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A Liga dos Justos, organização existente antes de Marx, já baseava toda sua teoria sobre comunismo e socialismo em ideias religiosas

A Liga dos Justos foi criada em torno de 1834 ou 1836, pois houve alterações. Desde o início, usava textos de Sismondi, Lamennais e, depois, de Wilhelm Weitling. Foi criada em Paris, tendo, principalmente, alemães imigrados.

Os textos principais da Liga eram “A humanidade como ela é e como deveria ser” (1838) e “Garantias da harmonia e da liberdade” (1842).

Como Heine apontou, esta última obra, “Garantias”, durante longo tempo, foi o Catecismo dos comunistas alemães”.

Weitling era profundamente cristão, tendo também escrito o livro “O Evangelho dos pobres pecadores”.

A Liga seguia as ideias do socialismo de Cabet, de fundo religioso, tal como as ideias do babovismo, que eram as ideias do padre Morelly e do padre Mably, transmitidas principalmente no livro de Philippe Buonarroti, pessoa religiosa, cristã, católica.

Foi na Liga que Marx aprendeu a base de seu socialismo.

Quando Marx chega a Paris, em 1842, vai viver num apartamento ao lado de German Maurer, o dirigente francês da Liga dos Justos.

Erradicar a miséria e a oligarquia, boa síntese da Doutrina da Igreja

Leão XIII relembrou ponto essencial da doutrina social da Igreja, na “Diuturnum illud” (29.06.1881), ensinando que o que justifica (torna justo, correto, legitima, torna legítimo) o poder público, o Estado, é a realização do bem comum. Na “Rerum” (1891), Leão XIII destacou que toda a estrutura social e estatal deve ser pautada pelo bem do povo, pelo bem comum, o bem de cada pessoa, cada família e de toda a sociedade (economia mista, pois sintetiza o bem pessoal com o bem social e público). 

Villeneuve de Bargemont, um grande católico, no livro “Economia política cristã” (1834), ensinava a mesma coisa: “a finalidade da sociedade não pode ser só a produção de riquezas [bens materiais]”, coisa legítima, em si mesma. A “finalidade” da sociedade e do Estado é “a mais ampla difusão possível da abundância, do bem-estar e da moral”, entre as pessoas. Há a mesma lição nos melhores textos do Visconde de Cairu, especialmente no livro “Estudos do bem comum”, obra elogiada por Alceu Amoroso Lima. 

A “abundância” (cf. Jo 10,10) ou riqueza da sociedade não significa grandes fortunas privadas, e sim a difusão de bens necessários, úteis, convenientes e decorosos para todos, para uma vida plena, simples, abundante, digna e feliz para todas as pessoas, como Frei Caneca destacava, em seus textos.

A verdadeira abundância ou prosperidade da sociedade é a erradicação da miséria e da oligarquia.

Os melhores textos da “Enciclopédia”, de Rousseau e de Diderot são bons textos católicos

Rousseau era profundamente cristão, sendo católico durante boa parte de sua vida. Pestalozzi (1746-1827) foi discípulo de Rousseau, sendo também profundamente cristão.

A doutrina tradicional da Igreja foi também repetida e ensinada por Denis Diderot (1712-1784), quando era católico, no verbete “autoridade política”, na “Enciclopédia”, com autorização da Igreja. Diderot escreveu:

Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do Céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de desfrutá-la assim como desfruta da razão. (…).

O verdadeiro e legítimo poder tem, pois, necessariamente, limites. Por isso, a Escritura nos diz: “que vossa obediência seja racional”, “sit rationabile obsequium vestrum” (cf. São Paulo, “Carta aos Romananos, 12,1). “Todo poder que vem de Deus é um poder regrado”, “omnia potestata a Deo ordinata est” (cf. Rom 13,1). Pois é assim que cumpre entender essas palavras, conforme à reta razão e ao sentido literal, e não de conformidade com a interpretação da baixeza e da lisonja, que pretendem que todo poder, qualquer que seja ele, vem de Deus”.

Na seqüência, Diderot ilustra a tese, lembrando “o poder do Anticristo será ele legítimo? Este será, no entanto, um grande poder”. E repete: “todo poder vem de Deus” e “cessa de sê-lo desde que sai dos limites que a razão lhe prescreveu, e que se desvia das regras” postas por Deus na razão. Se o poder é irracional e fere o bem comum vem da Besta. O termo “Besta”, no livro “O Apocalipse”, da Bíblia, de São João Evangelista, significa um Estado com grande poder político que agiria contra as pessoas. O mal é a ausência do bem. Logo, a lição de São João Evangelista é que o Estado deve ser cristão, ou seja, natural, deve servir ao povo, à felicidade do povo, para ajudar o povo. Esta é a lição católica sobre o poder político, sobre o Estado, os governantes. Devem ser servos do povo, servirem ao povo. 

Diderot repetia e reprisava o ensinamento de Santo Tomás de Aquino, que ensinava que o direito natural é o conjunto das regras racionais (idéias práticas nascidas do diálogo) para o bem comum, que deve pautar o poder, para a realização do bem comum. Diderot sintetizava a doutrina da Igreja, dizendo: “todo poder é de Deus somente na medida em que é justo e regrado” (texto colhido do livro “Diderot”, obras coletadas por J. Guinsburg, São Paulo, Ed. Perspectiva, 2000, p. 257).

Diderot terminou a vida como “panteísta” (na verdade, panenteísta), tendo forte crença em Deus, como discípulo de Sêneca, que foi um estóico praticamente cristão. Sêneca era tão estimado pelos Santos Padres que era considerado cristão. De fato, Nero matou São Pedro, São Paulo e Sêneca, praticamente juntos. Derramaram o sangue para ensinarem que o Estado deve servir ao povo, e não ser uma ditadura, uma tirania, uma oligarquia, um poder ligado aos ricos, contra os pobres, contra o povo. 

Voltaire foi mais feliz, pois terminou a vida reconciliando-se com a Igreja.

A “Enciclopédia” era um verdadeiro tratado de direito natural católico, tendo em geral o assentimento da Igreja, a autorização para imprimir da Igreja. Ao iniciar o projeto da “Enciclopédia”, em 1751, durante o pontificado do grande Bento XIV (um dos maiores papas da história, da estatura de João XXIII), teve o apoio da Igreja e a autorização da Sorbonne, ligada à Igreja. Somente em 1759, iniciam os atritos, devido a alguns e poucos verbetes e outras razões complexas para serem expostas nesta postagem.

Centenas de verbetes, da “Enciclopédia”, no entanto, foram redigidos por padres católicos. O próprio Barnabé Chiaramonti (mais tarde, Pio VII), quando era jovem, foi um dos redatores. Pio VII, mais tarde, fez um elogio da democracia e assinou a Concordata com Napoleão, em 15.07.1801, reconciliando a Igreja com as estruturas estatais nascidas da Revolução Francesa. O Papa Bento XIV foi elogiado várias vezes por Voltaire, que se correspondia com este Papa. Bento XIV escreveu ótima obra sobre os milagres, a santificação, a paranormalidade, poderes psíquicos naturais da alma humana, o poder da sugestão etc. 

Abades como Mallet, Yvon, Pestré, De la Chapelle e outros redigiram toda a parte da “Enciclopédia” sobre teologia, moral e boa parte dos verbetes sobre filosofia (lógica, metafísica e moral). Quase todos os colaboradores da “Enciclopédia” tinham religiosidade. Isto fica claro como o sol, nos textos de homens como Rousseau, Buffon, Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783) e outros.

Na mesma linha, não se deve esquecer, vale a pena repetir, que Diderot passou por várias fases, da religiosa até terminar numa linha estóica-eclética, inspirado por Sêneca, bem próximo do cristianismo, talvez esposando uma forma de panteísmo que, no final das contas, é uma forma de teísmo. Goethe e Diderot, tudo indica, terminaram a vida como panteístas (a meu ver, como panenteístas, vendo Deus no universo, a imanência e a transcendência divina existem, estando Deus no universo e sendo Deus algo mais que o universo), e o mesmo ocorreu com o poeta Percy Bysshe Shelley (1792-1822), estando todos ligados ao platonismo médio e o estoicismo (esta mistura é a base fundamental da filosofia cristã, frise-se).

A ideia do bem comum é a ideia central de toda ética, todo Direito, de todo Estado legítimo

A noção de bem comum está nos melhores textos da Paidéia e da Bíblia e destas fontes foi acatado pelo cristianismo. No mesmo sentido, Pio XI, num discurso a 2.500 sacerdotes rurais italianos, dizia: “é digno de elogio que vocês se dediquem” ao trabalho rural, “que é a espinha dorsal do país”, “é um dever estar presente onde resplandece a glória de Deus”, “o bem estar material dos homens redunda forçosamente em benefício de sua saúde espiritual” (texto colhido do livro do padre Manuel Foyaca de la Concha, “Democracia social Cristiana” (Havana, Ed. Lex, 1948, p. 219).

O primado do bem comum é, no fundo, uma fórmula mais antiga e tradicional para designar o princípio da destinação universal dos bens, que é o “princípio típico da doutrina social da Igreja” (c. “Sollicitudo Rei Socialis”, n. 42, de João Paulo II, em 1987). Este princípio ensina que os bens são destinados ao uso (controle, fruição, acesso etc) de todos para atender o direito à vida, à vida digna (adequada à dignidade do ser humano), para atender aos direitos naturais humanos de todos. Deus planejou que os bens fossem destinados a atender aos direitos humanos, ou seja, à plenitude da vida de todas as pessoas.

Outra fórmula para designar a idéia do primado do bem comum é a idéia-programa de “comunhão”: os bens foram destinados a todos, para serem compartilhados por formas jurídicas e políticas que a sociedade deve elaborar, por regras jurídicas. Estas regras serão legítimas se realizarem o bem comum, se atenderem à destinação universal dos bens, assegurando a todos condições de vida plena e feliz.

Deus é o Sumo Bem, a Suprema Bondade. A Trindade, especialmente pelo Espírito Santo, opera “no coração do mundo”, principalmente na consciência, para “pregar” “boas novas” aos “pobres”, para a “libertação dos oprimidos e a alegria dos aflitos”, para difusão dos bens, a todos, para dar a todos uma vida plena e feliz.

Deus é o “Summum bonum”, o Bem Supremo, em relação ao qual todos os outros se ordenam, ou seja, tudo deve convergir e ser regrado (ordenado) para o bem geral ou comum, que é o Plano, a “vontade de Deus”.

A boa ordem é a ordem social e política com justiça social, baseada no bem comum. Este é o sumo das lições políticas São Paulo, na “Carta aos Romanos” (8,28): “nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem”. No “Pai Nosso”, há a mesma lição: Deus é um Pai amoroso, que busca transformar (unir) a terra ao Céu (“seja feita a Vossa vontade na terra como no Céu”) e libertar a criação do Mal (“livrai-nos do Mal”), sendo este o núcleo da religiosidade de homens como John Stuart Mill (1806-1873), H.G. Wells e Bernard Shaw. Por isso, o núcleo da religião, da teologia, contém o princípio máximo da ética e da teologia, o princípio do bem comum, que ensina que tudo deve ser ordenado para o bem de todos, para o bem universal, geral. O mal não passa da ausência do bem adequado e próprio a cada ser. Erradicar o mal, livrar-nos do mal, significa assegurar a todos uma vida plena, com acesso, controle, fruição dos bens. 

Quatro meses antes da morte, João Paulo II, em uma mensagem no Dia Mundial da Paz, lembrou que todas as pessoas devem lutar para “superar o mal com o bem”. Foi claro ao ensinar que “o mal não é uma força determinística, algo impessoal em ação no mundo. É o resultado da liberdade humana. A liberdade, que distingue os seres humanos de qualquer outra criatura na Terra, está sempre presente no cerne da tragédia do mal”. O ponto essencial é sempre pautar a vida (a liberdade natural), pelas luzes da razão em prol do bem de todos, do bem comum, geral.

A finalidade da sociedade e do Estado é o bem comum. O bem comum ou geral é mais do que o bem social, é o bem de cada pessoa, de cada família, de cada esfera ou círculo social e da sociedade toda. A realização do bem comum é também chamada de concretização dos direitos humanos naturais, realização da natureza humana ou da personalidade. A realização do bem comum é a finalidade dos poderes públicos, sendo a medida da autoridade. O bem comum é o critério primário da legitimidade, da bondade do poder e de cada norma.

O bem comum não se limita aos bens materiais. Além dos bens materais ( classificados em bens necessários, úteis e agradáveis), o bem comum abarca os bens espirituais (união com Deus), os bens morais (virtudes), os bens intelectuais (verdades, ciência, conhecimento, cultura, educação, informação etc), o bem do corpo (saúde, prazeres racionais etc) e também o poder, destinado a todos. Deus quer a difusão de todos os bens, para que todos tenham uma vida plena e abundante.

Aristóteles, na “Ética a Nicômaco” (I, 2, 1094), ensinou corretamente que todos os atos humanos devem ser ordenados racionalmente em prol do bem comum, geral. Aristóteles ensinou esta proposição porque seguia Platão. Platão definiu o bem do seguinto modo: “o ser é o bem” (cf. livro “República”, VII, 518), ou seja, o bem é a realização da essência dos seres, é a finalidade do seres. Por isso, a idéia do bem “acha-se mais além do ser” (cf. “República”, VII, 509), pois é a meta, para o ser se move, sendo o bem (geral), no final das contas, o próprio Deus, que é Coração do universo, o Amor que tudo move. No caso das pessoas, sendo nossa natureza social, racional e política, o bem moral implica em pautar racionalmente a vida em prol do bem de todos (incluindo o bem pessoal, familiar e social). O mesmo vale para o poder, que é uma construção humana. Como toda obra humana, será bom se for racional e pautado pelo bem comum.

A autoridade, o poder, está sujeito à lei natural, às regras que expressam as exigências do bem comum. Como ensinou Romano Guardini, no livro “O poder”, o bom poder é o poder como um serviço ao florescimento da pessoa, de todas as pessoas, da sociedade de pessoas (há a mesma tese no artigo “Potere, dominio e servizio”, publicado na revista “Concilium”, n. 10, em 1973).

A fórmula do poder-serviço, do poder que é agente do bem da sociedade, está claramente na Bíblia: a autoridade está “a serviço de Deus para te incitar ao bem” (cf. Rm 13,4; Rm 13,1-7; Tt 3,1; e 1 Pd 2,13-17). Quando o Estado promulga uma lei iníqua ou organiza uma estrutura injusta, tem o dever de desobedecer (cf. At 4,19-20; 5,29; Ap 13). Estes pontos foram bem expostos por autores como J. M. Aubert (“Loi de Dieu, loi des hommes”, 1964) e K. H. Peschke (“Etica Cristiana”, 1986).

Conclusão: toda regra, lei, norma humana, regra ética, preceitos, conselhos, estrutura, organização e situação, para ser justa (boa), deve ser uma ordenação (uma regra, ordem, organização) racional que realize o bem comum, que é o bem geral. Esta é a lição dos textos de Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus (o padroeiro dos governantes e dos políticos), Mably, Nicolau Spedalieri, Buchez, Lacordaire, Tocqueville, Ozanam, Dupanloup, Rosmini, Ketteler, Acton, Leão XIII, Sangnier, Pio XI, Maritain, Mounier e em milhares de escritores católicos.

Estas idéias foram consagradas no Vaticano II, por praticamente todos os bispos católicos do mundo todo. Estão nos textos de João XXIII, em Medellin, Puebla, nos Sínodos de Bispos, nos melhores textos da democracia cristã, na doutrina social da Igreja e na Teologia da libertação. A essência da ética também é o bem comum.

A ética é o conjunto das regras razoáveis, consensuais, racionais, dialógicas, exigidas pelo bem geral, universal, comum a todos.

O bem comum exige a participação de todos nos bens e no poder, exige um regime pautado por igualdade, liberdade e fraternidade, princípios profundamente cristãos, como ensinaram Leão XIII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

A ética cristã e hebraica é a fonte principal do socialismo democrático, da democracia popular

As fontes do “socialismo democrático” foram bem descritas no “Programa” do Partido Social-Democrata Alemão, aprovado em 1959: o texto diz que “o socialismo democrático europeu” tem três “raízes”: “a ética cristã”, “o humanismo” e “a filosofia clássica”.

O texto acima, num documento fundamental da corrente do socialismo democrático, está correto.

Só destaco que a ética cristã e hebraica é a base e a raiz do humanismo europeu. Ou seja, a fonte do humanismo é a ética cristã e hebraica, que incorporou inclusive o melhor da ética suméria, fenícia, grega, egípcia, persa etc. Isso fica claro quando se lê o Pirke Aboth, o texto fundamental da ética os judeus ortodoxos. 

Destaco ainda que a filosofia clássica só foi mantida, porque foi incorporada pelo cristianismo, pelo catolicismo, na filosofia cristã. Assim, a ética cristã e hebraica é a fonte principal do socialismo democrático, da democracia popular. 

Buchez e Villeneuve-Bargemont, dois precursores da doutrina social da Igreja

Villeneuve-Bargemont (1784-1850), no livro “Tratado de economia política cristã” (1834, obra lida pelo jovem Marx) defendeu a intervenção estatal na economia e leis sociais. Ele também “preconizava o estabelecimento de colônias agrícolas com o concurso do Estado” (Gustavo Corção, “O século do nada”, São Paulo, Ed. Record, sem data, cf. p. 147).

O papel de Buchez, o “chefe do socialismo católico” (cf. Marx) na difusão das idéias cooperativistas com apoio do Estado foi reconhecido várias vezes por Karl Marx. Karl, em várias obras e cartas, destacou que Lassale seguia as idéias de Buchez, também adotadas por Ketteler, fórmulas de democracia popular, social, que ainda hoje subsistem. O apoio (subsídio, planificação, cooperativismo etc) estatal ao campesinato e a outras categorias-chaves é outro grande e antigo ponto da doutrina social da Igreja, como provam os textos de João XXIII, o papa-camponês. Agricultura boa é agricultura subsidiada, o mesmo para o ramo da pesca, dos artesões etc. 

Como o cristianismo conquistou Roma e o mundo

A concepção política cristã foi descrita, em parte, inclusive por Edward Gibbon, no livro (“Declínio e queda do império romano”, São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1989, p. 195).

Gibbon faz a pergunta: “por que meios a fé cristã obteve vitória tão notável sobre as religiões” pagãs. A resposta de Gibbon é: “graças à convincente evidência da própria doutrina e à divina Providência do seu grande Autor”.

Além disso, “como a sabedoria da Providência condescende frequentemente em fazer das paixões do coração humano e das circunstâncias gerais da humanidade os instrumentos com que executa o seu propósito”, houve várias “causas segundas”. Dentre estas, destacam-se: “o zelo” dos cristãos; “a doutrina de uma vida futura”; “os poderes miraculosos” (milagres); “a pura e austera moralidade dos cristãos” em prol do bem de todos; e “a união e a disciplina da república cristã, que formou aos poucos um Estado independente que se desenvolveu no coração do império romano”

Leão XIII expôs bem as raízes da filosofia cristã

Leão XIII, na encíclica “Aeterni”, passa a enumerar os principais filósofos entre os Santos Padres:

Merece, entre esses, o primeiro lugar, São Justino, mártir, que depois de ter freqüentado as celebérrimas Academias dos gregos, viu que só das doutrinas reveladas é que pôde extrair a verdade, como ele mesmo confessa, e abraçando-as com todo o ardor da sua alma, as purificou das calúnias, defendeu-as veementemente e, eloqüentemente diante dos Imperadores Romanos, e com elas harmonizou grande número de opiniões dos filósofos gregos”.

São Justino foi um dos precursores da “filosofia cristã”, harmonizando “grande número de opiniões dos filósofos gregos”. São Justino nasceu em Siquém (atual Nablus), na Palestina. Era um filósofo aristotélico e platônico, que se converteu lá por 130 d.C. Viveu em Éfeso e depois em Roma, onde morreu como mártir, lá por 165 d.C.

São Justino deixou duas “Apologias” o “Diálogo com o judeu Trífon”. A base de sua ética é a concepção do “Logos spermatikós” (cf. “Apologia II, 6,8). O critério moral de São Justino é o de viver segundo a razão, o “logos”, sendo este o critério adotado pelos estóicos, por Aristóteles e pelo platonismo.

Hegel – o princípio cristão eh fermento do Estado social

Hegel foi um filósofo cristão, democrata, que amava a Paidéia e também as idéias cristãs. O velho Hegel, o principal mestre de Marx, soube apontar bem a influência das idéias cristãs na formação do Estado moderno, de um Estado social com democracia, como descreveu corretamente o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, uma das estrelas da Ação Popular, no início da década de 60, no século XX.

Hegel, no livro “Lições sobre a história da filosofia” (vol. I, Firenze, Ed. La Nuova Italia, 1998, p. 61), explicou corretamente a influência cristã na formação do Estado moderno, junto com as idéias de Platão, Aristóteles, Cícero e dos juristas romanos:

que o homem seja livre em si e por si, por virtude da própria substância, e que tenha nascido livre como homem, isto não souberam nem Platão, nem Aristóteles, nem Cícero, nem os juristas romanos [o melhor da Paidéia], ainda que somente neste conceito de ser humano [o conceito de pessoa, ser criado para a libertação] esteja a nascente do Direito [e do poder]. Somente no princípio cristão, o espírito individual pessoal assume essencialmente valor infinito, absoluto [cada pessoa é sagrada e única, irrepetitível]; Deus quer que seja dada ajuda a todas as pessoas. Na religião cristã, desenvolveu-se a doutrina segundo a qual todas as pessoas são iguais perante Deus, porque Cristo os chamou para a liberdade cristã. (…). O sentimento de tal princípio fermentou por séculos, por milênios, produzindo as mais gigantescas revoluções”.

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