Renouvier e outros elos entre o catolicismo e o socialismo democrático e participativo

Entre os elos entre católicos, socialistas democráticos e radicais há também a figura de Carlos Bernardo Renouvier (1815-1903), ideólogo cristão da III República. Esta nasceu com maioria católica, apesar da liderança horrorosa de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Autores como Renouvier representam idéias semelhantes às existentes na Alemanha, com Ketteler, o Partido do Centro, tal como a linha do socialismo utópico, dos cartistas cristãos, da primeira Liga dos Justos, de Sismondi, Buchez, Lamennais, Ozanam e também quase todos os expoentes do socialismo de cátedra.

Pesch, o principal formulador do solidarismo cristão, em seu livro “Tratado de economia nacional” escreveu que “o solidarismo e a democracia cristã estão de acordo nos princípios e reivindicações seguintes: 1º) “que os negócios públicos devem conduzir-se da maneira que mais convenha aos interesses do bem comum de todo o povo”; e 2º) “que o Estado deve…intervir aonde quer que as forças individuais e corporativas sejam por si sós insuficientes” etc.

Buchez, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, um César Cantu, na Itália, são bons exemplos do papel progressista dos católicos no século XIX.

Renouvier (expoente do neo-criticismo, o que mostra como Kant, teísta, também reaproximou o socialismo da religião) deixou obras importantes como “Manual republicano do homem e do cidadão” (1848), “Ucronia” e “O personalismo”.

Esta última obra praticamente o relaciona com Mounier, mostrando o elo correto das idéias de Renouvier com as idéias da militância católica.

O personalismo de Mounier é um desdobramento do personalismo de Renouvier e tem inúmeros pontos em comum com o radicalismo, especialmente no apreço pela democracia socialista. O mesmo vale para a corrente do existencialismo cristão.

Autores como Léon Bourgeois (1851-1925), em livros excelentes como “Solidarismo” (1896), também são evidências claras da ligação entre católicos e radicais.

O movimento solidarista, em busca de uma democracia popular sócio-econômica e política, brotou de católicos e de radicais, gerando, lá por 1926, na França, uma boa síntese e aliança implícita, inclusive com a condenação da “Ação Francesa”.

Pio XI condenou o movimento de Charles de Maurras (1868-1952) e isso foi decisivo para a Igreja. Herriot, socialista e católico, foi uma das pontes desta aliança, graças à atuação de João XXIII, que era Núncio em Paris.

Outro escritor neste campo democrata e cristão é Charles Secrétan (1815-1895), autor de obras como “A filosofia de Leibnitz” (1840); “A filosofia da liberdade” (1848); “Teologia e religião” (1883) e “Estudos sociais” (1888).

Secrétan seguiu os passos do católico Franz Baader, que influenciou o marxismo, e destacava a importância da liberdade, da razão, da caridade e da justiça, especialmente no livro “A razão e o cristianismo” (1863).

Há, nesta linha de opiniões, outros milhares de escritores. Por exemplo, Charles Bois, Recolin, Célestin Bouglé (1870-1940, autor do livro “O solidarismo”, 1907), Fleurant (“A solidariedade”, 1907) e ainda a Escola Católica com Cláudio Janet.

Também há o cooperativismo cristão de Charles Gide e outras correntes semelhantes.

O velho Comte também escreveu: “nascemos carregados de obrigações de toda espécie para com a sociedade”, expressando o conteúdo da linha sansimoniana e cristã, pois estas são as raízes católicas do contismo, em seus melhores textos.

O partido radical-socialista, na França, foi organizado em 1901, quase simultaneamente ao Partido Trabalhista inglês, com base num socialismo cristão.

No entanto, esta tendência existia como tendência desde os anos 80 do século XIX e, no fundo, era um desdobramento do socialismo cristão pré marxista, de 1820 em diante.

O partido radical representava principalmente os interesses do campesinato, da pequena e média burguesia e de partes do proletariado (enfim, do povo) e governou a França por vários anos, aproximando-se aos poucos das posições da Igreja.

Isso preparou os movimentos de síntese e de alianças entre catolicismo e socialismo democrático, após a Segunda Guerra, nos anos 60, 70 e 80. Este impulso diminuiu com a ofensiva neoliberal nos anos 90, com a queda do socialismo na Rússia, mas foi retomado a partir de 1999.

O radicalismo gerou uma forma de solidarismo, próxima do solidarismo católico e cristão, preparando uma base de socialismo democrático de fundo cristão. Basta considerar Leon Bourgeois e no bom juiz Magnaud. Esta tendência é praticamente idêntica ao solidarismo de Pesch.

No Brasil, nesta linha, houve o padre Fernando Bastos de Ávila, que ressaltou que o solidarismo é a democracia plena, na esfera econômica, política, cultural etc e tem praticamente o mesmo âmbito do socialismo democrático.

Na França, houve também o solidarismo de Leon Duguit, com o culto ao bem comum como finalidade do Estado e da sociedade, que foi um jurista bem apreciado na URSS e com fundamentação cristã.

Nestes movimentos, já estava esboçado a renovação da ligação do socialismo com a religião, ligação esta que está nas origens do socialismo (especialmente no socialismo utópico), o socialismo pré-marxista, cristão.

Em Portugal, a reconciliação entre democracia, socialismo e nacionalismo fica patente nas obras do velho Eça de Queiroz. Suas últimas obras são religiosas e pró-socialismo, pró-democracia social e pró-catolicismo.

No solidarismo de Antônio Sérgio em Portugal, há a mesma marca, presente também nos textos de Antero de Quental, de Oliveira Martins e de outros escritores socialistas e religiosos.

Na Espanha, basta considerar Eduardo Sanz y Escartín, que defendeu reformas sociais favoráveis aos operários, colonização interior (reforma agrária, como explicava Brizola), municipalização de serviços públicos, seguros sociais obrigatórios etc. Escartín deixou boas obras como “A questão econômica” (1890) ou “O Estado e a reforma social” (1896).

Conclusão: a ligação entre cristianismo, democracia, socialismo utópico, nacionalismo, solidarismo, cooperativismo, sindicalismo e outros movimentos mostram que há um fundo subjacente comum, um fundo jusnaturalista, bem antigo, com raízes no melhor da Paidéia e do melhor das idéias hebraicas.

A corrente jusnaturalista (que ensina que o direito real nasce da consciência social) movimenta-se subjacente ao movimento histórico, nas entranhas deste. Como ideal histórico, explicita-se, aflorando na maior parte do movimento literário e na cultura popular.

O jusnaturalismo é natural ao ser humano, tendo, também, base nas idéias hebraicas e no melhor do pensamento antigo (grego, romano etc, na “Paidéia”, cf. Werner Jaeger).

A Paidéia foi conservada e ampliada, em suas concepções jurídicas e políticas da Igreja (como exemplo, basta pensar no direito romano, codificado por Justiniano, um imperador católico, sendo exaltado por Rousseau).

Estas concepções foram, mais tarde, cristalizadas no que se convencionou chamar de “doutrina social da Igreja”, que tem amplas ligações e muitíssimos pontos comuns com a teologia da libertação.

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