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O integrismo foi sempre semeado pelo grande capital, para destruir a Igreja, por dentro

O integrismo é uma heresia, um erro gravíssimo, uma Traição a Deus.

O integrismo tenta decepar a ética social do catolicismo. Foi sempre difundido pelos ultra ricos, para criarem um “catolicismo” omisso, empresarial, fazendeiro, à imagem dos ricos.

Não era o catolicismo, e sim um conjunto de erros semeados pelo grande capital e pelo latifúndio, para tentarem extirpar a ética social da Igreja. 

Este ponto é bem explicado no livro “O integrismo brasileiro”, do padre Charles Antoine (Rio, Ed. Civilização Brasileira, 1980).

O integrismo é a infiltração capitalista na parte humana de uma parte pequena do Clero.

Trata-se de uma das “pragas” atuais do Jardim magnífico da Igreja, para usar expressão de Rosmini, na obra “as cinco pragas da Santa Igreja” (Milão, 1848).

Uma das alegrias que tive foi, ao ler a “autobiografia” (feita com base em textos e gravações) de Plínio Correia de Oliveira. Numa passagem, Plínio se queixa que, de 1943 a 1995 (quando tinha quase 90 anos), praticamente foi banido da Igreja Católica, nunca sendo convidado pelos bispos, vivendo praticamente isolado da Igreja, repelido.

De fato, a corrente da TFP distorcia o catolicismo, para difundir uma doutrina falsa, sem ética social, com inúmeros erros sobre liturgia, ética, teologia, liturgia etc. 

Um amplo Estado social do bem estar, um Estado controlado pelo povo organizado. Ideal da ética cristã e natural

O esboço de um “Estado de justiça social”, do padre José Luís Aranguren (1909-1996), tem o mesmo conteúdo do ideal de um grande Estado do Bem-Estar social (há as mesmas idéias no livro de Aranguren, “Ética e política”, Madrid, 1963). Em Cuba, este era o ideal cristão de Chibás, do Partido Ortodoxo, que era o partido original de Fidel Castro.

O Partido Ortodoxo era ligado a Igreja, ao ideal de uma democracia popular, sendo a base inicial dos textos de Fidel Castro, contra o liberalismo.

Em Portugal e na Espanha, houve o Partido Democrático Popular. Na Itália, o Partido Popular, de Sturzo, elogiado por Gramsci. No fundo, o ideal de um grande Estado social popular, pautado por economia mista. O modelo da Igreja. O modelo natural.

O modelo hindu indiano do Partido do Congresso , trabalhista. O ideal do Trabalhismo no Reino Unido, no Norte da Europa (Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Islândia), da Austrália, da Nova Zelândia. 

O Estado ampliado do bem-estar é o Estado segundo o ideal cristão, segundo a razão, segundo a natureza humana. 

É o Estado preconizado pela doutrina social da Igreja e pelos textos dos teólogos da libertação. Coincidindo, em muitos pontos, com este ideal, há toda a corrente do socialismo democrático, do nacionalismo de esquerda anti-imperialista, do trabalhismo, de Battle, de Cardénas, de Peron, de Nasser, de Sukarno, da Guatemala com Jakob Arenas, do Irã, de Mandela do distributismo etc.

Há a mesma concepção nos trabalhistas israelenses judeus, que, para mim, são os que melhor expressam o melhor da ética judaica. A direita israelense não dignifica Israel. A esquerda trabalhista é que dignifica Israel, pois expressa o melhor da ética judaica. 

Na mesma linha, há, com diversos matizes, toda uma constelação de textos reformistas e anti-capitalistas. Por exemplo, para citar de memória, lembro os textos de homens como William Beveridge, Oskar Lange (antigo professor na Universidade de Chicago), os melhores textos de Keynes (a corrente do keynesianismo de esquerda, destaque para Joan Robinson e Laski), os melhores textos de John Kenneth Galbraith, Gunnar Myrdal, Perón, Nasser, Tito, Harold Laski, Sidney Webb, Beatrice Webb, Gandhi e Nehru, do Partido do Congresso, os textos da CEPAL sob Raul Prebisch, o nacionalismo da África do Sul (Mandela) e de centenas de outros movimentos políticos e sociais, que procuram dividir os bens e a renda, atendendo às necessidades do povo, o bem comum, o bem de cada pessoa e de todos, o bem do povo.

Economia mista. Os interesses pessoais também são relevantes e explico

Adam Smith explicava o capitalismo dizendo que os interesses privados, por si sós, levavam, pela “mão invisível” do mercado, ao interesse social. Estava errado. O mercado, deixado a si mesmo, se autodestrói, gera desigualdades brutais, crises periódicas, e revoluções, pela proletarização geral da sociedade e a concentração do capital. 

Marx criticou o erro de Adam Smith. Mas, exagerou ao não considerar o interesse pessoal. 

A crítica de Marx foi feita com ajuda dos românticos (Sismondi, Buchez, Cabet, Saint Simon, Weitling e outros gênios) e do socialismo pré marxista, quase todo cristão, católico, frise-se. Isso eu demonstrei bem no meu livro, de quase 1.200 páginas, sobre a história do socialismo, mostrando que o socialismo utópico cristão foi a base principal das melhores críticas de Marx.

Marx se baseou no melhor da ética católica e hebraica, em seus melhores textos contra o capitalismo. 

O correto é a fórmula do bem comum, fórmula do melhor da Tradição milenar, de Platão, de Aristóteles, dos estoicos, dos epicureus mesmo, tal como do melhor do pensamento hebraico.

A fórmula do bem comum exige uma economia mista, que seja voltada para os interesses das pessoas, das famílias e da sociedade, com prioridade para os que mais sofrem, os mais pobres, os mais pisados, os doentes etc.

Os interesses (bens) pessoais contam e são essenciais, mas limitados, restritos, aos limites do bem comum, difundidos. Enfim, bens pequenos para todos, moradias, móveis, pequenas ferramentas, carros populares, renda universal, herança para todos, pela suplementação estatal, renda universal.

O Estado deve promover o bem comum, ou seja, bens para todos, erradicando a miséria e as grandes fortunas privadas, implantando a santa igualdade, mediania, que a Tradição bíblica e do melhor da filosofia grega e antiga tanto amavam. 

O ideal da mediania, da difusão de bens, do distributismo, do bem comum realizado, está também no núcleo da ética budista, hindu, muçulmana, taoísta, confuciana, indígena, africana. Faz parte do melhor do pensamento religioso e filosófico, espalhado no mundo todo. 

O princípio da subsidiariedade, da doutrina social da Igreja, exige ajuda do Estado para todos, difusão de bens, via estatal, com intenso papel redistribuidor do Estado, via tributos, regras públicas etc. 

Todos devem ter bens, poder, controle sobre as vidas próprias, dignidade, esfera jurídica de proteção da vida pessoal e social, uma boa proteção via direito civil e comercial nos moldes de Menger, atenuado, como queria Lassalle e outros. Karl Renner e os grandes civilistas católicos franceses viram isso corretamente. Os fabianos, Duguit e outros, idem. 

A economia deve ser pautada pelo controle dos trabalhadores sobre o fluxo da economia, pela difusão de bens, pela destinação universal dos bens. Todos devem ser pequenos e médios proprietários, sendo o direito de propriedade relativizado, atenuado, pela função social implícita, pelo controle estatal. Ao lado de uma base ampla de difusão de bens (distributismo), devem haver estatais, cooperativas e um setor privado, pequeno e médio, também sujeito a controles sociais, estatais e co-gestão.

Nada de miséria. Nada de opulência privada. Mediania, sobriedade, vida plena, abundante, para todos. 

A ideia do bem comum é a ideia central de toda ética, todo Direito, de todo Estado legítimo

A noção de bem comum está nos melhores textos da Paidéia e da Bíblia e destas fontes foi acatado pelo cristianismo. No mesmo sentido, Pio XI, num discurso a 2.500 sacerdotes rurais italianos, dizia: “é digno de elogio que vocês se dediquem” ao trabalho rural, “que é a espinha dorsal do país”, “é um dever estar presente onde resplandece a glória de Deus”, “o bem estar material dos homens redunda forçosamente em benefício de sua saúde espiritual” (texto colhido do livro do padre Manuel Foyaca de la Concha, “Democracia social Cristiana” (Havana, Ed. Lex, 1948, p. 219).

O primado do bem comum é, no fundo, uma fórmula mais antiga e tradicional para designar o princípio da destinação universal dos bens, que é o “princípio típico da doutrina social da Igreja” (c. “Sollicitudo Rei Socialis”, n. 42, de João Paulo II, em 1987). Este princípio ensina que os bens são destinados ao uso (controle, fruição, acesso etc) de todos para atender o direito à vida, à vida digna (adequada à dignidade do ser humano), para atender aos direitos naturais humanos de todos. Deus planejou que os bens fossem destinados a atender aos direitos humanos, ou seja, à plenitude da vida de todas as pessoas.

Outra fórmula para designar a idéia do primado do bem comum é a idéia-programa de “comunhão”: os bens foram destinados a todos, para serem compartilhados por formas jurídicas e políticas que a sociedade deve elaborar, por regras jurídicas. Estas regras serão legítimas se realizarem o bem comum, se atenderem à destinação universal dos bens, assegurando a todos condições de vida plena e feliz.

Deus é o Sumo Bem, a Suprema Bondade. A Trindade, especialmente pelo Espírito Santo, opera “no coração do mundo”, principalmente na consciência, para “pregar” “boas novas” aos “pobres”, para a “libertação dos oprimidos e a alegria dos aflitos”, para difusão dos bens, a todos, para dar a todos uma vida plena e feliz.

Deus é o “Summum bonum”, o Bem Supremo, em relação ao qual todos os outros se ordenam, ou seja, tudo deve convergir e ser regrado (ordenado) para o bem geral ou comum, que é o Plano, a “vontade de Deus”.

A boa ordem é a ordem social e política com justiça social, baseada no bem comum. Este é o sumo das lições políticas São Paulo, na “Carta aos Romanos” (8,28): “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem”. No “Pai Nosso”, há a mesma lição: Deus é um Pai amoroso, que busca transformar (unir) a terra ao Céu (“seja feita a Vossa vontade na terra como no Céu”) e libertar a criação do Mal (“livrai-nos do Mal”), sendo este o núcleo da religiosidade de homens como John Stuart Mill (1806-1873), H.G. Wells e Bernard Shaw. Por isso, o núcleo da religião, da teologia, contém o princípio máximo da ética e da teologia, o princípio do bem comum, que ensina que tudo deve ser ordenado para o bem de todos, para o bem universal, geral. O mal não passa da ausência do bem adequado e próprio a cada ser. Erradicar o mal, livrar-nos do mal, significa assegurar a todos uma vida plena, com acesso, controle, fruição dos bens. 

Quatro meses antes da morte, João Paulo II, em uma mensagem no Dia Mundial da Paz, lembrou que todas as pessoas devem lutar para “superar o mal com o bem”. Foi claro ao ensinar que “o mal não é uma força determinística, algo impessoal em ação no mundo. É o resultado da liberdade humana. A liberdade, que distingue os seres humanos de qualquer outra criatura na Terra, está sempre presente no cerne da tragédia do mal”. O ponto essencial é sempre pautar a vida (a liberdade natural), pelas luzes da razão em prol do bem de todos, do bem comum, geral.

A finalidade da sociedade e do Estado é o bem comum. O bem comum ou geral é mais do que o bem social, é o bem de cada pessoa, de cada família, de cada esfera ou círculo social e da sociedade toda. A realização do bem comum é também chamada de concretização dos direitos humanos naturais, realização da natureza humana ou da personalidade. A realização do bem comum é a finalidade dos poderes públicos, sendo a medida da autoridade. O bem comum é o critério primário da legitimidade, da bondade do poder e de cada norma.

O bem comum não se limita aos bens materiais. Além dos bens materais ( classificados em bens necessários, úteis e agradáveis), o bem comum abarca os bens espirituais (união com Deus), os bens morais (virtudes), os bens intelectuais (verdades, ciência, conhecimento, cultura, educação, informação etc), o bem do corpo (saúde, prazeres racionais etc) e também o poder, destinado a todos. Deus quer a difusão de todos os bens, para que todos tenham uma vida plena e abundante.

Aristóteles, na “Ética a Nicômaco” (I, 2, 1094), ensinou corretamente que todos os atos humanos devem ser ordenados racionalmente em prol do bem comum, geral. Aristóteles ensinou esta proposição porque seguia Platão. Platão definiu o bem do seguinto modo: “o ser é o bem” (cf. livro “República”, VII, 518), ou seja, o bem é a realização da essência dos seres, é a finalidade do seres. Por isso, a idéia do bem “acha-se mais além do ser” (cf. “República”, VII, 509), pois é a meta, para o ser se move, sendo o bem (geral), no final das contas, o próprio Deus, que é Coração do universo, o Amor que tudo move. No caso das pessoas, sendo nossa natureza social, racional e política, o bem moral implica em pautar racionalmente a vida em prol do bem de todos (incluindo o bem pessoal, familiar e social). O mesmo vale para o poder, que é uma construção humana. Como toda obra humana, será bom se for racional e pautado pelo bem comum.

A autoridade, o poder, está sujeito à lei natural, às regras que expressam as exigências do bem comum. Como ensinou Romano Guardini, no livro “O poder”, o bom poder é o poder como um serviço ao florescimento da pessoa, de todas as pessoas, da sociedade de pessoas (há a mesma tese no artigo “Potere, dominio e servizio”, publicado na revista “Concilium”, n. 10, em 1973).

A fórmula do poder-serviço, do poder que é agente do bem da sociedade, está claramente na Bíblia: a autoridade está “a serviço de Deus para te incitar ao bem” (cf. Rm 13,4; Rm 13,1-7; Tt 3,1; e 1 Pd 2,13-17). Quando o Estado promulga uma lei iníqua ou organiza uma estrutura injusta, tem o dever de desobedecer (cf. At 4,19-20; 5,29; Ap 13). Estes pontos foram bem expostos por autores como J. M. Aubert (“Loi de Dieu, loi des hommes”, 1964) e K. H. Peschke (“Etica Cristiana”, 1986).

Conclusão: toda regra, lei, norma humana, regra ética, preceitos, conselhos, estrutura, organização e situação, para ser justa (boa), deve ser uma ordenação (uma regra, ordem, organização) racional que realize o bem comum, que é o bem geral. Esta é a lição dos textos de Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus (o padroeiro dos governantes e dos políticos), Mably, Nicolau Spedalieri, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ozanam, Dupanloup, Rosmini, Ketteler, Acton, Leão XIII, Sangnier, Pio XI, Maritain, Mounier e em milhares de escritores católicos.

Estas idéias foram consagradas no Vaticano II, por praticamente todos os bispos católicos do mundo todo. Estão nos textos de João XXIII, em Medellin, Puebla, nos Sínodos de Bispos, nos melhores textos da democracia cristã, na doutrina social da Igreja e na Teologia da libertação. A essência da ética também é o bem comum.

A ética é o conjunto das regras razoáveis, consensuais, racionais, dialógicas, exigidas pelo bem geral, universal, comum a todos.

O bem comum exige a participação de todos nos bens e no poder, exige um regime pautado por igualdade, liberdade e fraternidade, princípios profundamente cristãos, como ensinaram Leão XIII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

A ética cristã e hebraica é a fonte principal do socialismo democrático, da democracia popular

As fontes do “socialismo democrático” foram bem descritas no “Programa” do Partido Social-Democrata Alemão, aprovado em 1959: o texto diz que “o socialismo democrático europeu” tem três “raízes”: “a ética cristã”, “o humanismo” e “a filosofia clássica”.

O texto acima, num documento fundamental da corrente do socialismo democrático, está correto.

Só destaco que a ética cristã e hebraica é a base e a raiz do humanismo europeu. Ou seja, a fonte do humanismo é a ética cristã e hebraica, que incorporou inclusive o melhor da ética suméria, fenícia, grega, egípcia, persa etc. Isso fica claro quando se lê o Pirke Aboth, o texto fundamental da ética os judeus ortodoxos. 

Destaco ainda que a filosofia clássica só foi mantida, porque foi incorporada pelo cristianismo, pelo catolicismo, na filosofia cristã. Assim, a ética cristã e hebraica é a fonte principal do socialismo democrático, da democracia popular. 

A ética praticamente estoica do Pirkei Aboth, do Talmud

Toda a estrutura ética do “Talmud”, em sua melhor parte, é praticamente um estoicismo hebraico, como fica evidente no “Pirkei Aboth”. O tratado “Pirkei Aboth” (“Ética dos Pais”) é o principal texto ético do Talmud. O “Pirkei” traz um texto do Rabi Eleazar, que diz: “seja diligente no estudo da Torah, para saber o que deve responder ao epicurista”, refutando-o (cf. Irving M. Bunim, no livro “A ética do Sinai”, tradução de Dagoberto Mensch, p.121). No núcleo ético do Talmud há uma luta contra o epicurismo, uma luta estóica-semita, que o cristianismo dá continuidade.

O “Pirkei” foi incorporado na liturgia hebraica (a liturgia é a ética viva da comunidade), pois é lido, nas sinagogas asquenazis todos os sábados à noite, durante o verão. Nas comunidades sefardis, o “Pirkei” é recitado em casa, no sábado, entre o Pessah (Páscoa) e o Shavuot (Pentecostes, quando Deus deu aos hebreus, no Monte Horeb, no deserto do Sinai, os Dez Mandamentos).

Flávio Josefo, contemporâneo de Cristo, chamava os fariseus de “estóicos hebreus”. Também chamava os saduceus de “discípulos de Epicuro”. No livro “Guerra dos judeus contra os romanos” (II, 12, 153), Flávio Josefo disse que “os saduceus, ao contrário [dos fariseus], negam absolutamente o destino” [a Providência, ação divinizadora de Deus] e ensinam que Deus “não se incomoda com o que os homens fazem” e que “as almas não são nem castigadas nem recompensadas num outro mundo”. Em outras palavras, os saduceus negavam a Providência, a ética e a vida após a morte, pontos que hebreus e estóicos ensinavam, em boa harmonia, sendo estes pontos herdados pelo cristianismo, pois o cristianismo é a corrente semita-hebraica submersa, que continua. Uma corrente que estava já presente no estoicismo, que teve criação semita-fenícia.

Em sua “Autobiografia”, Flávio Josefo diz ser fariseu, desde os dezenove anos. Josefo destaca que os fariseus eram os estóicos hebreus. Cristo disse que os “fariseus” ocupavam “a cadeira de Moisés” e que os cristãos deveriam ouvir os fariseus, sem imitar a prática destes, em descompasso com suas idéias. Os fariseus representavam a corrente mais próxima ao cristianismo e de onde brotam os judeus cristãos, inclusive São Paulo, fariseu, aluno de Gamaliel.

O livro do padre Eleutério, “Cristianismo e estoicismo”, explica algumas razões da proximidade e da semelhança entre as idéias estóicas e as idéias do cristianismo. Além de serem idéias racionais, eram idéias de origem oriental, fenícia, persa (cristalizadas principalmente no masdeísmo), mesopotâmicas, egípcias e mesmo hebraicas.

A influência semita no pensamento grego é destacada pelos próprios gregos. Por exemplo, parte das idéias “gregas” vem de Tales, um fenício. Tales foi o mais antigo filósofo do mundo grego e era fenício. Outro exemplo é Ferecides de Siro, que escreveu lá por 600 a.C.. Ferecides ensinou sobre a imortalidade da alma e teria aprendido suas idéias da leitura dos livros secretos dos fenícios, vizinhos e amigos dos hebreus. Há influência semita-fenícia em todo o pensamento grego, a começar pelo alfabeto semita, adotado pelos gregos. E o mesmo ocorre na revolução que trouxe a Democracia a Atenas, com participação de fenícios. O criador do estoicismo foi Zenão, um fenício. E todos os grandes escritores estóicos tinham origem fenícia ou espanhola (a Espanha teve ampla influência semita, fenícia, em ligação com o Cáucaso e o mundo fenício, semita e hebraico). 

A cultura grega foi influenciada pela cultura fenícia. Afinal, o alfabeto grego vem também dos fenícios. Os gregos passaram a usar o alfabeto lá por 750 a.C.. Mesmo a escrita Linear, encontrada em Creta, também tem origem mesopotâmica, na escrita cuneiforme semita, que foi a base da escrita fenícia, aramaica e hebraica. A divisão do tempo em semanas, tal como do dia em doze horas, também vem da Mesopotâmia semita. O mesmo para a divisão do círculo em 360 graus, na divisão do mundo em quadrantes etc. 

Os próprios gregos ensinam que Atenas foi criada por um egípcio, chamado Cécrope. A cidade grega de Tebas, palco das grandes peças de teatro de Ésquilo e outros, foi fundada por um fenício, chamado Cadmos. Cadmos teria trazido a escrita fenícia aos gregos, tal como vastos pontos da religião grega. Outra parte da cultura grega vem de Creta, da civilização minóica (de “Minos”), também ligada ao Egito e aos fenícios. O próprio nome “Europa” vem da Fenícia, pois seria uma filha de um rei fenício.

A estrutura das cidades-estados gregas vem da estrutura das cidades-estados fenícias e da Suméria. A democracia existiu antes na Suméria, depois na Fenícia, em Cartago e, só depois, na Grécia e em Roma.

Da mesma forma, Hércules tem origem em Melkart, um deus fenício. Por isso, Hércules, para os gregos, nasce em Tebas, cidade grega, de origem fenícia. A ilha de Malta, perto de Creta, tinha sido uma colônia fenícia e houve várias colônias fenícias no território grego, como a própria cidade de Tebas e a região da Beócia. O nome de “Malta” vem de uma palavra fenícia, que significa “refúgio”. Malta é uma ilha de 246 quilômetros quadrados, no meio do Mediterrâneo, a uns cem quilômetros da Sicília, área também banhada pela cultura fenícia-semita.

A Igreja adota a teoria das quatro virtudes cardeais, junto com as virtudes decorrentes destas quatro

São Paulo, na “Carta a igreja em Éfeso” (5,9), resume a lista das virtudes de uma pessoa da seguinte forma: “andai como filhos da Luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios”.

Na “Carta aos filipenses” (cf. Fp 4,8), São Paulo ensina:

tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

O texto acima tem o mesmo conteúdo que a ética de Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” (livro I, 13): Há também pontos semelhantes com a ética de Cícero e de Sêneca.

O termo “virtude” (“aretè”) aparece na Bíblia, como ser visto em 1 Ped 2,9, 2 Ped 1,3-5 ou Fp 4,8. O trecho mais importante é 1 Pd 2,9, pois é uma citação de Isaías 43,21 (da “Septuaginta”; tal como 42,8-12; e 63,7) como o sentido de “atos dignos de louvor” (em hebraico, “te hillah”; “aretas”, em grego). No livro apócrifo “Macabeus 4”, há o termo “aretè”, com claríssima ligação com os estoicos. No livro “Sabedoria” (5,13), a virtude (“aretè”) é o contrário da “maldade”, sendo atos (a prática) de bondade, do bem. O livro “Sabedoria” (4,1) ensina que a prática das virtudes gera a “imortalidade”. O livro “Sabedoria” adota a classificação clássica das quatro virtudes cardeais (cf. 8,7).

William Temple, anglicano trabalhista, com ética social próxima da Igreja Católica

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Santo Agostinho, Cícero e Aristóteles, ideias comuns

Santo Agostinho, no final da vida, no livro “Confissões” (III, 4,7), atribuiu sua conversão à leitura do livro “Hortensius”, escrito em 45 a.C., por Cícero. Cícero redigiu este livro com base no livro “Protréptico”, de Aristóteles. Neste livro, perdido quase todo, tal como na “Grande Ética” e na “Ética a Eudemo”, fica clara a ligação entre aristotelismo e platonismo. O livro “Protréptico” influenciou também os estóicos (Crisipo, Cleantes e outros) e atingiu mesmo São Clemente de Alexandria, que redigiu um livro com este título.

A ética de Cícero foi exposta no livro “Dos deveres”, sua última obra, escrita em 44 a.C., que é uma carta a seu filho, Marco, que estudava filosofia em Atenas. Cícero expõe a ética com base em quatro deveres gerais, quatro virtudes cardeais, quatro grandes regras, que se dividem em subregras (virtudes menores, decorrentes). Estas virtudes eram as quatro virtudes cardeais de Platão e do livro “Sabedoria”, da Bíblia. São as virtudes da justiça, da sabedoria prática (prudência), da coragem (fortaleza) e da moderação (temperança). Esta obra de Cícero tem grande relação com as obras éticas de Aristóteles (“Ética a Nicômaco”, para o filho de Aristóteles; “Ética a Eudemo”, “Grande ética” e “Protréptico”).

Os livros de Aristóteles desapareceram pouco depois de sua morte e foram descobertos somente no século I a.C. As obras éticas de Aristóteles têm basicamente o mesmo conteúdo que as obras éticas dos estóicos, especialmente Varrão, Cícero e Sêneca.

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