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A concepção geral da Igreja defende o PRIMADO DO TRABALHO, DO TRABALHADOR, nos processos produtivos

A concepção política e econômica cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, do melhor da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”.

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc).

O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”). Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”. A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem” e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, tal como bens morais e intelectuais. Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado do TRABALHO, da consciência, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue (trabalhe) de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”). Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida. Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções. Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela, pois o inferno é auto-exclusão, e não castigo de Deus) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

Pio XI – Estado deve amparar e se fundar no apoio aos operários, aos camponeses, indígenas, negros, micros e pequenos produtores

Pio XI, na encíclica “Firmissiam constantiam”, de 28.03.1937, aos bispos mexicanos, lembrava que estes deveriam “amar” aos operários, pois “sua condição se assemelha, mais que nenhuma outra, a do Divino Mestre”.

A Igreja deveria

“prestar-lhes assistência material e religiosa. Assistência material, procurando que se cumpra em seu favor não só a justiça comutativa, mas também a justiça social, quer dizer, todos aquelas providências que visam melhorar a condição do proletário”.

A “justiça comutativa” elimina a extração da mais valia (no fundo, mais valia é usura).

A justiça social é o conjunto de deveres sociais que o Estado tem, de criar escolas públicas, hospitais, dar terras, moradias, rendas, auxílio, crédito sem juros ou com juros ínfimos etc.

A Justiça distributiva é o conjunto dos DIREITOS HUMANOS NATURAIS ECONÔMICOS E SOCIAIS, das pessoas. 

Pio XI fez a mesma recomendação de solidariedade aos “camponeses”, “aquela não pequena parte de mexicanos”, “em sua maior parte agricultores, que formam a população indígena; são milhões de almas”, “milhões de seres humanos que frequentemente vivem em condições tão triste e miserável que não gozam nem sequer do mínimo de bem-estar indispensável para conservar a dignidade humana”.

Pio XI foi incisivo: “vos conjuramos, veneráveis irmãos, pelas entranhas de Jesus Cristo, que tenhais cuidado particular destes filhos”, para a “obra de redenção [libertação] moral e material”. Frise-se: LIBERTAÇÃO (REDENÇÃO) MORAL E MATERIAL, o que mostra que a teologia da libertação é apenas a ênfase sobre a ÉTICA SOCIAL da teologia, da teologia moral.

Na encíclica “Iniques afflictusque”, de 1926, Pio XI condenou as atrocidades do governo de Plutarco Calles. O governo de Cardenas, depois, praticamente reconciliou a Igreja com o Estado. 

Na época, no México, existia o movimento dos camponeses “cristeros” (com o apoio do Cardeal Garibi Rivera, 1889-1972) contra a ditadura de Porfírio Diaz, que durou pilhas de anos.

Parte deste movimento, muitos anos depois – junto com os seguidores de Zapata (que usavam, como símbolo, a imagem da Virgem de Guadalupe, padroeira do México e com rosto indígena – participou da criação do Movimento camponês e indígena dos Zapatistas.

Os bispos mexicanos elaboraram o documento “Pela dignidade da vida humana e a justiça” (06.06.2007), com os seguintes trechos marcantes:

O fundamento de toda lei justa é a dignidade inalienável da pessoa humana. A Igreja Católica, tanto por motivos que procedem da verdade do homem, revelada em Jesus Cristo, como por argumentos que é possível descobrir com o uso da razão natural, sempre afirmou o altíssimo valor de cada ser humano, sem importar sexo, ocupação, raça, preferência política, situação econômica, coerência moral ou idade. (…)

O Estado de direito é a comunidade política onde impera a justiça através da lei. Uma pretendida norma positiva que não se baseie na justiça perde sua razão de lei, e, com isso, sua obrigatoriedade. (…).

… é preciso respeitar os fundamentos invioláveis que permitem que uma sociedade plural não se destrua. Estes fundamentos não são outros que os direitos e deveres que brotam da inalienável dignidade humana e que não devem ser aplicados ou reconhecidos seletivamente, e sim sempre e em todo momento devem ser respeitados e promovidos” (cf. Conferência do Episcopado Mexicano, “Do encontro com Jesus Cristo à solidariedade com todos”, n. 275;276).

Conclusão: uma lei, para que justa (legítima, boa), deve estar em conformidade com a dignidade humana. Toda lei ou estrutura estatal ou social deve amparar a pessoa, proteger a cada pessoa, assegurar o bem de todos.

O socialismo participativo (com liberdade), como um modelo de economia planificada, solidária e progressivamente participativa, atende as exigências da doutrina social da Igreja, da “lei natural”, assegura isso, com ECONOMIA MISTA, AMPLO ESTADO SOCIAL, estatais, cooperativas, e amplo distributismo (casas para todos, renda para todos etc). 

Os Bispos da Nicarágua, na “Carta pastoral de 17 de novembro de 1979”, distinguiram várias formas de socialismo. Deixaram claro que há formas de socialismo conformes à doutrina da Igreja, formas de socialismo com economia mista:

“Se, como alguns pensam, o socialismo se desvirtua usurpando aos homens e aos povos sua condição de protagonistas livres de sua história; se pretende submeter o povo cegamente às manipulações e imposições dos que detêm arbitrariamente o poder, não podemos aceitar esse socialismo espúrio e falso.

Muito menos poderíamos aceitar um socialismo exorbitante que pretendesse arrebatar ao homem o direito às motivações religiosas de sua vida, assim como o direito de expressar publicamente suas motivações e suas convicções, qualquer que seja sua fé religiosa.

Igualmente inaceitável seria negar aos pais o direito de educar seus filhos segundo sua convic­ção, bem como qualquer outro direito da pessoa humana.

Se, ao contrário, socialis­mo significa, como deve significar a preeminência dos interesses da maioria dos nicaragüenses e um modelo de economia planificada nacionalmente, solidária e progres­sivamente participativa, nada temos a objetar.

Um projeto social que garanta o des­tino comum dos bens e recursos do país e permita que, sobre esta base de satisfa­ção das necessidades fundamentais de todos, se assegure a qualidade humana da vida, parece-nos justo. Se socialismo implica numa redução das injustiças, das tradicionais desigualdades entre as cidades e o campo, entre a remuneração do trabalho intelec­tual e manual, se significa participação do trabalhador nos resultados de seu traba­lho, superando a alienação econômica, nada há no cristianismo que implique em con­tradição com tal processo”.

O ideal do Estado social, amplo, de ampla intervenção social, faz parte INTRÍNSECA da ética do catolicismo

Pio XI, no “discurso à Federação Universitária Católica Italiana” (18.12.1937), destacou bem a importância do poder público, do Estado: “nada, poder-se-ia dizer, exceto a religião, é superior ao domínio político, que concerne aos interesses de toda a sociedade e que, neste sentido, é o domínio por excelência da forma mais extensa da caridade: a caridade política”.

“Caridade política” é criar um Estado social, Bom Samaritano, Bom Pastor, Protetor, Pai, de Amparo social a cada membro da sociedade, com prioridade para os mais necessitados.

O ideal do Estado social é parte INTRÍNSECA DA ÉTICA CRISTÃ E NATURAL. 

No mesmo sentido, Paulo VI, na “Octogesima adveniens” (n. 46), destacou que “a política é uma maneira exigente… de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros”.

De fato, na concepção cristã sobre o poder, O PODER é intrinsecamente um “serviço”, estando sujeito aos “interesses de toda a sociedade”, ao povo, guardião do bem comum.

De fato, o povo vivo é o principal bem comum, ao qual tudo deve estar vinculado. 

A ação de Deus é por dentro, atua dentro das pessoas, nos melhorando

Pio XI, na “Divini Illius Magistri” (31.12.1929), ressalta que Deus, “a Divina Bondade”, difunde “os abundantes auxílios da graça” para suprir e apoiar “as forças da natureza humana”, para “incutir nas almas” “bons costumes”, boas idéias e boas práticas, “virtudes”, atos de bondade para consigo mesmo, com a família, o próximo e com a sociedade.

Pio XI, no item 10 desta encíclica, foi bem claro: “o verdadeiro cristão, longe de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir suas faculdades naturais, desenvolve e aperfeiçoa as faculdades, coordenando-as com a vida sobrenatural”.

A linha da TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO é a LINHA hegemônica na Igreja, basta ver os textos de Francisco I

A concepção política cristã foi resumida nos documentos do Vaticano II, ratificando a linha democrática de Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ketteler, Dupanloup, da democracia cristã, de Maritain

A “Gaudium et Spes” resumiu bem a doutrina da Igreja, ratificando a grande do melhor da doutrina social da Igreja, a linha que perpassa por expoentes como Morus, Las Casas, Suarez, Miranda, Bellarmino, o abade de Saint-Pierre, Montesquieu, Mably, o bispo Gregorio, Ozanam, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Acton, Dupanloup, Ketteler, Lavigerie, Manning, Gibbons, Leão XIII, Péguy, Maritain, Mounier, João XXIII, Lercaro e outros grandes luminares da Igreja.

Nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium et Spes” há as linhas gerais, que preparam a conclusão presente nos parágrafos 74-75 e outros da “Gaudium”.

As proposições fundamentais estão nos parágrafos 74-75, que apenas resumem a linha já expressa por Bento XIV, Leão XIII, Pio XI, Pio XII (nas “Mensagens de Natal” e por João XXIII (na “Mater et Magistra” e na “Pacem in terris”).

Vejamos as proposições centrais dos parágrafos 74 e 75 da “Gaudium et Spes”:

É plenamente consentâneo [adequado, bom, conforme] com a natureza humana que se encontrem estruturas jurídico-políticas, que ofereçam sempre melhor e sem nenhuma discriminação a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente tanto no estabelecimento dos fundamentos jurídicos da comunidade política, como na gestão dos negócios públicos, na determinação do campo de ação e dos fins das várias instituições, como na eleição dos governantes”.

Estas proposições acima decorrem de uma série de proposições interligadas em cadeias de raciocínios, nos parágrafos 12 a 17 da “Gaudium”. E VALEM TAMBÉM PARA A ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA dos povos, uai. 

Vejamos um resumo desta síntese.

A “Gaudium” ensina que Deus criou o “homem” e a “mulher” (Gn 1,27), para uma vida em “comunhão” de “pessoas, em sociedades (domésticas, civis, eclesiais, políticas etc). O ser humano é “um ser social”, que não pode viver “sem entrar em relação com os outros”. Somos seres “compostos de corpo e alma”, numa só substância. Nossa parte “corporal” “sintetiza em si mesma” “os elementos do mundo material” e estes “elementos do mundo” “atingem a sua máxima elevação” em nós.

A “vida corporal”, o corpo, é bom e digno de respeito. Temos nossa nossa “natureza espiritual”, nosa “interioridade”, nossa consciência (“coração”).

Pela consciência, podemos atingir “a verdade profunda das coisas” (que são, no entanto, inexauríveis).

A consciência pode descobrir as idéias de Deus expressas na natureza, para o controle e cultivo da própria natureza em geral e de nossa natureza humana, em especial.

A razão humana “participa da luz da Inteligência divina”.

A consciência “exercitando-se incansavelmente no decurso dos séculos” gerou “grandes progressos nas ciências empíricas, nas técnicas e nas ciências e artes humanas.

A “natureza espiritual” do ser humano “encontra” “sua perfeição na sabedoria, que suavemente atrai o espírito humano à busca e ao amor da verdade e do bem”. A mente humana opera “por meio das coisas visíveis” para chegar “até às invisíveis”.

A consciência descobre as leis naturais da natureza para controlá-la (cultivá-la) e, de forma natural, por induções e deduções, também formula regras éticas, “descobre” a lei moral, as regras e idéias para orientar a vida pessoal e social.

Esta “voz” interna é composta de idéias e percepções (moções, “faze isto, evita aquilo”) para a prática do “bem”, DO BEM COMUM, e para evitar o mal. O bem é a perfeição da natureza, da criação, é a “ordem natural” das coisas (cf. Santo Agostinho). Por isso, fazer o bem é a proteger e melhorar a natureza humana e a natureza em geral.

O bem comum ou geral implica, assim, em bens materiais suficientes e úteis para uma vida plena e digna, mesmo abundante, tal como bens morais e intelectuais.

Um regime político e um sistema econômico adequado à nossa natureza exige, assim, o primado da consciência, DO TRABALHO, que a subjetividade humana seja preservada, para que cada pessoa atue de forma não-reificada, de forma livre e participativa, usando a própria consciência.

A voz da consciência é a a “voz” de “Deus”, que “se faz ouvir na intimidade” de “nosso ser”, de “nossa consciência” “nosso “centro mais secreto”, nosso “sacrário”).

Estas idéias naturais sobre o bem e o mal formam uma “lei natural”, que pode ser resumida na fórmula “amor a Deus e ao próximo” (ou “faça a teu próximo o que gostaria que este fizesse a ti”, a regra áurea de Cristo).

Pautar a vida por estas idéias éticas e jurídicas é o que evita a “arbitrariedade cega”. Estas idéias naturais e racionais exigidas pelo bem comum são “normas objetivas da moralidade”.

Assim, o principal é “seguir a própria consciência”. A consciência, em geral, descobre as idéias verdadeiras práticas para a vida.

Mesmo quando a consciência erra, sendo um “erro invencível” (“ignorância” invencível), não se perde a “própria dignidade”, não há culpa.

A “consciência”, com “o hábito de pecar”, de agir contra as idéias da própria consciência, “vai progressivamente” ficando cega. A consciência torna-se clara na medida em que a ouvimos.

Deus nos deu a liberdade, o livre arbítrio (Deus quis “deixar o homem entregue à sua própria decisão”, cf. Ecl 15,14). Ser livre é agir de acordo com a própria consciência, adequando os atos da vontade e dos afetos às próprias idéias.

Fomos feitos para fazer isso, à imagem de Deus. Proceder “segundo a própria consciência e por livre decisão” exige, no entanto, não ser “movido e determinado pessoalmente, desde dentro” e exige ainda que não sejamos “levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação exeterna”.

Por isso, é essencial o controle das paixões, que não caiamos na “escravidão das paixões”, que suprime a liberdade.

A graça (QUE É A AÇÃO DE DEUS para se unir a nós, uma relação AMOROSA, basta ler o Cantico dos cânticos) é uma “ajuda” para fortalecer a consciência, iluminar a inteligência, fortalecer a vontade e ordenar os afetos, as paixões, as emoções.

Cada pessoa dará “conta da própria vida perante o Tribunal de Deus” (que operará pela nossa consciência, na medida dela) “segundo o bem ou o mal que tiver praticado”.FRISO que o julgamento de Deus é, no fundo, o julgamento de nossa consciência, é a pessoa que se perde ou se salva, pois Deus quer é salvar todos. 

Conclusão: o Vaticano II ratificou as melhores proposições ensinadas pelos grandes expoentes a Igreja, ratificou a linha democrática e popular, que vem do melhor da cultura hebraica, da Paidéia, das idéias de Cristo, do Novo Testamento, dos Apologistas, dos Santos Padres e do movimento democrático mundial.

“Em termos espirituais, somos todos SEMITAS”, cf. Pio XI, em 06.09.1938.

Católicos e judeus foram perseguidos ao mesmo tempo, várias vezes, explicitando assim o enorme acervo de ideias em comum. O melhor do catolicismo nasce e tem o melhor do judaísmo. Judeus são nossos Irmãos mais velhos.

A Ku Klux Khan perseguiu negros, católicos, asiáticos, judeus, porto-riquenhos, chicanos, comunistas etc.

Da mesma forma, Bismarck e Hitler perseguiram a Igreja, os hebreus e a democracia.

Pela mesma razão, Nietzche tinha ódio dos católicos, dos judeus, de Sócrates, da democracia, do pacifismo e do socialismo.

Em 06.09.1938, Pio XI, perto da morte, ao receber uma comitiva belga, leu num missal sobre Abraão, onde se pede a Deus que receba as oferendas na Missa do modo como recebeu o sacrifico de Abraão, o papa lembrou que somos filhos espirituais de Abraão, “nosso Patriarca”, que somos espiritualmente semitas.

Pio XI disse que “o antisemitismo não é compatível com o pensamento e a realidade sublime” desta oração e do cristianismo, sendo “um movimento abominável”.

No final do encontro com os belgas, Pio XI chorou e disse: “o antisemitismo é inadmissível. Somos todos espiritualmente semitas” (“em termos espirituais, somos todos semitas”).

As palavras papais foram divulgadas principalmente por Dom Luigi Sturzo (democrata cristão elogiado por Gramsci), no jornal belga “Cité Nouvelle” (“Cidade Nova”).

O católicos consideram sagrados os textos bíblicos, inclusive o livro I de Macabeus (3,59), que ensina: “é preferível para nós morrer no combate a ver o extermínio do nosso povo e das coisas santas”.

O cuidado da Igreja com operários e camponeses é algo tradicional, e não novo

Pio XI, na encíclica “Firmissiman constantim” (em 28.03.1937), sobre a situação dos trabalhadores no México, escreveu: “se amais verdadeiramente o operário (e deveis amá-lo, porque sua condição se assemelha, mais que nenhuma outra, a do divino Mestre), deveis prestar-lhe assistência material (…). Assistência material, procurando que se cumpra em seu favor não só a justiça comutativa, mas também a justiça social, quer dizer, todas aquelas providências que visam melhorar a condição” deste...” (…)

“Não menos grave nem menos urgente é outro dever, o da assistência religiosa e econômica aos camponeses”, “em sua maior parte agricultores, que formam a população indígena; são milhões de almas”, “são milhões de seres humanos que frequentemente vivem em condições tão tristes e miseráveis, que não têm nem sequer o mínimo de bem estar indispensável para conservar a dignidade humana”.

O papa destacava o “cuidado especial” da Igreja por operários e camponeses, especialmente pelos “mexicanos emigrados, os quais, arrancados de sua terra e de suas tradições” ficam facilmente “envoltos entre as insidiosas redes”. 

A pessoa humana é pessoal e social, à imagem da Trindade, economia mista

Pio XI, na encíclica “Mit brennender sorge” (15.03.1937, onde condenou o nazismo), deixou claro que a doutrina da Igreja é favorável à economia mista, que “equilibra harmoniosamente os direitos pessoais e as obrigações sociais”.

O bem comum é como a natureza humana, pessoal e social, à imagem da Trindade, pessoal e social. Economia mista. 

Vejamos o texto papal, atacando as teses anti-democráticas nazistas:

O verdadeiro bem comum está determinado e reconhecido, em última análise, pela natureza do homem, que equilibra harmoniosamente os direitos pessoais e as obrigações sociais (…). “Quer o Criador que a sociedade seja como o meio para conduzir ao completo desenvolvimento as disposições individuais e os benefícios sociais de cada pessoa”, para assegurar o “pleno desenvolvimento natural e sobrenatural e para completar” a perfeição de todas as pessoas.

Os “direitos pessoais” de cada pessoa estão gravados (subordinados) ao bem comum (que, assim, impõe “obrigações sociais”, chamadas também de “funções sociais”).

Há várias formas de socialismo. Algumas, perfeitamente compatíveis com o catolicismo

Albert Camus, um grande humanista francês, também distinguia entre várias formas de socialismo. No mesmo sentido, Pio XI, na Quadragesimo anno, em 1931, mostrava os pontos comuns entre socialismo democrático e catolicismo, especialmente o ponto sobre a necessidade da estatização dos grandes meios de produção, os grandes bens produtivos. 

Camus apreciava formas de socialismo democrático, que conciliavam a liberdade com a justiça. Vale a pena lembrar que Victor Hugo adotou estas formas de socialismo religioso, sempre mantendo a fé em Deus, tal como seu amigo, Louis Blanc.

Alceu fazia grandes elogios a Camus, eram elogios merecidos, pois Camus retomava a corrente do socialismo do Grupo Clarte (Claridade), que tinha apaixonado o jovem Alceu, no início do século XX.

Como ensinaram vários bispos e Paulo VI, o socialismo é “multiforme” e os que não infringem os direitos humanos e preservam a liberdade, podem e devem ser acolhidos pelos cristãos, pelas exigências de justiça social.

Democracia popular com economia mista, um grande Estado social e econômico, para erradicar a miséria

A democracia popular participativa exige difusão de bens para todos, pequena propriedade familiar para todos, cooperativas e também um amplo setor da economia estatal, com planejamento público participativo (cf. Pio XI e Paulo VI).

Como explicou Pio XI, na “Quadragesimo Anno” (n. 114), “com razão se pretende que se reservem ao poder público certos gêneros de bens que atribuem poder excessivo, que não pode ser deixado em mãos de particulares, sem perigo para o Estado”.

João XXIII, na “Mater et Magistra” (n. 116), foi mais sintético: “o Estado e as demais instituições públicas” podem “possuir legitimamente bens de produção”.

O Papa e todos os bispos católicos, na “Gaudium et Spes” (n. 71), sintetizaram este ponto, explicando que a difusão da pequena propriedade familiar é compatível e complementar com “diversas formas de propriedade pública”.

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