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São Paulo, um filósofo estoico de Tarso, fariseu, que manteve estas ideias, ao se tornar católico, cristão

São Paulo nasceu em Tarso (cf. At 9,11) lá por 5 d.C. e teria vivido ali até aos 20 anos, até 15 d.C. Depois, partiu para Jerusalém, onde morava uma irmã sua, casada, cujo sobrinho salvou a vida de São Paulo, anos depois. Em Jerusalém, permaneceu de 25 d.C. até cerca de 33 ou 36 d.C, tendo sido aluno do grande Gamaliel, “o rabino erudito mais ilustre de seu tempo” (cf. David H. Stern, “Comentário judaico do Novo Testamento”, Belo Horizonte, Ed. Atos, 207, p. 337, sendo Stern um “judeu messiânico”, um judeu cristão).

São Paulo nasceu na cidade de Tarso, que tinha mais cultura do que talvez houvesse em Alexandria. Foi aluno do principal rabino de seu tempo, o que mostra bem como age a Providência, usando meios naturais como mediações.

Lá por 36 d.C., São Paulo converteu-se e foi assassinado em 67 ou 68 d.C., uns três anos depois do assassinato de Sêneca.

São Paulo fundia, em si mesmo, o melhor da Paidéia e o melhor do pensamento hebraico, tendo como professor Gamaliel, o neto do grande Hilel. Gamaliel salvou São Pedro e os Apóstolos (cf. At 5,34) e há uma tradição que diz que Gamaliel teria se convertido e sido batizado, junto com Nicodemo.

Tarso foi a cidade onde Antônio encontrou Cleópatra, em 41 a.C., tendo feito de Tarso a capital do que seria seu império asiático.

Júlio César também esteve em Tarso, lá por 47 a.C. Augusto (63 a.C. a 14 d.C.) concedeu a cidadania romana aos habitantes de Tarso, o que foi a origem da cidadania romana de São Paulo. A razão para isso deve-se à gratidão que tinha pelo estóico Atenodoro, que nasceu em Tarso.

Atenodoro de Tarso (74 a.C. a 7 d.C.) foi um dos professores de Augusto e foi tutor de Marcelo, sobrinho de Augusto. Atenodoro deixou conselhos éticos a Augusto, conselhos em harmonia com as idéias hebraicas, como: “quando estiveres irado, César, nada digas e nada faças até que tenhas repetido as letras do alfabeto” e “vive de tal modo com os homens como se Deus te visse; fala de tal modo com Deus como se os homens estivessem ouvindo”. Augusto também nomeou Nestor, de Tarsos, para ser o tutor (professor) de seu filho ou sobrinho.

Atenodoro de Tarso, como Cícero, foi aluno de Posidônio, em Rhodes. Posidônio, por sua vez, foi aluno de Panécio. Ora, Panécio era discípulo de Antípater de Tarso. Cícero foi aluno de Posidônio, o que mostra o tanto que o pensamento de Cícero tem origem em Tarso, a cidade de São Paulo, que Cícero governou, em 51 a.C.

Posidônio (135-50 a.C.) nasceu em Apaméia, cidade da Síria, pertinho de Jerusalém, que fica a uns 200 quilômetros de Tarso e 150 km de Chipre. Posidônio é o exemplo perfeito do estóico ligado à tradição de Crisipo. Afinal, Posidônio combinava, numa síntese, estoicismo, aristotelismo e platonismo. Esta síntese está também em Plutarco, Tácito, Galeno, no Pseudo-Dionísio e, depois, em São João Damasceno e Boécio, preparando o que se convencionou chamar de “filosofia cristã”, bem expressa na síntese tomista, .

Atenodoro, no final da vida, voltou a Tarso e ajudou a expulsar Boethus, um tirano. Atenodoro teria auxiliado Cícero na confecção do livro “Dos deveres” (o mesmo título da obra de Antípater de Tiro, outro estóico), livro que influenciou profundamente os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Lactâncio e São Jerônimo). Atenodoro foi o mestre de Apolônio de Epiro.

Em 50 a.C., Atenodoro foi para Roma para ser o professor de Augusto, permanecendo em Roma até 33 a.C. Atenodoro faleceu com 82 anos e era amigo de Estrabão. Houve ainda outro Atenodoro de Tarso, que tinha o apelido de Cordilion. Este segundo Atenodoro era o encarregado da Biblioteca de Pérgamo e era também estóico. Este segundo Atenodoro foi levado para Roma, por Catão de Útica e teria ajudado Cícero na redação do livro “Dos ofícios”, na parte que resume das idéias de Posidônio.

A região em torno de Tarso era uma área onde o estoicismo era bastante cultivado e estas idéias, com certeza, influenciaram São Paulo.

O estoicismo é uma filosofia influenciada desde a origem pelas idéias asiáticas, elamitas, fenícias, dos caldeus, dos persas e também dos hebreus e, por esta razão, pelas idéias em comum, era a filosofia preferida dos Santos Padres (na parte ética) e está presente na lista de virtudes e de vícios, nos textos de São Paulo etc. Após a conversão, São Paulo retornou a Tarso, por algum tempo, para refugiar-se, para refletir, unindo o melhor da Paidéia com o melhor do pensamento hebraico.

Os melhores textos da “Enciclopédia”, de Rousseau e de Diderot são bons textos católicos

Rousseau era profundamente cristão, sendo católico durante boa parte de sua vida. Pestalozzi (1746-1827) foi discípulo de Rousseau, sendo também profundamente cristão.

A doutrina tradicional da Igreja foi também repetida e ensinada por Denis Diderot (1712-1784), quando era católico, no verbete “autoridade política”, na “Enciclopédia”, com autorização da Igreja. Diderot escreveu:

Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do Céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de desfrutá-la assim como desfruta da razão. (…).

O verdadeiro e legítimo poder tem, pois, necessariamente, limites. Por isso, a Escritura nos diz: “que vossa obediência seja racional”, “sit rationabile obsequium vestrum” (cf. São Paulo, “Carta aos Romananos, 12,1). “Todo poder que vem de Deus é um poder regrado”, “omnia potestata a Deo ordinata est” (cf. Rom 13,1). Pois é assim que cumpre entender essas palavras, conforme à reta razão e ao sentido literal, e não de conformidade com a interpretação da baixeza e da lisonja, que pretendem que todo poder, qualquer que seja ele, vem de Deus”.

Na seqüência, Diderot ilustra a tese, lembrando “o poder do Anticristo será ele legítimo? Este será, no entanto, um grande poder”. E repete: “todo poder vem de Deus” e “cessa de sê-lo desde que sai dos limites que a razão lhe prescreveu, e que se desvia das regras” postas por Deus na razão. Se o poder é irracional e fere o bem comum vem da Besta. O termo “Besta”, no livro “O Apocalipse”, da Bíblia, de São João Evangelista, significa um Estado com grande poder político que agiria contra as pessoas. O mal é a ausência do bem. Logo, a lição de São João Evangelista é que o Estado deve ser cristão, ou seja, natural, deve servir ao povo, à felicidade do povo, para ajudar o povo. Esta é a lição católica sobre o poder político, sobre o Estado, os governantes. Devem ser servos do povo, servirem ao povo. 

Diderot repetia e reprisava o ensinamento de Santo Tomás de Aquino, que ensinava que o direito natural é o conjunto das regras racionais (idéias práticas nascidas do diálogo) para o bem comum, que deve pautar o poder, para a realização do bem comum. Diderot sintetizava a doutrina da Igreja, dizendo: “todo poder é de Deus somente na medida em que é justo e regrado” (texto colhido do livro “Diderot”, obras coletadas por J. Guinsburg, São Paulo, Ed. Perspectiva, 2000, p. 257).

Diderot terminou a vida como “panteísta” (na verdade, panenteísta), tendo forte crença em Deus, como discípulo de Sêneca, que foi um estóico praticamente cristão. Sêneca era tão estimado pelos Santos Padres que era considerado cristão. De fato, Nero matou São Pedro, São Paulo e Sêneca, praticamente juntos. Derramaram o sangue para ensinarem que o Estado deve servir ao povo, e não ser uma ditadura, uma tirania, uma oligarquia, um poder ligado aos ricos, contra os pobres, contra o povo. 

Voltaire foi mais feliz, pois terminou a vida reconciliando-se com a Igreja.

A “Enciclopédia” era um verdadeiro tratado de direito natural católico, tendo em geral o assentimento da Igreja, a autorização para imprimir da Igreja. Ao iniciar o projeto da “Enciclopédia”, em 1751, durante o pontificado do grande Bento XIV (um dos maiores papas da história, da estatura de João XXIII), teve o apoio da Igreja e a autorização da Sorbonne, ligada à Igreja. Somente em 1759, iniciam os atritos, devido a alguns e poucos verbetes e outras razões complexas para serem expostas nesta postagem.

Centenas de verbetes, da “Enciclopédia”, no entanto, foram redigidos por padres católicos. O próprio Barnabé Chiaramonti (mais tarde, Pio VII), quando era jovem, foi um dos redatores. Pio VII, mais tarde, fez um elogio da democracia e assinou a Concordata com Napoleão, em 15.07.1801, reconciliando a Igreja com as estruturas estatais nascidas da Revolução Francesa. O Papa Bento XIV foi elogiado várias vezes por Voltaire, que se correspondia com este Papa. Bento XIV escreveu ótima obra sobre os milagres, a santificação, a paranormalidade, poderes psíquicos naturais da alma humana, o poder da sugestão etc. 

Abades como Mallet, Yvon, Pestré, De la Chapelle e outros redigiram toda a parte da “Enciclopédia” sobre teologia, moral e boa parte dos verbetes sobre filosofia (lógica, metafísica e moral). Quase todos os colaboradores da “Enciclopédia” tinham religiosidade. Isto fica claro como o sol, nos textos de homens como Rousseau, Buffon, Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783) e outros.

Na mesma linha, não se deve esquecer, vale a pena repetir, que Diderot passou por várias fases, da religiosa até terminar numa linha estóica-eclética, inspirado por Sêneca, bem próximo do cristianismo, talvez esposando uma forma de panteísmo que, no final das contas, é uma forma de teísmo. Goethe e Diderot, tudo indica, terminaram a vida como panteístas (a meu ver, como panenteístas, vendo Deus no universo, a imanência e a transcendência divina existem, estando Deus no universo e sendo Deus algo mais que o universo), e o mesmo ocorreu com o poeta Percy Bysshe Shelley (1792-1822), estando todos ligados ao platonismo médio e o estoicismo (esta mistura é a base fundamental da filosofia cristã, frise-se).

Outras boas ideias de Julius Guttmann sobre relação entre judaísmo, filosofia clássica e cristianismo

Na página 48, do livro “Filosofia do judaísmo”, Julius Guttmann destaca que o trabalho de Fílon de Alexandria, um hebreu adepto do platonismo médio, foi uma continuação da síntese entre a Paidéia e as idéias hebraicas, ocorrida já na “Septuaginta”, em 285 a.C. e mesmo antes, quando a Bíblia era traduzida para o aramaico (língua falada nos impérios assírio, medo e persa), no “Targum”. Esta síntese já estava presente inclusive em Moisés, que tinha toda a ciência egípcia, suméria, semita etc. 

Guttmann lembra que Fílon é a continuidade da “esteira da síntese das doutrinas platônicas e estóicas, efetuada por Posidônio”, pelo estoicismo médio, a matriz do platonismo médio. Esta síntese fica evidente nos livros “Sabedoria” e “Eclesiástico”, livros revelados, onde Deus se vale da influência cultural da época, do trigo entre a cultura da época. Esta síntese também está na medula de livros como “Macabeus”, especialmente o livro apócrifo “Macabeus IV”. Neste livro, “o princípio comum a todas as escolas da ética grega, de que a razão deve governar as paixões”, aparece como “expressão filosófica da exigência bíblica de submissão à Lei divina”, que é o Logos, que é a Razão divina (cf. Guttmann). Deus criou a razão, a consciência, para o autogoverno pessoal, familiar e social, premissa central do pensamento democrático. Claro que a razão atua em boa síntese com as emoções, paixões, instintos e com o corpo humano, na linha do que foi ensinado pelos grandes aristotélicos e estóicos. 

Platonismo e Igreja

No início, como mostra Leão XIII, os filósofos cristãos evitaram a escola dos “Acadêmicos”, de Platão, pois a Academia estava contaminada pelo ceticismo. No entanto, quando o cristianismo surge, a Academia vai sendo expurgada das idéias do ceticismo e e já antes dos anos 200 d.C, surge um forte movimento cristão ligado ao platonismo, especialmente em Alexandria. Este movimento neoplatônico cristão era eclético, ecumênico, aberto às idéias estóicas e aristotélicas. O mesmo ocorria com o neoplatonismo pagão, como fica claro em Plotino, Porfírio, Proclo e outros.

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