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O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

A essência do Plano divino: liberdade pessoal e igualdade social

A essência do Plano divino é uma síntese entre liberdade pessoal e igualdade social.

É um Plano de libertação, a vida em plenitude, a concessão de poder divino, por participação na natureza divina, a todas as pessoas.

A estratégia de Deus é baseada na democratização da “vida eterna”, na democratização e universalização do poder (“Carta a Tito, 1,2).

O “ideal” cristão exige uma sociedade justa, estruturada para o bem comum, que compatibilize a igualdade social e a liberdade pessoal.

Estes pontos de ética política constam nos textos e nas obras de milhares e milhares de autores e personagens. Dentre estes, para ilustrar com exemplos, basta pensar em expoentes como: os textos bíblicos, os Santos Padres e doutores da Igreja, os grandes santos, São Tomás Morus, Las Casas, Francisco Vitória, Luiz de Molina, Mariana, Francisco Suárez, Bellarmino, George Calvert Baltimore (1580-1632, fundador de Maryland, em 1629), Pope, o padre Mably, o padre Raynal, o bispo Henrique Gregório (1750-1831), o bispo Fauchet, O´Connell, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, Rosmini, Balmes, Dupanloup, o bispo Doutreloux (patrono da “Escola de Liége”), Dupanloup, Ketteler, Acton, Tocqueville, Windthorst, Mercier, Mermillod, Leão XIII, Albert de Mun, Marc Sangnier, Joseph Vialatoux, Paul Archambault, Grégoire (Georges Goyau), Pottier, Toniolo, Antoine, Pesch, Luigi Sturzo, Maurice Hauriou, Maritain, Mounier, Alceu, Lubac, Lercaro, João XXIII, Dom Hélder e outros.

Detalhando mais, a linha da Igreja tem homens como o padre Jacques Roux e o bispo Gregório.

O bispo Gregório foi praticamente o primeiro a reclamar a República, na Convenção, em 1792. Foi também o principal advogado dos negros, dos escravos e dos judeus. Em 1794, foi graças principalmente a ele que a escravidão foi abolida na França.

O Círculo Social também era católico, pois era liderado por dois bispos católicos, o Bispo Claude Fauchet e o bispo Nicholas Bonneville. 

Outro grande Cardeal democrático foi o bispo Gibbons, de Baltimore, que presidiu os concílios católicos nacionais, nos EUA, em 1852, 1866 e 1884.

Todas as pessoas devem ter parte no Estado, na organização da sociedade, para assegurar a todos a felicidade temporal

A autoridade (os agentes públicos e as estruturas estatais e sociais) deve espelhar a ação de Deus, sendo como que um representante da ação divina e dos interesses do povo, sempre em movimento em prol do bem comum.

No final da encíclica “Notre Charge”, Pio X destacou que “Nós desejamos vivamente que” os leigos e homens de bem “tomem parte ativa na organização da sociedade”, para (como “fim”) tornar “acessível” a todos “a felicidade temporal”.

Assim, Pio X concluiu: todas “as engrenagens sociais deveriam estar organizadas de tal forma” que gerem o bem comum e “paralisassem os esforços dos maus”. Todas as estruturas estatais devem promoverem e defenderem o bem comum, devem regenerar e recuperar os maus, livrando as pessoas da maldade, das opressões, da iniquidade.

Pio XI, na encíclica “Ubi arcano” (23.12.1922), também ensinou que o cristianismo (como o judaísmo, antes, e também o melhor da Paidéia) prega “o culto do direito”, pois “a fonte do direito” (e da “autoridade” legítima) vem de Deus, pela mediação da consciência (cf. São Paulo, no início da “Carta aos Romanos”, no capítulo 2).

O “sujeito da autoridade política é o povo”, como destacaram Pio XII e João Paulo II.

A Igreja não tem uma fórmula pronta, pois sabe que a fórmula correta é a sabedoria do povo (dos leigos, especialmente), que deve irradiar-se por toda a sociedade, por todo o Estado. A Igreja tem apenas princípios, ideias gerais. Está certo o brocardo latino que ensina que “a sabedoria civil” (do povo) é “coisa santíssima” (“est quidem res sanctissima civilis sapientia”).

Conclusão: como ensinou o então Cardeal Ratzinger (hoje, Bento XVI), no livro “O sal da terra” (Rio, Ed. Imago, 2005, p. 112 e 114), “existem diferentes escolas políticas no catolicismo” (liberdade política), o que importa é que “os cristãos, em todos os partidos, atuem de acordo uns com os outros, de modo transversal”, “no que diz respeito às questões éticas essenciais da política, a partir da sua responsabilidade comum” pelo bem comum.

Resumindo – nenhum cristão (católico) deve apoiar a privatização de tudo (liberalismo) e nem a estatização de tudo (coletivismo), pois o correto é um meio termo, difusão de bens pequenos e médios para todos, patrimônio estatal amplo, estatais, cooperativas, economia mista, ponto bem explicado por Liberatore, Pesch, Ketteler, Antoine, Toniolo, Buchez e outras estrelas da Igreja. 

Afinal, “Deus é amor” (cf. I Jo 4,16), o Ser que tem com Plano o Bem comum (em inglês, “good”, bom”, decorre de “God”, “Deus”).

A formação histórica da “Rerum Novarum”, por Dom João E. Martins Terra

Colhi no texto num ensaio de Dom João Martins Evangelista Terra –

“A encíclica Rerum Novarum tem uma longa pré-história. Durante todo seu pontificado. Leão Xlll já vinha alimentando a ideia de promulgar um documento que tratasse exaustivamente da questão social que desafiava dramaticamente a civilização ocidental.

Para a preparação, o Papa chegou a criar uma comissão confidencial liberada pelo Pe. Matteo Liberatore e o Cardeal Mermillod com os integrantes de sua “União de Friburgo”. O Cardeal IDomenico Tardini descobriu nos arquivos da Secretaria de Estado do Vaticano, entre alguns escritos do latinista Volpini, os rascunhos da Rerum Novarum.

O primeiro rascunho foi redigido pelo jesuíta Liberatore, em 5 de julho de 1890. São trinta páginas. Em setembro do mesmo ano, o Cardeal Zigliara fez um segundo rascunho mais amplo de sessenta e oito páginas.

O texto de Zigliara, inspirado no texto primitivo de Liberatore, foi por sua vez revisto e corrigido por Liberatore e por fim pelo próprio Leão XIII. No texto se percebiam tendências diversas.

A redação de Zigliara era mais acadêmica e doutrinal. redação de Liberatore, que por mais de quarenta anos escreveu sobre questões sociais na revista Civiltà Catlolica, era mais aberta aos problemas e exigências de seu tempo. A Encíclica não se escreveu rapidamente. Foram consultados numerosos teólogos e especialistas em questões sociais, inclusive D. Ketteler [erro de Dom João, pois Ketteler faleceu em 1877, influenciou a encíclica com seus textos, não com a presença na redação] e De Mun.

Os textos estão cheios de correções. O Papa releu-o inúmeras vezes. Corrigia e acrescentava. As margens estão repletas de alterações. Leão XIII conversou longamente com o sociólogo TonioloSubmeteu-lhe o texto provisório da Encíclica.

A elaboração foi lenta e laboriosa através de múltiplas redações italianas e latinas. Durante um ano toda uma equipe de filósofos, sociólogos, teólogos, filólogos, trabalhou sob a orientação de Leão XIII.

Liberatore fez a última revisão do texto italiano. Os latinistas Volpini e Boccali traduziram o texto para o latim. Volpini anota no manuscrito: “Redação latina, feita sobre o esquema Zigliare-Liberatore, posto em ordem e modificado por Boccali, 21 de abril de 1891″.

Assim, no dia 15 de maio de 1891, foi promulgada a Encíclica sobre as condições dos operários. A Rerum Novarum, Carta Magna da ação social católica, é a resposta serena e objetiva de Leão XIII aos desafios do seu tempo”.

Destinação universal dos bens e controle pelos trabalhadores do processo produtivo, linhas gerais da Doutrina social da Igreja

Albert Mun – tal como Étienne Lamy ou Jacques Piou – destacava corretamente a boa linha doutrinária da Igreja, no século XIX, ao escrever: “muitas de nossas idéias estão em germe em Lamennais, Montalembert, Lacordaire e a escola de Buchez”.

O mesmo foi dito, alguns anos depois, por Marc Sangnier, no livro “Reformadores sociais” (1932).

A “Rerum novarum” (15.05.1891) apenas chancelou algumas idéias bem mais antigas, condensadas e expostas por Buchez, Lamennais, Lacordaire, Montalembert, Ozanam, Ketteler, a União de Friburgo, De Mun, a Escola de Liège, Péguy, Mounier e outras boas correntes, precursoras da teologia da libertação e da doutrina social da Igreja.

As idéias de Buchez e de Ozanam podem ser resumidas no ideal de uma “democracia participativa e social”, um grande Estado social, economia mista. Este ideal concreto está nas entranhas da “doutrina social da Igreja” e na teologia da libertação.

De fato, há como que uma linha solar e brilhante entre os textos bíblicos, da Paidéia, dos Santos Padres, da escolástica, de Santo Tomás Morus, Vives, Gil Vicente, Montaigne, Las Casas, Vitória, Suárez, Bellarmino, Vieira, Montesquieu, Mably e os políticos latino-americanos que participaram do movimento de independência de seus países.

Esta linha é a mesma de Manzoni, Daniel O´Connell, Tocqueville, Ozanam, Buchez, Balmes, Ketteler, Toniolo, Georges Goyau (um grande apóstolo), Antônio Pottier (1849-1923), Marc Sangnier e os grandes românticos.

A Igreja luta por igualdade social, não aceitando cristalizar condições sociais iníquas, de desigualdade

A Igreja luta por igualdade social, como fica claro em textos papais, como, por exemplo, a alocução “O genuíno significado da libertação cristã” (Roma, 31.07.1974), do papa Paulo VI. Neste documento, este papa destacava que coincide “o conceito de libertação com o de salvação; e assim se compreende como possa falar-se de teologia da libertação”.

O Papa Paulo VI lembrou que a concepção social da Igreja “proíbe-nos cristalizarmos o aspecto estático das condições humanas quando estas fomentam a desigualdade e a riqueza egoísta”.

Logo, a doutrina da Igreja condena as cristalizações jurídicas e econômicas de estruturas más, como o latifúndio, os monopólios e o próprio conceito de capital e de propriedade quiritária.

Esta foi a linha do melhor da doutrina social da Igreja, a linha de Borne, Buchez, Leroux, Ozanam, Dupanloup, Lacordaire, do bispo Ketteler, de Tocqueville, Mun, de Manning, Toniolo, Pesch, Maritain, Mounier, Thomas Merton e de muitos outros expoentes da doutrina social da Igreja e do socialismo utópico, de feição cristã (“pré-marxista”, vindo antes de Marx, cf. lições do padre Fernando Bastos de Ávila).

O ideal histórico concreto de um grande e extenso Estado social, com democracia real, economia mista

A aspiração (ideal concreto histórico, sonho, ideias práticas do povo) de um Estado social e protetor da sociedade e dos pobres também foi o núcleo do ideário de homens como: Dupanloup, os membros da União de Friburgo, Ketteler, Cardeal Gibbons, Cardeal Mermillod, Cardeal Manning, Toniolo, Frederico Ozanam (1813-1853), Buchez, Lacordaire, Daniel O´Connell (1775-1847), Jaime Balmes, Cardeal Angénieux, César Cantu, José do Patrocínio, Alceu, o próprio Bonald e e milhares de autores ligados à doutrina social da Igreja.

Estes pensadores, tal como as centenas de milhões de leigos católicos, sonharam com um Estado bondoso, pautado pelo bem comum.

É o ideal geral de milhões de leigos católicos, especialmente dos catequistas e também dos religiosos, especialmente das freiras, como minha tia avó.

Este é ainda o ideal impreciso e genérico de toda pessoa honesta, de bilhões de pessoas que buscam justiça social e bem comum.

Razões para uma boa economia mista

Economia mista foi o modelo delineado por Pio XI, na “Quadragesimo anno” (1931), modelo elogiado pelo grande jurista nacionalista, Osny Duarte Pereira.

Hoje, o socialismo de mercado ou economia socialista de mercado, adotado pela China, é basicamente economia mista, ainda que mereça críticas pela complacência com bilionários. Mas adota um modelo de economia mista.

Economia mista é também adotado pelo Vietnam, Cuba, a própria Coréia do Norte, África do Sul nos moldes de Mandela, Japão, pela Índia, Federação Russa, países escandinavos, países da Oceania, países africanos e nos melhores modelos latino-americanos. 

Economia mista foi defendida por Bernstein, Jaures, os fabianos, H.G.Wells, Chesterton, os socialistas democráticos, os peronistas, Cárdenas, Nasser, Tito, Bukharin e mesmo pela NEP, na URSS.

A NEP foi criada por Lenin e durou até 1928/1929, sendo um modelo de economia mista. A tese da convergência entre socialismo e capitalismo, defendida sob o mote da coexistência, por Kruschev, no fundo, defendia economia mista e atenuou bastante os erros de Stalin.

Os trabalhistas ingleses (e escandinavos, israelistas, da Oceania), também defendiam economia mista. Idem para Irã, os grandes nacionalistas da Guatemala e da Indonésia. E o mesmo para o modelo de democracia popular e para as Frentes populares.

Todo o movimento nacionalista, em geral, adota economia mista. No Brasil, foi este o modelo de Getúlio Vargas, de Domingos Velasco, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Neiva Moreira, pelo PSB de João Mangabeira, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Lyra, Darcy Ribeiro, Alceu, João Goulart, até de Juscelino, Sérgio Magalhães, General Lott, sendo retomado, depois, por Lula e Dilma. 

Mandela defendia o mesmo modelo de Pio XI. Estatais para grandes meios de produção, Estado, economia mista, planificação participativa, amplo amparo do Estado aos trabalhadores, doentes, educação pública, saúde pública etc.  

Malcolm X e os muçulmanos negros dos EUA também defendem economia mista. Os Panteras Negros, idem. A Frente Ampla, no Uruguai, defende o mesmo. O socialismo africano, idem. 

Na Europa, o movimento da Democracia cristã defendia economia mista. E, por isso, fez extensas alianças com os Partidos socialistas democráticos. Isso ocorreu na França com De Gaulle, na Itália (basta pensar em Aldo Moro, querendo estender a aliança mesmo com os eurocomunistas).

Na Itália, as alianças da Democracia Cristã com o Partido Socialista foram apoiadas pelos Papas João XXIII e Paulo VI.

Na Inglaterra, os católicos votam em peso nos Trabalhistas, que defendem economia mista. Nos EUA, votam no Partido Democrático, que leva a bandeira do New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, defendendo economia mista, Estado social, sistema tributário redistributivo (elogiado por Piketty).

No Canadá, os católicos votam em partidos em prol da cooperatização, das estatais, do Estado social. Idem para a Irlanda, com um dos IDHs maiores do mundo, baseado em Estado social, democracia popular, economia mista (e isso inclusive no Sinn Fein e no IRA). 

Economia mista é formada por difusão de bens para cada pessoa, cada família, milhões de micro, pequenas e médias empresas em geral familiares, mais cooperativas, estatais e planejamento participativo (regulamentações, controles estatais). E altos tributos para ricos e subsídios para pessoas de baixa renda, que as complementem. Renda universal, sistema tributário redistributivo. Estado social amplo. É isso que chamo de modelo de economia mista ou democracia popular. 

Economia mista foi defendida por Buchez, Ketteler, De Mun, Heinrich Pesch, Toniolo, Oswald von Nell-Breuning, Maritain, Gustav Gundlach, Mounier, Dom Hélder, Hans Kung e pelos grandes teólogos da libertação. Idem para os melhores escritores da doutrina social da Igreja, incluindo Alceu, padre Fernando Bastos de Ávila e milhares de outros. 

Na Alemanha, a esquerda do CDU coincidia com o SPD, na defesa da economia mista. Os melhores textos de Ludwig Erhard eram pela “economia social de mercado”, um modelo atenuado e aguado de economia mista. Ludwig Erhard (1897-1977) seguia as ideias da Igreja e de grandes escritores como Franz Oppenheimer (1864-1943). Os melhores keynesianos do mundo todo também são pró economia mista, basta pensar em Galbraith.

 

 

 

A linha democrática popular da doutrina social da Igreja, algo tradicional e revolucionário

A Igreja, dentro do processo de evangelização, expõe idéias éticas que contém implicitamente e explicitamente uma doutrina política pluralista, que é o maior elogio da razão do povo, das idéias do povo. Esta doutrina exige a participação de todos nas decisões que dizem respeito a todos, sendo este o melhor método para a realização do bem comum. Este ponto foi bem explicado por São Tomás de Aquino, dando continuidade à linha democrática e popular dos Santos Padres, dos Mártires, dos Apologistas, dos Padres Apostólicos, dos Apóstolos e da Tradição hebraica.

Pio XII, na alocução de 01.06.1941, em comemoração ao quinquagésimo aniversário da “Rerum Novarum”, chamou a linha democrática e popular da Igreja, a linha da “Rerum”, de “nobre flama” (Chama, Luz) “do fraternal Espírito social, que se reavivou” nos lares cristãos “pela luminosa centelha das palavras de Leão XIII”.

Uma chama (tocha, luz) que deve ser mantida por contínuo “combustível”, sem nunca ser “encoberta pela indigna, tímida e cautelosa isenção em face das necessidades dos pobres ou apagada pela terra e pelo barro” do “torvelinho do anti-cristianismo”. Esta chama é a “fome e sede de justiça”, nos termos de Cristo. A luz da “Rerum”, em 1891, foi precedida, antes, no Brasil, em 1888, pela encíclica de Leão XIII sobre a abolição dos escravos, da reificação das pessoas.

Oito exemplos ilustram bem a linha da Democracia real, do amor da Igreja pela democracia real.

Primeiro, Otto Schilling (1874-1956), autor de obras como “A doutrina social e do Estado de Santo Agostinho” (1910), “Direito natural e Estado na Doutrina da antiga Igreja” (1914), “Doutrina social e do Estado de Santo Tomás de Aquino” (1923) e “Filosofia do direito e Cristianismo social” (1933).

Em segundo lugar, Marc Sangnier (1873-1950), que escreveu obras como “O espírito da democracia” (1905), “O Sillon, espírito e métodos” (1905), “A luta pela democracia” (1908), “A jovem República” (1913) e “Discursos” (1910).

Em terceiro lugar, Giuseppe Toniolo (1845-1918), autor de obras como “A democracia cristã” (1900), “A união profissional do trabalho” (1901) e “Tratado de economia social” (1906-1921). A escola ético-jurídico, de Toniolo, defendeu uma democracia política e econômica real, onde os trabalhadores sejam sujeitos das relações políticas e econômicas, e não objetos, escravos.

Em quarto lugar, o jurista Filomusi Guelfi (1842-1922), autor de obras como “A doutrina do Estado na antiguidade grega na sua relação com a ética” (Nápoles, 1873), “O conceito de direito natural e de direito positivo, na história da filosofia do direito” (1874) e “Lições sobre filosofia do direito” (1949, póstuma).

Em quinto lugar, o padre Henri Rommen (1897-1967), autor de obras magistrais, como “A doutrina de Estado de Francisco Suarez” (1947) e “O Estado no pensamento católico” (São Paulo, Edições Paulinas, 1967, obra elogiada por Paulo VI). Em sexto lugar, Jacques Maritain (1882-1972), autor de livros como “Da filosofia cristã”, “Humanismo integral”, “Os direitos do homem e a lei natural”, “Cristianismo e democracia”, “A pessoa e o bem comum”,”Homem e Estado” e outras.

Em sexto lugar, basta lembrar do sociólogo belga, o beneditino Odon Lottin (1880-1965), autor de obras magistrais como “Psicologia e moral dos séculos XII e XIII” (1942-60), “O direito natural em São Tomás de Aquino e seus precursores” (1931), “Princípios de moral” (1947), “A teoria do livre arbítrio depois de Santo Anselmo até São Tomás de Aquino” (1929), “As fontes da nossa grandeza moral” (1946) e “Moral fundamental” (1954).

Em sétimo lugar, há o padre Antoine Pottier (1849-1923), outro sociólogo belga, um dos principais inspiradores do movimento democrático cristão. Pottier escreveu livros como “A cooperação e as sociedades operárias” (1889), “A questão operária” (1903) e “A moral católica e as questões sociais de hoje em dia” (1920).

A linha de democracia real e popular foi bem descrita por Maritain (oitavo exemplo), na “Carta sobre a Independência” (1935), onde escreveu: “uma sã política cristãmente inspirada”, que chama “a si todos os não-cristãos, que a achassem justa e humana”, vai “muito longe para a esquerda” na escolha de “soluções técnicas, na apreciação do movimento concreto da história e nas exigências de transformação do presente regime econômico”. Isto ocorre por “posições absolutamente originais”, “procedendo, na ordem espiritual e moral, de princípios muito diferentes das concepções de mundo e da vida, da família e da cidade, prestigiadas nos diversos partidos de esquerda”. Há o mesmo ensinamento nos textos de Mounier, Alceu, do Cardeal Cardijn e outros autores da Igreja.

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