Amaro Quintas – bom amigo de José Honório Rodrigues, um historiador católico, eminente, do PSB, elogiadíssimo por Alceu –, no livro “O sentido social da Revolução Praieira” (Rio de Janeiro, ed. Civilização Brasileira, 1967, pp. 147-148), fez um bom elogio da revolução praieira e do papel de líder intelectual, de Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1850).

Antônio era negro, socialista e católico, como Domingos Velasco, outra grande liderança católica e socialista (idem para Alceu, Pontes de Miranda, Sérgio Buarque de Holanda e outros).

Vejamos o texto de Amaro:

“Diz Pereira da Costa ter Antonio Pedro de Figueiredo nascido em Igaraçu no dia 22 de maio de 1822. Essa afirmativa na me parece, entretanto, retratar fielmente a verdade. Noticiando o falecimento do mulato socialista afirma historiógrafo pernambucano que a “morte o arrebatou a vida da eternidade, aos trinta e sete anos de idade, no dia 21 de agosto de 1850”.

Mas o jornal Liberal Pernambucano de 25 e agosto de 1859 anota: “Obituário das pessoas que foram sepultadas no cemitério público. Dia 22, Antonio Pedro de Figueiredo, pernambucano 45 anos, solteiro, São José, congestão cerebral”. A mesma coisa encontramos no Diário de Pernambuco de 23 de agosto de 1859; “Mortalidade do dia 22: Antonio Pedro de Figueiredo, pardo, solteiro 45 anos, conforme atestam os dois jornais acima citados, o seu nascimento não ocorreu em 1822, como declara Pereira da Costa, e sim em 1814.

São obscuras as suas origens. Sabemos quase somente terem sido elas humildes. Falam os jornalecos da época em um pardo Basílio como o seu pai. É o que diz o Volcão de 30 de agosto de 1847; “… o ridículo Cousin Fusco, filho do pardo Bazílio lá de Iguarassu, onde sempre viveu de limpar a estribaria do pai, e de pescar os seus ciris e bodiões”.

Vindo para o Recife procurou o amparo de um amigo que não correspondeu as suas esperanças, expulsando-o de sua casa. João Sinhô, assim se chamava – conforme O Proletário de 1 de setembro de 187 – esse falso amigo que o desprezou numa ocasião em que Antonio Pedro tanto necessitava de uma ajuda. Mas, buscando abrigo junto aos frades do Convento do Carmo lá encontrou acolhimento e amparo material para aprofundar-se nos estudos”.

Antônio Pedro de Figueiredo era católico, negro, pobre, eclético ligado a Victor Cousin e ao ecletismo católico.Nasceu antes de Marx e era socialista católico, pré-marxista. Lembro que as melhores ideias do socialismo nasceram no socialismo cristão-católico, pré-marxista. 

Antônio Pedro de Figueiredo formou-se no Convento do Carmo, o que, com certeza, contribuiu para a síntese entre catolicismo e socialismo.

Antônio Pedro de Figueiredo foi decisivo para sua liderança na Revolução Praieira, continuando os esforços dos padres da Revolução de 1817, de Frei Caneca e outros. O desembargador Nunes Machado foi outro líder principal, tendo sido morto em combate (em fevereiro de 1849), mas o teórico era Antônio Pedro Figueiredo.

O pensamento socialista deste negro socialista e católico foi descrito da seguinte forma, por Amaro (pp. 152-153):

“Replicando a Autran assegura Figueiredo: “Esta aparição (o socialismo) tende a reformar o estado social em prol do melhoramento da moral e material de todos os membros da sociedade. Para esse fim cada escola socialista oferece meios diferentes, mas não há uma sequer cujas intenções deixem de ser puras e generosas, cujo ideal não seja a realização na terra dos princípios de liberdade e fraternidade”.

Pouco depois acrescenta: “A formula geral da escola socialista a que pertenço, é a realização progressiva do principio cristão de liberdade, igualdade e fraternidade, efetuada sem violência e por meio de medidas apropriadas as necessidades dos diversos países.

E justificando o seu conceito cristão do problema social enumera os argumentos dos grandes doutores da Igreja todos contrários a exploração do homem pelo homem.

Começa com São Clemente: “O uso de todas as coisas que estão neste mundo deve ser comum a todos os homens. A iniquidade foi que permitiu que um dissesse; isto é meu; e outro; isto me pertence. Deste fato proveio a discórdia entre os mortais”(Os grifos são de Figueiredo). Vem depois com Santo Ambrósio: “A natureza ministrou em comum todos os bens a todos os homens. Com efeito, Deus criou todas as coisas a fim de que o gozo delas fosse comum a todos, e a terra se tornasse a posse comum de todos. Assim a natureza gerou o direito de comunidade, e foi a usurpação que produziu o direito de propriedade”. Em seguida cita as palavras incisivas de São Gregório: “Saibam que a terra de que eles foram tirados é comum a todos os homens, e que por isso os frutos que ela produz pertence a todos indistintamente”.

As fontes de Antônio Pedro de Figueiredo são as mesmas deste meu humilde blog e mostram – tal como as figuras de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Assis Brasil – que os católicos democratas já falavam em socialismo bem antes da influência marxista. Vejamos, na página 157 do livro de Amaro, a ligação de Antônio Pedro de Figueiredo com Buchez, também ligado ao General Abreu e Lima:

“Aproxima-se antes Figueiredo do socialismo cristão de Buchez ou da tendência romântica – tendência essa que não prejudica seu objetivismo em relação ao estudo de nossa situação social – de Pierre Leroux e de seus discípulos.

Talvez a influência de Buchez se tenha feito sentir na sua tentativa de conciliação entre o cristianismo e a doutrina socialista, especialmente depois que Buchez rompeu, em parte, com os sansimonianos, quando Enfantin e Bazard foram proclamados “Pais Supremos”. Não é de desprezar a hipótese de uma possível contribuição de Lamennais e de Lacordaire na obra de Figueiredo. Em relação ao autor das “Palavras de um crente” destacou Aprígio de Guimarães o quanto ele influiu no pensamento de outro teórico pernambucano do socialismo, vulto romântico até a sua vida inquieta e cheia de aventuras que lembra uma biografia romanceada maneira dos Zweig e dos Maurois – o general Abreu e Lima”.

Antônio Pedro de Figueiredo, em 07.08.1852, defendia uma forma de socialismo democrático, com fundamentação religiosa, para “reformar o estado social atual em prol do melhoramento moral e material de todos os membros da sociedade”.

No mesmo sentido, há o livro do General Abreu e Lima, “O socialismo” (Recife, Typographia Universal, 1855), que foi a primeira obra sobre socialismo no Brasil (tenho a grata honra de ter a primeira edição). O socialismo, no Brasil como em vários outros países, nasce e se difunde na forma de socialismo utópico.

Na forma de socialismo católico, inspirado em Buchez, Lamennais, Sismondi e outros autores, que também influenciaram a Liga dos Justos, antes de Marx.

Barbosa Lima Sobrinho, um católico nacionalista pró-socialista, filho de Barbosa Lima (positivista convertido à Igreja), fez o prefácio deste livro. Abreu e Lima era filho do padre Roma, que foi morto, como mártir, na Revolução de 1824.

Abreu foi para a Colômbia e teve a honra de lutar ao lado de Simon Bolívar, retornando, depois, para o Brasil.

Vamireh Chacon considerou Antônio Pedro como “o ideólogo da revolução de 1848”, no livro “História das idéias socialistas no Brasil” (Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1981, p. 74). Chacon afirmou que este pensador católico é “uma indispensável etapa do itinerário ideológico do Brasil”.

O livro de Chacon, “Cooperativismo e comunitarismo” (Rio, Ed. Revista Brasileira de Estudos Políticos, 1959) mostra como o cooperativismo e o comunitarismo também fazem parte da tradição política da Igreja.

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