioteca, conviviam autores brilhantes e geniais como: Santo Ambrósio, Santo Tomás de Aquino, São Gregório Magno, Santo Agostinho, São Jerônimo, São Bernardo, Antônio Genovesi (o Genuense), Luís Antônio Verney, Mably, Raynal, o padre Adrien Pluquet, Montesquieu, Helvétius, Diderot, D´Alembert, Voltaire, Locke, Francis Bacon, Descartes, Leibnitz, Buffon, Beccaria e outros.

Conclusão: Frei Caneca e outros apenas ilustram a linha correta do catolicismo, no trabalho de criação de vastas partes boas do Estado brasileiro e da sociedade.

O próprio juramento de coroação de Dom Pedro I, em 01.12.1822, seguiu o rito usado na coroação de Napoleão. Dom Pedro I iniciou o juramento com a fórmula: “Eu, Pedro I, por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador constitucional e defensor Perpétuo do Brasil”. Esta fórmula já deixa claro que a “graça de Deus” (o apoio de Deus) exige a “unânime aclamação dos povos”, o consentimento do povo, exige um Estado servo do povo, que promova o bem comum.

Só após o juramento de “observar” a “religião católica” e “constitucionalmente as leis” é que Dom Pedro I foi coroado e recebeu o cetro, o cargo de Chefe de Estado, um cargo humano, dependente das estruturas sociais, criadas pelo povo.

Os dois erros fundamentais do liberalismo econômico, do economicismo

Lendo as cartas do economista Ricardo, que faleceu lá por 1823, fica claro que Ricardo, James Mill, McCulloch, Malthus, J.B. Say representam as ideias do liberalismo econômico.

A principal ideia é que o Estado não deve ter ingerência, controle e participação na economia, nas relações de produção. Outra ideia chave é que os ricos são os motores do crescimento econômico, ou seja, o elogio dos capitalistas, dos ultra ricos. 

Estas ideias principais do liberalismo econômico nascem com o economicismo dos fisiocratas. Destes, os principais foram François Quesnay, Vincent de Gournay, Turgot e, depois, por Adam Smith. 

Estas ideias liberais foram rebatidas, já durante a vida de Ricardo, pela corrente cristã católica, de Sismondi, William Cobbett, Goodwin, Villeneuve Bargemont e outros precursores de Marx. 

Antes, as ideias fisiocratas foram combatidas pela Escola anterior, de marca católica, o Mercantilismo (colbertismo, Cameralistas). E por defensores das ideias de Colbert, como Mably, Morelly, Diderot, Galiani, Necker, Genovesi e outros. Na Alemanha, houve Justi e Sonnenfels, cameralistas que influenciaram a formação de Marx. E também Verri, Palmieri, James Steuart e Forbonnais. 

Depois, vários autores destacaram o poder de intervenção do Estado, inclusive Napoleão III (uma besta que tentou colonizar o México, mas que, antes de assumir o poder, escreveu bons textos sobre a erradicação da miséria e intervenção do Estado), Bismarck, Buchez e outros.

Os católicos e os socialistas democráticos e possibilistas, tal como os trabalhistas e os socialistas de cátedra, defenderam a extensa intervenção estatal, para controlar as forças produtivas, as relações de produção. 

 

O mercantilismo não tinha obsessão por ouro, e sim por industrialização

O mercantilismo não era focado em ouro. O objetivo era uma balança comercial superavitária, ou seja, exportar mais do que importar. Para isso, o Estado deveria proteger o mercado interno e a industrialização, a formação de manufaturas.

As principais manufaturas e companhias eram estatais. Na França, hoje, ainda existem manufaturas reais, estatais, criadas por Colbert. 

A balança de comércio superavitária geraria entrada de ouro, por causa do excedente, do fato das exportações superarem as importações.

Para isso, o Estado criaria ou ajudaria a criar manufaturas e companhias, para industrializarem as matérias primas, impedindo a importação de mercadorias industriais e favorecendo a exportação apenas de produtos industriais.

Logo, caberia ao Estado criar monopólios públicos, estatais e controles públicos, industrializando o país. Foi este o objetivo principal de Colbert.

Por isso, Mably, Voltaire, Diderot, Galiani, Necker e outros elogiaram o colbertismo.

Como Engels observou, no “Esboço de economia política”, o mercantilismo tinha como base teórica o catolicismo.

Mais tarde, List, Carey e outros mostraram, com base na experiência, a importância do protecionismo para desenvolver as forças produtivas de uma nação.

Conclusão – apoio estatal à industrialização, proibição de exportar matérias primas, estatais, controles públicos da economia, controles estatais do câmbio, controle estatal sobre a moeda, controle estatal do crédito, controles e regras públicas para a economia, tudo isso ainda é atual, ponto que Hans Singer demonstrou. 

Tradição da Igreja exige um Estado popular, social, do bem comum, interventor, distribuidor de bens

A proposição que o jusnaturalismo é intrinsecamente democrático pode ser provada com os textos da Tradição da Igreja.

Textos de estrelas como Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, a Escola de Salamanca, Francisco Vitória, Suárez, Milton, Spinoza, Locke, Grócio, Spinoza, os arminianos, Montesquieu, o padre Gabriel Bonnot Mably (1709-1785), Rousseau, Voltaire, Holbach (ver “Política natural”, “Etocracia” e outras obras), Diderot, os textos políticos da “Enciclopédia”, Jefferson, o texto da “Declaração da Independência” dos EUA (esboçada por George Mason), Tiradentes, o abade Sieyés, o texto da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, Danton, Robespierre, Saint Just, Condorcet, Kant, Fichte, Goethe, Simon Bolívar, José Artigas, Frei Caneca, o padre José Maria Morelos (1765-1815), os Andradas, Alexis Tocqueville, Dickens, Tolstoi, Victor Hugo, Castro Alves, John Rawls e outros milhares de jusnaturalistas democráticos.

Há também lideranças como Jane Addams (1860-1935), feminista e reformadora social dos EUA.

A doutrina jusnaturalista exige, assim, o primado da consciência, da pessoa, do bem comum. Exige a difusão do poder, que o poder seja do povo, difusão (democratização, distributismo) do poder, da ciência, da cultura, dos estudos, dos bens, do prazer etc.

Num sentido próximo, Jorge Miranda, católico e socialista, no tomo VII da obra “Manual de Direito Constitucional” (Coimbra, Ed. Coimbra, 2007, p. 59), lembra que a “democracia” é a “forma de governo em que o poder é atribuído ao povo”, “exige exercício do poder pelo povo, pelos cidadãos, em conjunto com os governantes”.

Na democracia, cf. Jorge Miranda, “o povo” (sociedade) é “o substrato” (o sujeito) da pessoa jurídica que é o Estado e, por isso, deve ter o “exercício da soberania” (p. 60), o controle sobre o Estado, pois este deve servir à sociedade, como ensinou Cristo.

O jusnaturalismo exige uma forma democrática e popular de Estado, pois a premissa central do jusnaturalismo é que “a lei é natural”, tem fonte imediata na consciência (“coração”, na terminologia hebraica) humana, especialmente na inteligência do povo, que é a principal faculdade da consciência.

A tradição da Igreja está também no cartismo, um movimento praticamente católico, por causa da influência dos irlandeses católicos. 

Um elogio a pequena propriedade pessoal, difundida para todos

O próprio Mably, no livro de crítica aos fisiocratas, mostrava que os latifúndios são diferentes das pequenas propriedades pessoais. Os latifúndios são prejudiciais, como todas as grandes fortunas privadas, enquanto as pequenas propriedades pessoais são boas.

O mesmo escreveu Morelly, Proudhon e até mesmo Bakunin, na melhor de suas obras, sobre o esboço de uma sociedade do futuro, onde mostra que haveria Estado, votos, representação e pequenas propriedades pessoais difundidas para todos. Defendiam economia mista, como eu defendo. 

O velho Adam Smith também não gostava de grandes proprietários rurais e nem de grandes fabricantes ou grandes comerciantes. Elogia os artesãos, os pequenos burgueses, os camponeses, os pequenos prestadores de serviços, os servidores públicos etc, o mesmo ideal de Chesterton. Esta é a parte boa da sociedade. É o que torna possível a existência de milhares de cidades pequenas e médias, no mundo todo. 

A Igreja ama os camponeses, e os quer organizados em cooperativas e com amplo apoio público, do Estado. Tal como ama os pequenos burgueses, os artesãos, os cientistas, os técnicos, os servidores públicos, os pequenos prestadores de serviço etc. Não é preciso latifúndios, como mostra a agricultura européia.

As grandes fortunas privadas não são necessárias, como provam os países de IDH mais elevado e menor coeficiente Gini do mundo, como a Irlanda, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, a Bélgica, partes da França e da Itália, a Islândia etc. 

Um grande Estado social, boas estatais, cooperativas e uma base ampla de pequenos e médios produtores familiares, sem miséria e sem grandes fortunas, eis o ideal concreto histórico da Igreja.

Este era também o modelo ideal de Rousseau, Mably, Diderot e outros grandes luminares da humanidade. 

O ecletismo é a marca do catolicismo, ecumênico, aberto

Como explicou Victor Cousin, “Potamon”, alexandrino e platônico, é tido como o fundador do sistema do ecletismo, do platonismo eclético, em boa aliança e dupla com o estoicismo médio.

O termo ecletismo vem do grego “eklektikos”, “o que escolhe”, do verbo “eklegein”, de escolher. Em latim, “eligere”, eleição, escolha, colheita do trigo, deixando o joio, discernimento, a base da prudência, que separa o bem do mal, que só escolhe o que é bom, o que é verdadeiro, como recomendou expressamente São Paulo. 

Na Medicina, houve a Escola Eclética de Medicina, com estrelas como Cláudio Galeno, homem de grande cultura e teísta, monoteísta, quase cristão, cujos textos sobre medicina e filosofia são ainda luminosos e excelentes. 

Huet, no livro “Tratado da fraqueza do espírito humano” (n. 223, 1741), explica corretamente que os ecléticos adotavam o “método de tomar de todas as partes o que lhes parecia melhor”.

Diderot e D`Alembert, no verbete “Ecletismo”, na “Enciclopédia”, elogiam o “eclético”, que “ousa pensar por si mesmo”, que examina “todas as filosofias” e forma um ideário “particular e doméstico”, próprio.

O ecletismo, como explicou Victor Cousin, visa “discernir” o “verdadeiro do falso”, nas “diversas doutrinas”, “depurando”, para formar “uma doutrina melhor e mais vasta”, uma síntese mais elevada, como diria Hegel.

O ecletismo, no sentido mais correto, é o ecumenismo (universalismo, catolicismo), é a aceitação de todas as verdades, de todas as fontes.

As raízes semitas do estoicismo, o que explica a razão do catolicismo e do judaísmo terem acolhido boa parte do estoicismo

O estoicismo nasceu em áreas de cultura semita e fenícia, com base na cultura fenícia-semita. O fundador do estoicismo, Zenão, nasceu em Chipre, terra totalmente influenciada pelos fenícios e judeus, bem perto de Tarso, a cidade natal de São Paulo.

Este ponto foi bem demonstrado pelo padre Eleutério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, vol. I, pp. 25-32). O estoicismo desenvolveu-se, desde as origens, com base em homens banhados pela cultura fenícia-semita, existente na Fenícia (ao lado da Judéia).

Nasceu em lugares banhados pela cultura fenícia e hebraica (tendo grandes colônias hebraicas), como o Chipre, Tarso, Síria e em várias áreas da Palestina e da Mesopotâmia. Todas estas áreas eram banhadas pelas idéias semitas, presentes nas idéias persas, fenícias, assírias e outras.

Houve também influência semita (hebraica) clara nos textos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (e os três foram influenciados pelo cristianismo, pois mencionam os “galileus”, os cristãos). O mesmo ocorre com Tácito, Galeno, Plutarco, Plotino e outros autores.

Os principais estoicos são homens nascidos na região de Tarso e de Chipre. Esta região tinha tantos judeus que, em 117, estes atacaram os romanos, participando da guerra judaica, contra os romanos. Outros estoicos eram da Síria, da Fenícia, região banhada pelas idéias hebraicas e semitas, presentes na cultura Cananeia-fenícia. Uma prova disso é o o fato do nome principal de Deus, na cultura fenícia, ser “El”, como é na Bíblia.

O nome principal da divindade, na Bíblia, é “El” e isso permanece mesmo quando o culto a Baal prepondera, em conflito com “El”, mas sendo afirmado que Baal nasce de “El” (ver, a propósito, os conflitos de Elias com os sacerdotes de Baal).

Seria possível citar mais de vinte grandes estoicos de origem na cultura semita. Basta, para ilustrar, citar Zenão de Chipre (o fundador do estoicismo), Crisipo (o principal formulador do estoicismo) e mesmo Posidônio, que nasceu na Síria. A região entre Jerusalém e a Síria deu origem também a autores como Porfírio, que nasceu em Tiro, cidade fenícia, ligada culturalmente aos hebreus. A Cilícia era tanto ligada aos hebreus que Polemon II, rei da Cilícia, casou-se com Berenice, irmã de Herodes Agripa II.

Outros grandes estoicos tem origem na Espanha, terra colonizada primeiro pelos fenícios, totalmente influenciada pela cultura fenícia-semita, inclusive por judeus. Os fenícios estavam presente na Grécia, também, pois o alfabeto grego é o alfabeto fenício e Tebas (a cidade base das grandes peças de teatro gregas) é uma colônia fenícia, foi fundada pelos fenícios. Os fenícios também participaram do surgimento da democracia na Grécia, derrotando o tirano que escravizava Atenas e a tornando uma democracia.

Os fenícios também estavam presentes na Lídia, em Sardes, onde também existiam judeus. Fenícios e judeus estavam presentes no Império assírio, babilônico, persa etc. Mesmo Homero, na “Ilíada”, menciona os fenícios, como grandes navegantes. 

Tarso era uma das maiores cidades do mundo, tendo mais de 500.000 habitantes, na época de Cristo. Tarso, Pérgamo e Antioquia, juntas, faziam bom contraponto a Alexandria e a Roma, deixando para trás cidades como Corinto e Éfeso, que eram enormes também.

Xenofonte passou por Tarso, lá por 401 a.C., com os dez mil gregos, citados na “Anabase”. Tarso é mencionada com Tarsis, em Gn 10,4; tal como em 2 Macabeus 4,30-36. Tarso era protegida por Augusto, pois era a terra natal de Atenodoro, um estóico, professor de Augusto. Augusto mantinha relações de amizade com Herodes, que tinha escritores como Nicolau de Damasco (n. em 64 a.C.), um filósofo e um historiador, autor de uma História universal de 144 livros e de uma biografia de Augusto. Josefo utilizou vários textos de Nicolau de Damasco.

Theodore Reinach (1860-1928) escreveu um livro chamado “Textos de autores gregos e romanos relativos ao judaísmo” mostrando as ligações antigas entre o judaísmo e a filosofia grega, especialmente o estoicismo. Theodore era irmão de Solomon (arqueólogo e historiador) e de Joseph Reinach, o chefe de Gabinete de Gambetta. Theodore dirigiu, por anos, a “Revista de Estudos Gregos”. Seus estudos mostram a mesma tese dos Santos Padres: o pensamento judaico influenciou o pensamento grego e romano, por dentro, auxiliando a luz natural da razão a gerar ideias bem próximas do cristianismo, preparando o surgimento do cristianismo.

No mundo judaico, o cristianismo foi, no prisma humano, a continuidade do movimento dos fariseus (“perushim”). Estes já estavam realizando sínteses com a Paidéia, adotando um ecletismo filosófico que juntava as idéias estóicas, platônicas etc e o mesmo ocorria com os essênios.

Os fariseus são a base dos essênios e dos zelotes, pois essênios e zelotes são variações do movimento fariseu. O helenismo e as idéias hebraicas já estavam em diálogo intenso antes do helenismo e, principalmente, depois.

No mundo judaico, uma parte dos sábios passou a adotar nomes gregos no século III a.C., tal como antes adotara nomes egípcios, babilônicos e persas. Antígnos de Sochos é tido como o primeiro a adotar um nome grego e dois de seus discípulos, Tsadoc e Betus, romperam com a Torah oral (“Lei oral”, defendida pelos fariseus e pelos católicos) e adotaram o hedonismo, as idéias de Epicuro (foram chamados de “epikaros”, de epicureus).

Segundo o Talmud, Tsadoc e Betus foram os fundadores das seitas dos saduceus e dos betusianos. No caso dos saduceus, houve erros, pois rejeitaram o substrato estoico contido na crença dos fariseus. Os fariseus eram a seita mais próxima do cristianismo, ponto que Cristo destacou. 

O Talmud chama a pessoa que ataca a fé de “o epicurista”. Só este fato já demonstra bem o elogio fariseu das idéias estóicas no Talmud. Flávio Josefo chamava os fariseus de “os estoicos hebreus”. 

Os rabinos, tradicionalmente, chamam de “apiqoros” (epicureus) as pessoas que negavam a vida após a morte. Também usaram o termo “apiqoros” para designar os pagãos. Esta crítica rabínica aos epicureus é outro sinal claro do amor judaico ao estoicismo, de fundo semita, também.

Conclusão – a filosofia cristã e hebraica é formada de uma síntese do melhor da Paideia com o melhor do Tradição hebraica, sendo uma síntese eclética, unindo os melhores textos dos órficos, dos pitagóricos, do platônicos, dos aristotélicos e dos estoicos e, depois, do hermetismo. O mesmo vale para o pensamento muçulmano, como pode ser visto nos melhores textos da comunidade muçulmana no Cairo.

No fundo, é praticamente o credo da última fase de Diderot, que morreu panteísta e adepto de Seneca, estoico. 

Os mercantilistas eram intervencionistas, economia mista. Lição de Schumpeter

Joseph A. Schumpeter, um dos maiores economistas da história, no livro “História da análise econômica” (São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais e Ed. Fundo de Cultura, 1964), no volume II, p. 466, elogia os mercantilistas (também chamados de cameralistas, nome mais correto). 

Diz que, nos “25 anos” “que precederam” o livro “A riqueza das nações”, de Adam Smith, ou seja, de 1750 a 1776, “a maioria dos economistas” chegou a “um acordo substancial”, uma “communis opinio”, defendendo a intervenção estatal (“regulamentação”) na economia, para que esta possa gerar prosperidade. Schumpeter destaca, como autores representativos deste consenso, economistas como “Beccaria, Genovesi, Verri e Palmieri, na Itália; “Josiah Tucker e Sir James Steuart, na Inglaterra; Justi e Sonnenfels, na Alemanha”; e “Forbonnais, na França”.

Schumpeter podia ter citado, na mesma linha, o Abade Galiani, Necker (elogiando Colbert), Mably, Diderot e mesmo Rousseau. 

Schumpeter também lembra que os grandes mercantilistas não eram tão rígidos. Defendiam mesmo tarifas de importação de “15% ad valorem”, e alguns até “10%”. No final, no mundo todo, hoje, em geral, são estas as tarifas de importação, ou algo mais. Os mercantilistas queriam, no final das contas, ampla intervenção estatal para regrar a economia, para amparar indústrias chaves, setores essenciais, para assegurar soberania nacional etc. 

A grande tradição da economia política é pro economia mista, ponto que fica claro em São Tomás Morus, Antônio Serra, Campanella, Colbert e outros. O velho Carey, nos EUA, aprovaria o apreço de Schumpeter. Idem para List.

Keynes teceu amplo elogio aos mercantilistas, pois também era intervencionista, economia mista.

O mercantilismo tinha boas coisas, pois exigia ampla intervenção estatal na economia e economia mista

O próprio Marx admite pontos positivos no mercantilismo, quando destaca que os mercantilistas começavam a análise pelo todo, pela estrutura geral da economia. Marx praticamente iniciou seus estudos com base no cameralismo, o mercantilismo alemão e austríaco. 

Por esta razão, no século XIX, na crítica ao capitalismo, houve vários autores quase socialistas que elogiaram corretamente alguns pontos do mercantilismo, no fundo, elogiavam a ampla intervenção estatal na economia, elemento tradicional. Esta parte do mercantilismo é sadia. Os sansimonistas destacaram isso bem.

A defesa da ampla intervenção estatal na economia, das estatais, do controle dos preços, tudo isso são teses hiper tradicionais, expressões da Tradição católica. Não são teses marxistas, e sim teses centenárias, até milenárias. Prova? basta pensar no controle do Estado sobre a irrigação (hidráulica) e as obras públicas, há milhares de anos, na Suméria, no Egito etc. 

A defesa da intervenção estatal fica claro em Mably, Diderot, Voltaire e outros, que elogiaram o grande Colbert, o colbertismo, na França. Há ainda o “Elogio de Colbert”, por Jacques Necker. O mesmo no livro do Abade Morellet, nos melhores textos de Babeuf. É a mesma ideia de Moisés, de Platão, de Thomas Morus e outros. Economia mista, ampla intervenção estatal, difusão de bens etc. 

O Estado criou várias estatais e protegeu a economia nacional, para desenvolver uma base industrial, para não exportar matérias primas, só permitindo a exportação de produtos elaborados.

O Estado deve substituir as grandes corporações privadas por boas estatais e por boas cooperativas produtivas e outras formas de cooperativismo. 

Além de Colbert, houve Montcrétien, “Tratado de economia política” (1615), Antônio Serra, o próprio Campanella, Laffemas (controlador geral do comércio, no governo de Henrique IV). Há o “Regulamento para desenvolver as manufaturas do Reino” (1597). Há as obras de Sully, de Richelieu e de Colbert (1651). 

Mercantilismo, protecionismo e intervenção estatal seguem sempre juntos, ponto que List (“Sistema nacional de economia política”) ilustra com bastante ênfase. Idem para Lincoln, nos EUA. O relatório sobre a necessidade do Estado incentivar a industrialização, de Hamilton, nos EUA, tem a mesma base.

O Estado é essencial para o desenvolvimento econômico. Isso também foi visto pelo Padre Vieira, por Pombal e outros.

Todos os países desenvolvidos da Europa se desenvolveram pelo protecionismo, pela ampla intervenção estatal na economia. O mesmo para o Japão, frise-se e isso foi amplamente demonstrado por dois grandes católicos: Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e por Barbosa Lima Sobrinho.

O elogio do protecionismo e da intervenção estatal para a industrialização está no núcleo das obras de Roberto Simonsen, na prática e nos textos de Getúlio e outros. Estes autores se basearam em várias fontes, inclusive Manoilesco, que ensinou grosseiro antissemitismo, sendo este o joio de seus textos, mas há partes boas, na ênfase ao nacionalismo e no combate ao imperialismo econômico.

Os estruturalistas também enfatizavam a estrutura geral, na linha antiga, ponto destacado por Keynes. Os melhores textos da aguada e branda CEPAL têm o elogio da intervenção estatal e da proteção estatal à economia. 

Este ponto também fica claro no livro de Schmoller, “O sistema mercantilista e sua significação histórica” (1884). E fica claro nos livros de Wilhelm Roscher (1817-1894), Adolf Wagner, de Lucien Brocard, Cunningham (1907) e outros. Há análise parecida no livro de André Marchal, “A concepção da economia nacional nos mercantilistas franceses” (Paris, 1931). O mesmo ocorreu na Escola Histórica da Economia, com Bruno Hildebrand e outros.

Lembro que o padre Henrich Pesch (1854-1926), expoente do solidarismo católico, foi aluno de Adolf Wagner, de 1901 a 1903). O solidarismo do Padre Fernando Bastos de Ávila é um socialismo participativo, distributista, uma economia pautada pela democracia popular. Idem para Dom Hélder e Alceu. 

Basta ler os textos de Constantin Pecqueur, para ficar claro o elogio da intervenção estatal na economia. A influência de Buchez sobre Lassalle foi atestada por Marx e Engels. Buchez era o chefe do socialismo católico. E a ideia do Estado apoiar o surgimento de cooperativas de produção vem de Buchez, para Luiz Blanc, Karl Rodbertus, Lassalle e, daí, para o “Programa de Gotha” (cooperativas de produção). Sobre estes pontos, vide Charles Andler (“Les origines du socialismo d´Etat en Allemagne”, Paris, 1897). Outra obra magnífica é a “História do pensamento socialista” (7 volumes), de G.D. H. Cole.

Os inimigos do protecionismo eram os livres cambistas, como Cobden e, depois, Viner. Todos os defensores do imperialismo são pró livre cambismo.

Os inimigos do imperialismo econômico eram a favor de ampla intervenção estatal, ampla proteção estatal ao florescimento econômico, para obter a prosperidade geral. Basta pensar em Keynes, Joan, Robinson, Gunnar Myrdal, Harold Laski e a CEPAL e outros, que fizeram o elogio da intervenção estatal e, implicitamente, do protecionismo. Protecionismo é principalmente proteção do Estado. 

A ideia de substituição das importações por produção industrial nacional está no núcleo do mercantilismo, do protecionismo. Da mesma forma a ênfase na necessidade da difusão de ampla educação pública e profissional a todos os trabalhadores, para desenvolver a tecnologia nativa, para o controle da tecnologia, da ciência. 

Pode e deve haver um protecionismo não explorador, não imperialismo. Todas as nações devem ter Estados nacionais amplamente intervencionistas na economia. Todos os continentes devem ter Uniões Continentais. A ONU deve ser convertida num Estado mundial, amplamente interventor, que dirija a economia, os fluxos econômicos, para o bem comum, com uma moeda internacional, como o Bancor, retirando este privilégio do dólar (cf. Santiago Fernandes, Keynes e outros). 

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