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O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

A importância da estatização dos bancos. Até João VI criou o Banco do Brasil, estatal, em 1808, bem antes de Marx

Louis Blanc, socialista democrático e muito religioso, no livro “Organização do trabalho”, escreveu, desenvolvendo algumas das idéias de Saint-Simon (especialmente a de usar recursos públicos para amparar talentos, trabalho produtivo, pesquisa científica, artes etc):

“a emancipação dos trabalhadores é uma obra muito complicada (….). É preciso recorrer a toda a força do Estado. O que falta aos proletários, para se emanciparem, são os instrumentos de trabalho. A função do governo é fornecer-lhos. Se tivéssemos de definir o Estado segundo a nossa concepção, responderíamos: o Estado é o banqueiro dos pobres”.

De fato, o Estado deve estatizar os bancos, para poder amparar trabalhadores, artesãos, micros, pequenos e médios produtores independentes. 

Louis Blanc, outro precursor cristão de Marx, expoente do socialismo cristão pré marxista

Louis Blanc foi um grande socialista cristão, pré marxista, que influenciou Marx. Trata-se de outra fonte cristã de ótimas ideias esposadas por Marx. A maior parte das “ideias marxistas” são, na verdade, ideias de grandes cristãos socialistas pré marxistas, como mostrou o padre Fernando Bastos de Ávila, Boff, Frei Betto e eu mesmo, no livro “Socialismo. utopia cristã”, de 1.150 páginas, com centenas de textos cristãos pré marxistas. 

Jean-Joseph Louis Blanc (1812-1882) escreveu a obra “Da Organização do trabalho”, em 1839, quando Marx tinha apenas 21 anos e não era ainda socialista.

Louis Blanc defendeu um novo sistema econômico socialista, onde o povo seria o verdadeiro senhor (controlador) e denunciou que a burguesia apossou-se do poder e dos meios do trabalho, defraudando o povo de seus direitos.

Com as manufaturas financiadas pelo Estado cada trabalhador atuaria de acordo com suas faculdades e obteria os bens de acordo com suas necessidades. Seriam financiadas pelo Governo, e geridas pelos trabalhadores.

Esta é a fórmula do cooperativismo (unidades produtivas controladas pelos trabalhadores) apoiado pelo Estado, que Marx apontou corretamente, na “Crítica ao Programa de Gotha”, como sendo da autoria de Buchez, mais tarde adotada por Louis Blanc e, depois, por Lassalle e Ketteler.

Em vários textos, que seguem em posts posteriores, Marx adotou esta fórmula (generalização na escala nacional do cooperativismo com recursos públicos), com pequenos variações.

Blanc era deísta, cristão e espiritualista. Foi sempre amigo de Vitor Hugo e os dois sempre conciliaram a fé em Deus e a defesa de modelos de socialismo com liberdades, democracia, economia mista etc.

Blanc, no primeiro volume da sua “Historia da Revolução”, ao citar Jansenius, escreve, na linha católica: “como ler sem indignação e sem terror, no Dicionário do jansenismo, as máximas que precisam, que resumem o espirito da seita? “Jesus Cristo não morreu mais para a salvação dos que não foram eleitos, do que morreu para a salvação do Diabo”. “Deus pode, antes da previsão do pecado original predestinar uns e reprovar os outros… Tudo isso é arbitrário em Deus». – «Deus fez, pela sua vontade, esta terrível diferença entre os eleitos e os réprobos”. – «Só Deus faz- tudo em nós”. – e o homem criminoso, sem o auxilio da graça, vive numa necessidade de pecar”.

Estes textos de Blanc e repetem literalmente ecoam as críticas dos jesuítas e dos Papas contra os jansenistas.

Mostram que parte dos iluministas, ligados a Rousseau e a Diderot, coincidiam com os jesuítas, na crítica aos jansenistas, que tinham uma concepção profundamente pessimista sobre a pessoa.

Os Papas, os jesuítas, Rousseau e parte dos maçons consideravam que a natureza é naturalmente boa, com a ressalva que os jesuítas apontavam que estava decaída, sujeita à tentações, e a natureza humana está destinada a melhorar, deve ser recuperada e elevada (renovava), tal como o resto do universo, que também deve ser renovado com nossa participação (trabalho cooperativo), pelo plano participativo e cooperativo de Deus.

Aloísio Teixeira, no livro “Utópicos, heréticos e malditos” (Editora Record, RJ, 2002, pp. 196-228) traz alguns bons textos muitos cristãos e católicos de Louis Blanc:

Organização do Trabalho (1839) –Louis Blanc

“Pois, para cada indigente que empalidece de fome, há um rico que empalidece de medo. “Não sei,” diz a srta. Wardour ao velho mendigo que a havia salvo, “o que meu pai tem a intenção de fazer por nosso libertador, mas, muito certamente, ele vos colocará ao abrigo da necessidade pelo resto de vossa vida. Enquanto esperais, tomai essa bagatela.” “Para que eu seja roubado e assassinado alguma noite, indo de uma aldeia para outra”, responde o mendigo, “ou para que viva sempre com medo de sê-lo, o que não é melhor! Ei! Se me vêem com um talão de cheques, quem seria louco a ponto de me dar uma esmola?”

“Admirável diálogo! Walter Scott aqui não é mais um romancista: é um filósofo, um publicista. Entre o cego que ouve ressoar na tigela de seu cão o óbolo implorado e o poderoso rei que se lamenta do dote recusado a seu filho, quem é mais feliz?

Mas será que o que é verdadeiro no plano das idéias filosóficas deixará de sê-lo no plano das idéias econômicas? Ah! Graças a Deus, não há para as sociedades nem progresso parcial nem queda parcial. Toda a sociedade se eleva ou toda a sociedade regride. São as leis da justiça melhor compreendidas? Todas as condições sociais saem ganhando. Recaem no obscurantismo as nações onde há justiça? Todas as condições sociais saem perdendo. Uma nação na qual uma classe é oprimida assemelha-se a um homem que tem uma ferida na perna: a perna doente impede a perna sadia de fazer qualquer exercício. Por isso, por mais paradoxal que essa proposição pos­sa parecer, opressores e oprimidos ganharão igualmente se a opressão for eliminada; e perdem igualmente se ela for mantida.

“Querem uma prova gritante? A burguesia estabeleceu sua dominação com base na concorrência ilimitada, que é um princípio de tirania. Muito bem! É pela concorrência ilimitada que vemos hoje a burguesia perecer. Por exemplo: se tenho dois milhões e meu rival apenas um, eu o arruinarei, com toda a certeza, no campo aberto da indústria e com o exército dos preços baixos. Homem débil e insensato! Não compreendeis que amanhã, armando-se contra vós com vossas próprias armas, algum impiedoso Rothschild vos arruinará? Tereis então cara para vos lastimar? Nesse abominável sistema de lutas cotidianas, a indústria média devora a pequena indústria. Vitória de Pirro! Porque ela será devorada por sua vez pela grande indústria, a qual, ela mesma, obrigada a perseguir até a extremidade do globo consumidores desconhecidos, participará em breve apenas de um jogo de azar que, como todos os jogos de azar, acabará para uns em ladroeira, para outros em sui­cídio. A tirania não é somente odiosa, ela é estúpida. Não há inteligência onde não há entranhas.

“Provemos então:

1. Que a concorrência é para o povo um sistema de extermínio;

2. Que a concorrência é para a burguesia causa de crescente empobreci­mento e ruína.

“Feita essa demonstração, ficará claro que todos os interesses são soli­dários e que uma reforma social é para todos os membros da sociedade, sem exceção, um caminho de salvação. (pp. 196-198). (…)

“De que maneira poder-se-ia, a nosso ver, organizar o trabalho

O governo seria considerado como regulador da produção e investido, para cumprir sua tarefa, de grande poder.

“Essa tarefa consistiria em se servir da própria arma da concorrência para fazer desaparecer a concorrência.

“O governo levantaria um empréstimo, cujo montante seria destinado à criação de fábricas sociais nos ramos mais importantes da indústria na­cional.

“Exigindo essa criação recursos consideráveis, o número de fábricas original seria rigorosamente circunscrito; mas, em virtude de sua própria organização, como se verá mais adiante, seriam dotadas de uma força de expansão imensa [esta parte é cópia quase completa de Buchez…].

“Sendo o governo considerado o único fundador das fábricas sociais, se­ria ele quem redigiria seus estatutos. Essa redação, debatida e votada pela representação nacional, teria forma e força de lei.

“Seriam convocados para trabalhar nas fábricas sociais, com a ajuda do capital primitivamente reunido para a compra dos instrumentos de traba­lho, todos os operários que apresentassem provas de moralidade.

“Como a educação falsa e anti-social dada à atual geração não permite que se busque outro motivo de emulação e de encorajamento que não um aumento de retribuição, as diferenças salariais seriam graduadas segundo uma hierarquia de funções, devendo uma educação inteiramente nova sobre esse ponto mudar as idéias e os costumes. Não é preciso dizer que o salá­rio deveria, em qualquer caso, ser amplamente suficiente para a existên­cia do trabalhador.

“No primeiro ano após o estabelecimento das fábricas sociais, o gover­no regularia a hierarquia das funções. Depois do primeiro ano, já não se­ria mais assim. Os trabalhadores, tendo tido tempo para se conhecer mutuamente, e estando todos igualmente interessados, como vai se ver, no sucesso da associação, a hierarquia seria estabelecida por eleição.

“Far-se-ia todos os anos a conta do resultado líquido, que seria dividido em três partes: uma seria repartida em porções iguais entre os membros da associação; outra seria destinada a: 1) Assistência aos idosos, aos doentes e aos acidentados; 2) Minimização das crises que ocorreriam em outras indústrias, devendo todas as indústrias ajudar-se e socorrer-se; 3) E, enfim, o fornecimento de instrumentos de trabalho aos que quisessem fazer parte da associação, de tal modo que ela pudesse ampliar-se indefinidamente.

Em cada uma dessas associações [COOPERATIVAS], formadas nas indústrias que podem operar em grande escala, poderiam ser admitidas pessoas que exercem profissões que sua própria natureza obriga a se dispersar e a se localizar. Assim, cada fábrica social poderia ser composta de profissões diversas, agrupadas em torno de uma grande indústria, partes diferentes de um mesmo todo, obedecendo às mesmas leis e participando das mesmas vantagens.

“Cada membro da fábrica social teria o direito de dispor de seu salário da maneira que lhe conviesse; mas a evidente economia e a incontestável excelência da vida em comum não tardariam a fazer nascer da associação dos trabalhos a voluntária associação das necessidades e dos prazeres.

“Os capitalistas seriam chamados para a associação e lhes tocariam os juros do capital por eles adiantado, juros esses que lhes seriam orçamentariamente garantidos; mas não participariam dos lucros a não ser como trabalhadores.

“Uma vez organizada a fábrica social de acordo com esses princípios, pode-se prever o que daí resultaria. Em qualquer indústria capital, a de máquinas, por exemplo, ou a da seda, ou a do algodão, ou na estamparia, haveria uma fábrica social fazendo concorrência à indústria privada. Seria uma luta prolongada? Não, porque a fábrica social teria, em relação a qual­quer fábrica individual, a vantagem que resulta das economias da vida em comum e de um modo de organização em que todos os trabalhadores, sem exceção, estariam interessados em produzir rápido e bem.

“Seria uma luta subversiva? Não, porque o governo seria sempre capaz de amortecer os efeitos negativos, impedindo a queda a um nível muito baixo dos produ­tos provenientes de suas fábricas. Hoje em dia, quando um indivíduo extremamente rico entra em luta com outros menos abastados, essa luta desigual é necessariamente desastrosa, já que um particular não busca senão o seu interesse pessoal; se ele pode vender duas vezes mais barato que seus concorrentes para arruiná-los e ficar senhor do campo de bata­lha, ele o faz. Mas quando, em lugar desse particular, encontra-se o pró­prio poder, a questão muda de aspecto.

“Terá o poder, esse que desejamos, qualquer interesse em arrasar a in­dústria, em abalar todas as existências? Não será ele, por sua própria natureza e posição, o protetor natural, mesmo daqueles contra os quais, com a finalidade de transformar a sociedade, moverá uma santa concorrência?

“Portanto, entre a guerra industrial que um grande capitalista declara hoje em dia a um pequeno capitalista, e a que o poder declararia, em nosso sis­tema, ao indivíduo, não há comparação possível. A primeira consagra necessariamente a fraude, a violência e todas as infelicidades que a iniqüidade carrega em seus flancos; a segunda seria conduzida sem brutalidade, sem abalos e de modo a atingir apenas a sua finalidade, a absorção sucessiva e pacífica das fábricas individuais pelas fábricas sociais.

“Assim, em lugar de ser, como todo grande capitalista hoje em dia, o senhor e o tirano do merca­do, o governo seria apenas o regulador. Servir-se-ia da arma da concorrên­cia, não para destroçar violentamente a indústria particular, no que estaria acima de tudo interessado em evitar, mas para levá-la mansamente à com­posição. Rapidamente, com efeito, em todos os ramos industriais em que se estabelecesse uma fábrica social, ver-se-ia acorrer para essa fábrica, pelas vantagens que ofereceria aos societários, trabalhadores e capitalistas.

“Ao final de um certo tempo, ver-se-ia produzir, sem usurpação, sem injustiça, sem desastres irreparáveis e em benefício do princípio da asso­ciação, o fenômeno que, atualmente, se produz tão deploravelmente e por força da tirania, em proveito do egoísmo pessoal.

“Um industrial muito rico pode, atualmente, dar um grande golpe em seus rivais e deixá-los mortos na arena, monopolizando todo um ramo da indústria. Em nosso sistema, o Estado tornar-se-ia senhor da indústria pouco a pouco e, em lugar de monopólio, teríamos, como resultado do êxito, obtido o contrário da con­corrência: a associação.

“Suponhamos atingido o objetivo em um ramo particular da indústria; suponhamos, por exemplo, os fabricantes de máquinas postos a serviço do Estado, isto é, submetidos aos princípios do regulamento comum.

“Como uma mesma indústria não opera sempre no mesmo lugar, se ela tiver di­versos núcleos, será possível estabelecer, entre todas as fábricas perten­centes ao mesmo gênero industrial, o sistema de associação estabelecido em cada fábrica isolada.

“Porque seria absurdo, após ter liquidado a con­corrência entre indivíduos, deixá-la subsistir entre corporações. Haveria portanto, em cada esfera de trabalho que o governo chegasse a dominar, um estabelecimento central ao qual se ligariam todos os demais, na qua­lidade de estabelecimentos suplementares.

“Assim como o Sr. Rothschild possui, não apenas na França, mas em diversos países do mundo, casas que se correspondem com aquela em que está fixada a sede principal de seus negócios, da mesma forma cada indústria teria uma sede principal e sucursais. Daí, não haverá mais concorrência. Entre os diversos centros de produção pertencentes à mesma indústria, o interesse seria comum, a hostilidade ruinosa dos esforços seria substituída por sua convergência.

“Não insistirei mais na simplicidade desse mecanismo; ela é evidente. Observai, com efeito, que, como cada fábrica tornar-se-ia auto-suficiente, após o primeiro ano, o governo limitar-se-ia a supervisionar a manutenção das relações entre todos os centros de produção do mesmo gênero e a impedir a violação dos princípios do regulamento comum.

“Não seria como hoje, em que o serviço público se apresenta cem vezes mais complicado. Imaginai-vos por um instante em um estado de coisas em que seja permi­tido a cada um encarregar-se do transporte das cartas, e figurai-vos o go­verno dizendo subitamente: “Somente eu farei o serviço dos correios!” Quantas objeções!

“Como poderia o governo fazer chegar corretamente, na hora marcada, tudo o que 34 milhões de pessoas podem escrever todos os dias, a cada minuto do dia, para 34 milhões de pessoas? E, no entanto, fora algumas infidelidades que decorrem menos da natureza do mecanis­mo que da má constituição dos poderes que tivemos até agora, sabe-se com que maravilhosa precisão o serviço dos correios é feito. Não falo de nossa ordem administrativa e da engrenagem de todos os aspectos que exige. Vede, no entanto, qual é a regularidade do movimento dessa imen­sa máquina!

“O modo de organização à base de divisões e subdivisões faz, como se diz, marchar em passo único todo um mecanismo aparentemente tão complicado. Como! Fazer agir em conjunto os trabalhadores seria de­clarado impossível em um país onde se via, há pouco mais de vinte anos, um homem animar com sua vontade, fazer viver com a sua vida, fazer marchar no passo certo um milhão de homens! É verdade que se tratava de destruir.

“Mas será que está na natureza das coisas, na vontade de Deus, no destino providencial das sociedades que produzir em conjunto seja impossível, enquanto é tão fácil destruir em conjunto? Ademais, as obje­ções formuladas a partir das dificuldades de aplicação não poderiam aqui ser consideradas sérias, repito-o. Pede-se ao Estado que faça, com os re­cursos imensos e de todo gênero que possui, o que vemos fazer hoje em dia simples particulares. (pp. 219-223). (…)

“Façamos um resumo. Uma revolução social deve ser tentada:

1. Porque a atual ordem social é cheia de iniqüidades, de misérias, de torpezas, para poder subsistir por muito tempo;

2. Porque não há ninguém que não tenha interesse, qualquer que seja sua posição, sua classe, sua fortuna, no estabelecimento de uma nova ordem social;

3. Enfim, porque é possível, e até fácil, realizar essa revolução pacifica­mente.

“No mundo novo em que ela nos faria entrar, ainda haveria talvez algu­ma coisa a fazer para a realização completa do princípio da fraternidade. Mas, pelo menos, estaria tudo preparado para essa realização, que seria obra da educação. A humanidade tem estado muito afastada de sua finali­dade para que nos seja dado atingi-la em um dia. A civilização corruptora da qual sofremos ainda o jugo confundiu todos os espíritos e envenenou as fontes da inteligência humana. A iniqüidade tornou-se justiça; a menti­ra tornou-se verdade; e os homens vêm-se entredevorando em meio às trevas.

“Muitas idéias falsas devem ser destruídas; elas desaparecerão, não devemos duvidar. Chegará, assim, o dia, por exemplo, em que será reco­nhecido que, quem recebeu de Deus mais força ou mais inteligência, deve mais a seus semelhantes. Será então um gênio, constatando, o que é dig­no dele, seu legítimo poder não pela importância do tributo que imporá à sociedade, mas pela grandeza dos serviços que lhe prestará. Porque não é para a desigualdade de direitos que a desigualdade de talentos deve con­duzir, e sim para a desigualdade de deveres” (p. 228).

Estas idéias de Louis Blanc eram cristãs, PERFEITAMENTE CATÓLICAS. 

Suas obras deveriam ser resgatadas nas CEBs e nos textos da teologia da libertação. Mostram claramente as fontes cristãs do socialismo.

A Doutrina social da Igreja quer um socialismo cooperativista, com amplas liberdades pessoais

Um “regime justo” (ordem social justa), hoje, adquire os contornos de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

Teria uma estrutura econômica cooperativa, sendo autogestionária, com base na libertação (proibição da demissão sem justa causa, estabilidade, participação na gestão em todos os níveis e esferas etc). Estabilidade no emprego como recomenda a OIT, só podendo demitir com justa causa. 

Como destacaram Alceu e Chesterton, seria uma estrutura distributista (destinação universal dos bens, cf. Marciano Vidal), sendo este um dos pontos centrais da doutrina social da Igreja, como pode ser visto no livro de Henri Desroches, “Le Projet Coopératif” (Paris, Les Editions Ouvriéres, 1976).

Desroches menciona precursores e expoentes do cooperativismo cristão e natural: J. Bellers, Fourier, Saint-Simon, Buchez, Owen, Louis Blanc, Ketteler, Lassale, Cabet, Huber, William King, Ludlow, Charles Kingsley (1819-1875), Charles Gide (1847-1932), Alfred Sauvy (“O socialismo e a liberdade”) e Georges Lasserre (“socializar com liberdade”).

Lasserre foi professor na Faculdade de Direito de Lyon. Charles Kingsley foi um grande sacerdote anglicano, expoente do socialismo cristão, cooperativista. Outro grande anglicano foi John Frederick Denilson Maurice (1805-1872), que via o movimento socialista como uma forma de realização mais intensa do Reino de Deus na sociedade, no mundo.

Quase todos os autores referidos tinham sentimentos e idéias religiosas, especialmente Fourier (que fundamentava suas idéias no Evangelho), Buchez, Ketteler, Sangnier, Maritain e Mounier. Pio X, Pio XI, Pio XII, especialmente João XXIII e João Paulo II (na “Laborem exercens”, 1981).

Estes autores e outros expoentes da Igreja elogiaram o cooperativismo, como a melhor base econômica e política de uma sociedade. O apoio cristão ao cooperativismo é a busca de uma base econômica de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

Intervenção estatal e estatais são coisas hiper Tradicionais, conservadoras e antigas

Ampla intervenção estatal na economia e estatais são mais velhas que a Sé de Braga, são milenares. Sempre existiram. Existiram nos mais antigos povos, na Suméria (nas cidades-estados), no Egito, entre os judeus, entre os fenícios, entre os gregos e romanos. E em cada aldeia indígena, onde parte dos meios de produção são comuns, como a terra e boa parte do produto da caça, das colheitas etc. 

A ideia dos ateliers (fábricas) nacionais não vem de Buchez ou de Louis Blanc. Antes, houve as manufaturas e fábricas estatais, reais, realengas, criadas por pessoas como Colbert e durante todo o absolutismo e na Idade Média. No Brasil, o padre Vieira conseguiu que vários produtos fossem monopólios de estatais, do Estado, defendendo um capitalismo de Estado. O padre Vieira, o maior orador português, defendeu os índios e também os escravos negros, nas plantações de açúcar.

Dom João VI criou fábricas estatais de siderurgia, tal como criou o Banco do Brasil. Várias estatais que temos vem de 1808 e durante o século XIX.

Na França, até hoje, há estatais criadas por Colbert, fábricas estatais de tapetes e confecções finas.

A ideia de estatizar não é algo marxista. Marx aprendeu as ideias de estatização com o católico Saint Simon, os cameralistas, com Hegel e outros teóricos pró Estado, como Rodbertus. 

A abolição mesmo foi uma ampla intervenção estatal a favor dos escravos, dos trabalhadores.

O amparo estatal à colonização, mesmo sendo desleal contra os negros, por beneficiar somente trabalhadores rurais da Itália, da Alemanha, de Portugal, da Espanha etc, foi uma grande operação estatal a favor de trabalhadores rurais, um esboço do que deve ser a reforma agrária (o erro foi não beneficiar os negros, o que gerou ampla dívida nacional em relação aos negros).

O correto seria o Estado ter apoiado a colonização por trabalhadores negros, africanos e também ter apoiado a vinda dos trabalhadores italianos, alemães, ucranianos, poloneses, japoneses, espanhóis etc. Isso teria gerado uma agricultura não latifundiária, baseada em ampla intervenção estatal, cooperativismo, regras públicas, semi-pública, economia misto. 

A operação de valorização do café, mesmo sendo algo que beneficiou principalmente latifundiários, teve pontos corretos, pois valorizou a produção de um ativo nacional, gerando divisas. Outro erro foi basear a valorização em empréstimos internacionais com banqueiros privados, inescrupulosos e sanguessugas. O correto seria valorizar beneficiando os trabalhadores, cooperativas rurais, nos moldes da OPEP, mas usando bancos públicos estatais ou da ONU, para assegurar financiamento com juros pequenos (ou mesmo negativos, em alguns casos). 

Na Idade Média, no campo, existiam vilas com áreas comuns de plantio, áreas de pouso, moinhos comuns para moer grãos, canais comuns, estradas comuns etc. Nas cidades, os artesãos se organizavam em corporações, cooperativas amplas, que tinham ligação com o Estado (os Municípios), controles públicos dos preços, das formas de produção, regras públicas para todas as atividades econômicas importantes. 

Na Antiguidade, o modo de produção asiático é amplamente estatal, com imensa intervenção do Estado na economia, ponto que Marx descreveu em alguns bons textos. 

Conclusão: apoiar a ampla intervenção estatal na economia, estatais e Estado amplo não é algo marxista, e sim algo hiper tradicional, conservador, 

A religiosidade de Louis Blanc e de Constantin Pecqueur, precursores de Marx. Origens religiosas do socialismo

Louis Blanc, no livro “Catecismo dos socialistas” (1849), escreveu: “O socialismo tem por fim realizar entre os homens as quatro máximas fundamentais do Evangelho: 11. Amai-vos uns aos outros; 21. Não façais a outrem o que não quereis que vos façam; 31. O primeiro dentre vós deve ser o servidor de todos os outros; e 41. Paz aos homens de boa vontade”.

Constantin Pecqueur escreveu, no livro “Dos interesses do comércio, da indústria e da agricultura”: “Se nos perguntam de quem procedemos, qual é nossa origem ou nossa filiação, responderíamos: Jesus Cristo, Rousseau, toda a revolução francesa, Saint-Simon e Fourier”.

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