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Outras raízes históricas do Socialismo democrático católico, da Democracia Popular

Renouvier e outros elos entre o catolicismo e o socialismo democrático e participativo

Entre os elos entre católicos, socialistas democráticos e radicais há também a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República. Esta nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também quase todos os expoentes do socialismo de cátedra.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais e corporativas sejam por si sós insuficientes” etc.

Buchez, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, um César Cantu, na Itália, são bons exemplos do papel progressista dos católicos no século XIX.

Renouvier (expoente do neo-criticismo, o que mostra como Kant, teísta, também reaproximou o socialismo da religião) deixou obras importantes como “Manual republicano do homem e do cidadão” (1848), “Ucronia” e “O personalismo”.

Esta última obra praticamente o relaciona com Mounier, mostrando o elo correto das idéias de Renouvier com as idéias da militância católica.

O personalismo de Mounier é um desdobramento do personalismo de Renouvier e tem inúmeros pontos em comum com o radicalismo, especialmente no apreço pela democracia socialista. O mesmo vale para a corrente do existencialismo cristão.

Autores como Léon Bourgeois (1851-1925), em livros excelentes como “Solidarismo” (1896), também são evidências claras da ligação entre católicos e radicais.

O movimento solidarista, em busca de uma democracia popular sócio-econômica e política, brotou de católicos e de radicais, gerando, lá por 1926, na França, uma boa síntese e aliança implícita, inclusive com a condenação da “Ação Francesa”.

Pio XI condenou o movimento de Charles de Maurras (1868-1952) e isso foi decisivo para a Igreja. Herriot, socialista e católico, foi uma das pontes desta aliança, graças à atuação de João XXIII, que era Núncio em Paris.

Outro escritor neste campo democrata e cristão é Charles Secrétan (1815-1895), autor de obras como “A filosofia de Leibnitz” (1840); “A filosofia da liberdade” (1848); “Teologia e religião” (1883) e “Estudos sociais” (1888).

Secrétan seguiu os passos do católico Franz Baader, que influenciou o marxismo, e destacava a importância da liberdade, da razão, da caridade e da justiça, especialmente no livro “A razão e o cristianismo” (1863).

Há, nesta linha de opiniões, outros milhares de escritores. Por exemplo, Charles Bois, Recolin, Célestin Bouglé (1870-1940, autor do livro “O solidarismo”, 1907), Fleurant (“A solidariedade”, 1907) e ainda a Escola Católica com Cláudio Janet.

Também há o cooperativismo cristão de Charles Gide e outras correntes semelhantes.

O velho Comte também escreveu: “nascemos carregados de obrigações de toda espécie para com a sociedade”, expressando o conteúdo da linha sansimoniana e cristã, pois estas são as raízes católicas do contismo, em seus melhores textos.

O partido radical-socialista, na França, foi organizado em 1901, quase simultaneamente ao Partido Trabalhista inglês, com base num socialismo cristão.

No entanto, esta tendência existia como tendência desde os anos 80 do século XIX e, no fundo, era um desdobramento do socialismo cristão pré marxista, de 1820 em diante.

O partido radical representava principalmente os interesses do campesinato, da pequena e média burguesia e de partes do proletariado (enfim, do povo) e governou a França por vários anos, aproximando-se aos poucos das posições da Igreja.

Isso preparou os movimentos de síntese e de alianças entre catolicismo e socialismo democrático, após a Segunda Guerra, nos anos 60, 70 e 80. Este impulso diminuiu com a ofensiva neoliberal nos anos 90, com a queda do socialismo na Rússia, mas foi retomado a partir de 1999.

O radicalismo gerou uma forma de solidarismo, próxima do solidarismo católico e cristão, preparando uma base de socialismo democrático de fundo cristão. Basta considerar Leon Bourgeois e no bom juiz Magnaud. Esta tendência é praticamente idêntica ao solidarismo de Pesch.

No Brasil, nesta linha, houve o padre Fernando Bastos de Ávila, que ressaltou que o solidarismo é a democracia plena, na esfera econômica, política, cultural etc e tem praticamente o mesmo âmbito do socialismo democrático.

Na França, houve também o solidarismo de Leon Duguit, com o culto ao bem comum como finalidade do Estado e da sociedade, que foi um jurista bem apreciado na URSS e com fundamentação cristã.

Nestes movimentos, já estava esboçado a renovação da ligação do socialismo com a religião, ligação esta que está nas origens do socialismo (especialmente no socialismo utópico), o socialismo pré-marxista, cristão.

Em Portugal, a reconciliação entre democracia, socialismo e nacionalismo fica patente nas obras do velho Eça de Queiroz. Suas últimas obras são religiosas e pró-socialismo, pró-democracia social e pró-catolicismo.

No solidarismo de Antônio Sérgio em Portugal, há a mesma marca, presente também nos textos de Antero de Quental, de Oliveira Martins e de outros escritores socialistas e religiosos.

Na Espanha, basta considerar Eduardo Sanz y Escartín, que defendeu reformas sociais favoráveis aos operários, colonização interior (reforma agrária, como explicava Brizola), municipalização de serviços públicos, seguros sociais obrigatórios etc. Escartín deixou boas obras como “A questão econômica” (1890) ou “O Estado e a reforma social” (1896).

Conclusão: a ligação entre cristianismo, democracia, socialismo utópico, nacionalismo, solidarismo, cooperativismo, sindicalismo e outros movimentos mostram que há um fundo subjacente comum, um fundo jusnaturalista, bem antigo, com raízes no melhor da Paidéia e do melhor das idéias hebraicas.

A corrente jusnaturalista (que ensina que o direito real nasce da consciência social) movimenta-se subjacente ao movimento histórico, nas entranhas deste. Como ideal histórico, explicita-se, aflorando na maior parte do movimento literário e na cultura popular.

O jusnaturalismo é natural ao ser humano, tendo, também, base nas idéias hebraicas e no melhor do pensamento antigo (grego, romano etc, na “Paidéia”, cf. Werner Jaeger).

A Paidéia foi conservada e ampliada, em suas concepções jurídicas e políticas da Igreja (como exemplo, basta pensar no direito romano, codificado por Justiniano, um imperador católico, sendo exaltado por Rousseau).

Estas concepções foram, mais tarde, cristalizadas no que se convencionou chamar de “doutrina social da Igreja”, que tem amplas ligações e muitíssimos pontos comuns com a teologia da libertação.

A concepção geral da Igreja defende o PRIMADO DO TRABALHO, DO TRABALHADOR, nos processos produtivos

A concepção política e econômica cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, do melhor da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”.

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc).

O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”). Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”. A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem” e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, tal como bens morais e intelectuais. Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado do TRABALHO, da consciência, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue (trabalhe) de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”). Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida. Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções. Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela, pois o inferno é auto-exclusão, e não castigo de Deus) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

O Socialismo Católico é a principal fonte do Socialismo, na Alemanha, inclusive Lassalle e o partido de Marx

Buchez foi chamado, por Marx, de o chefe do partido socialista católico. Da mesma forma, Buchez é a fonte da fórmula do cooperativismo apoiado e coordenado pelo Estado, segundo Marx

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs, católicas e socialistas de Saint-Simon.

Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana.

Em 1832, Buchez criou as primeiras associações cooperativas de produção, como destacou Charles Gide.

Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil.

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a tendência cristã-democrata e socialista.

A linha que passa entre Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, teologia política européia etc representa, a meu ver, a linha dourada que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa democracia política, econômica, social e cultural.

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras.

Por exemplo, Marx menciona Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital”.

Marx citou, nos primeiros escritos, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX e redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant,

Dois anos após a morte de Lassalle, em 1868, Marx, em carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, diz que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”:

“Depois de um sono de quinze anos [1868 menos 15, igual a 1843], o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle–e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante–sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch–o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele [Lassalle] repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez–assistência do Estado às sociedades operárias–com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

Como fica claro, Marx, como Rosa de Luxemburgo, sabia que existiam várias correntes de socialismo.

E sabia que uma destas correntes, o SOCIALISMO CATÓLICO, já existia em 1843, quando Marx nem tinha ainda criado as bases do “socialismo marxista”, que são frágeis, pois o próprio Marx, em 1882, um ano antes de morrer, no último escrito econômico, sobre Wagner, diz que não existia um socialismo marxista, um projeto delineado de Estado ou sociedade socialistas. Marx cuidava principalmente da crítica ao capital.

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez.

Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. E Engels escreveu no mesmo sentido, frise-se.

O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez.

Ou seja, BUCHEZ, o Socialismo católico, é a origem direta do primeiro partido operário na Alemanha, em 1863, criado por Lassalle.

Engels combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”.

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels, com ciência de Marx:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada. Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

CONCLUSÃO: o partido lassalista usou, assim, em seu programa, idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde vários católicos também militavam e, como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875, e no “Programa de Gotha”, de 1875, usou a fórmula de Buchez.

A fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”.

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto.

Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez que está na origem da tese de substituir o patronato por cooperativas de produção, com a ajuda do Estado. 

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem:

“o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”.

Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez e também de Cabet e Luís Blanc.

Numa linha semelhante, Benoit-Malon, socialista com religiosidade, queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”.

Malon tinha religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos…libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, o livro “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas.

Foi esta também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

A linha Democrática popular é a linha majoritária da Doutrina social da Igreja

A linha democrática-popular de Santo Tomás Morus, Mably, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Ozanam, William Cobbett, Tocqueville, Ketteler, Acton, Toniolo e outros autores é o núcleo da doutrina social da Igreja.

Lamennais, no ensaio “As formas modernas de escravidão” (1839), ensinou: “o que o povo quer, o próprio Deus o quer também, porque o povo deseja a justiça”, por isso, “a causa do povo é, pois, a causa de Deus. Ela haverá de triunfar”.

Lamennais seguiu os passos de Descartes e de Leibnitz, dois grandes cristãos (Descartes, um grande católico; Leibnitz, um grande luterano ecumênico), destacando corretamente o critério do consenso, conexo com o do bem comum.

Lamennais também ressaltou bem as “causas segundas”, na forma de agir da Providência.

O amor ao povo e à liberdade foi sempre a linha central dos livros de Lamennais.

Seus livros mereceriam ser reeditados, para serem lidos nas CEBs, especialmente as obras “O livro do povo”, “Palavras de um crente” (dedicado “ao povo”), “Hino à Polônia”, “Do passado e do futuro do povo” e “Da escravidão moderna”.

A Igreja, com os Santos Padres, adotou o melhor do pensamento antigo, da Paidéia (cf. constatou Werner Jaeger).

A “recepção” do pensamento antigo foi chamada de “régio caminho traçado pela tradição e pelos santos padres”, como ensinou o papa Gregório XVI, no breve “Dum acerbissimas”, de 26.09.1835.

No neoclassicismo, no fim do século XVIII e no início do século XIX, houve como um novo renascimento, com o elogio da Paidéia. Este elogio fazia parte do método educacional dos jesuítas. No parnasianismo, no final do século XIX, houve outra exaltação da Paidéia, onde os leigos católicos exaltaram os textos da Paidéia, em boa consonância com os textos bíblicos e dos Santos Padres.

A linha de Lamennais era a linha de William Cobbett, um autor católico bem apreciado por Marx.

Cobbett redigiu uma “História da reforma protestante na Inglaterra e na Irlanda” bem simpática ao catolicismo.

Cobbett seguia a linha democrática e radical de Gerrard Winstanley, dos “Levellers” e “Diggers”.

O livro “As opiniões de William Cobbett”, do casal G.D.H. Cole e Beatrice Cole mostram a influência de Cobbett nos cartistas e no surgimento do Partido Trabalhista.

Buchez foi o primeiro que organizou uma teoria organizada sobre as cooperativas de produção para suprimir o patronato, o capitalismo, difundindo as cooperativas com o apoio do Estado.

Buchez escreveu o artigo “As cooperativas operárias de produção”, no “Jornal das ciências morais e políticas” (em 17.12.1831), ressaltando que o excedente das unidades seria distribuído aos sócios em função do trabalho destes e outra parte seria incorporada ao capital social, num fundo indivisível. A idéia do fundo indivisível vem dos mosteiros e conventos.

Buchez seguiu o exemplo dos mosteiros e da instituição dos morgados. O morgado era a instituição dos bens das famílias, na Idade Média. Eram bens inalienáveis e eram administrados em benefício do clã familiar, uma verdadeira pequena aldeia.

Buchez defendeu a indivisibilidade do patrimônio das empresas cooperativas. Ele não era apenas teórico, criou uma cooperativa de produção, com sócios operários.

As idéias de um Fábio Konder Comparato sobre a transformação das unidades produtivas em “cooperativas” (ou “fundações”, cf. Renard) são baseadas no primado do trabalho, combinando com formas de planejamento estatal participativo.

São idéias que têm estruturas comuns com as idéias de Buchez, tal como de Marc Sangnier, Mounier e Alceu Amoroso Lima.

A fórmula de Buchez e de Ketteler é, no fundo, “a propriedade social dos meios de produção”, também defendida por Dom Hélder, no documento “Ouvi os clamores do meu povo”, de 1973, um Manifesto dos Bispos do Nordeste, organizado por Dom Hélder.

Dom Hélder, nos livros “Revolução dentro da paz” (Rio de Janeiro, Ed. Sabiá, 1968, ligada a Rubem Braga e Fernando Sabino), “Terceiro mundo defraudado”, “Utopias peregrinas”, tal como nas “Meditações do padre José”, defendia a mesma tese, da superação do capitalismo, combinando distributismo, cooperativismo e intervenção e planificação do Estado.

Num parêntese, o discurso de Dom Hélder, no “Centro Católico de Intelectuais Franceses”, em 26.05.1970, em Paris, foi um dos marcos mundiais da denúncia de torturas no Brasil, sob o governo da Junta Militar e de Médici.

Dom Hélder teve o apoio do Cardeal Marty, de Paris, mostrando que a linha predominante na Igreja é pró-democracia participativa e social, coincidente com o que Marciano Vidal chama de socialismo participativo, democrático ou humanista.

Buchez, Ozanam, Tocqueville, Ketteler, Lacordaire ou um César Cantu (1804-1895) representam o núcleo mais importante do desenvolvimento da doutrina social da Igreja, no século XIX. O mesmo vale para os grandes textos de Lamennais.

Dom Hélder seguiu os passos do padre Cícero (que elogiava, com oitenta anos, o nacionalismo de Sandino) e de Alceu Amoroso Lima. Numa poesia (de 24.07.1966) com um elogio a Lebret.

Dom Hélder escreveu: “Karl Marx, levado ao céu pela crítica ao capital e pela defesa do trabalhador” (cf. a biografia de Dom Hélder, feita por Nelson Piletti e Walter Praxedes, “Dom Hélder Câmara”, São Paulo, Ed. Ática, 1997, p. 409).

Expoentes como Dom Hélder, Dom Luciano, o abade Pierre (na França), Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Moacir Grechi e outros são a cristalização das melhores idéias do povo, da boa linha evolutiva de nosso povo e da Igreja.

Resumindo, nas palavras de Dom Hélder: “o desenvolvimento recebido do alto, pré-fabricado, sem a participação do povo na criatividade e nas opções, pode ser tudo, menos desenvolvimento”. Neste ponto, Dom Hélder tinha a mesma concepção de Paulo Freire, no livro “Pedagogia do oprimido”.

A ligação de Dom Hélder com Roger Garaudy também é outro grande sinal dos tempos, a meu ver. A palestra feita por Dom Hélder, em outubro de 1974, na Universidade de Chicago, sobre a relação entre Santo Tomás e Karl Marx, também tem a mesma linha libertária e ecumênica, mostrando que o método de Santo Tomás era ecumênico, pois acolhia todas as verdades contidas na Paidéia, nos textos de Maimônides, Averróis e Avicena.

Este método deve adotado para as verdades contidas nos textos de Marx e outros autores, como recomendava Dom Hélder.

A influência de Franz von Baader sobre Marx. A linha de Franz von Baader é a linha dos Cameralistas católicos, Buchez, Rodbertus, Keteller, Schmoller, Adolph Wagner, Pesch, Gundlach, Nell Breuning e outros luminares

A Igreja já defendia um socialismo católico antes de Marx. Um dos nomes deste socialismo católico é socialismo cooperativista (o “socialismo católico”, que Marx dizia que Buchez era o chefe), democracia econômica, ou “solidarismo”.

O padre jesuíta, Pe. Walter Brugger, em seu abalizado “Dicionário de filosofia” (São Paulo, Ed. Herder, 1962), explica, em poucas linhas, o “solidarismo”.

O socialismo católico é uma corrente contraposta ao individualismo (capitalismo) e ao coletivismo (socialismo marxista), adota a Economia mista, com “primazia do trabalho” (cf. p. 499), um “sistema social do trabalho”.

Enfim, um socialismo cooperativista, democracia econômica, a linha de Buchez, Alceu, Mounier e outros, a minha linha, a linha majoritária na Doutrina social da Igreja.

Na “Laborem”, João Paulo II trata da mesma linha, também presente na “Mater”, na “Pacem”, na “Populorum”, na “Octagesima”, na “Rerum”, em “Medellin”, “Puebla” etc. 

No Brasil, teve como expoente o padre Fernando Bastos de Ávila, que explicava que o solidarismo também poderia ser chamado de democracia econômica, social, cultural, política etc, ou socialismo participativo democrático. A mesma linha de Alceu, tal como de Marciano Vidal, ou de Mounier. 

Esta corrente admite ampla intervenção estatal na economia, na linha dos grandes cameralistas católicos.

Na linha de Buchez, Rodbertus, Ketteler, Schmoller, Adolph Wagner, Pesch, Gundlach, Nell Breuning e outros.

Também era a linha dos grandes padres Henrique Rommen, O. Schilling, Llovera e outros.

Também é a mesma linha presente em FRANZ OPPENHEIMER, um grande judeu, autor do livro “A questão social”, defendendo um SOCIALISMO COOPERATIVO, que é a DEMOCRACIA ECONÔMICA de Polanyi, o mesmo solidarismo, socialismo católico, de Buchez etc. 

No fundo, esta corrente vem antes de Marx, é um tipo de socialismo católico democrático, já existente na Renânia CATÓLICA (Marx teve contato com ela já no Liceu de Trevés, uma cidade católica e o Liceu era um Seminário católico, um antigo Colégio Jesuíta) e outros lugares, antes de Marx.

Esta corrente está ligada a Franz von Baader, a Lorenz von Stein, autores que influenciaram o jovem Marx.

O grande Franz Xaver von Baader (1765-1841), foi um grande filósofo e teólogo católico, que foi PRECURSOR DE MARX em várias coisas. Ele chegou a defender a criação de Diáconos do trabalho e padres operários, que trabalhassem ao lado dos trabalhadores, na luta contra a exploração. 

Franz von Baader também gostava de citar autores como Jacob Boehme, Saint Martin, Eckhart, Paracelso e outros. E influenciou o próprio Schelling, o jovem Schelling, que foi elogiado por Engels, em seus textos de 1841. Franz von Baader tinha sido mineralogista antes de ser teólogo.

Franz von Baader esteve na Inglaterra, igual a Engels, mas antes de Engels. E escreveu textos como o ensaio “Sobre o evolucionismo e o revolucionismo” (1835) e outro sobre o “proletariado” como “classe oprimida”, também em 1835.

Baader mostrava que os salários dos trabalhadores sempre estava aquém do valor correto, por causa da acumulação do capital e da omissão do Estado.

Os salários estavam  “muito abaixo do preço natural”, ou seja, os capitalistas feriam a justiça comutativa, pagando a menos, ficando com um excedente (mais valia) nos contratos de trabalho. Até o termo “ideologia” era usado por Franz von Baader. 

Mais tarde, esta corrente influencia e aflora nos textos de Wilhelm Roscher, tal como de Gustav Schmoller.

Schmoller é o grande historiador do cameralismo, do mercantilismo, que influenciou o jovem Marx. Marx, na Universidade de Berlim, a partir de 1836, estudava para ser cameralista. 

Também aparece na França, antes de 1848, e também depois de 1870. Por exemplo, aparece entre católicos, socialistas democráticos e radicais. Tem como expoente a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República.

A III República, Francesa, assim como a República de 1848, como as outras, nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também de quase todos os expoentes do socialismo de cátedra, inclusive Karl von Vogelsang.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais … sejam por si sós insuficientes” etc.

 

 

A ideia-matriz fundamental da ética cristã é a ideia do BEM COMUM, que é uma ideia socialista e democrática

Os principais tratadistas da Igreja sempre ensinaram que um Estado e um governo, tal como toda a organização da economia, só são legítimos se estiverem em harmonia com o bem da sociedade, quando prepondera o primado da sociedade, do cuidado concreto de cada pessoa.

Tudo deve ser orientado para o bem comum, para realizar a DESTINAÇÃO UNIVERSAL DOS BENS, sendo esta uma ideia cristã, hebraica, e intrinsecamente socialista e democrática. 

Na “Immortale”, Leão XIII ressaltou que o fato do “povo” ter “parte maior” “no governo” é “não somente uma vantagem, mas um dever” e “não existe” “justo motivo para acusar a Igreja de ser inimiga” da “tolerância” e da “liberdade”.

Na “Parvenu” (19.03.1902), Leão XIII, com mais de 90 anos, ressaltou que a Igreja:

“favorece, estimula e protege” a liberdade, pois “foi ela [a Igreja], efetivamente, que, com sua doutrina e ação apostólica, libertou a humanidade dos grilhões que a escravizavam, anunciando a grande lei da igualdade e da fraternidade humana;

“em todos os tempos, [a Igreja] assumiu o patrocínio [defesa] dos fracos e oprimidos contra a prepotência dos fortes;

“reivindicou, com o sangue de seus mártires, a liberdade de consciência cristã;

“restituiu à criança e à mulher a dignidade de sua nobre natureza, fazendo-as participar do direito ao respeito e à justiça, concorrendo grandemente para introduzir e manter a liberdade civil e política dos povos”.

O poder legítimo, no final das contas, segundo Leão XIII, nesta encíclica, “reside na força do pensamento e da verdade, e não na força das armas”.

Ainda na “Parvenu”, Leão XIII definiu a liberdade como “a faculdade racional de praticar decidida e largamente o bem [atos em conformidade com o bem comum, que aumentam o bem comum] segundo as normas da lei eterna” (acessíveis pela luz natural da razão)”, sendo “a liberdade digna do homem e profícua à sociedade” e, por isso, “ninguém mais que a Igreja” “favorece, estimula e protege” a liberdade.

O papa ressaltou que o que se chama a “civilização que foi chamada cristã”, é baseada na “benéfica influência” da luz natural da razão e da revelação, o que gera:

“a equidade das leis, a elevação dos costumes, a proteção aos fracos, a compaixão para os pobres e infelizes, o respeito ao direito e à dignidade de todos, e ainda, quanto é possível dentro da humana inconstância, a paz na vida civil, que deriva da perfeita harmonia entre a liberdade e a justiça”.

A “harmonia entre a liberdade e a justiça” é justamente a liberdade concreta e verdadeira, pautada pelo Estado,que deve promover atos em prol do bem comum, e proibir atos contrários ao bem de todos.

O Estado deve regrar a gestão de todos os bens, somente permitindo o uso de bens em adequação ao bem comum, social.

Os grandes bens produtivos devem ser do Estado, como ensinaram Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e Francisco I.

Junto com ESTATAIS e COOPERATIVAS DE PRODUÇÃO, é essencial e extremamente saudável que não exista a MISÉRIA, a condição proletária, que todos tenham bens (renda universal básica para todos), moradia para todos, tal como que existam MILHÕES de MICRO, PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES, em geral associados em cooperativas de comercialização, transporte etc, para unir as vantagens da pequena produção às vantagens da economia de ESCALA. 

Em suas cartas pastorais, nos anos de 1870, antes de ser papa, quando era bispo na Bélgica, Leão XIII deixou excelentes páginas de elogio do progresso e da razão.

A idéia da compaixão é a base da ética cristã, e foi adotada nos melhores textos de Shopenhauer (cf. “Sobre o fundamento da moral”, 1841) e também nos melhores textos éticos de Hume e Adam Smith (1723-1790, “simpatia” é outro termo para compaixão, como fica claro no livro “Teoria dos sentimentos morais”, 1759).

Há uma parte boa dos textos de Adam Smith, favorável aos micros, pequenos e médios empresários, tal como aos camponeses. Esta parte boa é como o trigo, havendo também o joio do livre cambismo e das ideias capitalistas. 

A “grande lei da igualdade e da fraternidade humana”, com a liberdade, são os lemas do cristianismo assumidos e secularizados (difundidos) na Revolução Francesa. Este ponto foi demonstrado por autores como Ozanam, Manzoni, Rosmini, Buchez, Lamennais, Lacordaire, Tocqueville, Renouvier, Ketteler, James Gibbons (1834-1921), Lavigerie, Leão XIII, Rui Barbosa, Don Luigi Sturzo, Marc Sangnier, Péguy, Mounier, Julien Benda, Dorothy Day (fundadora do jornal “The Catholic Worker”), Mounier, Maritain, Cardijn, Lebret, o abade Pierre e outros.

Estas são as sementes e o tronco das idéias da Teologia da Libertação.

Conclusão: o bem geral (comum, de todos e de cada um) é o critério-chave para a legitimidade do poder, das leis positivas, de toda estrutura-organização da economia, tal como de cada ordem concreta (dos pais, professores, conselhos de amigos etc).

A linha da TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO é a LINHA hegemônica na Igreja, basta ver os textos de Francisco I

A concepção política cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”. E VALEM TAMBÉM PARA A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA dos povos, uai. 

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc). O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”).

Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”.

A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem”, DO BEM COMUM, e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, mesmo abundante, tal como bens morais e intelectuais.

Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado da consciência, DO TRABALHO, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”).

Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida.

Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação exeterna”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça (QUE É A AÇÃO DE DEUS para se unir a nós, uma relação AMOROSA, basta ler o Cantico dos cânticos) é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções.

Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.FRISO que o julgamento de Deus é, no fundo, o julgamento de nossa consciência, é a pessoa que se perde ou se salva, pois Deus quer é salvar todos. 

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

Difusão de bens, do poder, do saber, dos prazeres, eis o Plano Central de Deus

O Estado é uma obra humana, UMA CONSTRUÇÃO HUMANA, um conjunto de atos humanos.

A finalidade intrínseca do Estado e da sociedade, e assim a medida da legitimidade (o critério-chave) é a de defender, proteger e promover a dignidade humana, a vida humana, realizar o bem comum.

A Bíblia ensina que a sociedade deve ter a forma de uma comunhão de bens, uma comunidade participativa, partilhando os bens e o poder.

Na prática, significa todas as famílias terem casas boas (há um texto ótimo de Kautsky sobre isso), lotes, móveis, acesso a internet rápida e gratuita (banda larga), transporte público de ótima qualidade, sistema público de saúde e educação, ótima Previdência (paga pelo Estado e pelas empresas), boas aposentadorias (com 50 anos, o Estado já deveria dar algo, aumentando com a idade), bons empregos (demissão só com justa causa, jornada pequena, ótima remuneração), milhões de micros e pequenas empresas familiares, milhões de cooperativas, milhares de ótimas estatais com co-gestão, planejamento participativo etc. 

Todo poder vem de Deus, por mediações, especialmente pela mediação da consciência do povo, das pessoas

O poder vem de Deus (cf. Rom 13,1), mas mediante as pessoas, a sociedade, o povo, como demonstraram Santo Ambrósio, São Basílio Magno, São João Crisóstomo e os demais Santos Padres.

A mesma lição está nos textos de Boécio, São Isidoro de Sevilha, o Arcebispo John de Salisbury (m. em 1080), Manegold de Lautenbach (m. em 1110), Fernão Lopes, São Tomás Morus, Bartolomeu las Casas, Francisco de Vitória, Francisco Suarez, o abde de Saint Pierre, Fenélon, Montesquieu, Alexander Pope (1688-1744), Santo Alfonso Maria de Ligório (1696-1787), Mably e outros. Merecem destaque estrelas como Salisbury, Morus, Las Casas, Suarez, Bellarmino, Ligório (o patrono da teologia moral), Mably, o bispo John Caroll (1735-1815), Frei Caneca (1774-1825), William Cobbett, O´Connell, Buchez, Ozanam, Dom Félix Dupanloup (1802-1878), Lacordaire, Ketteler, Mun, Lavigerie, Luis Windthorst, Manning, Gibbons, Ireland, Manning, Billot, Maritain, Cardjin, Rommen, Alceu, Dom Hélder e outros luminares, que expuseram corretamente a teoria cristã sobre o poder público.

O poder legítimo nasce imediatamente da sabedoria (das idéias verdadeiras, fruto do diálogo) do povo, da bondade do povo.

O poder legítimo reflete a Trindade, as processões da Trindade.

O poder legítimo é fruto do Logos, do Verbo, do Amor, da Bondade, do Bem comum. O poder legítimo procede de Deus mediante a Sabedoria do povo, atuando pelo Amor, pela realização do bem comum.

A teoria cristã sobre o poder é, assim, a teoria popular sobre o poder. Esta teoria tem como princípio-chave o ideal da destinação universal dos bens, da Comunhão, inclusive do poder, sendo este o ideal do bem comum, a regra suprema do bem comum.

Todos devem usar e fruir dos bens na medida das próprias necessidades (cf. At 4,32), erradicando a miséria e a riqueza privada, organizando a sociedade com base na mediania, na igualdade, pois Deus não faz acepção de pessoas.

A teoria popular sobre o poder é a teoria natural e racional sobre o poder, sendo, assim, a teoria cristã do poder.

Esta teoria sobre o poder e os bens inspirou a Igreja e está bem clara na Bíblia, na recepção cristã do melhor da teoria grega-romana sobre o poder, nos Santos Padres, Isidoro de Sevilha, Manegold, John Salisbury, na Carta Magna de 1215, em Fernão Lopes, Thomas Morus, Las Casas, Vitória, Suarez, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably e outras estrelas do catolicismo.

O ideário de Mably, por exemplo, é o núcleo dos melhores textos inclusive do jornal “O amigo do povo”, de Marat (a parte sangrenta é o joio, tendo ao lado o trigo, vindo de Mably, da Igreja).

O mesmo ocorre nos textos de Babeuf e de Buonarrotti, inspirados em Mably , Morelly, Campanella (1568-1639) e Morus, autores que o próprio Marx considerava como precursores, como seus fundamentos teóricos.

O mesmo ocorria na Liga dos Justos, onde Weitling fundamentava o ideal de comunhão social democrático e socialista nas idéias cristãs.

Estes ideais estão também nos textos religiosos de Saint-Simon, Owen, Leroux, Considerant, Buchez e outras estrelas socialistas.

Conclusão: a ação humana, do povo, é causa eficiente secundária no destino humano, atuando em interação dialógica e concursal com Deus, a Causa Primária de tudo o que é bom.

O poder vem de Deus, mediante o povo, pela consciência do povo, partindo do povo, sendo exercida pelo povo, para o bem do povo.

O ideal religioso socialista, quase católico, de Saint Simon e dos sansimonianos

O sansimonismo apresentou uma forma de interpretação progressista e, em muitos pontos, correta do cristianismo, especialmente no seu último livro “Novo cristianismo”, de 1825. Este livro inspirou socialistas cristãos como Leroux, Buchez, Enfantin, Considérant e outros socialistas cristãos.

Saint-Simon aceitava até mesmo pontos do cristianismo sobre a possibilidade de comunicação e de aparição de santos ou pessoas mortas (basta lembrar das conversas de Santa Joana d’Arc com santas mortas e do diálogo normal dos católicos com os santos , especialmente com Nossa Senhora, das aparições de Maria etc), o que demostrava, explicitamente, sua fé na imortalidade da alma.

Este ponto da fé não é “espírita”, e sim cristão. Foi o espiritismo cristão que assimilou estes dois pontos corretos do cristianismo, acrescentando, infelizmente, erros como a idéia de “possessão” dos mortos pelos “médiuns”.

Saint-Simon escreveu, no livro “Lettre á son Neveu” (1810):

Carlos Magno me apareceu e me disse: desde que o mundo existe, nenhuma família gozou a honra de produzir um herói e um filósofo de primeira linha; esta honra estava reservada à minha casa. Meu filho, teus sucessos como filósofo igualarão àqueles que obtive como militar e como político; e desapareceu”.

Saint-Simon queria a união (no fundo, a cooperação do Estado e da Igreja) do poder temporal com o espiritual:

O poder temporal e espiritual será exercido por todas as Academias de Ciências de Europa. Um conselho de vinte e um sábios escolhidos pela humanidade inteira, o Conselho de Newton, terá a tarefa de representar a Deus sobre a terra e de dirigir aos homens para seu maior bem”.

A corrente socialista sansimoniana sempre apresentou bons elementos de religiosidade, como pode ser visto nos textos e nas vidas de Leroux, Enfantin, Buchez, Georges Sand, Victor Hugo e Louis Blanc.

As raízes cristãs (e há algumas hebraicas também) são claras no sansimonismo. Por exemplo, no livro “Cartas de um habitante de Genebra a seus contemporâneos”, 1803, Saint-Simon coloca a voz de Deus anunciando: “dia virá em que farei da terra um paraíso”.

Esta idéia é claramente católica (e hebraica). Para provar isso, basta a leitura do Catecismo do Vaticano, na parte sobre os novíssimos, relativo ao “oitavo dia” da criação. Ou o livro de Jean Delumeau, “O que sobrou do paraíso?” (editora Companhia das Letras, São Paulo, 2003).

Louis Blanc, no livro “Organização do trabalho”, escreveu, desenvolvendo algumas das idéias de Saint-Simon (especialmente a de usar recursos públicos para amparar talentos, trabalho produtivo, pesquisa científica, artes etc, cooperativas, no fundo): “a emancipação dos trabalhadores é uma obra muito complicada (….). É preciso recorrer a toda a força do Estado. O que falta aos proletários, para se emanciparem, são os instrumentos de trabalho. A função do governo é fornecer-lhos. Se tivéssemos de definir o Estado segundo a nossa concepção, responderíamos: o Estado é o banqueiro dos pobres”.

Marx, no documento “Da indiferença em matéria política” (1873), escreveu: “não temos o direito de renegar esses patriarcas do socialismo (Fourier, Owen, Saint-Simon), assim como os químicos atuais vêem nos antigos alquimistas os precursores e os ancestrais”. Correto.

Frise-se: os “patriarcas” (termo bem bíblico), os “ancestrais” e os “alquimistas” do socialismo eram, quase todos, cristãos, deístas ou pessoas com inspiração em idéias religiosas.

Engels escreveu, no prefácio ao livro “A guerra dos camponeses” (editado em Londres, em 1874), uma frase, com base na famosa declaração de Newton sobre os precursores: “o socialismo alemão teórico não esquecerá jamais que se apoiou sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier e de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e utopia de suas doutrinas, contam entre os maiores cérebros de todos os tempos e que anteciparam genialmente inúmeras idéias das quais demonstramos presentemente a justeza científica”.

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