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Um elogio de Feuerbach a São Tomás de Aquino, ao tomismo, a doutrina social da Igreja

Ludwig Feuerbach (1804-1872), discípulo de Spinoza e um dos mestres de Marx (influenciando bastante no início), em seu livro “A essência do cristianismo” (Campinas, Ed. Papirus, 1988, p. 193), ressaltava a ligação da doutrina da Igreja com o melhor do pensamento antigo, da Paídéia (“os antigos”):

“Os cristãos, de fato, “sacrificavam” o “indivíduo”, isto é, aqui o indivíduo enquanto parte, ao todo, ao gênero, à comunidade. A parte, diz Santo Tomás de Aquino, o maior pensador e teólogo cristão, sacrifica-se a si mesma, por um instinto natural, para a conservação do todo. “Toda parte, por natureza, ama mais o todo do que a si mesma. E todo indivíduo por natureza ama mais o bem do seu gênero do que o seu bem individual. por isso, todo ser naturalmente ama mais a Deus, o bem universal, do que a si mesmo (“Summae P. I., q. 60, art. V). Portanto, neste sentido os cristãos pensam como os antigos. Tomás louva os romanos (de “Regim. Princ.”, liv. III, c. 4) pelo fato deles terem colocado a sua pátria acima de tudo e de terem sacrificado o próprio bem-estar ao bem-estar dela”.

O texto de Feurbach resume mesmo parte da doutrina social da Igreja.

Os cristãos pensam como os melhores dos antigos. A idéia de “justiça” (de bem comum, que é o objeto desta virtude cardeal) está nos textos de Homero, de Hesíodo, nos poetas e trágicos gregos, tal como nos textos dos filósofos (Xenófanes, Heráclito), historiadores e no pensamento filosófico-religioso. Destas fontes, migrou para o ensino de Sócrates, de Platão (o livro “Protágoras”, “República” e especialmente “As leis”), sendo mais detalhado nos textos de Aristóteles e dos estóicos. Há praticamente as mesmas ideias nas fontes semitas. 

O ideal da justiça é o ideal da razão pautando a vida pessoal e social, sendo esta a essência do conceito de virtude (“Arete”). O elogio da razão era também o ideal de Isócrates (436-338 a.C.), do “logos”, um orador aluno de Sócrates, que redigiu obras como “Contra os sofistas” (390 a.C.), “Panegírico” (380 a.C.) e “Nicoles”. Também era o ideal de Paidéia de Demóstenes. Demóstenes e Isócrates discordavam sobre o que fazer perante o poder de Filipe, pai de Alexandre, mas concordavam no mesmo ideal civilizatório, do poder do “logos”, da razão.

As idéias persas-semitas, do mazdéismo, também influenciaram Pitágoras, pois seu professor foi Ferécides, um fenício (como Tales de Mileto), nascido em Tiro. O mesmo ocorreu nas doze cidades asiáticas, onde teve início a filosofia grega, cidades como Éfeso e outras. 

Segundo Diógenes Laércio, Ferécides (de origem fenícia) foi “o primeiro grego que escreveu sobre a alma e os deuses” e atribuem a este filósofo várias predições (profecias), o que mostra a influência oriental, semita, talvez hebraica. Ferécides ensinava que “naõ se deve honrar o ouro e a prata”. Diógenes transcreve uma carta de Ferécides a Tales, enviando a este suas obras, antes de morrer. Uma carta entre dois gregos de origem fenícios. O pitagorismo tem influência do orfismo e do mazdéismo, correntes ligadas à cultura semita.

Os próprios gregos atribuem o alfabeto grego ao alfabeto fenício.

Cadmos, um fenício, fundador de Tebas na Beócia, teria trazido o alfabeto fenício. Tales seria um descendente de Cadmos. Diógenes Laércio diz que “muitos” consideravam Tales como “o primeiro que defendeu a imortalidade da alma” e estudos os astros (indício da influência da cultura suméria, persa e fenícia). Pitágoras influenciou Platão através de Filolau e de outros pitagóricos, cujas obras foram compradas por Platão, como consta em todas as biografias de Platão.

Como explicou Heródoto, toda a religiosidade grega vem do Egito e do oriente (influência semita, persa, fenícia etc) e a religiosidade grega é a base da filosofia da Paidéia, como fica claro nos textos de Tales, Ferecides, Xenófanes, Heráclito, Anaxágoras, Pitágoras, Sófocles, Sócrates, Platão, Aristóteles, os estóicos e outros.

Estas idéias filosóficas e da religiosidade natural-racional, boa parte de origem semita, coincidiam com os textos bíblicos, hebraicos, semitas, e foram, assim, aceitos pelo cristianismo (que manteve o melhor da Paidéia, cf. Werner Jaeger), sendo a filosofia cristã uma síntese do melhor da filosofia clássica, da Paidéia, em mescla com o melhor das ideias semitas hebraicas.

O “sacrifício” de Cristo é apresentado como exemplo maior e o próprio Cristo ensinou que não há amor maior que dar a própria vida pelo próximo, pelo bem dos outros, da sociedade. Augusto Comte, nas pegadas de Saint-Simon, um grande cristão socialista, cunhou o termo “altruísmo” como contraposto (contrário) ao “egoísmo” (pecado) e os próprios positivistas terminaram por reconhecer que o altruísmo é a mesma coisa que o velho amor ao próximo (a caridade).

Conclusão: a “pátria” é a sociedade onde nascemos e a regra vale para toda sociedade, em seus diversos níveis, da família, bairro até o mundo.

O cristianismo, como bem expôs Santo Agostinho e os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio e São Basílio), tem, em suas entranhas, uma ética social, baseada no bem comum, no bem da sociedade e de cada pessoa concreta.

O Estado e o poder, tal como a organização da economia, só são legítimos se servirem ao bem de cada pessoa e de toda a sociedade.

Conclusão: o primado da sociedade (domínio eminente da sociedade), ou seja, do bem comum, é a essência da concepção política cristã e está presente também nos melhores textos da Paidéia, do pensamento hindu, muçulmano (neste ponto, basta ver os elogios de Santo Tomás a Avicena e a Averróis) e nos textos mais antigos de todas as culturas, como a chinesa, a japonesa, coreana, dos povos da África, do Tibet, de nossos povos indígenas etc. 

Resumo da vida de São Paulo e dados sobre sua cidade, Tarso

São Paulo nasceu em Tarso (cf. At 9,11) lá por 5 d.C. e teria vivido ali até aos 20 anos. Depois, partiu para Jerusalém, onde morava uma irmã sua, casada, cujo sobrinho salvou a vida de São Paulo, anos depois. Em Jerusalém, permaneceu de 25 d.C. até cerca de 33 ou 36 d.C, tendo sido aluno do grande Gamaliel, “o rabino erudito mais ilustre de seu tempo” (cf. David H. Stern, “Comentário judaico do Novo Testamento”, Belo Horizonte, Ed. Atos, 207, p. 337, sendo Stern um “judeu messiânico”, um judeu cristão).

São Paulo nasceu na cidade de Tarso, que tinha mais cultura do que talvez houvesse em Alexandria e foi aluno do principal rabino de seu tempo, o que mostra bem como age a Providência, usando meios naturais como mediações.

Lá por 36 d.C., São Paulo converteu-se e foi assassinado em 67 ou 68 d.C., uns três anos depois do assassinato de Sêneca.

São Paulo fundia, em si mesmo, o melhor da Paidéia e o melhor do pensamento hebraico, tendo como professor Gamaliel, o neto do grande Hilel. Gamaliel salvou São Pedro e os Apóstolos (cf. At 5,34) e há uma tradição que diz que Gamaliel teria se convertido e sido batizado, junto com Nicodemo.

Tarso foi a cidade onde Antônio encontrou Cleópatra, em 41 a.C., tendo feito de Tarso a capital do que seria seu império asiático.

Júlio César também esteve em Tarso, lá por 47 a.C. Augusto (63 a.C. a 14 d.C.) concedeu a cidadania romana aos habitantes de Tarso, o que foi a origem da cidadania romana de São Paulo. A razão para isso deve-se à gratidão que tinha pelo estóico Atenodoro, que nasceu em Tarso.

Atenodoro de Tarso (74 a.C. a 7 d.C.) foi um dos professores de Augusto e foi tutor de Marcelo, sobrinho de Augusto. Atenodoro deixou conselhos éticos a Augusto, conselhos em harmonia com as idéias hebraicas, como: “quando estiveres irado, César, nada digas e nada faças até que tenhas repetido as letras do alfabeto” e “vive de tal modo com os homens como se Deus te visse; fala de tal modo com Deus como se os homens estivessem ouvindo”. Augusto também nomeou Nestor, de Tarsos, para ser o tutor (professor) de seu filho ou sobrinho.

Atenodoro de Tarso, como Cícero, foi aluno de Posidônio, em Rhodes. Posidônio, por sua vez, foi aluno de Panécio.

Ora, Panécio era discípulo de Antípater de Tarso. Cícero foi aluno de Posidônio, o que mostra o tanto que o pensamento de Cícero tem origem em Tarso, a cidade de São Paulo, que Cícero governou, em 51 a.C.

Posidônio (135-50 a.C.) nasceu em Apaméia, cidade da Síria, que fica a uns 200 quilômetros de Tarso e 150 km de Chipre.

Posidônio é o exemplo perfeito do estóico ligado à tradição de Crisipo, pois Posidônio combinava, numa síntese, estoicismo, aristotelismo e platonismo. Esta síntese está também em Plutarco, Tácito, Galeno, no Pseudo-Dionísio e, depois, em São João Damasceno e Boécio, preparando a síntese tomista.

Atenodoro, no final da vida, voltou a Tarso e ajudou a expulsar Boethus, um tirano.

Atenodoro teria auxiliado Cícero na confecção do livro “Dos deveres” (o mesmo título da obra de Antípater de Tiro, outro estóico), livro que influenciou profundamente os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Lactâncio e São Jerônimo). Atenodoro foi o mestre de Apolônio de Epiro. Em 50 a.C., Atenodoro foi para Roma para ser o professor de Augusto, permanecendo em Roma até 33 a.C. Atenodoro faleceu com 82 anos e era amigo de Estrabão. Houve ainda outro Atenodoro de Tarso, que tinha o apelido de Cordilion. Este segundo Atenodoro era o encarregado da Biblioteca de Pérgamo e era também estóico. Este segundo Atenodoro foi levado para Roma, por Catão de Útica e teria ajudado Cícero na redação do livro “Dos ofícios”, na parte que resume das idéias de Posidônio.

A região em torno de Tarso era uma área onde o estoicismo era bastante cultivado e estas idéias, com certeza, influenciaram São Paulo.

O estoicismo é uma filosofia influenciada desde a origem pelas idéias semitas, asiáticas, persas, sumérias, dos caldeus e também dos hebreus e, por esta razão, pelas idéias em comum, era a filosofia preferida dos Santos Padres (na parte ética) e está presente na lista de virtudes e de vícios, nos textos de São Paulo.

Após a conversão, São Paulo retornou a Tarso, por algum tempo, para refugiar-se.

A ampla e boa influência semita judaica na matriz do cristianismo. Cristianismo é o judaísmo bem interpretado, que aceita Jesus como Messias etc.

Solomon Grayzel, no livro “História geral dos judeus” (Rio, Ed. Tradição, 1967, p. 118) fez uma síntese sobre a população judaica no mundo na época de Cristo, que merece ser citada “verbatim”:

Uma conjectura razoável estima que havia cerca de oito milhões de judeus no mundo imediatamente antes do conflito com Roma. Provavelmente, cerca de um milhão viviam na Babilônia, fora do Império Romano [mergulhado nas águas do mazdeísmo]; cerca de dois milhões e meio viviam na Palestina e quatro milhões no resto do mundo romano. Os judeus constituíam dois quintos da população de Alexandria e talvez cinqüenta mil vivessem em Roma. Tem-se, assim, calculado que, no século I E.C., os judeus eram dez por cento da população total do Império Romano. Nas províncias orientais, onde viviam em maior número, a proporção era mais alta, de forma que se destacavam muito mais”.

O professor Grayzel concluiu: “os focos mais diretos” de judaísmo “em três”: “Alexandria, Ásia Menor [com destaque para Tarso, a cidade de São Paulo] e a cidade de Roma”.

Os judeus “esforçaram-se para provar que os grandes filósofos gregos e a sabedoria dos livros bíblicos estavam em perfeita harmonia” e “declararam que Sócrates, Platão e Aristóteles tinham sido influenciados pelos escritos de Moisés”. Os judeus da diáspora tinham familiaridade com o estoicismo.

Alfred Lapple, grande estudioso católico, no livro “Bíblia” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1980, vol. 2, p. 215), traz cálculo semelhante:

Quanto ao número de habitantes do império romano (por exemplo, com base nas listas de impostos), temos o seguinte dado: a população total do império romano era avaliada em cerca de sessenta milhões. O judaísmo representava, em todo o império romano, cerca de um décimo de todos os habitantes (Harald Hegermann, in J. Leitpoldt- W. Grundmann, “Umwelt des Urchristentums”, “O mundo do cristianismo primitivo”, vol. I, Berlim, 1967, 2ª. Ed., p. 294).

Do total dos judeus, de oito milhões, apenas dois milhões e meio estavam na Palestina, a maior parte estava na diáspora (a maior parte dos judeus vive na diáspora, mesmo antes da segunda destruição do Templo, em 70 d.C). Havia cerca de um milhão em Alexandria. Milhões estavam na Anatólia, na Ásia Menor, entre Antioquia e Éfeso, principalmente na área da Cilícia (em Tarso, Antioquia, Damasco, Edessa e outras cidades).

No norte da África, na Cirenaica, havia uns cem mil judeus, em cidades como Cartago, Hipona e outras, onde mais tarde viveria Santo Agostinho, um bispo africano, tendo nascido no território da Argélia. Em Roma, houve a entrada de judeus, no mínimo, desde 140 a.C., como foi registrado no livro dos Macabeus (2 Mc 14,24; 15,15-24).

O número de judeus diminuiu a partir de 132 d.C. por conta da guerra pesada com os romanos, a guerra liderada por Bar Kochba e, depois, pela conversão de uma parte significativa de hebreus ao cristianismo e, depois, ao islamismo.

A área da Cilícia, a área de Tarso, onde nasceu São Paulo, era tão ligada aos hebreus que o rei Polemon II da Cilícia casou-se, em 50 d.C., com Berenice, a irmã de Herodes Agripa II (27-100 d.C.), rei da Judéia, de 48 a 70 d.C., mencionado na Bíblia, no livro “Atos dos Apóstolos”. Polemon, rei da Cilícia e assim de Tarso, adotou o judaísmo. Herodes Agripa II presenciou o interrogatório de São Paulo e Berenice estava presente também. Segundo Tácito e Suetônio, Berenice teve um caso com Tito, o destruidor de Jerusalém, em 70 d.C. até 79 d.C. e chegou a quase ter outro caso com o Imperador Vespasiano, o destruidor de Jerusalém (iniciou a destruição, completada por Tito, filho de Vespasiano). Herodes Agripa II foi bisneto de Herodes o Grande (o que fez a matança das crianças) e filho de Herodes Agripa I, que matou São Tiago Maior, em 44 d.C. e aprisionou São Pedro.

A relação da Cilícia com os hebreus e com os romanos, e depois com os católicos, era bem extensa, tanto na parte política quanto na cultura e na religião.

Na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, havia outro milhão de hebreus, dos oito que existiam. Este milhão estava dentro do Império Parto (que durou de 217 a.C. a 224 d.C., quando retoma o nome de Pérsia). O Império Parto foi um inimigo terrível de Roma e também foi uma continuação do Império Persa, adotando principalmente o aramaico, uma língua irmã, praticamente igual ao hebraico.

O aramaico era a língua usada por quase todos os judeus desde a difusão do Império Assírio, dos Medos e dos Persas. No Império Parto, a religião oficial era o mazdeísmo, que, antes, tinha sido também a religião oficial dos Persas.

O mazdeísmo ou zoroastrismo tem inúmeros pontos em comuns com o judaísmo, com as ideias semitas, e também com as idéias estoicas. Do mazdeísmo nasceu o mitraísmo, que se espalhou pelo Império romano, ajudando na difusão do cristianismo. O mazdeísmo proporcionou também a base cultural do maniqueísmo (que tem joio, e também trigo, parte boa), uma das principais heresias que reapareceu, na Idade Média, na forma dos cátaros, também conhecidos como “albigenses”.

Dos cerca de oito milhões de judeus que existiam nos anos após a morte de Cristo, cerca de quatro milhões e meio, mais da metade dos judeus, ficavam no quadrilátero entre Rodes, Creta, Alexandria, a Palestina, Damasco, Antioquia, Tarso e Chipre. Esta era a área de maior acúmulo cultural da época.

Neste quadrilátero floresceu o estoicismo, corrente com várias idéias iguais às idéias hebraicas e do mazdeísmo. A ideia do fogo, da renovação universal e outras idéias também faziam parte do mazdeísmo, possivelmente por causa da influência hebraica no Império Persa.Por isso, os católicos amam o estoicismo, pelo acervo de boas ideias semitas e boas ideias racionais. 

O rei do Egito, Ptolomeu II Philadelphus (287-147 a.C.), criou a biblioteca de Alexandria (cidade fundada por Alexandre, discípulo de Aristóteles). Então, aconselhado por Demétrio de Falerus, ordenou a tradução da Bíblia para o grego. Esta tradução (iniciando pelo Pentateuco) é o texto praticamente consagrado no Novo Testamento e pelos ortodoxos e católicos.

A “Septuaginta” foi usada por São Jerônimo para o texto da “Vulgata” (a tradução da Bíblia para o latim) e era o texto mais amado por Santo Agostinho (que resistiu à Vulgata porque amava mais o texto da Septuaginta).

Na tradução da “Septuaginta”, que começou lá por 285 a.C. (em Alexandria), já havia toda uma síntese entre judaísmo e as idéias gregas, pois a tradução dos textos hebraicos e aramaicos para a língua grega é uma paráfrase, feita a partir das idéias, bem mais do que uma tradução textual (literal).

A Bíblia da “Septuaginta” aproximou idéias comuns, usando fórmulas da Paidéia, com o mesmo conteúdo que as idéias hebraicas. A “Septuaginta” preparou, por confluência, o terreno do cristianismo, a síntese cristã, no prisma humano, entre o melhor da Paideia com o melhor das ideias hebraicas, semitas, judaicas. 

Conclusão: a Paidéia, mesmo antes do Cristianismo, já estava sendo unida, numa síntese, como as idéias semitas-hebraicas e esta síntese continuou no cristianismo, gerando a “filosofia cristã”, que é a filosofia da Paidéia (helênica), depurada de erros, aberta, ecumênica e progressiva, permeada do melhor das ideias semitas-hebraicas.

A síntese, mesmo antes de Cristo, entre idéias hebraicas e idéias da Paidéia, fica clara em Aristóbulo de Alexandria (181-145 a.C., hebreu aristotélico, precursor de Maimônides) e em outros escritores, como: Hilel, Fílon (20 a.C. a 40 d.C.), Gamaliel I (o neto de Hilel, elogiado em At 22,3), Flávio Josefo e Sêneca.

Fílon desenvolveu a tese da influência hebraica sobre a filosofia grega, especialmente nos livros “Os sonhos” (II, 244), “A eternidade do mundo” (19), “Questões sobre o Gênesis” (IV, 152), “A mudança dos nomes” (167-168) e “Quem é herdeiro das coisas de Deus” (n. 214).

As principais correntes do judaísmo tinham, em maior ou menor grau, apreço pela Paidéia. Os saduceus eram totalmente helenizados e ligados ao epicurismo. Os fariseus faziam uma síntese, especialmente com o estoicismo, sendo a corrente mais próxima do Catolicismo. Mesmo os essênios elaboraram uma mistura de idéias platônicas, órficas etc. Na mesma linha dos fariseus, Filon combinou idéias éticas estóicas (e platônicas) com as idéias hebraicas.Por isso, os católicos sempre amaram os textos de Fílon. 

Mais tarde, a filosofia hebraica retoma o apreço pelo helenismo, especialmente pelo estoicismo e pelo aristotelismo (e platonismo), como fica claro em filósofos hebraicos, como Maimônides, Levi Ben Gerson, Hilel Ben Samuel, Judá Messer Leon, Abraão Bibago, Isaac Abravanel e Abraão Ibn Daud.

O maior Doutor da Igreja, São Tomás de Aquino, sempre foi admirador e leitor cuidadoso de Maimônides, do Rambam, pela semelhança de ideias. O mesmo vale para os grandes filósofos muçulmanos, como o grande Avicena.

Esta unidade entre Avicena, Maimônides e São Tomás de Aquino mostra como há a mesma matriz filosófica entre Catolicismo, Ortodoxos, Judeus e Muçulmanos e, acredito, esta unidade tem base na Providência, para converter a todos ao cristianismo, no futuro. 

As raízes semitas do estoicismo, o que explica a razão do catolicismo e do judaísmo terem acolhido boa parte do estoicismo

O estoicismo nasceu em áreas de cultura semita e fenícia, com base na cultura fenícia-semita. O fundador do estoicismo, Zenão, nasceu em Chipre, terra totalmente influenciada pelos fenícios e judeus, bem perto de Tarso, a cidade natal de São Paulo.

Este ponto foi bem demonstrado pelo padre Eleutério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, vol. I, pp. 25-32). O estoicismo desenvolveu-se, desde as origens, com base em homens banhados pela cultura fenícia-semita, existente na Fenícia (ao lado da Judéia).

Nasceu em lugares banhados pela cultura fenícia e hebraica (tendo grandes colônias hebraicas), como o Chipre, Tarso, Síria e em várias áreas da Palestina e da Mesopotâmia. Todas estas áreas eram banhadas pelas idéias semitas, presentes nas idéias persas, fenícias, assírias e outras.

Houve também influência semita (hebraica) clara nos textos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (e os três foram influenciados pelo cristianismo, pois mencionam os “galileus”, os cristãos). O mesmo ocorre com Tácito, Galeno, Plutarco, Plotino e outros autores.

Os principais estoicos são homens nascidos na região de Tarso e de Chipre. Esta região tinha tantos judeus que, em 117, estes atacaram os romanos, participando da guerra judaica, contra os romanos. Outros estoicos eram da Síria, da Fenícia, região banhada pelas idéias hebraicas e semitas, presentes na cultura Cananeia-fenícia. Uma prova disso é o o fato do nome principal de Deus, na cultura fenícia, ser “El”, como é na Bíblia.

O nome principal da divindade, na Bíblia, é “El” e isso permanece mesmo quando o culto a Baal prepondera, em conflito com “El”, mas sendo afirmado que Baal nasce de “El” (ver, a propósito, os conflitos de Elias com os sacerdotes de Baal).

Seria possível citar mais de vinte grandes estoicos de origem na cultura semita. Basta, para ilustrar, citar Zenão de Chipre (o fundador do estoicismo), Crisipo (o principal formulador do estoicismo) e mesmo Posidônio, que nasceu na Síria. A região entre Jerusalém e a Síria deu origem também a autores como Porfírio, que nasceu em Tiro, cidade fenícia, ligada culturalmente aos hebreus. A Cilícia era tanto ligada aos hebreus que Polemon II, rei da Cilícia, casou-se com Berenice, irmã de Herodes Agripa II.

Outros grandes estoicos tem origem na Espanha, terra colonizada primeiro pelos fenícios, totalmente influenciada pela cultura fenícia-semita, inclusive por judeus. Os fenícios estavam presente na Grécia, também, pois o alfabeto grego é o alfabeto fenício e Tebas (a cidade base das grandes peças de teatro gregas) é uma colônia fenícia, foi fundada pelos fenícios. Os fenícios também participaram do surgimento da democracia na Grécia, derrotando o tirano que escravizava Atenas e a tornando uma democracia.

Os fenícios também estavam presentes na Lídia, em Sardes, onde também existiam judeus. Fenícios e judeus estavam presentes no Império assírio, babilônico, persa etc. Mesmo Homero, na “Ilíada”, menciona os fenícios, como grandes navegantes. 

Tarso era uma das maiores cidades do mundo, tendo mais de 500.000 habitantes, na época de Cristo. Tarso, Pérgamo e Antioquia, juntas, faziam bom contraponto a Alexandria e a Roma, deixando para trás cidades como Corinto e Éfeso, que eram enormes também.

Xenofonte passou por Tarso, lá por 401 a.C., com os dez mil gregos, citados na “Anabase”. Tarso é mencionada com Tarsis, em Gn 10,4; tal como em 2 Macabeus 4,30-36. Tarso era protegida por Augusto, pois era a terra natal de Atenodoro, um estóico, professor de Augusto. Augusto mantinha relações de amizade com Herodes, que tinha escritores como Nicolau de Damasco (n. em 64 a.C.), um filósofo e um historiador, autor de uma História universal de 144 livros e de uma biografia de Augusto. Josefo utilizou vários textos de Nicolau de Damasco.

Theodore Reinach (1860-1928) escreveu um livro chamado “Textos de autores gregos e romanos relativos ao judaísmo” mostrando as ligações antigas entre o judaísmo e a filosofia grega, especialmente o estoicismo. Theodore era irmão de Solomon (arqueólogo e historiador) e de Joseph Reinach, o chefe de Gabinete de Gambetta. Theodore dirigiu, por anos, a “Revista de Estudos Gregos”. Seus estudos mostram a mesma tese dos Santos Padres: o pensamento judaico influenciou o pensamento grego e romano, por dentro, auxiliando a luz natural da razão a gerar ideias bem próximas do cristianismo, preparando o surgimento do cristianismo.

No mundo judaico, o cristianismo foi, no prisma humano, a continuidade do movimento dos fariseus (“perushim”). Estes já estavam realizando sínteses com a Paidéia, adotando um ecletismo filosófico que juntava as idéias estóicas, platônicas etc e o mesmo ocorria com os essênios.

Os fariseus são a base dos essênios e dos zelotes, pois essênios e zelotes são variações do movimento fariseu. O helenismo e as idéias hebraicas já estavam em diálogo intenso antes do helenismo e, principalmente, depois.

No mundo judaico, uma parte dos sábios passou a adotar nomes gregos no século III a.C., tal como antes adotara nomes egípcios, babilônicos e persas. Antígnos de Sochos é tido como o primeiro a adotar um nome grego e dois de seus discípulos, Tsadoc e Betus, romperam com a Torah oral (“Lei oral”, defendida pelos fariseus e pelos católicos) e adotaram o hedonismo, as idéias de Epicuro (foram chamados de “epikaros”, de epicureus).

Segundo o Talmud, Tsadoc e Betus foram os fundadores das seitas dos saduceus e dos betusianos. No caso dos saduceus, houve erros, pois rejeitaram o substrato estoico contido na crença dos fariseus. Os fariseus eram a seita mais próxima do cristianismo, ponto que Cristo destacou. 

O Talmud chama a pessoa que ataca a fé de “o epicurista”. Só este fato já demonstra bem o elogio fariseu das idéias estóicas no Talmud. Flávio Josefo chamava os fariseus de “os estoicos hebreus”. 

Os rabinos, tradicionalmente, chamam de “apiqoros” (epicureus) as pessoas que negavam a vida após a morte. Também usaram o termo “apiqoros” para designar os pagãos. Esta crítica rabínica aos epicureus é outro sinal claro do amor judaico ao estoicismo, de fundo semita, também.

Conclusão – a filosofia cristã e hebraica é formada de uma síntese do melhor da Paideia com o melhor do Tradição hebraica, sendo uma síntese eclética, unindo os melhores textos dos órficos, dos pitagóricos, do platônicos, dos aristotélicos e dos estoicos e, depois, do hermetismo. O mesmo vale para o pensamento muçulmano, como pode ser visto nos melhores textos da comunidade muçulmana no Cairo.

No fundo, é praticamente o credo da última fase de Diderot, que morreu panteísta e adepto de Seneca, estoico. 

Influência hitita semita na cultura grega

A cultura grega é toda banhada pela cultura suméria, egípcia, fenícia, grega, persa etc. Isso foi visto por Filon, Flávio Josefo e pelos Santos Padres. 

A Grécia é relativamente nova no mundo cultural.

Muitas das ideias tidas como “gregas”, importantes para a democracia, são, na verdade, ideias bem mais antigas, sumérias, aramaicas, egípcias, fenícias, persas e hebraicas.  

A Suméria antecede ao Egito. Quando já existiam grandes cidades na Suméria, no Egito, existiam apenas vilas. E a escrita nasceu primeiro na Suméria. Suméria foi inclusive o berço dos hebreus, como mostra a história de Abraão. 

Creta foi influenciada pelo Egito e pela Suméria. A cidade de Tebas, na Grécia, é de origem fenícia. O alfabeto grego vem do alfabeto fenício, irmão do alfabeto hebraico e aramaico.  

Em Mileto e em Éfeso, os arqueólogos descobriram baixos relevos hititas, dos séculos XV e XIV a.C. Os hititas sempre estiveram em ligações com os fenícios e hebreus. A presença hitita mostra como a Ásia Menor é ligada aos sumérios. A Artemis de Éfeso deriva da deusa hitita da fecundidade. Os hititas ou heteus são ligados aos hebreus, como mostra a Bíblia. 

O estoicismo nasceu de fenícios, sendo, desde o início, banhado pelas águas fenícias e hebraicas, como pode ser visto nos Fariseus, no próprio Talmud etc. 

Os hebreus tinham colônias, povoados, tanto em Elefantina, sul do Egito, como no Delta do Egito, e também em Chipre, e o mesmo em Sardes, na capital da Lídia, onde residiu Creso. Hebreus e fenícios eram povos irmãos, com línguas praticamente iguais, alfabetos praticamente iguais, e se espalharam pelo litoral do Mediterrâneo. 

A boa influência semita nas culturas grega e egípcia

O livro de Jean-Pierre Vernant, estudioso da Grécia antiga, com o título “As origens do pensamento grego” (Rio de Janeiro, Ed. Difel, 2010, 19ª. Edição) mostra a ligação cultural da Grécia antiga com a Ásia, especialmente com as áreas semitas do Oriente. A tradução da escrita linear B micênica mostra que Cnossos, Pilos e Micenas tinham amplas ligações com Ugarit, Mari e Hattusa, a capital do Império Hitita, regiões também ligadíssimas com os semitas, com os hebreus. A escrita mais antiga da Grécia tem origem fenícia e asiática, demonstrando o acesso às idéias do mundo semita-hebraico. Os fenícios e os hititas foram os canais principais da influência semita, da Revelação, sobre a cultura grega. Os fenícios influenciaram toda a bacia mediterrânea, antes dos gregos. E a cultura grega nasce principalmente na costa da Ásia Menor, da atual Turquia, onde a matriz cultural era hitita (matriz da cultura lídia). 

Nos anos 2.000 a 1.700 a.C., existiam relações culturais intensas entre Creta com o complexo Mesopotâmia e Fenícia, inclusive com os Filisteus, mais tarde. Creta tinha ligações com Rodes, Cilícia e Chipre, áreas ligadas aos semitas, tal como com a Lídia. O Egito também mantinha ligações com Creta, pois a escrita mais antiga, antes da Linear A, em Creta, era uma escrita ligada ao Egito e aos sumérios.

O Egito, sob o controle dos hicsos (boa parte dos hicsos era hitita), controlava boa parte da Palestina e da Fenícia neste período e, assim, a influência egípcia e fenícia era preponderante na antiga Creta, o berço da civilização grega. Mais tarde, dentro do Egito, o povo hebreu desenvolveu-se, de 70 pessoas para cerca de seiscentos mil, possivelmente, entre cerca de 1700 a.C. (vinda de José, Jacó e outros para o Egito) até a Páscoa, de Moisés, lá por cerca de 1.200 a.C.

A arqueologia demonstrou que as construções cretenses seguiam o mesmo estilo que as construções de Biblos, Mari, Mesopotâmia e outras. Creta também era ligada ao Egito, como apontou Evans. O Egito também era ligado aos semitas e hebreus, como mostra a viagem de Abraão e, mais tarde, de Jacó, José e o êxodo, liderado por Moisés. A meu ver, as antigas pirâmides têm origem na arquitetura da Suméria, região ligada aos semitas, aos acádios. Muito mais tarde, aparecem pirâmides até no México, bem parecidas com as pirâmides egípcias e da Suméria.

A ligação de Jerusalém com os hititas era tamanha que o Profeta Ezequiel, em seu livro (Ez 16,3-), escreveu sobre Jerusalém: “Assim fala o Senhor Deus a Jerusalém: pelas tuas origens e pelo teu nascimento, és da terra do cananeu. O teu pai era amorreu e a tua mãe era hitita”. Jerusalém tinha população cananéia e hitita.

A Bíblia ensina que os hititas eram filhos de “Het” (“Chet”, em hebraico), cf. Gn 10,15 e 15,20. Por isso, os hititas eram chamados, na Bíblia, várias vezes, de “heteus”.

Os hititas viviam na atual Turquia, nas nascentes do rio Tigre e Eufrates, perto do Mar Negro, e também na área de Jerusalém, junto com os emoritas e jebusitas. No tempo dos Patriarcas, os amorreus instalaram-se junto de Hebron e de Siquém (cf. Gn 14,7.13; 15,16; 48,22; 1 Rs 21,26). Os hititas tiveram o auge de seu império entre 1.800 e 1.200 a.C., chegando às margens do Hebron (cf. Gn 23,3-20). Basta lembrar do hitita Urias, que habitava e gerava ciúmes em Davi (cf. 2 Sm 11,3). A Bíblia, muitas vezes, usa o termo “cananeu” como sinônimo de “hitita” (cf. Ex 23,28).

Num parêntese, vale a pena destacar, de novo, que o Egito esteve sob controle dos hicsos (asiáticos, sendo uma boa parte composta de semitas), de cerca de 1750 a 1580 a.C, por uns duzentos anos, período em que Jacó entra no Egito. Os hicsos eram uma mistura de povos da Ásia, o que os faz parentes dos hititas. Parte expressiva dos hicsos era formada por semitas. Uma parte significativa da cultura egípcia, mais tarde elogiada por Platão, tem origem semita. 

Logo, parte relevante da cultura grega e da cultura egípcia, era de origem semita, ponto importante, para evitar que a gente pense em estanques culturais. Eu não nego coisas originais da boa cultura grega e egípcia, mas vale a pena destacar também as interligações, a difusão cultural, as ligações culturais. 

Uma parte dos hicsos tinha origem arameu-semita, do norte da Mesopotâmia à Ásia Menor, com linguagem próxima dos hebreus. Por esta razão, há vários nomes semitas na cultura hitita.

O Império Hitita foi fundado em 1.800 a.C., com base num conjunto de povos, alguns de origem indo-européia e outros povos de origem semita. Os hititas receberam ainda influência dos hurritas, mitânios e outros, da área semita, entre os rios Tigre e Eufrates. Este caldeirão de povos já estava na área ao lado de Hattus, capital do Estado hitita, há mais de duzentos anos antes.

Os hititas habitavam parte da Ásia Menor, da Anatólia. São chamados, na Bíblia, de “heteus” (“terra dos heteus”, cf. Js 1,4). Abraão os encontrou (cf. Gn 15,20;23,3), tal como Josué (cf. Dt 7,1; Jz 3,5). Davi e Salomão tinham heteus como aliados. A Bíblia menciona os heteus 47 vezes. Abraão comprou um campo com uma caverna, para enterrar Sara, do heteu Efron (cf. Gn 23-10-20). A “Terra santa” era a terra dos heteus, jebuseus, amorreus, cananeus e heveus (cf. Ex 13,5).

Foi durante o controle dos hicsos (povo ligado aos hititas, com amplos elementos de cultura semita), que os hebreus prosperaram no Egito, com Jacob e José, chegando ao poder, implantando as leis agrárias que seriam elogiadas, mais tarde, por Platão, no livro “A República”, sendo a base do socialismo platônico e de boa parte do movimento em prol da reforma agrária.

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