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O Brasil precisa de um Socialismo democrático, trabalhista, com ECONOMIA MISTA, milhões de MICRO e PEQUENOS PRODUTORES, com AJUDA ESTATAL

A Tradição da Igreja é pró amplo Estado com MUITAS ESTATAIS, e TAMBÉM com milhões de micros, pequenos e médios produtores familiares.

DESTACO que os MICROS, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES não exploram o trabalho alheio, em geral são FUNDADOS EM TRABALHO PESSOAL, no suor do próximo rosto, comem o que produzem.

Muito Estado, controlado pelo povo organizado, com MUITO EMPREENDEDORISMO, com AMPLA AJUDA ESTATAL, em BOA SIMBIOSE COM AS ESTATAIS, AMPLO SISTEMA PÚBLICO ESTATAL DE BANCOS etc.

Uma República dos TRABALHADORES, com base no TRABALHO PESSOAL, com AMPLO COOPERATIVISMO (sinergias, clusters produtivos) e AMPLA AJUDA ESTATAL (Princípio da subsidiaridade).

Combinação ampla dos princípios da SOLIDARIEDADE e da SUBSIDIARIDADE, para REALIZAR O BEM COMUM. 

A Igreja sempre apreciou a Escola Institucionalista ligada a Veblen, tal como autores como Henry Carey, Schmoller, Keynes, Kaldor, Alexandre Hamilton, Friedrich List, a Escola Histórica de Economia, o Socialismo de cátedra e outras.

A Igreja sempre apreciou o Trabalhismo ingles, pelo apreço a economia mista, gradualismo, democracia etc. E sempre apreciou os possibilistas, os oportunistas, o Personalismo etc. Basta pensar em Alberto Pasqualini, no Brasil, o maior teórico trabalhista e grande católico. Ou mesmo os melhores textos de Getúlio e de João Goulart.

A Igreja sempre viu com bons olhos modelos de socialismo parcial, democrático, combinados com um amplo Estado social e econômico, que proteja e faça prosperar um amplo setor de ECONOMIA POPULAR, milhões e milhões de MICRO, PEQUENOS  e até Médios PRODUTORES FAMILIARES (camponeses, artesãos, pequena burguesia, todo tipo de produtores independentes com base no próprio trabalho e da família, amplo comércio pequenos etc), o máximo de EMPREENDEDORISMO POPULAR possível.

O modelo de socialismo apreciado pela Igreja tem o máximo de DISTRIBUTISMO (casas para cada família, renda básica para todos, apoio a economia familiar, renda familiar alta), tal como tem apreço por estatais, planejamento público, regras públicas, ampla tributação dos ricos (loas para Piketty) e amplo apoio ao empreendedorismo popular (micros, pequenos e médios produtores familiares, associados em cooperativas) etc.

Foi este o modelo delineado por Karl Polanyi (1886-1964). Idem, para Thorstein Veblen, James Steuart (1767) e até Hegel, que seguia os textos de Steuart, e também algo do Círculo Social, de Mably etc.

A doutrina da Igreja sempre criticou as escolas liberais, como Ricardo, a Escola de Manchester e, depois, a Escola Neoliberal.

A doutrina da Igreja apreciou os melhores textos do último John Stuart Mill, favorável a um socialismo cooperativista, com amplo campesinato, associado em cooperativas.

A Igreja apreciou Gunnar Myrdal, o Estado do bem estar social, os modelos da Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, algo do Francês, algo da Itália (especialmente a Lei de proteção as micros e pequenas empresas familiares, na Itália).

A Igreja elogiou o modelo de crescimento do Japão, com ampla presença estatal, e milhões de micros, pequenos e médios empresários familiares, o mesmo modelo aplicado,depois, na Coréia, e também em Singapura (a base da economia de Singapura é um amplo porto estatal, uma ampla infra-estrutura ESTATAL).

O apreço a um amplo Estado está na melhor Tradição colbertista, de Jean Baptiste Colbert (1619-1683), tal como nos melhores textos de Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692), o fundador da Escola Alemã de Economia.

O mesmo para São Tomás Morus, Antonio Serra, em 1613, tal como para Giovanni Botero , Campanella, Spinoza, e até textos de Hobbes. Depois, MABLY, MORELLY, o melhor de ROUSSEAU, o grande padre jesuíta RAYNAL, os bispos católicos do Círculo Social, Babeuf, Phillip Buonarrotti e outros.

O colbertismo e o cameralismo foram bem apreciados pela Igreja, pela ampla presença estatal, pelas criação de estatais e controles públicos da economia.

A mesma linha estava presente em Mathew  Carey (1820), seu filho Henry Carey, em Daniel Raymond (1820), Henry Clay (1887), e Alexandre Hamilton.Depois, Paul Cawes, Lucien Brocard, Erik S. Reinert e outros.

E esta mesma linha estava em SISMONDI, no socialismo pequeno burguês, pré marxista, ANTES de Marx. Buchez, Lamennais, Ketteler, Louis Blanc, o melhor dos textos de Lassalle, há um núcleo comum.

Esta linha foi desenvolvida por PESCH, TONIOLO, PIETRO PAVAN, MARITAIN, MOUNIER e outros.

Esta mesma linha está nos melhores textos de HANS SINGER, JAMES TOBIN, GALBRAITH, NAOMI KLEIN, RUSSEL LONG, HUEY P. LONG, Mc Govern, van Parijs, Duboin, Paine, Léon Bourgeois,  de JOÃO XXIII, Ignacy Sachs e outros. 

Foi esta a linha (fórmula, síntese) indicada pelo Professor Benayon, no Brasil.

Acredito que seja a base da linha de DOWBOR e PAUL SINGER, com a ECONOMIA SOLIDÁRIA, sempre defensora de FORTE COOPERATIVISMO.Idem para STIGLITZ, CHOMSKY, BELLUZZO, PORCHMANN e outros luminares.

É TAMBÉM a linha de Hans Singer,  André G. Frank, Amin, Theotonio dos Santos, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Álvaro Vieira Pinto, Darci Ribeiro, Claus Offe, O´Connor, Beveridge, tal como Buchez, Ketteler, De Mun, Liberatore E OUTROS.

Conclusão: é possível um socialismo com amplo mercado popular, com milhões de micro e pequenos proprietários, com milhões de MICROS, PEQUENOS e até MÉDIOS PRODUTORES FAMILIARES, com base no TRABALHO PESSOAL, e não na exploração do trabalho alheio.

Alceu Amoroso Lima e o socialismo católico

Alceu Amoroso Lima, no artigo “Nos anos 70” (de 01.01.70), defendeu novamente o “ideal” do “policentrismo” e o “ideal” da “reconciliação entre o socialismo e o espiritualismo e de modo particular entre socialismo, democracia e cristianismo”.

Este ideal de reconciliação entre socialismo e espiritualismo (principalmente catolicismo) é explicável pelo fato do socialismo ter nascido com matriz religiosa, nos textos cristãos e judaicos (Moses Hess).

Há o mesmo ideal de um socialismo com liberdade e democracia nos textos de expoentes como Charles Péguy, Emannuel Mounier (1905-1950), Karl Rahner (1904-1984), Dom Hélder Câmara (1909-1999), Dom Tomás Balduíno, Marciano Vidal, Hans Küng e nos livros de vários bispos (Dom José Maria Pires, D. Pedro Casaldáliga, Dom Adriano Hipólito e outros).

Mounier é um grande exemplo, tendo militando na Resistência Francesa e dirigido a revista “Esprit”.

O ideal pró-socialismo de Mounier fica patente em obras como “O pensamento de Charles Péguy” e outras.

Péguy defendia um socialismo cristão, católico, bem próximo de Jean Jaurés, que era teísta e humanista. Jaurés e Charles Péguy eram teístas. Péguy era católico.

Os dois defenderam um modelo de socialismo democrático, economia mista, distributista, amplo Estado social, que é basicamente o que eu defendo, o mesmo que o Partido Trabalhista inglês.

No fundo, democracia participativa e social e socialismo participativo, democrático e humanista são, de fato, sacos com a mesma farinha, o mesmo bom milho.

Lição boa de Alceu Amoroso Lima, no livro “Os direitos do homem e o homem sem direitos”, 1974

Alceu Amoroso Lima, no livro “Os direitos do homem e o homem sem direitos” (Rio, Ed. Francisco Alves, 1974, p. 36), ensinou sobre a convergência entre catolicismo e socialismo:

“O socialismo democrático, a “socialização” cristã, o solidarismo ou a “participação com o que o gaullismo procurou responder aos movimentos sociais na França, no mês de maio de 1968, todos se apoiam na tendência ao TRABALHO ASSOCIADO, único que realmente pode corresponder às exigências de um Código dos Direitos do Homem, de tipo autêntico”.

Alceu elogiava o primeiro De Gaulle, um grande católico social, que liderou a Resistência Francesa, contra o nazismo, na França, tal como o último De Gaulle, no final dos anos 60.

No final da vida, De Gaulle queria transformar todas as grandes empresas francesas em Cooperativas, com direito dos trabalhadores na gestão e nos lucros, tal como ampla Planificação estatal participativa da economia.

De Gaulle queria o fim do colonialismo e teve o mérito de dar fim à colonização francesa na Argélia.

De Gaulle combateu duramente a OTAN, tal como o FMI e o fato dos EUA emitirem o dólar como “moeda mundial”, coisa que De Gaulle odiava, corretamente. 

A linha católica de SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO, a linha de Alceu, Dom Hélder e de João XXIII

Alceu Amoroso Lima, em suas cartas a sua filha, uma monja contemplativa internada num mosteiro, no livro “Cartas do pai”, abria sua alma.

Nas cartas a filha, por exemplo, em 21.01.1959, dizia apoiar um “socialismo não-comunista” (que não estatizasse todos os bens), um socialismo democrático, economia mista, distributista, avançado, Democrático, “como o de Nenni” (Pietro Nenni, 1891-1980, secretário do Partido Socialista Italiano, que combateu o fascismo, tal como as tropas de Franco, na Espanha).

Alceu defendia a aliança entre o PDC na Itália (“apertura a sinistra”, “abertura a esquerda”) e o PSI, tendo as mesmas ideias da esquerda do PDC da itália. Em 1963, na Itália, o PDC tinha 38% dos votos e o PCI tinha 25%.

Mais tarde, com Aldo Moro, com apoio de Alceu, na década de 70 do séc. XX, o PDC buscou uma aliança com o PCI, para superar o capitalismo, aliança que Alceu defendeu, tal como defendeu o governo de Allende, no Chile.

Alceu vibrou com a visita do genro (Alexei Adjubei, na época diretor do jornal “Izvestia”) e da filha de Kruschev, Rada, a João XXIII, no Vaticano, em março de 1963, onde foram recebidos por João XXIII.

O “Diário” de João XXIII mostra a importância desta visita histórica, tendo escrito João XXIII, “quando se souber o que eu disse e o que ele, Adjubei, disse, penso que” meu nome será “abençoado”.

João XXIII diz, no “Diário”, “deploro e lamento aqueles que se prestaram” a estas críticas injustas, “ignoro e esqueço”.

Lembro que Adjubei esteve no Brasil em 1963, convidado por João Goulart, tendo sido muito bem recebido por San Thiago Dantas, um grande católico, ligado a Alceu e a Dom Hélder e a João Goulart. 

Alceu era apoiador apaixonado de João XXIII, a “linha Roncalli-Montini” (João XXIII e Paulo VI, preparando a sucessão de Paulo VI) e crítico de uma parte do Vaticano, a “Junta do Coice”, a ala ligada Ottaviani e Tardini, a parte reacionária, vencida no Vaticano 2. Os relatórios de Dom Hélder mostram a batalha da parte melhor no Vaticano 2, tendo Dom Hélder sido um dos campeões das melhores reformas no Vaticano 2.

No Brasil, Alceu era mais ligado a AP e a parte do PDC mais a esquerda, como Paulo de Tarso (nascido em 1926, foi Ministro da Educação, de João Goulart, de junho a outubro de 1963) e Plínio de Arruda Sampaio, a parte do PDC ligada ao PTB, aliada de João Goulart.

Alceu defendeu todos os atos bons do governo de Getúlio Vargas, como o governo de Juscelino, tal como a posse de João Goulart, e foi contra o golpe de 64.

No final da vida, em 1983, com uns 90 anos, Alceu tornou a declarar que era socialista católico, aconselhando o voto no PT. Pontes de Miranda também morreu como socialista católico, a mesma linha que adoto. 

Alceu, no início dos anos 60, lutou por uma aliança entre Arraes, San Thiago Dantas, Edgar de Matta Machado etcf, para evitar o golpe de 64. Alceu chegou a auxiliar os esforços de Carvalho Pinto e de Magalhaes Pinto (este em MG), para combater a candidatura de Carlos Lacerda e tentar levar um pedaço da UDN a apoiar Juscelino, em 1965.   

Na carta de 16.01.1964, Alceu diz que a UDN era o partido do “direitismo integral”, pior que o “PSD, mais jeitoso e maleável” em alianças com o PTB. Alceu diz que “não é a toa que na UDN, pouco a pouco, se refugiaram todos os ricos e reacionários”.

Nas cartas a filha, Alceu sempre ataca Carlos Lacerda, a quem chama de Hitler, várias vezes, tal como de golpista etc. Em todas as cartas, ataca a TFP, de “Plínio, Sigaud, Mayer e companhia”, tal como faz duras críticas ao Cardeal Jaime Câmara e também a Dom Vicente Scherer.

Alceu criticava sempre Gustavo Corção, o padre Leme Lopes, Sobral e outros reacionários, setores minoritários da Igreja, cooptados pela CIA e pelos ricos.

Alceu diz que aderiu a esquerda em 1936, embora, mesmo antes, já tivesse posições pro socialismo na juventude e no início da década de 30, como pode ser visto no livro “Política”, onde defende a estatização dos bancos e de outros grandes bens produtivos, vasta legislação trabalhista, Previdência etc. 

Alceu defendeu sempre Dom Hélder Câmara.

Como pode ser visto na Carta de 24.11.1963, Alceu defendia, em 1963, a linha de “João XXIII, Kruschev, MacMillan e Kennedy”. MacMillan era Harold MacMillan (1894-1986), primeiro Ministro da Grã-Bretanha, de 1957 a 1963, pelo Partido Trabalhista Ingles.

Alceu era defensor da esquerda do Partido Democrático nos EUA, do Partido Trabalhista inglês, e apreciava Kruschev, pela crítica deste aos erros de Stalin, pela luta em prol da Paz etc. 

Alceu, como está na carta de 07.02.1964, lembrou que escreveu um artigo, no começo do governo de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974, governo de 1946 a 1951), lá por “1946 ou 1947”, defendendo a legalização do Partido Comunista no Brasil, usando os mesmos argumentos, lembra Alceu, de um “editorial do Jornal do Brasil”, de 07.02.1964. 

A linha socializante de Alceu e de Dom Hélder é a mesma de Maritain, Mounier, Péguy, Albert de Mun, Marc Sangnier, Buchez, Ketteler e dos Santos Padres

Alceu Amoroso Lima, no artigo “Nos anos 70” (de 01.01.70), defendeu o “ideal” do “policentrismo” e o “ideal” da “reconciliação entre o socialismo e o espiritualismo e de modo particular entre socialismo, democracia e cristianismo”.

Este ideal de reconciliação entre socialismo e espiritualismo (principalmente catolicismo) é explicável pelo fato do socialismo ter nascido com matriz religiosa, nos textos cristãos e judaicos.

Há o mesmo ideal de um socialismo com liberdade e democracia nos textos de expoentes como Marc Sangnier (1879-1950), Albert de Mun, Charles Péguy, Maritain, Emannuel Mounier (1905-1950, fundador do Sillon e do Movimento Republicano Popular), Karl Rahner (1904-1984), Dom Hélder Câmara (1909-1999), Dom Tomás Balduíno, Marciano Vidal (o maior teólogo moralista destes últimos cem anos), Hans Küng e nos livros de vários bispos (Dom José Maria Pires, D. Pedro Casaldáliga, Dom Adriano Hipólito e outros).

Mounier é um grande exemplo, tendo militando na Resistência Francesa e dirigido a revista “Esprit”. Mounier esboçou um modelo de economia mista, onde o trabalho tinha o primado, com grande intervenção estatal, fundo cooperativo etc. 

Dom Pedro Casaldáliga considera Karl Rahner o principal teólogo do século XX, ponto que fica claro no livro “Tratado fundamental da fé” (1976), do padre Karl Rahner, um grande teólogo do ecumenismo (Hans Küng deu continuidade a esta linha).

O ideal pró-socialismo de Mounier fica patente em obras como “O pensamento de Charles Péguy” e outras.

O grande Charles Péguy foi aliado do grande Jaurés (socialismo democrático, com religiosidade). Péguy defendia um socialismo cristão, católico, bem próximo de Jean Jaurés, que era teísta e humanista.

No fundo, democracia popular, participativa e social e socialismo participativo, democrático e humanista são, de fato, sacos com a mesma farinha, o mesmo bom milho.

Conclusão: o primado da pessoa, a destinação universal dos bens ou o direito primário de todos aos bens são proposições centrais da doutrina política e econômica do maior Doutor da Igreja, o grande Santo Tomás de Aquino (cf.”Summa Theol”., 2-2, q. 32, ª 5 ad 2 e q. 66, a. 2).

Também está nos textos dos Santos Padres e estas teses foram ensinadas por Leão XIII, na “Rerum novarum”; relembrado por Pio XII na alocução de 01 de junho de 1941; e na Mensagem radiofônica natalina, de 1954. Fazem parte da Tradição, estando nos melhores textos dos Santos Padres, com destaque para Santo Ambrósio e São Basílio Magno.

As linhas convergentes entre socialismo democrático, trabalhismo e Doutrina social da Igreja

As linhas convergentes entre o socialismo democrático, trabalhismo e Doutrina social cristã. 

Os livros da TFP, com seus erros de heresia neoliberal, mostram claramente a convergência entre catolicismo e socialismo democrático, que já tinha sido descrita por Ketteler e Pio XI na “Quadragésimo anno”, em 1931.

Esta convergência foi demonstrada nos textos de centenas de autores e basta citar, como exemplo, Alceu Amoroso Lima, João Goulart, Getúlio, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo de Tarso, Domingos Velasco, João e Francisco Mangabeira.

Maria do Carmo Campello de Souza, doutora em Ciência Política e então professora de Ciências Sociais da USP, tendo escrito o livro “Estado e partidos políticos no Brasil, 1930-1964” (editora Alfa-Omega), deu uma entrevista ao jornal “Versus” (n. 15, outubro de 1977, pp. 3-5), onde, respondendo a perguntas de Francisco Weffort, diz:

“Em torno de que idéias-eixo você vê uma reorganização do sistema partidário no Brasil? R – Parece-me que existem atualmente pelo menos três grandes questões que terão de ser equacionadas no futuro sistema partidário. Uma é a da justiça social, de uma distribuição mais eqüitativa da renda. Outra é a questão do nacionalismo, ligado à da estatização, que deverá cortar os partidos de um modo muito mais complexo do que no passado. A terceira é a dos direitos humanos, ou mais amplamente, das garantias dos direitos individuais e das liberdades básicas. Poderá surgir, por exemplo, um partido de orientação socialista ou democrata-cristã, enfatizando o problema da justiça social, como também poderia nascer um partido trabalhista-nacionalista”. (…)

P – Você acredita na viabilidade de um partido socialista, hoje, no Brasil?

R–…sem dúvida alguma.

P – Por que?

R – Porque acho que a plataforma de um partido socialista, ao mesmo tempo democrática e voltada para a justiça social, seria aceitável para uma grande parte da população, muito embora a difusão de idéias socialistas seja pequena, no Brasil. Claro, esse partido não poderia se enrijecer, não poderia se resguardar num tipo de política meramente doutrinária, sem bases populares”.

Nas respostas, Maria do Carlos mostra apreço por um partido de orientação socialista-democrática, aberto, ou democrata-cristã, socializante. Nisso, implicitamente, apontava a convergências destas tendências que gerariam o PT, o PDT, PSB, o PCdoB (metade de sua direção veio da antiga AP da Igreja) ou o PSOL.

De fato, o ideal de uma democracia popular, socialismo democrático, trabalhismo, está espalhado entre vários partidos não-liberais e não-neoliberais, estando presente em setores do PMDB (Requião), PDT, PT, PSOL, PCdoB, PSB, PCB, Pátria Livre e outros. 

Erradicar a REIFICAÇÃO é o ponto chave da Reforma social

O professor Goffredo da Silva Telles Júnior, católico que defendeu a planificação estatal participativa da economia, escreveu o artigo “Troca de tabuletas”, na revista “Veja”, de 04.02.1987. Ensinou que “quanto mais grave o problema”, “mais ele necessita ser debatido à luz do sol para que as soluções brotem das forças vivas da nação”, da participação da consciência de todos.

Com base nestas idéias de democracia social e econômica, vários expoentes católicos defenderam, em vários livros e textos, uma fórmula política chamada democracia participativa ou socialismo participativo.

Dentre vários expoentes, vale à pena citar alguns: Goffredo da Silva Telles Júnior, Dalmo Dallari, Fábio Konder Comparato, Alceu Amoroso Lima, Patrus Ananias, o Padre José Linhares, Durval Ângelo, Ivo Lesbaupin, Edgar da Matta Machado, o filho assassinado pela ditadura militar de Edgar da Matta, Paulo Fernando Carneiro de Andrade, Plínio Arruda Sampaio, Dom Hélder, Pontes de Miranda, Barbosa Lima Sobrinho, Domingos Velasco e outros grandes católicos e socialistas do Brasil.

Há diferenças de tons entre eles, mas há também um núcleo comum, que forma o conteúdo deste blog, um núcleo de FÓRMULAS PRÁTICAS CATÓLICAS e NATURAIS, para SUPERAR O CAPITALISMO.

A mesma idéia foi defendida pelos juristas portugueses Jorge Miranda (católico e socialista) e Canotilho (que elogiava a concepção jusnaturalista sobre a lei).

A concepção da Constituição dirigente, de Canotilho, é boa, pois é uma teoria sobre o Estado democrático social, popular, não-capitalista, de síntese. Por isso, serve como bom livro de leitura para militantes da Igreja, tal como as boas obras de Jorge Miranda, JURISTA CATÓLICO E SOCIALISTA, de Portugal, que, com Canotilho, está na origem de quase todos os pontos da Constituição socialista de Portugal.

Para Esmein, outro grande jurista francês ligado à Igreja, a principal fundamentação (“axioma”) racional da democracia é a regra da liberdade pessoal e social das pessoas: “o que é estabelecido no interesse de todos deve ser regulado pelos interessados” (uma máxima muito citada nos livros de direito canônico).

Esmein demonstrou também que os fundamentos da democracia são bem antigos, pois, mesmo os reis franceses sabiam que era vital o consenso do povo.

Mesmo os melhores juristas medievais ensinavam que o acesso à coroa de uma pessoa depende da “virtude da lei e do costume geral da França” (aceitação, consenso popular), e não da sucessão hereditária (cf. o livro de João Carlos Brum Torres, “Figuras do Estado moderno”, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989, p. 69).

O consenso é tão valorizado pela Igreja que a própria doutrina católica fixou os principais pontos da interpretação da Revelação usando meios da democracia, por votações de maioria, nos Concílios gerais, regionais e nos Sínodos.

Foi a Igreja quem popularizou a regra dos dois terços, que foi adotada também pela Internacional 1,2 e 3. 

O mesmo ocorreu na formação do direito canônico. O “Decreto” de Graciano sempre foi chamado de “Concordia discordantia canonum” (“Concórdia dos cânones discordantes”), ou seja, os pontos consensuais entre as normas. Este nome era o mesmo nome de outra codificação de direito canônico feita por Cresconio, no século VIII.

Graciano, há cerca de mil anos atrás, cita cânones (decisões colegiais, coletivas, consensuais) de 105 Concílios, dos quais nove gerais e 96 regionais e restritos, todos com votações por maioria, por grandes consensos. São estas decisões que formam o NÚCLEO DO CATOLICISMO, com origem DEMOCRÁTICA, em Reuniões coletivas, votadas, sendo a última o Concílio Vaticano 2.

Além disso, Graciano expôs os pontos consensuais em vários textos bíblicos, papais, dos Santos Padres, textos de juristas romanos (Ulpiano, Paulo) e outras obras.

Thomas Carlyle (1796-1881), autor da estima do jovem Engels, elogiou a Igreja Católica, quando a criticou por fixar a verdade por votação, pelo método democrático.

O respeito à opinião do povo, à razão do povo, é a base antropológica da democracia. Barthélemy escreveu: “a democracia está plenamente de acordo com a razão, que quer que um ser racional se conduza por si próprio”.

A boa teologia é fruto do entendimento racional dos dados da Revelação e da própria razão natural, tendo duas partes, uma racional (a maior) e outra supra-racional, que é delimitada pela razão, porque não pode ser irracional (nos termos de Einstein, “Deus não joga dados”, Deus é inteligente, é racional).

Pela mesma razão, a teologia sempre tem uma parte que pode ser chamada de “teologia política”, como destacou Johann Baptist Metz (em obras como “Esboço de uma teologia política fundamental para nosso tempo” e “Teologia do mundo”).

Afinal, nunca é possível “fazer teologia de costas às dores e aos males” das pessoas.

Na mesma linha, há os textos políticos e teológicos de Jürgen Moltmann, especialmente o livro “Teologia da esperança” (1964) e “A Trindade e o reino de Deus” (1980). Há a mesma conclusão nos textos de Ernst Bloch (1885-1977), Erich Fromm, Garaudy e em outros grandes luminares.

Há outros marxistas próximos das teses cristãs. Por exemplo, Pier Paolo Pasolini (n. 1922) foi um grande cineasta, novelista e poeta. Combinou marxismo com algum apreço pelo catolicismo, tendo feito o filme “O Evangelho segundo São Mateus” (1964), que recebeu prêmios de organizações católicas.

Em 1969, houve um “Conselho dos partidos comunistas e operários” do mundo, em Moscou, onde houve o reconhecimento da contribuição positiva da religião para a democracia.

Pio XII, em 11.09.1958, num discurso a peregrinos do Instituto Nacional de Previdência da Espanha, ressaltou que a sociedade e o Estado foram criados pelas pessoas. A finalidade da produção é: promover, “desejar sempre e em todos os campos”, o “maior bem” das pessoas (da “humanidade inteira”), especialmente (“em especial”) o bem dos “mais necessitados”.

Neste discurso, Pio XII deixou claro que o “amor” (caridade) “ao próximo” (como a si mesmo) é o “amor sobrenatural”, o mesmo “amor” que “nos leva a Deus e nos une com Ele”.

Nas palavras de Cristo, no Cenáculo, pouco antes da tortura e da morte (cf. Jo, 15,12): “este é meu preceito, amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (inclusive até o sacrifício da própria vida). O escrito mais antigo de Marx é um texto religioso, no Liceu de Treves, onde ele lembra que o próprio Deus morreu em sacrifício pela humanidade, sendo exemplo para todos. Vou postar este texto, numa categoria própria de TEXTOS RELIGIOSOS de Karl Marx. 

Amor é caridade, é querer o bem para todos, sendo este o núcleo, a quintessência do cristianismo.

Nos termos de Santo Tomás, a caridade (o amor, querer o bem do próximo, o bem geral) é a “forma das virtudes”, a alma das demais virtudes.

Sumarizando: as pessoas (o povo, a sociedade) devem criar leis e estruturas positivas, tal como estruturas econômicas e organizações econômicas, unidades produtivas, que sejam a expressão de ordenações (idéias e regras racionais, sendo as melhores geradas pelo diálogo) da razão, ordenando suas condutas pessoais e sociais, para que sejam bons, adequados ao bem comum (ou seja, ao bem pessoal, familiar e social).

Com base nestas premissas, Leão XIII, na “Libertas”, destacou que toda nação deve ter independência política e econômica, não deve ser “serva de nenhum estrangeiro ou tirano”.

Dom Hélder Camara deu a linha para a Igreja no Brasil defender o nacionalismo econômico, o socialismo democrático, o trabalhismo

A ética cristã e humana exige a erradicação dos grandes monopólios privados, dos trustes e cartéis, do grande capital privado, dos latifúndios, da oligarquia, que tem seu poder no oligopólio.

A Igreja sempre apreciou o Estado, as estatais, as cooperativas, as micro, pequenas e médias propriedades familiares produtivas e úteis. 

A Igreja luta pela renda cidadã para todos, para que TODOS TENHAM PEQUENOS BENS. 

E a Igreja luta pelo subsídio agrícola, para que o campesinato tenha pleno amparo da sociedade, do Estado. Por isso, a Igreja apoia o MST, a sucursal no Brasil da Via Campesina. 

Dom Hélder seguiu os passos do padre Cícero (que elogiava, com oitenta anos, o nacionalismo de Sandino) e de Alceu Amoroso Lima.

Numa poesia (de 24.07.1966) com um elogio a Lebret, Dom Hélder escreveu: “Karl Marx, levado ao céu pela crítica ao capital e pela defesa do trabalhador” (cf. a biografia de Dom Hélder, feita por Nelson Piletti e Walter Praxedes, “Dom Hélder Câmara”, São Paulo, Ed. Ática, 1997, p. 409).

Expoentes como Dom Hélder, Dom Luciano, o abade Pierre (na França), Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Moacir Grechi e outros são a cristalização das melhores idéias do povo, da boa linha evolutiva de nosso povo e da Igreja.

Resumindo, nas palavras de Dom Hélder: “o desenvolvimento recebido do alto, pré-fabricado, sem a participação do povo na criatividade e nas opções, pode ser tudo, menos desenvolvimento”. Neste ponto, Dom Hélder tinha a mesma concepção de Paulo Freire, no livro “Pedagogia do oprimido”.

A ligação de Dom Hélder com Roger Garaudy também é outro grande sinal dos tempos, a meu ver.

A palestra feita por Dom Hélder, em outubro de 1974, na Universidade de Chicago, sobre a relação entre Santo Tomás e Karl Marx, também tem a mesma linha libertária e ecumênica, mostrando que o método de Santo Tomás era ecumênico, pois acolhia todas as verdades contidas na Paidéia, nos textos de Maimônides, Averróis e Avicena. Este método deve adotado para as verdades contidas nos textos de Marx e outros autores, como recomendava Dom Hélder.

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