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A influência de Buchez e do socialismo católico sobre as melhores ideias do marxismo, a parte trigo

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs socialistas e católicas de Saint-Simon. Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana, que teve a participação de Pierre Leroux e Etienne Cabet, dois grandes socialistas cristãos. As obras de Leroux, principalmente, mereceriam ampla reedição, pela atualidade. 

Em 1832, Buchez criou as primeiras cooperativas de produção, como destacou Charles Gide. Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil, pois foram estes dois católicos quem divulgaram mais o socialismo, no Brasil, já em torno de 1848, bem antes de haver marxistas no Brasil.

Lembro que o católico General Abreu e Lima militou ao lado de Bolívar, sendo um dos generais de Bolívar, que era também católico. Os católicos buscam a integração do continente latino-americano, sendo este um velho sonho, mesmo de Eduardo Prado, um Projeto católico e dos pobres. O UNASUL e o mercosul tem pleno apoio da Igreja.

A Igreja criticou erros neoliberais no Mercosul, não o Mercosul. Da mesma forma, a unificação da Europa foi um grande Plano da Igreja, que apoia a União Européia, mas sem neoliberalismo. Tal como apoia a Organização dos Estados Africanos, da Oceania, da Ásia etc. Governos continentais preparam um bom Estado mundial, que não anulará as nações, e sim as protegerá, como protegerá os municípios, as pessoas etc. 

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a linha cristã-democrata e socialista. A linha democrática popular passa pelo melhor da Bíblia, da Paidéia, tal como os Santos Padres, Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, passando, depois, por Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, a teologia política européia etc.

Esta linha representa, a meu ver, a linha luminosa (a ortodoxia) que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa, numa boa síntese, democracia política, econômica, social e cultural. Democracia participativa, popular, economia mista, distributismo, Estado social. 

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras. Nisso, o próprio Marx atesta e admite a influência de Buchez sobre a gestação das idéias marxianas. Por exemplo, Marx cita Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital” e em outras obras e cartas pessoais. Marx citou, já desde a temporada em Paris e antes em Colônia, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX.

Buchez redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa, atestando a religiosidade dos jacobinos, especialmente de Robespierre.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant e outros expoentes.

Sismondi e Buret representavam o socialismo pequeno burguês, ou seja, economia mista. Idem para Proudhon, que defendia um socialismo pequeno burguês, com ampla camada de pequenos e médios produtores, associados em cooperativas. Um modelo que nada tem de errado. Proudhon disfarçava a necessidade do Estado por vastos consensos e deveria saber que as leis positivas são vastos consensos, para serem legítimas. O próprio Proudhon participava de eleições parlamentares e foi inclusive deputado federal na França.

Boa parte do anarquismo não era contra a pequena propriedade privada, camponesa e artesã ou pequena burguesa, e sim a defendia, ponto que vou mostrou em outras postagens. Ou seja, o melhor do anarquismo, inclusive de Tolstoi e o mesmo vale para o georgismo, era favorável a economia mista. 

O socialismo religioso, cristão, foi a base, a matriz, a fonte do melhor do socialismo pré-marxista. Suas idéias bíblicas (e as próprias idéias bíblicas de Marx, cf. mostrou o padre Miranda) formam o melhor das idéias marxistas, que são, assim, no fundo e na parte sadia, idéias cristãs colhidas numa síntese por Marx.

A difusão do marxismo na China, no Japão, na Coréia, no Vietnam e em outros países carrega, por esta razão, um enorme acervo de idéias cristãs, facilitando a evangelização do mundo. Claro que há o trigo, a parte boa, e o joio, a parte com erros. O correto é ficar com o bebê, jogando fora a água suja, o joio, mantendo o bom trigo. 

Marx, dois anos após a morte de Lassale, em 1868, nuam carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, reconhece que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”. Também reconhece que a maior parte das idéias de Lassale tinha origem em Buchez, um grande socialista católico. Vejamos as palavras de Marx:

“Depois de um sono de quinze anos, o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante – sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch– o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez – assistência do Estado às sociedades operárias– com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

A “fórmula de Buchez”, de “assistência [apoio, estruturação] do Estado às sociedades operárias”, às cooperativas, no mínimo “desde 1843”, mas, na verdade, bem antes, foi também a fórmula de Ketteler, mais tarde, sendo, em algumas linhas, a fórmula de Mounier, de Alceu, da teologia da libertação, hoje. Esta fórmula ainda é atual e correta, pois toda a estrutura produtiva deveria ser cooperativista completada pelo planejamento estatal participativo (esta é a fórmula de Mounier, Alceu, Dom Hélder e outros).

Lembro que os cartistas, na Inglaterra, eram um partido cristão, ligado aos irlandeses católicos, pois parte do proletariado inglês era formado de irlandeses católicos. O mesmo vale para o movimento dos poloneses, apoiado por Marx, e que era um movimento principalmente católico. O mesmo vale para os Cavaleiros do Trabalho, nos EUA, que era cheio de católicos, tendo até um presidente católico, e tendo apoio do Vaticano e de Marx e Engels.

Na China, naquela época, houve o Movimento dos taipings, o maior movimento camponês na China, liderado por cristãos. Depois, a China se torna uma República, com o Pai da República chinesa, Sun Yat Sen, sendo católico. Na Turquia, mais tarde, o movimento que cria a República, se aproxima do cristianismo, ponto que é atestado por João XXIII, quando era Núncio na Turquia. 

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez. Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Lamennais e Blanc, como Victor Hugo, eram pessoas profundamente religiosas, cristãs, católicos lato senso. Lamennais tinha sido padre. Victor Hugo seguiu a linha de François Chateaubriand, grande escritor pré-romântico, que ajudou na reconciliação da Revolução Francesa com a Igreja, pela Concordata, via Napoleão. 

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel, diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez. Engels, nestes textos, combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”. De fato, os camponeses, os artesãos, os pequenos burgueses e a classe média são aliadas naturais dos operários contra a oligarquia (o latifúndio e os olipólios, trustes e cartéis).

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada.

Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

O partido lassalista usou, assim, em seu programa, de idéias de Buchez, idéias católicas. Usou também as idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde os católicos militavam e tinham hegemonia. Como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também, no livro “A organização do trabalho”, inspirado em Buchez. Estas mesmas idéias estão em Etienne Cabet, em Rodbertus e outros socialistas cristãos.

Estão em Adolph Wagner, e depois, foram acolhidas por Pesch, aluno de Adolph Wagner. Pesch criou o solidarismo, linha que resume bem a doutrina da Igreja, defendendo democracia popular, Estado social, distributismo. O solidarismo era também o melhor da Terceira República, na França, com Renouvier, Bourgeois, Bouglé e outros, inclusive grandes estrelas da Igreja, como Péguy. 

O solidarismo cristão era bem próximo do solidarismo jurídico-político de Leon Bourgeois (1857-1934). Bourgeois pertencia ao partido radical francês e escreveu o livro “Solidariedade”, em 1896, ganhando o Prêmio Nobel da Paz, em 1920.

Renouvier (1815-1903) foi um grande republicano cristão. Teve o mérito de ter sido um dos principais ideólogos da III República. Como Gaetano Mosca e Bouthoul reconheceram, Renouvier “exerceu grande influência sobre os primeiros dirigentes da Terceira República”. Renouvier tinha como ideário, idéias católicas como: “a lei moral está em todos porque está em cada um”, é “universal porque é eminentemente particular e inegavelmente própria e constitutiva de cada consciência”.

O melhor do socialismo francês, com Renouvier, Bourgeois, Jaurès, Péguy e outros defendia um “socialismo bastante extenso, mas que respeita escrupulosamente a liberdade e a autonomia dos indivíduos” (cf. Mosca, no livro “História das doutrinas políticas”, p. 370), defendendo uma República democrática popular e social. Seus textos também mereciam figurar em manuais da teologia da libertação nas CEBs e paróquias.

Os textos de Léon Bourgeois, como o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade” (1902), esboçaram uma forma de socialismo democrático. Bourgeois chamou esta forma de “solidarismo”, unindo, numa síntese o melhor do pensamento democrático e socialista. O solidarismo é um socialismo humanista, com liberdade. Bourgeois escreveu obras conjuntas com outros autores da mesma linha. Por exemplo, o “Ensaio de uma filosofia da solidariedade”, 1902, que tem textos de Charles Gide (1847-1932), Boutroux, Croiset e outros.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875. Na fusão, redigiu o “Programa de Gotha”, onde usou a fórmula de Buchez. Ora, a fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do melhor do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional. As idéias dos cristãos sociais davam a linha. Eram idéias de cristãos socialistas como Saint-Simon, Buchez, Leroux, Cabet e outros pré-marxistas. Também eram as idéias da Liga dos Justos, que adotava idéias cristãs, antes de adotar as idéias de Marx.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”. A estrutura estatal do modelo de Marx, para a Comuna de Paris, é baseada em “cooperativas” que planejam “a produção nacional num plano comum”, na planificação participativa com cooperativismo. Esta fórmula é a fórmula de Buchez, que está mais ou menos nos textos de João XXIII e está nos textos de Dom Hélder e de Alceu. Frise-se: esta fórmula não tem nada de ditadura, de proibição de sindicatos livres, de proibição de multipartidarismo, de negação da liberdade de pensamento, de expressão, de palavra, de Gulags etc. Esta parte é o joio, a parte ruim. 

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto. Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez, a fórmula adotada na fusão de seu partido com o partido de Lassale.

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n. em 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem: “o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”. Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez, adotada também por Etienne Cabet e por Luís Blanc. De qualquer forma, Guesde queria economia mista, como transição, ponto que também foi defendido por Trotski, no seu “Programa de transição”, que será analisado num post separado, que estou preparando. 

Numa linha semelhante, Benoit-Malon queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”. Malon tinha boa religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos… libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, livros com o título de “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas, opondo-se aos projetos de ataque à Igreja da Terceira República, projetos elaborados no Grande Oriente da França.

Lembro que, mais tarde, a Maçonaria, na França, sofreu uma cisão, gerando uma Maçonaria cristã, bem católica, elogiada por vários padres, como o Padre Benemelli, ou o Padre Valério Alberton, a quem eu conheci pessoalmente. 

Cooperativismo com planejamento estatal foi também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão protestante, embora Gide errasse por não ver a importância do Estado, coisa que o socialismo católico não fez, pois sempre a Igreja elogiou o Estado, como instituição vital e essencial.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

Conclusão: com várias nuances e algumas diferenças, a maior parte do movimento socialista adotou a fórmula de Buchez, de difusão do cooperativismo com apoio do Estado, para superar o regime assalariado e dar aos trabalhadores o controle dos processos produtivos e do Estado. Esta fórmula tem base cristã, católica, sendo pré-marxista. A teologia da libertação não pode ser acusada de marxista ao adotar idéias cristãs pré-marxistas.

Tocqueville, Buchez, Sismondi, Ozanam, Lacordaire, Ketteler, José Soriano de Souza e a Escola de Liège adotavam duas premissas fundamentais: a importância do associativismo cooperativista e do apoio e da intervenção do Estado

José Soriano de Souza, no livro “Ensaio de programa para o partido católico no Brasil (Porto/Braga, Livraria Internacional, 1877, p. 4), no capítulo I, ensinou que “a idéia formal de sociedade contém-se inteiramente na concórdia [livre] dos cidadãos, conspirando todos, por meio de seus atos para o bem comum” (p. 4). Concórdia é consenso, sendo a mesma base do livro “Concórdia”, de Juan Luís Vives. Significa união dos corações, das consciências, para a regência da vida social em prol do bem comum.

Soriano defendia idéias democráticas como: a “descentralização e a liberdade dos municípios”, a liberdade de imprensa”, de “ensino e instrução popular” e, especialmente, “o direito de associação”, na linha de Tocqueville, Buchez e outros.

Esboço da República popular, Estado social, defendido pela CNBB, pela Igreja

A CNBB é a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, agrupando mais de 400 bispos (algo próximo a um décimo dos bispos do mundo, que se aproxima de 5.000 bispos católicos). A CNBB criticou males hediondos como as privatizações, o latifúndio, o imperialismo, capitalismo e a ALCA.

A CNBB quer boas estatais, cooperativas, amplo setor privado formado por milhões de propriedades pequenas e médias familiares (pequena burguesia, pequenos produtores), mais distributismo (moradia para todos, renda para todos, liberdade para todos, amplos direitos subjetivos privados e sociais para todos). CNBB ama pequenos burgueses e camponeses. Quer a erradicação da miséria, do analfabetismo, das grandes fortunas privadas, quer a mediania. A igualdade social. 

A CNBB patrocina um projeto popular de emenda constitucional (PEC) contra o latifúndio, para proibir o latifúndio (ninguém poderia ter mais de mil hectares).

A CNBB quer uma agricultura popular, semi-pública, economia mista, com ampla intervenção estatal e apoio do Estado aos camponeses, associados em cooperativas.

O MST é apenas a seção da Via Campesina, entidade de camponeses, do mundo todo, com amplo apoio da Igreja, toda permeada pela doutrina social da Igreja. 

A CNBB também propôs e colheu milhões de assinaturas para projetos contra a corrupção eleitoral (o projeto ficha limpa e ainda gerou a única lei eleitoral que cassou quem pratica a corrupção eleitoral).

A CNBB defende o financiamento público das campanhas políticas, para livrar o processo eleitoral da influência do dinheiro, do capital.

Há ainda idéias da CNBB, de criação de um governo latino-americano (nos moldes de Bolívar, grande católico) e Mundial, um Estado mundial (destacado por Bento XVI na última encíclica, de 2009), tal como outras boas sugestões sociais.

Na 44ª Assembléia geral da CNBB, em maio de 2006, foi novamente ratificado o projeto do clero brasileiro (e da América Latina), de democratização radical do Estado, inclusive com o instituto da revogação de mandados eletivos:

Democratizar o Estado e ampliar a participação popular. Trata-se de assegurar e ampliar os direitos sociais inscritos na Constituição de 1988, como a universalização [difusão, democratização, generalização, distributismo] dos serviços de saúde, educação, previdência, moradia, segurança, alimentação e respeito às diversidades; regulamentar os processos de referendos e plebiscitos, e constituir comitês populares de acompanhamento dos gastos públicos. (…)

Instituto revocatório de mandatos eletivos

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC), Nº 1/2006, é uma iniciativa da OAB, acolhida pelo Senador Pedro Simon. Na proposta, o artigo 14 da Constituição que trata das várias formas de votação, inclusive dos instrumentos de participação popular, será acrescido de um artigo sobre o instituto revocatório de mandatos eletivos. É justificado pelo princípio basilar da democracia no artigo 1º da Constituição Federal “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da Constituição”. O novo artigo, 14A, diz: “Transcorrido um ano da data da posse nos respectivos cargos, o Presidente da República, ou os membros do Congresso Nacional, poderão ter seus mandatos revogados por referendo popular”. Seus principais parágrafos: o mandato do senador poderá ser revogado pelo eleitorado do Estado por ele representado; o eleitorado nacional poderá decidir a dissolução da Câmara dos Deputados, convocando-se nova eleição, que será realizada no prazo de três meses; o referendo previsto neste artigo realizar-se-á por iniciativa popular, dirigida ao Superior Tribunal Eleitoral; o referendo para revogação do mandato do Presidente da República poderá também se realizar mediante requerimento da maioria absoluta dos membros do Congresso Nacional, dirigido ao Tribunal Superior Eleitoral”.

Conclusão: o poder legítimo (justo, bom, ético, racional) é fruto da explicitação (da promulgação, da representação) das idéias práticas do povo, das regras e/ou decisões sociais nascidas da consciência da sociedade, da expressão dos interesses, necessidades e aspirações do povo, expressão que ocorre pela via do diálogo, da comunicação, da opinião pública.

As idéias afluem do povo, subindo, sendo apenas condensadas e organizadas nos Parlamentos, em todos os órgãos estatais, em todos os centros de decisão social, inclusive e principalmente da economia. Esta estrutura é que assegura a produção contínua de idéias para o bem comum, de palavras, de organização participativa, popular, social e cooperativa para o bem comum.

Os melhores textos da “Enciclopédia”, de Rousseau e de Diderot são bons textos católicos

Rousseau era profundamente cristão, sendo católico durante boa parte de sua vida. Pestalozzi (1746-1827) foi discípulo de Rousseau, sendo também profundamente cristão.

A doutrina tradicional da Igreja foi também repetida e ensinada por Denis Diderot (1712-1784), quando era católico, no verbete “autoridade política”, na “Enciclopédia”, com autorização da Igreja. Diderot escreveu:

Nenhum homem recebeu da natureza o direito de comandar os outros. A liberdade é um presente do Céu, e cada indivíduo da mesma espécie tem o direito de desfrutá-la assim como desfruta da razão. (…).

O verdadeiro e legítimo poder tem, pois, necessariamente, limites. Por isso, a Escritura nos diz: “que vossa obediência seja racional”, “sit rationabile obsequium vestrum” (cf. São Paulo, “Carta aos Romananos, 12,1). “Todo poder que vem de Deus é um poder regrado”, “omnia potestata a Deo ordinata est” (cf. Rom 13,1). Pois é assim que cumpre entender essas palavras, conforme à reta razão e ao sentido literal, e não de conformidade com a interpretação da baixeza e da lisonja, que pretendem que todo poder, qualquer que seja ele, vem de Deus”.

Na seqüência, Diderot ilustra a tese, lembrando “o poder do Anticristo será ele legítimo? Este será, no entanto, um grande poder”. E repete: “todo poder vem de Deus” e “cessa de sê-lo desde que sai dos limites que a razão lhe prescreveu, e que se desvia das regras” postas por Deus na razão. Se o poder é irracional e fere o bem comum vem da Besta. O termo “Besta”, no livro “O Apocalipse”, da Bíblia, de São João Evangelista, significa um Estado com grande poder político que agiria contra as pessoas. O mal é a ausência do bem. Logo, a lição de São João Evangelista é que o Estado deve ser cristão, ou seja, natural, deve servir ao povo, à felicidade do povo, para ajudar o povo. Esta é a lição católica sobre o poder político, sobre o Estado, os governantes. Devem ser servos do povo, servirem ao povo. 

Diderot repetia e reprisava o ensinamento de Santo Tomás de Aquino, que ensinava que o direito natural é o conjunto das regras racionais (idéias práticas nascidas do diálogo) para o bem comum, que deve pautar o poder, para a realização do bem comum. Diderot sintetizava a doutrina da Igreja, dizendo: “todo poder é de Deus somente na medida em que é justo e regrado” (texto colhido do livro “Diderot”, obras coletadas por J. Guinsburg, São Paulo, Ed. Perspectiva, 2000, p. 257).

Diderot terminou a vida como “panteísta” (na verdade, panenteísta), tendo forte crença em Deus, como discípulo de Sêneca, que foi um estóico praticamente cristão. Sêneca era tão estimado pelos Santos Padres que era considerado cristão. De fato, Nero matou São Pedro, São Paulo e Sêneca, praticamente juntos. Derramaram o sangue para ensinarem que o Estado deve servir ao povo, e não ser uma ditadura, uma tirania, uma oligarquia, um poder ligado aos ricos, contra os pobres, contra o povo. 

Voltaire foi mais feliz, pois terminou a vida reconciliando-se com a Igreja.

A “Enciclopédia” era um verdadeiro tratado de direito natural católico, tendo em geral o assentimento da Igreja, a autorização para imprimir da Igreja. Ao iniciar o projeto da “Enciclopédia”, em 1751, durante o pontificado do grande Bento XIV (um dos maiores papas da história, da estatura de João XXIII), teve o apoio da Igreja e a autorização da Sorbonne, ligada à Igreja. Somente em 1759, iniciam os atritos, devido a alguns e poucos verbetes e outras razões complexas para serem expostas nesta postagem.

Centenas de verbetes, da “Enciclopédia”, no entanto, foram redigidos por padres católicos. O próprio Barnabé Chiaramonti (mais tarde, Pio VII), quando era jovem, foi um dos redatores. Pio VII, mais tarde, fez um elogio da democracia e assinou a Concordata com Napoleão, em 15.07.1801, reconciliando a Igreja com as estruturas estatais nascidas da Revolução Francesa. O Papa Bento XIV foi elogiado várias vezes por Voltaire, que se correspondia com este Papa. Bento XIV escreveu ótima obra sobre os milagres, a santificação, a paranormalidade, poderes psíquicos naturais da alma humana, o poder da sugestão etc. 

Abades como Mallet, Yvon, Pestré, De la Chapelle e outros redigiram toda a parte da “Enciclopédia” sobre teologia, moral e boa parte dos verbetes sobre filosofia (lógica, metafísica e moral). Quase todos os colaboradores da “Enciclopédia” tinham religiosidade. Isto fica claro como o sol, nos textos de homens como Rousseau, Buffon, Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783) e outros.

Na mesma linha, não se deve esquecer, vale a pena repetir, que Diderot passou por várias fases, da religiosa até terminar numa linha estóica-eclética, inspirado por Sêneca, bem próximo do cristianismo, talvez esposando uma forma de panteísmo que, no final das contas, é uma forma de teísmo. Goethe e Diderot, tudo indica, terminaram a vida como panteístas (a meu ver, como panenteístas, vendo Deus no universo, a imanência e a transcendência divina existem, estando Deus no universo e sendo Deus algo mais que o universo), e o mesmo ocorreu com o poeta Percy Bysshe Shelley (1792-1822), estando todos ligados ao platonismo médio e o estoicismo (esta mistura é a base fundamental da filosofia cristã, frise-se).

João Pedro Stédile, a maior voz da agricultura campesina no Brasil. Grande cara

Por João Pedro Stedile *

 Articulações Internacionais.

O Papa Francisco tem se revelado um líder religioso com alcance politico, que esta refletindo sobre os verdadeiros dilemas que afetam a humanidade e seu futuro. Por isso, hoje é uma referência para todas as forças populares, independentes da fé ou a religião. Suas reflexões e alertas sempre são muito corajosos e colocam os governos contra a parede. No assunto das armas, por exemplo, nos alegra que tenha se “tocado na ferida”, pois a Europa é quem produz mais armas, inclusive gases letais utilizados nas guerras regionais do Oriente Médio. No entanto, os governos europeus não assumem sua responsabilidade nem sequer com asconsequências mais próximas como a migração das multidões doOriente e da África para seu território, como resultado das guerras.

No tema do meio ambiente Francisco nos presenteou comuma Encíclica maravilhosa, que é a mais importante reflexão critica sob o assunto, nem mesmo a tradição de pensamentomarxista tinha construído. Devemos transformar a Encíclica num instrumento didático de educação para as bases, sobre a natureza, as causas e as saídas para os problemas ambientais.

Em nossas metodologias dos Encontros Mundiais de Movimentos Populares em diálogo com o Papa, temos construído agendas pontuais para cada encontro. No último, focamos no temados refugiados, do meio ambiente e da hipocrisia da democracia burguesa, já que o voto popular decide muito pouco nos processos eleitorais, que são sequestrados pelo capital.Tenho entendido que esses assuntos ainda estão na mesa, pois não conseguimos aprofundar o suficiente no ultimo encontro, portanto devemos seguir trabalhando essa linha.

Sobre os assuntos dos refugiados, migrantes e o direito àcidadania universal que cada pessoa teria de circular livremente em nosso continente, precisamente, Evo Morales acabou de realizar um encontro internacional na Bolívia, para coletar opiniões que pretendem levar como proposta as Nações Unidas, para que podamos num futuro ter um mesmo passaporte.

O tema mais grave é o que trata da falência do Estado burguês que foi gestado pela revolução francesa em 1789 e que representava uma proposta da burguesia industrial para regular as relações sociais. Agora, a burguesia financeira e internacional não tem interesse nesse Estado, passa por cima dele. Então as forças populares devem pensar, debater e construir um novo tipo de Estado, e uma nova forma de participação democrática, popular. Mas, estamos no meio da crise e ainda não estão claros os caminhos e as construções possíveis. Mas teremos muitas mudanças pra frente…

Espero que a próxima Conferência Internacional da Via Campesina, a ser realizada em julho no País Basco, se dedique a analisar quais ações devemos adotar de forma conjunta em todo o mundo, entre as organizações campesinas, para confrontar esse desafio enquanto temos tempo.

Por outro lado, em novembro próximo, em Caracas, teremos a Assembleia Internacional de Movimentos e Organizações Populares que é parte de um processo de construção coletiva que vem de anos atrás. Na América Latina e no Caribe, esse processo tomou forma no final dos anos 1980 com a “Campanha 500 Anos de Resistencia Indígena, Negra e Popular”, logo depois, com a “Campanha contra a ALCA” e mais tarde com a construção da “Articulação dos Movimentos da ALBA”. Mas também temos impulsado processos similares na África, no Mundo Árabe e na Ásia.

Logo, como parte de um processo permanente de articulação internacional, precisamente para enfrentar a crise do capitalismo a partir dos movimentos populares, estamos construindo esses processos. Não são datas ou eventos, são processos permanentes, nos quais podemos nos identificar com propostas e programas, criar confiança politica e identidade comum e assim avançar.

Oxalá se realize o sonho de Marx, com sua Associação Internacional de Trabalhadores, o sonho de Martí, Che e Fidel, que geraram a OSPAAAL, como uma articulação do Terceiro Mundo frente ao imperialismo na década de 1960. Agora, o que resta àsforças populares é seguirem adiante, com generosidade, pluralidade, evitando os protagonismos, vedetismos pessoais e falsos hegemonismos.

*João Pedro Stedile é membro da Coordenação Nacional do MST e da Via Campesina Brasil. Integrante do Conselho de ALAI
Publicado dia 07/07/17 Alainet
Traduzido por ALBA Movimientos Brasil

Maquiavel foi pensador católico, cometeu erros, mas deixou também excelentes ensinamentos corretos

O próprio Nicolau Maquiavel (1469-1527), com todos seus erros, manteve sua religiosidade até o final da vida. Isto fica claro no livro de Roberto Ridolfi, “Maquiavel” (São Paulo, Musa Editora Ltda, 1999). Por isso, num momento em que suas idéias cristãs falaram mais alto que suas idéias maquiavélicas, em sua obra principal, “Discursos sobre as Décadas de Tito Lívio” (III), Maquiavel escreveu frases dentro da grande tradição cristã:

“não sem motivo se compara a voz de um povo à voz de Deus, porque se vê uma opinião universal [comum a todos] fazer efeitos maravilhosos nos seus prognósticos” [e]

“são melhores governos os dos povos que os dos príncipes… E se os príncipes são superiores aos povos no ordenar as leis, provocar vidas de civismo, ter a iniciativa da legislação, os povos são superiores em manter as coisas ordenadas que eles acrescentam à glória dos que as ordenam”.

Mesmo no livro “O príncipe” há idéias cristãs. Este fundo fica patente no capítulo XXVI do livro “O príncipe” (São Paulo, Ed. Martin Claret, 2004, pp. 152-154), com o título “Exortação à libertação da Itália, dominada pelos bárbaros”.

Maquiavel exortou o povo, como sujeito histórico e político, a constituir “uma nova forma de governo” que “beneficiasse o povo”. Lembrou o exemplo do povo de Israel e a libertação do poder do Egito e ressaltou que a ação de Deus, no mundo, ocorre pela mediação do exercício “do livre-arbítrio”, “a parte de glória que nos cabe”, ensinando também que parte das decisões de nossas vidas são devidas à liberdade e a bondade, e parte à fortuna, ao acaso, às circunstâncias. Disse que “a Itália, depois de tanto tempo, precisa encontrar seu libertador”, pois “o odor ácido do domínio bárbaro penetra por todas as narinas”. Sob a “bandeira” deste libertador, “nossa pátria” voltará “a se levantar”, confiando, como Petrarca, “no coração dos italianos”.

O ponto central e tradicional é que a Itália (e o mesmo vale para as outras nações, como viu Moses Hess e outros) é considerada uma pessoa moral, formada pelos italianos e tem, para Maquiavel (ecoando a teoria política da Paidéia e do catolicismo), o direito natural à autonomia, como nação. O princípio da nacionalidade, que nasce do princípio da democracia, está claro nas entranhas cristãs mesmo desta obra com tantos erros “maquiavélicos”. Todas as 230 ou 240 nações devem ser livres, claro que no bojo de um grande Estado mundial, federalista, descentralizado, democrático, que respeita as instâncias menores. 

Conclusão: Maquiavel estava certo ao ensinar que o Estado é algo natural e que a política tem relativa autonomia em relação à ética e à religião. Errou, no entanto, ao exagerar esta autonomia e ao defender, em alguns textos, regras políticas imorais. O que se convencionou chamar de “maquiavelismo”, e que foi condenado pelo Vaticano (pouco depois da publicação do livro de Maquiavel), é a cisão entre política e ética, entre o Estado e a ética. Pedro Ribaneira, discípulo direto de Santo Inácio de Loyola, escreveu um livro especificamente contra estes erros de Maquiavel e o livro expressou o juízo dos Jesuítas e da Igreja, contra as idéias erradas do “maquiavelismo”.

A principal causa da perseguição à Igreja é a Doutrina social da Igreja, que busca o bem comum

A principal razão da perseguição a Cristo e aos cristãos é a doutrina social do cristianismo, defensora da teoria do primado do bem comum, da destinação universal dos bens, da titularidade do povo do poder político e do poder econômico.

Afinal, o cristianismo ensina que o povo é o titular natural do poder político e tem também o domínio eminente sobre os bens materais, sendo, assim, o titular e o destinatário natural dos bens da criação. A destinação universal dos bens inclui a destinação universal do poder, pois o poder público, em si mesmo, é um bem, é algo natural. A sociedade foi feita por Deus para ter uma organização pública, uma organização baseada no diálogo, pois o Diálogo é a forma natural do movimento do próprio Deus e do Céu.

Marx, Engels, Lenin, Rosa de Luxemburgo, Karl Kautsky (1854-1938) e outros expoentes do marxismo reconheceram que o cristianismo primitivo busca tornar comuns (universais, disponíveis a todos) os bens e que era democrático (cf. Lenin, no livro “O Estado e a revolução”), ou seja, queria um poder popular e bem comum, mediania, distribuição dos bens para todos, por economia mista e sob controle social. Há o mesmo ensinamento em Weitling, em Pedro Leroux, em Victor Considerant, em Victor Hugo, em Renan, em Saint-Simon e nos sansimonistas.

A doutrina social da Igreja é apologista da economia mista, distributista, social, popular

Teorias como a dos preços justos (com origem bíblica, patrística e medieval) mostram que a doutrina da Igreja admite e recomenda o poder e o dever do Estado de planejar; controlar os preços; proibir os juros (leis contra a usura, contra a mais valia); leis contra o luxo (contra o ter em excesso e o uso irracional, o luxo, basta pensar nas leis suntuárias, contra o supérfluo e a má utilização dos bens); fixação legal dos salários, da remuneração do trabalho; melhoria legal das condições de trabalho; proibição dos monopólios particulares (como queria Barbosa Lima Sobrinho, um grande católico nacionalista); a condenação dos latifúndios etc. No fundo, a doutrina da Igreja exige que a sociedade, por meio de leis e regras jurídica, se autodetermine, ou seja, regulamente e planeje a economia e sua vida, em geral.

Os textos de um Galbraith sobre o controle dos preços ficam bem aquém (são como caldo ralo e aguado) dos textos de um padre Luis Molina, por exemplo. A interpenetração entre os dois ramos do Direito ocorre principalmente por conta da mudança da relação entre a economia e o Estado e da ampliação do papel ativo e dirigente do Estado na economia (as relações de produção, circulação e consumo). No fundo, trata-se da ação da sociedade, que age por meio do Estado, por isso, o Estado deve ser controlado pela sociedade organizada.

A ampliação do papel do Estado na economia foi sempre recomendada por juristas ligados à Igreja. Um bom exemplo é Dalmo de Abreu Dallari, que escreveu, no livro “O renascer do Direito” (São Paulo, editor José Bushatsky, 1976, p. 174): “um dado comum a todas as experiências é a publicização das atividades sociais, que leva, necessariamente, à publicização do próprio direito”, “em lugar de ser um processo de anulação dos valores individuais, é, precisamente, um meio de fazer com que a organização social atue mais eficazmente a serviço do indivíduo, mas de todos os indivíduos”. Há a mesma lição nos grandes civilistas católicos da França, da Itália, da Espanha etc. 

Neste texto, Dalmo Dallari (tal como seu filho, Pedro Dallari) defendia um sistema misto de parlamentarismo-presidencialista, no que seguia os modelos da França, Itália e Alemanha. Este sistema possibilitaria uma atuação mais eficaz do Estado na planificação da economia e o controle do Executivo pelo povo, mediante o Parlamento e formas diretas de democracia. Dalmo defendia uma economia mista, distributista, planificada, sem monopólios privados e grandes fortunas, sem latifúndios etc.

Dalmo foi sequestrado em julho de 1980 por grupos para-militares e espancado, o que atesta sua importância e como a ditadura militar o temia. Seus textos jurídicos são opiniões católicas (e cidadãs), pois são inspirados na ética (na razão), tal como eram os textos de um Graham Greene ou de um François Mauriac (ver “Palavras católicas”). São grandes escritores no prisma natural e, assim, no prisma religioso. Mauriac (1885-1970) combateu o franquismo, participou da Resistência Francesa e apoiou a causa da libertação da Argélia. Greene apoiou lutas pela libertação na América Latina.

Elogio de Paulo Schilling, grande militante

Colhi no site do MST, um grande elogio a Paulo Schilling – “Faleceu nesta quinta-feira, dia 26 de janeiro de 2012, aos 86 anos, às 21h05, em São Paulo, o político, jornalista e escritor Paulo Schilling. Ele deixa viúva, quatro filhas e dois netos. O corpo será cremado no Crematório da Vila Alpina.

Gaúcho de Rio Pardo, Paulo Schilling foi assessor do governador gaúcho Leonel Brizola. Foi também secretário-executivo da Frente de Mobilização Popular (de apoio ao presidente João Goulart) até 1964, acumulando com a direção do jornal “Panfleto”. Exilado por 16 anos entre Uruguai e Argentina, trabalhou em jornais locais – como o uruguaio “Marcha” –, em agências de notícias (como a Prensa Latina) e em editoras de livros.

Com a anistia, Paulo voltou ao Brasil em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e colaborou com a Secretaria de Relações Internacionais do partido. Desde a fundação, colaborou também com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), na escola de formação de quadros, em Cajamar. Colaborou aindEa com o CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação).

O MST o considera um dos seus pioneiros, já que organizou em 1960, no Rio Grande do Sul, o Master (Movimento dos Agricultores Sem Terra). Paulo também foi incentivador do cooperativismo no Sul, ajudando a fundar a Fecotrigo, uma das maiores cooperativas de produção do país.

“Paulo Schilling foi um dos fundadores do Master na década de 60. Era grande amigo do MST. Foi um dos grandes defensores da Reforma Agrária em todo a sua vida”, afirmou João Pedro Stedile, da Direção Nacional do MST.

Schilling escreveu 32 livros sobre a América Latina, além de diversos ensaios e centenas de reportagens – grande parte redigida no exílio. Um dos livros mais conhecidos nesta época é “Como a direita se coloca no poder”, editado no Brasil pela Global, em 1979

Regis Debray – o socialismo nasceu cristão. Marx aprendeu com o socialismo cristão pré-marxista

Régis Debray teve o mérito de militar ao lado de Che Guevara e, por isso, passou vários anos encarcerado. Anos depois, Debray escreveu o livro “Deus, um itinerário” (São Paulo, Companhia das Letras – Editora Schwarcz LTDA, p. 328), onde constatou a identificação de Cristo com os pobres e os trabalhadores:

“Todo humilhado pode identificar-se com ele, desempregado, poeta maldito, Jean Valjean ou o conde de Monte-Cristo. O socialismo, que foi cristão antes de ser marxista, valeu-se dele. A Revolução de 1848, que pôs a fraternidade no pináculo, colocou-se sob a égide de Jesus, que diretamente inspirou a república universal, democrática e social, por ele abençoada nas ilustrações da época, escoltado por seus anjos”.

Debray constatou que o “socialismo” “foi cristão antes de ser marxista” e que o cristianismo inspirou as idéias de “república universal, democrática e social”, na “Revolução de 1848”. O mesmo fato foi registrado nos textos de João XXIII, Alceu, Dom Hélder e Frei Betto.

Os católicos tiveram ampla e boa participação na Revolução de 1848, nos países onde esta ocorreu inclusive no Brasil. A Revolução Praieira teve cores socialistas, as cores do socialismo cristão, como provam os textos de Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil. Foi um movimento de superação da democracia liberal, em prol de uma democracia social, participativa e popular.

Conclusão: a idéia de uma república popular, social, universal descentralizada é profundamente cristã. Estas raízes cristãs estão presentes inclusive nos melhores textos da maçonaria, com base em suas fontes cristãs e religiosas. Afinal, as verdades salvíficas e naturais, nascidas da razão e ampliadas pela fé, são a base do diálogo e do progresso social e ético, das pessoas e dos povos.

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