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O movimento da Democracia popular, socialista democrático, é pré marxista, tendo inclusive inspirado Marx, em vários pontos

O movimento democrático-cristão de Buchez, Ozanam, Tocqueville, dos poloneses e irlandeses, de Montalembert, Lacordaire e outros é um dos elos precursores da Teologia da libertação

Marx transcreveu de forma apreciativa, num artigo de 11.07.1856 (publicado no jornal “New York Daily Tribune”), um extenso texto do grande expoente católico, Montalembert, onde este denunciava o regime autoritário de Napoleão III.

Segundo Montalembert, no trecho transcrito por Marx, Napoleão III tinha “sufocado toda a vida política” da França. E ainda, a “grande nação francesa não podia entregar-se ao sonho, à passividade”, pois “a vida política” estava sendo substituída “pela febre da especulação, pela avidez da ganância, pelo afã do jogo”.

Montalembert atacava a especulação da Bolsa, dos monopólios privados, males que Vogelsang também denunciou ardentemente depois.

Montalembert dizia que a França apodrecia e “a verdadeira causa deste mal consiste em que se feito dormitar na França todo espírito político”. Em 1840, Montalembert denunciava o trabalho das crianças nas manufaturas. Marx, ao transcrever Montalembert, como que assina embaixo nas críticas ao governo de Napoleão III.

Numa carta a Engels, em 25.09.1869, Marx menciona o grande Bispo católico, Dom Ketteler:

Eles, como, por exemplo, o bispo Ketteler, de Magúncia, os sacerdotes reunidos no Congresso em Dusseldorf etc., são simpáticos à questão trabalhista em todos os lugares onde lhes é possível sê-lo. Em 1848, trabalhamos em seu favor. Eles são os únicos que se têm beneficiado durante a restauração dos frutos da revolução”.

As idéias de Montalembert influenciaram vários políticos ligados a esquerda do Partido Liberal no Brasil (inclusive Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e outros), ao Partido Progressista e, mais tarde, ao Partido Republicano, na ala católica.

Montalembert, no discurso no congresso de Malines, na “Assembléia geral dos católicos belgas”, em 1863, elogiou o progresso da democracia e ressaltou que a “liberdade de consciência” tem base bíblica, na negativa de obediência às leis iníquas, como ensinaram os Profetas, Cristo, os Apóstolos e os Mártires da Igreja. Montalembert elogiou a liberdade política, civil e de consciência.

Lacordaire, Montalembert, o padre Augusto José Afonso Gratry (1805-1872, com idéias próximas de Rosmini), Dupanloup, Foisset e outros representaram o partido democrata-católico de 1857 a 1870, que é a mesma linha de Alceu, da Teologia da libertação etc.

O padre Gratry escreveu obras como o “Curso de filosofia” 91855), “A moral e a lei da história” (1868), “Do conhecimento de Deus” e “Lógica”.

O padre Gratry saudou a Revolução Francesa como uma “renovação da face do mundo, na justiça, na verdade e na liberdade”. Gratry influenciou Blondel, especialmente pela obra “A moral e a lei da história” (1874).

Montalembert era um dos principais líderes dos melhores militantes leigos da Igreja na França e as palavras acima de Marx são como que um elogio indireto a esta corrente.

Montalembert escreveu obras como “Pio IX e a França de 1848 e 1859” (1861) e “A Igreja livre no Estado livre” (1863). Este último livro foi a base teórica principal da luta de Cavour (1810-1861). Cavour, Primeiro-ministro do Piemonte, usava como “lema” o título do livro de Montalembert, adotando também os textos de Rosmini e de Gioberti (elogiados até por Tobias Barreto).

Estes católicos defendiam o progresso, a liberdade e a justiça social, continuando os ideais de Lamennais, Buchez e do grande católico, William Cobbett (um inglês que elogiava a Igreja e que escreveu obras como “Papel contra ouro; ou, a história e o mistério do Banco da Inglaterra, da dívida”, em 1828).

Outras estrelas católicas: Ozanam ou Charles François Chevé (1813-1865, diretor do jornal “Voz do povo” e aliado de Proudhon) e outros autores ligados ao romantismo cristão. Por exemplo, Chevé, que militava ao lado de Proudhon, se denominava socialista ao modo dos Santos Padres e escreveu o livro “O reino de Cristo”.

O grande Simonde de Sismondi (1773-1824), que é a fonte de uma boa parte do movimento socialista do século XIX, escreveu o livro “Novos princípios de economia política”, que foi amplamente citado por Marx, Rodbertus e outros.

Sismondi era profundamente cristão e foi apreciado inclusive pelo Visconde de Cairu. Marcuse, no livro “Razão e revolução” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1978, p. 307), também elogiou Sismondi por ter elaborado “a primeira crítica imanente radical do capitalismo” e por ter colocado a “nu os mecanismos do capitalismo industrail nascente” que produziam a miséria.

Para Sismondi, “todas as formas de organização social” existiam (no sentido de tinham o dever) de “satisfazer as necessidades humanas” e, com base nesta premissa, como apontou Marcuse, ele criticou o capitalismo.

Sismondi foi chamado por Marx de “economista romântico” e foi considerado por Lênin como a base do romantismo econômico e do populismo. No fundo, são constatações indiretas de Marx e de Lênin sobre as bases cristãs do romantismo e do populismo, tal como da crítica cristã ao capitalismo.

Friso que o romantismo e o populismo eram movimentos cristãos, católicos principalmente, e precederam o marxismo, como pode ser visto nos textos de Lenin, sobre o Populismo Russo e dos EUA, que tinham lideranças cristãs, como Zheliabov e outros.

Proudhon tinha respeito pela “escola de Buchez e Ott, representantes modernos da democracia cristã” e redigiu bons textos sobre o cristianismo primitivo e sobre a Bíblia. Em suas primeiras obras, Proudhon era panteísta (bem religioso, especialmente no livro sobre a propriedade, que Marx elogiava muito).

Depois, Proudhon adotou uma filosofia que ele mesmo descreveu no livro “Da justiça na revolução e na Igreja”: Deus “é a personificação do Equilíbrio Universal: Deus é o Arquiteto” e, “na ordem moral, Ele é a Justiça“, dirigindo o processo histórico com nossa participação.

Nestas idéias, há elementos hebraicos e cristãos corretos, junto com uma ganga de erros maniqueístas, em parte presentes na maçonaria heterodoxa, como veremos mais adiante.

A maçonaria mais tradicional é jusnaturalista e teísta, seguindo idéias da Paidéia, do judaísmo e do cristianismo.

Durante o século XIX houve uma corrente romântica e eclética que teve maioria no Brasil e na Europa, baseado numa síntese entre cristianismo e democracia.

Victor Cousin (1792-1867), um dos principais formuladores da escola eclética, numa linha paralela com Hegel, de quem era correspondente, num discurso na Câmara dos Pares, na França, em 21.04.1844, ressaltou que esta corrente baseava-se “nas grandes verdades naturais que pertencem ao senso comum, que formam o patrimônio da razão humana”, base da “verdadeira moral pública e privada”.

Cousin, em 1856, enviou uma carta ao Papa, ressaltando que sua filosofia era compatível com o catolicismo e morreu católico.

No livro “Fragmentos filosóficos”, Cousin escreveu que “as verdades estão ao alcance de todos, o senso comum as possui em sua consciência espontânea, sem necessidade de qualquer ciência especial: a única coisa que distingue o filósofo das outras pessoas é que ele descobre no que consiste a consciência através da introspecção”, enquanto o outro distingue as mesmas verdades essenciais sem tanta reflexão e elaboração, de forma mais rude. Enfim, há uma “fé natural e permanente do gênero humano” com base na “razão natural”.

Na mesma linha de Cousin, do ecletismo, houve autores como Emilio Castelar, Jules Simon (1814-1896, autor de obras como “O dever”, “Deus, pátria, liberdade” e “A religião natural”), Sully Prudhomme e outros.

Jules Simon foi discípulo e continuador de Victor Cousin, o grande eclético, tendo sido deputado de 1848 a 1850, Senador de 1876 a 1877 e ainda ocupou outros cargos.

Estes e outros autores foram a base do solidarismo, do socialismo democrático, da Terceira República, possibilismo etc. Esta é a base e raiz do socialismo de Jaurès, que fazia questão de dar ao filho um ensino religioso, e que era teísta.

Na linha da defesa dos poderes da razão, antes de Cousin, houve o pastor Richard Price (1723-1791), secretário particular de Sherburne (primeiro-ministro da Inglaterra).

Price, num discurso em 04.11.1789, elogiado por Thomas Paine, no início de seu livro “Direitos do homem” (1792), ensinava que o Direito cristão (anglicano e católico) inglês, desde a Carta Magna de 1215 e da Revolução Gloriosa de 1688, reconhece o direito do povo de eleger os governantes. Da mesma forma, o direito de cassá-los por má conduta (tirania) e de moldar o governo para que sirva ao bem comum, sirva a sociedade.

Price era unitário, uma corrente próxima ao catolicismo, na valorização da razão e da natureza humana, contra os erros jansenistas e calvinistas. Era também jusnaturalista.

Conclusão: o movimento democrata cristão é a principal corrente política da democracia, pois os principais expoentes da democracia fundamentaram seu ideário político nas idéias de Jesus Cristo.

A concepção geral da Igreja defende o PRIMADO DO TRABALHO, DO TRABALHADOR, nos processos produtivos

A concepção política e econômica cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, do melhor da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”.

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc).

O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”). Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”. A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem” e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, tal como bens morais e intelectuais. Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado do TRABALHO, da consciência, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue (trabalhe) de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”). Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida. Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções. Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela, pois o inferno é auto-exclusão, e não castigo de Deus) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

O núcleo da Doutrina Social da Igreja é antigo, tradicional, e quer uma DEMOCRACIA POPULAR PARTICIPATIVA, econômica, política, cultural etc

Albert Mun – tal como Étienne Lamy ou Jacques Piou – destacava corretamente a boa linha doutrinária da Igreja, no século XIX, ao escrever: “muitas de nossas idéias estão em germe em Lamennais, Montalembert, Lacordaire e a escola de Buchez”.

O mesmo foi dito, alguns anos depois, por Marc Sangnier, no livro “Reformadores sociais” (1932).

A “Rerum novarum” (15.05.1891) apenas chancelou algumas idéias bem mais antigas, condensadas e expostas por Buchez, Lamennais, Lacordaire, Montalembert, Ozanam, Ketteler, a União de Friburgo, De Mun, a Escola de Liège, Péguy, Mounier e outras boas correntes, precursoras da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja.

Ora, as idéias de Buchez e de Ozanam podem ser resumidas no ideal de uma “democracia participativa e social”.

Este ideal concreto está nas entranhas da “doutrina social da Igreja” e na teologia da libertação.

De fato, há como que uma linha solar e brilhante entre os textos bíblicos, da Paidéia, dos Santos Padres, da escolástica, de Santo Tomás Morus, Vives, Gil Vicente, Montaigne, Las Casas, Vitória, Suárez, Bellarmino, Vieira, Montesquieu, Mably e os políticos latino-americanos que participaram do movimento de independência de seus países.

Esta linha é a mesma de Manzoni, Daniel O´Connell, Tocqueville, Ozanam, Buchez, Balmes, Ketteler, Toniolo, Georges Goyau (um grande apóstolo), Antônio Pottier (1849-1923), Marc Sangnier e os grandes românticos.

Há o mesmo conjunto de idéias cristãs e racionais sobre a democracia nos textos de líderes e organizações como: Albert de Mun, Antônio Fogozzaro (a quem Pio X apreciava e elogiava em cartas ao mesmo, embora censurasse o livro “O santo”, por conter erros envolvendo o darwinismo), a União de Friburgo, a Escola de Liège, Decurtins, o grupo da Democracia Cristã, Leão XIII, Pio XI, Renard, Hauriou, Deploige, Maritain, Mounier, Salleiles, o Cardeal Joseph Cardijn (fundador da JOC, em 1924), Armand Cuvillier, Rutten, Lacroix, Pio XII, Pietro Pavan, João XXIII, o Vaticano II, Paulo VI, Medellin, até chegar à teologia da libertação.

Esta é, também, a linha do grande distributista, Sismondi, em obras como “Novos princípios da economia política” (1819) e “Constituição dos povos livres”.

Marx, no “Manifesto Comunista”, considera Sismondi como o principal expoente do “socialismo pequeno-burguês” e o elogiava por desvendar as causas da exploração do trabalhador, das crises e da contradição implícita no capitalismo, entre o consumo e a produção.

Nos textos marxistas, há uma parte significativa, composta de textos gerados pelas idéias de Sismondi, tal como há textos oriundos de Thomas Morus, Morelly, Mably, Montesquieu, dos estóicos e de outras fontes cristãs. São, no fundo, idéias cristãs, “enlouquecidas”, como dizia Chesterton, idéias que devem ser resgatadas, como parte do legado cristão.

Dentre os elos relevantes da boa corrente de água viva, Albert de Mun poderia ter mencionado homens como: Santo Ambrósio, São Basílio, Gregório Nazianzeno, Lactâncio, Santo Agostinho, São Bento, Vicente de Lérins, Santo Isidoro, São Francisco de Assis, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Erasmo, Luis Vives, Las Casas, Francisco Vitória, Suárez, Montesquieu, Antônio Genovesi (1712-1769), Condillac, Beccaria e o padre Sieyès.

Houve também mais de três quartos dos representantes do clero nos Estados Gerais de 1789, que se juntaram ao Terceiro Estado.

O clero era representado por 208 padres e 47 bispos. Pois bem, Mirabeau teve o discernimento de chamar o clero a juntar-se ao terceiro estado, para formar a Assembléia Nacional, tendo o acatamento de quase todos os representantes do clero, que ficaram ao lado do povo.

Mirabeau redigiu obras como “Sobre a educação pública”, “Ensaio sobre o despotismo” e outras, de fundo cristão e democrático. Boa parte dos textos de Mirabeau eram textos de seu assessor, um padre Jesuíta.

Na mesma linha, existiam milhares de militantes leigos católicos. Houve ainda estrelas de primeira grandeza, como o bispo Henri Gregório (1750-1831). Este teve grande participação na reunião das três ordens em 1789. Na Convenção, em 1792, foi o primeiro a propor a abolição da monarquia e a criação da república. Propôs a abolição da pena de morte. Foi o principal responsável pela restituição aos judeus dos direitos civis e pela abolição da escravatura, em 1794.

O bispo Gregório também defendeu a Declaração dos Direitos e a queria mais social, como deveres sociais. Este bispo lutou pela igualdade civil, a liberdade de cultos e pela tolerância religiosa. Redigiu obras como “Ensaio sobre a regeneração física, moral e política dos judeus” (1789); “Discurso sobre a liberdade dos cultos” (1794); “Ensaio histórico e patriótico sobre as árvores da liberdade” (1794); “Da liberdade de consciência e do culto no Haiti”; “Da Constituição francesa do ano de 1814”; “Apologia de Bartolomeu de las Casas”; “Da literatura dos negros”; “Da influência do cristianismo sobre a condição das mulheres” (1821) e outras.

Ocupou cargos na rede pública de educação e criou várias bibliotecas públicas, organizou livros didáticos simples e baratos etc.

Hipólito Carnot redigiu sua biografia, com o título “Henri Gregóire, bispo republicano” (Paris, 1882).

Numa linha próxima, na época, o bispo Jean Baptist Gobel (1727-1794), de Paris, sempre defendeu a soberania do povo. Disse, em boa voz, que sempre buscara “aumentar” no “povo”, o “amor aos princípios eternos da liberdade, da igualdade e da moral”.

Além do bispo Gregório, de Gobel e outros, houve o padre Sieyès, o bispo Claude Fauchet, Nicolau de Bonneville (1760-1828, autor de “Do espírito das religiões”, Fauchet e Bonneville eram os bispos católicos do Círculo Social) o bispo Antônio Pascoal Jacintho Sermet (1732-1808) e o padre Jacques Roux, o principal líder dos “enraivecidos”.

Fauchet e Bonneville fundaram o “Círculo Social”, inspirado nas idéias de Saint-Martin, que são extremamente religiosas, formando parte do iluminismo cristão e religioso (a maior parte do movimento iluminista era cristão e religioso, frise-se).

Por exemplo, os Iluminados de Avinhão tinham como principal líder o beneditino Pernety. Este criou um rito, em 1760, que foi introduzido na Universidade de Montpellier, em 1799, influenciando José Alvarez Maciel, que conspirou para a independência do Brasil.

Outro bispo que teve grande parte na Revolução Francesa e em seus desdobramentos foi Talleyrand (1754-1838). Talleyrand era bispo em Autun e tornou-se presidente da Assembléia Nacional, em 1790, tendo sido várias vezes Ministro de Estado. Teve seus méritos, tal como cometeu vários erros éticos, mas acabou tendo uma boa morte, graças à mediação de Dupanloup, um dos maiores bispos do século XIX.

Num parêntese, mesmo Metternich e Talleyrand não eram partidários da teoria do direito divino dos reis. Talleyrand e Metternich esposavam uma teoria consensual (jusnaturalista) de fundo histórico, flexível, parecida com a de Burke, um dos líderes do whig.

Houve, ainda, milhões de leigos católicos que conciliavam perfeitamente catolicismo com a luta pela democracia.

Mais tarde, houve homens como o cardeal Consavi; Sismondi (próximo ao catolicismo); Béranger; Buchez; Lamennais; e Villeneuve-Bargemont. Villeneuve-Bargemont (1784-1850) escreveu o livro “Economia política cristã” (1834), onde criticou o liberalismo e defendeu a intervenção estatal a favor dos pobres.

Marx, ao começar seus estudos sobre economia política, leu o livro de Villeneuve, recebendo boa influência cristã pré-marxista, tal como Marx leu, já em 1842 ou antes, obras de Buchez, Roux e outros católicos sociais. Numa linha próxima, houve ainda Ozanam (1813-1853), professor na Sorbonna e fundador dos Vicentinos.

O primado do bem comum era a base da concepção de Alban de Villeneuve-Bargemont, no livro “Economia política cristã” (1834), onde critica a “concentração de riqueza e do poder” nas mãos da nobreza, como a causa principal da revolução francesa. Alban atacou o “absenteísmo” dos grandes proprietários. Criticou também a burguesia, a “nova feudalidade”, “do dinheiro e da indústria”, que “começa pela servidão das massas e termina com a usurpação dos poderes públicos”. Alban criticou o capitalismo, na mesma linha de Sismondi, um dos autores que mais citava.

Karl Marx, quando era jovem, leu Villeneuve-Bargemont e também Sismondi e Buchez, sendo estas algumas de suas fontes cristãs.

Os textos de Karl Marx estão cheios de metáforas religiosas, de textos bíblicos e de grandes autores cristãos (inclusive Montalembert).

Petr Yákovlevich Chaadaev (1794-1856) foi um pensador russo, católico, influenciado por Lamennais. Chaadaev militou ao lado de Alexandre Herzen (1812-1870), pela democracia e a igualdade, tal como faziam os católicos que militavam ao lado de Mazzini e Garibaldi, apesar do anticlericalismo destes líderes que tinham ampla religiosidade.

Outro expoente foi Daniel O´Connell (1775-1854), o líder do movimento católico na Inglaterra, organizando a luta do povo irlandês em prol da independência da Irlanda. Houve ainda Fergus O`Connor, líder dos cartistas.

Outro marco foi o movimento dos católicos da Renânia, na década de 1830 e 1840, elogiado até por Bakunin.

Nos EUA, os católicos militavam no movimento dos Cavaleiros do Trabalho, chegando à liderança deste movimento operário (elogiado por Lenin), com Powderly.

Na Itália, houve líderes emblemáticos como Alexandre Manzoni (1785-1873, elogiado por Pio XI, na “Divini Illius”), Rosmini e Gioberti.

Além destes, vale à pena lembrar dos padres Gallupi, Garelli, Billia, Sanseverino, Liberatore, Cornoldi, Satolli, Prisco e outros.

Na França, devem ser recordados expoentes como Tocqueville, Ozanam, Buchez, Albert de Broglie, Augustin Cochin, Montalembert, Lacordaire, Dupanloup e outros.

Tocqueville, por exemplo, influenciou autores como Edouard Laboulaye (1811-1883), na obra “O partido liberal” (1863), que teve influência no Partido Liberal, no Brasil, no século XIX, para ampliar a Democracia, no Brasil.

Há ainda Huit, Piat, Desdouits, Fonsegrive, Graty, Ollè-Laprunne, Domet de Vorges, Farges, Peillaube e outros que foram precursores de Maritain.

Há ainda expoentes como John Acton (1834-1902); Skrzynecki; Montalembert; Lacordaire; Ketteler; Ludwig Windsthorst (1812-1891, líder do Partido do Centro, crítico de Bismarck); César Cantu; Albert de Mun e outros.

Na Polônia, houve o carmelita São Rafael Kalinowski (1835-1907), um dos líderes da insurreição polonesa e lituana, de 1863, contra a opressão russa contra a Polônia, tendo sido mandado para a Sibéria, por dez anos.

Depois, o próprio Leão XIII, Newmann (elogiado por Henri Brémond), Manning, Gibbon, Péguy, Marc Sangnier, Maritain, Mounier, o abade Pierre, João XXIII, Dom Hélder, Alceu e há milhões de outros expoentes, que, por sua vez, refletem o rio vivo de verdades que corre na consciência (“coração”) do povo, tal como do coração de Deus (cf. Ap. 22).

Napoleão ressaltou que o catolicismo é perfeitamente compatível com um “governo democrático e republicano”. Em seu testamento, Bonaparte escreveu: “morro na religião apostólica e romana, na qual nasci há mais de cinqüenta anos”. Convém lembrar que até Marx reconhecia o papel positivo de Napoleão ao disseminar na Europa os princípios da Revolução Francesa.

O livro de Daniel-Rops (1901-1965), “A Igreja das revoluções” (São Paulo, Ed. Quadrante, 2003), em quase 900 páginas, deixou algumas boas páginas sobre a participação da Igreja nos movimentos democráticos do século XIX, reconhecendo que “os escolásticos, com Santo Tomás e depois Bellarmino (acrescentemos, naturalmente, Suárez, para não irmos mais longe)” corroboravam a tese da “soberania do povo”.

Sobre Bellarmino, o papa Clemente VIII, quando o escolheu para ser cardeal, proferiu as seguintes palavras: “elegemos este porque a Igreja não possui outro igual em sabedoria”.

Prova clara da matriz “ideológica” do jusnaturalismo teísta é o preâmbulo da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, de 1789, com referência explícita a Deus, “o Ser Supremo”.

O livro de Guizot, “História das origens do governo representativo e das instituições políticas da Europa depois da queda do Império romano até o século XIV” (Paris, Ed. Didier, 1855), também atesta as origens cristãs e naturais da democracia.

Os textos do Visconde de Ouguella (1830-1897) também combinavam jusnaturalismo, catolicismo, democracia e socialismo.

Os elos mais relevantes e atuais são (a meu ver): Mably; Lamennais; Ozanam; Lacordaire; Daniel O´Connell e o movimento irlandês e a relação do movimento irlandês com os cartistas; e a participação hegemônica dos católicos na independência da Bélgica em 1830; a constituição belga (avançada para a época), defendida por Leão XIII, que foi núncio em Bruxelas, por vários anos.

Outro elo vital entre Suarez e a teologia da libertação é o movimento de independência e dos católicos republicanos da América Latina.

Na mesma linha, há a ampla participação da Igreja nas Revoluções de 1848, tal como o apoio de Leão XIII ao surgimento das leis sociais, na Alemanha, na França, no Brasil (contra a escravidão).

A luta por democracia e independência dos poloneses também merece destaque, contando com homens como Adam Chmielowski (Frei Alberto, beatificado).

Na Itália, a maior parte dos católicos, especialmente dos leigos e do baixo clero, participou do “risorgimento” e da unificação italiana.

Houve lideranças como Rosmini (“Filosofia da política”, Milão, 1837); Manzoni, o padre Gioberti, César Cantu e outros.

No mesmo sentido, o cartismo, na Inglaterra, também foi um movimento organizado por idéias cristãs. Lênin elogiou o cartismo, escrevendo: “a Inglaterra deu ao mundo o primeiro movimento amplo, verdadeiramente de massas, políticamente formado, um movimento proletário revolucionário, o cartismo”.

Stalin, nas “Conversas com Wells” (embutida no livro “Questões do leninismo”, 1936), também elogiou o cartismo, como movimento precursor.

O líder principal dos cartistas foi Daniel O´Connor, um irlandês católico, “distributista”, que lutava por democracia, reforma agrária e outras reformas sociais.

Na Alemanha, houve Ketteler e o Partido do Centro (o “Zentrum” foi criado em 1870-71 e durou até 1933, tendo sido extinto por Hitler); na Áustria, os cristãos sociais fizeram boas e duras críticas ao capitalismo (ver textos de Vogelsang).

Nos EUA, os católicos tiveram ampla participação na vida pública e, em 1890, existiam 84 bispos católicos nos EUA, e apenas uns 14 no Brasil, por conta do regalismo e da falta de vocações.

Em geral, nos EUA, os católicos votaram no Partido Democrático, tendo candidatos católicos que quase chegaram à Presidência, como Frémont, lá por 1870 e, mais tarde, Al Smith, governador de Nova Iorque, que ajudou Franklin Roosevelt.

Outro nome que merece recordação é John Ireland. Depois, houve John Kennedy, no início da década de 60, que foi morto num complô da direita. Robert Francis Kennedy (1925-1968) também foi assassinado quando era candidato a presidente e tinha chance, criticando a guerra do Vietnam.

Na própria China, houve, lá por 1850, os “taipings”, um movimento cristão de camponeses. O termo “taiping” vem de “tai-pin-tian-go”, “reino celeste da prosperidade eterna” e a base teórica era quase toda cristã. Foi possivelmente a maior rebelião dos camponeses, no século XIX e movida por um ideário de origem cristã, no meio da China.

Na França, houve Buchez, Ozanam, Didon, Charles Perraud, Ramadié, o abade Lagrange (1855-1938), o cardeal Lavigerie e milhares de expoentes combativos.

Antes mesmo de 1848, houve vários cardeais, como Croy, Belmas, Giraud, Bonald, Affre e outros que protestaram contra o capitalismo.

O boulangismo foi derrotado com o discurso de Lavigerie, no brinde a vários altos oficiais da esquadra francesa, em Argel, lá por 1890.

O cardeal Lavigerie disse: “Quando da vontade de um povo se afirma sobre a forma de governo, e quando, para arrancar um povo aos abismos que o ameaçam, é preciso aderir, sem reservas, a esta forma política, é chegado o momento de declarar feita a prova”.

Para o Brasil, foi providencial a explicitação maior das teses papais e católicas que mostram que a República é uma forma de governo aceitável aos católicos, a partir de novembro de 1890.

Mesmo antes a Igreja sempre conviveu bem com repúblicas, basta ver as cidades-repúblicas da Itália, a Suíça etc. Isto facilitou a consolidação da República, na França, e a derrubada de alguns projetos de leis contra a Igreja.

Após o brinde, o cardeal abolicionista Lavigerie mandou tocar a Marselhesa, que ainda é o hino nacional francês, com textos jusnaturalistas e teístas.

Leão XIII, em 16.02.1892, na encíciclica “Au milieu des sollicitudes”, detalhou as razões pelas quais era conveniente a aceitação da Constituição de 1875, com o sufrágio universal etc. O argumento principal era que “os católicos”, tal como todas as pessoas, tinham “liberdade de preferirem uma forma de governo a outra”, pois as formas de governo não são “imutáveis” e são relativas, o que importa é que devem proteger e promover o bem das pessoas, o bem comum.

Depois, Leão XIII, numa entrevista publicada em 17.02.1892, aconselhou os católicos franceses a aceitarem a república.

O próprio Pio X, na alocução ao Consistório, em 15.04.1907, disse que “eles [os que perseguiam a Igreja] esperam fazer crer ao povo que, quando nós defendemos os direitos da Igreja, nós nos opomos ao regime popular; e, no entanto, este regime [o popular], nós o temos sempre aceitado, sempre respeitado”.

O que é trágico é ver que os antigos textos de TFP (hoje, esta organização alinhou-se com a CNBB), espalhavam a mesma calúnia, a mesma mentira dos perseguidores da Igreja.

Os bispos do sul do Brasil, na “Pastoral coletiva de 1915” (n. 88 e 89), ensinaram claramente que “afirmar que a Igreja se opõe à constituição moderna das nações e que sistematicamente rejeita e repele o adiantamento do nosso século, é uma vã e pura calúnia”.

Uma “calúnia”, pois “a Igreja católica foi sempre inventora, fautora ou defensora” “de todas as instituições úteis para pôr côbro à licença dos governantes que abusam do povo; de tudo o que serve para impedir o governo de violar as liberdades municipais ou domésticas; de tudo o que concorre para garantir o dêcoro e a dignidade humana e estabelecer a igualdade”.

Houve, ainda, Taparelli e sua defesa de governos representativos, em obras como o “Exame crítico da ordem representativa” (Roma, 1854); os trabalhos de pesquisa de Villermé; Leão XIII e suas encíclicas democráticas; a reconciliação entre católicos e republicanos, na França e no mundo todo; o grupo de Eduardo Sanz y Escartín (ver “O Estado e a reforma social”, 1896) e a Escola de Liège.

Na mesma linha, houve o círculo de Friburgo e o cardeal Mermillod (autor do livro “A Igreja e os operários no século XIX”, 1868); o episcopado norte-americano com homens como o Cardeal Gibbons (1834-1921); o cardeal Manning; a Liga Democrática Belga (aprovada por Pio X); o Partido Popular Cristão, ligado ao padre Daens; o “solidarismo” do padre Antônio Pottier, do padre Pesch e do padre Llovera; o partido popular, ligado ao padre Sturzo; a corrente do personalismo cristão de Renouvier; Maritain, Mounier, a Resistência Francesa, De Gaulle; a linha de padres como Kothen (seu livro, “Problemas sociais da atualidade”, foi editado no Brasil com o prefácio de Alceu), até chegar à teologia da libertação e aos socialistas cristãos, de hoje, que retomam as linhas históricas mais importantes.

Houve marcos como o movimento da Democracia cristã, com expoentes como Romolo Murri (1870-1944); o abade Naudet; o “Sillon” e Marc Sangnier (1873-1950); Péguy, Giuseppe Toniolo, Sturzo e o partido popular; o padre Olgiatti; Maritain; Mounier e a corrente do personalismo; o próprio De Gaulle (que defendeu corretamente a descolonização, a participação dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas e criticou o imperialismo ianque) e os católicos da |Resistência Francesa; os católicos existencialistas; a JOC e a Ação Católica Operária, especialmente com o Cardeal Cardij; as alianças entre a democracia cristã e os socialistas democráticos; João XXIII; o Concílio Vaticano II; Medellin; a teologia da libertação; o movimento “Cristãos pelo Socialismo”; Puebla; a CPT, o MST e a Via Campesina etc.

Para detalhar um pouco a linha acima esboçada, vejamos o padre Pottier e Pesch, que são bons exemplos de sacerdotes.

O padre Antônio Pottier (1849-1923) foi um dos líderes da Escola de Liège, elaborando bons textos sobre democracia social em 1892 e 1893. Ele participou também do movimento da democracia cristã. Escreveu obras como “De iure et iustitia” (Liège, 1900), “A cooperação e as sociedades operárias” (Liège, 1889); “A Igreja e a democracia cristã” (1901), “A questão operária” (Roma, 1903); “A moral católica e as questões sociais de hoje” (Milão, 1921).

Pottier também atuou ao lado de homens como Georges Goyau (sua obra, “O Cristo”, foi traduzida, no Brasil, por Alceu, em 1942) e Romolo Murri (1870-1944).

Goyau escreveu obras importantíssimas como “O Cristo”, “Ketteler” (1907), “Retratos católicos de precursores” (1921) e “Catolicismo social” (5 volumes).

O padre Heinrich Pesch (1854-1926) foi aluno de Rudolf Meyer (socialista cristão, amigo de Frederico Engels) e de Adolf Wagner (n. em 1835). Adolf Wagner também era socialista cristão e defendia a extensão das funções do Estado, mas com respeito à liberdade etc.

Adolf Wagner era filho de Rodolpho Wagner (1805-1864), que foi um grande cientista alemão, bem ligado à religião. O solidarismo de Pesch era uma forma branda de socialismo com liberdade e distributismo.

O solidarismo e o socialismo de cátedra eram formas de socialismo ligadas à religião. O cristianismo e o pensamento hebraico foram as matrizes do socialismo utópico, pré-marxista.

Pesch, em seu livro “Tratado da economia nacional” (5 volumes, 1905-1923), defendeu o “solidarismo cristão”, ressaltando que o bem comum significa a síntese entre o bem pessoal e o bem da sociedade. Ou seja, o dever de assegurar o bem de cada pessoa em harmonia com o bem da sociedade, o bem comum.

Na linha do socialismo romântico e cristão, há também as figuras dos irmãos Clemente Brentano (1778-1842) e Lujo Brentano, na Alemanha.

Pesch escreveu livros como “Solidarismo” (1919) e outros, bem próximos do radicalismo e do socialismo democrático.

Antes, o padre Hitze (1851-1921) já frisava que “somente uma obra legislativa ampla e profunda, somente a mão onipotente do Estado poderão estabelecer a ordem na vida social”.

O Cardeal Mercier também frisava que “quando trabalha para repartir mais equitativamente a riqueza da sociedade, o socialismo tem toda razão”.

Enfim, a relação entre cristianismo e democracia foi reconhecida até mesmo por Henrique (1908-1999), chamado o Conde de Paris (houve outros, antes, como Luís Filipe Alberto de Órleans, n. em 1838), o herdeiro da família dos Capetos e dos orleanistas, descendente de Luís IX, Henrique IV e Luís XIV. A dinastia dos capetos governou a França por uns 800 anos, descendendo de Hugo de Capeto, que assumiu o poder em 987.

Para mostrar que até os membros das famílias dinásticas aprendem (lentamente.., embora alguns, nunca), o Conde de Paris, no livro “A monarquia de amanhã” (Lisboa, Ed. Gama, 1948, texto no prefácio, p. XXIV), reconheceu que

“a autoridade e o poder têm em Deus a sua origem, mas o suporte terreno dessa autoridade só pode ser, evidentemente, o conjunto de homens que vivem na sociedade; emana, pois, do povo”.

O Conde de Paris também admitiu que “o cristão que se ordena ao bem comum e o democrata humanista que se ordena ao interesse geral encontra-se, lado a lado, nas suas esperanças temporais e políticas”.

A Doutrina social da Igreja sempre foi pro Democracia Popular Participativa

A linha democrática de Suárez e Bellarmino, no fundo a linha dos grandes Santos Padres e dos Doutores da Igreja, é a de Lemire, de Lamennais, Ozanam e outros.

Também era a linha do abade Paul Naudet (1859-1929), que expôs esta base teórica em obras como “A democracia e os democratas cristãos” (1900).

Esta linha está também presente em autores como Turmann, Gayrand, Helleputte, Giuseppe Toniolo, Antônio Ballerini, Debon, Six, Savatier, Fonsegrive, Verbaegen, Pottier, Harlez, Schrijuers, Ireland, Falkenstein, Liechtenstein, Gaspar Decurtins, Darano, o padre Luigi Sturzo, Puccini, Minoretti, Cappellazzi, o cardeal Newman (que inspirou Raymond Saleilles, Georges Renard e outros), Guido Gonella (1905-1982, por dez anos um dos principais redatores do jornal “L´Osservatore Romano”), Welty, Viviani, Ryann, Lacordaire, Giorgio La Pira (vide “Esquisses pour une politique chrétienne”, Paris, Ed. Plon, 1958), Giordani, Watt, Lapp, La Tour du Pin, César Cantu, Gustav Gundlach (um dos maiores inspiradores da “Quadragésimo anno”), Guardini, Haas, O’Hara, Mun, Devas, Guitton, Lacroix, Mounier, Hitze, Blome, Lilly, Ventura e outros.

A teoria do consentimento racional ou do bem comum foi também exposta por autores como Anatólio Leroy-Beaulieu (1842-1912), chamado de “carola” por Joaquim Pimenta.

Anatólio (que não deve ser confundido com seu irmão Leroy Beaulieu) descreveu o movimento harmônico entre catolicismo e democracia, em obras como “Os católicos liberais, a Igreja e o liberalismo, de 1830 até nossos dias” (1885).

Anatólio ainda escreveu “Cristianismo e Democracia”, 1905, com idéias semelhantes às expostas neste meu blog.

O próprio Camilo Castelo Branco esposava estas idéias, como fica claro na tradução do livro “O Papa e a liberdade”, do dominicano Padre Constant (Porto, Ed. Livraria Portuense, 1879).

Os textos de Emile Zola (1840-1902), no livro “Roma”, também mostram a evolução da doutrina social da Igreja, clarificando-se cada vez mais, no sentido da democracia social e política.

Georges Goyau foi outro luminar da Igreja, que escreveu obras importantes como “Em torno do catolicismo social (1897-1912)” e “Retratados católicos: precursores”, 1921.

A mesma concepção está nos textos de Thierry, Ozanam, Montalembert, do padre Vincenzo Gioberti (1801-1852), Rosmini, César Cantu e Toniolo. Há a mesma linha em Paul Bureau, Jacques Valdour, Tourville, Francesco Olgiatti, Kolping, César Cantu e outros.

O livro de Henri Guilhermin, “Histoire des catholiques français au XIX siècle” (1947), historia a posição política dos católicos franceses no século XIX, quase todos ecléticos.

A linha democrática fica clara nos textos do padre Ventura de Raulica (1792-1861), que foi geral dos Teatinos, tendo boa ligação com Lamennais.

O padre Ventura e Rosmini defenderam a criação de uma Confederação Italiana, para unir a Itália.

O padre Ventura escreveu obras sobre democracia e catolicismo, como “A razão filosófica e a razão católica” (1852), “As mulheres do Evangelho” (1853) e “A mulher católica” (1854).

O padre Ventura redigiu uma “Oração fúnebre de O´Connell”, que foi um grande tribuno popular, expressando a luta dos irlandeses católicos por democracia.

Buchez, Rodbertus, Lassalle, Keteller, Louis Blanc, Adolf Wagner e o Socialista de cátedra, correntes próximas da Igreja

O socialismo nasceu de fontes religiosas. Nasceu, lá por 1830 e poucos, antes de Marx, baseado em socialistas de fundo religioso, como Saint Simon, Owen, Fourier, o babovismo (as ideias do padre Morelly e do padre Mably, que Babeuf e Buonarrotti difundiram) e outras.

Outro grande expoente foi Buchez, a quem Marx chamava de chefe do “partido socialista católico”.

Buchez inspirou Louis Blanc e Lassalle (como Marx apontou, na Crítica ao Programa de Gotha). Lassalle era bem próximo da Igreja Católica.

Lassalle manteve correspondência pública com o Bispo católico Ketteler.

Ketteler escreveu um livrinho, mostrando que as linhas do socialismo de Lassalle não tinham nada contra o Catolicismo, sendo possível um católico participar do Partido de Lassalle, criado, na Alemanha, antes do Partido de Marx (houve a fusão, depois).

Lassalle também tinha sólidas ligações com Karl Rodbertus, que escreveu obras sobre socialismo, antes de Marx, obra de 1842. No Brasil, deveriam ser editadas obras como “Cartas de Lassalle a Rodbertus” (Berlim, 1878, com introdução de Adolf Wagner).

Outro livro essencial de Lassalle é a “Teoria sistemática dos Direitos Adquiridos”, onde Lassalle mostra que a evolução histórica consiste numa progressiva restrição dos direitos de propriedade, restrição que, dentro de cem a duzentos anos, levaria a uma sociedade socialista, com usufrutuários (proprietários com função social) gerindo os bens produtivos. Estas ideias são basicamente as ideias da Igreja, de função social inerente a propriedade, de uma propriedade submissa a soberania nacional popular, praticamente usufrutuária. 

É a mesma base de Karl Rodbertus, socialista de fundo religioso, que foi inclusive Ministro de Estado da Religião, dos Cultos.

Lassalle ataca as cooperativas (de crédito e de consumo) de Schulze Delitzisch, que rejeitavam a intervenção do Estado, e defendia a ideia de Buchez, de criação de cooperativas de produção, pelos próprios trabalhadores, com a ajuda do Estado.

Lassalle defendia as ideias políticas de Hegel, Rodbertus e Fichte, de um socialismo estatal democrático. Primeiro, houve o Partido de Lassalle, depois o de Marx. Os dois partidos se fundiram em 1875, após a morte de Lassalle.

Esta fusão ocorreu no Congresso de Gotha, que gerou um programa principalmente ligado a Lassalle e a Buchez, criticado no livro “Crítica ao programa de Gotha”, de Marx. O “Programa de Gotha” só foi substituído em 1891, pelo “Programa de Erfurt”, no Congresso de Erfurt, que gerou uma cisão, com Wollmar e outros, apoiando a difusão da pequena propriedade rural. Bebel e Liebknecht ficaram neutros, até 1898. 

Em 1863, Lassalle atacava o Partido Liberal prussiano, também atacado pela Igreja, pelo Partido do Centro, ligado a Igreja. Obras como “A quintessência do socialismo” (1875), de A. Schaeffle, mostram este conjunto de ideias, que foram clarificadas por Adolf Wagner.

Wagner era pessoa religiosa e sempre foi apreciado pelos grandes teóricos da Doutrina Social da Igreja, como Huet (“O reino social do cristianismo”), Ahrens, Pesch, Liberatore (defensor da economia mista), Albert de Mun, Vogelsang, Franz Hitze, padre Charles Antoine, a Escola de Liège e outros.

Outros grandes católicos foram o Cônego Pottier, Hellepute, Arturo Verhaegen, Monsenhor de Harlez, o grande TONIOLO, Georges Goyau (“Sobre o catolicismo social”), o Abade Six e sua revista “Democratie Chrétienne”), o Abade Lemire, o Cardeal Manning, o Abade Naudet (“Propriedade, capital e trabalho”) e outros.

Este apreço e respeito ocorre pelo conteúdo comum entre as melhores ideias de Adolf Wagner e dos grandes Teóricos da Doutrina social da Igreja. Ideias de uma Civilização do Trabalho. 

Ideias defendidas por autores católicos como Lamennais, Ozanam, Lacordaire, Blome, Belcredi, Thun, Depauli, Zalinger, Falkenstein, o Príncipe de Liechtenstein e outros, para superar o regime assalariado.

A linha Democrática popular é a linha majoritária da Doutrina social da Igreja

A linha democrática-popular de Santo Tomás Morus, Mably, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, William Cobbett, Tocqueville, Ketteler, Acton, Toniolo e outros autores é o núcleo da doutrina social da Igreja.

Lamennais, no ensaio “As formas modernas de escravidão” (1839), ensinou: “o que o povo quer, o próprio Deus o quer também, porque o povo deseja a justiça”, por isso, “a causa do povo é, pois, a causa de Deus. Ela haverá de triunfar”.

Lamennais seguiu os passos de Descartes e de Leibnitz, dois grandes cristãos (Descartes, um grande católico; Leibnitz, um grande luterano ecumênico), destacando corretamente o critério do consenso, conexo com o do bem comum.

Lamennais também ressaltou bem as “causas segundas”, na forma de agir da Providência.

O amor ao povo e à liberdade foi sempre a linha central dos livros de Lamennais.

Seus livros mereceriam ser reeditados, para serem lidos nas CEBs, especialmente as obras “O livro do povo”, “Palavras de um crente” (dedicado “ao povo”), “Hino à Polônia”, “Do passado e do futuro do povo” e “Da escravidão moderna”.

A Igreja, com os Santos Padres, adotou o melhor do pensamento antigo, da Paidéia (cf. constatou Werner Jaeger).

A “recepção” do pensamento antigo foi chamada de “régio caminho traçado pela tradição e pelos santos padres”, como ensinou o papa Gregório XVI, no breve “Dum acerbissimas”, de 26.09.1835.

No neoclassicismo, no fim do século XVIII e no início do século XIX, houve como um novo renascimento, com o elogio da Paidéia. Este elogio fazia parte do método educacional dos jesuítas. No parnasianismo, no final do século XIX, houve outra exaltação da Paidéia, onde os leigos católicos exaltaram os textos da Paidéia, em boa consonância com os textos bíblicos e dos Santos Padres.

A linha de Lamennais era a linha de William Cobbett, um autor católico bem apreciado por Marx.

Cobbett redigiu uma “História da reforma protestante na Inglaterra e na Irlanda” bem simpática ao catolicismo.

Cobbett seguia a linha democrática e radical de Gerrard Winstanley, dos “Levellers” e “Diggers”.

O livro “As opiniões de William Cobbett”, do casal G.D.H. Cole e Beatrice Cole mostram a influência de Cobbett nos cartistas e no surgimento do Partido Trabalhista.

Buchez foi o primeiro que organizou uma teoria organizada sobre as cooperativas de produção para suprimir o patronato, o capitalismo, difundindo as cooperativas com o apoio do Estado.

Buchez escreveu o artigo “As cooperativas operárias de produção”, no “Jornal das ciências morais e políticas” (em 17.12.1831), ressaltando que o excedente das unidades seria distribuído aos sócios em função do trabalho destes e outra parte seria incorporada ao capital social, num fundo indivisível. A idéia do fundo indivisível vem dos mosteiros e conventos.

Buchez seguiu o exemplo dos mosteiros e da instituição dos morgados. O morgado era a instituição dos bens das famílias, na Idade Média. Eram bens inalienáveis e eram administrados em benefício do clã familiar, uma verdadeira pequena aldeia.

Buchez defendeu a indivisibilidade do patrimônio das empresas cooperativas. Ele não era apenas teórico, criou uma cooperativa de produção, com sócios operários.

As idéias de um Fábio Konder Comparato sobre a transformação das unidades produtivas em “cooperativas” (ou “fundações”, cf. Renard) são baseadas no primado do trabalho, combinando com formas de planejamento estatal participativo.

São idéias que têm estruturas comuns com as idéias de Buchez, tal como de Marc Sangnier, Mounier e Alceu Amoroso Lima.

A fórmula de Buchez e de Ketteler é, no fundo, “a propriedade social dos meios de produção”, também defendida por Dom Hélder, no documento “Ouvi os clamores do meu povo”, de 1973, um Manifesto dos Bispos do Nordeste, organizado por Dom Hélder.

Dom Hélder, nos livros “Revolução dentro da paz” (Rio de Janeiro, Ed. Sabiá, 1968, ligada a Rubem Braga e Fernando Sabino), “Terceiro mundo defraudado”, “Utopias peregrinas”, tal como nas “Meditações do padre José”, defendia a mesma tese, da superação do capitalismo, combinando distributismo, cooperativismo e intervenção e planificação do Estado.

Num parêntese, o discurso de Dom Hélder, no “Centro Católico de Intelectuais Franceses”, em 26.05.1970, em Paris, foi um dos marcos mundiais da denúncia de torturas no Brasil, sob o governo da Junta Militar e de Médici.

Dom Hélder teve o apoio do Cardeal Marty, de Paris, mostrando que a linha predominante na Igreja é pró-democracia participativa e social, coincidente com o que Marciano Vidal chama de socialismo participativo, democrático ou humanista.

Buchez, Ozanam, Tocqueville, Ketteler, Lacordaire ou um César Cantu (1804-1895) representam o núcleo mais importante do desenvolvimento da doutrina social da Igreja, no século XIX. O mesmo vale para os grandes textos de Lamennais.

Dom Hélder seguiu os passos do padre Cícero (que elogiava, com oitenta anos, o nacionalismo de Sandino) e de Alceu Amoroso Lima. Numa poesia (de 24.07.1966) com um elogio a Lebret.

Dom Hélder escreveu: “Karl Marx, levado ao céu pela crítica ao capital e pela defesa do trabalhador” (cf. a biografia de Dom Hélder, feita por Nelson Piletti e Walter Praxedes, “Dom Hélder Câmara”, São Paulo, Ed. Ática, 1997, p. 409).

Expoentes como Dom Hélder, Dom Luciano, o abade Pierre (na França), Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Moacir Grechi e outros são a cristalização das melhores idéias do povo, da boa linha evolutiva de nosso povo e da Igreja.

Resumindo, nas palavras de Dom Hélder: “o desenvolvimento recebido do alto, pré-fabricado, sem a participação do povo na criatividade e nas opções, pode ser tudo, menos desenvolvimento”. Neste ponto, Dom Hélder tinha a mesma concepção de Paulo Freire, no livro “Pedagogia do oprimido”.

A ligação de Dom Hélder com Roger Garaudy também é outro grande sinal dos tempos, a meu ver. A palestra feita por Dom Hélder, em outubro de 1974, na Universidade de Chicago, sobre a relação entre Santo Tomás e Karl Marx, também tem a mesma linha libertária e ecumênica, mostrando que o método de Santo Tomás era ecumênico, pois acolhia todas as verdades contidas na Paidéia, nos textos de Maimônides, Averróis e Avicena.

Este método deve adotado para as verdades contidas nos textos de Marx e outros autores, como recomendava Dom Hélder.

A linha da TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO é a LINHA hegemônica na Igreja, basta ver os textos de Francisco I

A concepção política cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”. E VALEM TAMBÉM PARA A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA dos povos, uai. 

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc). O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”).

Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”.

A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem”, DO BEM COMUM, e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, mesmo abundante, tal como bens morais e intelectuais.

Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado da consciência, DO TRABALHO, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”).

Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida.

Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação exeterna”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça (QUE É A AÇÃO DE DEUS para se unir a nós, uma relação AMOROSA, basta ler o Cantico dos cânticos) é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções.

Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.FRISO que o julgamento de Deus é, no fundo, o julgamento de nossa consciência, é a pessoa que se perde ou se salva, pois Deus quer é salvar todos. 

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

Difusão de bens, do poder, do saber, dos prazeres, eis o Plano Central de Deus

O Estado é uma obra humana, UMA CONSTRUÇÃO HUMANA, um conjunto de atos humanos.

A finalidade intrínseca do Estado e da sociedade, e assim a medida da legitimidade (o critério-chave) é a de defender, proteger e promover a dignidade humana, a vida humana, realizar o bem comum.

A Bíblia ensina que a sociedade deve ter a forma de uma comunhão de bens, uma comunidade participativa, partilhando os bens e o poder.

Na prática, significa todas as famílias terem casas boas (há um texto ótimo de Kautsky sobre isso), lotes, móveis, acesso a internet rápida e gratuita (banda larga), transporte público de ótima qualidade, sistema público de saúde e educação, ótima Previdência (paga pelo Estado e pelas empresas), boas aposentadorias (com 50 anos, o Estado já deveria dar algo, aumentando com a idade), bons empregos (demissão só com justa causa, jornada pequena, ótima remuneração), milhões de micros e pequenas empresas familiares, milhões de cooperativas, milhares de ótimas estatais com co-gestão, planejamento participativo etc. 

Todo poder vem de Deus, por mediações, especialmente pela mediação da consciência do povo, das pessoas

O poder vem de Deus (cf. Rom 13,1), mas mediante as pessoas, a sociedade, o povo, como demonstraram Santo Ambrósio, São Basílio Magno, São João Crisóstomo e os demais Santos Padres.

A mesma lição está nos textos de Boécio, São Isidoro de Sevilha, o Arcebispo John de Salisbury (m. em 1080), Manegold de Lautenbach (m. em 1110), Fernão Lopes, São Tomás Morus, Bartolomeu las Casas, Francisco de Vitória, Francisco Suarez, o abde de Saint Pierre, Fenélon, Montesquieu, Alexander Pope (1688-1744), Santo Alfonso Maria de Ligório (1696-1787), Mably e outros. Merecem destaque estrelas como Salisbury, Morus, Las Casas, Suarez, Bellarmino, Ligório (o patrono da teologia moral), Mably, o bispo John Caroll (1735-1815), Frei Caneca (1774-1825), William Cobbett, O´Connell, Buchez, Ozanam, Dom Félix Dupanloup (1802-1878), Lacordaire, Ketteler, Mun, Lavigerie, Luis Windthorst, Manning, Gibbons, Ireland, Manning, Billot, Maritain, Cardjin, Rommen, Alceu, Dom Hélder e outros luminares, que expuseram corretamente a teoria cristã sobre o poder público.

O poder legítimo nasce imediatamente da sabedoria (das idéias verdadeiras, fruto do diálogo) do povo, da bondade do povo.

O poder legítimo reflete a Trindade, as processões da Trindade.

O poder legítimo é fruto do Logos, do Verbo, do Amor, da Bondade, do Bem comum. O poder legítimo procede de Deus mediante a Sabedoria do povo, atuando pelo Amor, pela realização do bem comum.

A teoria cristã sobre o poder é, assim, a teoria popular sobre o poder. Esta teoria tem como princípio-chave o ideal da destinação universal dos bens, da Comunhão, inclusive do poder, sendo este o ideal do bem comum, a regra suprema do bem comum.

Todos devem usar e fruir dos bens na medida das próprias necessidades (cf. At 4,32), erradicando a miséria e a riqueza privada, organizando a sociedade com base na mediania, na igualdade, pois Deus não faz acepção de pessoas.

A teoria popular sobre o poder é a teoria natural e racional sobre o poder, sendo, assim, a teoria cristã do poder.

Esta teoria sobre o poder e os bens inspirou a Igreja e está bem clara na Bíblia, na recepção cristã do melhor da teoria grega-romana sobre o poder, nos Santos Padres, Isidoro de Sevilha, Manegold, John Salisbury, na Carta Magna de 1215, em Fernão Lopes, Thomas Morus, Las Casas, Vitória, Suarez, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably e outras estrelas do catolicismo.

O ideário de Mably, por exemplo, é o núcleo dos melhores textos inclusive do jornal “O amigo do povo”, de Marat (a parte sangrenta é o joio, tendo ao lado o trigo, vindo de Mably, da Igreja).

O mesmo ocorre nos textos de Babeuf e de Buonarrotti, inspirados em Mably , Morelly, Campanella (1568-1639) e Morus, autores que o próprio Marx considerava como precursores, como seus fundamentos teóricos.

O mesmo ocorria na Liga dos Justos, onde Weitling fundamentava o ideal de comunhão social democrático e socialista nas idéias cristãs.

Estes ideais estão também nos textos religiosos de Saint-Simon, Owen, Leroux, Considerant, Buchez e outras estrelas socialistas.

Conclusão: a ação humana, do povo, é causa eficiente secundária no destino humano, atuando em interação dialógica e concursal com Deus, a Causa Primária de tudo o que é bom.

O poder vem de Deus, mediante o povo, pela consciência do povo, partindo do povo, sendo exercida pelo povo, para o bem do povo.

Marx lia católicos sociais e os citava, com respeito, nas cartas pessoais

O movimento democrático-cristão de Buchez, Ozanam, Tocqueville, dos poloneses e irlandeses, de Montalembert, Lacordaire e outros é um dos elos precursores da Teologia da libertação, e merece ser resgatado, historicamente. 

O próprio Marx lia e gostava de textos de católicos sociais. Por exemplo, Marx transcreveu de forma apreciativa, num artigo de 11.07.1856 (publicado no jornal “New York Daily Tribune”) um extenso texto de Montalembert, onde este denunciava o regime autoritário de Napoleão III.

Segundo Montalembert, no trecho transcrito por Marx, Napoleão III tinha “sufocado toda a vida política” da França. A “grande nação francesa não podia entregar-se ao sonho, à passividade”, pois “a vida política” estava sendo substituída “pela febre da especulação, pela avidez da ganância, pelo afã do jogo”.

Montalembert atacava a especulação da Bolsa, dos monopólios privados, males que Vogelsang também denunciou ardentemente depois.

Montalembert dizia que a França apodrecia e “a verdadeira causa deste mal consiste em que se feito dormitar na França todo espírito político”.

Em 1840, Montalembert denunciava o trabalho das crianças nas manufaturas. Marx, ao transcrever Montalembert, como que assina embaixo nas críticas ao governo de Napoleão III.

Numa carta a Engels, em 25.09.1869, Marx menciona Ketteler:

Eles, como, por exemplo, o bispo Ketteler, de Magúncia, os sacerdotes reunidos no Congresso em Dusseldorf etc., são simpáticos à questão trabalhista em todos os lugares onde lhes é possível sê-lo. Em 1848, trabalhamos em seu favor. Eles são os únicos que se têm beneficiado durante a restauração dos frutos da revolução”.

As idéias de Montalembert influenciaram vários políticos ligados ao Partido Liberal no Brasil (inclusive Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e outros), ao Partido Progressista e, mais tarde, ao Partido Republicano, na ala católica.

Montalembert, no discurso no congresso de Malines, na “Assembléia geral dos católicos belgas”, em 1863, elogiou o progresso da democracia e ressaltou que a “liberdade de consciência” tem base bíblica, na negativa de obediência às leis iníquas, como ensinaram os Profetas, Cristo, os Apóstolos e os Mártires da Igreja.

Montalembert elogiou a liberdade política, civil e de consciência.

Lacordaire, Montalembert, o padre Augusto José Afonso Gratry (1805-1872, com idéias próximas de Rosmini), Dupanloup, Foisset e outros representaram o partido democrata-católico de 1857 a 1870.

O padre Gratry escreveu obras como o “Curso de filosofia” 91855), “A moral e a lei da história” (1868), “Do conhecimento de Deus” e “Lógica”. Gratry saudou a Revolução Francesa como uma “renovação da face do mundo, na justiça, na verdade e na liberdade”. Gratry influenciou Blondel, especialmente pela obra “A moral e a lei da história” (1874).

Montalembert era um dos principais líderes dos melhores militantes leigos da Igreja na França e as palavras acima de Marx são como que um elogio indireto a esta corrente.

Montalembert escreveu obras como “Pio IX e a França de 1848 e 1859” (1861) e “A Igreja livre no Estado livre” (1863). Este último livro foi a base teórica principal da luta de Cavour (1810-1861). Cavour, Primeiro-ministro do Piemonte, usava como “lema” o título do livro de Montalembert, adotando também os textos de Rosmini e de Gioberti (elogiados até por Tobias Barreto).

Estes católicos defendiam o progresso, a liberdade e a justiça social, continuando os ideais de Lamennais, Buchez, William Cobbett (um católico inglês que elogiava a Igreja e que escreveu obras como “Papel contra ouro; ou, a história e o mistério do Banco da Inglaterra, da dívida”, em 1828), Ozanam ou Charles François Chevé (1813-1865, diretor do jornal “Voz do povo” e aliado de Proudhon) e outros autores ligados ao romantismo cristão. Lembro que Chevé militava ao lado de Proudhon e se denominava socialista ao modo dos Santos Padres e escreveu o livro “O reino de Cristo”.

O grande Simonde de Sismondi (1773-1824), que é a fonte de uma boa parte do movimento socialista do século XIX, escreveu o livro “Novos princípios de economia política”, que foi amplamente citado por Marx, Rodbertus e outros.

Sismondi era profundamente cristão e foi apreciado inclusive pelo Visconde de Cairu. Marcuse, no livro “Razão e revolução” (Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1978, p. 307), também elogiou Sismondi por ter elaborado “a primeira crítica imanente radical do capitalismo” e por ter colocado a “nu os mecanismos do capitalismo industrail nascente” que produziam a miséria.

Para Sismondi, “todas as formas de organização social” existiam (no sentido de tinham o dever) de “satisfazer as necessidades humanas” e, com base nesta premissa, como apontou Marcuse, ele criticou o capitalismo.

Sismondi foi chamado por Marx de “economista romântico”, chefe do socialismo pequeno burguês, e foi considerado por Lênin como a base do romantismo econômico e do populismo. No fundo, são constatações indiretas de Marx e de Lênin sobre as bases cristãs do romantismo e do populismo, tal como da crítica cristã ao capitalismo.

Proudhon tinha respeito pela “escola de Buchez e Ott, representantes modernos da democracia cristã” e redigiu bons textos sobre o cristianismo primitivo e sobre a Bíblia.

Em suas primeiras obras, Proudhon era panteísta (bem religioso, especialmente no livro sobre a propriedade, que Marx elogiava muito); depois, ele adotou uma filosofia que ele mesmo descreveu no livro “Da justiça na revolução e na Igreja”: Deus “é a personificação do Equilíbrio Universal: Deus é o Arquiteto” e, “na ordem moral, Ele é a Justiça”, dirigindo o processo histórico com nossa participação. Nestas idéias, há elementos hebraicos e cristãos corretos, junto com uma ganga de erros maniqueístas, em parte presentes na maçonaria heterodoxa, como veremos mais adiante, em outras postagens. A maçonaria mais tradicional é jusnaturalista e teísta, seguindo idéias da Paidéia, do judaísmo e do cristianismo (os textos do grande Padre Valério Alberton são bastante elucidativos e corretos).

Durante o século XIX houve uma corrente romântica e eclética que teve maioria no Brasil e na Europa, baseado numa síntese entre cristianismo e democracia. Victor Cousin (1792-1867), um dos principais formuladores da escola eclética, num discurso na Câmara dos Pares, na França, em 21.04.1844, ressaltou que esta corrente baseava-se “nas grandes verdades naturais que pertencem ao senso comum, que formam o patrimônio da razão humana”, base da “verdadeira moral pública e privada”.

Cousin, em 1856, enviou uma carta ao Papa, ressaltando que sua filosofia era compatível com o catolicismo e morreu católico.

No livro “Fragmentos filosóficos”, Cousin escreveu que “as verdades estão ao alcance de todos, o senso comum as possui em sua consciência espontânea, sem necessidade de qualquer ciência especial: a única coisa que distingue o filósofo das outras pessoas é que ele descobre no que consiste a consciência através da introspecção”, enquanto o outro distingue as mesmas verdades essenciais sem tanta reflexão e elaboração, de forma mais rude. Enfim, há uma “fé natural e permanente do gênero humano” com base na “razão natural”.

Na mesma linha de Cousin, do ecletismo, houve autores como Emilio Castelar, Jules Simon (1814-1896, autor de obras como “O dever”, “Deus, pátria, liberdade” e “A religião natural”), Sully Prudhomme (1839-1907) e outros.

Jules Simon foi discípulo e continuador de Victor Cousin, o grande eclético, tendo sido deputado de 1848 a 1850, Senador de 1876 a 1877 e ainda ocupou outros cargos. Prudhomme ganhou o Prêmio Nobel de literatura, em 1901, tendo redigido boas obras como “A justiça” (1878), “A felicidade” (1888), “O problema das causas finais”, “A verdadeira religião segundo Pascal” e outras.

Na linha da defesa dos poderes da razão, antes de Cousin, houve o pastor Richard Price (1723-1791), secretário particular de Sherburne (primeiro-ministro da Inglaterra). Price, num discurso em 04.11.1789, elogiado por Thomas Paine, no início de seu livro “Direitos do homem” (1792), ensinava que o Direito cristão (anglicano e católico) inglês, desde a Carta Magna de 1215 e da Revolução Gloriosa de 1688, reconhece o direito do povo de eleger os governantes. Da mesma forma, o direito natural de cassá-los por má conduta (tirania) e de moldar o governo para que sirva ao bem comum, sirva a sociedade.

Price era unitário, uma corrente próxima ao catolicismo, na valorização da razão e da natureza humana, contra os erros jansenistas e calvinistas. Era também jusnaturalista.

Conclusão: o movimento democrata cristão é a principal corrente política da democracia, pois os principais expoentes da democracia fundamentaram seu ideário político nas idéias de Jesus Cristo.

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