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Robert Owen era cristão, defendia o “puro cristianismo”, seu “milenarismo” tinha pontos corretos, que o Vaticano aprovaria

Robert Owen (1771-188), no livro “New Lanark” (1817, p. 116), escreveu:

a sociedade poderia existir sem crimes, sem pobreza, um um estado sanitário bem melhorado, sem ser infeliz ou muito pouco, e em uma felicidade cem vezes maior”.

Para isso, o “obstáculo” principal é a “ignorância”.

Na “ordem justa da natureza, a verdade, ou o puro cristianismo, reconciliará os homens entre si, vencerá o mal, estabelecerá o reino da paz e da harmonia, e a felicidade reinará para sempre sobre a terra. Não digam que essa realização celeste é inacessível na terra. Só o seria em um regime satânico de egoísmo individual, de desprezo às leis da humanidade…”.

No livro “A vida de Robert Owen, escrita por ele mesmo” (Londres, 1857, pouco antes de morrer), é ainda mais religioso.

Na “Gazeta milenária” (1855), tem a mesma base religiosa, falando da humanidade organizada em comunas pequenas, uma República que deveria se chamar “Nova Jerusalém ou o Paraíso terrestre unificado”, com pessoas “regeneradas”, “governadas somente pelas leis de Deus, falando a mesma língua, isto é, a língua a verdade única”.

O mesmo ocorria com Fourier, ainda mais religioso, elogiando Jesus, e também com Saint Simon, cujo último livro foi “O novo cristianismo”.

A base ética do socialismo utópico é toda baseada no melhor do cristianismo. 

Demonstrei isso no meu livro, “Socialismo, utopia cristã”, com o aval (prefácio) de Frei Betto e de um Arcebispo da Igreja, Dom Moacyr Grechi (autor da apresentação, rascunhada por um dos Boff), que foi Arcebispo no Acre, e terminou Arcebispo emérito de Rondônia.

Paulo VI, quando tinha 22 anos, escreveu texto mostrando como Católicos e socialistas podem e devem trabalhar juntos, para superar o capitalismo

Giovanni Battista Montini (nascido em 1897, que depois se tornou Papa, com o nome Paulo VI) escreveu um artigo no jornal “A Funda” (com inspiração na funda de David usada contra Golias), em 03 de setembro de 1919 (quando tinha 22 anos, e estava prestes a entrar no Seminário Lombardo), onde escreveu:

não só estamos dispostos a todas as transformações sábias e reformas que possam ajudar o povo mas as queremos, propugnamos; e se não somos extremistas nisto, é porque nós excluímos toda e qualquer forma materialista, toda a injustiça, toda a violência, todo o capricho arbitrário, todo o método socialista. Tirem à sua concepção social o aspecto materialista…fazendo consistir toda a reforma social em reformas econômicas e a elevação do povo (…) tirem o veneno das suas almas, e estaremos de acordo em propugnar um programa comum de justiça integral: isto é, eles estarão de acordo conosco!” [texto retirado da página 71 do livro “Paulo VI”, de Carlo Cremona, editado pelas Paulinas, em 1977].

Montini, o futuro Paulo VI, reconhecia que era possível “um programa comum de justiça” aceitável para católicos e socialistas. A mesma linha de Buchez, Ketteler, Pesch, Mounier, Maritain e outros. 

Por “método socialista” entendia o uso da violência e da mentira (afinal, alguns socialistas, infelizmente, usavam frases maquiavélicas sobre a licitude de meios imorais).

O programa socialista humanista, concernente a “reformas econômicas”, era considerado, implicitamente, em harmonia com as idéias da Igreja e, por isso, Montini terminava dizendo: “eles estarão de acordo conosco” (praticamente a mesma frase de Pio XI, sobre a aproximação dos socialistas com os católicos).

Mounier, na França, mostrou que o socialismo não está ligado intrinsecamente com o marxismo, sendo este um complexo de idéias, das quais, muitas, têm procedência cristã ou hebraica.

Mounier mostrou claramente que a democracia, e seu aprofundamento no socialismo participativo, democrático, são coerentes com o cristianismo.

Erich Fromm, tal como vários pensadores do século XIX e XX, apontou como precursores do socialismo os profetas bíblicos: Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, Daniel e outros.

Fromm (piedoso, em alemão) esboçou uma síntese entre marxismo e as idéias de Freud, com abertura para a religião.

No Brasil, Hélio Pellegrino fez algo semelhante (sendo mais profundo), unindo cristianismo, socialismo, respeito a algumas idéias corretas de Freud, marxismo e ainda teologia da libertação. Os textos de Pellegrino e Fromm também abonam as teses deste blog. 

Doutrina da Igreja admite socialismos democráticos, com economia mista, liberdades

Os bispos católicos das Antilhas explicaram isso corretamente. A Conferência Episcopal das Antilhas, em 21.11.1975, escreveram: “Deus revelou-se como Libertador do oprimido e defensor do pobre… A Igreja não deve condenar indiscriminadamente todos os tipos de socialismo… Nenhum sistema socialista é aceitável se ele destrói os direitos fundamentais do indivíduo… Longe de destruí-los, o verdadeiro socialismo, aceitável para o cristão, deve combater para defender estas liberdades e inclusive para ampliar seu campo”. 

Tolstoi e Charles Dickens concordariam.

Uma forma de socialismo com liberdade, com economia mista, é aceitável, sendo uma boa síntese entre o melhor da economia de mercado com o melhor das ideias e práticas socialistas e públicas. 

Uma das últimas palavras ditas por Perón

Perón representou, na Argentina, o ideal da democracia popular, como Getúlio, no Brasil, com o PTB. 

Quando Perón faleceu, o Núncio apostólico, Pio Laghi, representando o Papa, disse: “a morte do Tenente General Perón é uma grande perda para o cristianismo e para o Continente Americano”. O Cardeal Primatesta elogiou Perón. Monsenhor Pironio disse: “poucas vezes, o povo sentia tão profundamente uma morte”. 

Perón, pouco antes de morrer, disse aos Sacerdotes para o Terceiro Mundo – “Hoje, há muita gente que se assombra com a ideia de um sacerdote socialista. Mas, eu digo: por que não? Para mudar o sistema atual é preciso situar-se no interior da evolução para o socialismo”. Um socialismo nacionalista, de economia mista, democracia popular, Estado social. 

O ideal histórico possível de uma Democracia popular, com economia mista, Estado social redistribuidor, planificador etc

O nome-síntese do “ideal histórico” da Igreja é “democracia popular participativa”.

A democracia verdadeira, popular, é o ideal histórico da Igreja, como foi ensinado por Maritain e pela Ação Popular (AP). 

Democracia verdadeira é democracia comunitária, solidária. Esta democracia solidária, pautada pelo bem comum, pode ser chamada também de socialismo democrático, como explicou o padre Fernando Bastos de Ávila, no livro “Solidarismo”.

O supérfluo dos ricos deve ser canalizado para os pobres. O acúmulo de bens deve ir para quem não tem os bens suficientes e adequados para uma vida digna, feliz, simples, abundante, plena.  O socialismo compatível com a Igreja é o que Robin Hood admiraria. 

Como explicou Marciano Vidal, democracia popular ou democracia verdadeira, pautada pelo bem comum, pode ter a forma de “socialismo participativo”, cooperativista, humanista etc, economia mista, Estado social, uma forma que resgata as grandes inspirações da Paidéia, dos Santos Padres, as inspirações cristãs do socialismo pré-marxista, tal como as verdades cristãs e hebraicas, presentes nos textos marxistas e nos diversos documentos socialistas no mundo todo.

O Conde de Mun, o bisneto de Helvetius. Bom exemplo da doutrina social da Igreja

O Conde Albert de Mun, o bisneto de Helvétius, foi um dos expoentes da doutrina social da Igreja. Na França, foi deputado federal várias vezes. Na sessão de 09.12.1891, ele disse boas palavras sobre o genro de Karl Marx, Paul Lafargue e sobre o socialismo. Vejamos o que De Mun disse:

“Estou de acordo com os socialistas, com o que agora mesmo estava na tribuna [discursando, Paul Lafargue, genro de Marx], sobre a crítica da ordem econômica, assim como, também, sobre um grande número de reformas sociais diariamente reclamadas pelos trabalhadores”. 

A Escola de Liège, na França e na Bélgica, defendia economia mista, vasta intervenção estatal, a favor dos trabalhadores. 

Leão XIII escreveu carta ao Conde de Mun, em 07.02.1893, elogiando os esforços do Partido católico. O Cardeal Rampolla, o Secretário de Estado de Leão XIII, escreveu carta ao Conde de Mun, em 09.05.1894, apoiando o “Partido Social cristão”, a Escola de Liège e os discursos e projetos do Conde de Mun. 

Francesco Nitti, no livro “Socialismo católico”, no final do século XIX, ataca o “socialismo católico do Conde de Mun”. Na Ástria, Vogelsang defendia também vasta intervenção estatal, economia mista, o Estado ao serviço dos trabalhadores. O mesmo fazia o bispo Ketteler, na Alemanha, um bispo elogiado publicamente por Lassalle, o chefe principal do Partido Social Democrático, Comunista, na Alemanha, naquela época. 

Emílio Zola, no livro “Roma”, descreve a formação da Doutrina social da Igreja, elogiando vários expoentes católicos. 

Razões para uma boa economia mista

Economia mista foi o modelo delineado por Pio XI, na “Quadragesimo anno” (1931), modelo elogiado pelo grande jurista nacionalista, Osny Duarte Pereira.

Hoje, o socialismo de mercado ou economia socialista de mercado, adotado pela China, é basicamente economia mista, ainda que mereça críticas pela complacência com bilionários. Mas adota um modelo de economia mista.

Economia mista é também adotado pelo Vietnam, Cuba, a própria Coréia do Norte, África do Sul nos moldes de Mandela, Japão, pela Índia, Federação Russa, países escandinavos, países da Oceania, países africanos e nos melhores modelos latino-americanos. 

Economia mista foi defendida por Bernstein, Jaures, os fabianos, H.G.Wells, Chesterton, os socialistas democráticos, os peronistas, Cárdenas, Nasser, Tito, Bukharin e mesmo pela NEP, na URSS.

A NEP foi criada por Lenin e durou até 1928/1929, sendo um modelo de economia mista. A tese da convergência entre socialismo e capitalismo, defendida sob o mote da coexistência, por Kruschev, no fundo, defendia economia mista e atenuou bastante os erros de Stalin.

Os trabalhistas ingleses (e escandinavos, israelistas, da Oceania), também defendiam economia mista. Idem para Irã, os grandes nacionalistas da Guatemala e da Indonésia. E o mesmo para o modelo de democracia popular e para as Frentes populares.

Todo o movimento nacionalista, em geral, adota economia mista. No Brasil, foi este o modelo de Getúlio Vargas, de Domingos Velasco, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Neiva Moreira, pelo PSB de João Mangabeira, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Lyra, Darcy Ribeiro, Alceu, João Goulart, até de Juscelino, Sérgio Magalhães, General Lott, sendo retomado, depois, por Lula e Dilma. 

Mandela defendia o mesmo modelo de Pio XI. Estatais para grandes meios de produção, Estado, economia mista, planificação participativa, amplo amparo do Estado aos trabalhadores, doentes, educação pública, saúde pública etc.  

Malcolm X e os muçulmanos negros dos EUA também defendem economia mista. Os Panteras Negros, idem. A Frente Ampla, no Uruguai, defende o mesmo. O socialismo africano, idem. 

Na Europa, o movimento da Democracia cristã defendia economia mista. E, por isso, fez extensas alianças com os Partidos socialistas democráticos. Isso ocorreu na França com De Gaulle, na Itália (basta pensar em Aldo Moro, querendo estender a aliança mesmo com os eurocomunistas).

Na Itália, as alianças da Democracia Cristã com o Partido Socialista foram apoiadas pelos Papas João XXIII e Paulo VI.

Na Inglaterra, os católicos votam em peso nos Trabalhistas, que defendem economia mista. Nos EUA, votam no Partido Democrático, que leva a bandeira do New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, defendendo economia mista, Estado social, sistema tributário redistributivo (elogiado por Piketty).

No Canadá, os católicos votam em partidos em prol da cooperatização, das estatais, do Estado social. Idem para a Irlanda, com um dos IDHs maiores do mundo, baseado em Estado social, democracia popular, economia mista (e isso inclusive no Sinn Fein e no IRA). 

Economia mista é formada por difusão de bens para cada pessoa, cada família, milhões de micro, pequenas e médias empresas em geral familiares, mais cooperativas, estatais e planejamento participativo (regulamentações, controles estatais). E altos tributos para ricos e subsídios para pessoas de baixa renda, que as complementem. Renda universal, sistema tributário redistributivo. Estado social amplo. É isso que chamo de modelo de economia mista ou democracia popular. 

Economia mista foi defendida por Buchez, Ketteler, De Mun, Heinrich Pesch, Toniolo, Oswald von Nell-Breuning, Maritain, Gustav Gundlach, Mounier, Dom Hélder, Hans Kung e pelos grandes teólogos da libertação. Idem para os melhores escritores da doutrina social da Igreja, incluindo Alceu, padre Fernando Bastos de Ávila e milhares de outros. 

Na Alemanha, a esquerda do CDU coincidia com o SPD, na defesa da economia mista. Os melhores textos de Ludwig Erhard eram pela “economia social de mercado”, um modelo atenuado e aguado de economia mista. Ludwig Erhard (1897-1977) seguia as ideias da Igreja e de grandes escritores como Franz Oppenheimer (1864-1943). Os melhores keynesianos do mundo todo também são pró economia mista, basta pensar em Galbraith.

 

 

 

Bispos católicos do mundo todo lutam pela Democracia popular participativa, economia mista

Os Bispos do Peru apoiaram os esforços do General Velasco Alvarado, um nacionalista elogiado por Neiva Moreira, Eric Hobsbawm, Emir Sader e outros. Os bispos peruanos queriam e querem implantar um socialismo participativo, baseado na idéias de comunidade, de comunhão. Estes bispos enviaram para o Sínodo Romano (uma reunião mundial de Bispos em Roma) um documento onde escreveram: “… por isto tantos cristãos hoje em dia reconhecem nas correntes socialistas um número de aspirações que levam dentro de si mesmos em nome da fé”.

O livro de Neiva Moreira, “Modelo peruano” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1975), descreveu o modelo de democracia popular participativa e de propriedade social, que o general Velasco defendeu, com o apoio dos bispos peruanos. Propriedade social é pequena e média propriedade familiar, cooperativas, boas estatais, tudo numa boa síntese de economia mista, sem miséria e sem grandes fortunas privadas, com planificação do Estado, que apoia a difusão de bens, para todos. 

É a mesma linha dos bispos do Paraguai (basta ver Lugo), tal como a maior parte dos bispos brasileiros, chilenos, venezuelanos, da Nicarágua, das Antilhas e de vários outros países. O receituário da CNBB segue a linha de uma democracia popular participativa avançada socialmente, uma forma de socialismo participativo, distributista e humanista (cf. Marciano Vidal, Alceu Amoroso Lima e os teólogos da libertação).

A democracia popular participativa e social é, também, no fundo, a base teórica do movimento zapatista. Na Argentina, os católicos continuam a linha dos montoneros, na esquerda do peronismo e em outros partidos. No Uruguai, os leigos católicos militam na Frente Ampla. Na Colômbia, há padres que militam inclusive nas FARCs, como prova o padre Francisco Cadenas Collazos e o Exército de Libertação foi, por anos, dirigido por um padre. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia, apóiam os governos populares e nacionalistas. Na Espanha, Portugal, França, Itália e em toda a Europa os leigos católicos militam em partidos socialistas.

Os Bispos ingleses, da Nova Zelândia, da Austrália, dos países escandinavos, do leste europeu, da África, do Canadá e de outros países também aprovaram formas cristãs de socialismo democrático, especialmente na forma do trabalhismo, uma forma bastante embebida em idéias religiosas.

Harold Laski, um dos lideres do trabalhismo, no livro “El problema de la soberania” (Buenos Aires, Ed. Siglo Veinte,1947, p. 100), descreveu como os católicos foram aceitos na Inglaterra e no Partido Trabalhista:

os ingleses descobriram que a linhagem dos católicos tinha virtudes parecidas com eles mesmos. A reputação de estadistas como Montalembert [citado por Marx], a história de pensadores como Schlegel [Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel, 1772-1829] e, desde 1846, o decantado liberalismo de Pio IX, por um lado e, por outro, sobretudo, a influência do Movimento de Oxford e a destreza diplomática do cardeal Wiseman, aumentaram o prestígio de sua situação. As pessoas começaram a ouvir com assombro, dos lábios de O´Connell, que a Igreja católica sempre havia estado junto da democracia”.

Da mesma forma, os Bispos italianos aprovaram coligações com Partidos socialistas e comunistas na Itália, tendo o aval, autorização, de João XXIII e, depois, de Paulo VI.

Aldo Moro, deputado amigo de Paulo VI, destacou-se neste sentido. Até mesmo Amintore Fanfani, mais conservador, defendia coligações com os socialistas. Num desdobramento destes movimentos, Enrico Berlinguer propôs, em 1977, um aprofundamento do diálogo entre comunistas e católicos (no PCI, esta era a linha de estrelas como Togliatti, Gramsci, Luigi Longo e Berlinguer), o que gerou o Partido Margarita, hoje, o Partido Democrático, da Itália. O mesmo ocorreu na França.

As idéias de uma democracia participativa do general De Gaulle foram essenciais para que a França resistisse à onda neoliberal dos anos 80 e 90, no século XX. Os textos da Conferência Episcopal francesa seguiram esta mesma linha. O mesmo fato ocorreu nos países africanos, na Oceania, nas Américas e na Ásia. Na Oceania, quase 30% são católicos, num continente com 8,5 quilômetros quadrados, pouco menor que o território do Brasil. Em 1998, houve um Sínodo dos Bispos católicos na Oceania, com teses praticamente trabalhistas, em prol de uma Democracia Popular.

A Igreja cresceu exponencialmente nos países africanos (mais de treze por cento dos africanos são católicos) na medida em que houve a descolonização. Isso ocorreu em harmonia com formas de socialismo africano, especialmente na Tanzânia, Senegal, Moçambique, Mauritânia, no Congo e em outros países e em boa harmonia com o catolicismo.

Nos países árabes ou influenciados pelo islamismo, o socialismo foi adotado na forma de socialismos religiosos, em boa harmonia com as idéias populares e religiosas. Basta ver o caso da Líbia, do Egito (o socialismo nasseriano tem um fundo religioso), do Irã (após a revolução de 1979), do Iraque (o socialismo iraquiano é ligado ao de Nasser), da Indonésia e em outros países.

No Irã, houve também a personalidade de Mohamed Mossadegh (1881-1967), primeiro-ministro do Irã, que nacionalizou o petróleo em 1951, em bom coro com Getúlio Vargas, criador da Petrobrás. Mossadegh chorava em público e nos discursos à nação. Lutou pela independência econômica e política do Irã, numa linha parecida como Perón, Nasser e Getúlio. Foi deposto pela CIA, em 1953, tal como Getúlio, levado ao suicídio em 1954. Mossadegh era um jurista formado na França e na Suiça. Era também nacionalista, democrata e religioso, tendo redigido obras sobre direito constitucional, processo civil, direito financeiro e outras boas obras. O velho Mossadegh fundou a Frente Nacional em 1949, foi Primeiro Ministro em 1951 e foi preso pelo Xá, em 1953, a pedido da CIA. A mesma CIA que derrubou Getúlio, Perón e fazia intervenção na Guatemala, também combatendo Nasser, no Egito.

Os Bispos portugueses e espanhóis participaram da derrubada das ditaduras de Salazar e Franco. Eles elaboraram, na década de 70, documentos favoráveis a formas democráticas de socialismo. Boa parte da Constituição de Portugal, de 1974, uma das melhores do mundo, foi de autoria de Jorge Miranda, um grande jurista ligado à Igreja. Jorge Miranda também esposa uma forma de socialismo democrático, bem próxima aos textos de Canotilho.

O Episcopado de Portugal, em 1974, numa carta pastoral, escreveu: “nem todos os socialismos que hoje correm pelo mundo estão dominados por ideologias inaceitáveis para um cristão”. É necessário um “esforço de discernimento” (n. 50), para, conforme disse Paulo VI, “estabelecer o grau de compromisso possível esta causa, salvaguardados os valores, principalmente da liberdade, da responsabilidade e da abertura ao espiritual, que garante o desabrochar integral do homem”. Na Espanha, os católicos mais preparados militam no PSOE, que realizou uma boa abertura à Igreja. O mesmo ocorre na França, no Partido Socialista.

No Brasil, há dezenas de Bispos e Arcebispos que escreveram livros ou artigos favoráveis a formas de socialismo com democracia e distributismo e centenas de escritores católicos que defenderam o mesmo, como Alceu, Domingos Velasco, Plínio de Arruda Sampaio, Francisco Whitaker, Frei Betto e outros.

Algumas ideias boas de Ruy Mauro Marini, na mesma linha da doutrina social da Igreja

Ruy Mauro Marini, no ensaio “Duas notas sobre o socialismo”, acerta quando defende, como medidas essenciais para transição de saída do capitalismo, medidas como: “o controle operário, a co-gestão e a autogestão das empresas; a luta eleitoral e a participação no parlamento e nos governos locais; a participação e o controle popular sobre as políticas orçamentária, educacional, de saúde, de transporte público, junto à reivindicação de uma maior autonomia regional e local; a democratização dos meios de comunicação e o rechaço da censura; a crítica às desigualdades de base econômica, étnica ou sexual: estes são alguns dos instrumentos de que as massas estão lançando mão, aqui e ali, para defender seus interesses, elevar sua cultura política e amadurecer seu espírito revolucionário. É por este caminho que elas estão se capacitando para — diferentemente do ocorreu até agora nas revoluções socialistas — assumirem, elas mesmas, a direção do processo de transição socialista. O que, ao fim e ao cabo, é a única garantia segura de seu êxito”.

Neste texto, Ruy Mauro lembra que a centralização soviética na economia (Gosplan, estatização exagerada) e a rejeição das diversidades regionais e de povos, foi um erro grave. Ou seja, sem ser muito claro, admite que o caminho correto é uma  boa economia mista. 

Antônio Pedro de Figueiredo, um católico negro, precursor do socialismo democrático, no Brasil

Amaro Quintas – bom amigo de José Honório Rodrigues, um historiador eminente, do PSB, elogiadíssimo por Alceu –, no livro “O sentido social da Revolução Praieira” (Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1967, pp. 147-148), fez um bom elogio da revolução praieira e do papel de Antônio Pedro de Figueiredo.

Antônio era negro, socialista e católico, como Domingos Velasco. Vejamos o texto de Amaro:

“Diz Pereira da Costa ter Antonio Pedro de Figueiredo nascido em Igaraçu no dia 22 de maio de 1822. Essa afirmativa na me parece, entretanto, retratar fielmente a verdade. Noticiando o falecimento do mulato socialista afirma historiógrafo pernambucano que a “morte o arrebatou a vida da eternidade, aos trinta e sete anos de idade, no dia 21 de agosto de 1850”.

Mas o Liberal Pernambucano de 25 e agosto de 1859 anota: “Obituário das pessoas que foram sepultadas no cemitério público. Dia 22, Antonio Pedro de Figueiredo, pernambucano 45 anos, solteiro, São José, congestão cerebral”. A mesma coisa encontramos no Diário de Pernambuco de 23 de agosto de 1859; “Mortalidade do dia 22: Antonio Pedro de Figueiredo, pardo, solteiro 45 anos, conforme atestam os dois jornais acima citados, o seu nascimento não ocorreu em 1822, como declara Pereira da Costa, e sim em 1814, tendo nascido antes de Marx (que nasceu em 1818).

São obscuras as suas origens. Sabemos quase somente terem sido elas humildes. Falam os jornalecos da época em um pardo Basílio como o seu pai. É o que diz o Volcão de 30 de agosto de 1847; “… o ridículo Cousin Fusco, filho do pardo Bazílio lá de Iguarassu, onde sempre viveu de limpar a estribaria do pai, e de pescar os seus ciris e bodiões”.

Vindo para o Recife procurou o amparo de um amigo que não correspondeu as suas esperanças, expulsando-o de sua casa. João Sinhô, assim se chamava – conforme O Proletário de 1 de setembro de 187 – esse falso amigo que o desprezou numa ocasião em que Antonio Pedro tanto necessitava de uma ajuda. Mas, buscando abrigo junto aos frades do Convento do Carmo lá encontrou acolhimento e amparo material para aprofundar-se nos estudos”.

A formação no Convento do Carmo, com certeza, contribuiu para a síntese entre catolicismo e socialismo democrático, democracia popular.

Antônio Pedro de Figueiredo foi decisivo para sua liderança na Revolução Praieira, continuando os esforços dos padres da Revolução de 1817, de Frei Caneca e outros. O desembarador Nunes Machado foi o líder principal, tendo sido morto em combate (em fevereiro de 1849), mas o teórico era Antônio Pedro Figueiredo. O pensamento socialista deste negro socialista e católico foi descrito da seguinte forma, por Amaro (pp. 152-153):

“Replicando a Autran assegura Figueiredo: “Esta aparição (o socialismo) tende a reformar o estado social em prol do melhoramento da moral e material de todos os membros da sociedade. Para esse fim cada escola socialista oferece meios diferentes, mas não há uma sequer cujas intenções deixem de ser puras e generosas, cujo ideal não seja a realização na terra dos princípios de liberdade e fraternidade”.

Pouco depois acrescenta: “A formula geral da escola socialista a que pertenço, é a realização progressiva do principio cristão de liberdade, igualdade e fraternidade, efetuada sem violência e por meio de medidas apropriadas as necessidades dos diversos países.

E justificando o seu conceito cristão do problema social enumera os argumentos dos grandes doutores da Igreja todos contrários a exploração do homem pelo homem.

Começa com São Clemente: “O uso de todas as coisas que estão neste mundo deve ser comum a todos os homens. A iniqüidade foi que permitiu que um dissesse; isto é meu; e outro; isto me pertence. Deste fato proveio a discórdia entre os mortais”(Os grifos são de Figueiredo). Vem depois com Santo Ambrósio: “A natureza ministrou em comum todos os bens a todos os homens. Com efeito, Deus criou todas as coisas a fim de que o gozo delas fosse comum a todos, e a terra se tornasse a posse comum de todos. Assim a natureza gerou o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade”. Em seguida cita as palavras incisivas de São Gregório: “Saibam que a terra de que eles foram tirados é comum a todos os homens, e que por isso os frutos que ela produz pertence a todos indistintamente”.

As fontes de Antônio Pedro de Figueiredo são as mesmas deste meu blog e mostram – tal como as figuras de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Assis Brasil – que os católicos democratas populares já falavam em socialismo bem antes da influência marxista. Vejamos, na página 157 do livro de Amaro, a ligação de Antônio Pedro de Figueiredo com Buchez, também ligado ao General Abreu e Lima:

Aproxima-se antes Figueiredo do socialismo cristão de Buchez ou da tendência romântica – tendência essa que não prejudica seu objetivismo em relação ao estudo de nossa situação social – de Pierre Leroux e de seus discípulos.

Talvez a influência de Buchez se tenha feito sentir na sua tentativa de conciliação entre o cristianismo e a doutrina socialista, especialmente depois que Buchez rompeu com os sansimonianos, quando Enfantin e Bazard foram proclamados “Pais Supremos”. Não é de desprezar a hipótese de uma possível contribuição de Lamennais e de Lacordaire na obra de Figueiredo. Em relação ao autor das “Palavras de um crente” destacou Aprígio de Guimarães o quanto ele influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo, vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

No mesmo sentido, há o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico. Na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos, antes de Marx. Foi Marx quem aprendeu dos socialistas pré marxistas, dos grandes socialistas cristãos, que escreveram antes de Marx. 

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio deste livro. Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824. Abreu foi para a Colômbia e teve a honra de lutar ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

Vamireh Chacon considerou Antônio Pedro como “o ideólogo da revolução de 1848”, no livro “História das idéias socialistas no Brasil” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1981, p. 74). Chacon afirmou que este pensador católico é “uma indispensável etapa do itinerário ideológico do Brasil”.

O livro de Chacon, “Cooperativismo e comunitarismo” (Rio, Ed. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1959) mostra como o cooperativismo e o comunitarismo também fazem parte da tradição política da Igreja.

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