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O ideal histórico concreto da Igreja Católica é uma DEMOCRACIA POPULAR PARTICIPATIVA, ECONÔMICA, SOCIAL, CULTURAL, POLÍTICA ETC.

A verdadeira democracia é uma síntese de democracia política, social, econômica e cultural. Esta síntese foi batizada de “democracia participativa” ou “socialismo participativo”.

Democracia plena ou integral é basicamente a Fórmula principal da Igreja, a síntese da combinação das regras éticas naturais defendidas pela Igreja, a concreção das “virtudes” (regras racionais e naturais da vida).

No fundo, Democracia participativa econômica é o ideal clássico. A“politéia”, na terminologia aristotélica e tomista, ou seja, o regime governado pelo povo visando o bem comum, o bem do povo. Este é também o ideal cristão e hebraico.

Não há democracia verdadeira sem a democratização e humanização das relações sociais. Especialmente das relações produtivas, de trocas e do consumo.

Por isso, é vital a democratização da estrutura jurídica das unidades produtivas e de toda a estrutura produtiva nacional, concretizando o princípio da destinação universal dos bens, com a estatização dos meios de produção com excessivo poder (os grandes meios e mesmo médios, com influência social excessiva, cf. Pio XI, na “Quadragésimo anno”), planejamento público participativo, distribuição maciça dos bens (renda, moradia, creches, escolas públicas, saúde pública etc) na medida das necessidades de cada pessoa etc.

Nesta linha, o grande católico, Plínio de Arruda Sampaio, no livro “O Brasil pode dar certo” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1994, p. 90), ensinou que “a democracia econômica” exige “a democratização” da estrutura das unidades econômicas, com o fim da “concentração de poder econômico”.

Plínio enfatizou que é absolutamente necessário “um substancial processo de distribuição de riqueza e da renda”, especialmente considerando que “o Brasil é o país que apresenta o índice de concentração de renda [coeficiente de Gini, em homenagem a Corrado Gini] mais elevado do mundo”.

Também destacou a necessidade de “uma regulamentação efetiva” da economia, para evitar três males: a “concentração da renda”, a falta de “um padrão de vida decente a todos” e a “devastação dos recursos naturais”, do meio ambiente.

Plínio de Arruda Sampaio foi um dos grandes leigos da Igreja e seus textos têm bom amparo na Tradição cristã, na linha de Alceu Amoroso Lima, de Frei Betto, de Dom Hélder e outros luminares.

Por direito natural – cuja compreensão é ampliada e em parte alterada no processo histórico –, os trabalhadores têm direito ao controle pessoal dos meios de produção (cf. “Genêsis, 1,29).

Os trabalhadores devem ter a maior parte dos frutos de seus trabalhos, obtendo remunerações sem a extração da mais-valia. Da mesma forma, devem ter coisas elementares como: boas condições de trabalho; jornada de seis ou sete horas corridas com semana de 35 horas ou menos, como exigiam Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly e Mably.

Pela ética cristã e natural, humana, os trabalhadores, os produtores, tem o direito natural de trabalharem sem serem reificados, sem serem transformados em objetos, sem consciência, em “proletários”.

A sociedade não deve ter proletários e nem milionários, sem miséria e sem opulência.

Toda pessoa, somente por existir, tem o direito natural a uma renda básica assegurada pelo Estado.

Todos os trabalhadores deveriam ter estabilidade de emprego (como prevê a OIT, que estende aos trabalhadores privados o regime hoje adotado pelos funcionários públicos).

No bojo das relações de trabalho, os trabalhadores deveriam ter formas de autogestão (recomendadas por Maurício Tragtenberg, João Bernardo e outros) ou co-gestão consensual; tal como o acesso à contabilidade e às informações; à participação nos resultados (reditos, excedente) etc.

Nesta mesma linha, Alceu, na revista “A ordem” (Rio de Janeiro, Ed. Centro Dom Vital, julho a setembro de 1947, p. 188), exigia “a substituição [superação] do patronato pela associação”, a “substituição do salário pela participação” e a “superação do capitalismo individualista ou estatal, pelo humanismo econômico”.

Esta foi também a linha de Maritain, de Mounier, de Marc Sangnier, do abade Pierre, de Lebret, João XXIII e outros bons expoentes da Igreja.

Era o ideal de Mably, de Morelly, dos grandes bispos do Círculo Social, do padre vermelho Jacques Roux, do bispo Gregório, de Lamennais, Buchez, Ketteler, do Partido do Centro, De Mun, da Escola de Liège e outros luminares da Igreja.

A evolução social e trabalhista deve transformar gradualmente (o mais rápido possível) toda a estrutura econômica, de cada país e cidade, numa estrutura cooperativista (baseada na co-gestão e na autogestão) com planejamento estatal participativo e amplo distributismo, como recomendavam Buchez e Keteller.

Sobre a necessidade de uma estrutura cooperativa na economia, vejamos a lição do Vaticano II, do documento “Gaudium et Spes” (n. 67), dos bispos católicos do mundo todo em consenso com o Papa:

Como a atividade econômica se processa normalmente pelo trabalho associado dos homens, é iníquo e desumano dispô-la e organizá-la de tal modo que se transforme em prejuízo para qualquer trabalhador. Acontece, porém, muitas vezes, também em nossos dias, que os que trabalham são, de certa maneira, escravizados pela própria obra. E isso não se justifica de modo algum”.

Como explicaram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, o trabalhador (a pessoa) não deve ser explorado pela extração da mais valia e não deve ser tratado como uma coisa, um objeto, um robô (vide a crítica de Karel capek, na peça “Rossum´s Universal Robots”; ou do teísta H.G.Wells, em “The time machine”). Há a mesma idéia no filme de Charles Chaplin.

O ser humano não deve ser tratado como coisa, sem subjetividade, nem dentro das unidades de trabalho, nem nas escolas, nos quartéis, nos presídios ou na vida civil.

Em todas estas esferas deve haver participação do povo (das pessoas) na formulação das decisões gerais, que interessam a todos.

A antropologia cristã do trabalho (e do ser humano) exige o respeito à subjetividade humana, especialmente na vida pública do país. O princípio é o mesmo: as pessoas devem participar ativamente dos bens, do poder, da cultura, do saber, dos prazeres racionais, etc.

Deve haver justiça comutativa nas relações de trabalho. O trabalho deve ser remunerado sem a extração de mais-valia (sem usura, sem infração à comutatividade das prestações).

Além disso, na medida em que as unidades produtivas forem maiores e mais poderosas, elas ficam cada vez mais sujeitas ao direito público (a formas de planejamento participativo), aos ditames da justiça distributiva e, principalmente, da justiça social (geral), à soberania da sociedade.

As unidades produtivas que detenham poder excessivo deveriam ser estatais, com co-gestão. As pequenas e médias unidades devem ser regulamentadas também.

A regulamentação pública (planejamento estatal participativo, regras, controle de preços etc) deve variar na medida exata do poder destas unidades, tal como dos bens produzidos.

Um dos remédios mais essenciais e salutíferos para coibir o mal é erradicar dois dos males piores: o capital monopolista (os monopólios, trustes, cartéis, multinacionais etc) e o latifúndio.

Estes são dois males diabólicos e filhos da soberba, da avareza e da cobiça, vícios e pecados proibidos expressamente nos Dez Mandamentos (tal como na ética do hinduísmo, do budismo, das religiões africanas etc).

O capital oligárquico (especialmente multinacionais e bancos privados) e o latifúndio geram a proletarização nas cidades e nos campos.

Conclusão: um “regime” justo requer a difusão maciça dos bens (o máximo de distributismo) e a participação de todas as pessoas na gestão destes bens, tal como no poder.

Esta foi a lição de Santo Tomás Morus, na “Utopia” (1519), onde os bens são comuns (acessíveis a todos). Os cargos (frações de poder) são abertos a todos. São eletivos ou providos por concursos públicos (como também defendia Confúcio, autor sempre elogiado e difundido na Europa, pelos jesuítas).

Esta foi também a lição de Campanella, na “Cidade do sol”, onde ensinou que “entre os solarianos existem tantas autoridades como entre nós nomes de virtudes: magnanimidade, coragem, castidade, generosidade, bom humor, sobriedade etc”.

Campanella ensinou que as eleições são a melhor forma de provimento de cargos: “eleitos para os cargos”.

Na mesma linha, há as idéias do “Código da natureza”, do padre Morelli, que influenciou diretamente Babeuf e Buonarroti, que eram teístas também.

Há ainda os textos de Mably e de praticamente todos os precursores do socialismo (Sismondi, Saint-Simon, Leroux, Fourier, Fourier, Buchez e outros) que tinham idéias e sentimentos religiosos. Fica evidente que o socialismo nasceu de ideias éticas da Igreja, distorcidas, mas de ideias religiosas católicas.

O socialismo tem, assim, um núcleo correto, de BOM TRIGO, basta retirar os erros, sendo um sistema econômico misto, pois une o máximo de difusão pessoal de bens a um máximo de socialização não reificante, participativa, baseada na liberdade. 

A Grande Linha Democrática Popular da Doutrina social da Igreja, a linha de Francisco I

A busca de um regime justo, de uma democracia popular (socialismo democrático) não-capitalista, foi a linha de São Tomás Morus, Las Casas, Campanella, o abade de Saint-Pierre (1658-1743), Mably e outros precursores católicos de Marx. É a linha de João XXIII, de Francisco I.

Foi a linha retomada por Buchez, Lamennais, Ozanam (1813-1853), Lacordaire (1802-1861), Tocqueville, o abade Antônio Rosmini Serbati (1797-1855, um dos maiores luminares do pensamento italiano, no século XIX), Ketteler e outros.

Depois, novamente retomada pela Escola de Liège, por Marc Sangnier, Luigi Sturzo, Jacques Maritain, Mounier, do Cardeal Journet, do Cardeal Lercaro, do beato João XXIII, Alceu, Dom Hélder, Dom Lombardi (Núncio Apostólico no Brasil, de 1954 a 1964, amigo de Dom Hélder), Frei Betto, Dom Balduíno, Dom Hélder, Dom Casaldáliga, do Cardeal Leão José Suenens, do padre Yves Congar e de outros luminares da Igreja.

A linha democrática popular da Igreja também brilhou na luta dos poloneses e dos irlandeses. Por exemplo, na luta de Daniel O´Connor (1775-1847).

O´Connor foi chamado “o grande Agitador”, o “Libertador” da Irlanda, tendo sido aluno dos jesuítas, advogado (jurista mesmo), tribuno, jornalista, escritor, fundador de clubes políticos, deputado, especialista em comícios e lutas políticas.

O´Connor deixou obras como “Memórias sobre a Irlanda” e foi elogiado por grandes sacerdotes como Lacordaire, o padre Ventura d´Raulica e mesmo por Marx.

A combatividade do leigo O´Connor foi exemplar, marcando toda a luta dos irlandês contra o imperialismo inglês e por democracia.

O ideal de uma democracia popular era também o ideal cristão de William Cobbett, autor muito elogiado também por Karl Marx.

Chesterton redigiu uma boa biografia de Cobbett, no livro “La vie de William Cobbett” (Paris, Ed. Gallimard, 1929, com tradução de Marcel Agobert).

Difusão de bens, do poder, do saber, dos prazeres, eis o Plano Central de Deus

O Estado é uma obra humana, UMA CONSTRUÇÃO HUMANA, um conjunto de atos humanos.

A finalidade intrínseca do Estado e da sociedade, e assim a medida da legitimidade (o critério-chave) é a de defender, proteger e promover a dignidade humana, a vida humana, realizar o bem comum.

A Bíblia ensina que a sociedade deve ter a forma de uma comunhão de bens, uma comunidade participativa, partilhando os bens e o poder.

Na prática, significa todas as famílias terem casas boas (há um texto ótimo de Kautsky sobre isso), lotes, móveis, acesso a internet rápida e gratuita (banda larga), transporte público de ótima qualidade, sistema público de saúde e educação, ótima Previdência (paga pelo Estado e pelas empresas), boas aposentadorias (com 50 anos, o Estado já deveria dar algo, aumentando com a idade), bons empregos (demissão só com justa causa, jornada pequena, ótima remuneração), milhões de micros e pequenas empresas familiares, milhões de cooperativas, milhares de ótimas estatais com co-gestão, planejamento participativo etc. 

Todo poder vem de Deus, por mediações, especialmente pela mediação da consciência do povo, das pessoas

O poder vem de Deus (cf. Rom 13,1), mas mediante as pessoas, a sociedade, o povo, como demonstraram Santo Ambrósio, São Basílio Magno, São João Crisóstomo e os demais Santos Padres.

A mesma lição está nos textos de Boécio, São Isidoro de Sevilha, o Arcebispo John de Salisbury (m. em 1080), Manegold de Lautenbach (m. em 1110), Fernão Lopes, São Tomás Morus, Bartolomeu las Casas, Francisco de Vitória, Francisco Suarez, o abde de Saint Pierre, Fenélon, Montesquieu, Alexander Pope (1688-1744), Santo Alfonso Maria de Ligório (1696-1787), Mably e outros. Merecem destaque estrelas como Salisbury, Morus, Las Casas, Suarez, Bellarmino, Ligório (o patrono da teologia moral), Mably, o bispo John Caroll (1735-1815), Frei Caneca (1774-1825), William Cobbett, O´Connell, Buchez, Ozanam, Dom Félix Dupanloup (1802-1878), Lacordaire, Ketteler, Mun, Lavigerie, Luis Windthorst, Manning, Gibbons, Ireland, Manning, Billot, Maritain, Cardjin, Rommen, Alceu, Dom Hélder e outros luminares, que expuseram corretamente a teoria cristã sobre o poder público.

O poder legítimo nasce imediatamente da sabedoria (das idéias verdadeiras, fruto do diálogo) do povo, da bondade do povo.

O poder legítimo reflete a Trindade, as processões da Trindade.

O poder legítimo é fruto do Logos, do Verbo, do Amor, da Bondade, do Bem comum. O poder legítimo procede de Deus mediante a Sabedoria do povo, atuando pelo Amor, pela realização do bem comum.

A teoria cristã sobre o poder é, assim, a teoria popular sobre o poder. Esta teoria tem como princípio-chave o ideal da destinação universal dos bens, da Comunhão, inclusive do poder, sendo este o ideal do bem comum, a regra suprema do bem comum.

Todos devem usar e fruir dos bens na medida das próprias necessidades (cf. At 4,32), erradicando a miséria e a riqueza privada, organizando a sociedade com base na mediania, na igualdade, pois Deus não faz acepção de pessoas.

A teoria popular sobre o poder é a teoria natural e racional sobre o poder, sendo, assim, a teoria cristã do poder.

Esta teoria sobre o poder e os bens inspirou a Igreja e está bem clara na Bíblia, na recepção cristã do melhor da teoria grega-romana sobre o poder, nos Santos Padres, Isidoro de Sevilha, Manegold, John Salisbury, na Carta Magna de 1215, em Fernão Lopes, Thomas Morus, Las Casas, Vitória, Suarez, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably e outras estrelas do catolicismo.

O ideário de Mably, por exemplo, é o núcleo dos melhores textos inclusive do jornal “O amigo do povo”, de Marat (a parte sangrenta é o joio, tendo ao lado o trigo, vindo de Mably, da Igreja).

O mesmo ocorre nos textos de Babeuf e de Buonarrotti, inspirados em Mably , Morelly, Campanella (1568-1639) e Morus, autores que o próprio Marx considerava como precursores, como seus fundamentos teóricos.

O mesmo ocorria na Liga dos Justos, onde Weitling fundamentava o ideal de comunhão social democrático e socialista nas idéias cristãs.

Estes ideais estão também nos textos religiosos de Saint-Simon, Owen, Leroux, Considerant, Buchez e outras estrelas socialistas.

Conclusão: a ação humana, do povo, é causa eficiente secundária no destino humano, atuando em interação dialógica e concursal com Deus, a Causa Primária de tudo o que é bom.

O poder vem de Deus, mediante o povo, pela consciência do povo, partindo do povo, sendo exercida pelo povo, para o bem do povo.

Uma pequena síntese-receituário desenvolvimentista

A “receita” boa pode ser sintetizada nas ideias de muitos bons pensadores como Naomi Klein, Buchez, Myrdal, Erik S. Reinert, Thomas Piketty, Tobin, Requião, Alceu, Keynes, Joan Robinson, Hans Singer, Kaldor, Carey, Lucien Brocard, Cauwés, Ladislau Dowbor, Paul Singer e muitos outros.

Eu reconheço até a importância de bons textos de Manoilesco, sem esquecer de criticar seus erros pro fascistas, asquerosos. Há o trigo protecionista, acolhido por homens como Roberto Simonsen (que publicou o livro de protecionismo, de Manoilesco, no Brasil), e há o JOIO, as ideias fascistas. É preciso ficar com o trigo, e jogar o joio fora.

A propósito, Roberto Simonsen NÃO era parente do neoliberal asqueroso Mário Henrique Simonsen.

Os piores economistas do Brasil foram Gudin, Mário Henrique Simonsen e Roberto Campos, ponto que vou desenvolver em outras postagens. 

Paul Hugon,no livro “História das Doutrinas econômicas” (São Paulo, Ed. Atlas, 1978, 13 a. edição, p. 435), elogia corretamente Myrdal, resumindo o Plano receita deste nos seguintes ingredientes: nacionalismo, trabalhismo, ampla planificação pública, protecionismo, ajuda estatal aos pequenos negócios familiares, sendo esta, também, a linha japonesa de desenvolvimento, descrita por Barbosa Lima Sobrinho.

Foi esta também a receita que deu certo na Noruega, na Suécia e nos países escandinavos, tal como no trabalhismo na Austrália e na Nova Zelândia. 

É essencial continuar a linha getuliana (trabalhismo, nacionalismo, socialismo moreno), ampliando a infra-estrutura estatal e social, com um grande Estado social e econômico, planejamento público da economia, muitas regulamentações públicas e estatais etc.

Um Estado nacional anti-imperialista, que trabalhe na linha de Bolívar, construindo uma Federação Continental Latino-Americana (a ideia de Bolívar, que foi defendida por Peron e Vargas, no início dos anos 50), que depois trabalhe para uma Confederação Mundial, que mantenha os Estados nacionais, mas banindo as guerras, as multinacionais, a exploração, o imperialismo etc. 

E RENDA BÁSICA (ampliar o Bolsa Família), trabalhos públicos na linha de um DNOCS ampliado rural e urbano, milhões de micronegócios e de pequenas e médias unidades produtivas familiares, ampliar como nunca as agroindústrias, agrovilas, cidades lineares, ferrovias, hidrovias, bondes, VLTs, metros, ciclovias, carros elétricos, onibus públicos. Mais estatais e cooperativas substituindo trustes e cartéis etc.

E um sistema tributário que ajude a planejar a economia, REDISTRIBUA os bens, tire o SUPÉRFLUO dos ricos etc. Enfim, tribute os ricos, a renda, o patrimônio, o lucro, as heranças, os gastos conspícuos e perdulários etc.

Mais um ampliado INSS e Previdência Pública, que proteja as pessoas de todas as desgraças, do berço ao túmulo (e até depois do túmulo, protegendo as viúvas e os filhos dos mortos etc) inclusive contra roubos, acidentes, uma Grande Seguradora Estatal, totalmente subsidiada pelo Estado. 

A doutrina da Igreja quer uma Democracia popular, um socialismo com liberdade, cf. Alceu resumia bem

Como explicou Alceu, no “Memorando dos 90” (Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1984, p. 85), “um socialismo com liberdade é perfeitamente compatível com a mais rigorosa ortodoxia e a doutrina social das encíclicas, é a minha firme convicção”.

É a mesma opinião de católicos como Getúlio Vargas (dizia que o trabalhismo era o pórtico do socialismo brasileiro, à brasileira), Barbosa Lima Sobrinho, Dom Hélder, Francisco Mangabeira, Fábio Konder Comparato, Plínio de Arruda Sampaio, Frei Betto, Olívio Dutra, Stédile, os militantes da Igreja no MST, Francisco Whitaker, Marcos Arruda, Molon, Gilberto Carvalho, Luiz Alberto Gómez de Souza, Cândido Mendes, Erundina, Senador Paim, Marcelo Euler e outros expoentes.

Esta é a mesma linha de bispos como o falecido Dom Hélder, Dom José Vicente Távora (então presidente do MEB, Movimento de Educação de Base, autor da “Cartilha Viver é lutar”, atacada por Carlos Lacerda, já antes do golpe de 1964), os irmãos Lorscheider, Dom Tomás Balduíno, Dom Moacir Grecchi, Dom Ronaldo, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Mauro Morelli (em seus textos sobre como deve ser uma República, para abolir a miséria), Dom Enrique Avelar (Santiago), Dom Fernando Aristía (Copiapó), Dom Alberto Luna (Cuenca), Dom Julio Cabrera (Quiché) e milhares de outros luminares da Igreja.

O ideal da Democracia econômica popular, economia mista, trabalhista

O ideal da Democracia popular econômica é o ideal de Ignacy Sachs, de Joseph Stiglitz, de Ladislau Dowbor, de Paul Singer, Márcio Porchmann, Piketty e outros milhares de autores. 

Também é o ideal da Tradição da Igreja, da doutrina social da Igreja (vide textos de Pavan e Alceu).

O ideal (meta, ideal histórico possível, concreto, hoje) da Democracia popular econômica exige democracia econômica, política, social, cultural etc, como bem expôs o padre Fernando Bastos de Ávila, Alceu, Dom Hélder e outros.

É um ideal que , contém idéias que pugnam pela democratização do Estado, mas também das principais relações, especialmente das relações econômicas, das unidades de produção e de todo o processo produtivo, tal como de todos os processos decisórios que interessam aos membros da sociedade. 

Em uma palavra (mot), toda sociedade deve ser uma irmandade, tendo uma estrutura fraterna, igualitária, horizontal e humanista.

A importância da democratização da economia foi apontada por autores como Paul Singer, Ladislau Dowbor (vide “Democracia econômica”, Petrópolis, Vozes, 2008), Boaventura de Souza Santos, Maurício Tragtenberg e outros grandes autores.

O ideal cristão e humano é uma democracia real, verdadeira, popular, não-capitalista, uma democracia participativa, social, popular, cooperativa e comunitária.

A doutrina da Igreja defende, como medidas graduais de transição, inúmeras reformas sociais, por exemplo, a redução da jornada de trabalho para seis ou sete horas (a meta é seis horas, no máximo, cf. São Thomas Morus preceituava), a estabilidade no emprego (só deve haver demissão por falta grave, como recomenda a OIT), a renda cidadã, a co-gestão, a participação nos lucros, a transparência contábil, a humanização das relações trabalhistas e outras mediações.

Ao mesmo tempo, BBC, estatização dos bancos, jazidas estatais, altos tributos redistributivos, ferrovias estatais, boas estatais para oligopólios, reforma agrária campesina e cooperativista semi-pública (com ampla gestão e ajuda estatal), protecionismo, formas de planejamento público participativos etc. 

Todas estas reformas tendem a uma finalidade clara e geral: superar (abolir) a relação salarial (a reificação, a redução da pessoa à coisa), ultrapassar o regime assalariado, a base econômica do sistema capitalista, para gerar uma economia societária, uma economia cooperativada e social, tanto pública quanto privada, em todos os níveis (cf. explicou João XXIII, na “Mater et Magistra”).

Como ensinaram Dom Hélder e Alceu, o regime almejado, nosso ideal histórico atual, deve sintetizar personalização e socialização; autogestão, formas de co-gestão, autonomia, formas de gestão pessoais, distributismo, boas estatais, sistema tributário distributivo e planificação participativa e popular.

Os bispos Católicos das Antilhas defendem um socialismo democrático, como o melhor da Tradição política do Brasil

José Marins e equipe, no livro “De Medellín a Puebla” (São Paulo, Edições Puebla, 1979, p. 138), transcreveu um texto dos Bispos das Antilhas que mostra a mesma concepção de socialismo humanista e participativo, exposta neste blog. 

Um modelo de socialismo participativo, humanista, comunitário, personalista foi e é recomendado por expoentes e simpatizantes da Igreja, como Dom Hélder, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Tomás Balduíno, Dom Mauro Morelli, Alceu, Marciano Vidal, Frei Betto, Chico Alencar, Plínio de Arruda Sampaio, Selvino Heck, Frei Anastácio, João Pedro Stédile, Ivan Polleto, Paulo Freire, Madre Cristina Sodré, Patrus Ananias, Pedro Ribeiro de Oliveira, Dom Tomás Balduíno, Antônio Cândido (católico socialista e humanista), Azis Simão, Hélio Pellegrino, Paulo Freire, Henfil, Betinho, Sérgio Buarque de Holanda, José Gomes da Silva (expoente em prol da reforma agrária, autor do livro “Reforma agrária brasileira na virada do século”), Luci Choinacki e outros.

As Antilhas abarcam as ilhas britânicas, holandesas e ligadas à França. Vejamos o texto antológico e exemplar da Conferência Episcopal das Antilhas, dos Bispos das Antilhas:

“Uma sociedade que reclama a si o pensamento socialista deve ter como objetivo assegurar a seus membros, particularmente aos operários e aos agricultores, diretamente implicados na produção, uma parte das responsabilidades na sua própria concepção, o que implica não somente em compartilhar a propriedade, mas também numa participação no poder de decisão, em todos os níveis”.

A participação dos trabalhadores da indústria sempre se constituiu num tema capital da formação social do cristão”.

“Para o socialismo, representa uma exigência fundamental, posto que todas as revoluções devem ser feitas em nome dos agricultores e dos operários”.

“Atualmente, subsiste o perigo de que uma nova elite privilegiada venha a substituir a antiga e, por conseguinte, de que os trabalhadores voltem a viver no mesmo estado de opressão anterior. Devemos estar particularmente atentos para es­se perigo, se não quisermos simplesmente mudar de patrões. (…)”

“Nenhum sistema socialista é aceitável se ele destrói os direitos fundamentais…”

“Longe de destruí-las, o verdadeiro socialismo, aceitável para o cristão, deve combater para defender essas liberdades e inclusive para ampliar o seu campo”.

“Cabe-lhe o dever de assegurar que esses direitos fundamentais sejam respeitados, no interesse de todos, de sorte que essas orientações da liberdade de cada ser humano não se convertam em outra forma de escravidão. (…)”

“a Igreja jamais defendeu a propriedade privada como um direito absoluto”.

O único direito absoluto que ela defende é o destino universal da criação e, conseqüentemente, o direito do indivíduo a possuir o que necessita para si mesmo. (Antilhas, documento da Conferência Episcopal, 21-11-1975)”.

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