Arquivos para : Marc Sangnier (1873-1950)

O elogio feito por Bento XVI a Franz Oppenheimer e ao socialismo cooperativista

Bento XVI transcreveu, aprovando, um bom texto de um escritor judeu, chamado Franz Oppenheimer (1864-1943): “as democracia nasceram no mundo judaico-cristão do Ocidente”.

Franz Oppenheimer foi um bom economista e sociólogo. Lutou por um socialismo com liberdade, com ênfase na reforma agrária e no cooperativismo. Sua biografia foi escrita por Francisco Ayla, no livro “Oppenheimer” (Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1942). No livro “O Estado” (1923), cometeu erros graves, destacando a força como a principal origem do Estado, sem atentar para a importância do consenso e da cooperação na formação do Estado.

O socialismo de Oppenheimer era um socialismo cooperativista.

Neste ponto, ele estava certo, pois o cooperativismo é a democracia na esfera econômica. Trata-se da democracia econômica, preconizada por pensadores como Chomsky, Alceu, Ketteler, Buchez, Lacordaire, Lamennais, Marc Sangnier (1873-1950), Charles Péguy (1873-1914), Chesterton, Mounier, Maritain, Alceu e outros grandes autores da Igreja, estando presente nos textos papais.

Santo Ozanam – o socialismo tem origens cristãs, tradições cristãs, dando apenas novos nomes para as antigas virtudes, regras

Os profetas, Cristo, os Apóstolos, os Mártires, São Francisco de Assis, Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Las Casas (autor do livro “Destruição das Índias”, 1552, em defesa dos indígenas), Suárez, Bellarmino, Pope, Mably, Montesquieu, Acton, Tocqueville, Ozanam, Lamennais, O´Connel, Lacordaire, Buchez, Ketteler, o Cardeal Charles Lavigerie (18235-1892, arcebispo de Cartago e Primaz da África), Chesterton (1874-1936), Simone Weil, Marc Sangnier (1873-1950), Maritain, Mounier, os artigos e a linha da revista “Espírito” (“Esprit”) Lebret, Fessard (cf. “Autoridade e bem comum”, 1944) e outros tinham o mesmo ideal de liberdade, fraternidade e igualdade para todos (o ideal cristão de Morgan, autor que Marx apreciava).

Como explicaram Leão XIII, Pio XII, João XXIII e Paulo VI, o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade é o ideal cristão, católico, que os maçons apenas adotaram, pois a maior parte da maçonaria é cristã, sendo apenas uma pequena parte anticlerical (e esta parte diminui, ano a ano). 

O ideal de um socialismo (socialização) com liberdade (com personalização), um amplo Estado social, democracia popular participativa, economia mista, controles amplos e públicos sobre a economia etc. 

Em 1848, a linha mais brilhante da doutrina social da Igreja foi explicitada inclusive em discursos e atos de Pio IX.

O próprio Marx reconheceu que Pio IX e a Igreja atuaram de forma positiva nos movimentos de 1848.

No mesmo sentido, Ozanam, em carta de 22.02.1848, escrevia: “julgo ver o Soberano Pontífice consumar o nosso anseio de vinte anos [desde 1828]: passar para o lado dos bárbaros, isto é, do campo dos reis e dos homens de Estado de 1815 para se encaminhar ao povo”.

Ozanam escreveu um ensaio com o título “As origens do socialismo”, onde ressaltou que a maior parte dos socialistas fundamentava suas idéias em “tradições cristãs”, “cujo erro principal é o de dar novos nomes às antigas virtudes”.

Por isso, Ozanam, que foi canonizado pela Igreja, dizia: “não desconhecemos a generosidade” dos socialistas e, tal como Ketteler, queria “proceder à triagem”, pois “as antigas e populares idéias de justiça e caridade, e de fraternidade” eram “nossas”, sendo o fundo da tradição cristã.

O ponto essencial da ética, na visão de Ozanam (e dos vicentinos, da Teologia da libertação e da doutrina social, tal como da lei natural), era “promover a abolição do pauperismo”, “advogar a causa dos operários” e “procurar para os homens a maior felicidade terrestre”.

Em resumo: o “anarquismo” cristão do padre Ivan Illich (tal como o anarquismo profundamente cristão do jovem Bakunin, em seus primeiros textos; ou o de Tolstoi) tinha a mesma fundamentação que o distributismo democrático de Alceu e Chesterton, baseado no “reino da liberdade”, do “amor”.

O poder – como qualquer outro bem – deve ser difundido, democratizado, generalizado.

O Estado deve ser ampliado, tendo cada pessoa um pedaço do espaço público, uma cota do bem comum, dos bens comuns a todos. Uma ampla base pública, com distributismo, com setor de pequenas e médias propriedades privadas, principalmente moradias populares de ótima qualidade. 

É esta a doutrina cristã sobre os bens, inclusive o poder. O mesmo vale para o prazer, a felicidade, a cultura, o saber, as informações, o conhecimento etc. Tudo deve ser difundido, sem excluir ninguém, sem monopólio que prive outros. 

Por isso, o próprio Lênin, no livro “O Estado e a revolução” (1917), reconhecia “o espírito democrático revolucionário” do “cristianismo primitivo”.

Vários anarquistas apontaram corretamente a necessidade de difusão do poder, como pode ser visto nos textos de Proudhon, Tolstoi e outros.

Ainda mais – Bakunin, Proudhon e Tolstoi não eram contra o Estado em si, e com contra a figura do Estado liberal ou absolutista da época, queriam, na verdade, um Estado, uma organização da sociedade, debaixo para cima, como deve ser. O mesmo recomendou Marx, num livro sobre a Comuna de Paris. Eu li os melhores de Bakunin e atesto isso.

Vou por no blog uma parte relevante dos textos de Bakunin sobre o Estado, direito das pessoas a pequenos bens etc. 

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