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O Estado deve criar condições materiais de vida, para todos terem uma vida digna e honrada

Pio XI, na “Divini Redemptoris” (n. 34), em 1937, ensinou: “o Estado [a sociedade, pelo Estado] deve empenhar-se em criar as condições materiais de vida, sem as quais não pode subsistir uma sociedade ordenada”.

É o mesmo ensinamento do Cardeal De Lugo (1583-1660), “o governo pode dispor dos bens dos súditos para o bem comum” (cf. “Obras”, Veneza, 1751, t. II, D. 26, s. IV, 38).

Na mesma linha, São Bernardino de Siena (1380-1444) ensinava: “não há nada de mais injusto que prejudicar ao bem comum e universal”, pois este tem primazia sobre “as vantagens particulares e privadas”, que são também necessárias, mas nos limites do bem comum, que é a base legitimadora do direito público e de todo direito privado.

Tudo deve estar pautado, regrado, pelas ideias que ampliam, protegem, promovem e conservam o bem comum.

O ideal histórico possível de uma Democracia popular, com economia mista, Estado social redistribuidor, planificador etc

O nome-síntese do “ideal histórico” da Igreja é “democracia popular participativa”.

A democracia verdadeira, popular, é o ideal histórico da Igreja, como foi ensinado por Maritain e pela Ação Popular (AP). 

Democracia verdadeira é democracia comunitária, solidária. Esta democracia solidária, pautada pelo bem comum, pode ser chamada também de socialismo democrático, como explicou o padre Fernando Bastos de Ávila, no livro “Solidarismo”.

O supérfluo dos ricos deve ser canalizado para os pobres. O acúmulo de bens deve ir para quem não tem os bens suficientes e adequados para uma vida digna, feliz, simples, abundante, plena.  O socialismo compatível com a Igreja é o que Robin Hood admiraria. 

Como explicou Marciano Vidal, democracia popular ou democracia verdadeira, pautada pelo bem comum, pode ter a forma de “socialismo participativo”, cooperativista, humanista etc, economia mista, Estado social, uma forma que resgata as grandes inspirações da Paidéia, dos Santos Padres, as inspirações cristãs do socialismo pré-marxista, tal como as verdades cristãs e hebraicas, presentes nos textos marxistas e nos diversos documentos socialistas no mundo todo.

NAOMI KLEIN e seu elogio a economia mista, regulada pelo Estado, sob o controle do povo organizado

Naomi Klein é uma militante canadense, jornalista e escritora. Francisco I já a elogiou em textos e na prática. Ela escreveu, também, o livro “Sem logo: a tirania das marcas em um planeta vendido”. Obra elogiada pelo jornal “New York Times”. Klein escreve uma coluna para os jornais “The Nation” e “The Guardian”. 

Naomi escreveu ótimas obras como “A doutrina do choque, a ascensão do capitalismo de desastre” (Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2008, p. 30). Nestas obras, elogia a economia mista.

Naomi escreveu, na página 30 da obra “A doutrina do choque”: “É possível a existência de uma economia de mercado que não exija tamanha brutalidade…. Um mercado livre para produtos de consumo pode coexistir com um sistema público de saúde, com escolas públicas, e com um amplo segmento da economia controlada pelo Estado – como uma empresa petrolífera nacionalizada, por exemplo. É ainda factível exigir das corporações [privadas] que paguem salários decentes e respeitem os direitos dos trabalhadores de formar sindicatos, e dos Governos que cobrem seus impostos e redistribuam a riqueza a fim de reduzir as desigualdades que caracterizam o Estado corporativo [o Estado controlado pelas grandes corporações privadas. Os mercados não precisam ser fundamentalistas”. 

Depois, completa: “Keynes propôs exatamente esse tipo de economia mista e regulada, após a Grande Depressão, uma revolução nas políticas públicas que criou o New Deal e gerou transformações similares em todo o mundo. Foi exatamente contra esse sistema de conciliação, controle e equilíbrio que a contra-revolução de Friedman foi deslanchada, buscando desmantelá-lo em todos os países”. 

Democracia popular, nacionalismo, bem estar social, fórmulas corretas na China, Indonésia, Turquia, Irã, Mongólia etc.

Na China, Sun Yat Sen (1866-1925) resumiu sua bandeira política com base em “três princípios do Povo”, “nacionalismo, democracia e bem estar do povo”. Mesmo apesar dos erros futuros do Kuomintang, estes princípios estavam corretos e estão corretos.

Sun Yat Sen era cristão, tal como era cristão o principal movimento camponês, na China, no século XIX. Sun foi o principal líder na instauração da República, na China, em 1911, sendo o Pai da República da China. Escreveu o livro “Os três princípios do povo”, bem próximo da doutrina social da Igreja. 

Na Indonésia, Ahmed Sukarno (1901-1970), que liderou a luta pela independência de sua nação, e governou a Indonésia de 1945 a 1965, resumiu sua política com o termo “pancasila”, “cinco princípios”, “justiça social, monoteísmo, unidade nacional, humanismo e democracia”. Estes princípios foram incorporados na “Constituição” da Indonésia, de 1945.

No Egito, Nasser; na Turquia, basicamente o mesmo; no México, idem, com Cárdenas; na Mongólia, a Democracia popular; na Índia, mais ou menos igual, com o Partido do Congresso, com base nas ideias cristãs e hindus, de Gandhi. O mesmo no Irã, nacionalista e acentuado depois na República xiita, bem próxima de ideias da teologia da libertação. O Irã buscou intensificar o diálogo religioso com os católicos, inclusive com a Teologia da libertação. 

No fundo, como mostrou Hans Kung, há uma ética política e econômica mundial, baseada nas linhas gerais da Democracia popular, do distributismo, do Estado social. Esta ética mundial tem basicamente o mesmo conteúdo da Ética católica, ecumênica, universal (o termo “católico” significa “universal”, e há uma razão para isso). 

Solidarismo de Pesch, Renouvier, Bourgeois, Péguy, Mounier. Democracia popular, economia mista, Estado social.

As idéias cristãs e racionais de controle consciente sobre a vida, destino, a natureza e a sociedade influenciaram inclusive o radicalismo de Alain (1868-1951), que queria “a fiscalização permanente” do povo sobre “o poder”, para que este estivesse sobre controle do povo organizado, para assegurar a todos o bem comum.

Alain seguia os passos do católico Lord Acton. Os dois, tal como Tocqueville (outro grande católico), queriam o poder descentralizado, difundido na sociedade, controlado pela sociedade.

Alain elogiava a pequena propriedade pessoal, o campesinato, os artesãos e a pequena burguesia (especialmente a “provinciana”, do interior,). O amor ao campesinato e à pequena burguesia provinciana formam a base social do ruralismo radical, ficando, também neste ponto, bem claro a influência das idéias católicas, que tem o mesmo apreço pela difusão dos bens.

Pequena burguesia (micro, pequenas e médias empresas familiares), camponeses, artesões, profissionais liberais, técnicos, intelectuais, servidores, clero etc são parte essencial de uma boa sociedade, junto com o operariado, as estatais, as cooperativas, sindicatos etc. 

O velho Alain ensinou corretamente que “resistência” (às leis iníquas) e “obediência” (às leis justas) voluntária são as bases do bom equilíbrio da sociedade. Ensinou que “os negócios públicos” devem destinados ao interesse geral ou, pelo menos, da maioria. Os livros de Alain deveriam ser traduzidos, especialmente “O cidadão contra os poderes”.

Entre os radicais, houve também Édouard Herriot, amigo de João XXIII e que se converteu. Os radicais seguiam a linha de autores com religiosidade, como Lamartine, Camille Pelletan, Ledru-Rollin, Benjamin Constant e mesmo Voltaire. Seguiam também Condorcet, que era jusnaturalista.

As idéias cristãs também formam a parte principal do solidarismo de Leon Bourgeois, que queria “organizar política e socialmente a sociedade segundo as leis da razão”, com base numa ética solidária, baseada no bem comum.

Bourgeois foi influenciado pelas idéias de Charles Renouvier (1815-1903), autor de livros como “Manual republicano do homem e do cidadão”, “Ciência da moral” (1869) e “O personalismo” (1902). Renouvier foi o principal ideólogo da 3ª República Francesa e defendia uma linha republicana fortemente teísta, inspirada no jusnaturalismo de Kant. O padre jesuíta Karl Rahner mostrou a importância dos textos magistrais de Kant, e a conciliação de seus melhores textos com a Igreja. Idem para Hegel, filósofo cristão, mais próximo do luteranismo e do catolicismo que do calvinismo. 

O republicanismo social, cristão e religioso formava a base teórica principal da 2ª. e da 3ª. República, na França (apesar do anticlericalismo de Gambetta, Jules Ferry e outros). Há forte religiosidade inclusive nos textos magníficos de Pierre Larousse.

Há a mesma linha nos livros de Lachelier (1832-1918) e, principalmente, no grande Foillée (1832-1912), autor de “A idéia moderna do direito” (1878).

Foillée esboçou uma síntese entre catolicismo e democracia que foi muito importante em sua época. Seus livros merecem leitura até hoje, especialmente as obras sobre a história da filosofia e a filosofia do direito.

Lenin emitiu os seguintes juízos sobre Renouvier: “é a cabeça visível da escola dos chamados neocriticistas, muito influente e muita estendida na França”, “o clero católico está encantado com tal filosofia” (cf. “Materialismo e empiriocriticismo”).

O juiz Paul Magnaud, o “bom juiz”, também é outra linha claramente jusnaturalista e extremamente próxima do catolicismo.

Charles Péguy e Mounier são outras flores cristãs destas correntes. Mounier chegou a usar o termo “personalismo”, a mesma palavra-síntese usada por Renouvier e também pelo oratoriano, Lucien Laberthonnière (1860-1932), autor do livro “Esboço de uma filosofia personalista”, baseado nas idéias de Pierre Bérulle (1575-1629).

Da mesma forma, Pesch usou o termo-símbolo solidarismo, usado, antes, por Bourgeois.

Nada disso ocorreu à toa, sem razão. Demonstram, claramente, a existência de conteúdos comuns entre catolicismo, solidarismo, democracia popular-social e radicalismo. Isto também ficou evidente na Argentina, com o católico Hipólito Yrigoyen, precursor do católico Péron. Radicalismo e peronismo (uma forma de trabalhismo) têm fontes cristãs evidentes, como também fica claro na figura de Eva Perón, a madrinha católica dos montoneros.

No fundo, as melhores idéias do radicalismo, do peronismo e dos montoneros (peronistas de esquerda) buscam um Estado popular democrático, não-capitalista, dos trabalhadores, do povo. Democracia popular, Estado social, distributismo, economia mista. Boas ideias. 

O Conde de Mun, o bisneto de Helvetius. Bom exemplo da doutrina social da Igreja

O Conde Albert de Mun, o bisneto de Helvétius, foi um dos expoentes da doutrina social da Igreja. Na França, foi deputado federal várias vezes. Na sessão de 09.12.1891, ele disse boas palavras sobre o genro de Karl Marx, Paul Lafargue e sobre o socialismo. Vejamos o que De Mun disse:

“Estou de acordo com os socialistas, com o que agora mesmo estava na tribuna [discursando, Paul Lafargue, genro de Marx], sobre a crítica da ordem econômica, assim como, também, sobre um grande número de reformas sociais diariamente reclamadas pelos trabalhadores”. 

A Escola de Liège, na França e na Bélgica, defendia economia mista, vasta intervenção estatal, a favor dos trabalhadores. 

Leão XIII escreveu carta ao Conde de Mun, em 07.02.1893, elogiando os esforços do Partido católico. O Cardeal Rampolla, o Secretário de Estado de Leão XIII, escreveu carta ao Conde de Mun, em 09.05.1894, apoiando o “Partido Social cristão”, a Escola de Liège e os discursos e projetos do Conde de Mun. 

Francesco Nitti, no livro “Socialismo católico”, no final do século XIX, ataca o “socialismo católico do Conde de Mun”. Na Ástria, Vogelsang defendia também vasta intervenção estatal, economia mista, o Estado ao serviço dos trabalhadores. O mesmo fazia o bispo Ketteler, na Alemanha, um bispo elogiado publicamente por Lassalle, o chefe principal do Partido Social Democrático, Comunista, na Alemanha, naquela época. 

Emílio Zola, no livro “Roma”, descreve a formação da Doutrina social da Igreja, elogiando vários expoentes católicos. 

A Santa Razão, guardiã que nos leva a Deus e ao bem comum

A Igreja condenou o racionalismo não porque o racionalismo defendia a Razão, e sim porque o racionalismo mutilava a razão. O racionalismo achava que a razão é incapaz de fazer raciocínios dedutivos válidos sobre ética, Direito, Religião, Deus etc. A Igreja acha que a razão humana é capaz e não aceitou a mutilação da razão. É a Igreja quem ama a razão, a ciência, o progresso social. 

A Igreja condenou o liberalismo não porque o liberalismo defende a liberdade, e sim por que mutilava a liberdade. A Igreja defende a liberdade verdadeira, seguir a própria consciência (cf. Mercier), ter condições sociais para o exercício da liberdade. A Igreja sempre defendeu a liberdade humana (vide Molina), tal como sempre defendeu o Estado social (vide as melhores ideias de Santo Agostinho, São Tomás, os Santos Padres, São Clemente de Alexandria e as ideias bíblicas e do Evangelho). 

A Igreja condenou o comunismo não porque este defendia a comunhão de bens. E sim porque o comunismo, nos seus expoentes, em geral, defende um Capitalismo de Estado, com ditadura, mantém os trabalhadores como proletários, proibiu greves, manietou sindicatos, baniu multipartidarismo, eleições livres, proibiu liberdade de imprensa, de religião, de pensamento. Estes erros do comunismo levaram a Igreja a condenar estes erros.

Ao mesmo tempo, a Igreja mostrou que parte das ideias socialistas era boa e tradicional (vide Pio XI).

É a Igreja defende a comunhão de bens, a difusão de bens, a destinação universal dos bens, Deus fez os bens para todos, o que exige economia mista. Todos devem ter moradias dignas (não mansões milionárias, frise-se), carros populares e dignos, renda, móveis, roupas, liberdades civis, e isso deve coexistir com boas estatais, planejamento participativo do Estado, cooperativismo amplo etc.

Não deve haver proletários (pessoas que só tem a prole) e nem deve haver grandes fortunas privadas. O correto é MEDIANIA, todos devem ter pequenos e médios bens, sob o controle do Estado, do bem comum, das regras para o bem comum. 

A Igreja condenou o fascismo, não porque este era nacionalista, e sim pelos erros totalitários, racistas, imperialistas. Idem para o nazismo. A Igreja defende o nacionalismo, como defende o municipalismo, o regionalismo, a existência das nações e governos nacionais, a existência de governos continentais (tipo União Européia, sem os erros neoliberais desta), tal como a Igreja defende a criação de um Estado mundial (a ideia de H.G.Wells é uma ideia católica, tendo como precedentes vários católicos, como Dante e outros).

Um bom Estado mundial é uma boa Confederação de Nações. Por isso, a Igreja apoiou a ONU e vários Papas foram até a ONU, onde proferiram lindos discursos apoiando a causa de um Estado democrático popular mundial, que não suprime os governos nacionais, apenas erradica as guerras, o imperialismo, formas de neocolonianismo e institui ajuda mundial aos países mais pobres. Uma moeda internacional também não suprime as moedas nacionais, pois apenas é usada para o comércio externo. 

A Congregação do Índex, em 11.06.1855 (num texto confirmado por Pio IX, em 15.06.1855), ensinou que “o uso da razão” é tão vital e essencial que “precede a fé e a ela conduz”. A ação da razão sempre é imprescindível. A graça apenas aperfeiçoa e fortalece a razão, e nunca a anula. A fé apenas ajuda a razão e ter fé é termos uma razão que dá o consenso à verdades racionais e supra-racionais, nunca a ideias irracionais.

A revelação e a graça são auxílios à razão (“o auxílio da revelação e da graça”), forças auxiliares que cooperam com o exercício da razão humana, mantendo-a e elevando-a, depurando-a, aperfeiçoando-a, sem nunca a contradizer. Assim como a razão vem antes da fé, a liberdade vem antes da autoridade.

Pio IX, no texto de 1855, também explicou que a razão e a fé têm origem divina, comum, na mesma Fonte, que é Deus.

Assim, os temas principais da fé são corroborados pela razão, que é capaz de deduzir a existência de Deus, de Seus atributos e formular regras racionais e sociais (de ética), tal como regras jurídicas e políticas, para a vida pessoal e social, com base na apreensão da realidade.

O Papa Pio IX ainda ensinou que “o raciocínio pode provar com certeza a existência de Deus, a espiritualidade da alma e o livre arbítrio”, a liberdade, tal como as verdades principais da ética. Também frisou bem que “o uso da razão precede à fé”.

Com estes textos, Pio IX ratificou o ensinamento de Santo Alberto Magno, de Abelardo e Santo Tomás de Aquino, que a razão humana é “uma” “participação da razão divina”. Por estas razões, Pio XI autorizou os católicos chineses a fazerem saudações junto às estátuas de Confúcio e autorizou os católicos ingleses a votarem no Partido Trabalhista inglês, que é socialista democrático, filiado à Internacional Socialista. Na China, hoje, há uma verdadeira veneração a Confúcio, organizada pelo Estado chinês, que criou o Instituto de Confúcio e difunde as obras do mestre chinês. O mesmo faziam os jesuítas que difundiram os textos de Confúcio pelo mundo todo, com enorme apreço ao grande Pensador Chinês. 

Em todo o mundo e em todas as épocas, as pessoas podem se salvar, pois a graça opera sempre, desde a criação, em cada pessoa. A luz natural da razão está presente em todos os povos, tal como a ação do Espírito Santo atua em todos os povos.

O culto a Deus e a prática de boas obras salva em todos os países. Um bom muçulmano, um bom hindu, um bom budista, um bom confuciano, um bom xintoísta, um bom protestante, um bom judeu, um bom sikh, se salvam, tanto como um bom católico.

O catolicismo respeita as ideias verdadeiras em cada povo, em cada cultura. E um bom hindu que se converte a católico, permanece lendo o Bhagavad Gita, e sendo um bom hindu, tendo apenas algumas ideias boas a mais. Idem para um bom judeu que se converte, permanece judeu, amante dos melhores textos do Talmud, com apenas algumas ideias a mais. 

No fundo, o valor salvífico da razão natural e a ação universal da graça (pelo batismo de fogo, de desejo ou de sangue) salvam. Boas obras e boas ideias verdadeiras salvam em cada povo. Sendo estas teses hiper tradicionais no catolicismo.

Esta tese foi chamada, convencionalmente, de “batismo de desejo e de sangue”, objeto do livro de Frei Betto, sobre o martírio de pessoas que dão a vida na luta por justiça social. É o mesmo ensinamento do papa Alexandre VII (ao condenar os erros jansenistas, expostos por Antônio Arnauld) e de Pio XII, ao condenar os erros integristas do padre Leonardo Feeney. Alexandre VII (1689-1691) condenou a tese principal do tuciorismo, num documento de 07.12.1690.

Estas decisões da Igreja contra o quietismo, contra o jansenismo, o tuciorismo, foram decisões magistrais, que abriram caminho para as melhores ideias do século XVIII, para o iluminismo católico, que gerou gigantes como Montesquieu, Bento XIV, Mably e milhares de outros leigos católicos que fizeram a Revolução Francesa. 

Mesmo Pio IX ensinou que todas as pessoas podem se salvar, em cada povo, cada cultura, cada religião, pois um bom hindu só não é católico e hindu, por ignorância invencível, falta de conhecimento da doutrina católica, ou seja, a razão natural do hindu (ou do muçulmano etc) o salva, pois atua junto com o Espírito Santo, só não chegando ao catolicismo por falta de informações que os missionários podem e devem suprir.

Vejamos o texto de Pio XI, em 1854: “Com efeito, pela fé há de sustentar-se que fora da Igreja Apostólica Romana ninguém pode salvar-se; que esta é a única arca da salvação, que quem nela não tiver entrado, perecerá no dilúvio. Entretanto, também é preciso ter por certo que aqueles que sofrem de ignorância da verdadeira religião, se aquela [ignorância] é invencível, não são eles ante os olhos do Senhor réus por isso de culpa alguma. Ora pois, quem será tão arrogante que seja capaz de assinalar os limites desta ignorância, conforme a razão e a variedade de povos, regiões, caracteres e de tantas outras e tão numerosas circunstâncias?” (Pio IX, Alocução Singulari Quadam, 1854, Denzinger, 1647).

A Igreja ensina que a Igreja invisível é a essência da verdadeira Igreja. A Igreja visível é como a encarnação e a parte visível, sendo menor que a Igreja Invisível. Na Igreja invisível, há milhões ou bilhões de hindus, confucianos, muçulmanos, budistas, umbandistas, espíritas, sikhs, xintoístas, e até ateus que são ateus por erros invencíveis (falhas na formação intelectual), desde que estas pessoas sejam boas pessoas, honestas, dignas, razoáveis, e procurem fazer o bem e evitar o mal. 

Razões para uma boa economia mista

Economia mista foi o modelo delineado por Pio XI, na “Quadragesimo anno” (1931), modelo elogiado pelo grande jurista nacionalista, Osny Duarte Pereira.

Hoje, o socialismo de mercado ou economia socialista de mercado, adotado pela China, é basicamente economia mista, ainda que mereça críticas pela complacência com bilionários. Mas adota um modelo de economia mista.

Economia mista é também adotado pelo Vietnam, Cuba, a própria Coréia do Norte, África do Sul nos moldes de Mandela, Japão, pela Índia, Federação Russa, países escandinavos, países da Oceania, países africanos e nos melhores modelos latino-americanos. 

Economia mista foi defendida por Bernstein, Jaures, os fabianos, H.G.Wells, Chesterton, os socialistas democráticos, os peronistas, Cárdenas, Nasser, Tito, Bukharin e mesmo pela NEP, na URSS.

A NEP foi criada por Lenin e durou até 1928/1929, sendo um modelo de economia mista. A tese da convergência entre socialismo e capitalismo, defendida sob o mote da coexistência, por Kruschev, no fundo, defendia economia mista e atenuou bastante os erros de Stalin.

Os trabalhistas ingleses (e escandinavos, israelistas, da Oceania), também defendiam economia mista. Idem para Irã, os grandes nacionalistas da Guatemala e da Indonésia. E o mesmo para o modelo de democracia popular e para as Frentes populares.

Todo o movimento nacionalista, em geral, adota economia mista. No Brasil, foi este o modelo de Getúlio Vargas, de Domingos Velasco, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Neiva Moreira, pelo PSB de João Mangabeira, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Lyra, Darcy Ribeiro, Alceu, João Goulart, até de Juscelino, Sérgio Magalhães, General Lott, sendo retomado, depois, por Lula e Dilma. 

Mandela defendia o mesmo modelo de Pio XI. Estatais para grandes meios de produção, Estado, economia mista, planificação participativa, amplo amparo do Estado aos trabalhadores, doentes, educação pública, saúde pública etc.  

Malcolm X e os muçulmanos negros dos EUA também defendem economia mista. Os Panteras Negros, idem. A Frente Ampla, no Uruguai, defende o mesmo. O socialismo africano, idem. 

Na Europa, o movimento da Democracia cristã defendia economia mista. E, por isso, fez extensas alianças com os Partidos socialistas democráticos. Isso ocorreu na França com De Gaulle, na Itália (basta pensar em Aldo Moro, querendo estender a aliança mesmo com os eurocomunistas).

Na Itália, as alianças da Democracia Cristã com o Partido Socialista foram apoiadas pelos Papas João XXIII e Paulo VI.

Na Inglaterra, os católicos votam em peso nos Trabalhistas, que defendem economia mista. Nos EUA, votam no Partido Democrático, que leva a bandeira do New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, defendendo economia mista, Estado social, sistema tributário redistributivo (elogiado por Piketty).

No Canadá, os católicos votam em partidos em prol da cooperatização, das estatais, do Estado social. Idem para a Irlanda, com um dos IDHs maiores do mundo, baseado em Estado social, democracia popular, economia mista (e isso inclusive no Sinn Fein e no IRA). 

Economia mista é formada por difusão de bens para cada pessoa, cada família, milhões de micro, pequenas e médias empresas em geral familiares, mais cooperativas, estatais e planejamento participativo (regulamentações, controles estatais). E altos tributos para ricos e subsídios para pessoas de baixa renda, que as complementem. Renda universal, sistema tributário redistributivo. Estado social amplo. É isso que chamo de modelo de economia mista ou democracia popular. 

Economia mista foi defendida por Buchez, Ketteler, De Mun, Heinrich Pesch, Toniolo, Oswald von Nell-Breuning, Maritain, Gustav Gundlach, Mounier, Dom Hélder, Hans Kung e pelos grandes teólogos da libertação. Idem para os melhores escritores da doutrina social da Igreja, incluindo Alceu, padre Fernando Bastos de Ávila e milhares de outros. 

Na Alemanha, a esquerda do CDU coincidia com o SPD, na defesa da economia mista. Os melhores textos de Ludwig Erhard eram pela “economia social de mercado”, um modelo atenuado e aguado de economia mista. Ludwig Erhard (1897-1977) seguia as ideias da Igreja e de grandes escritores como Franz Oppenheimer (1864-1943). Os melhores keynesianos do mundo todo também são pró economia mista, basta pensar em Galbraith.

 

 

 

Mably, Rousseau, Marat e Paine defenderam economia mista, com Estado social

Mably fundamentava suas idéias políticas nos seguintes autores, citados por ele mesmo, nesta ordem: “Políbio, Tucídides, Plutarco, Tito Lívio, Salústio e Tácito”, que ele “lia todos os dias” e “todos os dias encontrava alguma nova luz que ele não havia percebido antes”. Também destacava “o tratado das Leis de Platão e sua República” e o livro “Política” de Aristóteles.

Mably, como os santos Padres, mesclava o melhor da Paidéia com as idéias bíblicas, semita-hebraicas e, com estas fontes, defendia economia mista, distributismo e Estado social.

O ideal de Mably era uma “República federativa”, de fundo pequeno burguês, camponês e artesã, formada por pequenos proprietários e tendo vasto patrimônio público aberto a todos. No fundo, este ideal é o ideal histórico da Doutrina Social da Igreja, como pode ser visto até nos textos de De Gaulle. Também era o ideal de Rousseau, exposto principalmente nos livros “Projeto de constituição para a Córsega” e projeto de constituição para a Polônia.

Também era o ideal de Paul Jean Marat, que deixou ótimos textos, inclusive penais, junto com textos horríveis sobre guilhotinas (joio….). Em parte, era o ideal de Thomas Paine, inclusive nos seus textos sobre renda universal, a ser dada pelo Estado, para erradicar a miséria. 

Rousseau apenas repetia as lições de Platão, de Aristóteles e da própria Bíblia, nas leis de Moisés, nas regras do livro “Provérbios”, nos textos dos Profetas, nas lições do próprio Cristo e de Maria, sobre a difusão de bens para todos, adotando o critério bíblico de “a cada um, de acordo com suas necessidades” (cf. “Atos dos Apóstolos”, capítulos 2 e 4, lição duas vezes repetida, tendo Marx colhido da Bíblia a regra principal da divisão dos bens). 

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