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O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

A VIA MÉDIA, de um socialismo democrático com milhões de micros e pequenos produtores e trabalhadores associados

Sempre existiu uma VIA MÉDIA entre liberalismo individualista capitalista e “coletivismo” estatal (estatização de tudo, num molde militar).

Esta via média, ECONOMIA MISTA, foi basicamente a linha da doutrina social da Igreja. 

Uma linha de uma sociedade com IGUALDADE SOCIAL, sem miséria e sem grandes fortunas privadas. Com um grande Estado social protetor dos trabalhadores, com intervenção para regular o uso dos bens, fazer planos a longo prazo de desenvolvimento, estatais, obras públicas, leis sociais, direitos sociais e trabalhistas etc.

Uma linha que erradicaria a miséria, difundindo bens entre o povo, para erradicar a miséria.

Um Estado que daria ampla proteção ao trabalhador braçal (ampla legislação trabalhista, transformando as unidades produtivas em cooperativas basicamente).

Ao mesmo tempo, daria proteção a todo micro e pequeno produtor (artesãos, escritores, cientistas, pequenos industriais, pequenos comerciantes, pequena burguesia, CAMPONESES etc).

Uma linha que não aceita o grande capital privado (trustes e cartéis, Oligopólios) e o latifúndio. Ou seja, uma linha que NÃO ACEITA A GRANDE PROPRIEDADE PRIVADA, o grande capital privado, a concentração de bens e poder (controle do Estado) em poucas mãos.

Os bens e o poder (a estrutura estatal) devem ser ESPALHADOS, para todos, DEMOCRACIA ECONÔMICA. 

Esta linha está clara mesmo nos textos anti-capitalistas e anti-livre cambismo de Adam Muller, autor que Marx leu, bem jovem. Está em Franz von Baader, depois reaparece na linha de economistas como W.G.F. Roscher (1817-1897), em vários livros muito importantes para a história da análise econômica, elogiados no livro “História da Análise econômica” (Editora Fundo de Cultura, Rio de Janeiro, 1964, Parte III, p. 184).

No fundo, é a linha dos socialistas pré-marxistas.

É a linha dos socialistas pequenos burgueses, como Sismondi.

Também é a linha dos socialistas pequenos burgueses ricardianos, que queriam cooperativas.

É a linha de Saint Simon, do sansimonismo. A linha de Fourier e do fourierismo. A linha dos textos cooperativistas de Owen. E estes três autores tinha religiosidade, ponto que vou mostrar em detalhes, em outras postagens. Em geral, queriam economia mista, também.

Lembro que mesmo Babeuf era favorável a economia mista, não queria mexer com os micros e pequenos produtores, ponto que também vou mostrar, e já até postei sobre isso.

Lenin, no NEP, no fundo, queria isso, como fórmula de transição e de uma Frente Ampla. Bukharin, mais ainda. 

Também lembro que a linha de Morus, Campanella, Spinoza, Mably, Morelli e, depois, Babeuf e Buonarrotti, queriam um Estado amplo, mas, em geral, com liberdades, micros e pequenos produtores.

Os melhores textos de Rousseau, especialmente seus projetos de Constituição para a Córsega e para a Polônia, seguem esta linha. 

A linha da economia mista é a linha de Alban de Villeneuve-Bargemont (1784-1850), no livro “Economia política cristã” (1834), obra que o jovem Marx leu. 

Também era a linha de K. H. Rau (1792-1870), economista que escreveu o livro “Tratado de economia política” (1826-1837), obra que Adolf Wagner, mais tarde, apenas ampliou.

O mesmo seja dito sobre Frederich List (com o livro “Sistema nacional de economia política”, 1841) e, mais ainda, Henry Carey, nos EUA. 

Na mesma linha há Buchez, Johann Karl Rodbertus (1805-1875), Adolf Wagner e mesmo Ferdinand Lassalle.  E o bispo Ketteler.

No fundo, era também a linha de Stuart Mill, de um socialismo democrático cooperativista, tal como a linha de Buchez, Luís Blanc e dos socialistas democráticos. 

Hobbes era absolutista, mas não era ateu, e explico

Hobbes cometeu erros, erros de absolutismo, combatendo principalmente as ideias democráticas de São Roberto Bellarmino, Doutor e Cardeal da Igreja Católica, tal como dos padres Molina, Mariana e outros.

Hobbes era cristão, de seu jeito, e cometeu erros mesmo. No entanto, há também ideias corretas, de construção de um Estado amplo, mercantilista, interventor na economia etc. 

Hobbes era cristão, não era ateu. O mesmo ocorria em Spinoza, panteísta e ligado também á Tradição estoica, que também defendia as linhas de um extenso Estado social, mas democrático, não absolutista. Spinoza elogiava Cristo, em vários de seus textos, era um judeu ecumênico, aberto. 

Hobbes seguia algumas idéias de Tertuliano sobre a corporalidade diferente de Deus, ponto tirado do estoicismo (com pitadas panteístas, apreciadas por Hegel e pelo jovem Marx) e de alguns textos bíblicos, de pontos da tradição judaica e de alguns Santos Padres.

Hobbes, um pouco como Spinoza, achava que Deus tinha uma forma de corpo (diferente do corpo humano) difuso, expressando a imanência divina, que é um dos atributos de Deus, ao lado da transcendência.

Da mesma forma, esta visão de Hobbes abarcava o ser humano, cujo espírito também teria como que certa materialidade (há alguma coisa parecida em alguns textos de Suarez, sobre a diferença das pessoas).

A ressurreição solucionava a questão da vida após a morte.

Esta concepção vem de Taciano, de Tertuliano e dos estoicos, tal como está na antropologia hebraica, que destaca que o ser humano é um todo. Há pontos comuns em Aristóteles, no hilemorfismo, esposado ainda pelos estóicos e também pela Igreja).

O humanismo cristão é fruto de uma síntese do humanismo hebraico com o humanismo da Paidéia, e a influência estoica, pelo apego ao corpo na estrutura humana, gerou ideias que fazem parte do acervo das ideias de Hobbes.

Em Justo Lipsio, um grande católico estoico, há pontos comuns. 

Tradição da Igreja exige um Estado popular, social, do bem comum, interventor, distribuidor de bens

A proposição que o jusnaturalismo é intrinsecamente democrático pode ser provada com os textos da Tradição da Igreja.

Textos de estrelas como Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, a Escola de Salamanca, Francisco Vitória, Suárez, Milton, Spinoza, Locke, Grócio, Spinoza, os arminianos, Montesquieu, o padre Gabriel Bonnot Mably (1709-1785), Rousseau, Voltaire, Holbach (ver “Política natural”, “Etocracia” e outras obras), Diderot, os textos políticos da “Enciclopédia”, Jefferson, o texto da “Declaração da Independência” dos EUA (esboçada por George Mason), Tiradentes, o abade Sieyés, o texto da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão”, Danton, Robespierre, Saint Just, Condorcet, Kant, Fichte, Goethe, Simon Bolívar, José Artigas, Frei Caneca, o padre José Maria Morelos (1765-1815), os Andradas, Alexis Tocqueville, Dickens, Tolstoi, Victor Hugo, Castro Alves, John Rawls e outros milhares de jusnaturalistas democráticos.

Há também lideranças como Jane Addams (1860-1935), feminista e reformadora social dos EUA.

A doutrina jusnaturalista exige, assim, o primado da consciência, da pessoa, do bem comum. Exige a difusão do poder, que o poder seja do povo, difusão (democratização, distributismo) do poder, da ciência, da cultura, dos estudos, dos bens, do prazer etc.

Num sentido próximo, Jorge Miranda, católico e socialista, no tomo VII da obra “Manual de Direito Constitucional” (Coimbra, Ed. Coimbra, 2007, p. 59), lembra que a “democracia” é a “forma de governo em que o poder é atribuído ao povo”, “exige exercício do poder pelo povo, pelos cidadãos, em conjunto com os governantes”.

Na democracia, cf. Jorge Miranda, “o povo” (sociedade) é “o substrato” (o sujeito) da pessoa jurídica que é o Estado e, por isso, deve ter o “exercício da soberania” (p. 60), o controle sobre o Estado, pois este deve servir à sociedade, como ensinou Cristo.

O jusnaturalismo exige uma forma democrática e popular de Estado, pois a premissa central do jusnaturalismo é que “a lei é natural”, tem fonte imediata na consciência (“coração”, na terminologia hebraica) humana, especialmente na inteligência do povo, que é a principal faculdade da consciência.

A tradição da Igreja está também no cartismo, um movimento praticamente católico, por causa da influência dos irlandeses católicos. 

As melhores ideias de Foucault coincidem com as ideias católicas sobre o poder

Foucault criticou corretamente o poder iníquo, “disciplinador”, “exterior”, destruidor até mesmo do corpo humano. Ele denunciou o “poder-repressão”, punitivo, sancionador. Neste ponto, seus textos críticos, tal como os de David Cooper (em “Gramática da vida”), têm respaldo na doutrina da Igreja.

Os textos bíblicos e dos escritores católicos também mostram que o poder pode ser diabólico, como era o poder do Faraó, de Herodes, Nero e outros tiranos. Como escreveu Diderot, o poder do Anticristo será amplo, mas nada terá de santo, divino, justo e correto. O poder pode ser bom e popular, ou nefasto, ligado aos ricos e opressores. O Estado pode ser um Estado social, ou um Estado entreguista, Estado Mínimo, Gendarme, de proteção dos ricos, de proteção da iniquidade social, da desigualdade. 

Foucault, em suas obras (especialmente “A vontade de saber”) e entrevistas, também mostrou o lado positivo do poder.

Nas palavras da prof. Thamy Pogrebinschi, resumindo idéias de Foucault: o poder (como a potência ou poder, em Spinoza) pode ser libertador, “autopoiético”, no sentido de “autogoverno” (de liberdade, autogestão, autodeterminação etc).

Foucault também ensinou que o poder é “produção”, “potência”, quando o poder se funde ao saber, numa forma de “poder-saber”.

Nos termos tomistas, o poder deve ser regido pela ética, pela sabedoria do povo, pelo saber, pelo conhecimento, pela filosofia, por nossos melhores sentimentos e instintos. Não se trata, a meu ver, de um “novo conceito” de poder, da autoria de Foucauld, e sim de uma reprise da tese platônica e hebraica do poder-sabedoria, bem exposta no livro “Sabedoria”. O poder deve ser difundido, controlado e regrado pelo bem comum, pela sabedoria comum, do povo.

No livro “Microfísica do poder” (Rio de Janeiro, Ed. Graal, 1979), Foucault demonstra que o poder existe fora do Estado, até mesmo nas moléculas das estruturas sociais, familiares e econômicas.

Conclusão: os melhores textos de Foucault coincidem com a tese do cristianismo, do catolicismo: o poder concentrado e monopolizado é espúrio, principalmente o poder voltado apenas para o bem do titular do poder, sendo este o conceito de “tirano”, um nome odiado no cristianismo, como ressaltavam Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

O poder deve ser difundido, como todos os demais bens.

Esta regra vale para as famílias (devem ser regidas por conselhos de famílias), as unidades de vizinhanças (bairros, cidades, regiões, nações etc) e também as unidades econômicas, empresas, que devem ser regidas pelos trabalhadores, na forma de cooperativas.

Os trabalhadores devem controlar os bens de produção nas unidades onde trabalham e devem participar do poder do Estado, através de formas de planejamento participativo.

Um elogio de Feuerbach a São Tomás de Aquino, ao tomismo, a doutrina social da Igreja

Ludwig Feuerbach (1804-1872), discípulo de Spinoza e um dos mestres de Marx (influenciando bastante no início), em seu livro “A essência do cristianismo” (Campinas, Ed. Papirus, 1988, p. 193), ressaltava a ligação da doutrina da Igreja com o melhor do pensamento antigo, da Paídéia (“os antigos”):

“Os cristãos, de fato, “sacrificavam” o “indivíduo”, isto é, aqui o indivíduo enquanto parte, ao todo, ao gênero, à comunidade. A parte, diz Santo Tomás de Aquino, o maior pensador e teólogo cristão, sacrifica-se a si mesma, por um instinto natural, para a conservação do todo. “Toda parte, por natureza, ama mais o todo do que a si mesma. E todo indivíduo por natureza ama mais o bem do seu gênero do que o seu bem individual. por isso, todo ser naturalmente ama mais a Deus, o bem universal, do que a si mesmo (“Summae P. I., q. 60, art. V). Portanto, neste sentido os cristãos pensam como os antigos. Tomás louva os romanos (de “Regim. Princ.”, liv. III, c. 4) pelo fato deles terem colocado a sua pátria acima de tudo e de terem sacrificado o próprio bem-estar ao bem-estar dela”.

O texto de Feurbach resume mesmo parte da doutrina social da Igreja.

Os cristãos pensam como os melhores dos antigos. A idéia de “justiça” (de bem comum, que é o objeto desta virtude cardeal) está nos textos de Homero, de Hesíodo, nos poetas e trágicos gregos, tal como nos textos dos filósofos (Xenófanes, Heráclito), historiadores e no pensamento filosófico-religioso. Destas fontes, migrou para o ensino de Sócrates, de Platão (o livro “Protágoras”, “República” e especialmente “As leis”), sendo mais detalhado nos textos de Aristóteles e dos estóicos. Há praticamente as mesmas ideias nas fontes semitas. 

O ideal da justiça é o ideal da razão pautando a vida pessoal e social, sendo esta a essência do conceito de virtude (“Arete”). O elogio da razão era também o ideal de Isócrates (436-338 a.C.), do “logos”, um orador aluno de Sócrates, que redigiu obras como “Contra os sofistas” (390 a.C.), “Panegírico” (380 a.C.) e “Nicoles”. Também era o ideal de Paidéia de Demóstenes. Demóstenes e Isócrates discordavam sobre o que fazer perante o poder de Filipe, pai de Alexandre, mas concordavam no mesmo ideal civilizatório, do poder do “logos”, da razão.

As idéias persas-semitas, do mazdéismo, também influenciaram Pitágoras, pois seu professor foi Ferécides, um fenício (como Tales de Mileto), nascido em Tiro. O mesmo ocorreu nas doze cidades asiáticas, onde teve início a filosofia grega, cidades como Éfeso e outras. 

Segundo Diógenes Laércio, Ferécides (de origem fenícia) foi “o primeiro grego que escreveu sobre a alma e os deuses” e atribuem a este filósofo várias predições (profecias), o que mostra a influência oriental, semita, talvez hebraica. Ferécides ensinava que “naõ se deve honrar o ouro e a prata”. Diógenes transcreve uma carta de Ferécides a Tales, enviando a este suas obras, antes de morrer. Uma carta entre dois gregos de origem fenícios. O pitagorismo tem influência do orfismo e do mazdéismo, correntes ligadas à cultura semita.

Os próprios gregos atribuem o alfabeto grego ao alfabeto fenício.

Cadmos, um fenício, fundador de Tebas na Beócia, teria trazido o alfabeto fenício. Tales seria um descendente de Cadmos. Diógenes Laércio diz que “muitos” consideravam Tales como “o primeiro que defendeu a imortalidade da alma” e estudos os astros (indício da influência da cultura suméria, persa e fenícia). Pitágoras influenciou Platão através de Filolau e de outros pitagóricos, cujas obras foram compradas por Platão, como consta em todas as biografias de Platão.

Como explicou Heródoto, toda a religiosidade grega vem do Egito e do oriente (influência semita, persa, fenícia etc) e a religiosidade grega é a base da filosofia da Paidéia, como fica claro nos textos de Tales, Ferecides, Xenófanes, Heráclito, Anaxágoras, Pitágoras, Sófocles, Sócrates, Platão, Aristóteles, os estóicos e outros.

Estas idéias filosóficas e da religiosidade natural-racional, boa parte de origem semita, coincidiam com os textos bíblicos, hebraicos, semitas, e foram, assim, aceitos pelo cristianismo (que manteve o melhor da Paidéia, cf. Werner Jaeger), sendo a filosofia cristã uma síntese do melhor da filosofia clássica, da Paidéia, em mescla com o melhor das ideias semitas hebraicas.

O “sacrifício” de Cristo é apresentado como exemplo maior e o próprio Cristo ensinou que não há amor maior que dar a própria vida pelo próximo, pelo bem dos outros, da sociedade. Augusto Comte, nas pegadas de Saint-Simon, um grande cristão socialista, cunhou o termo “altruísmo” como contraposto (contrário) ao “egoísmo” (pecado) e os próprios positivistas terminaram por reconhecer que o altruísmo é a mesma coisa que o velho amor ao próximo (a caridade).

Conclusão: a “pátria” é a sociedade onde nascemos e a regra vale para toda sociedade, em seus diversos níveis, da família, bairro até o mundo.

O cristianismo, como bem expôs Santo Agostinho e os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio e São Basílio), tem, em suas entranhas, uma ética social, baseada no bem comum, no bem da sociedade e de cada pessoa concreta.

O Estado e o poder, tal como a organização da economia, só são legítimos se servirem ao bem de cada pessoa e de toda a sociedade.

Conclusão: o primado da sociedade (domínio eminente da sociedade), ou seja, do bem comum, é a essência da concepção política cristã e está presente também nos melhores textos da Paidéia, do pensamento hindu, muçulmano (neste ponto, basta ver os elogios de Santo Tomás a Avicena e a Averróis) e nos textos mais antigos de todas as culturas, como a chinesa, a japonesa, coreana, dos povos da África, do Tibet, de nossos povos indígenas etc. 

A religiosidade do jovem Frederich Engels, o amigo de Marx

O jovem Engels, quando era cristão (leitor de Krumacher, um Pastor escritor que viveu em Bremen), numa carta a Friedrich Graeber (em 15.06.1839), elogiava o amor de São Pedro pela razão, no trecho em que o líder dos Apóstolos falava do “leite racional” do Evangelho: “desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que, por ele, vades crescendo, se é que já provastes que o Senhor é benigno”, bondoso, aspirando sempre ao bem comum (cf. 1 Pd 2,2-3).

Engels elogia, nesta carta, homens que “passaram a vida aspirando a união com Deus”, como “Borne, Spinoza ou Kant”, três grandes democratas com forte religiosidade. O jovem Engels, o sócio de Marx, termina a carta dizendo: “quanto daria por ver claro eu mesmo!”. Ludwig Borne foi inspirado por Lamennais, um grande católico. Kant foi inspirado por Rousseau e Montesquieu, dois católicos, ainda que Rousseau tenha morrido como protestante, mas foi católico quase toda a vida.

A eleição democrática popular de Davi, exemplo

O governante mais respeitado da Bíblia foi Davi. Este foi eleito pelo povo, numa série de assembléias difusas e progressivas, praticamente consultando cada família da nação hebraica, como prova o texto de II Samuel, capítulo 5:

“1. Todas as tribos de Israel vieram ter com Davi em Hebron e disseram,-lhe: Vê: não somos nós teus ossos e tua carne? 2. Já antes, quando Saul era nosso rei, eras tu que dirigias os negócios de Israel. O Senhor te disse: és tu que apascentarás o meu povo e serás o chefe de Israel. 3. Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ter com o rei em Hebron. Davi fez com eles uma aliança diante do Senhor e eles sagraram-no rei de Israel. 4. Davi tinha trinta anos quando começou a reinar, e seu reinado durou quarenta anos”.

Davi ascendeu ao poder numa aliança (pacto com o povo), com os representantes (“anciões”, senadores) do povo, graças à participação do povo na vida política, na vida pública.

Foi o povo que elegeu Davi, que o tornou depositário do poder, por mérito e pelo consentimento do povo, das “tribos”, cidades e famílias de Israel. Antes dele, Saul também foi eleito, escolhido pelo povo, como pode ser visto em I Samuel, capítulo 10:

17. Samuel convocou o povo diante do Senhor, em Masfa: 18. Assim, disse ele aos israelitas, fala o Senhor, Deus de Israel: Eu vos tirei do Egito, livrei-vos das mãos dos egípcios e de todos os reis que vos oprimiam. 19. Vós, porém, rejeitastes hoje o vosso Deus que vos salvou de todos os males e de todas as tribulações, e dissestes: Estabelecei um rei sobre nós. Pois bem: ponde-vos por ordem de tribos e de milhares e apresentai-vos diante do Senhor. 20. Samuel mandou que se aproximassem todas as tribos de Israel, e a tribo de Benjamim foi designada (pela sorte). 21. Mandou vir a tribo de Benjamim por famílias, e a família de Metri foi designada. E a escolha caiu, enfim, sobre Saul, filho de Cis. Procuraram-no, mas não o encontraram. 22. Consultaram então de novo o Senhor: Haverá ainda alguém que tenha vindo aqui? O Senhor respondeu: Ele escondeu-se no meio das bagagens. 23. Correram a buscá-lo e colocaram-no no meio da multidão, a qual ele excedia em altura do ombro para cima. 24. Samuel disse ao povo: Vedes aquele que o Senhor escolheu? Não há em todo o povo quem lhe seja semelhante. E todos o aclamaram, dizendo: Viva o rei! 25. Samuel expôs em seguida ao povo os direitos do rei, consignou-os em um livro que depositou diante do Senhor, e despediu todo o povo, cada um para a sua casa”.

A “aclamação” era uma forma de “eleição”. Uma explicitação do consenso, como ocorre com a eleição por cédulas ou por computador. A lição bíblica é clara: o povo se movimenta naturalmente pela liberdade racional, pela autodeterminação, pelo auto-controle pessoal, familiar e social.

O povo é o detentor natural do poder público. A aceitação do povo (da maior parte do povo) era considerada vital para assegurar a legitimidade do poder público, dos titulares do poder. Por este e outros textos, fica claro que a tese da senhora Hanna Arendt (1906-1975), que o consentimento livre (pela via do diálogo) é a base da autoridade legítima, tem fundamentação bíblica, tal como está nos melhores textos da Paidéia (nos discursos de Péricles, na teoria jusnaturalista de Protágoras, nos textos de Sófocles etc).

Os textos bíblicos acima somente reprisavam a idéia de “Brit”, “pacto”, “aliança”, explícito na aliança ocorrida no Monte Horeb, no deserto do Sinai (um morro pequeno, no Egito), com a mediação de Moisés.

Como ressaltou Walter Rehfeld, no livro “Nas sendas do judaísmo” (São Paulo, Ed. Perspectiva, 2003, p. 45), “o Código da Aliança é o primeiro estatuto político e civil legalizado pelo consenso do povo” (cf. fica claro no livro “Êxodo”).

Mesmo os “Dez Mandamentos”, os dez principais preceitos éticos e jurídicos, foram expostos à aprovação do povo, através de um pacto, chamado, em hebraico, de “Brit”.

A legislação comunitária e socializante de Moisés supera qualquer outro ordenamento na antiguidade e contêm regras e institutos válidos e úteis, até mesmo hoje. Este ponto foi constatado por autores como Spinoza, Moses Hess e outros. Por isso, Hess, o homem que converteu Marx e Engels ao socialismo, considerava Moisés como o fundador do socialismo, do ideal da democracia popular. O sistema econômico delineado por Moisés é uma forma de socialismo distributista, de fundo comunitário e agrícola. Uma forma de democracia popular, onde o povo é o principal sujeito da história.

Afinidades entre catolicismo, democracia popular, radicalismo, nacionalismo e socialismo democrático

Sobre as afinidades (pontos comuns) entre catolicismo, democracia popular, social ou participativa, radicalismo, nacionalismo, socialismo reformismo e solidarismo, apontadas num post anterior por Gramsci, há um bom texto na biografia de João XXIII, publicada, no Brasil, com o título “João XXIII” (São Paulo, Editora Três, 1974, p. 133):

“Um dos amigos de Dom Roncalli na capital francesa foi o socialista Édouard Herriot.

As entrevistas dos dois eram freqüentes e nas reuniões a que compareciam, ambos eram vistos em animadas palestras, que deixavam confusos os que conheciam as idéias e tendências que pareciam colocar um e outro em posições antagônicas. Numa de suas habituais conversas, Dom Roncalli citou várias passagens do teórico radical Leon Bourgeois, para confirmar a tese que defendia, deixando admirado o velho socialista, que não podia acreditar que entre os livros de leitura do núncio pudessem figurar as obras daquele autor. Dom Roncalli disse-lhe, em tom de brincadeira, que era bem pouco o que os separava e parece que Herriot acabou se convencendo disto, pois no fim de sua vida decidiu voltar à Igreja Católica, da qual se afastara na mocidade. Influência de Dom Roncalli“.

Édouard Herriot (1872-1957) foi Premier do Gabinete de Ministros franceses (1924, 1925, 1926 e 1932, tal como presidiu a Assembléia Nacional Francesa, em 1947). Herriot listava, como “ilustres antepassados” do radicalismo, homens como: Voltaire, Condorcet, Diderot, Benjamin Constant, “o grande e querido Lamartine, religioso mas anticlerical”, Ledru-Rollin, Camille Pelletan, Leon Bourgeois (1851-1925) e outros nomes. Bourgeois foi autor da linha solidarista do radicalismo, do socialismo democrático. Uma linha extremamente próxima do solidarismo cristão (no Brasil, hoje, há inclusive o Partido Humanista da Solidariedade, com este ideário, bem exposto pelo padre Fernando Bastos de Ávila, no livro “Solidarismo”).

Dos autores referidos por Herriot como sendo os antepassados do radicalismo, somente Diderot foi, numa fase da vida, talvez ateu, mas terminou teísta. Friso – o próprio Diderot, durante quase toda a vida, foi teísta e há historiadores que dizem que morreu panteísta, ligado às idéias de Sêneca, dos estóicos e meio spinozista. Spinoza era profundamente religioso, como mostram todos seus textos e o mesmo ocorre com Marilena Chauí, sua ilustre discípula, no Brasil.

A teoria e a classificação das paixões, em Aristóteles, Agostinho, Descartes, São Francisco de Sales e Spinoza

A Igreja nunca ensinou, como alguns estóicos (Cícero, Sêneca, Plutarco e alguns outros não incidiram neste erro) e alguns budistas, que as paixões em si são más. As paixões são boas, pois a natureza, apesar de decaída, é boa, e isso vale para o corpo, os prazeres, o prazer sexual, os afetos, os instintos etc. Tudo isto está claro na “Suma Teológica” ou no “Tratado das paixões” de Descartes, tal como estava bem exposto na “Ética a Nicômaco” de Aristóteles e nos livros sobre ética de Cícero (bem apreciados por Santo Ambrósio ou São Jerônimo).

Sobre a distinção entre boas e más paixões, nascidas do apetite sensitivo, vale a pena ler o livro de São Francisco de Sales, “Tratado do amor de Deus” (Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1950, p. 32, 34/35), que lembra que Santo Agostinho mostrou que os melhores estóicos admitiam que os sábios pudessem ter afeições (“eupatias”, “boas paixões”):

“… as paixões e afeições são boas ou más, viciosas ou virtuosas, conforme o amor donde procedem é bom ou mau” e “Santo Agostinho reduziu a quatro todas as paixões e afetos. “O amor, diz ele, que tende a possuir aquilo que ama, chama-se desejo; alcançando-o e possuindo-o, chama-se gozo; fugindo ao que lhe é oposto, chama-se temor; e, se este mal lhe sucede, e o sente, chama-se tristeza; e estas paixões são más, se o amor é mau; boas, se ele é bom”. 

Santo Agostinho assim ensina que há cinco paixões (emoções fundamentais): amor, desejo, alegria (gozo, o que inclui o prazer), temor (medo) e tristeza (o que inclui o sofrimento). Cinco. 

Descartes ensinou, no “Tratado das paixões”, sua última obra, que as paixões principais seriam: amor, ódio, desejo, alegria, tristeza e admiração. Vou destacar o ponto sobre a admiração (elogiada por Aristóteles como base da filosofia) em outra postagem. 

São Tomás de Aquino classificou as paixões em onze principais – amor (inclinação), ódio, alegria, tristeza, desejo e aversão (seis do apetite, concupiscíveis) e esperança, desalento, animo, temor (medo) e ira (paixões de defesa e consecução, irascíveis). 

São Tomás, no entanto, distingue, entre as onze, quatro paixões (emoções) fundamentais – desejo, temor (medo), alegria e tristeza (sofrimento). A mesma opinião dada por Santo Agostinho, no livro “Cidade de Deus” (livro XIV). Lembra também que o desejo inclui a cobiça, a base da concupiscência, querer algo. Aristóteles, no livro II da “Ética a Nicômaco” (capítulo 3, 1104b e cap. 5, 1105b), também destacou que a alegria (o que inclui o prazer) e a tristeza (o que inclui o sofrimento) são as paixões fundamentais.

Depois, Aristóteles, no livro “Da alma” (cap. 4), ensina que da concupiscência (desejo) nasce a alegria (quando a pessoa frui, tem a posse do bem querido) e a esperança (a alegria pela espera do bem) e da ira nasce a dor (sofrimento) e o medo (a espera do falta do bem, do mal, do sofrimento). No mesmo livro, “Da alma” (cap. IV), Aristóteles ensina que são quatro as paixões (emoções) fundamentais – alegria (o que inclui o prazer), tristeza (o que inclui o sofrimento, a dor, tristeza), medo e esperança.

Boécio, no livro “Sobre a consolação”, diz que as paixões fundamentais são – alegria, medo (temor), esperança e tristeza (sofrimento). Avicena, no livro “Da alma”, ensina coisa parecida. 

São Tomás ensina também que as paixões do concupiscível estão ligadas a nossa relação com os bens. As paixões do irascível estão ligadas a nossa relação com o mal (a falta do bem devido, correlato). 

Spinoza classifica as paixões principais em alegria, tristeza e desejo. Estas seriam as três mais importantes. Daí, surgiriam outras, totalizando cinco, como as mais importantes. Então, o desejo é um apetite de que temos consciência; a alegria é o efeito da posse de um bem; a tristeza é o contrário; o amor é a alegria acompanhada de uma causa externa; e a ódio é a tristeza acompanhada de uma causa externa. Alegria, tristeza, desejo, amor e ódio. Quase a classificação de Agostinho, aceitando amor, desejo, alegria, tristeza como comuns a estes dois pensadores. Então, Agostinho destaca temor e Spinoza destaca o ódio, na quinta. 

São Francisco de Sales também escreveu: “por isso, o maior homem de bem de todo o paganismo, Epitecto [um escravo estóico], não abraçou este erro de não haver paixões no homem sábio”. São Francisco de Sales, amigo do grande São Vicente de Paulo, reconheceu que os bons pagãos também se salvavam e obtinham a bem-aventurança durante a vida e após a morte. A salvação, para cristãos e para não-cristãos, ocorre pela orientação da vida em prol do bem comum (da “pátria”, da sociedade que os cercava, onde viviam, da humanidade), pela prática das “virtudes” (ações racionais visando o bem), pelo cultivo da “ciência” e por vingarem as afrontas contra o povo e indignarem-se e combaterem os tiranos.

Vejamos a conclusão de São Francisco de Sales na obra referida acima:

Na vontade há, como no apetite sensitivo, movimentos chamados afetos; mas os da vontade chamam-se ordinariamente afeições, os outros, paixões. Os filósofos gentios podiam amar a Deus, a pátria, a virtude, as ciências; aborreceram o vício, desprezaram as honras, a morte ou a calúnia, desejaram a ciência: podiam até ser bem-aventurados depois da sua morte; animaram-se a vencer os obstáculos que encontravam na aquisição da virtude, temeram a censura, fugiram de cometer muitas faltas, vingaram as afrontas públicas [ao povo], indignaram-se contra os tiranos, sem interesse próprio. Todos estes movimentos residiam na vontade, visto que nem os sentidos, nem por conseqüência o apetite sensual, são capazes de ser aplicados a estas coisas, e, portanto, estes movimentos eram afetos do apetite intelectual ou racional, e não paixões do apetite sensual”.

Correlato às emoções, havia a teoria dos quatro temperamentos, criada por Hipócrates, e desenvolvida por Aristóteles e depois por Galeno. O temperamento melancólico era marcado pelo predomínio das emoções da tristeza, do medo, do receio. O temperamento colérico era marcado pelo predomínio da paixão da ira. O temperamento sanguíneo era marcado pela alegria, otimismo, esperança. O temperamento fleumático era marcado pela temperança, pelo controle racional das paixões. 

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