Arquivos para : Pio XII

As ideias cristãs fazem parte do NÚCLEO original das ideias socialistas, a parte do Trigo

“Mensagem dos bispos do Terceiro Mundo” (um documento firmado por Dom Hélder e outros bispos em 1968) é claríssima sobre o mal do capitalismo e a defesa de um modelo de socialismo democrático:

“… a Igreja, de um século para cá, tem tolerado o capitalismo com o empréstimo a juros legais e outros uso dele, pouco conformes com a moral dos Profetas e do Evangelho. Mas, ela não pode senão regozijar-se ao ver aparecer no meio dos homens outro sistema social menos distante desta moral. Caberá aos cristãos de amanhã, segundo a iniciativa de Paulo VI, reconduzir as suas verdadeiras fontes cristãs essas correntes de valores cristãos que são a solidariedade, a fraternidade (cf. “Ecclesiam Suam”). Os cristãos têm o dever de mostrar que “o verdadeiro socialismo é o cristianismo integralmente vivido, na justa repartiçaõ dos bens e a igualdade fundamental”.

“Longe de nós mostrar-nos contrários a ele; é, antes, necessário que adiramos com alegria, como a uma forma de vida melhor adaptada a nosso tempo e mais conforme com o Espírito do Evangelho” (“Cuadernos de Marcha, n. 9, janeiro de 1968. De Camilo Torres a Helder Câmara)”.

No núcleo mais profundo do movimento democrático e das correntes socialistas e comunistas há inúmeras sementes de verdade e idéias cristãs, como reconheceram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

O principal é distinguir os bons elementos (os bons sinais, sementes do Verbo) e acolhendo-os, jogando fora os erros das partes más (a água suja que lavou o bebê).

Por exemplo, a Liga dos Justos nasceu cristã, inspirada nos textos cristãos de Lamennais, Sismondi, dos carbonários, de Philip Buonarotti (1761-1837), Giuzeppe Mazzini, Saint-Simon, Weitling, Ludwig Borne (1786-1837, cristão), Victor Considerant (1808-1893), Benjamin Buchez (1796-1865) e de Etienne Cabet.

A Liga defendia, antes de Marx, a “teoria da comunidade de bens”, com base no livro “Atos dos Apóstolos”, usando os textos de Santo Tomás Morus, Campanella, Mably, Morelly.

Os primeiros socialistas usavam textos do cristianismo primitivo, de São Basílio e Moisés. Esta comunidade de bens é o princípio da destinação universal dos bens e faz parte essencial da ética cristã e hebraica.

Os carbonários, por exemplo, lutavam pela democracia e também abonam a tese deste livro sobre a harmonia entre a religião e a democracia social.

A religiosidade dos carbonários fica mais do que evidente nos textos históricos da seita, nos seus ritos e na própria fórmula do juramento.

Esta religiosidade foi reconhecida inclusive no documento “Ecclesiam a Jesu Christo” (13.09.1821), onde Pio VII constata o apreço dos carbonários por Cristo, pelo cristianismo e pela Igreja.

Nos ritos e dogmas carbonários há o amor à paixão de Cristo e por outros “mistérios” religiosos. Em seus juramentos, a base é religiosa. Tinham erros teológicos, mas também bases verdadeiras.

Na França, os líderes iniciais da Carbonária foram homens religiosos como Buchez e mesmo Bazard.

Na Itália, um de seus líderes principais foi Giuseppe Mazzini, um italiano com grande religiosidade, defensor de uma democracia social e econômica, com fundamentação religiosa.

A religiosidade dos carbonários foi atestada pelo próprio Pio VII, na bula “Eccles. à Jesu-Christo”, em 1821: “eles afetam singular respeito e um zelo admirável pela religião e pela doutrina e pessoa de Jesus Cristo, a quem” chamam de “seu grão-mestre e o chefe da sua sociedade”. Usam “discursos que parecem mais suaves que o óleo”.

Neste documento, Pio VII condenou o juramento de segredo dos carbonários, com o mesmo argumento da proibição da maçonaria.

As sociedades secretas são anti-democráticas, pois fogem à luz pública do dia. Esta premissa foi adotada pelo Cardeal Salvatore Pappalardo, arcebispo de Palermo, no conflito contra a máfia, na Sicília.

O diálogo ecumênico (ecletismo racional) e aberto entre correntes de idéias contrapostas é essencial na ética cristã, como ressaltava Alceu.

Este diálogo auxilia no surgimento de uma democracia participativa. Em outros termos, auxilia no parto de uma forma boa de socialismo humanista e participativo.

Conclusão: a difusão do controle (do poder, dos bens), ou seja, a democratização (o poder do povo em todas as instâncias) da sociedade, é uma exigência cristã e natural.

O ideal histórico concreto da Igreja Católica é uma DEMOCRACIA POPULAR PARTICIPATIVA, ECONÔMICA, SOCIAL, CULTURAL, POLÍTICA ETC.

A verdadeira democracia é uma síntese de democracia política, social, econômica e cultural. Esta síntese foi batizada de “democracia participativa” ou “socialismo participativo”.

Democracia plena ou integral é basicamente a Fórmula principal da Igreja, a síntese da combinação das regras éticas naturais defendidas pela Igreja, a concreção das “virtudes” (regras racionais e naturais da vida).

No fundo, Democracia participativa econômica é o ideal clássico. A“politéia”, na terminologia aristotélica e tomista, ou seja, o regime governado pelo povo visando o bem comum, o bem do povo. Este é também o ideal cristão e hebraico.

Não há democracia verdadeira sem a democratização e humanização das relações sociais. Especialmente das relações produtivas, de trocas e do consumo.

Por isso, é vital a democratização da estrutura jurídica das unidades produtivas e de toda a estrutura produtiva nacional, concretizando o princípio da destinação universal dos bens, com a estatização dos meios de produção com excessivo poder (os grandes meios e mesmo médios, com influência social excessiva, cf. Pio XI, na “Quadragésimo anno”), planejamento público participativo, distribuição maciça dos bens (renda, moradia, creches, escolas públicas, saúde pública etc) na medida das necessidades de cada pessoa etc.

Nesta linha, o grande católico, Plínio de Arruda Sampaio, no livro “O Brasil pode dar certo” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1994, p. 90), ensinou que “a democracia econômica” exige “a democratização” da estrutura das unidades econômicas, com o fim da “concentração de poder econômico”.

Plínio enfatizou que é absolutamente necessário “um substancial processo de distribuição de riqueza e da renda”, especialmente considerando que “o Brasil é o país que apresenta o índice de concentração de renda [coeficiente de Gini, em homenagem a Corrado Gini] mais elevado do mundo”.

Também destacou a necessidade de “uma regulamentação efetiva” da economia, para evitar três males: a “concentração da renda”, a falta de “um padrão de vida decente a todos” e a “devastação dos recursos naturais”, do meio ambiente.

Plínio de Arruda Sampaio foi um dos grandes leigos da Igreja e seus textos têm bom amparo na Tradição cristã, na linha de Alceu Amoroso Lima, de Frei Betto, de Dom Hélder e outros luminares.

Por direito natural – cuja compreensão é ampliada e em parte alterada no processo histórico –, os trabalhadores têm direito ao controle pessoal dos meios de produção (cf. “Genêsis, 1,29).

Os trabalhadores devem ter a maior parte dos frutos de seus trabalhos, obtendo remunerações sem a extração da mais-valia. Da mesma forma, devem ter coisas elementares como: boas condições de trabalho; jornada de seis ou sete horas corridas com semana de 35 horas ou menos, como exigiam Santo Tomás Morus, Campanella, Morelly e Mably.

Pela ética cristã e natural, humana, os trabalhadores, os produtores, tem o direito natural de trabalharem sem serem reificados, sem serem transformados em objetos, sem consciência, em “proletários”.

A sociedade não deve ter proletários e nem milionários, sem miséria e sem opulência.

Toda pessoa, somente por existir, tem o direito natural a uma renda básica assegurada pelo Estado.

Todos os trabalhadores deveriam ter estabilidade de emprego (como prevê a OIT, que estende aos trabalhadores privados o regime hoje adotado pelos funcionários públicos).

No bojo das relações de trabalho, os trabalhadores deveriam ter formas de autogestão (recomendadas por Maurício Tragtenberg, João Bernardo e outros) ou co-gestão consensual; tal como o acesso à contabilidade e às informações; à participação nos resultados (reditos, excedente) etc.

Nesta mesma linha, Alceu, na revista “A ordem” (Rio de Janeiro, Ed. Centro Dom Vital, julho a setembro de 1947, p. 188), exigia “a substituição [superação] do patronato pela associação”, a “substituição do salário pela participação” e a “superação do capitalismo individualista ou estatal, pelo humanismo econômico”.

Esta foi também a linha de Maritain, de Mounier, de Marc Sangnier, do abade Pierre, de Lebret, João XXIII e outros bons expoentes da Igreja.

Era o ideal de Mably, de Morelly, dos grandes bispos do Círculo Social, do padre vermelho Jacques Roux, do bispo Gregório, de Lamennais, Buchez, Ketteler, do Partido do Centro, De Mun, da Escola de Liège e outros luminares da Igreja.

A evolução social e trabalhista deve transformar gradualmente (o mais rápido possível) toda a estrutura econômica, de cada país e cidade, numa estrutura cooperativista (baseada na co-gestão e na autogestão) com planejamento estatal participativo e amplo distributismo, como recomendavam Buchez e Keteller.

Sobre a necessidade de uma estrutura cooperativa na economia, vejamos a lição do Vaticano II, do documento “Gaudium et Spes” (n. 67), dos bispos católicos do mundo todo em consenso com o Papa:

Como a atividade econômica se processa normalmente pelo trabalho associado dos homens, é iníquo e desumano dispô-la e organizá-la de tal modo que se transforme em prejuízo para qualquer trabalhador. Acontece, porém, muitas vezes, também em nossos dias, que os que trabalham são, de certa maneira, escravizados pela própria obra. E isso não se justifica de modo algum”.

Como explicaram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, o trabalhador (a pessoa) não deve ser explorado pela extração da mais valia e não deve ser tratado como uma coisa, um objeto, um robô (vide a crítica de Karel capek, na peça “Rossum´s Universal Robots”; ou do teísta H.G.Wells, em “The time machine”). Há a mesma idéia no filme de Charles Chaplin.

O ser humano não deve ser tratado como coisa, sem subjetividade, nem dentro das unidades de trabalho, nem nas escolas, nos quartéis, nos presídios ou na vida civil.

Em todas estas esferas deve haver participação do povo (das pessoas) na formulação das decisões gerais, que interessam a todos.

A antropologia cristã do trabalho (e do ser humano) exige o respeito à subjetividade humana, especialmente na vida pública do país. O princípio é o mesmo: as pessoas devem participar ativamente dos bens, do poder, da cultura, do saber, dos prazeres racionais, etc.

Deve haver justiça comutativa nas relações de trabalho. O trabalho deve ser remunerado sem a extração de mais-valia (sem usura, sem infração à comutatividade das prestações).

Além disso, na medida em que as unidades produtivas forem maiores e mais poderosas, elas ficam cada vez mais sujeitas ao direito público (a formas de planejamento participativo), aos ditames da justiça distributiva e, principalmente, da justiça social (geral), à soberania da sociedade.

As unidades produtivas que detenham poder excessivo deveriam ser estatais, com co-gestão. As pequenas e médias unidades devem ser regulamentadas também.

A regulamentação pública (planejamento estatal participativo, regras, controle de preços etc) deve variar na medida exata do poder destas unidades, tal como dos bens produzidos.

Um dos remédios mais essenciais e salutíferos para coibir o mal é erradicar dois dos males piores: o capital monopolista (os monopólios, trustes, cartéis, multinacionais etc) e o latifúndio.

Estes são dois males diabólicos e filhos da soberba, da avareza e da cobiça, vícios e pecados proibidos expressamente nos Dez Mandamentos (tal como na ética do hinduísmo, do budismo, das religiões africanas etc).

O capital oligárquico (especialmente multinacionais e bancos privados) e o latifúndio geram a proletarização nas cidades e nos campos.

Conclusão: um “regime” justo requer a difusão maciça dos bens (o máximo de distributismo) e a participação de todas as pessoas na gestão destes bens, tal como no poder.

Esta foi a lição de Santo Tomás Morus, na “Utopia” (1519), onde os bens são comuns (acessíveis a todos). Os cargos (frações de poder) são abertos a todos. São eletivos ou providos por concursos públicos (como também defendia Confúcio, autor sempre elogiado e difundido na Europa, pelos jesuítas).

Esta foi também a lição de Campanella, na “Cidade do sol”, onde ensinou que “entre os solarianos existem tantas autoridades como entre nós nomes de virtudes: magnanimidade, coragem, castidade, generosidade, bom humor, sobriedade etc”.

Campanella ensinou que as eleições são a melhor forma de provimento de cargos: “eleitos para os cargos”.

Na mesma linha, há as idéias do “Código da natureza”, do padre Morelli, que influenciou diretamente Babeuf e Buonarroti, que eram teístas também.

Há ainda os textos de Mably e de praticamente todos os precursores do socialismo (Sismondi, Saint-Simon, Leroux, Fourier, Fourier, Buchez e outros) que tinham idéias e sentimentos religiosos. Fica evidente que o socialismo nasceu de ideias éticas da Igreja, distorcidas, mas de ideias religiosas católicas.

O socialismo tem, assim, um núcleo correto, de BOM TRIGO, basta retirar os erros, sendo um sistema econômico misto, pois une o máximo de difusão pessoal de bens a um máximo de socialização não reificante, participativa, baseada na liberdade. 

Pio XII defendia a “SOCIALIZAÇÃO”, ou seja, defendia AMPLA intervenção Estatal na economia

Pio XII, no “Discurso às Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos”, em 11.03.1945, defendia a “DEMOCRATIZAÇÃO da economia“, “ameaçada” “pelo monopólio, isto é, pelo despotismo econômico de uma aglutinação anônima de capital privado”.

Pio XII defendia a ECONOMIA MISTA, igual ao Pio XI e João XXIII.

O Estado poderia e deveria ter ESTATAIS, ao lado de MILHÕES de MICROS, PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS FAMILIARES, sem OLIGOPÓLIOS, MONOPÓLIOS PRIVADOS. 

Pio XII deixava claro que concordava com a “SOCIALIZAÇÃO” “nos casos em que se apresenta” “como exigida pelo bem comum”.

Como fica claro, não foi João XXIII o primeiro Papa a usar o termo “socialização”, e sim Pio XII ou mesmo, talvez, Pio XI. 

Neste “Discurso”, Pio XII defende a SOCIALIZAÇÃO “como meio verdadeiramente eficaz para remediar um abuso ou evitar um DESPERDÍCIO das FORÇAS PRODUTIVAS DO PAÍS”.

Pio XII defende a SOCIALIZAÇÃO, ESTATIZAÇÃO DE GRANDES BENS PRODUTIVOS, “para assegurar a ordenação orgânica [organização] destas mesmas forças e dirigi-las em proveito dos interesses econômicos da nação”, do povo, de todo o povo. 

Ou seja, a SOCIALIZAÇÃO para obter a PLANIFICAÇÃO, a ORGANIZAÇÃO PÚBLICA da economia.

Não significa estatizar tudo, pois o correto é haver AMPLO DISTRIBUTISMO, todos terem BENS SUFICIENTES, ERRADICAR A MISÉRIA, A CONDIÇÃO PROLETÁRIA. Para isso é essencial existirem ESTATAIS para grandes bens produtivos, planificação, intervenção estatal na economia etc. .

Um estatuto público, organização pública, AMPLA INTERVENÇÃO. Isso é necessário, continua Pio XII, neste discurso, “tendo como objetivo que a economia nacional, em seu desenvolvimento regular e pacífico, abra o caminho à PROSPERIDADE MATERIAL de TODO O POVO” (suficiência de bens, para TODOS). 

E Pio XII ainda destacava que esta “PROSPERIDADE MATERIAL DE TODO O POVO” seria o “FUNDAMENTO SADIO também para a VIDA CULTURAL e RELIGIOSA”. 

Pio XII, neste último parágrafo, adota a mesma base teórica de São Tomás de Aquino: um conjunto de bens suficientes para uma vida digna é essencial para o cultivo da própria vida intelectual, cultural e até ética. Humanismo cristão. 

Até o conceito de “nobreza” da Igreja é estatal, pró socialismo

Pio XII, no Discurso de 08.01.1947, para a Nobreza italiana, lembrou que o conceito de “nobreza ou aristocracia”, da Igreja, não é de latifundiários escravocratas ou rentistas, e sim de “famílias que, por Tradição, põem todas as suas energias a serviço do Estado, de seu governo, da Administração, e sobre cuja fidelidade ele [o Estado] pode contar a qualquer momento”.

Pio XII destacou que a “educação tradicional e familiar” destas famílias dedicadas ao Estado é baseada na “vontade de não vos prevalecerdes de vossa condição” “senão para servir”, com “humildade” o bem comum.

Pessoas “nobres” não são os ricos (latifundiários), e sim pessoas humildes, abnegadas, que assumem a “missão” de “servir”, de SERVIDORES PÚBLICOS, de ajudar o Estado a promover o bem comum. 

Pessoas “nobres” são servidores públicos, são famílias que treinam os filhos, desde o inicio, para serem servidores públicos, bons funcionários públicos

A Igreja condenou o capitalismo inúmeras vezes

Pio XII, na Exortação ao clero, em 23.09.1950, repetiu a condenação da Igreja ao capitalismo, criticando parte do clero pela omissão:

não são raros os padres que se mostram tímidos e inseguros, que diz respeito ao sistema econômico que tira seu nome da acumulação excessiva do capital ou dos bens privados. Mais de uma vez, tem a Igreja denunciado os abusos das grandes riquezas e mesmo do direito de propriedade, que um tal regime econômico gera e protege”.

A razão da condenação ao capitalismo foi bem explicada por Pio XII, neste discurso.

O capitalismo reifica as pessoas, transforma as pessoas em coisa fruíveis, tal como infringe a regra do primado das pessoas sobre os bens, o princípio da destinação universal dos bens: nas palavras de Pio XII:

“os bens” (toda “riqueza”, toda “posse”) “devem ser instrumentos” “para vantagem da sociedade inteira e também para a salvaguarda e o desenvolvimento da liberdade e da dignidade humana”.

As pessoas, usando a liberdade, devem autogovernarem-se e também regerem a vida social e a VIDA ECONÔMICA, as unidades produtivas, como sujeitos, usando dos bens, como instrumentos (causas instrumentais da produção, sempre subordinados ao trabalhador, que tem primazia).

O Estado deve regrar e planejar o uso dos bens, para que todo uso (utilização) de bens seja em prol do bem comum, sem reificação, sem exploração etc. 

A Igreja condenou o capitalismo e o liberalismo, em vários textos

A Igreja, em vários documentos, criticou o capitalismo. 

Por exemplo, Pio XII, na exortação “Menti Nostrae”, escreveu: “outros, contudo, se mostram tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves consequências”.

A Igreja ensina que o trabalho e os bens têm aspectos pessoais e sociais, que todos os bens devem ser apenas apenas “instrumentos, em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana”.

Na Encíclica “Quadragésimo anno”, 1931, Pio XI criticou o “liberalismo manchesteriano”, ponto que Engels, que viveu em Manchester, iria apreciar. 

A DIFERENÇA entre pobreza evangélica, moderação, e MISÉRIA, um mal a ser combatido e erradicado

Pio XII, na carta “Dilecti Fili” (“Amados filhos”), em 18.10.1949, lembrou a DIFERENÇA entre duas coisas totalmente diferentes, a POBREZA EVANGÉLICA e a MISÉRIA. 

A POBREZA EVANGÉLICA é uma virtude, é ser despreendido, bondoso. Nos termos do Papa, “é um bem, é amiga da virtude e se contenta com pouco”, significa não ser CONSUMISTA, não ser ambicioso, amar a VIDA SIMPLES, gastos simples, não querer dedicar todo o tempo a juntar bens, querer ter os bens suficientes para uma vida feliz, próspera, útil a si mesmo, a sua família e a sociedade.

Uma sociedade socialista é formada por pessoas com bens privados moderados, ponto que Rousseau e Mably, tal como a Bíblia, Platão e Aristóteles, defendiam. 

Uma sociedade pautada pela regra da pobreza evangélica é uma sociedade IGUALITÁRIA, MEDIANIA, sem MISÉRIA e sem grandes fortunas privadas. 

A “MISÉRIA”, nas palavras do Papa, é um mal, deve ser “perseguida”, combatida, “abolida”, erradicada. 

O Papa acrescentou: o Estado, por causa da justiça social, deve operar, agir, “regulando convenientemente a DISTRIBUIÇÃO e o USO das riquezas, de maneira que não se concentrem excessivamente num lugar, e não faltem totalmente em outro; de fato, as riquezas [bens] são o sangue da comunidade humana e devem circular normalmente entre todos os membros do corpo social”. 

Pontos da Política pro Campesina, da Igreja Católica

Pio XII, Discurso de 11 de abril de 1956 aos participantes do X Congresso da Confederação Nacional dos Cultivadores Diretos da Itália (AAS., vol. XLVIII, pp. 278-279):

“Não nos compete definir as providências particulares que a sociedade deve adotar para cumprir a obrigação de prestar auxílio à classe rural; não obstante, afigura-se-Nos que os objetivos colimados pela vossa Confederação, coincidem com os deveres da própria sociedade para convosco.

Tais são, por exemplo: difundir a propriedade agrícola e o seu desenvolvimento produtivo; colocar os agricultores não proprietários em condições de salários, de contratos e de rendimento capazes de lhes favorecer a estabilidade nas terras por eles cultivadas e de lhes facilitar a aquisição da plena propriedade (salvo sempre a consideração devida à produtividade, aos direitos dos proprietários e, sobretudo, aos seus investimentos );

incentivá-los, mediante auxílios concretos, a melhorar as culturas e o patrimônio zootécnico, de modo que com isso se favoreça quer o seu rendimento, quer a prosperidade nacional;

promover, além disto, em favor deles, as formas de assistência e de seguros comuns aos demais trabalhadores (porém administradas segundo as condições especiais do agricultor); 

facilitar a preparação técnica, especialmente dos jovens, de acordo com os métodos racionais e modernos em contínuo progresso;

e finalmente esforçar-se para que seja removida essa diferença demasiado gritante entre o rendimento agrícola e o industrial, causadora do abandono dos campos, com tanto dano para a economia num país como o vosso, fundado em boa parte na produção agrícola.

A estes encargos da sociedade em proveito vosso juntem-se os que derivam das particulares condições de vossos campos, ainda não suficientemente providos, aqui e acolá, de habitações, estradas, escolas, água encanada, energia elétrica, ambulatórios médicos”.

O padre Jacques Roux, o Cura Vermelho, um dos muitos padres precursores do socialismo e da luta pela Democracia popular

O padre Jacques Roux, precursor do socialismo, da Democracia popular e da teologia da libertação.

Jean Jaurès, no livro “História Socialista de la Revolucion Francesa” (Editorial Poseidon, Buenos Aires, Argentina, 1946), elogiou o padre Jacques Roux como o líder dos enragés, dos enraivecidos. Roux combatia o açambarcamento, os juros, os ágios, a usura e atacavam os monopolizadores privados (trustes e cartéis da época), os agiotas (bancos privados) e outros exploradores. Jean Varlet foi outro líder, mas não tinha sequer 20 anos e por isso não é tão citado.

O padre Roux tinha 40 anos na fase mais turbulenta da Revolução Francesa.

Jaurès demonstrou que Roux era mais radical que Robespierre, Marat e Hébert.

Roux e François-Émile Babeuf tinham algumas posições semelhantes, defendendo, como Mably, uma boa economia mista. Vou postar textos de Babeuf e Mably sobre economia mista. Lembro que o próprio Marx, no “Manifesto”, defende, como regime de transição, uma economia mista. Lembro também que Lenin defendia a NEP, Nova Economia Política, economia mista, ideal bem exposto por Bukharin, que Stalin deveria ter mantido, pois isso permitir o florescimento da URSS como economia mista, coisa que Putin tenta realizar hoje.

Robespierre, Danton, Saint-Just e outros tinham fortes sentimentos e idéias religiosas. Na linha de Mably, Morelly, do padre Raynal, de Babeuf e de Buonarrotti, nenhum deles era ateu. Mesmo Diderot morreu como panteísta estóico, elogiando o grande Sêneca, como o maior exemplo de filósofo. Voltaire morreu reconciliado com a Igreja. Voltaire só foi maçon por poucos meses, antes de morrer, morrendo, no entanto, como católico, com os Sacramentos, Unção dos Enfermos etc. 

O próprio Marat entrou em choque com os materialistas epicuristas do século XVIII e defendeu a imortalidade da alma em suas obras sobre medicina e fisiologia.

Da mesma forma, Marat defendeu os presos pobres, escreveu obras de criminologia e sobre reforma do Judiciário, com boa fundamentação jusnaturalista e cristã. A forma como Marat analisava os fatos mostra seu apreço pela ética e pelo povo. Ele errou ao defender medidas sanguinárias, mas sempre foi um jornalista popular, que defendia causas populares.

O padre Roux foi um dos líderes dos enragés, enraivecidos. Atacou duramente o monopólio econômico dos ricos (acúmulo privado dos bens), denunciando os agiotas etc. Defendia os camponeses, os pequenos produtores e os artesãos (no fundo, formas cooperativas), um grande Estado democrático popular, exigindo também limites e regulamentação estatal da produção (formas de planejamento).

O padre Jacques Roux escreveu “Discurso sobre os meios de salvar a França e a liberdade”. No clero, houve vários sacerdotes e bispos que participaram na revolução. Os leigos franceses eram, quase todos, católicos. Bonaparte, ao assinar a Concordata com o Papa, lá por 1804, apenas explicita a reconciliação da Igreja com as melhores ideias da Revolução Francesa, pois estas ideias de igualdade, fraternidade e liberdade eram ideias cristãs (cf. vários Papas, como Leão XIII, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II reconheceram isso, em lindos discursos e textos da Igreja). 

Entre o clero, basta pensar nos exemplos do Bispo de Blois, Dom Henri Grégoire (1750-1831) e do Bispo Talleyrand, podendo ainda serem citados os sacerdotes Sieyés e Fouché.

São exemplos de membros do clero na revolução. Há também o padre Pierre Dolivier, cura de Mauchamp. O clero teve, assim, participação na Revolução Francesa. O Bispo Dom Henri Grégoire defendeu a abolição dos escravos, a República, um Estado social, defendeu os judeus etc. Uma boa estrela da Igreja. 

Houve também membros do alto clero, com indicações palacianas e entre famílias nobres, que ficaram ao lado dos aristocratas e são responsáveis pelos escândalos que afastaram muitas pessoas boas da Igreja, tal como são responsáveis alguns bispos que se omitem hoje e não defendem os pleitos populares.

A Doutrina social da Igreja quer um socialismo cooperativista, com amplas liberdades pessoais

Um “regime justo” (ordem social justa), hoje, adquire os contornos de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

Teria uma estrutura econômica cooperativa, sendo autogestionária, com base na libertação (proibição da demissão sem justa causa, estabilidade, participação na gestão em todos os níveis e esferas etc). Estabilidade no emprego como recomenda a OIT, só podendo demitir com justa causa. 

Como destacaram Alceu e Chesterton, seria uma estrutura distributista (destinação universal dos bens, cf. Marciano Vidal), sendo este um dos pontos centrais da doutrina social da Igreja, como pode ser visto no livro de Henri Desroches, “Le Projet Coopératif” (Paris, Les Editions Ouvriéres, 1976).

Desroches menciona precursores e expoentes do cooperativismo cristão e natural: J. Bellers, Fourier, Saint-Simon, Buchez, Owen, Louis Blanc, Ketteler, Lassale, Cabet, Huber, William King, Ludlow, Charles Kingsley (1819-1875), Charles Gide (1847-1932), Alfred Sauvy (“O socialismo e a liberdade”) e Georges Lasserre (“socializar com liberdade”).

Lasserre foi professor na Faculdade de Direito de Lyon. Charles Kingsley foi um grande sacerdote anglicano, expoente do socialismo cristão, cooperativista. Outro grande anglicano foi John Frederick Denilson Maurice (1805-1872), que via o movimento socialista como uma forma de realização mais intensa do Reino de Deus na sociedade, no mundo.

Quase todos os autores referidos tinham sentimentos e idéias religiosas, especialmente Fourier (que fundamentava suas idéias no Evangelho), Buchez, Ketteler, Sangnier, Maritain e Mounier. Pio X, Pio XI, Pio XII, especialmente João XXIII e João Paulo II (na “Laborem exercens”, 1981).

Estes autores e outros expoentes da Igreja elogiaram o cooperativismo, como a melhor base econômica e política de uma sociedade. O apoio cristão ao cooperativismo é a busca de uma base econômica de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

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