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A Igreja sempre lutou por uma sociedade não capitalista, solidária, fraterna, economia mista, com amplo Estado social

A Revolução Francesa foi apenas a eclosão, explicitação, do movimento democrático que já ocorria gradualmente. Foi a eclosão de ideias cristãs.

Durante a antiguidade e a Idade Média, existiam modos (relações) de produção comunitários e também o campesinato e a propriedade artesã, que também permanece na Idade Média e ainda hoje.

O próprio Karl Marx, no “O Capital” (livro I, t. II, p. 26), lembra que “a pequena exploração rural” e “o artesanato independente foram o pedestal [base] econômico da sociedade clássica na sua idade de ouro”, tal como no final da Idade Média. Mais tarde, os camponeses, os artesões e os pequenos produtores encabeçam a Revolução Francesa.

Num parêntese, um socialismo humanista ou democracia social avançada (na terminologia de Alceu Amoroso Lima) mantém a pequena propriedade familiar (artesão, camponesa, urbana) e o cooperativismo, ao lado de boas estatais, regidas por co-gestão. Envolvendo tudo isso, deve haver planejamento público participativo, controles públicos de preços, intervenção estatal constante, impostos redistributivos e toda forma de ajuda estatal aos micros, pequenos e às pessoas frágeis.

A democracia já existia antes do liberalismo, antes do capitalismo.

Da mesma forma, já existiam camponeses e pequenos burgueses na antiguidade (vide “Economia”, de Xenofonte; ou a obra sobre “Economia”, atribuída a Aristóteles).

A Revolução Francesa apenas consagra algo que já estava em gestação, em formas embrionárias espalhadas em todas as partes. Há a mesma tese nas melhores obras de Taine e de Alexis de Tocqueville (1805-1859).

Alexis Clérel de Tocqueville foi um grande católico, escreveu o livro “A democracia na América” (1835), ajudando a difundir a democracia na Europa, com o exemplo dos EUA.

Tocqueville era discípulo de Montesquieu, outro grande católico, e escreveu os livros “O antigo regime e a Revolução” (1856) e “Considerações sobre o estado da França, antes de 1789”, demonstrando que a democracia já existia antes da Revolução Francesa, em várias instituições e formas representativas.

Tocqueville foi da Academia Francesa (criada por Richelieu) e sua cadeira, após sua morte, passou para Lacordaire, que redigiu um grande elogio a Tocqueville.

Lacordaire e Tocqueville tinham o ideal de uma democracia não-capitalista, social, participativa, pautada pelo bem comum. O mesmo ideal de Buchez e Ketteler.

Hipólito Taine foi um historiador, que se converteu antes de morrer, tendo demonstrado que a Revolução Francesa não criou tantas instituições e idéias novas, e sim organizou instituições e idéias antigas, ampliando-as e melhorando-as.

Antes de Robespierre, o próprio Richelieu destruía castelos medievais e ampliava o poder do Estado, criando estatais.

Esta tendência foi ampliada por Colbert, Sully e outros grandes políticos franceses, que auxiliaram na formação do Estado francês, preparando a Revolução Francesa.

O lema de Colbert era “pro pátria sempre” (“pela pátria, sempre”, lema adotada como divisa pela cidade de Pindamonhangaba SP). O amor de Richelieu pela pátria e pelo Estado francês é notório em todas as biografias deste Cardeal estadista.

Da mesma forma, Guizot, apesar de seus erros históricos, soube expor a evolução do governo representativo da antiguidade, passando pela Idade Média até a Revolução Francesa. Guizot baseou-se nos textos de Thierry, um grande historiador católico que Marx admirava.

Augustin Thierry (1795-1856) redigiu grandes obras, como “Cartas sobre a história da França” (1827), “História da formação e do progresso do terceiro estado” (1853).

Thierry, um grande católico, foi o discípulo mais estimado por Saint-Simon e foi muitíssimo elogiado por Karl Marx. Marx atribuiu a Thierry a prioridade na descrição da história como luta de classes, elogiando os textos de Thierry.

Conclusão: há a mesma demonstração da origem cristã da democracia nos textos de homens como Jacques Victor Alberto de Broglie (1821-1901), Luiz Marciano Carne (1804-1876, “Estudos sobre a história do governo representativo na França de 1789 a 1848”), Balmes, Armando Carrel, Mignet ou nos textos de Acton (em sua “História da liberdade”).

Há a mesma tese nos livros de Utz e Boeglin, “Ética social” e “A doutrina social da Igreja através dos séculos”.

No mesmo sentido, Jarlot, “Doutrina pontifical e história” (Roma, Gregoriana, 1964-1973).

No mesmo sentido, vale a pena ler os livros de Emannuel Mounier, Giorgio La Pira, Giuseppe Dossetti, Aldo Moro, Luigi Sturzo, Romolo Murri e outros.

Em todos estes autores, fica claro que a doutrina da Igreja quer uma sociedade não capitalista, solidária, distributista, com o melhor das ideias dos socialistas pré marxistas cristãos. 

O cartismo, uma das maiores fontes cristãs do Estado social

O cartismo, na Inglaterra, também foi um movimento organizado por idéias cristãs, sendo formado, em boa parte, por irlandeses católicos.

Lênin elogiou o cartismo, escrevendo: “a Inglaterra deu ao mundo o primeiro movimento amplo, verdadeiramente de massas, politicamente formado, um movimento proletário revolucionário, o cartismo”.

Stalin, nas “Conversas com Wells” (embutida no livro “Questões do leninismo”, 1936), também elogiou o cartismo, como movimento precursor do socialismo marxismo e do socialismo.

A principal influência teórica dos cartistas foi Daniel O´Connor, um irlandês católico, “distributista”, que lutava por democracia, reforma agrária e outras reformas sociais.

Outro autor que influenciou os cartistas foi William Cobbett, que Marx apreciava e elogiava.

Cobbett era católico, tal como Daniel O´Connor, lideranças católicas. Nos EUA, o movimento operário precursor foram os Cavaleiros do Trabalho, liderados por um católico, também. 

Vaticano – ideal social e econômico exige síntese entre socialização e personalização

O documento “A doutrina social da Igreja na formação sacerdotal”, da Congregação para a Educação Católica (Petropólis, Vozes, 1989), do Vaticano, expõe, como orientação para o clero católico do mundo inteiro, as linhas gerais de uma democracia, econômica e política, participativa, como ideal concreto e histórico dos princípios (idéias práticas) sociais cristãos.

Vejamos, com a transcrição de parte do documento acima referido, o ideal político católico, exposto na formação dos sacerdotes da Igreja:

Participação.
40. A participação ocupa um lugar predominante no desenvolvimento recente do ensino social da Igreja. A sua força está no fato de que assegura a realização das exigências éticas da justiça social. A participação justa, proporcionada e responsável de todos os membros e setores da sociedade no desenvolvimento da vida socioeconômica, política e cultural é o caminho seguro para alcançar uma nova convivência humana. (…)
Trata de uma aspiração profunda do homem, que exprime a sua dignidade e liberdade no progresso científico e técnico, no mundo do trabalho e na vida pública.
Estruturas humanas e comunidades de pessoas
41. A Igreja procurou repetidamente prevenir o perigo real que ameaça a dignidade da pessoa, a liberdade individual e as liberdades sociais, e que deriva da concepção tecnicista e mecanicista da vida e da estrutura social que não deixa espaço suficiente ao desenvolvimento dum verdadeiro humanismo. (…)
A realização destes princípios, que regulam a vida social nos diversos níveis de organização social e nos vários setores da atividade humana, permite superar todas as tensões entre a socialização e a personalização”.

Conclusão: a noção de “democracia participativa” une, numa síntese, a “socialização” e a “personalização”, como queriam Dom Hélder, o Cardeal Lercaro e Alceu.

Trata-se de uma ampliação (mantém o mesmo núcleo e o amplia, “supera”, na terminologia hegeliana) do conceito de “democracia social”, democracia popular.

Correlato a estes conceitos, é certo dizer que a Igreja busca, na atual fase histórica, um Estado social participativo, popular, trabalhista, distributista, comunitário, cooperativo, campesino, verdadeiramente representativo do povo, anti-capitalista, anti-latifundiário, anti-imperialista e anti-oligárquico.

Bispos católicos do mundo todo lutam pela Democracia popular participativa, economia mista

Os Bispos do Peru apoiaram os esforços do General Velasco Alvarado, um nacionalista elogiado por Neiva Moreira, Eric Hobsbawm, Emir Sader e outros. Os bispos peruanos queriam e querem implantar um socialismo participativo, baseado na idéias de comunidade, de comunhão. Estes bispos enviaram para o Sínodo Romano (uma reunião mundial de Bispos em Roma) um documento onde escreveram: “… por isto tantos cristãos hoje em dia reconhecem nas correntes socialistas um número de aspirações que levam dentro de si mesmos em nome da fé”.

O livro de Neiva Moreira, “Modelo peruano” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1975), descreveu o modelo de democracia popular participativa e de propriedade social, que o general Velasco defendeu, com o apoio dos bispos peruanos. Propriedade social é pequena e média propriedade familiar, cooperativas, boas estatais, tudo numa boa síntese de economia mista, sem miséria e sem grandes fortunas privadas, com planificação do Estado, que apoia a difusão de bens, para todos. 

É a mesma linha dos bispos do Paraguai (basta ver Lugo), tal como a maior parte dos bispos brasileiros, chilenos, venezuelanos, da Nicarágua, das Antilhas e de vários outros países. O receituário da CNBB segue a linha de uma democracia popular participativa avançada socialmente, uma forma de socialismo participativo, distributista e humanista (cf. Marciano Vidal, Alceu Amoroso Lima e os teólogos da libertação).

A democracia popular participativa e social é, também, no fundo, a base teórica do movimento zapatista. Na Argentina, os católicos continuam a linha dos montoneros, na esquerda do peronismo e em outros partidos. No Uruguai, os leigos católicos militam na Frente Ampla. Na Colômbia, há padres que militam inclusive nas FARCs, como prova o padre Francisco Cadenas Collazos e o Exército de Libertação foi, por anos, dirigido por um padre. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia, apóiam os governos populares e nacionalistas. Na Espanha, Portugal, França, Itália e em toda a Europa os leigos católicos militam em partidos socialistas.

Os Bispos ingleses, da Nova Zelândia, da Austrália, dos países escandinavos, do leste europeu, da África, do Canadá e de outros países também aprovaram formas cristãs de socialismo democrático, especialmente na forma do trabalhismo, uma forma bastante embebida em idéias religiosas.

Harold Laski, um dos lideres do trabalhismo, no livro “El problema de la soberania” (Buenos Aires, Ed. Siglo Veinte,1947, p. 100), descreveu como os católicos foram aceitos na Inglaterra e no Partido Trabalhista:

os ingleses descobriram que a linhagem dos católicos tinha virtudes parecidas com eles mesmos. A reputação de estadistas como Montalembert [citado por Marx], a história de pensadores como Schlegel [Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel, 1772-1829] e, desde 1846, o decantado liberalismo de Pio IX, por um lado e, por outro, sobretudo, a influência do Movimento de Oxford e a destreza diplomática do cardeal Wiseman, aumentaram o prestígio de sua situação. As pessoas começaram a ouvir com assombro, dos lábios de O´Connell, que a Igreja católica sempre havia estado junto da democracia”.

Da mesma forma, os Bispos italianos aprovaram coligações com Partidos socialistas e comunistas na Itália, tendo o aval, autorização, de João XXIII e, depois, de Paulo VI.

Aldo Moro, deputado amigo de Paulo VI, destacou-se neste sentido. Até mesmo Amintore Fanfani, mais conservador, defendia coligações com os socialistas. Num desdobramento destes movimentos, Enrico Berlinguer propôs, em 1977, um aprofundamento do diálogo entre comunistas e católicos (no PCI, esta era a linha de estrelas como Togliatti, Gramsci, Luigi Longo e Berlinguer), o que gerou o Partido Margarita, hoje, o Partido Democrático, da Itália. O mesmo ocorreu na França.

As idéias de uma democracia participativa do general De Gaulle foram essenciais para que a França resistisse à onda neoliberal dos anos 80 e 90, no século XX. Os textos da Conferência Episcopal francesa seguiram esta mesma linha. O mesmo fato ocorreu nos países africanos, na Oceania, nas Américas e na Ásia. Na Oceania, quase 30% são católicos, num continente com 8,5 quilômetros quadrados, pouco menor que o território do Brasil. Em 1998, houve um Sínodo dos Bispos católicos na Oceania, com teses praticamente trabalhistas, em prol de uma Democracia Popular.

A Igreja cresceu exponencialmente nos países africanos (mais de treze por cento dos africanos são católicos) na medida em que houve a descolonização. Isso ocorreu em harmonia com formas de socialismo africano, especialmente na Tanzânia, Senegal, Moçambique, Mauritânia, no Congo e em outros países e em boa harmonia com o catolicismo.

Nos países árabes ou influenciados pelo islamismo, o socialismo foi adotado na forma de socialismos religiosos, em boa harmonia com as idéias populares e religiosas. Basta ver o caso da Líbia, do Egito (o socialismo nasseriano tem um fundo religioso), do Irã (após a revolução de 1979), do Iraque (o socialismo iraquiano é ligado ao de Nasser), da Indonésia e em outros países.

No Irã, houve também a personalidade de Mohamed Mossadegh (1881-1967), primeiro-ministro do Irã, que nacionalizou o petróleo em 1951, em bom coro com Getúlio Vargas, criador da Petrobrás. Mossadegh chorava em público e nos discursos à nação. Lutou pela independência econômica e política do Irã, numa linha parecida como Perón, Nasser e Getúlio. Foi deposto pela CIA, em 1953, tal como Getúlio, levado ao suicídio em 1954. Mossadegh era um jurista formado na França e na Suiça. Era também nacionalista, democrata e religioso, tendo redigido obras sobre direito constitucional, processo civil, direito financeiro e outras boas obras. O velho Mossadegh fundou a Frente Nacional em 1949, foi Primeiro Ministro em 1951 e foi preso pelo Xá, em 1953, a pedido da CIA. A mesma CIA que derrubou Getúlio, Perón e fazia intervenção na Guatemala, também combatendo Nasser, no Egito.

Os Bispos portugueses e espanhóis participaram da derrubada das ditaduras de Salazar e Franco. Eles elaboraram, na década de 70, documentos favoráveis a formas democráticas de socialismo. Boa parte da Constituição de Portugal, de 1974, uma das melhores do mundo, foi de autoria de Jorge Miranda, um grande jurista ligado à Igreja. Jorge Miranda também esposa uma forma de socialismo democrático, bem próxima aos textos de Canotilho.

O Episcopado de Portugal, em 1974, numa carta pastoral, escreveu: “nem todos os socialismos que hoje correm pelo mundo estão dominados por ideologias inaceitáveis para um cristão”. É necessário um “esforço de discernimento” (n. 50), para, conforme disse Paulo VI, “estabelecer o grau de compromisso possível esta causa, salvaguardados os valores, principalmente da liberdade, da responsabilidade e da abertura ao espiritual, que garante o desabrochar integral do homem”. Na Espanha, os católicos mais preparados militam no PSOE, que realizou uma boa abertura à Igreja. O mesmo ocorre na França, no Partido Socialista.

No Brasil, há dezenas de Bispos e Arcebispos que escreveram livros ou artigos favoráveis a formas de socialismo com democracia e distributismo e centenas de escritores católicos que defenderam o mesmo, como Alceu, Domingos Velasco, Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker, Frei Betto e outros.

João XXIII queria uma boa democracia popular, com economia mista, controle dos trabalhadores sobre os fluxos econômicos

Nas palavras de João XXIII, na “Mater et Magistra” (parágrafos 215, 216 e 217), “a concepção” da Igreja sobre a “convivência social”, que é sua “doutrina social” ensina que “o princípio fundamental desta concepção consiste em cada um dos seres humanos ser e dever ser o fundamento, o fim e o sujeito de todas as instituições em que se expressa e realiza a vida social”.

O cristianismo condena o quietismo, a alienação, a reificação do ser humano, ou seja, a redução da pessoa a um objeto manipulável, sem consciência.

Segundo São João XXIII, cada pessoa deve ser um agente, o fundamento (causa, origem popular do poder legítimo), a finalidade do poder (servir ao bem comum, realizar o bem comum) e o sujeito do poder, controle do povo organizado sobre o poder (o Estado etc) e a economia, a cultura etc. 

João XXIII condenou o capitalismo liberal e estatal, pelo mesmo fundamento: o desenvolvimento só é justo e autêntico, se for participativo, do “homem todo” e de “todos os homens”, seres humanos.

O capitalismo liberal e o estatal, ao se basearem no trabalho assalariado, reificam o ser humano, reduzem a pessoa a uma engrenagem. É essencial superar os erros de Fayol, de Taylor, do fordismo, erros que foram, infelizmente, acolhidos mesmo na URSS. 

A solução correta é uma democracia popular, um socialismo humanista cooperativista, de economia mista, distributista, participativo, baseado na co-gestão, na autogestão e no planejamento participativo.

A doutrina da Igreja quer a superação do regime assalariado, instaurando formas comunitárias e cooperativas de gestão dos meios de produção, para que o setor cooperativo seja o setor principal da economia.

Todas as estruturas de poder e todas as estruturas econômicas devem estar sob o controle dos trabalhadores, devem ser PARTICIPATIVAS, de gestão participativa. Os trabalhadores devem ser os CEOS, os gestores da economia, tal como os gestores do poder, do Estado. 

Trata-se da antiga fórmula de Buchez, que inspirou Luis Blanc, Cabet, Lassalle e o próprio Marx.

Os trabalhadores devem ser desreificados, devem ser os SUJEITOS do processo produtivo, junto com a presença estatal, social, sintetizando o bem de cada pessoa com o bem da sociedade. Mesmo as estatais devem ter estrutura de cooperativas, com amplas formas de co-gestão, de controle dos trabalhadores. 

Neste setor cooperativista, como explicou João XXIII, as pequenas e médias unidades, pequenas e médias propriedades familiares, pessoais, na cidade e no campo, estariam associadas.

Da mesma forma, o setor cooperativo teria grandes unidades cooperativas, como ocorre em Mondragón, um dos maiores complexos cooperativistas do mundo, criado com a ajuda essencial de um padre.

A doutrina da Igreja busca um amplo distributismo com formas de planejamento participativo e democrático, tudo em boa harmonia com boas estatais, erradicação da miséria (todas as pessoas devem ter pequenos e médios bens, para proteção da pessoa, e amplos direitos sociais).

Da mesma forma, é urgente a erradicação das grandes fortunas privadas, construindo uma sociedade baseada na mediania, na vida simples, na vida digna, feliz, plena, abundante, para todos.

Na “Mater et magistra”, João XXIII ensinou que, “quando as estruturas e o funcionamento de um sistema econômico comprometem a dignidade humana dos que nele trabalham, enfraquecem o sentido de sua responsabilidade [participação] ou impedem seu poder de iniciativa, este sistema é injusto”.

Paulo VI, na “Populorum Progressio” (n. 6), ensinou que é uma aspiração legítima do ser humano, um direito natural, “ter maior participação nas responsabilidades”, participar nas decisões (políticas e econômicas) que dizem respeito a seu próprio destino, gerando uma sociedade pautada pela libertação, pela não reificação, pela não exploração, pela subjetividade de todos, pelo respeito à dignidade de cada pessoa.

A síntese do Padre Charles Antoine, no livro “Curso de economia social”, muito lido e acatado

O padre jesuíta Charles Antoine escreveu uma obra importante chamada “Curso de economia social”, que foi elogiada por um dos principais teóricos cooperativistas, Charles Gide. Gide é considerado o principal teórico cooperativista e defendia um socialismo cooperativista, desenvolvendo idéias de Buchez, Lamennais, Owen, Fourier e outros socialistas cristãos, tal como as idéias dos cooperativistas de Rochdale, de 1844. Buchez é bem anterior.

Antoine expôs, num bom texto, o que chamou de “movimento democrático universal”, do qual a democracia liberal e o socialismo são apenas “etapas”.

Antoine concordava com vários “remédios propostos pela escola socialista”, como, “por exemplo, as resoluções do Congresso Socialista de Marselha, de setembro de 1892”, que pediam mais democracia e medidas de “proteção das mulheres e dos meninos, a regulamentação do trabalho da noite”, a ampliação da legislação do trabalho etc, tal como o combate à “especulação”, aos “monopólios e açambarcamentos”. A conclusão de Antoine era clara: “não podemos deixar de aprovar estas medidas”.

Mais adiante, Antoine, com base num texto de Leão XIII, destaca “a existência de um movimento democrático universal”:

“… é preciso ter em conta um fato importante: a existência de um movimento democrático universal. Discuta-se o que se queira, a etimologia, o valor, a conveniência e a oportunidade da palavra democracia, não por isso deixa de ser menos certo o fato desse movimento democrático universal, afirmado nestes mesmos termos pelo Santo Padre a Monsenhor Doutrelox (Bispo de Liége, Carta Pastoral, 14-02-1894, p. 21)”.

O “movimento socialista” foi considerado corretamente, pelo padre Antoine, como um capítulo do “movimento democrático e operário”. Os tipos concretos de propostas socialistas tinham erros (desprezo da pessoa e da liberdade) e boas idéias, mas o ponto essencial é que “o movimento democrático e operário” era benéfico, tendo idéias corretas, em meio a idéias erradas como o anticlericalismo:

“Graças a esta confusão, operário honrados e bons, que de maneira alguma participam das doutrinas coletivistas, se unem, no entanto, ao partido socialista operário, para fazer com que triunfem as reivindicações operárias que consideram justas”. “O movimento operário é a conseqüência da evolução social e da transformação econômica do mundo moderno”.

Esta é a mesma opinião expressa por Alceu Amoroso Lima, quando, em várias obras, descreveu o movimento de democratização que deve atingir o processo produtivo, social, cultural etc.

Alceu defendeu a fórmula distributista para superar o capitalismo liberal e o estatal, pugnando pela difusão da democracia nas relações produtivas (através de boas estatais, formas de co-gestão, de autogestão e de planejamento participativo) e no Estado. Alceu queria uma Democracia popular, um socialismo de economia mista, participativo, democrático, popular. 

João XXIII, na “Mater et magistra”, também descreveu o movimento de ascensão dos trabalhadores (tal como das mulheres e das nações do terceiro mundo), já antes referido pelo padre Charles Antoine, com base nos textos de Leão XIII.

O socialismo mencionado de forma crítica pelo padre Antoine era o socialismo mesclado com atéismo e ditaduras. O próprio Antoine reconheceu as idéias e as reivindicações corretas do movimento operário e do movimento socialista.

Pio XI, na “Quadragesimo anno”, também ressaltou a convergência histórica entre catolicismo e socialismo democrático, destacando inclusive a tese comum da estatização dos meios de produção e dos recursos cujo controle propiciasse excesso de poder. Há a mesma constatação nos textos de João XXIII e de Paulo VI. Neste sentido, Leônidas de Rezende – em obras da década de 50, do século passado – também demonstrou a convergência entre socialistas, positivistas e católicos.

O Desembargador Osny Duarte Pereira (no prefácio de seu livro sobre o ferro e a indústria siderúrgica) também elogiou Pio XI por este papa ter defendido a estatização e a socialização dos bens materiais que atribuíam um poder excessivo aos particulares.

Conclusão: há uma linha (plano) histórica e evolutiva (providencial, pela mediação da liberdade humana) no movimento histórico da humanidade. É um movimento de democratização, de ascensão do homem comum, do trabalhador, dos “humildes” e “pobres”, como está claro no cântico de Maria.

O movimento democrático (na esfera política, econômica, cultural, educacional, das comunicações, étnico etc) visa à superação do liberalismo (de abolição do latifúndio e das grandes fortunas privadas), em prol de uma democracia popular e participativa, ou seja, instaurar e criar formas de socialismo humanista, participativo e democrático compatíveis com o “movimento democrático universal” (cf. Marciano Vidal).

O movimento democrático atinge todas as nações, pois nasce do movimento consciente das pessoas em busca de libertações, da luta consciente contra todas as formas de opressão. Neste sentido, a consciência é elástica, as provações tendem à purificação, à melhoria do ser humano.

Bispos católicos em Portugal e Espanha a favor da democracia popular, socialismo, Estado social, economia mista etc.

Os Bispos portugueses e espanhóis participaram da derrubada das ditaduras de Salazar e Franco. Eles elaboraram, na década de 70, documentos favoráveis a formas democráticas de socialismo. Boa parte da Constituição de Portugal, de 1976, uma das melhores do mundo, foi de autoria de Jorge Miranda, um grande jurista ligado à Igreja. Jorge Miranda também esposa uma forma de socialismo democrático, bem próxima aos textos de Canotilho.

O Episcopado de Portugal, em 1974, numa carta pastoral, escreveu: “nem todos os socialismos que hoje correm pelo mundo estão dominados por ideologias inaceitáveis para um cristão”. É necessário um “esforço de discernimento” (n. 50), para, conforme disse Paulo VI, “estabelecer o grau de compromisso possível esta causa, salvaguardados os valores, principalmente da liberdade, da responsabilidade e da abertura ao espiritual, que garante o desabrochar integral do homem”. Na Espanha, os católicos mais preparados militam no PSOE, que realizou uma boa abertura à Igreja. O mesmo ocorre na França, no Partido Socialista.

No Brasil, há dezenas de Bispos e Arcebispos que escreveram livros ou artigos favoráveis a formas de socialismo com democracia e distributismo e centenas de escritores católicos que defenderam o mesmo, como Alceu, Domingos Velasco, Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker, Frei Betto e outros.

Vários bispos do mundo inteiro defendem democracia popular, economia mista, Estado social, direitos sociais

Os Bispos do Peru apoiaram os esforços do General Velasco Alvarado, um nacionalista elogiado por Neiva Moreira, Eric Hobsbawm, Emir Sader e outros. Os bispos peruanos queriam e querem implantar um socialismo participativo, baseado na idéias de comunidade, de comunhão, destinação universal dos bens, erradicação da miséria e das grandes fortunas privadas. Estes bispos enviaram para o Sínodo Romano (uma reunião mundial de Bispos em Roma) um documento onde escreveram: “… por isto tantos cristãos hoje em dia reconhecem nas correntes socialistas um número de aspirações que levam dentro de si mesmos em nome da fé”.

O livro de Neiva Moreira, “Modelo peruano” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1975), descreveu o modelo de democracia participativa e de propriedade social, que o general Velasco defendeu, com o apoio dos bispos peruanos.

É a mesma linha dos bispos do Paraguai (basta ver Lugo), tal como a maior parte dos bispos brasileiros, chilenos, venezuelanos, da Nicarágua, das Antilhas e de vários outros países. O receituário da CNBB segue a linha de uma democracia participativa avançada socialmente, uma forma de socialismo participativo, distributista e humanista (cf. Marciano Vidal, Alceu Amoroso Lima e os teólogos da libertação). A receita dada por Alceu, Frei Josaphat, Frei Betto e tantos grandes bispos, arcebispos, religiosos, leigos católicos etc. 

A democracia participativa e social é, também, no fundo, a base teórica do movimento zapatista. Na Argentina, os católicos continuam a linha dos montoneros, na esquerda do peronismo e em outros partidos. No Uruguai, os leigos católicos militam na Frente Ampla. Na Colômbia, há padres que militam inclusive nas FARCs, como prova o padre Francisco Cadenas Collazos e o Exército de Libertação foi, por anos, dirigido por um padre. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia, apóiam os governos populares e nacionalistas. Na Espanha, Portugal, França, Itália e em toda a Europa os leigos católicos militam em partidos socialistas.

Os Bispos católicos ingleses, da Nova Zelândia, da Austrália, dos países escandinavos, do leste europeu, da África, do Canadá e de outros países também aprovaram formas cristãs de socialismo democrático, especialmente na forma do trabalhismo, uma forma bastante embebida em idéias religiosas. O mesmo na Tanzânia, no Equador, na Bolívia e em todas as partes do mundo, inclusive Índia etc. 

Harold Laski, um dos lideres do trabalhismo, no livro “El problema de la soberania” (Buenos Aires, Ed. Siglo Veinte,1947, p. 100), descreveu como os católicos foram aceitos na Inglaterra e no Partido Trabalhista:

os ingleses descobriram que a linhagem dos católicos tinham virtudes parecidas com eles mesmos. A reputação de estadistas como Montalembert [citado por Marx], a história de pensadores como Schlegel e, desde 1846, o decantado liberalismo de Pio IX, por um lado e, por outro, sobretudo, a influência do Movimento de Oxford e a destreza diplomática do cardeal Wiseman, aumentaram o prestígio de sua situação. As pessoas começaram a ouvir com assombro, dos lábios de O´Connell, que a Igreja católica sempre havia estado junto da democracia”.

Da mesma forma, os Bispos italianos aprovaram coligações com Partidos socialistas e comunistas na Itália. Aldo Moro, deputado amigo de Paulo VI, destacou-se neste sentido. Num desdobramento destes movimentos, Enrico Berlinguer propôs, em 1977, um aprofundamento do diálogo entre comunistas e católicos (no PCI, esta era a linha de estrelas como Togliatti, Gramsci, Luigi Longo e Berlinguer). Hoje, o Partido Democrático, o Margarita, na Itália, unifica católicos, socialistas e comunistas italianos. Nos EUA, os católicos militam na esquerda do Partido Democrático, aliados de políticos como Sanders. 

O mesmo ocorreu na França. As idéias de uma democracia participativa do general De Gaulle foram essenciais para que a França resistisse à onda neoliberal dos anos 80 e 90, no século XX. Os textos da Conferência Episcopal francesa seguiram esta mesma linha. O mesmo fato ocorreu nos países africanos, na Oceania, nas Américas e na Ásia. Na Oceania, quase 30% são católicos, num continente com 8,5 quilômetros quadrados, pouco menor que o Brasil. Em 1998, houve um Sínodo dos Bispos católicos na Oceania.

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