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As raízes semitas do estoicismo, o que explica a razão do catolicismo e do judaísmo terem acolhido boa parte do estoicismo

O estoicismo nasceu em áreas de cultura semita e fenícia, com base na cultura fenícia-semita. O fundador do estoicismo, Zenão, nasceu em Chipre, terra totalmente influenciada pelos fenícios e judeus, bem perto de Tarso, a cidade natal de São Paulo.

Este ponto foi bem demonstrado pelo padre Eleutério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, vol. I, pp. 25-32). O estoicismo desenvolveu-se, desde as origens, com base em homens banhados pela cultura fenícia-semita, existente na Fenícia (ao lado da Judéia).

Nasceu em lugares banhados pela cultura fenícia e hebraica (tendo grandes colônias hebraicas), como o Chipre, Tarso, Síria e em várias áreas da Palestina e da Mesopotâmia. Todas estas áreas eram banhadas pelas idéias semitas, presentes nas idéias persas, fenícias, assírias e outras.

Houve também influência semita (hebraica) clara nos textos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (e os três foram influenciados pelo cristianismo, pois mencionam os “galileus”, os cristãos). O mesmo ocorre com Tácito, Galeno, Plutarco, Plotino e outros autores.

Os principais estoicos são homens nascidos na região de Tarso e de Chipre. Esta região tinha tantos judeus que, em 117, estes atacaram os romanos, participando da guerra judaica, contra os romanos. Outros estoicos eram da Síria, da Fenícia, região banhada pelas idéias hebraicas e semitas, presentes na cultura Cananeia-fenícia. Uma prova disso é o o fato do nome principal de Deus, na cultura fenícia, ser “El”, como é na Bíblia.

O nome principal da divindade, na Bíblia, é “El” e isso permanece mesmo quando o culto a Baal prepondera, em conflito com “El”, mas sendo afirmado que Baal nasce de “El” (ver, a propósito, os conflitos de Elias com os sacerdotes de Baal).

Seria possível citar mais de vinte grandes estoicos de origem na cultura semita. Basta, para ilustrar, citar Zenão de Chipre (o fundador do estoicismo), Crisipo (o principal formulador do estoicismo) e mesmo Posidônio, que nasceu na Síria. A região entre Jerusalém e a Síria deu origem também a autores como Porfírio, que nasceu em Tiro, cidade fenícia, ligada culturalmente aos hebreus. A Cilícia era tanto ligada aos hebreus que Polemon II, rei da Cilícia, casou-se com Berenice, irmã de Herodes Agripa II.

Outros grandes estoicos tem origem na Espanha, terra colonizada primeiro pelos fenícios, totalmente influenciada pela cultura fenícia-semita, inclusive por judeus. Os fenícios estavam presente na Grécia, também, pois o alfabeto grego é o alfabeto fenício e Tebas (a cidade base das grandes peças de teatro gregas) é uma colônia fenícia, foi fundada pelos fenícios. Os fenícios também participaram do surgimento da democracia na Grécia, derrotando o tirano que escravizava Atenas e a tornando uma democracia.

Os fenícios também estavam presentes na Lídia, em Sardes, onde também existiam judeus. Fenícios e judeus estavam presentes no Império assírio, babilônico, persa etc. Mesmo Homero, na “Ilíada”, menciona os fenícios, como grandes navegantes. 

Tarso era uma das maiores cidades do mundo, tendo mais de 500.000 habitantes, na época de Cristo. Tarso, Pérgamo e Antioquia, juntas, faziam bom contraponto a Alexandria e a Roma, deixando para trás cidades como Corinto e Éfeso, que eram enormes também.

Xenofonte passou por Tarso, lá por 401 a.C., com os dez mil gregos, citados na “Anabase”. Tarso é mencionada com Tarsis, em Gn 10,4; tal como em 2 Macabeus 4,30-36. Tarso era protegida por Augusto, pois era a terra natal de Atenodoro, um estóico, professor de Augusto. Augusto mantinha relações de amizade com Herodes, que tinha escritores como Nicolau de Damasco (n. em 64 a.C.), um filósofo e um historiador, autor de uma História universal de 144 livros e de uma biografia de Augusto. Josefo utilizou vários textos de Nicolau de Damasco.

Theodore Reinach (1860-1928) escreveu um livro chamado “Textos de autores gregos e romanos relativos ao judaísmo” mostrando as ligações antigas entre o judaísmo e a filosofia grega, especialmente o estoicismo. Theodore era irmão de Solomon (arqueólogo e historiador) e de Joseph Reinach, o chefe de Gabinete de Gambetta. Theodore dirigiu, por anos, a “Revista de Estudos Gregos”. Seus estudos mostram a mesma tese dos Santos Padres: o pensamento judaico influenciou o pensamento grego e romano, por dentro, auxiliando a luz natural da razão a gerar ideias bem próximas do cristianismo, preparando o surgimento do cristianismo.

No mundo judaico, o cristianismo foi, no prisma humano, a continuidade do movimento dos fariseus (“perushim”). Estes já estavam realizando sínteses com a Paidéia, adotando um ecletismo filosófico que juntava as idéias estóicas, platônicas etc e o mesmo ocorria com os essênios.

Os fariseus são a base dos essênios e dos zelotes, pois essênios e zelotes são variações do movimento fariseu. O helenismo e as idéias hebraicas já estavam em diálogo intenso antes do helenismo e, principalmente, depois.

No mundo judaico, uma parte dos sábios passou a adotar nomes gregos no século III a.C., tal como antes adotara nomes egípcios, babilônicos e persas. Antígnos de Sochos é tido como o primeiro a adotar um nome grego e dois de seus discípulos, Tsadoc e Betus, romperam com a Torah oral (“Lei oral”, defendida pelos fariseus e pelos católicos) e adotaram o hedonismo, as idéias de Epicuro (foram chamados de “epikaros”, de epicureus).

Segundo o Talmud, Tsadoc e Betus foram os fundadores das seitas dos saduceus e dos betusianos. No caso dos saduceus, houve erros, pois rejeitaram o substrato estoico contido na crença dos fariseus. Os fariseus eram a seita mais próxima do cristianismo, ponto que Cristo destacou. 

O Talmud chama a pessoa que ataca a fé de “o epicurista”. Só este fato já demonstra bem o elogio fariseu das idéias estóicas no Talmud. Flávio Josefo chamava os fariseus de “os estoicos hebreus”. 

Os rabinos, tradicionalmente, chamam de “apiqoros” (epicureus) as pessoas que negavam a vida após a morte. Também usaram o termo “apiqoros” para designar os pagãos. Esta crítica rabínica aos epicureus é outro sinal claro do amor judaico ao estoicismo, de fundo semita, também.

Conclusão – a filosofia cristã e hebraica é formada de uma síntese do melhor da Paideia com o melhor do Tradição hebraica, sendo uma síntese eclética, unindo os melhores textos dos órficos, dos pitagóricos, do platônicos, dos aristotélicos e dos estoicos e, depois, do hermetismo. O mesmo vale para o pensamento muçulmano, como pode ser visto nos melhores textos da comunidade muçulmana no Cairo.

No fundo, é praticamente o credo da última fase de Diderot, que morreu panteísta e adepto de Seneca, estoico. 

O nacionalismo de Gamal Abdel Nasser. Economia mista

Tenho enorme apreço por Gamal Abdel Nasser. Claro que acho que ele deveria ter feito uma aliança com os trabalhistas de Israel, para assegurar a criação pacífica do Estado da Palestina, em vez de adotar guerras. Mas, o que me faz apreciar Nasser está no seu livro, “A Revolução no mundo árabe” (São Paulo, Ed. Edarli, 1963), que une os livros “A filosofia da revolução” e “O povo no poder”. 

Na página 191, Nasser destaca que o Estado do Egito e da Síria, a RAU, deveria ter os grandes meios de produção, mas não a estatização geral da economia, e sim apenas dos grandes meios de produção. A mesma fórmula de Pio XI, na “Quadragesimo anno”, de 1931. 

Nasser queria desenvolver “um setor público” que orientasse “o progresso em todos os domínios”, tal como um “Plano do desenvolvimento”. O “setor privado” deveria existir “sem exploração”, participando “do desenvolvimento, dentro do plano geral”. O Estado deveria ter “as estradas de ferro, estradas de rodagem, portos, aeroportos, energia elétrica, represas, transportes por mar, terra e ar” (os grandes meios de transporte), “e outras obras públicas”, tal como “os bancos”, minas, o controle do “comércio externo” etc. A mesma fórmula de Getúlio, de Perón, de Cárdenas, Nehru, Sukarno, dos sandinistas e outros. A mesma fórmula apoiada pelo Padre Cícero, que elogiava, no final da vida, os sandinistas.

Na agricultura, Nasser distinguia “a propriedade exploradora” (latifundiária) e a “não exploradora” (camponesa). Queria uma “Reforma agrária”, limitando a propriedade particular a “cem feddans”. Queria que o Estado criasse “taxas progressivas de prédios urbanos” (IPTU progressivo) e controle dos aluguéis, com uma política habitacional que assegurasse a todos moradia. 

Estas ideias são sempre atuais. No fundo, é o mesmo modelo bíblico, do Evangelho e de Moisés, do trabalhismo, de Platão nas “Leis”, de Aristóteles, dos estoicos, dos budistas, dos confucianos, do melhor do hinduísmo, do catolicismo, do luteranismo, do melhor do anglicanismo etc. São ideias bem próximas do “New Deal”, de Roosevelt, do socialismo democrático, da democracia popular, do nacionalismo etc. 

Karl Mannheim, um bom judeu socialista democrático, unindo planificação e liberdade, economia mista

Karl Mannheim (1893 a 1947) escreveu o livro “Liberdade, poder e planificação democrática”, publicado após sua morte, em 1950. Defendeu que uma boa sociedade não deve ter extremos de riqueza e pobre, deve ser baseada na mediania, ponto em que concordo, sendo esta a tese bíblica, platônica, aristotélica e estoica. Defendeu a intervenção estatal na economia, economia mista, planificação, regras, padrões públicos para ordenar a economia, para garantir prosperidade para todos. 

Defendeu uma economia mista, ficando certas indústrias básicas sob o controle do Estado, como minas, energia, transporte de massa e maciço, trustes etc. Ele queria isso por reformas pacíficas. Gostava da religião como impulsionadora de reformas e força em prol do bem comum. 

No livro “Ideologia e utopia”, ataca o relativismo, mas explica que uma sociedade só se rege bem com todas as opiniões da mesma, formando boas sínteses.

Esta opinião coincide com a posição histórica de muitos judeus, inclusive antigos sionistas socialistas e do Bund, em prol de reformas pacíficas, economia mista, Estado social, democracia popular etc. Opiniões bem próximas da doutrina social da Igreja. Também coincide com as ideias de pensadores como Ota Sik, da antiga Tchecoslováquia, tendo sido inclusive Primeiro Ministro. Também eram ideias de vários países de economia mista, como Índia, Indonésia, México, Burma, Países Árabes, Egito, Síria, Brasil, Argentina etc. Pensadores como Roger Garaudy também estão nesta linha, em livros como “A alternativa”. 

Um texto genial de Hobson, mostrando a influência asiática nas repúblicas italianas e como o Estado deve intervir na economia

John A. Hobson, no livro “A evolução do capitalismo moderno” (São Paulo, Ed. Nova Cultural, 1996, p. 34), mostra a influência das antigas civilizações semitas asiáticas, de onde nasceu o cristianismo, mesmo séculos depois. Como estes berços culturais da humanidade influenciaram o desenvolvimento econômico na Europa, com o surgimento das repúblicas italianas, que Sismondi elogiou e que foram profundamente influenciadas pela Igreja, para desenvolver a economia na Europa. Vejamos o texto de Hobson:

“As repúblicas italianas foram as primeiras a tomar esse trabalho em suas mãos. Quando as Cruzadas chegaram a seu fim, elas estavam com o controle virtual de numerosas cidades da Síria, Palestina, mar Egeu e mar Negro. A partir do início do século XII, Gênova, Piza e Veneza cravaram suas garras econômicas nas cidades de Asov, Cesária, Acre, Sídon, Tiro etc. Com o desmoronamento do Império do Oriente, Veneza se transformou num vasto poder colonial, pois nada menos que 3/8 desse império caíram sob sua influência exclusiva; enquanto isso, Gênova, sua rival, também adquiria grandes possessões nas ilhas jônicas e no continente.

A Ásia Menor e as ilhas do mar Egeu possuíam ricos recursos naturais e grandes populações civilizadas, herdeiras de ofícios artesanais qualificados, até então desconhecidos do mundo ocidental. As cidades italianas não pretenderam colonizar esse vasto império — no sentido moderno da palavra colonizar — mas estabeleceram centros comerciais nas principais cidades e cobraram ricos tributos pelas manufaturas. Elas fundaram uma florescente indústria de seda em Antioquia, Trípoli e Tiro; de algodão, na Armênia; de vidro e cerâmica, na Síria; e empreenderam importantes trabalhos de mineração na Fócia e em outras partes.

Seu modo de exploração parece ter sido uma adaptação do sistema feudal, mediante o qual, como dominadores, reservaram para si grande parte, geralmente 1/3 do produto total do solo, das minas e da indústria. Essa forma de enfeudação, introduzida mais tarde pelos espanhóis na América, sob a denominação de Encomiendas, já existia há muito tempo nessas colônias italianas do Levante. Mais tarde, a forma feudal desapareceu, dando lugar ao poder de companhias privilegiadas que exerciam um monopólio em nome do rei ou do Estado”. 

Minha conclusão: assim, o Estado, a presença estatal, inclusive nas Repúblicas italianas do início do século XII, foi essencial para gerar o desenvolvimento econômico. 

As escritas semitas e a influência semita, benigna, no mundo

Colhi de um bom site – “Segundo Chomsky (1958, p. 35), o cananeu foi adotado por Abraão e sua tribo, modificado e desenvolvido até se tornar o hebraico: “E os cananeus estavam morando na terra” (Gn 12:6). A língua de Canaã era muito avançada, e os filhos de Israel, ao conquistarem Canaã, aprenderam a língua dos conquistados, que mantiveram sua língua natal. Ainda existiriam exemplos de hebraico puro, sem influências do aramaico, como em Êxodo 15 (Canto de Moisés) e em Juízes 5 (Canto de Débora) (Figura 7).

Ugarítico: O alfabeto ugarítico se parece com o acadiano, mas os sinais individuais são diferentes. O cuneiforme de Ugarit é o único exemplo de alfabeto cuneiforme suficientemente conhecido, e desapareceu quando Ugarit foi destruída pelos Povos do Mar, por volta de 1200 A.E.C. Era escrito da esquerda para a direita, como o grego e o latim, segundo Healey (1996, p. 263- 264). O alfabeto cuneiforme ugarítico está registrado nas tábuas de argila de Ugarit, a moderna Ras-Shamra, na costa da Síria, datadas em cerca de 1400- 1200 A.E.C., e muitas possuem escrita cuneiforme silábica, enquanto outras possuem uma escrita semítica ocidental. As tabuinhas continham registros de mitos, rituais e documentos administrativos, e uma delas continha uma lista das letras”.

Mesmo a escrita proto-cananéia do Sinai pode ser dos povos semitas dentre os hicsos (ligados aos hititas), que habitaram o Egito. A escrita era silábica, base da escrita suméria, da escrita acádica, depois do complexo caananita, aramaica, hebraica, fenícia etc. 

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