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Socialismo democrático e trabalhista, um bom nome para uma síntese que abarca o melhor do pensamento do Brasil

Nicos Poulantzas, em obras como “O Estado, o poder e o socialismo”, ampliou as ideias de Gramsci e dos eurocomunistas, escrevendo textos na mesma linha que Palmiro Togliatti, Pietro Ingrao e outros.

Segundo Carlos Nélson Coutinho, autores como Giuseppe Vacca foram ainda mais claros.

Poulantzas valorizou o socialismo democrático, como um desenvolvimento da democracia política, representativa, tal como o trabalhismo, a economia mista, o modelo escandinavo, a busca por um amplo Estado do bem estar social etc.

Mais ou menos, esta também é a linha dos textos de Georges Marchais (vide “O Desafio democrático”, um esboço para uma aliança entre PCF, PSocialista francês e católicos franceses), autores próximos da Doutrina social da Igreja, misturando estatais, amplo Estado social e democrático, democracia popular, amplo Estado do Bem Estar etc.

No Brasil, uma linha parecida era a da “Revista Brasiliense” (1955-1964), dirigida por autores como Caio Prado Júnior, Catulo Branco, Heitor Ferreira Lima, João Cruz Costa, Abguar Bastos, Pinto Ferreira, Sérgio Buarque de Holanda, Josué de Castro, Elias Chaves Neto, Fernando de Azevedo, Edgar Cavalheiro, Florestan, Álvaro de Faria e outros.

A mesma linha, no fundo, de Medeiros Lima, de Alceu e outros.

Depois, a mesma síntese foi retomada, a síntese que unia católicos sociais, trabalhistas, nacionalistas, o melhor do PCB, PSB, do getulismo, para a construção de um Estado social no Brasil. 

Esta síntese teve continuação na “Revista Civilização Brasileira”, dirigida por Ênio Silveira, a partir de março de 1965 até dezembro de 1968. 

Ao lado de Ênio, escrevia Moacyr Felix, tal como Roland Corbisier, Nélson Werneck Sódre, Octavio Ianni, Álvaro Lins, Alceu e outros. Em 1978, Enio lançou a continuação da revista, a “Encontros com a Civilização Brasileira”, numa boa síntese.

Os jornais alternativos da década de 70 e 80, “Pasquim” e outros, no fundo, era a continuação esta síntese, desta ampla Frente Popular Democrática, que gerou os melhores partidos de esquerda, no Brasil.

Nestas fontes, há a mesma síntese da Igreja, a busca de uma Democracia Popular Participativa, economia mista, distributismo, amplo Estado social etc.

O ideal da Igreja é um grande Estado social, Democracia real popular participativa, economia mista, destinação universal dos bens

Pio XII ensinou – nos passos de Santo Tomás e de Suárez – que as leis naturais são variáveis e progressivas, lembrando que há “novas formas de postulados [regras, deveria haver um revisor dos textos papais, para simplificar as palavras….] do direito natural”, de “exigências fundamentais da natureza”:

“… o estudo da história e da evolução do direito, desde os tempos mais remotos, ensina que, de um lado, uma transformação das condições econômicas e sociais (e inclusive, às vezes, políticas) exige também novas formas de postulados do direito natural, as quais os sistemas dominantes não prestam já sua adesão; por outro lado, no entanto, ensina que, nestas mudanças, as exigências fundamentais da natureza retornam continuamente e se transmitem, com maior ou menor urgência, de uma geração a outra”.

Conceito de Pio XII sobre a lei natural – é o conjunto das ideias práticas que expressam as “exigências fundamentais da natureza” humana e geral. Para simplificar, as ideias práticas dialógicas que melhoram as coisas, as pessoas, as situações, as condições sociais etc. 

Lei natural são as ideias práticas que protegem e melhoram a natureza, na lição de Santo Agostinho, que mostrava que o cristianismo é humanista, visando construir melhores Estados, casas, estruturas econômicas etc.

Paulo VI, na encíclica “Octagesima anno” (n. 47), reforçou este ensinamento ressaltando a “exigência atual do ser humano, a saber, a de exercer maior participação nas responsabilidades e nas decisões. Esta legítima aspiração manifesta-se sobretudo à medida que se eleva o nível cultural e se desenvolve o sentido da liberdade”.

Neste mesmo documento, Paulo VI cita João XXIII:

“João XXIII, na encíclica Mater et Magistra, insistia em que o acesso às responsabilidades [à participação] é uma exigência fundamental da natureza do ser humano, um exercício da sua liberdade, um caminho para o desenvolvimento, e indicava como na vida econômica.. esta partilha de responsabilidades deve ser assegurada (cf. GS, n. 68.75). Hoje, o âmbito dessa participação é mais vasto. Estende-se também ao campo social e política, no qual há que instituir-se e promover-se a justa e razoável participação nas responsabilidades e decisões”.

Frise-se – todo trabalhador é o trabalho vivo, a fonte principal dos valores, não pode ser reduzido a objeto, a coisa, reificado, alienado, pisado, humilhado, explorado etc.

Toda pessoa tem naturalmente direitos naturais e subjetivos políticos, civis, econômicos, religiosos, culturais, sociais etc.

A tarefa essencial do Estado é assegurar e promover estes direitos naturais e humanos. Em outros termos, na lição de Maritain e de Alceu: a sociedade e do Estado devem assegurar, pelas linhas gerais de sua organização e por todos os seus movimentos, a plenitude de vida para cada pessoa e vida digna e abundante, como deixa claro a Bíblia, nas palavras do próprio Cristo (Jô 10,10).

Especialmente criando uma infra-estrutura estatal pública, com grandes meios de produção, para dar a todos boas oportunidades, para florescimento do trabalho, de pequenos negócios pessoais e familiares, moradia para todos, paz, roupas decentes, renda para todos, trabalhos com jornadas pequenas, sem reificação. 

O ideal histórico atual desta organização da sociedade e do Estado tem, hoje, o nome de “Democracia participativa”, ou social, Democracia plena, socialismo participativo, Democracia Popular, Civilização do trabalho, no sentido usado por Alceu, Pontes de Miranda, Paulo Bonavides, Francisco Mangabeira, Barbosa Lima Sobrinho, Sérgio Magalhães e outros.

Trata-se de um regime político, tal como de um sistema econômico (um modo de produção e distribuição), que deve assegurar e promover estes direitos de primeira, segunda, terceira e quarta geração, na terminologia de Norberto Bobbio, que é coerente com o ensino da Igreja. Estes direitos de várias gerações devem coexistir numa boa síntese.

A democracia política deve ser completada pela democracia econômica, social, cultural, religiosa etc.

Este ponto foi bem explicitado por Lamennais, Buchez, Victor Considerant (tal como por Luís Blanc, que também era religioso e humanista, sendo bom amigo de Victor Hugo), o principal sucessor de Fourier, que redigiu inúmeros textos dignos de serem compilados para serem lidos nas CEBs.

Em 1848, num “Manifesto”, que influenciou o próprio “Manifesto Comunista”, Victor Considerant, que, tal como Fourier, baseava suas idéias na Bíblia e na razão, sendo cristão, escreveu:

“Eu vos digo que, verdadeiramente, a Revolução [Francesa] que proclamou a chegada da liberdade, da igualdade e da fraternidade não está terminada. Não terminou com a conquista dos direitos políticos da burguesia. Não terminou com a conquista dos direitos políticos do povo. Ela só se completará com a encarnação, nos fatos sociais, daqueles três grandes termos filosóficos e cristãos: liberdade, igualdade, fraternidade. Isto é, a revolução será permanente até que esteja em vias de organização uma sociedade capaz de substituir, da base ao alto, (…) o acordo pela luta, a paz pela guerra, a liberdade de todos pela escravidão da maioria, e, por fim, a riqueza geral por todas as gradações da miséria–aí incluída a miséria dos egoístas e mesmo aquela dos bons ricos”.

Pontes de Miranda, que morreu socialista e católico (tal como é, hoje, Ariano Suassuna), desenvolveu corretamente esta tese, de um regime baseado nos três princípios cristãos da fraternidade, da igualdade e da liberdade (cf. discurso de João Paulo II, são “ideais cristãos”).

A sociedade deve reger-se naturalmente pelo “acordo” das liberdades (“concórdia”, cf. Juan Luís Vives), que gera a igualdade (mediania, equilíbrio social), o bem comum e, assim, a paz social.

O próprio Robert Ingersoll (1833-1899), expoente do secularismo nos EUA, reconhecia que “a ciência e a filosofia” descobrem “as leis da natureza”, não as inventam. É o mesmo ensinamento de Louis Pasteur (1822-1895) e da escolástica. A mesma premissa ocorre na ética, com as verdades éticas, que emanam do conhecimento racional da natureza dos seres, como ensinou Montesquieu.

O conhecimento das regras éticas evolui, clarificando-se, por nuances e acúmulos (sedimentalmente), na medida do aumento do conhecimento humano, na história, como ensinou Jacques Maritain, o filósofo mais estimado de Paulo VI.

Conclusão: as idéias (inclusive regras) jurídicas naturais e positivas são regras de conduta, por isso, são estáveis nas grandes linhas, mas também flexíveis. Há, dentre outras, duas razões para isso: 1º) a mudança constante dos fatos, das circunstâncias, pela mobilidade do mundo temporal, o fluxo do devir; e 2º) o progresso social, cultural e jurídico na história, o progresso cultural cumulativo, da humanidade. Os princípios formam as regras mais estáveis, sendo, assim, a ossatura do mundo jurídico. A carne, os nervos e a pele mudam pelas circunstâncias, adaptam-se à cor do ambiente.

Mesmo na eternidade, nos movemos no tempo, pois a eternidade é o tempo que nunca acaba, o tempo pleno, sob controle gradual de todos. 

A formação do Estado social dentro do processo histórico, com marcos constitucionais

Os textos de Canotilho, um dos maiores juristas constitucionalistas do mundo, mostram que, mesmo durante a Idade Média, pensadores ligados à Igreja defendiam a teoria jusnaturalista da mediação, da democracia popular. Os juristas ligados ao Imperador, os gibelinos, é que esposavam um esboço da teoria do direito divino do Imperador.

A mesma tese é abonada nos textos de Jorge Miranda, tido como o “pai da Constituição portuguesa” de 1976, considerada uma das melhores do mundo e a que mais influenciou os pontos bons da Constituição brasileira de 1988. Jorge Miranda, tal como Alceu, é um bom exemplo da compatibilidade entre o catolicismo e o socialismo democrático, pois ele participava de um Partido socialista ligado à Igreja, sendo católico.

As Constituições de Weimar (1919, com ampla influência católica), a portuguesa, a espanhola (1978), a francesa (de 1848, 1946, 1958, com outras alterações), a italiana (1947), a alemã (1949) e outras, da Europa, contêm várias linhas gerais que esboçam o nascedouro de uma democracia social, popular.

Trata-se de um Estado de bem estar social amplo, um grande Estado social, na mesma linha de Franklin Roosevelt e do trabalhismo inglês e escandinavo. Há a mesma linha no Partido do Congresso, na Índia, e na Constituição da Índia, idem para a África do Sul ligada a Mandela. O mesmo para Nasser no Egito. Indonésia, Irã, Turquia, Rússia com Putin etc. 

Esta linha é paralela ao socialismo democrático e ao nacionalismo do terceiro mundo e deve ser ampliada, com a superação gradual do capitalismo, do latifúndio e do imperialismo.

A Constituição francesa de 1946 tem, no preâmbulo, a frase “princípios políticos, econômicos e sociais particularmente necessários a nosso tempo”, expressando o “ideal histórico” de uma democracia popular, social e participativa.

Num sentido parecido, brotaram, no leste europeu, várias democracias populares, esboçando uma síntese entre socialismo e democracia.

Neste mesmo diapasão histórico, há as constituições dos países africanos após o fim do colonialismo, as constituições da Índia e de vários países latino-americanos.

Todas visam superar o capitalismo, o imperialismo e o latifúndio.

Tentam delinear uma democracia popular-social com um modo de produção misto, cooperativista, distributista, com planejamento estatal, economia mista, Estado social etc.

O ideal histórico concreto de uma boa Democracia popular, com Estado social e economia mista

Os bispos católicos do mundo todo explicaram, no Concílio ecumênico do Vaticano II, no documento “Gaudium et spes” (n. 553): inspirado no “humanismo”, baseado na “antropologia cristã”, é um dever dos cristãos “a elaboração de projetos históricos conforme às necessidades de cada momento e de cada cultura” e povo, imersos em “circunstâncias mutáveis da história”.

O nome-síntese deste “ideal histórico” é (em meu humilde entendimento) “democracia popular participativa”. 

Em outros termos, como bem explica Marciano Vidal, uma forma de “socialismo participativo”, cooperativista, humanista etc, democracia popular, economia mista, que resgata as grandes inspirações da Paidéia, dos Santos Padres, as inspirações cristãs do socialismo pré-marxista, tal como as verdades cristãs e hebraicas presentes nos textos marxistas e nos diversos documentos socialistas no mundo todo.

Destinação universal dos bens. Deus fez os bens para todos terem um pedaço digno, mais uma parte pública, acessível a todos, uma boa economia mista

Nas palavras de João XXIII, na “Mater et Magistra” (parágrafos 215, 216 e 217), “a concepção” da Igreja sobre a “convivência social”, que é sua “doutrina social”, ensina que “o princípio fundamental desta concepção consiste em cada um dos seres humanos ser e dever ser o fundamento, o fim e o sujeito de todas as instituições em que se expressa e realiza a vida social”.

O cristianismo condena o quietismo, a alienação, a reificação do ser humano, ou seja, a redução da pessoa a um objeto manipulável, sem consciência.

A condenação da Igreja ao quietismo (lá por 1690) abriu o Século XVIII, foi a base do Iluminismo cristão, do melhor do pensamento democrático, de origem cristã. 

João XXIII condenou o capitalismo liberal e estatal, pelo mesmo fundamento: o desenvolvimento só é justo e autêntico, se for participativo, do “homem todo” e de “todos os homens” (economia mista, como frisou o padre Liberatore), de todos os seres humanos.

O capitalismo liberal e o estatal, ao se basearem no trabalho assalariado, reificam o ser humano, reduzem a pessoa a uma engrenagem.

O socialismo humanista, participativo, personalista, uma boa Democracia popular, é cooperativista, participativo, baseado na co-gestão, na autogestão, no planejamento participativo, na difusão de bens, no distributismo, na mediania.

A doutrina da Igreja quer a superação do regime assalariado, instaurando formas comunitárias e cooperativas de gestão dos meios de produção, para que o setor cooperativo seja o setor principal da economia.

Neste setor, como explicou João XXIII, as pequenas e médias unidades econômicas familiares, na cidade e no campo, estariam associadas. Da mesma forma, o setor cooperativo teria grandes unidades cooperativas, como ocorre em Mondragón, um dos maiores complexos cooperativistas do mundo, criado com a ajuda essencial de um padre.

A doutrina da Igreja busca um amplo distributismo com formas de planejamento participativo e democrático. Mably esboçou o ideal cristão social. 

Na “Mater et magistra”, João XXIII ensinou que, “quando as estruturas e o funcionamento de um sistema econômico comprometem a dignidade humana dos que nele trabalham, enfraquecem o sentido de sua responsabilidade [participação] ou impedem seu poder de iniciativa, este sistema é injusto”.

Paulo VI, na “Populorum Progressio” (n. 6), ensinou que é uma aspiração legítima do ser humano, um direito natural, “ter maior participação nas responsabilidades”, na gestão dos processos produtivos, na gestão dos ativos, nos processos decisórios, no poder etc.

João Paulo II, na “Laborem exercens”, repetiu o mesmo ensinamento: a verdadeira democracia é cooperativa, participativa, popular, não-capitalista, economia mista, distributista etc e rejeita inclusive o sistema assalariado, por reificar o ser humano.

Os bens, tal como todas as instituições e leis positivas, estão destinados naturalmente e racionalmente a todas as pessoas.

O povo deve ser o destinatário e também o titular (ser titular é ser “sujeito”) dos “cargos”, das “funções”, das formas de serviço ao próprio povo. Como ensinou Bento XVI, na encíclica “Deus Caritas est” (de 2006):

É verdade que a norma fundamental do Estado deve ser a prossecução da justiça [ou seja, orientar todos os atos da vida para o bem comum, combinando justiça distributiva e social-legal]. A finalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no respeito do princípio de subsidiariedade, a própria parte nos bem comuns, um pedaço bom (como um rolete de morcilla, marcela, bem cortado, para todos). Isso mesmo sempre o tem sublinhado a doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social da Igreja”.

O “princípio básico”, que está na base da “doutrina social”, é a “dignidade sagrada” de cada “pessoa”.

A “doutrina social” “indica” um “caminho seguro”: a ordenação (regulamentação, estabelecimento) “das relações de convivência social segundo critérios universais [gerais, presentes em todas as pessoas], correspondentes à natureza e aos meios diversos de ordem temporal”, “conformes igualmente às características da sociedade contemporânea”.

Trocando em miúdos, em bom português, a “doutrina social” da Igreja é baseada na “lei natural”, em idéias nascidas do exercício da razão, da luz da razão. Dentre estas idéias racionais, creio que a principal é o princípio da destinação universal dos bens, que decorre da sacralidade de cada pessoa, do direito natural de cada pessoa aos bens necessários para uma vida digna e plena.

Como ensinou Bento XVI, a fé “ajuda a razão a ser mais ela mesma”, permite que a razão possa “ver mais claramente o que lhe é própria”.

A “convivência humana” deve ser pautada por “critérios universais”, ou seja, pelas idéias consensuais, comuns, gerais, unversais, presentes em todos. Neste ponto, os textos de autores como Habermas, Apel, John Rawls, MacIntyre, Amartya Sen, Joan Robinson e Hanna Arendt (1906-1975, especialmente “A condição humana”) são bem acolhidos pela Igreja, pois coincidem, na apreciação do diálogo, com a concepção cristã de política.

Em regra, as idéias comuns e consensuais a todos correspondem “à natureza”, são verdadeiras e isto se deve, também, à igualdade fundamental da natureza humana. Este é o fundamento antropológico da democracia. 

Cada pessoa é única e irrepetível, mas tendo a mesma natureza humana, a mesma matriz (todos filhos de Adão e Eva), por isso somos todos iguais e passíveis de inteligir as mesmas idéias fundamentais e importantes sobre a vida prática.

A lei natural é igual para todos. Como as idéias nascem da incidência (da abstração) da luz da inteligência (multiplicada pelo diálogo) sob os seres, as idéias expressam os interesses, os projetos, as necessidades, as aspirações, os planos das pessoas.

Assim, uma sociedade justa é aquela que tem a “convivência social” pautada pelas idéias de todas as pessoas (pela participação de todos nos bens, no poder etc) e só uma sociedade assim assegura e promove o bem comum, o bem de todos.

O bem comum é o bem difundido, controlado e generalizado a todas as pessoas, o que inclui o respeito à subjetividade criadora de todas as pessoas, o respeito à participação das pessoas nos processos decisórios que lhes interessam.

Myrdal, Olof Palme, Irigoyen, Eva Peron e Dom Hélder – opção por um socialismo democrático, economia mista, Estado social

Na Itália, é importante lembrar de Giuseppe Saragat (1898-1971), autor do livro “Socialismo e liberdade” (1944), que lutou, a vida toda, pela formação de uma Frente Popular na Itália. Saragat era próximo dos trabalhistas ingleses. No final da vida, Saragat escreveu o livro “Quarenta anos de luta pela democracia”.

Nesta linha, vale a pena recordar de Hipólito Irigoyen e Eva Perón, na Argentina. Há também Carlo Rosselli (1899-1937), socialista italiano anti-fascista, que dirigiu o jornal “Justiça e liberdade” e morreu assassinado.

Olof Palme (1927-1986) apoiou a luta dos sandinistas, da teologia da libertação, tal como apoiou a Índia, a Tanzãnia, Jamaica, Cuba, Costa Rica e outros países. Um tanto mais moderado que Olof, é importante destacar também Willy Brandt, pseudônimo de Herbert Ernst Karl Frahm (1913-1992).

Willy Brandt liderou o Partido Social Democrático da Alemanha Ocidental, deixando claro a harmonia entre o socialismo democrático com a religião, pois seu governo manteve amplas políticas de Adenauer, formando uma coligação informal com o Partido democrata cristão alemão.

Myrdal seguia a tradição democrática e humanista dos primeiros socialistas. A maior parte dos primeiros socialistas adotava uma fundamentação religiosa, como demonstrou o padre Fernando Bastos de Ávila, no livro sobre as origens do socialismo pré-marxista.

Em meu livro sobre a origem do pensamento socialista, demonstrei, com textos, as raízes religiosas do socialismo, ou seja, que as melhores ideias do socialismo nascem da ética cristã-judaica. Vale à pena ler o livro “Aspectos políticos da teoria econômica” (São Paulo, Nova Cultural, 1986, p. 9), onde Mirdal escreveu: “todas as minhas raízes, porém, encontram-se na filosofia do iluminismo, e os autores socialistas franceses e ingleses mais antigos [quase todos com ideias religiosas] haviam exercido uma influência bem mais vigorosa sobre mim. Diferentes de Marx, os socialistas utópicos eram planejadores” (grifo no original).

Há as mesmas idéias nas obras de Hobson, que queria uma socialismo democrático com amplo respeito às liberdades etc.

Conclusão: como ensinava Dom Hélder, o aumento da intervenção estatal na economia, do planejamento, pode gerar uma “tecnocracia” (uma verdade que Trotski, em sua boa crítica ao estalinismo, apontou com precisão) que só pode ser controlada pelo aumento da participação das pessoas (e destas em associações) no Estado, pelo reforço da democracia, num modelo de democracia participativa, economia mista, Estado social.

Eduardo Benes e Thomás Garrigue Masaryk, socialismo de fundo religioso, economia mista, democracia popular, na Tchecoslováquia

Eduardo Benes (1884-1948), ex-presidente da antiga Tchecoslováquia (hoje, dividida em dois países: República Tcheca e Eslováquia), também ensinava que a essência da democracia é a tese que todas as pessoas têm almas (consciências), que todas as pessoas são sagradas e irrepetíveis (ponto visto por Marx).

Benes continuou a linha de seu mestre, Tomás Garrigue Masaryk (1850-1937), que também adotava um socialismo democrático com fundamentos religiosos.

Masaryk foi o primeiro presidente da Tchecoslováquia.

Benes expôs suas idéias no livro “Democracia de hoje e de amanhã” (Rio de Janeiro, Ed. Calvino, 1945). No epílogo (p. 287) desta obra, Benes, também defensor de uma democracia popular-social, concluía:

A democracia humanitária, concebida com todas as suas conseqüências, tem um aspecto pelo quase se distingue de outros sistemas, isto é, sua relação direta e positiva para com aquele elemento espiritual e social que constitui a religião e o conceito de Deus. Toda a essência da democracia, seu caráter espiritual, idealista e humanitário, sua fé no aperfeiçoamento do homem até o mais alto. O sistema democrático sempre tem respeitado, portanto, a religião, o culto religioso e as igrejas. A religião cristã, em particular, como sistema religioso, é, na sua essência ideológica e ética, absolutamente compatível com a democracia”.

A Editora Calvino era do PCB, no Brasil, e editou esta obra para cativar o voto católico. A obra mostra, no fundo, que as melhores ideias do socialismo nascem na ética religiosa cristã-judaica. 

A origem da filosofia cristã, segundo Marx, Engels, Bruno Bauer e outros.

Marx e Engels acataram as idéias de Bruno Bauer, sobre “a origem histórica do cristianismo”. Engels, em 11.05.1882, no jornal “Sozialdemokrat” (entre 4 e 11 de maio de 1882), publica um texto elogiando Bruno Bauer. Neste texto, discorre sobre a “investigação” de Bruno Bauer sobre a “origem histórica do cristianismo”.

Sua investigação alcançou seu ponto alto na conclusão que o judeu de Alexandria, Filon, que ainda vivia por volta de 40 D.C., mas já era muito velho, foi o pai verdadeiro do Cristianismo, e que o estóico romano Sêneca era, por assim dizer, seu tio. Os escritos numerosos atribuídos a Filon tem … origem realmente em uma fusão alegórica e racionalisticamente concebida das tradições judaicas com as gregas, particularmente a filosofia estóica. Esta conciliação de perspectivas ocidentais e orientais já encerra todas as idéias essencialmente Cristãs: o pecado inato do homem, o Logos, a Palavra, que está com Deus e é Deus e que se torna o mediador entre Deus e homem: a compensação, não por sacrifícios de animais, mas trazendo-se o próprio coração a Deus, e finalmente a característica essencial que na nova filosofia religiosa, invertendo a ordem mundial anterior, busca seus discípulos entre os pobres, os miseráveis, os escravos, e os rejeitados, e menospreza o rico, o poderoso e o privilegiado, originando o preceito para menosprezar todo prazer mundano e mortificar a carne”.

No texto acima, de verdade, há basicamente o fato do cristianismo ter nascido historicamente, e no plano humano, de uma síntese das “tradições judaicas” (Paidéia hebraica) com as “tradições gregas, particularmente a filosofia estóica”. Esta síntese está presente nos fariseus, que eram o equivalente aos estóicos gregos, como descreveu Flávio Josefo.

O texto de Engels, na seqüência, lembra que a “filosofia grega vulgar”, no sentido de popular, era o estoicismo. E que esta filosofia popular entre os gregos já ensinava pontos como “a doutrina de um Deus único e a imortalidade da alma humana”. Também ensina corretamente que no próprio “judaísmo” da época já havia uma “mistura” decorrente das relações com “estrangeiros e meio-judeus” e uma filosofia popular pautada pelo monoteísmo e a idéia da “imortalidade da alma” (especialmente entre os fariseus).

No início, nos textos dos Padres Apostólicos, tal como em alguns textos de São Paulo, há inclusive um apreço principal pelas idéias do estoicismo eclético (que cultivava também os textos de Platão e de Aristóteles), pois o estoicismo é uma filosofia aberta, ecumênica, de origem semita, que mistura idéias de Heráclito, Xenófanes, Sócrates, de Sófocles, Eurípedes, de Platão e de Aristóteles.

O estoicismo era também uma mistura e uma síntese entre as melhores idéias gregas e boas idéias da “cultura semita”, presente na região de Tarso, da Síria, em Chipre e outras regiões, que foram o berço e a base da difusão do estoicismo e dos grandes estóicos.

Nesta mistura, cozida num bom caldeirão em boa mistura e síntese com as idéias hebraicas, a Igreja elaborou idéias sobre o Estado, o direito, a política, a ciência etc. Estas idéias estão nos textos do Novo Testamento, nos Padres Apostólicos, nos Apologistas, nos Santos Padres e daí passaram para a Escolástica. Depois, reaparecem no Renascimento e formam a matéria principal do neoclassicismo, explicitando-se com a Revolução Francesa e nas idéias atuais. No fundo, é a base intelectual para a elaboração de um bom Estado popular, de uma boa República popular, com economia mista, boas estatais, distributismo, que o bom Alceu e Barbosa Lima Sobrinho descreveram. Idem para Paulo Bonavides, em seus melhores textos. 

Conclusão: há uma linha que perpassa por toda a história da Igreja. Uma linha de amor ao povo, à razão, ao corpo etc. Esta linha é o humanismo realista cristão. Trata-se do cerne da filosofia cristã, como bem apontaram Maritain e Alceu Amoroso Lima. Há, no bojo desta linha, implícito, o ideal de uma democracia popular e social, ideal presente na Bíblia e na Paidéia.

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