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O grande General Sandino, admirado pelo Padre Cícero, no início decada 30

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Wikipedia – Liga dos Justos era organização cristã pré marxista, a base teórica cristã pré marxista, que ensinou Marx

Colhi este texto no Wikipedia, vai na mesma linha de meus textos.

“A Liga dos Justos era um grupo dissidente da “Liga dos Outlaws”, criada em Paris em 1834 por Theodore Schuster e outros imigrantes alemães.

Schuster era inspirado na obra de Philippe Buonarroti.

O lema da “Liga dos Justos” era “todos os homens são irmãos” e seus objetivos eram “o estabelecimento do Reino de Deus na Terra, com base nos ideais de amor ao próximo, igualdade e justiça”.[1] 

A Liga dos Juntos, nos últimos tempos, tinha uma estrutura piramidal, inspirada na sociedade secreta Carbonária, e suas ideias eram compartilhadas com o “socialismo utópico” de Saint-Simon e Charles Fourier. Seu objetivo era estabelecer uma “República Social” na Prússia que teria como princípios a “liberdade”, a “igualdade” e a “virtude cívica”.

A Liga dos Justos participou da revolta blanquista de maio de 1839 em Paris.[2] Depois da revolta seus integrantes foram expulsos da França e a Liga dos Justos passou a ter sua sede em Londres, onde fundaram um grupo militante, a “Sociedade Educacional para Trabalhadores Alemães” em 1840.

 Wilhelm Weitling, um importante membro da liga, se mudou para a Suíça, onde foi preso e posteriormente extraditado para a Prússia.

O livro de Weitling “Garantias da Harmonia e Liberdade” de 1842 criticava a propriedade privada e a sociedade burguesa já bem antes de Proudhon e Karl Marx, e foi uma das bases da teoria social da Liga dos Justos que deu origem a Liga dos Comunistas”. 

A influência católica nos melhores textos de Marx

Marx nasceu na Renânia católica, na cidade mais católica da Alemanha, a cidade mais antiga da Alemanha, a cidade católica de Trier.

Estudou no Ginásio de Trier, que tinha sido um Colégio jesuíta. E teve como colegas seminaristas católicos, inclusive o futuro bispo de Trier. Depois, quando era jornalista, defendeu o bispo de Trier, contra a prisão, determinada por Frederico Guilherme IV.

Marx foi influenciado principalmente pela Liga dos Justos, organização cristã, com ampla citação de católicos. E pelos cartistas, com ampla participação católicos, dos irlandeses.

Marx foi influenciado por grandes católicos, como Béranger; Buchez; Lamennais e Villeneuve-Bargemont.

Villeneuve-Bargemont (1784-1850) escreveu o livro “Economia política cristã” (1834), onde criticou o liberalismo e defendeu a intervenção estatal a favor dos pobres.

Marx, ao começar seus estudos sobre economia política, leu o livro de Villeneuve, recebendo boa influência cristã pré-marxista. Numa linha próxima, houve ainda Ozanam (1813-1853), professor na Sorbonna e fundador dos Vicentinos.

O primado do bem comum era a base da concepção de Alban de Villeneuve-Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), onde critica a “concentração de riqueza e do poder” nas mãos da nobreza, como a causa principal da revolução francesa.

Alban atacou o “absenteísmo” dos grandes proprietários.

Criticou também a burguesia, a “nova feudalidade”, “do dinheiro e da indústria”, que “começa pela servidão das massas e termina com a usurpação dos poderes públicos”.

Alban criticou o capitalismo, na mesma linha de Sismondi, um dos autores que mais citava. Karl Marx, quando era jovem, leu Villeneuve-Bargemont e também Sismondi, sendo estas algumas de suas grandes fontes cristãs, especialmente católicas.

Os textos de Karl Marx estão cheios de metáforas religiosas, de textos bíblicos e de grandes autores cristãos (inclusive Montalembert). Outra influência católica ocorreu pelos textos católicos de Saint Simon, que era católico e socialista. 

Marx também foi influenciado por Petr Yákovlevich Chaadaev (1794-1856), que foi um pensador russo, católico, influenciado por Lamennais. Chaadaev militou ao lado de Alexandre Herzen (1812-1870), pela democracia e a igualdade, tal como faziam os católicos que militavam ao lado de Mazzini e Garibaldi, apesar do anticlericalismo destes líderes que tinham ampla religiosidade.

Outro expoente católico foi Daniel O´Connell (1775-1854), o líder do movimento católico na Inglaterra, organizando a luta do povo irlandês em prol da independência da Irlanda.

Houve ainda Fergus O`Connor, líder dos cartistas.

Outro marco foi o movimento dos católicos da Renânia, na década de 1830 e 1840, elogiado até por Bakunin.

Outro marco foi o movimento católico dos poloneses, contra o czarismo, contra a opressão da Prússia etc. Houve inclusive santos católicos, dirigentes do movimento polonês, no século XIX. 

Nos EUA, os católicos militavam no movimento dos Cavaleiros do Trabalho, chegando à liderança deste movimento operário (elogiado por Lenin), com Powderly.

Na Itália, houve líderes emblemáticos como Alexandre Manzoni (1785-1873, elogiado por Pio XI, na “Divini Illius”), Rosmini e Gioberti. Além destes, vale à pena lembrar dos padres Gallupi, Garelli, Billia, Sanseverino, Liberatore, Cornoldi, Satolli, Prisco e outros. E também o grande César Cantu. 

Na França, devem ser recordados expoentes como Tocqueville, Ozanam, Buchez, Albert de Broglie, Augustin Cochin, Montalembert, Lacordaire, Dupanloup e outros. Tocqueville, por exemplo, influenciou autores como Edouard Laboulaye (1811-1883), na obra “O partido liberal” (1863), que teve influência no Partido Liberal, no Brasil, no século XIX, defendendo teses pro democracia.

Há ainda Huit, Piat, Desdouits, Fonsegrive, Graty, Ollè-Laprunne, Domet de Vorges, Farges, Peillaube e outros que foram precursores de Maritain.

Há ainda expoentes como John Acton (1834-1902); Skrzynecki; Montalembert; Lacordaire; Ketteler; Ludwig Windsthorst (1812-1891, líder do Partido do Centro, crítico de Bismarck, e Marx pediu textos de Windsthorst, numa de suas cartas); César Cantu; Albert de Mun e outros.

Na Polônia, houve o carmelita São Rafael Kalinowski (1835-1907), um dos líderes da insurreição polonesa e lituana, de 1863, contra a opressão russa contra a Polônia, tendo sido mandado para a Sibéria, por dez anos.

Depois, o próprio Leão XIII, Newmann (elogiado por Henri Brémond), Manning, Gibbon, Péguy, Marc Sangnier, Maritain, Mounier, o abade Pierre, João XXIII, Dom Hélder, Alceu e há milhões de outros expoentes, que, por sua vez, refletem o rio vivo de verdades que corre na consciência (“coração”) do povo, tal como do coração de Deus (cf. Ap. 22).

Napoleão ressaltou que o catolicismo é perfeitamente compatível com um “governo democrático e republicano”. Em seu testamento, Bonaparte escreveu: “morro na religião apostólica e romana, na qual nasci há mais de cinqüenta anos”.

Convém lembrar que até Marx reconhecia o papel positivo de Napoleão ao disseminar na Europa os princípios democráticos da Revolução Francesa.

O livro de Daniel-Rops (1901-1965), “A Igreja das revoluções” (São Paulo, Ed. Quadrante, 2003), em quase 900 páginas, deixou algumas boas páginas sobre a participação da Igreja nos movimentos democráticos do século XIX, reconhecendo que “os escolásticos, com Santo Tomás e depois Bellarmino (acrescentemos, naturalmente, Suárez, para não irmos mais longe)” corroboravam a tese da “soberania do povo”.

Sobre Bellarmino, o papa Clemente VIII, quando o escolheu para ser cardeal, proferiu as seguintes palavras: “elegemos este porque a Igreja não possui outro igual em sabedoria”.

Antônio Pedro de Figueiredo, negro, socialista e católico. Precursor do socialismo no Brasil. Discípulo de Buchez, de Victor Cousin, eclético

Amaro Quintas – bom amigo de José Honório Rodrigues, um historiador católico, eminente, do PSB, elogiadíssimo por Alceu –, no livro “O sentido social da Revolução Praieira” (Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1967, pp. 147-148), fez um bom elogio da revolução praieira e do papel de líder intelectual, de Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1850).

Antônio era negro, socialista e católico, como Domingos Velasco, outra grande liderança católica e socialista (idem para Alceu, Pontes de Miranda, Sérgio Buarque de Holanda e outros).

Vejamos o texto de Amaro:

“Diz Pereira da Costa ter Antonio Pedro de Figueiredo nascido em Igaraçu no dia 22 de maio de 1822. Essa afirmativa na me parece, entretanto, retratar fielmente a verdade. Noticiando o falecimento do mulato socialista afirma historiógrafo pernambucano que a “morte o arrebatou a vida da eternidade, aos trinta e sete anos de idade, no dia 21 de agosto de 1850”.

Mas o jornal Liberal Pernambucano de 25 e agosto de 1859 anota: “Obituário das pessoas que foram sepultadas no cemitério público. Dia 22, Antonio Pedro de Figueiredo, pernambucano 45 anos, solteiro, São José, congestão cerebral”. A mesma coisa encontramos no Diário de Pernambuco de 23 de agosto de 1859; “Mortalidade do dia 22: Antonio Pedro de Figueiredo, pardo, solteiro 45 anos, conforme atestam os dois jornais acima citados, o seu nascimento não ocorreu em 1822, como declara Pereira da Costa, e sim em 1814.

São obscuras as suas origens. Sabemos quase somente terem sido elas humildes. Falam os jornalecos da época em um pardo Basílio como o seu pai. É o que diz o Volcão de 30 de agosto de 1847; “… o ridículo Cousin Fusco, filho do pardo Bazílio lá de Iguarassu, onde sempre viveu de limpar a estribaria do pai, e de pescar os seus ciris e bodiões”.

Vindo para o Recife procurou o amparo de um amigo que não correspondeu as suas esperanças, expulsando-o de sua casa. João Sinhô, assim se chamava – conforme O Proletário de 1 de setembro de 187 – esse falso amigo que o desprezou numa ocasião em que Antonio Pedro tanto necessitava de uma ajuda. Mas, buscando abrigo junto aos frades do Convento do Carmo lá encontrou acolhimento e amparo material para aprofundar-se nos estudos”.

Antônio Pedro de Figueiredo era católico, negro, pobre, eclético ligado a Victor Cousin e ao ecletismo católico.Nasceu antes de Marx e era socialista católico, pré-marxista. Lembro que as melhores ideias do socialismo nasceram no socialismo cristão-católico, pré-marxista. 

Antônio Pedro de Figueiredo formou-se no Convento do Carmo, o que, com certeza, contribuiu para a síntese entre catolicismo e socialismo.

Antônio Pedro de Figueiredo foi decisivo para sua liderança na Revolução Praieira, continuando os esforços dos padres da Revolução de 1817, de Frei Caneca e outros. O desembargador Nunes Machado foi outro líder principal, tendo sido morto em combate (em fevereiro de 1849), mas o teórico era Antônio Pedro Figueiredo.

O pensamento socialista deste negro socialista e católico foi descrito da seguinte forma, por Amaro (pp. 152-153):

“Replicando a Autran assegura Figueiredo: “Esta aparição (o socialismo) tende a reformar o estado social em prol do melhoramento da moral e material de todos os membros da sociedade. Para esse fim cada escola socialista oferece meios diferentes, mas não há uma sequer cujas intenções deixem de ser puras e generosas, cujo ideal não seja a realização na terra dos princípios de liberdade e fraternidade”.

Pouco depois acrescenta: “A formula geral da escola socialista a que pertenço, é a realização progressiva do principio cristão de liberdade, igualdade e fraternidade, efetuada sem violência e por meio de medidas apropriadas as necessidades dos diversos países.

E justificando o seu conceito cristão do problema social enumera os argumentos dos grandes doutores da Igreja todos contrários a exploração do homem pelo homem.

Começa com São Clemente: “O uso de todas as coisas que estão neste mundo deve ser comum a todos os homens. A iniquidade foi que permitiu que um dissesse; isto é meu; e outro; isto me pertence. Deste fato proveio a discórdia entre os mortais”(Os grifos são de Figueiredo). Vem depois com Santo Ambrósio: “A natureza ministrou em comum todos os bens a todos os homens. Com efeito, Deus criou todas as coisas a fim de que o gozo delas fosse comum a todos, e a terra se tornasse a posse comum de todos. Assim a natureza gerou o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade”. Em seguida cita as palavras incisivas de São Gregório: “Saibam que a terra de que eles foram tirados é comum a todos os homens, e que por isso os frutos que ela produz pertence a todos indistintamente”.

As fontes de Antônio Pedro de Figueiredo são as mesmas deste meu humilde blog e mostram – tal como as figuras de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Assis Brasil – que os católicos democratas já falavam em socialismo bem antes da influência marxista. Vejamos, na página 157 do livro de Amaro, a ligação de Antônio Pedro de Figueiredo com Buchez, também ligado ao General Abreu e Lima:

“Aproxima-se antes Figueiredo do socialismo cristão de Buchez ou da tendência romântica – tendência essa que não prejudica seu objetivismo em relação ao estudo de nossa situação social – de Pierre Leroux e de seus discípulos.

Talvez a influência de Buchez se tenha feito sentir na sua tentativa de conciliação entre o cristianismo e a doutrina socialista, especialmente depois que Buchez rompeu, em parte, com os sansimonianos, quando Enfantin e Bazard foram proclamados “Pais Supremos”. Não é de desprezar a hipótese de uma possível contribuição de Lamennais e de Lacordaire na obra de Figueiredo. Em relação ao autor das “Palavras de um crente” destacou Aprígio de Guimarães o quanto ele influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo, vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

No mesmo sentido, há o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico.

Na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos, antes de Marx.

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio deste livro. Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824.

Abreu foi para a Colômbia e teve a honra de lutar ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

Vamireh Chacon considerou Antônio Pedro como “o ideólogo da revolução de 1848”, no livro “História das idéias socialistas no Brasil” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1981, p. 74). Chacon afirmou que este pensador católico é “uma indispensável etapa do itinerário ideológico do Brasil”.

O livro de Chacon, “Cooperativismo e comunitarismo” (Rio, Ed. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1959) mostra como o cooperativismo e o comunitarismo também fazem parte da tradição política da Igreja.

Solidarismo de Pesch, Renouvier, Bourgeois, Péguy, Mounier. Democracia popular, economia mista, Estado social.

As idéias cristãs e racionais de controle consciente sobre a vida, destino, a natureza e a sociedade influenciaram inclusive o radicalismo de Alain (1868-1951), que queria “a fiscalização permanente” do povo sobre “o poder”, para que este estivesse sobre controle do povo organizado, para assegurar a todos o bem comum.

Alain seguia os passos do católico Lord Acton. Os dois, tal como Tocqueville (outro grande católico), queriam o poder descentralizado, difundido na sociedade, controlado pela sociedade.

Alain elogiava a pequena propriedade pessoal, o campesinato, os artesãos e a pequena burguesia (especialmente a “provinciana”, do interior,). O amor ao campesinato e à pequena burguesia provinciana formam a base social do ruralismo radical, ficando, também neste ponto, bem claro a influência das idéias católicas, que tem o mesmo apreço pela difusão dos bens.

Pequena burguesia (micro, pequenas e médias empresas familiares), camponeses, artesões, profissionais liberais, técnicos, intelectuais, servidores, clero etc são parte essencial de uma boa sociedade, junto com o operariado, as estatais, as cooperativas, sindicatos etc. 

O velho Alain ensinou corretamente que “resistência” (às leis iníquas) e “obediência” (às leis justas) voluntária são as bases do bom equilíbrio da sociedade. Ensinou que “os negócios públicos” devem destinados ao interesse geral ou, pelo menos, da maioria. Os livros de Alain deveriam ser traduzidos, especialmente “O cidadão contra os poderes”.

Entre os radicais, houve também Édouard Herriot, amigo de João XXIII e que se converteu. Os radicais seguiam a linha de autores com religiosidade, como Lamartine, Camille Pelletan, Ledru-Rollin, Benjamin Constant e mesmo Voltaire. Seguiam também Condorcet, que era jusnaturalista.

As idéias cristãs também formam a parte principal do solidarismo de Leon Bourgeois, que queria “organizar política e socialmente a sociedade segundo as leis da razão”, com base numa ética solidária, baseada no bem comum.

Bourgeois foi influenciado pelas idéias de Charles Renouvier (1815-1903), autor de livros como “Manual republicano do homem e do cidadão”, “Ciência da moral” (1869) e “O personalismo” (1902). Renouvier foi o principal ideólogo da 3ª República Francesa e defendia uma linha republicana fortemente teísta, inspirada no jusnaturalismo de Kant. O padre jesuíta Karl Rahner mostrou a importância dos textos magistrais de Kant, e a conciliação de seus melhores textos com a Igreja. Idem para Hegel, filósofo cristão, mais próximo do luteranismo e do catolicismo que do calvinismo. 

O republicanismo social, cristão e religioso formava a base teórica principal da 2ª. e da 3ª. República, na França (apesar do anticlericalismo de Gambetta, Jules Ferry e outros). Há forte religiosidade inclusive nos textos magníficos de Pierre Larousse.

Há a mesma linha nos livros de Lachelier (1832-1918) e, principalmente, no grande Foillée (1832-1912), autor de “A idéia moderna do direito” (1878).

Foillée esboçou uma síntese entre catolicismo e democracia que foi muito importante em sua época. Seus livros merecem leitura até hoje, especialmente as obras sobre a história da filosofia e a filosofia do direito.

Lenin emitiu os seguintes juízos sobre Renouvier: “é a cabeça visível da escola dos chamados neocriticistas, muito influente e muita estendida na França”, “o clero católico está encantado com tal filosofia” (cf. “Materialismo e empiriocriticismo”).

O juiz Paul Magnaud, o “bom juiz”, também é outra linha claramente jusnaturalista e extremamente próxima do catolicismo.

Charles Péguy e Mounier são outras flores cristãs destas correntes. Mounier chegou a usar o termo “personalismo”, a mesma palavra-síntese usada por Renouvier e também pelo oratoriano, Lucien Laberthonnière (1860-1932), autor do livro “Esboço de uma filosofia personalista”, baseado nas idéias de Pierre Bérulle (1575-1629).

Da mesma forma, Pesch usou o termo-símbolo solidarismo, usado, antes, por Bourgeois.

Nada disso ocorreu à toa, sem razão. Demonstram, claramente, a existência de conteúdos comuns entre catolicismo, solidarismo, democracia popular-social e radicalismo. Isto também ficou evidente na Argentina, com o católico Hipólito Yrigoyen, precursor do católico Péron. Radicalismo e peronismo (uma forma de trabalhismo) têm fontes cristãs evidentes, como também fica claro na figura de Eva Perón, a madrinha católica dos montoneros.

No fundo, as melhores idéias do radicalismo, do peronismo e dos montoneros (peronistas de esquerda) buscam um Estado popular democrático, não-capitalista, dos trabalhadores, do povo. Democracia popular, Estado social, distributismo, economia mista. Boas ideias. 

O Conde de Mun, o bisneto de Helvetius. Bom exemplo da doutrina social da Igreja

O Conde Albert de Mun, o bisneto de Helvétius, foi um dos expoentes da doutrina social da Igreja. Na França, foi deputado federal várias vezes. Na sessão de 09.12.1891, ele disse boas palavras sobre o genro de Karl Marx, Paul Lafargue e sobre o socialismo. Vejamos o que De Mun disse:

“Estou de acordo com os socialistas, com o que agora mesmo estava na tribuna [discursando, Paul Lafargue, genro de Marx], sobre a crítica da ordem econômica, assim como, também, sobre um grande número de reformas sociais diariamente reclamadas pelos trabalhadores”. 

A Escola de Liège, na França e na Bélgica, defendia economia mista, vasta intervenção estatal, a favor dos trabalhadores. 

Leão XIII escreveu carta ao Conde de Mun, em 07.02.1893, elogiando os esforços do Partido católico. O Cardeal Rampolla, o Secretário de Estado de Leão XIII, escreveu carta ao Conde de Mun, em 09.05.1894, apoiando o “Partido Social cristão”, a Escola de Liège e os discursos e projetos do Conde de Mun. 

Francesco Nitti, no livro “Socialismo católico”, no final do século XIX, ataca o “socialismo católico do Conde de Mun”. Na Ástria, Vogelsang defendia também vasta intervenção estatal, economia mista, o Estado ao serviço dos trabalhadores. O mesmo fazia o bispo Ketteler, na Alemanha, um bispo elogiado publicamente por Lassalle, o chefe principal do Partido Social Democrático, Comunista, na Alemanha, naquela época. 

Emílio Zola, no livro “Roma”, descreve a formação da Doutrina social da Igreja, elogiando vários expoentes católicos. 

A Santa Razão, guardiã que nos leva a Deus e ao bem comum

A Igreja condenou o racionalismo não porque o racionalismo defendia a Razão, e sim porque o racionalismo mutilava a razão. O racionalismo achava que a razão é incapaz de fazer raciocínios dedutivos válidos sobre ética, Direito, Religião, Deus etc. A Igreja acha que a razão humana é capaz e não aceitou a mutilação da razão. É a Igreja quem ama a razão, a ciência, o progresso social. 

A Igreja condenou o liberalismo não porque o liberalismo defende a liberdade, e sim por que mutilava a liberdade. A Igreja defende a liberdade verdadeira, seguir a própria consciência (cf. Mercier), ter condições sociais para o exercício da liberdade. A Igreja sempre defendeu a liberdade humana (vide Molina), tal como sempre defendeu o Estado social (vide as melhores ideias de Santo Agostinho, São Tomás, os Santos Padres, São Clemente de Alexandria e as ideias bíblicas e do Evangelho). 

A Igreja condenou o comunismo não porque este defendia a comunhão de bens. E sim porque o comunismo, nos seus expoentes, em geral, defende um Capitalismo de Estado, com ditadura, mantém os trabalhadores como proletários, proibiu greves, manietou sindicatos, baniu multipartidarismo, eleições livres, proibiu liberdade de imprensa, de religião, de pensamento. Estes erros do comunismo levaram a Igreja a condenar estes erros.

Ao mesmo tempo, a Igreja mostrou que parte das ideias socialistas era boa e tradicional (vide Pio XI).

É a Igreja defende a comunhão de bens, a difusão de bens, a destinação universal dos bens, Deus fez os bens para todos, o que exige economia mista. Todos devem ter moradias dignas (não mansões milionárias, frise-se), carros populares e dignos, renda, móveis, roupas, liberdades civis, e isso deve coexistir com boas estatais, planejamento participativo do Estado, cooperativismo amplo etc.

Não deve haver proletários (pessoas que só tem a prole) e nem deve haver grandes fortunas privadas. O correto é MEDIANIA, todos devem ter pequenos e médios bens, sob o controle do Estado, do bem comum, das regras para o bem comum. 

A Igreja condenou o fascismo, não porque este era nacionalista, e sim pelos erros totalitários, racistas, imperialistas. Idem para o nazismo. A Igreja defende o nacionalismo, como defende o municipalismo, o regionalismo, a existência das nações e governos nacionais, a existência de governos continentais (tipo União Européia, sem os erros neoliberais desta), tal como a Igreja defende a criação de um Estado mundial (a ideia de H.G.Wells é uma ideia católica, tendo como precedentes vários católicos, como Dante e outros).

Um bom Estado mundial é uma boa Confederação de Nações. Por isso, a Igreja apoiou a ONU e vários Papas foram até a ONU, onde proferiram lindos discursos apoiando a causa de um Estado democrático popular mundial, que não suprime os governos nacionais, apenas erradica as guerras, o imperialismo, formas de neocolonianismo e institui ajuda mundial aos países mais pobres. Uma moeda internacional também não suprime as moedas nacionais, pois apenas é usada para o comércio externo. 

A Congregação do Índex, em 11.06.1855 (num texto confirmado por Pio IX, em 15.06.1855), ensinou que “o uso da razão” é tão vital e essencial que “precede a fé e a ela conduz”. A ação da razão sempre é imprescindível. A graça apenas aperfeiçoa e fortalece a razão, e nunca a anula. A fé apenas ajuda a razão e ter fé é termos uma razão que dá o consenso à verdades racionais e supra-racionais, nunca a ideias irracionais.

A revelação e a graça são auxílios à razão (“o auxílio da revelação e da graça”), forças auxiliares que cooperam com o exercício da razão humana, mantendo-a e elevando-a, depurando-a, aperfeiçoando-a, sem nunca a contradizer. Assim como a razão vem antes da fé, a liberdade vem antes da autoridade.

Pio IX, no texto de 1855, também explicou que a razão e a fé têm origem divina, comum, na mesma Fonte, que é Deus.

Assim, os temas principais da fé são corroborados pela razão, que é capaz de deduzir a existência de Deus, de Seus atributos e formular regras racionais e sociais (de ética), tal como regras jurídicas e políticas, para a vida pessoal e social, com base na apreensão da realidade.

O Papa Pio IX ainda ensinou que “o raciocínio pode provar com certeza a existência de Deus, a espiritualidade da alma e o livre arbítrio”, a liberdade, tal como as verdades principais da ética. Também frisou bem que “o uso da razão precede à fé”.

Com estes textos, Pio IX ratificou o ensinamento de Santo Alberto Magno, de Abelardo e Santo Tomás de Aquino, que a razão humana é “uma” “participação da razão divina”. Por estas razões, Pio XI autorizou os católicos chineses a fazerem saudações junto às estátuas de Confúcio e autorizou os católicos ingleses a votarem no Partido Trabalhista inglês, que é socialista democrático, filiado à Internacional Socialista. Na China, hoje, há uma verdadeira veneração a Confúcio, organizada pelo Estado chinês, que criou o Instituto de Confúcio e difunde as obras do mestre chinês. O mesmo faziam os jesuítas que difundiram os textos de Confúcio pelo mundo todo, com enorme apreço ao grande Pensador Chinês. 

Em todo o mundo e em todas as épocas, as pessoas podem se salvar, pois a graça opera sempre, desde a criação, em cada pessoa. A luz natural da razão está presente em todos os povos, tal como a ação do Espírito Santo atua em todos os povos.

O culto a Deus e a prática de boas obras salva em todos os países. Um bom muçulmano, um bom hindu, um bom budista, um bom confuciano, um bom xintoísta, um bom protestante, um bom judeu, um bom sikh, se salvam, tanto como um bom católico.

O catolicismo respeita as ideias verdadeiras em cada povo, em cada cultura. E um bom hindu que se converte a católico, permanece lendo o Bhagavad Gita, e sendo um bom hindu, tendo apenas algumas ideias boas a mais. Idem para um bom judeu que se converte, permanece judeu, amante dos melhores textos do Talmud, com apenas algumas ideias a mais. 

No fundo, o valor salvífico da razão natural e a ação universal da graça (pelo batismo de fogo, de desejo ou de sangue) salvam. Boas obras e boas ideias verdadeiras salvam em cada povo. Sendo estas teses hiper tradicionais no catolicismo.

Esta tese foi chamada, convencionalmente, de “batismo de desejo e de sangue”, objeto do livro de Frei Betto, sobre o martírio de pessoas que dão a vida na luta por justiça social. É o mesmo ensinamento do papa Alexandre VII (ao condenar os erros jansenistas, expostos por Antônio Arnauld) e de Pio XII, ao condenar os erros integristas do padre Leonardo Feeney. Alexandre VII (1689-1691) condenou a tese principal do tuciorismo, num documento de 07.12.1690.

Estas decisões da Igreja contra o quietismo, contra o jansenismo, o tuciorismo, foram decisões magistrais, que abriram caminho para as melhores ideias do século XVIII, para o iluminismo católico, que gerou gigantes como Montesquieu, Bento XIV, Mably e milhares de outros leigos católicos que fizeram a Revolução Francesa. 

Mesmo Pio IX ensinou que todas as pessoas podem se salvar, em cada povo, cada cultura, cada religião, pois um bom hindu só não é católico e hindu, por ignorância invencível, falta de conhecimento da doutrina católica, ou seja, a razão natural do hindu (ou do muçulmano etc) o salva, pois atua junto com o Espírito Santo, só não chegando ao catolicismo por falta de informações que os missionários podem e devem suprir.

Vejamos o texto de Pio XI, em 1854: “Com efeito, pela fé há de sustentar-se que fora da Igreja Apostólica Romana ninguém pode salvar-se; que esta é a única arca da salvação, que quem nela não tiver entrado, perecerá no dilúvio. Entretanto, também é preciso ter por certo que aqueles que sofrem de ignorância da verdadeira religião, se aquela [ignorância] é invencível, não são eles ante os olhos do Senhor réus por isso de culpa alguma. Ora pois, quem será tão arrogante que seja capaz de assinalar os limites desta ignorância, conforme a razão e a variedade de povos, regiões, caracteres e de tantas outras e tão numerosas circunstâncias?” (Pio IX, Alocução Singulari Quadam, 1854, Denzinger, 1647).

A Igreja ensina que a Igreja invisível é a essência da verdadeira Igreja. A Igreja visível é como a encarnação e a parte visível, sendo menor que a Igreja Invisível. Na Igreja invisível, há milhões ou bilhões de hindus, confucianos, muçulmanos, budistas, umbandistas, espíritas, sikhs, xintoístas, e até ateus que são ateus por erros invencíveis (falhas na formação intelectual), desde que estas pessoas sejam boas pessoas, honestas, dignas, razoáveis, e procurem fazer o bem e evitar o mal. 

Uma decisão asquerosa do TJ do RJ. Direita penal é abominável. Solução boa para drogas

Colhi o texto seguinte no site do 247 – “Por 2 votos a 1, Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou o habeas corpus a Rafael Braga, neste terça-feira (8); desembargadora relatora Katya Monnerat e o revisor Antônio Boente votaram pela manutenção da prisão, já o desembargador Luiz Zveiter votou a favor pela liberdade do rapaz; Rafael Braga foi preso em abril, supostamente flagrado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro na posse de 0,6g de maconha, 9,3g de cocaína e um rojão; Rafael afirma que o material foi plantado pelos policiais responsáveis pelo flagrante; depoimento dos policiais é a única base para condenação”. 

Prender pessoas por gramas de drogas é algo abominável. No mundo todo, há um movimento para não penalizar a posse de maconha. Não defendo permitir o tráfico, mas liberar o plantio pessoal. O tráfico, o comércio de drogas, é algo abominável. Não é correto vender algo que possa gerar dependência psicológica e física, e prejudicar a vida das pessoas. 

O correto é proibir o tráfico, mas liberar o plantio, o uso pessoal, a posse pessoal de pequena quantidade para uso próprio. Isso parece ser uma solução melhor que jogar pessoas nos presídios, por causa da porcaria de uma coisa tola como a maconha.

Não é correto confundir a maconha normal com drogas pesadas, como a cocaína ou a morfina, ou outras, que devem continuar proibidas, acho. Há uma diferença entre maconha e drogas pesadas. Esta diferença deve ser considerada nas leis penais.

Da mesma forma, a pequena quantia de cocaína nunca deveria gerar prisão preventiva, pois deveria ser resolvida via sursis processual. A medida da pena deve corresponder à quantidade da droga apreendida. Pequenas quantidades podem chegar a ser insignificantes, bagatelas.

Grandes quantidades de drogas pesadas justificam penas grandes. Lembro que o depoimento apenas dos policiais é extremamente perigoso, pois facilita a “plantação” de drogas, em pessoas inocentes. 

Um bom sistema penal sempre opera baseado em provas diretas, veementes, e provas geradas licitamente, para proteção das pessoas inocentes. As lições de um grande católico como Francesco Carrara, o maior dos penalistas clássicos, continuam atuais.

É possível, como exceção e de forma restrita, admitir indícios veementes, próximos, tipo a posse da arma fumegante com pingos de sangue.

Mas indícios leves, distantes, provas circunstanciais vagas e longínquas, não devem ser gerar condenações. Havendo dúvida, o correto é absolver. E nulidades não devem ser relevadas, e sim punidas, no mínimo com nulidade. O HC não deve ser mutilado, e sim ampliado. 

Maconha não faz bem ao corpo, mas é basicamente igual a pinga, vodca e outras bebidas fortes. É mais questão de educação, informação, uma questão de educação e de saúde, que questão penal.

Não defendo a liberalização do tráfico, como faz o FHC, pois a Souza Cruz iria faturar bilhões, escravizando milhões. O bom seria proibir a Souza Cruz, estatizando a produção de cigarros. E seria bom só permitir a produção caseira de cerveja, destruindo o Cartel infame da cerveja, que gera fortuna bilionária. Cerveja artesanal e caseira me parece muito mais sadia…

A produção artesanal de maconha estritamente para uso próprio é como um mal menor. Em alguns estados do Brasil, metade dos presos vem do tráfico, e há um verdadeiro Gulag, um grande campo de concentração, de quase 700 mil presos. Os presídios são escolas de crimes e apenas pioram a consciência dos presos, gerando monstros, estupradores, assassinos etc. Então, medidas para diminuir o encarceramento excessivo são essenciais.

O correto é que nosso sistema prisional seja baseado principalmente em penas alternativas, abertas, como é nos países do norte da Europa. 

Defendo, no caso da maconha, a solução usada em Portugal e em boa parte dos estados dos EUA: plantio e uso pessoal, em pequena quantidade, não devem ser criminalizados. Se gerar embriaguez, então os atos criminais decorrentes do uso excessivo e do mau uso teriam um agravante, como ocorre com o álcool. 

O lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade é um lema católico, cristão. Cf. João Paulo II, Paulo VI, Leão XIII, Pio VI e outros papas

João Paulo II, na “Carta sobre os 200 anos da morte de Pio VI”, em 25.08.1999, destacou que o “lema da França”, “Liberdade, igualdade e fraternidade”, é um lema cristão. Expressa o pensamento da Igreja, tal como a centralidade dos direitos humanos naturais:

Por outro lado, é preciso mencionar o lugar dado aos direitos do homem [direitos humanos], que recordam que o ser humano é o centro da vida social. Esta exigência legítima não deve fazer esquecer que os direitos do homem se fundam sobre valores morais e espirituais, e que ninguém se pode considerar como o senhor dos seus irmãos.

O Criador é o único senhor do tempo e da história. Graças à lei natural, Ele pôs no coração dos homens o desejo do bem.

O lema da França, Liberdade, igualdade e fraternidade, associa oportunamente aquilo que depende da liberdade individual à necessária atenção para com todos os irmãos, sobretudo os mais pequeninos, os mais débeis, desde a concepção até à morte natural. (…)

Exorto então os católicos a tomarem parte ativa na vida do seu país, a nível local, regional e nacional. Como já dizia a Carta a Diogneto, “os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma encontra-se em todos os membros do corpo, os cristãos estão em todas as cidades do mundo… Tão nobre é o posto que Deus lhes assinalou, que não lhes é possível desertar”. Em colaboração com todos os seus irmãos, eles têm um serviço a prestar ao próprio país e é em conjunto que todos os franceses devem prosseguir nos seus empenhamentos ao serviço do homem, da sociedade e da fraternidade entre todas as pessoas”.

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