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A Igreja ama a policultura, a democracia popular, um grande Estado social e econômico, controlado pelo povo

A Igreja ama a poliarquia, o policentrismo, a policultura, a polifonia, a difusão de bens e de poder, para todos, para melhor atender ao bem comum.

Os textos de Alceu Amoroso Lima expressam bem o amor da Igreja pela democracia popular.

Numa linha próxima, houve Charles Kingsley (1819-1875), na Inglaterra, tal como Dickens, Gogol, Victor Hugo, Pierre Leroux, Victor Considerant, Carl Christian Krause (1781-1832), Buchez, o último Eça de Queiroz (conciliado com a Igreja) e outros.

Kingsley foi uma das estrelas do anglicanismo, sendo um grande reformador social, expoente do grupo dos Cristãos Socialistas, na Inglaterra. Também foi um grande escritor, cooperativista.

Uma boa lição de Adolf Wagner sobre o socialismo parcial, economia mista

Adolf Wagner, no livro “Grundlegung” (terceira edição, p. 756), ensinou corretamente:

“O socialismo extremo é simplesmente a forma exagerada do socialismo parcial, que há muito existe na vida econômica e social de todos os povos e, sobretudo, na dos mais civilizados”. 

Trocando em miúdos, para clarificar, a estatização total (socialismo extremo) é apenas a forma exagerada da presença do Estado na economia, socialismo parcial, ECONOMIA MISTA, que existe, desde sempre, na vida econômica e social de todos os povos.

A economia mista sempre foi defendida pelos mercantilistas, nacionalistas, protecionistas, partidários da Escola Histórica de Economia, pelos católicos etc. 

Lassalle, num discurso de 1862, considerava Rodbertus como o maior economista alemão. Rodbertus era uma pessoa religiosa.

Adolf Wagner também elogiava Rodbertus, que se inspirava em Sismondi, Saint Simon, Buchez, Luis Blanc, Vidal e outros autores religiosos, inclusive Fichte.

Rodbertus manteve correspondência intensa com Lassalle, especialmente de 1862 a 1864.

Rodbertus também tinha contatos frequentes com Adolf Wagner, especialmente desde 1870.

Adolf Wagner era considerado o principal e mais eminente representante (expoente) do socialismo de Estado, parcial, economia mista.

Os católicos sempre apreciaram os livros de Adolf Wagner, como pode ser visto em Pesch, na corrente do solidarismo, economia mista, socialismo parcial. 

Lassalle queria um Estado popular, por isso, o nome do jornal de seu partido era “O Estado popular”. 

 

Pesch, o solidarismo católico e os solidaristas socialistas democráticos radicais franceses

Entre os elos entre católicos, socialistas democráticos e radicais há também a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República.

A III República, como as outras, nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também quase todos os expoentes do socialismo de cátedra.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais e corporativas sejam por si sós insuficientes” etc.

A Doutrina social da Igreja quer um socialismo cooperativista, com amplas liberdades pessoais

Um “regime justo” (ordem social justa), hoje, adquire os contornos de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

Teria uma estrutura econômica cooperativa, sendo autogestionária, com base na libertação (proibição da demissão sem justa causa, estabilidade, participação na gestão em todos os níveis e esferas etc). Estabilidade no emprego como recomenda a OIT, só podendo demitir com justa causa. 

Como destacaram Alceu e Chesterton, seria uma estrutura distributista (destinação universal dos bens, cf. Marciano Vidal), sendo este um dos pontos centrais da doutrina social da Igreja, como pode ser visto no livro de Henri Desroches, “Le Projet Coopératif” (Paris, Les Editions Ouvriéres, 1976).

Desroches menciona precursores e expoentes do cooperativismo cristão e natural: J. Bellers, Fourier, Saint-Simon, Buchez, Owen, Louis Blanc, Ketteler, Lassale, Cabet, Huber, William King, Ludlow, Charles Kingsley (1819-1875), Charles Gide (1847-1932), Alfred Sauvy (“O socialismo e a liberdade”) e Georges Lasserre (“socializar com liberdade”).

Lasserre foi professor na Faculdade de Direito de Lyon. Charles Kingsley foi um grande sacerdote anglicano, expoente do socialismo cristão, cooperativista. Outro grande anglicano foi John Frederick Denilson Maurice (1805-1872), que via o movimento socialista como uma forma de realização mais intensa do Reino de Deus na sociedade, no mundo.

Quase todos os autores referidos tinham sentimentos e idéias religiosas, especialmente Fourier (que fundamentava suas idéias no Evangelho), Buchez, Ketteler, Sangnier, Maritain e Mounier. Pio X, Pio XI, Pio XII, especialmente João XXIII e João Paulo II (na “Laborem exercens”, 1981).

Estes autores e outros expoentes da Igreja elogiaram o cooperativismo, como a melhor base econômica e política de uma sociedade. O apoio cristão ao cooperativismo é a busca de uma base econômica de uma democracia social, popular, econômica e participativa.

O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

O Padre Fernando Bastos de Ávila mostrou bem a influência cristã em Marx

O livro do padre Fernando Bastos de Ávila, “O pensamento social cristão antes de Marx” (Rio, Ed. José Olympio, 1972), lista vários expoentes do socialismo cristão, arrolando uma coletânea de textos destes autores, que escreveram antes de Marx, influenciando-o.

Em outras obras de Ávila, há a mesma tese, onde explica que a expressão “democracia social e participativa” é também conhecida como “solidarismo” ou “socialismo democrático”.

Ávila descreveu a linha que passa por Mably, Chateaubriand, Buchez, Ozanam, Ketteler, Lacordaire, Montalembert, Albert de Mun e outras estrelas da doutrina social da Igreja, que lutaram por uma democracia verdadeira, a Democracia Popular.

Rui Barbosa e a Tradição da Igreja, em busca do ideal concreto histórico de um grande Estado social

Rui Barbosa, um dos maiores católicos do Brasil, foi candidato a Presidente do Brasil, em 1919. Pois bem, na plataforma de 1919, Rui atacou a “concepção individualista dos direitos humanos” e se declarou democrata social (nome, na época, para socialista democrático) católico.

O individualismo capitalista, núcleo do liberalismo econômico, foi criticado por autores como Adam Müller (1779-1829), Buchez, Ketteler, Ozanam, Comte, Duguit e outros grandes autores.

Rui Barbosa destacava a importância da “transformação incomensurável nas noções jurídicas”, com a expansão dos “direitos sociais”, onde “a esfera do individuo tem por limites inevitáveis, de todos os lados, a coletividade”. Esta tendência representava, para Rui, o fato que “o direito vai cedendo à moral, o indivíduo à associação, o egoísmo à solidariedade humana. Estou, senhores, com a democracia social”, a democracia social da Igreja, do Cardeal Mercier e de outros.

Rui disse, então: “aplaudo no socialismo o que ele tem de são, de benévolo, de confraternal, de pacificador”.

Disse também que o socialismo, quando busca distribuir os bens e “obstar a que se concentrem, nas mãos de poucos, somas tão enormes de capitais” “tem razão” (cf. vol. XLVI, tomo I, das “obras completas”, “Campanha presidencial” de 1919, Rio de Janeiro, Ed. MEC, 1956, p. 81).

No mesmo sentido de Rui, há os textos de Clóvis Bevílaqua (filho de um padre, padre errado, mas padre…), sobre o primado da ética sobre o direito e a importância do direito ser ético e social. O conceito de Bevílaqua sobre o direito é um conceito cristão. Em frases como “o direito” é “um processo de adaptação das ações humanas à ordem pública”, Bevílaqua adota o conceito de ordem em Santo Agostinho, a ordem é a organização da sociedade para o bem comum.

A luta por uma democracia social e popular avançada, um extenso Estado social, economia mista, democracia popular participativa, é o ideal histórico dos principais católicos e cristãos militantes, como mostram os textos de grandes estrelas do catolicismo. 

Estrelas como: Alceu, Barbosa Lima Sobrinho (dando continuidade á linha católica de Barbosa Lima, de Getúlio Vargas e outros grandes católicos), Miguel Arrais, Ariano Suassuna, Frei Betto, Betinho, Henfil, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo Freire, Paulo de Tarso Santos, Marcos Arruda, Leonardo Boff, Márcia Miranda, Clodovis Boff, Paulo Fernando C. Andrade, Paulo Bonavides (por exemplo, “Do Estado liberal ao Estado social”), padre Aloísio Guerra (“A Igreja está com o povo”, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963), João e Francisco Mangabeira, Cândido Portinari (um pouco católico, pois é nosso maior pintor de arte sacra e dos oprimidos), San Tiago Dantas, Brizola (católico no início, depois metodista, sendo que o metodismo é bem próximo do catolicismo), nossos grandes bispos e arcebispos, especialmente Dom Hélder Câmara (ver sua entrevista na revista “Veja”, em 1978, com o elogio de um “socialismo humano”).

Há a mesma linha nos melhores textos da CNBB, em Medellin, Puebla e também nos melhores textos papais, como será demonstrado neste blog, em milhares de postagens. 

A essência do Plano divino: liberdade pessoal e igualdade social

A essência do Plano divino é uma síntese entre liberdade pessoal e igualdade social.

É um Plano de libertação, a vida em plenitude, a concessão de poder divino, por participação na natureza divina, a todas as pessoas.

A estratégia de Deus é baseada na democratização da “vida eterna”, na democratização e universalização do poder (“Carta a Tito, 1,2).

O “ideal” cristão exige uma sociedade justa, estruturada para o bem comum, que compatibilize a igualdade social e a liberdade pessoal.

Estes pontos de ética política constam nos textos e nas obras de milhares e milhares de autores e personagens. Dentre estes, para ilustrar com exemplos, basta pensar em expoentes como: os textos bíblicos, os Santos Padres e doutores da Igreja, os grandes santos, São Tomás Morus, Las Casas, Francisco Vitória, Luiz de Molina, Mariana, Francisco Suárez, Bellarmino, George Calvert Baltimore (1580-1632, fundador de Maryland, em 1629), Pope, o padre Mably, o padre Raynal, o bispo Henrique Gregório (1750-1831), o bispo Fauchet, O´Connell, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, Rosmini, Balmes, Dupanloup, o bispo Doutreloux (patrono da “Escola de Liége”), Dupanloup, Ketteler, Acton, Tocqueville, Windthorst, Mercier, Mermillod, Leão XIII, Albert de Mun, Marc Sangnier, Joseph Vialatoux, Paul Archambault, Grégoire (Georges Goyau), Pottier, Toniolo, Antoine, Pesch, Luigi Sturzo, Maurice Hauriou, Maritain, Mounier, Alceu, Lubac, Lercaro, João XXIII, Dom Hélder e outros.

Detalhando mais, a linha da Igreja tem homens como o padre Jacques Roux e o bispo Gregório.

O bispo Gregório foi praticamente o primeiro a reclamar a República, na Convenção, em 1792. Foi também o principal advogado dos negros, dos escravos e dos judeus. Em 1794, foi graças principalmente a ele que a escravidão foi abolida na França.

O Círculo Social também era católico, pois era liderado por dois bispos católicos, o Bispo Claude Fauchet e o bispo Nicholas Bonneville. 

Outro grande Cardeal democrático foi o bispo Gibbons, de Baltimore, que presidiu os concílios católicos nacionais, nos EUA, em 1852, 1866 e 1884.

A Primeira Internacional era pluralista, tinha vários tipos de socialismo

O socialismo democrático era a principal corrente do movimento socialista, no final da metade do século XIX, antes dos textos de Marx.

Esta corrente tinha raízes (fundamentação) religiosas. Esboçaram a idéia de uma democracia social, de um “socialismo democrático” (expressão usada por Engels numa nota de rodapé no “Manifesto”, para designar a corrente de Luiz Blanc, Buchez e outros).

A mesma base de ideias, religiosas, deste “socialismo democrático” está nos textos de Lamennais, Buchez, Ozanam, Ketteler e outros autores ligados à Igreja.

A maioria dos membros da 1ª Internacional, inclusive os anarquistas, concordava com as linhas gerais da Democracia social, inclusive apreciando os “princípios elementares da moral e do direito” (texto expresso da Internacional).

Estes princípios de ética e de direito são verdades práticas que nascem naturalmente como fruto do brilho da inteligência das pessoas, feitas à imagem e semelhança de Deus.

A primeira Internacional era pluralista. César de Paepe, belga, teve ampla participação na primeira internacional e deixou textos proferidos em congressos da internacional, onde fica claro que esta organização não era “marxista”, e sim pluralista, baseada em pontos comuns entre mutualistas, cooperativistas (muitos deles eram cristãos), federalistas, seguidores de Proudhon, alguns positivistas, anarquistas, socialistas religiosos e marxistas.

Estas correntes “abraçam-se e completam-se na Internacional”, tentando elaborar “uma nova concepção de sociedade, concepção sintética, que busca simultaneamente garantias para o indivíduo e para o coletivismo. Em síntese, era a liberdade e a solidariedade” (texto colhido na pág. 31 do livro “Universo ácrata” de Edgar Rodrigues, vol. I, Florianópolis, Ed. Insular, 1999).

César de Paepe combatia a “concepção jacobina de Estado onipotente e da comuna [município] subalterna”, pois valorizava (numa linha que seria reprisada pelos militantes da Comuna de Paris e, depois, pelos fabianos) os municípios, defendendo uma sociedade baseada em comunas (municípios) emancipadas “nomeando [por eleições] ela própria todos os seus administradores, fazendo a legislação, a justiça e a polícia”. Também criticava a “concepção liberal do Estado gendarme”.

A doutrina da Igreja também e é municipalista (há bons textos de Kropotkin reconhecendo este ponto) e fica claro, pelas idéias expostas por César de Paepe, que já havia clara identidade de algumas idéias entre os cristãos e os outros participantes da Internacional.

César de Paepe queria um grande Estado social, dividido em províncias e municípios.

A Igreja defende todos os elos sociais, defende municipalismo, provincialismo federalista, nacionalismo, união política dos continentes e Estado mundial, sendo que o Estado mundial seria Federalista ou Confederalista, não eliminando os elos menores, e sim os protegendo. 

Pi y Margall, como Anselmo e outros anarquistas, elogiaram o movimento das comunas nos séculos XII e XIII, como o berço da democracia na Europa e este movimento teve ampla participação da Igreja.

— Updated: 23/02/2018 — Total visits: 21,899 — Last 24 hours: 61 — On-line: 1
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