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Valorizar os Recursos Humanos, ampliar a capacitação, educar as pessoas. Eis o núcleo de um Estado social, de um socialismo democrático.

A “valorização dos recursos humanos” é o ponto principal da erradicação da condição proletária (cf. “Centesimus”, n. 33; e “Populorum Progressio”, n. 33-42). A principal “riqueza” de um povo é a educação, o aumento da sabedoria prática, da inteligência, a melhoria da afetividade, o aumento da criatividade, da quantidade de “conhecimentos, técnica e saber” (cf. “Centesimus”, n. 32), das pessoas, sendo isso muito mais importante que os outros “recursos naturais”.

Frei Boaventura já lembrava que “a Igreja Católica aceita e defende os elementos verdadeiros da religião natural”, ou seja, aceita tudo o que é racional, é bom, correto, digno de elogios (na expressão de São Paulo), digno do Consenso, gerado pelo diálogo.

Nietzsche, em seu ódio a Igreja, viu corretamente que o Cristianismo ama a democracia, o socialismo, ama levantar os doentes, levantar os mais pisados, os marginalizados, “vivifica” cada pessoa, entusiasmar (estado de graça). O que Nietzsche não entendeu é que a ética cristã é uma ética de vida, de poder para os pobres, para todos.

Os melhores textos de Euclides da Cunha, de defesa dos camponeses e seringueiros, também seguiam a linha socialista cristã.

Esperança é viver esperando e lutando pela Democracia Participativa. Há a mesma explicação, em Clóvis Pinto de Castro, “Por uma fé cidadã” (São Paulo, Ed. Loyola, 2000).

Infiltrados fazem vandalismo, nas manifestações contra bolsonaro. Provocações. Agentes provocadores.

Lembram que Veja disse que Bolso poria bombas em 1986, para atribuir a esquerda e gerar VOLTA da ditadura militar ?

Há investigações em curso que mostram que são INFILTRADOS, ou seja, os vândalos são bozos infiltrados, que fazem barbaridades, para atribuir isso a Oposição. Re: Vandalos ateiam fogo em agência bancária após ato contra Bolsonaro 

Este tipo de coisa foi feito em várias ocasiões. São AGENTES INFILTRADOS, AGENTES PROVOCADORES. Nas guerras, Hitler colocava nazistas com uniforme de poloneses, para atirar nas tropas alemães e permitir, assim, ataques nazistas que eram camuflados como atos de defesa. Não eram defesa, eram ataques feitos com o manto de Agentes provocadores. 

No Reino Unido, em  outubro de 1924, houve a Carta Zinoviev, uma carta falsa atribuída a Internacional Comunista, 

que ajudou os Torys a derrotar o Partido Trabalhista.  No Brasil, houve coisas semelhantes, como a carta falsa atribuída a Arthur Bernardes xingando o Exército, acho que em 1921 ou 1922. 

Houve ainda o Plano Cohen, falso plano, atribuído a Internacional, que gerou o Estado de sítio e ditadura. 

Houve ainda a Carta Brandi usada por Lacerda, e mais tarde, houve bombas jogadas pela direita, atribuídas a esquerda, para voltar a ditadura, 

Fizeram isso, no caso Rio Centro.  Geisel não aceitou e nem Figueiredo. 

Veja conta que Bolso fez plano que teve croqui publicado igual em 1986. 

Depois, os tais vândalos …..

são pessoas plantadas, tipo o depoente cavalo de Tróia desta semana que passou, 

infiltração,  contra inteligência. 

Hoover nos EUA era mestre em infiltrar, colocava infiltrados para colher informações 

e para gerar decisões malucas e depois prender os burros. 

Tipo jogar a isca e pegar.

A Doutrina Social da Igreja ama a industrialização, a educação e a proteção ao trabalho

O “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” destaca que “o trabalho tem uma prioridade intrínseca em relação ao capital” (CDSI, n. 277), ou seja, toda a economia tem como núcleo prioritário o trabalho, assegurar a “dimensão subjetiva” do trabalho (cf. “Laborem exercens”, n. 6).

Este amor ao trabalho e a produtividade via educação e indústria, mostra que a Doutrina da Igreja exige e ama a industrialização dos povos.

Por isso, muitos leigos teóricos da Igreja amaram e amam ideias como as de Leibnitz, Lazare Carnot, Carey, Adolph Wagner,  William Beveridge, Ragnar Nurkse (“Problemas da formação de capital nos países subsdesenvolvidos”, 1953), Barbosa Lima Sobrinho (“Japão, o capital se faz em casa”), Keynes, Joan Robinson, Kalecki, ,Gunnar Myrdal, Olaf Palme, Hans Singer, André Gunder Frank, Raul Prebisch, da corrente do estruturalismo na economia, Celso Furtado, teóricos corretos da teoria da dependência (não a farsa de FHC, e sim textos de Theotônio dos Santos, Maria da Conceição Tavares, Ruy Mauro Marini etc.) e outros.

A religião, toda religião verdadeira, exige a construção de um amplo Estado socialista, Providência, protetor do Trabalho, das Pessoas

A Igreja sempre teve uma teoria (conjunto de ideias para explicar) DEMOCRÁTICA POPULAR, socialista democrática, TRABALHISTA, sobre o poder, o Estado. Uma teoria chamada da mediação popular ou da translação, que é a teoria da Paidéia.

Esta teoria-concepção democrática popular, SOCIALISTA DEMOCRÁTICA, foi sempre a teoria (concepção) mais acatada pelos Doutores da Igreja e pelos grandes teólogos

A teoria mais adotada na Igreja (por leigos, clero e expoentes), ao longo dos séculos, foi a teoria jusnaturalista da mediação popular, que teve sua melhor formulação nos textos de São Roberto Bellarmino, um dos 33 Doutores da Igreja.

Os livros de Rommen, sobre o Estado e o direito natural, demonstram bem esta tese. Esta era a teoria dos Santos Padres, com base na Bíblia e nos textos de Aristóteles, Cícero e outros.

A segunda teoria mais acatada por teólogos, a teoria da designação, com fundamentação jusnaturalista e racional, tem praticamente o mesmo conteúdo da teoria da translação, pois são teorias jusnaturalistas e pautadas pelo bem comum, pelo bem do povo.

Nas duas teorias, o poder e os direitos positivos devem ser limitados e pautados pelo direito natural do povo, ou seja, pelas idéias e necessidades (aspirações, projetos, ideias, sonhos, imaginações, desejos…) da sociedade, tendo a sociedade o direito de escolher os agentes públicos, as estruturas e de depor agentes públicos corrompidos, que atentem contra o bem comum.

A teoria mais tradicional, no entanto, é a teoria da translação, que é a teoria da Paidéia (de Sófocles, Protágoras, Aristóteles, Péricles e outros) e dos Santos Padres. Como expliquei, as duas teorias têm um fundo socialista.

As duas teorias visam a criação de um amplo Estado social, tal como um Estado Mundial, com Uniões Continentais como mediações. Por isso, os melhores textos de Platão são socialistas, tal como os melhores textos de Moisés, de Aristóteles e dos Estoicos. 

O padre dominicano Lacordaire também interpretou as idéias de Santo Tomás na linha de Morus, Juan Luís Vives (1492-1540), Frei Francisco de Vitória (1483-1546), Domingos las Casas (1484-1566), Luiz de Molina (1535-1600), Francisco Suárez (1548-1617), João de Lugo (1583-1660) e dos grandes juristas e teólogos da 1ª. e 2ª.Escolástica.

Esta linha foi adotada por milhares de juristas e escritores, inclusive Luiz Vaz de Camões e Bartolomeu Las Casas (1470-1576), o bispo de Chiapas.

Outra estrela de primeira ordem é o padre Juan de Miranda (1537-1623), autor de obras como “De mutatione Monetae” (1601, onde explica que a moeda deve estar sob o controle do povo), “Do rei e da instituição real” (1598), “História geral da Espanha”, “Tratado contra os jogos públicos” e outras.

Os textos de Mariana seguiam a linha humanista e socializante do catolicismo.

Joaquín Costa, no livro “Colectivismo agrario en España”, elogia Mariana. Os textos de Antônio Nebrija também trazem forte apologia da Paidéia.

A interpretação correta do tomismo foi feita por Vitória, Suárez e Bellarmino e é democrática e participativa (popular), como também demonstrou Maritain e Alceu Amoroso Lima.

Foi esta a linha correta durante a Resistência Francesa, onde católicos marcharam ao lado de socialistas e mesmo comunistas contra o nazismo. O tomismo influenciou inclusive bispos anglicanos, como pode ser visto nos livros do bispo de Oxford, Kenneth Kirk (1886-1954), em obras como “Alguns problemas de teologia moral” (1920).

Há as mesmas teses pró-democracia social, pró socialismo democrático trabalhista, nos textos de Karl Rahner (1904-1984), tal como em grandes expoentes como: Alceu Amoroso Lima, Plínio de Arruda Sampaio; Frei Betto; Francisco Whitaker; o padre Louis Joseph Lebret (1897-1966); o padre Houtard (de Louvain); Monsenhor Pavan; o padre Loew; Desroches; Haubtmann; Suavet; Marcel Barbu; Gatheron; o padre Riquet; Jean Guitton (1901-1999), o padre dominicano Joseph Vincent Ducatillon (elogiado por Prestes e por Benjamin Vargas, lá por 1944); o cardeal Frings; o padre Arrupe; o Cardeal Lercaro; o cardeal Suhard; o cardeal Suenens; o cardeal Köenig; o Cardeal Charles Journet; o cardeal Jean Daniélou; o Cardeal Carlo Maria Martini; Dom Oscar Romero (assassinado em 2405.1980); Dom Hélder; o Cardeal Jean-Marie Lustiger (1927-2007, arcebispo de Paris, judeu convertido); e milhões de leigos, especialmente os ligados ao comunitarismo de Mounier.

Outro grande nome foi Monsenhor Méndez Arceo, no México. Há ainda autores como Christopher Dawson, que mostram a tendência democrática na Igreja.

O ideal da democracia social, do SOCIALISMO DEMOCRÁTICO, também está presente nos textos do cardeal John Courtney Murray (1904-1967), tal como no pensamento de estrelas como: o Cardeal Suenens, que foi Primaz da Bélgica; o Cardeal Dopfner; o abade Pierre; o padre Luigi Sturzo (1871-1959); o beato Pedro Jorge Frassati (antifascista); o padre Chaillet; Yves Congar (1904-1995); Cardonnel; Bernanos; François Mauriac; Graham Greene; Luiz Pinto Ferreira (católico e socialista); o cardeal Joseph Elmer Ritter (1892-1967, que combateu o racismo nos EUA); o cardeal Ernesto Ruffini (1888-1967); João XXIII; Bernhard Haring (1912-1998); Ada Maria Isasi-Díaz (n. 1943); Marciano Vidal; padre Camilo Torres (morto em 16.02.1966); padre Manuel Peréz Martinez (1943-1998, chefe da ELN, na Colômbia); o padre Giulio Girardi, do movimento “Cristãos pelo socialismo”, na Itália; Luiz Alberto Gomez de Souza; Cândido Antônio Marques de Almeida e milhares de outros expoentes do catolicismo.

Estes pontos sempre foram ensinados no jornal “La Croix”, diário católico francês; na revista “Études”, dirigida pelos jesuíts; no “Le Figaro”; “Le Matin”; em “L´Etoile Belge”; “Razón y Fe”; no “Osservatore Romano”; em “Civitta Cattolica”; “Ciencia Tomista”; “Vita e Pensiero”; “Estudios Franciscanos”; na “Revista Eclesiástica”, em dezenas de jornais e revistas católicas no Brasil; e em outras fontes múltiplas do pensamento católico.

No Brasil, esta foi a linha da Ação Católica, inspirada em Maritain e em Alceu Amoroso Lima. O ideal de uma democracia popular-social participativa, SOCIALISMO COOPERATIVISTA PARTICIPATIVO, era também o ideal do jornal “Brasil, Urgente”, tal como da revista “Síntese” (tenho todos os números, dirigida pelo padre Fernando Bastos de Ávila).

O texto da Campanha da Fraternidade, da CNBB, de 1996, tem o título: “Justiça e paz se abraçarão” (São Paulo, Ed. Salesiana Dom Bosco, 1996). Este texto repete as mesmas idéias fundamentais da concepção democrática cristã, que postula uma democracia não-capitalista, não-latifundiária, sem oligarquias, sem imperialismo etc.

Este documento cita, como “modelos” a serem seguidos, expoentes como “Alceu Amoroso Lima”, “Santo Dias da Silva” e “Margarida Alves”.

Uma das grandes estrelas democráticas do catolicismo brasileiro foi o padre Júlio Maria.

Este, tal como o Cardeal Sebastião Leme, sempre incentivou a participação ativa dos católicos no poder público, para tornar o poder público algo ético, racional e conforme ao bem de todos. Houve a mesma idéia na participação de grandes sacerdotes na vida política, como pode ser visto nos exemplos de Padre Cícero, Padre Ibiapina, Frei Caneca, Padre Francisco Lage, Padre Hugo Paiva, Padre Ezequiel Ramin, Padre Gabriel, Padre Josimo, Dom Oscar Romero e até mesmo Dom Aquino Correia.

A concepção cristã sobre o poder é, no fundo, bem simples: a liberdade natural, o livre arbítrio, é natural e boa, quando age naturalmente (de forma adequada à razão e ao bem comum), pois a liberdade (tal como o poder) decorre da razão, da consciência, que é feita à imagem da Consciência divina, movendo-se sempre pelo ideal do bem comum (causa final da sociedade). A liberdade só existe com AJUDA ESTATAL, com a ajuda de um AMPLO ESTADO POPULAR, SOCIALISTA, PROTETOR, um ESTADO PROVIDÊNCIA, um Estado à imagem de Deus, da Comunhão, um Estado COMUNHÃO, socialista democrático. 

Estes pontos foi bem destacados por São Francisco de Assis, Abelardo, Roberto Grosseteste (1175-1253, bispo de Lincoln, tradutor de Aristóteles, do Pseudo-Dionísio e um dos fundadores da Escola de Oxford), Santo Alberto Magno (1200-1280), Tomás de Aquino, Roger Bacon, os probabilistas, molinistas, São Francisco de Sales (1567-1622), São Vicente de Paulo e outros.

São Francisco de Sales é um dos 33 Doutores da Igreja e deixou 21.000 cartas, 4.000 sermões e obras geniais como “Tratado do amor de Deus” e “Filotéia”. Seus textos sobre o Estado, o poder público e as leis deixam claro o fundo jusnaturalista, ligado à Tradição e à Paidéia.

A liberdade natural e a relação desta com a razão e com o bem comum foi um dos pontos principais destacados no Concílio de Trento e no Renascimento. Consta claramente no livro de Erasmo de Rotterdam, “Do livre arbítrio”, inspirado nos livros com o mesmo título de Orígenes e de Santo Agostinho. Afinal, a natureza humana (especialmente a razão) é uma criação divina e artística do próprio Deus, que criou nossa consciência (espírito, com as duas faculdades centrais da inteligência e da vontade livre) á Sua imagem e semelhança, ou seja, para mover-se pelo ideal racional do bem comum. Como toda faculdade humana, se a liberdade natural foi exercida de forma irracional e contrária ao bem comum, ela, aos poucos, se extingue, corrompe-se.

A liberdade pessoal, como destacava Lacordaire, requer um conjunto básico de bens materiais, cuja difusão constitui parte essencial, intrinsecamente boa, do conceito de “bem comum”, que abarca o bem pessoal, familiar e social.

A lição de Santo Tomás de Aquino foi reprisada por Pio XI, na “Quadragésimo anno” (n. 82): os bens “devem ser abundantes para satisfazer às necessidades de uma honesta subsistência e para elevar as pessoas a um grau de cultura que, usada sabiamente [de forma racional], não é um obstáculo à virtude, e sim facilita singularmente o exercício” das virtudes, das boas obras, racionais e adequadas ao bem comum.

A ação natural da razão é correlata com o bem comum (geral). Afinal, a razão foi criada por Deus para ser nosso lume natural, nosso caminho (“tao”, “caminho”, “verdade”, “vida”), para a felicidade pessoal e social (comunhão).

Abreviando, o bem comum é a causa final do universo, da sociedade e o ideal que é a essência do Plano de Deus, pois a essência divina é o Amor (cf. Jo 4,8), a Bondade (de “bonitas”, “bonus”, “bom”), a Misericórdia, a Caridade, o ideal do bem comum. Como explicou João XXIII, na “Pacem in terris”, “a própria razão de ser dos poderes públicos” é “a realização do bem comum”.

Os “poderes públicos” devem “promovê-lo” nos “elementos essenciais” e de forma adaptada com “as exigências” das “atuais condições históricas”. Os “filhos da luz” (Ef 5,8) devem primar no caminho da “bondade, justiça e verdade” (Ef 5,9), ou seja, na difusão do bem para todos, do bem comum.

João XXIII repetia a lição de Leão XIII, dos Santos Padres e de Aristóteles: o poder legítimo, “a autoridade civil”, foi “constituída para o bem comum de todos”. Este é o critério central de legitimação, de justificação do poder, da sociedade e mesmo de cada pessoa, o que mostra a relação da teoria de justificação da graça com a doutrina social da Igreja sobre o poder.

João Paulo II, na Favela do Vidigal (n. 19), repetiu a lição, dizendo: “a Igreja dos pobres” prega a “nobre luta pela verdade e pela justiça”, a “batalha pelo bem verdadeiro”, a “nobre luta a favor da justiça social” (cf. “Discurso aos operários em São Paulo, 8 e 9).

Os cristãos primitivos, diante do poder, só obedeciam às leis justas, às leis racionais e adequadas ao bem comum. As leis iníquas eram desobedecidas.

Esta postura jusnaturalista, racional e santa foi bem explicitada pelos Mártires, seguindo a linha de Isaías, que também morreu mártir, tendo sido serrado. Isaías ensinou: “ai dos que constituem leis iníquas” (cf. Is 10,1), explicitando o fundo jusnaturalismo da Bíblia.

Nesta linha tradicional, Pio IX, na “Quod nunquam” (05.02.1875), neste sentido, declarou que as leis da “Kulturkampf”, de Bismarck, eram nulas e irrítas. Paulo III, em 1537, disse o mesmo sobre as leis que previam a escravidão dos indígenas.

São Pedro e São Paulo ensinaram que o poder racional e conforme ao bem comum vem de Deus, faz parte do Plano de Deus. No entanto, quando o poder explicita regras não-racionais e não-condizentes com o bem comum (iníquas), devemos desobedecer, pois as regras iníquas não são racionais e ferem a consciência.

As palavras e a prática de Cristo são exemplos claros desta doutrina. Cristo cumpre as leis positivas justas, interpreta-as conforme ao bem comum e não obedece às leis irracionais e não condizentes com o bem comum.

Sobre estes pontos, como abonação, há vários textos de Engels e Marx (vide carta a Domela, 1881, sendo Domela um ex-pastor). Também é importante a leitura dos textos sobre a Igreja e o socialismo, de autoria de Rosa de Luxemburgo, Karl Kautsky (“Origens do cristianismo”, 1908), Anatoli Lunatcharski (“Religião e socialismo”) e outros. Há, ainda, a abonação de Lenin, em sua obra principal, “O Estado e a revolução”, onde Lenin menciona o “espírito democrático” do cristianismo primitivo.

Outro autor marxista que escreveu sobre a relação do cristianismo com o socialismo foi Auguste Bebel (1840-1913). Bebel, no livro “Cristianismo e socialismo”, escreveu que “o socialismo é a doutrina” que “deseja, de verdade, aplicar à vida as leis morais que durante dezoito séculos utilizou a Igreja unicamente como rótulo”.

Em outras palavras, o socialismo adota, na visão de Bebel, a ética cristã, da Igreja.

Além destes autores, também vale à pena a leitura de Ernest Troeltsch (1865-1923), “As doutrinas sociais das Igrejas cristãs” (1911). Vladimir Soloviev e Nicolau Berdiaef (1874-1948) também destacaram que, no socialismo, há uma parte boa, uma parte boa, oriunda do cristianismo, da Bíblia e da Paidéia.

Berdiaef tentou conciliar o anseio de justiça social com a liberdade humana, comunitarismo e personalismo, socialização com personalização. Berdiaef recebeu o doutoramento “honoris causa” pela Universidade de Cambridge.

São Roberto Bellarmino (1542-1621) foi o teólogo do Papa Clemente VIII, Cardeal e Arcebisppo de Cápua. Foi canonizado em 1930 e declarado Doutor da Igreja, em 1931. Em sua explicação tomista sobre o poder, também adotava a teoria tradicional da translação. Esta teoria, tal como a teoria da “designação”, parte da premissa fundamental da isonomia ou igualdade jurídica de todas as pessoas. A igualdade da natureza humana é uma premissa jusnaturalista. Por esta premissa, Deus “não deu o poder a nenhum homem em particular; e sim à comunidade” (cf. o livro “De Laiciis”, I, III, c. VI).

Bellarmino foi declarado santo e é um dos 33 Doutores da Igreja. Pois bem, Bellarmino apenas reprisava as idéias bíblicas e da Paidéia sobre o poder, teoria já exposta pelo Cardeal Cajetano, em 1512; e por Francisco de Vitória, em 1528, no livro “Do poder civil”. Vitória também escreveu “Relectiones Theologicae”, abordando a origem e fim do poder.

Num parêntese, o Cardeal Tomás Vio de Cajetano (1468-1534, também se escreve Caetano, em Portugal) era italiano, dominicano e ensinou em Pádua. A obra mais importante do Cardeal Cajetano foi o comentário à “Suma Teológica” de Aquino, comentário elogiado por Leão XIII, que mandou incluir o comentário na edição oficial da “Suma Teológica” de Aquino. O Cardeal Cajetano deixou mais de cem livros, indlusive sobre economia (a lista está no “Dictionnaire de Théologie Catholique”). Cajetano foi Geral dos Dominicanos e teve participação na lide contra os luteranos.

Para a maior parte dos grandes teólogos, a teoria da transmissão (da translação, da mediação) exposta por Suárez e por Bellarmino é a teoria tradicional, a mais difundida entre os fiéis e esposada pelos grandes escritores e Doutores da Igreja; Para abonar este ponto, há textos marcantes de Santo Ambrósio (333-397), São Basílio Magno (330-379), São Jerônimo, Santo Agostinho (adotando a teoria sobre o poder, de Cícero e dos grandes juristas gregos e romanos), São Pedro Crisólogo (406-450), São Valeriano, São Salviano, São Leão Magno, São Máximo de Turim, São Gregório Magno (540-604), São João Crisóstomo, São Isidoro de Sevilha (560-636), Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, São Afonso de Ligório e milhares de outros autores.

Tradicionalmente, os quatro grandes Doutores, aceitos inclusive pelos anglicanos, foram arrolados por Bento XIV, no documento “De Servorum Dei Beatificatione” (IV) e são: Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Gregório, o Grande.

Leão XIII, na “Aeterni Patris” (n. 42), também lista “os sumos doutores da Igreja: Gregório, Ambrósio, Agostinho e Jerônimo”, destacando que a Santo Tomás de Aquino é devido “as mesmas honras que são tributadas aos sumos doutores da Igreja”. Estes quatro Doutores acolheram a teoria política de Cícero e de Aristóteles.

Adotaram as idéias jurídicas e políticas de Cícero (baseadas no melhor do estoicismo, de Aristóteles, Platão e da tradição romana) por expressarem o melhor da Paidéia e coincidirem com as idéias bíblicas.

A importância de Cícero está no fato deste resumir, em bons textos, a teoria política da Paidéia. Em outros termos, a teoria democrática, defendida por Hesíodo, Sófocles, Protágoras, Aristóteles, Górgias, Isócrates, Sófocles, Péricles, Clístenes e outros grandes expoentes da cultura grega-romana.

São João Crisóstomo também explicou que a frase de São Paulo, “todo poder vem de Deus” não se aplica aos “governantes particulares”, “mas ao governar” em sentido abstrato, especialmente à importância de boas regras objetivas, racionais e sociais para assegurar e promover o bem comum. Assim, é uma “disposição da Sabedoria divina que haja autoridade”, que “não se deixe ao acaso” os atos humanos. Os atos humanos devem ser ordenados racionalmente e de acordo com o bem de todos. Há a mesma doutrina em Santo Isidoro de Sevilha, em Lactâncio (no livro “Instituições divinas”), em Arnóbio, tal como, antes, em São Justino e São Clemente de Alexandria.

Bento XVI chamou São João Crisóstomos de “grande pai da doutrina social da Igreja” (discurso em 08.10.2008), porque propôs “o modelo da Igreja primitiva” (exposta em Atos dos Apóstolos) “como modelo da sociedade, desenvolvendo uma utopia social”.

Crisóstomo deixou claro, nas palavras de Bento XVI, “que não era suficiente dar esmolas, ajudar os pobres, caso por caso; era necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade.. baseado na visão do Novo Testamento”. Uma “polis” de irmãos, reformando a “polis” grega, onde “vastos setores da população estavam excluídos do direito à cidadania”. Na “cidade cristã”, “todos são irmãos com os mesmos direitos”, sendo este o “plano” de “Deus para a humanidade”, dado que “Deus ama a cada um de nós com um amor infinito e, por isso, quer a salvação [o bem, a libertação, vida plena] de todos”.

O plano de Deus é realizar o bem comum.

O livro “Atos dos Apóstolos” (vide 2,44; e 4,32) prevê claramente a destinação universal dos bens para atender às necessidades pessoais e sociais (“a cada um de acordo com suas necessidades”, para não haver mais “necessitados”).

O livro “Atos dos Apóstolos” foi o livro que influenciou o movimento socialista, especialmente a Liga dos Justos, precursora da Liga dos Comunistas, onde Marx aprendeu boa parte de seu “credo”.

As idéias (regras) práticas sociais e racionais exigidas pelo bem comum refletem (são como que imagens, tal somos feitos à imagem divina), nos limites e no modo humano, a “lei eterna” (as idéias, a vontade, o Projeto de Deus), formando o que se convencionou chamar de “lei natural”, “lei moral”, “honestidade”, “justiça”, “direito natural” etc.

O “direito natural” é formado pelo conjunto das consciências (do conteúdo destas) em interação constante (pela via unitiva do diálogo), constituindo um conjunto de regras (ideias, palavras, imagens) práticas e racionais (uma constituição natural e social) para pautar a vida pessoal e social, visando o bem comum (pessoal, familiar e social).

Nas palavras de Santo Tomás, toda lei positiva, todo ato estatal, deve ser “ordenação” (ordenamento, ordem, preceito, organização, estrutura, regras) “racional” (razão experimental, cf. concepção aristotélica) “para o bem comum”, “promulgada” (explicitada) pela “comunidade” ou pelos que “fazem às vezes da sociedade”.

Em bom latim, “ordinatio rationis ad bonum commune ab eo qui curam habet communitatis promulgata” (organização racional em prol do bem comum, nascida dos que cuidam, dos representes da sociedade, promulgada pelos representantes do povo). Esta definição de lei, como destacou Canotilho, é uma concepção democrática, que destaca o processo de nomogênese social, pelo diálogo, visando o bem comum.

Conclusão: “lei natural” ou “lei racional”, que reside na consciência das pessoas, em termos políticos, significa o mesmo que a proposição “a soberania reside na sociedade”, no povo, como foi ensinado por Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Suárez, Bellarmino, Locke, Rousseau, Mably e milhares e milhares de outros autores.

As virtudes, os valores, as emoções (paixões), os prazeres, como tudo isso se correlaciona…e tende ao bem comum, à superação da miséria, da exploração…

As virtudes humanas são o equivalente humano dos atributos morais de Deus. São as regras práticas que o próprio Deus segue.

Do mesmo modo, os afetos humanos foram criados à imagem e semelhança das emoções divinas, no modo e nos limites humanos

São Paulo, na “Carta a igreja em Éfeso” (5,9), resume a lista das virtudes (boas ideias, boas regras, e boas condutas que concretizam, realizam as referidas ideias práticas) de uma pessoa da seguinte forma: “andai como filhos da Luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios”.

Na “Carta aos filipenses” (cf. Fp 4,8), São Paulo ensina:

tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

O texto acima tem o mesmo conteúdo que a ética de Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” (livro I, 13): Há também pontos semelhantes com a ética de Cícero e de Sêneca, o mesmo para os melhores textos de Epiteto e Marco Aurélio…

O termo “virtude” (“aretè”) aparece na Bíblia, como ser visto em 1 Ped 2,9, 2 Ped 1,3-5 ou Fp 4,8.

O trecho mais importante é 1 Pd 2,9, pois é uma citação de Isaías 43,21 (da “Septuaginta”; tal como 42,8-12; e 63,7) como o sentido de “atos dignos de louvor” (em hebraico, “te hillah”; “aretas”, em grego).

No livro apócrifo “Macabeus 4”, há o termo “aretè”, com claríssima ligação com os estóicos.

No livro “Sabedoria” (5,13), a virtude (“aretè”) é o contrário da “maldade”, sendo atos (a prática) de bondade, do bem. O livro “Sabedoria” (4,1) ensina que a prática das virtudes gera a “imortalidade”.

O livro “Sabedoria” adota a classificação clássica das quatro virtudes cardeais (cf. 8,7).

Na “Segunda Carta” (2 Pd 1,3-4), São Pedro relaciona a virtude (“aretè”) com a “glória” e com “poder” (“dynamis”).

Virtudes são perfeições, são atualizações do potencial humano, é a plenitude, a realização da natureza humana. Pela prática das virtudes, a pessoa torna-se participante da natureza divina (“theias physeos”), como pode ser visto em Mt 5,48.

No fundo, para isso fomos feitos, para sermos deificados, sermos filhos de Deus, compartilhar da natureza de Deus, da Comunhão, do Corpo Místico de Cristo, do Corpo Místico de Deus, sermos Deuses, “como anjos”, unidos a Deus, mas mantendo nossa independência, nossa autonomia. 

As listas de virtudes têm correlação com as listas clássicas (Fp 4,8 com “Disputas Tusculanas” 5, 23 e 67, obra de Cícero). Esta correlação foi praticamente demonstrada por Santo Ambrósio (no livro “De officiis Ministrorum”, 1, 24-49; com base no livro “De officiis”, “Dos deveres”, de Cícero), por Santo Agostinho (cf. “De libero arbitrio” 1,27), por Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”, I-II, questões 55-67; e II-II, questão 101 e outras).

Uma boa síntese possivelmente seja o livro do padre J. Pieper, “As virtudes fundamentais”, obra que compulsei com cuidado, para a redação deste post.

Virtudes são a prática do bem, como ensinaram Santo Tomás de Aquino (na “Suma Teológica”) e São Paulo (cf. Rm 12,9).

Amar é querer o bem e daí há também uma relação intrínseca entre o amor e as virtudes, sendo o amor (a caridade, a misericórdia) a alma de todas as virtudes. Há uma correlação entre emoções (paixões no sentido amplo) e virtudes, regras, pois cada regra tem um pathos, uma carga emocional, uma energia emocional, cada emoção tem uma ideia embutida. 

A Igreja, ao nascer, reconhece claramente virtudes e qualidades nos pagãos.

O termo “aretè” vem da raiz “ari”, de “agradável”, “louvável”, tal como está presente no termo “aristo” (de “melhor”, os melhores). As melhores pessoas são as que praticam as virtudes.

Platão, nos livros “Protágoras” (329) e “Apologia” (n. 25), mostra que Sócrates ensinava que a virtude pode ser ensinada, é fruto da educação e da aceitação desta pelo educando, no fundo, é fruto do auto-educação do educando com a ajuda do educador, como parteiro. Aristóteles destaca que a virtude é “hexis”, um conjunto de hábitos, nascidos da prática de atos louváveis (cf. “Ética a Nicômaco”, 2,4-5; 1106; e outros trechos).

São Paulo, na “Carta aos Gálatas” (5,14), repete o ensinamento de Cristo, e resume toda a ética cristã: “toda a lei se resume em um só preceito, a saber: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (5,4), em outros termos, fazer ao próximo o que gostaríamos que fosse feito conosco, nos por no lugar do próximo, do outro, cultivarmos a SANTA IGUALDADE.

Um ponto peculiar da ética cristã é relacionar todas as virtudes ao amor (cf. Gl 5,22; Ef 4,32 e 5,2; Cl 3,12; e outros trechos).

As principais listas de virtudes estão em Gl 5,19-23; Fp 4,8; Cl 3,5 e 12; 2 Co 12,20; Tt 3,3; 1 Tm 3,1-13; e outras passagens. Estas listas coincidem, em linhas gerais, com as listas vétero-testamentárias (do Antigo Testamento), tal como do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo. Também há pontos comuns com os Rolos do Mar Morto. Autores como A. Vogtle (“Die Tugende und Lasterkataloge um Neuen Testament”, 1936) tentaram demonstrar a influência estóica nestas listas. Possivelmente exista também influência do mitraísmo (cf. S. Wibbing, “Die Tugend”, 1959). –

Na “Carta aos Gálatas” (2,4), diz que os cristãos “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” desordenadas, no sentido estóico, de ordenação racional dos afetos.

A Igreja nunca foi contra as emoções, e nem contra o sexo e os prazeres, pois sempre ensinou, como mostra o tratado do matrimônio de São Tomás de Aquino, que haveria mais PRAZER SEXUAL sem pecado, que o PRAZER SEXUAL aumenta com AFETO, COM AMOR, e não o contrário. 

A lista das virtudes, no texto da “Carta aos Gálatas” (5,22-23), é a seguinte, formando os nove frutos do Espírito:

1) amor é “ágape”, em grego. Significa “caridade”, misericórdia, bondade, que é principal virtude (vide Primeira Carta aos Coríntios, 13,4 e, principalmente, I Cor 13,13, o “Hino ao amor”). É a mesma lição da Primeira carta de São João (4,7), que ensina que o amor é a primeira das virtudes e é eterno. Caridade em relação ao próximo é misericórdia, que é preocupar-se com o atendimento das necessidades do próximo (cf. explicação de Santo Tomás de Aquino, na “Suma Teológica”), preocupar-se com o bem do outro, com o bem comum;

2) alegria é “chara”, em grego. Vem do verbo “chairo”, significa alegrar-se com o bem. A Septuaginta usado também a palavra grega “agalliasis”. Em hebraico, “alegria” é “simhah”, do verbo “saimeah”. Deus é um Ser alegre (cf. Sl 16,11; Fp 4,4; e Rm 15,13). São Pedro frisa que o cristão deve ser uma pessoa alegre (cf. 1 Pd 1,8). Neemias ensina: “a alegria do Senhor é a nossa força” (cf. Ne 8,10). A “tristeza” (“lype”, em grego) é um vício, uma paixão desordenada. Os estóicos aconselhavam, na mesma linha: “foge da tristeza” (cf. Periandro, “Sentenças”, 56);

3) paz é “eirene”, em grego. Daí, “pacificador” (“eire”opoieo”), pessoa pacífica. Há referência também em Isaías 45,7. Cristo ensinou: “aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração” (cf Mt 11,29). Em hebraico, “paz” é “shalom”, que significa bem estar no sentido pleno, prosperidade, felicidade etc.;

4) paciência é “makrothymia”, em grego. Significa “longanimidade”, “paciência”, “constãncia”, “perserança”). Trata-se de virtude elogiada em vários textos como: 1 Cor. 13:4-7; 2 Cor. 6:4-6; Ephes. 4:1-2; Col. 1:11; Col. 3:12-13; 1 Tim. 1:16; 2 Tim. 3:10; e 2 Tim. 4:2. Em hebraico, “paciência” é “arekh”. A Bíblia elogia a paciência de Deus (cf. Ex 34,6; Nm 14,18; Ne 9,17), que é “longo” em irar-se. Daí, o termo “longanimidade”. Deus é lento em irar-se ao tratar com os pecadores (cf. Os 11,8; e Is 48,9). Os cristãos devem imitar a Deus na paciência ao irar-se (cf. Mt 18,26; I Co 13,4; Gl 5,22; Ef 4,2; e 1Ts 5,14);

5) gentileza (“chrestotes”, em grego), elogiada em textos como: 2 Tim. 2:24-26; Tt 3:1-2; e Tiago 3:17;

6) bondade (“agathosune”, em grego), elogiada em textos como: Ex 33:19; Ex 34:6; Rm 2:4; Ef 5:9; Mt 5:44-48; e Lc 6:27-32. A “Septuaginta” usou o termo “agathos” para traduzir a palavra hebraica “tov”, “bom”. O termo “tov” significa “bom”, “alegre”, “agradável” etc. A “Septuaginta” usa o termo “kalos” também, que significa “belo” (“admirável”, “digno”, “honroso”). São Paulo também usa o termo “chrestotes” (cf. Rm 2,4; 11,22). O termo hebraico “hessed” também significa “bondade”, “compassivo”, “misericordioso”, “benigno”, “amoroso”;

7) fidelidade (“pistis”, em grego). Sobre a fidelidade, há um bom texto de Karl Barth, “Fidelidade na comunhão”;

8) modéstia (“praotes”, em grego); e

9.Temperança (“engkrateia”, em grego, autocontrole). Virtude elogiada em textos como: Prov 23:1-3; Prov 25:16; Dan 1:8-16; Rm 13:14; 2 Cor. 9:25-27; Fil 4:5; 1 Tes. 5:6-8; Tt 2:2-3,11-12; 2 Pt 1:5-10. Está expresso nos “Dez Mandamentos”, com o preceito “não cobiçar”.

Como fica claro, as virtudes morais são afetos bem ordenados por idéias práticas do bem, ou seja, pela razão, em prol do bem comum. O ponto central em todas as virtudes é que são práticas do bem, atos que conduzem e produzem o bem comum, a comunhão, como destacou Santo Tomás de Aquino.

Aristóteles, no livro “Ética a Nicômaco” (III-V), listou as principais virtudes, a seu ver: justiça, franqueza (veracidade, amor à verdade), coragem (fortaleza), temperança (autocontrole), liberalidade (querer ajudar o próximo), magnanimidade e mansidão.

Magnanimidade é desejar grandes feitos e ser digno deles, vem de desejar grandeza, grandes obras em prol do bem comum. Santo Inácio também elogiou esta virtude. O livro de Humberto Grande, “O culto à grandeza” (São Paulo, Ed. Ipê S/A, 1949) explica esta virtude, bem cultiva no mundo dos esportes, nas Forças Armadas, no mundo da cultura e das artes e em outros círculos.

Os quatro valores (princípios, idéias-forças, tipos gerais de conduta) “mais altos e universais” (cf. Paulo VI), principais, são, conforme a lista feita em documentos do Vaticano: “a verdade, a liberdade, a justiça, o amor” (cf. discurso de Paulo VI, em 15.12.1967). Estes valores, idéias, estão ligados aos atributos morais principais de Deus.

Assim, o ápice da teologia fundamental e mística ensina o mesmo que a teologia moral e política: o poder, todo poder, até o poder do Todo Poderoso, está vinculado, naturalmente sujeito a estes valores, à ética, ao que há de melhor na consciência humana e também na divina.

Como explicou São Leão I, que foi Papa de 440 a 461 d.C. na Carta “Quam laudabiliter” (em 21.07.447), a ética é baseada na participação. As pessoas boas são “participantes da verdade, da sabedoria e da justiça”. Estas virtudes fazem parte da “essência” de Deus, que “renova tudo”. Cada pessoa, como o Diabo, tem o livre arbítrio, pode usar mal deste e “não permanecer na verdade” (cf. Jo 8,44), “desligando-se do Sumo Abem, ao qual devia aderir”.

Estas virtudes estão elogiadas também no Sermão da Montanha, nos Dez Mandamentos e também na estrutura da Cabala, nos dez sefirot etc. Também estão na estrutura das virtudes, dos livros aristotélicos e estóicos, livros adotados pela Igreja, por coincidir, em quase tudo, com as idéias cristãs, sendo as idéias cristãs mais completas.

As virtudes estão enunciadas de forma negativa nos Dez Mandamentos, pois o contrário do que é proibido é elogiado e considerado como conduta meritória.

Confúcio também ensinava que o “Tao” (“Caminho”) era baseado em quatro grandes virtudes: “os quatro maiores dons que o Céu concedeu às pessoas sábias são: a benevolência, a amabilidade, a justiça e a prudência”.

Há outras listas de virtudes implícitas na Bíblia. Isso ocorre porque quando a Bíblia critica um vício ou um pecado, a conduta contrária é implicitamente elogiada. Como explicou Aristóteles, para cada virtude há dois vícios, por falta ou por excesso.

Gramsci também mostrou os pontos comuns entre Cristianismo, socialismo e democracia.

Gramsci descreveu a reaproximação da Igreja com o socialismo democrático e participativo

Gramsci, ao comentar a encíclica “Pascendi” de Pio X, reconheceu que Pio X “não combate… o pensamento moderno como tal”.

Não, Pio X, na análise de Gramsci, “fulminou o modernismo como tendência reformadora da Igreja e da religião católica, mas desenvolveu o popularismo, ou seja, a base econômico-social do modernismo, e fez dele, hoje, com Pio XI, o ponto de apoio de sua estrutura mundial”.

O que Gramsci chamou de “popularismo” (no fundo, populismo, ênfase no povo) é justamente a base do movimento social da Igreja, bem nítido na Ação Católica.

Trata-se da continuidade da linha histórica luminosa da Igreja, do rio da vida, especialmente na forma como a Igreja acolheu e participou na Revolução Francesa com os leigos católicos e parte dos Bispos, com a Concordata com Napoleão, e nas Revoluções de 1830 e 1848, com o apoio de Pio XI.

Depois, houve o reforço deste movimento com os textos brilhantes de Leão XIII, elogiados por Eça de Queiroz, Rui Barbosa e outros.

Para Gramsci, o “modernismo” era uma corrente complexa, com duas tendências principais: uma “social” e outra “científico-religiosa”.

Gramsci constatou corretamente que a Igreja aceitou a tendência “político-social que tendia a aproximar a Igreja das classes populares, portanto favorável ao socialismo reformista e à democracia”.

Esta tendência “político-social” era a retomada dos textos de grandes católicos do movimento iluminista católico e cristão.

Era a continuação da linha de Cristo, dos Santos Padres, dos Doutores da Igreja, de Morus, Suarez, Bellarmino, de Montesquieu, Mably, do padre Sieyes, do bispo Gregório, do Cardeal Consalvi, de Lamennais, Buchez, Ozanam, Tocqueville, Lacordaire e outros.

Na Itália, esta tendência explicita-se nos textos de Toniolo e no partido popular de Sturzo, que o próprio Gramsci reconhece que tem raízes no “neo-guelfismo antes de 1848”, tendo como expoentes o padre Gioberti, Rômulo Murri e a corrente da “democracia cristã”.

Manzoni, Gioberti, César Cantu, Carlo Cattaneo e centenas de outros autores (o próprio Cavour) precederam e prepararam a linha democrática e socializante de Romolo Murri-Luigi Sturzo.

Esta linha foi sucedida por Giorgio La Pira, Giuseppe Dossetti. Estes dois juristas participaram da Constituinte italiana, de 1946, tendo bons diálogos com Togliatti. Com Aldo Moro, esta tendência reforçou-se, buscando coligações com os partidos comunistas democráticos. Hoje, está presente no Partido Margarita, o Partido Democrático, que une católicos, socialistas e comunistas do antigo PCI.

Na França, esta tendência está ligada a Lamennais, Buchez, aos grandes românticos e depois retoma com elos como Charles Renouvier (1815-1903, no livro “O personalismo”, 1903), Marc Sangnier, Maritain, o personalismo de Mounier (1905-1950) e Lacroix.

Mais tarde, fica presente na presença e mesmo liderança católica na Resistência Francesa. Continua nos melhores textos de De Gaulle e, depois, na presença católica no Partido Socialista Francês.

Foi esta linha democrática e socializante que levou a coligações com os socialistas italianos especialmente a partir da segunda Guerra e depois de 1961.

Com Aldo Moro, houve mesmo a chance de uma coligação com os comunistas italianos, inspirados em Gramsci, Togliatti e outros defensores da política de mãos estendidas.

Norberto Bobbio, no livro “Teoria geral da política” (Rio de Janeiro, Ed. Elsevier, 2000, p. 335), mostra que estes autores católicos “partilhavam com os socialistas da oposição entre sociedade civil e Estado e da defesa da primeira [da sociedade] contra o segundo”, o que abona a proximidade entre socialistas democráticos e catolicismo.

Para Gramsci, a outra tendência do modernismo foi a “científico-religiosa”, com idéias sobre os dogmas, a “crítica histórica” etc. Foi esta principalmente a tendência perseguida mesmo por Pio X.

Mesmo em seu pontificado, de Pio X, com tantos pontos que um Alceu soube criticar, houve o aprofundamento do que Gramsci chamou de “popularismo”, mesclado com nacionalismo (intrinsecamente ligado ao romantismo e ao movimento democrático), especialmente nas antigas colônias, com os intelectuais nativos, gerando uma onda “nacionalista católica”.

Gramsci destacou, para provar sua análise, a aliança informal entre católicos e radicais com Herriot, em 1926, com a figura do “radical católico”.

Gramsci ressalta que estes movimentos coincidem com a condenação pelo Papa, em 1926, da Ação Francesa, de Maurras.

Edouard Herriot (1872-1943), amigo de João XXIII, foi Ministro das Obras Públicas no governo de Briand e organizou um “Cartel das Esquerdas”, em 1924. Participou da Frente Popular ligada a Blum, lá por 1936. Escreveu o livro “Os Estados Unidos da Europa”.

Na Bélgica, os bispos católicos redigiram, em 18.08.1925, uma carta coletiva aprovando a coaliação entre católicos e socialistas num gabinete ministerial.

Os bispos católicos da Inglaterra, da Suiça, da Áustria e de outros países seguiram a mesma linha de reaproximação, ratificando o movimento que já ocorria com marcos como o solidarismo, o socialismo de cátedra, no final do século XIX; e, antes, com o socialismo utópico e as lutas pela democracia.

Em 1926, houve também um bom discurso de Pio XI, no 35º aniversário da “Rerum novarum”, onde este Papa lembra que:

“os elementos sociais” [são mutáveis, especialmente as formas de] “organização da produção” [o mesmo raciocínio vale para as formas de poder, desde] “o trabalho primitivo da Idade da Pedra até” [às grandes unidades produtivas e isso vale para as demais] “instituições humanas, que não são perfeitas na sua totalidade, mas antes necessariamente imperfeitas e susceptíveis de mudanças”.

A análise histórica e sociológica de Gramsci estava corretíssima.

Tanto é verdade que Léon Bourgeois, que foi primeiro-ministro da França, o primeiro do partido radical, seguiu os passos de Charles Renouvier, na obra “Ciência da moral” (1869), com base no solidarismo, uma forma de socialismo democrático, que teve o apoio de Mounier e outros.

Na Espanha, os socialistas da Frente Popular eram liderados por políticos não-ateus e a Frente Popular teve o apoio de Maritain e outros expoentes do catolicismo.

A guerra civil espanhola teve excessos violentos praticados pelas duas partes e não deve ser confundida com os ideais republicanos anteriores.

Renouvier (1815-1903) foi um grande republicano cristão. Teve o mérito de ter sido um dos principais ideólogos da III República.

Como Gaetano Mosca e Bouthoul reconheceram, Renouvier “exerceu grande influência sobre os primeiros dirigentes da Terceira República”. Renouvier tinha como ideário, idéias como: “a lei moral está em todos porque está em cada um”, é “universal porque é eminentemente particular e inegavelmente própria e constitutiva de cada consciência”.

Renouvier defendia um “socialismo bastante extenso, mas que respeita escrupulosamente a liberdade e a autonomia dos indivíduos” (cf. Mosca, no livro “História das doutrinas políticas”, p. 370), defendendo uma República democrática e social. Seus textos também mereciam figurar em manuais da teologia da libertação nas CEBs e paróquias.

Os textos de Léon Bourgeois, como o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçaram uma forma de socialismo democrático. Bourgeois chamou esta forma de “solidarismo”, unindo, numa síntese o melhor do pensamento democrático e socialista.

O solidarismo é um socialismo humanista, com liberdade. Bourgeois escreveu obras conjuntas com outros autores da mesma linha. Por exemplo, o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade”, 1902, que tem textos de Charles Gide (1847-1932), Boutroux, Croiset e outros.

Nestes autores, há uma tentativa de síntese entre socialismo e democracia e parte expressiva concilia estas sínteses com o apreço ou o respeito à religião. denominou de “solidarismo”, unindo, numa saio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçam um forma de socialismo.

Gramsci lembra que vários católicos aceitaram “fazer parte do Gabinete de unidade nacional de Herriot” e que “também aceitara colaborar com Herriot o chefe do grupo católico parlamentar francês, formado pouco antes. Estes católicos organizaram a Semana Social de Nancy de 1927”.

Esta Semana, no documento final, teve “conclusões favoráveis a uma maior participação feminina na vida política” e estas conclusões “foram aprovadas pelo Cardeal Gasparri, em nome de Pio IX” (ver estes textos no livro de Gramsci, “Cadernos do cárcere”, vol. IV, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2001, p. 195).

Gramsci constatou corretamente que entre os integristas e os modernistas, o Papa moveu-se numa linha média, a dos “jesuítas”. Também apontou que a aliança informal com os radicais de Herriot era a mesma do Partido Popular do padre Luigi Sturzo, na Itália e em parte a linha do Partido do Centro (basta ver Luís Windthorst, elogiado por Pio X, em 12.07.1912), na Alemanha. Na Bélgica, havia o mesmo movimento.

Conclusão: com Pio XI, especialmente com a mediação da Ação Católica (liderada, no Brasil, por Alceu Amoroso Lima, da linha de Maritain), vence a linha média, esposada pelos jesuítas e outros expoentes.

Gramsci constatou que “os jesuítas foram, indubitavelmente, os maiores artífices deste equilíbrio e, para conservá-los, eles imprimiram à Igreja um movimento progressivo que tende a satisfazer parcialmente as exigências da ciência e da filosofia”.

Os melhores textos de Marx e Engels admitem economia mista

Engels, no livro “Anti-Duhring” (São Paulo, Ed. Boitempo, 2015, p. 314), tem textos que admitem, em termos comedidos, a economia mista.

Engels também mostra que já existiam estatais, muito antes de haver socialismo.

Engels cita como exemplos de empresas de “propriedade do Estado”, “as grandes instituições de intercâmbio [transporte]: Correios, Telégrafos, ferrovias”.

Menciona mesmo a “estatização do tabaco”, nos governos de “Napoleão e Metternich”, e também a estatização de “ferrovias” por Bismarck (para “poder aproveitá-las melhor em caso de guerra”) e obter “nova fonte de receita independemente das resoluções do Parlamento”.

Fala ainda das ferrovias estatais na Bélgica católica, e da “Real Companhia Marítima, a Real Manufatura de Porcelana” etc. Na página 178, e em vários outros textos, Engels e Marx falam do despotismo oriental, do modo de produção asiático, onde o Estado controla as terras e a irrigação, tal como todos os “interesses comuns” da sociedade, inclusive “obras” e “defesa contra ataques de fora”. Ou seja, o Estado tem controle de bens produtivos desde milênios.

No Brasil mesmo, Dom João VI criou o Banco do Brasil, como estatal, em 1808, tal como os Correios, e tentou mesmo criar a Siderurgia estatal. A CEF foi criada lá por 1860 ou 1870.

Na França, Colbert, lá por 1650, criou várias estatais, que existem até hoje, Manufaturas reais (estatais), do Estado. E no governo de Napoleão, havia amplo protecionismo, com teóricos mercantilistas (François Louis Auguste Ferrier, 1777-1861, e outros) que foram a base dos melhores textos de List e Carey.

Na página 261, Engels lembra de John Law, que era um mercantilista que acreditava no crédito para o desenvolvimento e que ajudou o rei da França, a criar, em 1718, um amplo Banco público, em Paris, tendo este Banco uma Companhia da Índias. O Estado emitia títulos da dívida pública, recolhia o dinheiro dos investidores (dos particulares) e fazia investimentos públicos. Da mesma forma, o Estado emitia dinheiro (notas bancárias), inflação, para os investimentos estatais, capital estatal, bens estatais produtivos. Em 1720, houve a ruína do Banco, mas era uma operação estatal, o que mostra que estatais e intervenção estatal não são ideias de Marx, e sim coisas milenares, tradicionais, mais tradicionais que a Sé de Braga…

A Companhia das Índias Orientais, na Inglaterra, também era uma estatal, que tinha como empregados ou mantidos, o velho Bentham, Adam Smith, James Mill e Stuart Mill. Ou seja, os expoentes do liberalismo trabalharam, durante quase toda a vida, no Estado, numa estatal, que rapinava a Índia.

Lembro também que no Brasil existem estatais desde perto de 1500. O próprio padre Vieira, lá por 1650, aconselha a criação de mais estatais, estancos, para assegurar o desenvolvimento de Portugal e do Brasil.

Antes da Independência, os principais bens, no Brasil, eram do Estado, como as terras, o ouro, os diamantes, tudo estancos, ou seja, bens do Estado, que arrendava ou colocava contratadores para o controle. O garimpo era proibido, para que a iniciativa privada não pegasse ouro o diamante, que era do Estado.

Em Diamantina, MG, toda a área de produção de diamantes era estatal, e o mesmo para todas as minas, todas estatais. Existiam controles públicos de preços, tabelamentos etc. O Estado tinha ampla intervenção econômica, bens produtivos etc. João Camilo de Oliveira Torres falava do “socialismo” manuelino, ou seja, socialismo bem antes de Marx, claro. 

O Marques de Pombal e Frederico II também criaram estatais, e os dois eram cristãos, embora anti-clericais, mas cristãos…

Na Rússia czarista, já existiam várias estatais, inclusive da vodca (a Sminorv foi criada com ajuda do Estado, e foi estatizada por anos). O próprio Lenin apontava a base estatal da indústria russa, de como o Estado tinha implantado o capitalismo na Rússia, Lenin fez a Revolução, tendo como exemplo o desenvolvimento da Alemanha, de 1830 em diante, com estatais, intervenção estatal, Bismarck, seguros sociais, legislação operária etc.

Em outro trecho do livro “Anti-Duhring” (p. 315), Engels diz que a “anarquia social” seria substituída pela “Regulação socialmente planejada da produção, de acordo com as carências [necessidades] tanto do conjunto como de cada indivíduo”.

Ocorre que é possível uma síntese com “regulação social planejada da produção” para atender às necessidades, com amplas liberdades, trabalhos independentes, pequenas firmas etc.

Tanto que, na p. 318, Engels lembra que uma sociedade com “regulação socialmente planejada da produção” teria como dever principal “assegurar a todos os membros da sociedade” “uma existência que não só seja plenamente suficiente do ponto de vista material e que dia após dia vá se tornando mais rica, mas que também lhes garanta a plenitude da livre formação e do livre emprego de suas faculdades físicas e intelectuais”.

Vou por em maísculas: uma sociedade “mais rica”, com “PLENITUDE DA LIVRE FORMAÇÃO E DO LIVRE EMPREGO DE SUAS FACULDADES FÍSICAS E INTELECTUAIS”.

Engels e Marx falam que o Estado iria absorvendo todos os bens produtivos, até o Estado se auto-extinguir, ir morrendo, até não ter Estado, ou seja, cada pessoa teria ampla liberdade.

Claro que a referência a extinção do Estado é apenas retórica, pois haveria “Comunidade” (termo escolhido por Marx e Engels para usar no lugar de Estado…), decisões coletivas, ou seja, um Estado democrático sem coerção, o que é também o ideal católico, com base principal na EDUCAÇÃO, como forma de regulação autônoma.

O mesmo ideal da Igreja, frise-se, de todo humanista. Estado sem coerção, com base principalmente na EDUCAÇÃO. Platão concordaria, e todos os Santos Padres da Igreja, e também Cristo. 

Na página 161, Engels explica uma passagem de “O capital” (vol. I, no final do livro), que trata da “negação da negação”. E ali diz que o texto de Marx, que fala que haveria a “restauração da propriedade individual” seria apenas de “objetos de consumo” (bens de consumo). Marx não fazia esta distinção.

Ora, o próprio Marx, em outros textos, mostra que há vários bens que são de uso ou de consumo, apenas com base na distinção do uso. Basta pensar na própria comida, em arroz, ou feijão, que podem ser bens de consumo ou insumos (meios de produção), ou na energia elétrica, ou na argila, no ouro, numa barra de ferro, uma galinha, uma vaca, a água etc.

Lembro ainda que, com o avançar da técnica (miniaturização, redes, fontes pequenas de grande energia etc), fica ainda mais claro que, tal como antes mesmo, a distinção entre bens produtivos e bens de consumo é apenas de uso, da forma como são usados. Por exemplo, um fogão industrial pode ser usado para fazer comida para a família, ou para fazer comida para vender. Ou um computador pessoal, de usos múltiplos.

Outro ponto é que Engels insiste que numa sociedade comunista, a jornada seria ínfima, e que cada pessoa faria o trabalho que quisesse, sendo cada trabalhador polivalente, podendo trabalhar hoje como médico, amanhã como varredor etc.

Ou seja, haveria liberdade na escolha de trabalhos e amplo tempo livre. Ampla liberdade para trabalhos próprios, artísticos, tal como empreendimentos.

Assim, fica claro que uma sociedade com amplo Estado econômico, com bens produtivos estatais, pode perfeitamente ter amplo setor privado, ter pessoas abrindo firmas, fazendo trabalhos variados autônomos, tendo bens como casas pessoais, terrenos etc.

Na URSS, o Programa do Partido Comunista da URSS, lá por 1987, antes do debacle de 1989 e 1991, tem como ideal assegurar a cada família uma casa ou apartamento pessoal, assegurar a moradia própria, e o direito de construção das pessoas, de melhoria de suas casas, de auto-construção da moradia etc.

Na página 316, Engels explica que o Estado é vital para assegurar “condições exteriores de produção”.Na p. 178, diz que o Estado não foi criado apenas para manter a classe dominante, mas também para a defesa e promoção de “interesses comuns”.

No fundo, até Adam Smith não era totalmente capitalista, pois admitia taxas alfandegárias de 15% (List queria de 25%), como admitia que o Estado fixasse taxas máximas de juros (5 ou 6% ao ano, menos de dez por cento ao ano). Adam Smith também admitia intervenção estatal para os transportes, aberturas de estradas, obras públicas, assistência social, educação, saúde etc.

Stuart Mill, em suas últimas obras, adere ao socialismo de economia mista, mostrando que o Estado poderia ter mais controles públicos, mais proteção ao trabalho, promover cooperativas etc. 

Conclusão: mesmo os textos de Engels e Marx admitem uma economia mista. No “Manifesto Comunista”, há cerca de dez medidas, que implantam uma República social, de economia mista, com estatização dos bancos, mas sem estatizar a agricultura, e nem a pequena produção e o pequeno comércio. A mesma fórmula de Babeuf, e até de Morelly e Mably.

O próprio Lenin implantou economia mista na Rússia, mesmo no “comunismo de guerra”, e aumentou isso, no NEP, no final da vida.

Hoje, todos os países socialistas admitem a economia mista, como fica claro em Cuba, na China, no Vietnam, na Coréia do Norte, na Rússia etc. 

Saint Simon e Fourier também adotavam a economia mista. Mesmo Owen fazia isso, na proposta de comunidades agrícolas cooperativadas e descentralizadas.

Lembro que os anarquistas, mesmo Bakunin, aceitavam os artesãos, camponeses e pequenos burgueses, micros e pequenos produtores. Vou postar vários textos neste sentido de Bakunin, Kropotkin e outros. 

 

 

O ideal de Mounier: um socialismo democrático, humanista, economia mista, amplo Estado social e protetor das pessoas, Democracia Popular Participativa, Protagonismo máximo dos trabalhadores, combinando Trabalho não reificado em várias formas, inclusive Milhões de Micros e Pequenos Produtores Familiares.

O jusnaturalismo cristão (Primado dos Direitos Humanos, de várias gerações, sociais, individuais, políticos, civis, culturais, de gênero etc) ensina claramente que as leis positivas, as regras positivas, em geral estatais, devem explicitar o conteúdo normativo e intelectual da consciência do povo, dos trabalhadores, da sociedade, ou seja, deve assegurar e promover o bem de todos

O jusnaturalismo cristão ensina claramente que a sociedade é a infra-estrutura do Estado. Isso foi visto por Hegel, inclusive em seus textos bem antigos, muitos destes textos não foram lidos por Marx, mas parte de seu conteúdo influenciou Karl Marx.

Hegel foi um grande filósofo cristão, e é uma das FONTES CRISTÃS das ideias, assim cristãs e humanistas, de Marx.

O processo de nomogênese (gênese, geração, das normas positivas, das instituições, leis etc) tem como fonte primária a consciência da sociedade, a “reta razão”, que são as idéias verdadeiras, corretas, presentes na consciência do povo.

O povo é a fonte principal da cultura e da civilização (no sentido de relações de convivência regidas pela razão, pela ciência etc).

Santo Tomás seguiu as idéias bíblicas e o melhor do pensamento grego e romano, especialmente Platão, Sócrates, Anaxágoras, Protágoras, Heráclito, Péricles, Sófocles, Aristóteles, Crates, os estóicos, Cícero, Fílon, São Paulo e os Santos Padres.

Assim, com base nestes predecessores, Tomás ensinou que as leis legítimas são produtos da reta razão, do diálogo do povo, das verdades práticas, presentes em todos, pelo movimento natural da consciência, da inteligência. Estas idéias, nascidas do povo, na medida em que são verdadeiras, tendem naturalmente ao bem do povo, ao bem comum.

Formam o processo civilizatório, da Democracia viva, que rege a História. Deus é a Democracia Viva, é o Amor vivo e Consciente.

O jusnaturalismo cristão, com a teoria do primado do bem comum, é anticapitalista (não aceitando o capitalismo liberal e nem estatal) e tem como pilares fundamentais o movimento histórico de personalização e o de socialização.

Como síntese entre personalização e socialização gerou correntes explicítas como o trabalhismo, o socialismo democrático, o comunitarismo personalista e o solidarismo socializante.

O solidarismo, no fundo um tipo de socialismo democrático, tem base bíblica clara, especialmente em São Paulo (“Rm. 12, 4-5): “assim como temos vários membros em um só corpo e todos os membros não cumprem a mesma função, assim também nós, ainda que sejamos vários, formamos um só corpo em Cristo e cada um de nós somos membros uns dos outros”.

O próprio Léon Victor Auguste Bourgeois (1857-1934), em obras como o clássico “Solidariedade” (1896), citava autores católicos como Pierre Leroux, no livro “A humanidade” (1839) como um dos principais precursores.

Leroux é também praticamente o pai da palavra “socialismo” e era socialista cristão pré marxista, antes de Marx, pois antes de Marx, existiram centenas de socialistas católicos e cristãos.

Bourgeois escreveu livros com idéias profundamente cristãs, um solidarismo radical bem próximo do solidarismo do padre Pesch.

Léon Bourgeois ganhou o Prêmio Nobel da Paz, em 1920, por ter auxiliado na constituição da Sociedade das Nações, a precursora da ONU.

Foi este conjunto de idéias que inspirou homens como Marc Sangnier, Mounier, Maritain ou Alceu, que representam a continuação das idéias dos socialistas utópicos cristãos e teístas (inspirados em Morus, Morelly, Mably, Rousseau, o padre Claude Fauchet, o padre Jacques Roux, na Bíblia e nos Santos Padres.

Foram estas idéias que inspiraram a luta dos católicos que apoiaram hegemonicamente a Revolução Francesa de 1789, tal como a Revolução francesa de 1848.

As idéias de socialismo católico e cooperativista estão presentes em Buchez (respeitado mesmo por Marx); nas melhores idéias de homens como Ozanam, Lacordaire, Montalembert, Mun etc.

As mesmas ideias reaparecem, depois, nos bons textos de Leão XIII; e, depois, na aproximação com o radicalismo; no apoio à Frente Popular ligada a Léon Blum (1872-1950) etc.

Estão na luta comum dos católicos, socialistas e comunistas na Resistência Francesa; na aproximação do M.R.P com os partidos socialistas democráticos; nos melhores textos de De Gaulle contra o imperialismo e contra o capitalismo; etc.

Léon Blum escreveu o livro “A escala humana” (1941), onde defende um socialismo com democracia e liberdades, tal como com ética (“libertar as pessoas das servidões que as oprimem”).

Como escreveu Mounier, no “Manifesto a serviço do personalismo” (na década de 30), “o personalismo conserva a coletivização e salva a liberdade”, elaborando uma síntese entre socialismo e liberdade.

No mesmo sentido, Mounier escreveu: “ninguém tem o direito de ser rico” (texto do livro “Da propriedade capitalista à propriedade humana”).

Conclusão: uma sociedade pautada pela socialização com personalização é uma sociedade pautada pelo diálogo racional em prol do bem comum. O ideal cristão é uma comunhão, o bem comum concreto, uma comunidade pautada pelo diálogo e pelo bem comum.

A combinação de justiça social e distributiva, de solidariedade e subsidiariedade (ajudas estatais etc).

O máximo de socialização com o máximo de personalização. Respeito a cada pessoa concreta, a cada família e a sociedade inteira.

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