Arquivos para : Plutarco

A ética social do catolicismo é formada pelo melhor da ética judaica e pelo melhor da ética da Paideia. Por isso, é tão DIVINA

O cristianismo primitivo usou principalmente as idéias estoicas para fundamentar as idéias éticas e políticas da “filosofia cristã”

Marciano Vidal, no livro “Nova moral fundamental” (Aparecida, Ed. Santuário/Paulinas, 2003, p. 333), demonstrou que a ética cristã foi gestada com base na “inculturação”. O mesmo ocorreu com a ética judaica, a mãe da ética cristã.

Assim, “a moral cristã encarna-se na sociedade greco-romana e na cultura do helenismo”, com base no “judaísmo” e nas idéias da Paidéia, especialmente nas idéias estóicas (“a influência do estoicismo é patente na moral patrística, através de categorias éticas como a lei natural”).

Fica claro que é a mesma conclusão de Bruno Bauer e de Friedrich Engels, no texto que este redigiu sobre a contribuição de Bauer, quando este teólogo, amigo de Marx, morreu.

Marciano transcreve trecho da encíclica “Fides et ratio”, de João Paulo II: “diante das filosofias, os Padres não tiveram medo de reconhecer tanto os elementos comuns como as diferenças que apresentavam com a Revelação” (n. 41). Aceitavam as “convergências” como vindas do Logos, da Razão divina, que fala em todas as consciências. O que era racional era aceito pelos Santos Padres, como expressão das sementes do Verbo, da Razão.

Como destaca Marciano, “a patrística” não é só um “momento histórico na formação da moral cristã, mas também” uma “expressão paradigmática da dimensão ética da fé”. O “espírito” da “moral patrística” é expressão quase direta da Tradição.

Para entender a ética cristã (formulada na patrística, na Tradição viva, que permanece atuante ainda hoje) é preciso entender algo da moral estóica, tal como é necessário entender as idéias hebraicas.

As idéias hebraicas (o humanismo semita, cf. Enrique Dussel) formam o veio principal.Filon já elaborou uma síntese entre a ética judaica e a ética estóica, e o mesmo foi feito na corrente dos FARISEUS, a corrente que Cristo e São Paulo elogiaram e que constitui o NÚCLEO EXCELENTE da Ética dos Pais, da Ética do Talmud.

As idéias da Paidéia formam o veio menor, mas essencial também.

Dentre as idéias da Paidéia, o estoicismo eclético forma o principal afluente.

O estoicismo eclético era uma mescla, gestada no meio fenício-semita, de idéias socráticas, platônicas, cínicas, aristotélicas, estóicas, pitagóricas, persas, egípcias etc. Frise-se: o próprio ESTOICISMO TEM RAÍZES SEMITAS, no fundo, HEBRAICAS, pela proximidade entre judeus e fenícios, na Terra Santa. 

A ética cristã é racional. Para entende-la, é muito conveniente e útil o estudo da ética estóica, que tem elementos válidos até hoje.

Trata-se, como a ética cristã, de uma ética anticapitalista, crítica, social e bem humana, pautada pela razão e pelo bem comum.

A ética estóica e a ética platônica e aristotélica foram bem combinadas por Cícero, no livro “Dos ofícios”, obra que encantou homens como Santo Ambrósio, Santo Agostinho e os grandes expoentes da Igreja.

Em Musônio Rufo, Sêneca e Epicteto há também esta linha estóica eclética e aberta, ecumênica.

Mussônio, Sêneca e Epicteto influenciaram São Clemente de Alexandria.

A Bíblia menciona uma pessoa com o nome de Rufo (“Vermelho”), em Roma (cf. Mc 15,21; Rm 16,13; At 13,1; Mc 15,21 e outros textos), mas, infelizmente, não há comprovação histórica de ser a mesma pessoa. É bem mais provável que não seja, mas é bonita a hipótese.

A linha estóica está presente nos melhores textos de homens como Virgílio, Quintus Horácio (65-8 a.C.), Juvenal, Pérsio, Tácito, Ovídio, Tito Lívio, Lucano, Quintiliano (35-95 d.C.), Plutarco, Galeno e outros escritores que os Santos Padres leram e citaram com alegria.

Horácio e Virgílio são os poetas do amor simples, da vida ética, do patriotismo, das virtudes. Seus textos ainda são atuais. Marx sempre apreciou a literatura clássica, especialmente Ovídio e outros.

Os grandes escritores sobre agricultura seguiam também esta linha, a linha de Virgílio, que os Santos Padres e os Papas também veneraram.

Por exemplo, no livro “O cultivo das hortas”, do monge Walafrido Estrabão (808-849), este monge saxão elogia a agricultura familiar, usando textos de Columela, Virgílio (“Geórgicas”) e Sereno Sammonico.

Os textos de Columela (“Res rústica”, “Coisas rústicas”, sobre a agricultura) são apologias da agricultura familiar, textos que o MST deveria reeditar.

Os livros de Galeno e de Dioscórides também são EXCELENTES, mostrando como quase todos os remédios têm origem na agricultura.

A razão gera as verdades éticas necessárias e isso foi explicitamente ensinado por São Paulo, no texto sobre a “lei natural”, que é exatamente um conjunto de verdades (regras) práticas.

Na “Fides et ratio”, João Paulo II explicou bem este ponto: “36. Os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com alguns filósofos epicuristas e estóicos (cf. At 17, 18)”.

A análise exegética do discurso de São Paulo no Areópago demonstra repetidas alusões a idéias populares, predominantemente de origem estóica.

São Paulo teve educação estóica em sua cidade natal, de Tarso, uma cidade onde o estoicismo tinha sua principal base. E São Paulo também teve educação entre os Fariseus, que eram os estóicos hebreus, como apontou corretamente Flávio Josefo, testemunha da época e grande historiador hebreu. 

Num parêntese, vale a pena lembrar que São Paulo discursou no Tribunal de Atenas onde Édipo, Sócrates e Demóstenes tinham sido julgado, tendo São Paulo pisado a terra onde Sócrates também pisara, dando continuidade à Paidéia, recepcionada pela Igreja, para formar a “filosofia cristã”, que é a filosofia clássica, da Paidéia, depurada.

Como ensinou João Paulo II, “certamente isso”, o uso de idéias estóicas no discurso, “não se deu por acaso”. Afinal, “os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas “Moisés e os profetas” nos seus discursos (o afluente hebraico), “mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rm 1, 19-21; 2, 14-15; At 14, 16-17)”, usar as idéias da Paidéia, que foram recepcionadas pelo cristianismo, como bem demonstrou Werner Jaeger, em suas várias obras luminosas.

Frise-se: o “conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral” ocorre pelas forças da razão natural, pela luz natural da razão, que gera verdades éticas práticas, idéias práticas verdadeiras para o bem comum.

As luzes da razão natural estão expressas na cultura, nas correntes culturais da época, tal como estão dispersas hoje em várias linhas culturais (o cristianismo deve ser sempre aberto à verdade, venha de onde vier).

São Paulo usou textos de Arato ou de Cleantes, possivelmente dos dos dois autores ligados ao estoicismo e também usou outros textos ligados ao estoicismo.

O léxico (palavras) de São Paulo tem ampla influência estóica. O estilo mesmo de São Paulo é o estilo estóico das “diatribes”, usado por Musônio Rufo, Epicteto e Sêneca, tal como por outros estóicos.

O gênero da diatribe foi criado por Bíon de Borístenes, um cínico eclético da primeira metade do século III a.C, com ligação com Teofrasto. O gênero diatribe (“diatribes”) é polêmico, uma espécie de arenga popular, com breves sentenças éticas. Este estilo foi usado por vários Apologistas e Santos Padres. Foi usado por Taciano e Tertuliano, por exemplo.

Bíon ensinava que as boas escolhas, na vida, geram a felicidade; as más escolhas, geram desgraças. Há a mesma tese na Bíblia e nos textos estóicos.

A idéia que nos movemos em Deus é uma idéia hebraica e estóica, refutando os erros de Epicuro. São Paulo, como será visto neste livro, usou outras citações de grandes escritores da cultura helenística.

João Paulo II completou este ponto assim: “Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria (cf. Rm 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos de mistérios, conceitos mais respeitosos da transcendência divina”, e daí o apreço aos textos de Platão, dos estóicos e até de alguns textos dos cínicos e dos epicuristas contra a idolatria.

Até mesmo alguns textos dos céticos, contra as idéias de idolatria, foram usados pelos Santos Padres. O mesmo no tocante aos textos cínicos.

Marciano Vidal, no livro referido no início deste capítulo, destaca a influência de Cícero (que fez uma síntese de idéias estóicas, aristotélicas e platônicas) em Santo Ambrósio (o livro “De officiis ministrorum” tem o mesmo nome da obra de Cícero, “De officiis”).

Marciano também destaca São Jerônimo, especialmente suas “Cartas”, com influência de Cícero.

Houve influência de Cícero também em Santo Agostinho (embora a influência dos maniqueus tenha deixado vestígios pessimistas em sua concepção ética).

As idéias estóicas e cínicas (um estoicismo radical) estão claras em Santo Atanásio (“Vida de Santo Antão”), em São Basílio Magno e outros.

Em São Basílio Magno (330-379), há uma mistura eclética. Nas homílias sobre o “Gênesis”, Basílio usa idéias platônicas e aristotélicas. Nas idéias éticas, Basílio usa idéias estóicas e cínicas. Elogia Sócrates e Diógenes pelo desprezo às riquezas.

São Basílio escreveu o livro “Tratado sobre a leitura dos livros pagãos”. Adota idéias estóicas principalmente nos textos de ascese, sobre as regras dos monges e também sobre o destino universal dos bens.

Toda a literatura monástica está pejada de idéias estóicas e hebraicas (existia o monasticismo hebraico, nos essênios, terapeutas, batistas e outras correntes).

Há a mesma influência em São Gregório de Nissa (irmão de São Basílio) e em São Gregório Nazianzeno (amigo e praticamente irmão de São Basílio).

As idéias estóicas estão claras como a luz do sol nos textos de Tertuliano, de Cipriano de Cartago, de Lactâncio (o “Cícero cristão”).

Também estavam presentes nos textos de Filon e de Flávio Josefo, numa mescla de platonismo e estoicismo. Há a mesma mescla nas idéias dos fariseus, dos essênios, dos terapeutas e de outras correntes (como mostram os documentos do Mar Morto).

Os essênios estão ligados às idéias órficas e pitagóricas e estas idéias são de origem semita, oriental.

A própria Kabala, em suas fontes mais antigas, tem uma porção de idéias neoplatônicas, pitagóricas, hermetismo e estóicas, como fica evidente no “Livro da criação” e no “Livro do Esplendor”. Estes livros destacam a Sabedoria (“Hochma”) e a Inteligência (“Logos”) de Deus.

Pico della Mirandola tinha razão ao considerar as idéias principais da Kabala como de acordo com o cristianismo e também com as melhores idéias de Platão e Pitágoras.

Há idéias estóicas e hebraicas na “Primeira carta de São Clemente”, do Papa Clemente, em 96 ou 97, à comunidade de Corinto. São Clemente Romano foi o quarto Papa, governando a Igreja de 97 a 101 d.C. A “Primeira Carta” era tão venerada que foi posta várias vezes no Cânon das Escrituras.

Existe a mesma mistura de idéias da Paidéia e idéias hebraicas na “Didaqué”, na “Carta de São Barnabé”, no livro “O Pastor” de Hermas, em Santo Inácio de Antioquia, na “Carta” de São Policarpo, em São Justino, em São Clemente de Alexandria, em Orígenes e oturos.

Há grande influência de Cícero e de Sêneca nos textos de São Martinho de Braga (m. em 580 d.C.), pois seu livro “Honestae vitae” (“Vida honesta”) é baseado no livro “De Ofiiciis”, de Sêneca (mesmo nome da obra anterior de Cícero). Santo Tomás de Aquino cita pilhas de textos de Cícero, tal como Leão XIII, em suas 86 encíclicas.

A mistura de aristotelismo, platonismo e estoicismo fica claríssima em São João Damasceno, em São João Cassiano (360-435, semipelagiano e estóico cristão), em São Gregório Magno, em Boécio, em São Isidoro de Sevilha e outros.

A mesma mistura está em Herácio, um platônico que misturou idéias platônicas com idéias estóicas e aristotélicas. Escreveu sob re a justiça, mostrando que justiça, no sentido lato, significa a moralidade em geral, pautar todos os atos de forma racional e em prol do bem comum.

Boécio (480-524 d.C.) foi mestre do palácio do rei godo, Teodorico, em 520 d.C. Foi condenado à morte sob a acusação de ter ligações subversivas com Bizãncio. Boécio deu continuidade à síntese de platonismo, aristotelismo e estoicismo, que também estava presente no neoplatonismo eclético de Plutarco, Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo, tal como estava presente no estoicismo eclético e em autores como Galeno, Ptolomeu e outros.

Boécio traduziu várias obras de Aristóteles do grego para o latim e deixou a obra linda “Consolação filosófica”, demonstrando a importância da filosofia para a religião.

Boécio ainda nos deixou seu discípulo, Cassiodoro (485-580 d.C.), ministro dos reis godos, que deixou uma congregação de monges filósofos, copistas e várias obras.

O estoicismo cristão florescia especialmente nos mosteiros cristãos e ortodoxos.Os textos do padre Elorduy demostram isso bem.

O aristotelismo em mescla com o estoicismo também está nos textos de São João Damasceno. Está ainda nos textos do patriarca Fócio (820-890 mais ou menos), de Constantinopla. Fócio cometeu erros, mas era aristotélico e ajudou a difundir os textos de Aristóteles.

A ética estóica e a ética aristotélica estão dispersas na cultura ocidental e mundial, especialmente em certas palavras-chaves.

Até hoje, para “uma elevação contínua do ideal da perfeição humana” (cf. Marciano), para a educação ética, é importante entender a ética socrática, platônica, do hermetismo, cínica, aristotélica e estóica.

É claro que também é importante a recepção (pela aplicação das mesmas regras de inculturação) das idéias da cultura chinesa, hindu, coreana, vietnamita, russa, africana, tal como das várias correntes culturais (marxismo etc) etc.

Marciano Vidal expôs a influência predominante estóica na ética patrística, em ligação com as idéias hebraicas, com base nos textos de estudiosos como J. Stelzenberger e M. Spanneut (“Le stoicisme des Pères”, Paris, 1957).

Marciano cita texto de L. Vereecke, do livro “Historia de la teologia moral”, sobre a ética cristã e suas fontes. Vejamos o texto de Vereecke:

A teologia moral dos Padres é uma teologia da perfeição, que indica a meta que é preciso alcançar, a virtude, sobretudo a caridade. Inpira-se, em primeiro lugar, na Escritura, as se serve também dos grandes sistemas de moral do estoicismo e do platonismo [e do aristotelismo, intrinsecamente ligado ao platonismo], aos quais confere um traço evangélico. O ensinamento moral inclui-se no quadro litúrgico, deixando a cada um a tarefa de aplicar as leis [regras] gerais aos casos práticos”.

A Igreja, deste o início, combinou idéias da Paidéia com idéias hebraicas.

As idéias da Paidéia vieram principalmente do estoicismo, do platonismo e do aristotelismo, mas também do pitagorismo, do hermetismo, do orfismo e de outras fontes orientais.

Uma explicação para tantas “convergências” entre estoicismo e idéias hebraicas-semitas está na origem semita do estoicismo, como fica patente na biografias dos autores estóicos (ponto que será examinado mais adiante).

O livro de Brad Inwood, “Os estóicos” (São Paulo, Ed. Odysseus, 2006, p. 8) mostra bem as origens semitas do estoicismo:

O fundador do estoicismo, Zenão, chegou a Atenas vindo da cidade de Cício (a atual Larnaca), situada em Chipre. Seu sucessor, Cleantes, era nativo de Assos, na Tróade (ocidente da Turquia). O sucessor deste último, Crisipo, o maior de todos os estóicos, era natural de Soles, na Cilícia (parte austral da Turquia). Na geração posterior a Crisipo, as duas figuras centrais e dirigentes da escola eram de origem similarmente oriental: Diógenes da Babilônia e Antípatro de Tarso”.

Zenão, Cleantes, Crisipo, Diógenes da Babílônia e Antípatro de Tarso formam as estrelas do estoicismo antigo.

O estoicismo médio teve Panécio (180-110 a.C), Posidônio de Apaméia na Síria (135-50 a.C.) e Cícero, que formam o estoicismo médio. O estoicismo médio ensina as virtudes (deveres, ofícios) médios, acessíveis a todos.

Depois, vem o estoicismo romano, com Sêneca, Musônio Rufo (25-80 d.C.), Epicteto (50-125 d.C.) e Marco Aurélio (121-180 d.C.). Estes são os principais estóicos.Dion Crisóstomo também merece ser lembrado.

O estoicismo tem raízes fenícias e semitas, tal como tem raízes no mazdeísmo-mitraísmo.

O maior dos estóicos foi Crisipo (281-208 a.C.), filho de Apolônio de Soli, cidade vizinha a Tarso, na Cilícia, a cidade de São Paulo.

Crisipo escreveu 705 livros, todos perdidos, mas deixou fragmentos importantes. Suas obras eram profundamente ecléticas e ecumênicas, pois, segundo Diógenes Laércio, eram formadas principalmente de textos de grandes autores anteriores, que Crisipo comentava. Com este método, Crisipo reforçou o ecletismo e ecumenismo natural do estoicismo.

Como veremos mais adiante, a cidade natal de São Paulo, Tarso, era o principal centro do estoicismo. Houve inúmeros estóicos de Tarso, como o próprio Crisipo (de Soles, cidade a 20 km de Tarso), Perseo de Tarso, Zenão de Tarso, Paramono de Tarso (seguir de Panécio) e outros.

Brad Inwood, ainda do livro “Os estóicos” (p. 32), detalha alguns das inúmeras relações entre Tarso e o estoicismo:

Uma boa ilustração é oferecida por Tarso, na Cilícia. Estrabão julgava que a, à sua época, em fins do século I a.C., os estabelecimentos educacionais em Tarso, incluindo as escolas de filosofia, superavam os de Atenas e Alexandria (…). De fato, a cidade tinha produzido estóicos eminentes pelos dois últimos séculos pelo menos – incluindo dois escolarcas: Zenão de Tarso e Antípatro de Tarso (mesmo Crisipo, o maior entre os estóicos, era filho de pai társio) e bem pode ser o caso daquela tenha tido sua própria escola estóica, bem antes da época de Estrabão”.

Atenas foi saqueada nas guerras entre Mitradates e Roma e parte do acervo bibliográfico foi levado para Roma, especialmente os livros perdidos de Aristóteles.

Chegaram a Roma em 84 a.C., estando eclipsados antes, o que explica o primado do estoicismo na difusão na cultura da época. Alexandria também foi saqueada e parte da biblioteca foi queimada nas lutas entre Júlio César e Pompeu.

Há ligações também entre o mazdeísmo e o hinduísmo (tal como entre islamismo e mazdéismo). Existiam amplos pontos comuns, por influência de Heráclito, de Éfeso, cidade ligada à cultura persa. Houve influências também de outras fontes, como será visto e este foi o caldo cultural que banhou a difusão do estoicismo e do cristianismo.

Os estóicos se consideravam como “socráticos” (cf. Filodemo, “De Stoicis, XIII, 3).

Houve também influência aristotélica no estoicismo, como aponta o professor Hahm (em estudos de 1977). Também há vastas influências aristotélicas por causa de Teofrasto, Xenócrates, Polemon e outros platônicos.

Zenão de Chipre (340-264 a.C.) foi aluno de Crates de Tebas (cidade grega com o mesmo nome da Tebas do Egito, de origem fenícia), onde aprendeu principalmente as idéias de Heráclito de Éfeso, idéias de fundo persa, mazdéistas. Por esta razão, Zenão era monoteísta. O mesmo ocorria com Antístenes. Um dos fragmentos de Antístenes diz: “segundo as leis [positivas gregas], há muitos deuses, mas há apenas Um, segundo a natureza” (cf. Fragmento n. 24).

Zenão também foi aluno de Xenócrates por dez anos, tudo indica até a morte de Xenócrates. Xenócrates deixou como sucessor, na direção da Academia, o filósofo Polemon, que também foi professor de Zenão. Polemon já ensinava que viver corretamente é viver de acordo com a natureza.

Zenão estudou por cerca de vinte anos em Atenas, sendo a maior parte destes anos na Academia, com Xenócrates e Polemon. Xenócrates (396-314 a.C.) chefiava a Academia, o movimento platônico, desde 338 a.C. até 314, ano de sua morte. Depois, Zenão foi aluno de Polemon, o sucessor de Xenócrates. Polemon era pupilo de Xenócrates.

Zenão criou uma escola baseada nas idéias de Sócrates, por mediação de Antístenes, criador dos cínicos, que era socrático; tal como por mediação da Academia. Também fundiu estas idéias com as idéias de Heráclito e, depois, com as idéias éticas do aristotelismo.

A influência aristotélica no estoicismo ocorreu na lógica, na física (no fundo, a física estóica é a física do “Timeu” do livro “Física”, de Aristóteles e da “Metafísica”) e nas idéias éticas. Esta influência aumentou com o ecletismo de Crisipo e foi reforçada no estoicismo médio, mais eclético ainda. Depois, com Cícero e Sêneca, há uma síntese de idéias socráticas, platônicas, aristotélicas e estóicas.

As ligações entre aristotelismo e estoicismo serão detalhadas num post específico mais adiante. Para adiantar um ponto, basta considerar que Cícero escreveu o livro “Hortênsio” baseado no livro “Protréptico”, de Aristóteles.

Marx escreveu corretamente que os estóicos adotaram as idéias de Heráclito, especialmente o conceito “heraclitiano” da “matéria”, “dinânimo, em desenvolvimento e vivo”, refletindo o mesmo conceito ativo sobre Deus, como “Fogo criador”, “Luz” (idéias presentes no judaísmo e no mazdeísmo), “Razão”, “Logos” que governa a natureza e o mundo.

Engels, num de seus últimos textos, no final da vida, num artigo com o título “Bruno Bauer e o cristianismo primitivo”, seguia a mesma opinião que Bauer e Marx. Engels descreveu as semelhanças entre “a filosofia dos estóicos” “em particular, Sêneca” e as idéias do cristianismo primitivo, expostas nos Evangelhos, nos “Atos dos Apóstolos” e especialmente no “Apocalipse”.

Engels apenas dava continuidade aos textos de Bruno Bauer (1809-1882), um teólogo que foi o melhor amigo de Karl Marx na Universidade de Berlim.

Bauer permaneceu ortodoxo-luterano até cerca de 1840, ou seja, durante o convívio com Marx, que tinha como melhor amigo um teólogo.

Bauer escreveu o livro “Cristo e os césares” (1877), sobre a origem do cristianismo. Defendeu, como já o defendera na juventude, que o cristianismo surgiu de uma síntese do judaísmo com o estoicismo, especialmente da linha de Filon e Sêneca. No aspecto humano, há grande verdade nisso.

Filon e os fariseus eram pró-estóicos na parte ética (e o mesmo ocorria com os essênios e terapeutas) e o estoicismo de Sêneca é o estoicismo aberto e eclético, vindo de Crisipo, Panécio, Posidônio e Cícero.

Posidônio (135-50 a.C.) era sírio e eclético, combinando idéias platônicas e aristotélicas com idéias estóicas. Esta linha foi mantida por Cícero, seu discípulo, tal como por Filon de Alexandria e Sêneca.

Engels também ensinou que “os crentes cristãos” notaram estas semelhanças atribuindo à influência hebraica em Sêneca e nos antigos estóicos. De fato, pode ter ocorrido influência hebraica, mas a luz natural da razão bastaria e as melhores idéias da Paidéia foram mesmo recepcionadas pelo cristianismo, numa síntese entre hebraísmo e Paidéia (na parte humana do cristianismo).

Os estóicos, ao contrário dos epicureus, ensinavam, na mesma linha que a Bíblia, que o sábio, toda pessoa, tem o dever de participar da vida social e política (o elogio da sabedoria, feito por Salomão, na Bíblia, é intrinsecamente político).

Os textos de Rufo Musônio são excelentes nesta linha, tal como os de Varrão e de Marcos Pórcio Catão, de Útica, um político romano, estóico, neto de Catão, o Censor. O nome “Marcos”, do Evangelista, era o mesmo que o prenome de Marcos Catão.

A Bíblia, em I Reis, 3,5-12, descreve o amor de Salomão pela sabedoria. Antes, Salomão agradece a Deus pelos dons dados a Davi, seu pai: “de grande beneficência usaste Tu com teu servo, Davi, meu pai”, que “andou contigo em verdade, em justiça e em retidão de coração”. Salomão pede, então, a Deus “um coração” (consciência) “entendido, “para julgar [reger, aplicando as leis de Moisés] a teu povo”, para discernir “entre o bem e o mal”.

A sabedoria prática é, de fato, o conjunto das idéias práticas do bem comum, idéias nascidas da “consciência” (do “coração”). Deus elogia Salomão porque este não pediu para si “muitos dias”, nem “riquezas”, nem a “vida de teus inimigos”, mas sim “entendimento, para discernir o que é justo”. O “coração” “sábio” é, nas palavras de Deus, o que sabe discernir o bem do mal, o que sabe gerar e enunciar idéias práticas para o bem comum.

Há a mesma lição nos “Provérbios” e no livro “Sabedoria” (um tratado de teologia política), atribuídos a Salomão, pela Bíblia.

A sabedoria, na Bíblia, é a capacidade humana de autogoverno pessoal e social e esta concepção deve ter influenciado profundamente a cultura grega, todo o movimento filosófico (o termo “filósofo” traz um indício da influência semita, pois “filósofo” é a pessoa que ama a “sabedoria”, o “saber”).

O ideal político cristão e estóico era humanista.

Zenão de Chipre, Cleantes e Crisipo de Soli (cidade vizinha de Tarso), tal como os outros estóicos, esboçaram a descrição de uma República humanista, sem escravidão, sem “dinheiro”, com controle público da economia.

Os estóicos já explicavam que o direito positivo, para ser legítimo, deve ser pautado pelo direito natural e pelo direito dos povos. Em outras palavras, o direito positivo e todas as estruturas estatais e sociais devem ser pautadas (regradas, regidas, governadas) pelas idéias racionais em adequação ao bem comum.

Os estóicos usavam estas idéias para criticar as leis e instituições positivas, constituídas, tal como fizeram os cristãos e tinham feito os Profetas. Na área cultural hebraica, os fariseus, como destacou Flávio Josefo, tinham inúmeras idéias em comum com os estóicos. Os essênios e os terapeutas também tinham ligação com o estoicismo radical dos cínicos.

As idéias estóicas eram idéias semitas, pois os fundadores da Escola estóica eram de origem semita.

O estoicismo está presente nos textos do judaísmo rabínico, de origem farisaica e também estava nos textos dos grandes juristas romanos, que foram essenciais para criar as linhas do direito romano clássico, especialmente do século II depois de Cristo, já com influência cristã, como será visto.

As idéias estóicas foram elogiadas por Erasmo, Lutero, Zwinglio, Calvino, Montaigne (seguia Sêneca e Plutarco), Descartes, Justus Lipsius, Grócio, Spinoza, Diderot, Holbach, Kant, Schiller, Goethe e até por Frederico o Grande (numa poesia, declarou que era um “philosophe stoicien”).

Nero, Vespasiano e Domiciano perseguiram os estóicos e os cristãos, unindo na perseguição estas duas correntes. Nero ordenou a morte de Sêneca e de Lucano, envolvidos numa conspiração, de Pison, para derrubar Nero. Vespasiano (acompanhado por seu filho, Tito) destruiu Jerusalém, em 70 d.C. e perseguiu os estóicos.

Depois, pelo ano 90 d.C., Domiciano, que governou de 81 a 96 d.C., expulsa os estóicos de Roma, incluindo Epicteto (55-126 d.C.). A partir de 94 d.C., passa a perseguir os cristãos.

A perseguição comum deixa clara as idéias comuns entre cristãos e estóicos. A perseguição a Caio Rufo Mussônio (30-102 d.C.) é paralela à perseguição aos cristãos.

Domiciano expulsou também sua sobrinha, Flávia Domitila, uma cristã, casada com o cônsul Tito Flávio Clemente. O cônsul Tito Flávio foi julgado por acusação de costumes judaicos cristãos e de ateísmo (por não prestar culto aos ídolos). Depois, foi executado.

Domiciano não tinha filho e adotara os dois filhos do casal cristão, dando a estes dois meninos o nome de Domiciano e Vespasiano. Seriam seus sucessores e foram designados para isso. Os meninos foram exilados com a mãe. Flávia Domitila era cristã e, com o marido, foi acusada de participar numa conspiração para derrubar Domiciano. A conspiração não foi provada e há uma versão que diz que um dos filhos adotivos teria sido cooptado pelos judeus, ainda em estado latente de guerra, dando continuidade ao conflito de 70 d.C, que desabrochou novamente em 132 d.C, com Bar Kochba.

Domiciano foi um dos maiores perseguidores do cristianismo, quase no nível de Nero.

Nero e Domiciano perseguiram os cristãos e os estóicos, o que explicita bem os pontos comuns entre estoicismo e cristianismo.

Faltou pouco para que um dos dois meninos cristãos, filhos adotivos de Domiciano, passassem ao cargo de imperador, antecipando o que ocorreria com Constantino Magno ou com Juliano (na versão da cooptação, referida acima).

Em Roma, sobrou a catacumba de Domitila, pois Flávia Domitila tinha doado uma área aos cristãos, à Igreja.

Na catacumba há inscrições com o nome do casal cristão. Domiciano também ordenou a morte de Acílio Glábrio, cônsul, cristão, que morreu em 91 d.C. Em 96 d.C., Domiciano morreu assassinado. Seu sucessor, Nerva, proibiu a perseguição aos cristãos.

Cristo foi morto lá pelo ano de 30 d.C. e Sua Igreja foi perseguida duramente pelos romanos.

Os períodos mais pesados da perseguição ocorreram nos governos de Tibério, de Nero, Domiciano, Décio, Valeriano e Diocleciano. Especialmente durante cerca de quatro anos a mando de Nero e por mais quatro anos, a mando de Domiciano.

Nero e Domiciano perseguiram os cristãos e os estóicos. Depois, Juliano, o Apóstata, atacou os cínicos (ligados aos estóicos) e também os cristãos. Juliano escreveu o livro “Contra os cínicos ignorantes”.

No século II, a perseguição difusa aos cristãos diminuiu um pouco por causa de Trajano. Isto ocorreu em decorrência da carta de Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, em 112 d.C., descrevendo os cristãos como pessoas inocentes, que assistiam de manhã a uma ceia e juravam não praticar o mal.

Adriano também atenuou a perseguição. O mesmo ocorreu com Marco Aurélio. Ainda assim, houve vários mártires, mesmo sob o governo destes imperadores mais sábios e mais ligados ao ideário estóico.

O cristianismo usou (como fica claro nos textos do Novo Testamento e nos textos dos Santos Padres) várias idéias estóicas (populares), por estarem em boa harmonia com as melhores idéias hebraicas.

Os textos de Cícero (“Da República”, “Das leis”, “Dos deveres”, “Da República”, “Da Velhice”, “Da amizade”, “Sonho de Cipião”, “Do orador”, “Verrinas” e outros) foram acolhidos com amor pelos Santos Padres.

Há praticamente um culto a Cícero nos textos de Santo Agostinho, Lactâncio, Tertuliano, Eusébio de Cesaréia (263-337 d.C.), São Jerônimo, Santo Ambrósio e outros.

Cícero, tal como Catão de Útica (também estóico), morreu tentando evitar a destruição das instituições democráticas em Roma.

Os Santos Padres acolheram também os textos de Sêneca, Epicteto, Varrão e também elogiaram os exemplos de Cipião e de Catão, o Censor (os bons exemplos, claro).

Teologia da libertação, em Macróbio, nos estoicos e Cícero

Um exemplo simples da teologia política e da libertação da Paidéia, bem próxima do catolicismo, é o texto de Macróbio, do livro “Sonho de Cipião” (obra divulgada pelo comentário de Cícero).

Neste livrinho, Macróbio coloca na boca de Cipião as seguintes frases: “as almas daqueles que serviram condignamente à comunidade [ao povo], retornam do corpo para o Céu e lá desfrutam da eterna bem-aventurança”.

É basicamente o que está escrito no Profeta Daniel – os justos, os que lutam por justiça social, brilharão, no Céu, pela eternidade. 

Por estas boas idéias, com conteúdo igual aos textos hebraicos, a Igreja recepcionou, com amor, os textos de homens como Sócrates, Platão, Hipócrates, Aristóteles, os estóicos, Posidôni, Varrão, Cícero, Virgílio, Sêneca, Epíteto, Tácito, Salústio, Plutarco, Aulo Gélio, Plotino, Galeno, Porfírio e outros.

O amor cristão aos clássicos (“classicismo”) fica patente também nos textos de Dante, Francesco Petrarca (1304-1374), Camões, Nicolas Boileau (1636-1711, autor de “Arte poética”), Racine, Molière, Dupanloup e no método educacional dos Jesuítas.

O classicismo cristão, explicitado nos textos de Boileau, é outra expressão da linha da filosofia cristã (sempre ecumênica, eclética), que aproveita tudo o que há de verdadeiro na Paidéia e em todas as culturas, à luz da razão e da Revelação, como já recomendava Cristo e também Santo Clemente de Alexandria.

O grande católico Boileau ensinava que toda obra artística, tal como toda obra humana, deve basear-se no melhor da natureza (imitar, seguir, a natureza) e na história (daí, o amor aos clássicos). 

A Paideia foi incorporada pelo Catolicismo, por ser fruto da razão e da influência semita-hebraica, boa e salutar

Como explicou Pio XI, na “Urbi Arcano” (27.12.1922), os primeiros princípios são “os princípios de justiça, que os próprios filósofos pagãos, como Cícero, reconheceram”, chamando-os de “lei eterna” (“eterna” por vim do Eterno, de Deus), “lei universal”, “comum a todos” (daí, “common law), de “lei natural”.

Dentre os jusnaturalistas, há estrelas como: Sófocles, Protágoras, Heráclito, Sócrates, Platão, Xenofonte (autor de “Hieron” ou “Da tirania”), Pitágoras, Anaxágoras, os cínicos, os estóicos, os epicureus, Cícero, Plutarco e centenas de outros grandes escritores, formando a parte mais relevante da Paidéia, incorporada pelo cristianismo, como explicou Werner Jaeger, em suas boas obras.

A Paideia foi incorporada ao cristianismo porque é fruto da razão (que sempre anda em harmonia com a fé e a graça) e pelo fato da Paideia ter amplas fontes semitas-hebraicas, desde o início (inclusive o alfabeto). 

Boa parte da Paidéia grega tem origem semita, no berço da civilização, na antiga Suméria

A Grécia antiga foi também profundamente influenciada pelos semitas, especialmente pela mediação egípcia, dos hitititas, fenícios, assírios, babilônicos (caldeus),  medos,  persas etc. Os persas conquistaram o Egito, a Trácia e a Macedônia. Antes do apogeu de Atenas, a influência fenícia, semita e persa já era imensa. Em 508, Clístenes, um dos principais democratas de Atenas, buscou a aliança persa contra Esparta.

Atenas só consolidou a democracia em 508 ou 507 a.C., por causa da morte dos tiranos, da família Psistrátidas (Hípias e Hiparco). Pois bem, a morte do principal tirano, Hiparco, ocorreu em 514 a.C., segundo Heródoto, por várias causas, sendo uma das principais  a ação de “Aristogíton e Harmódio, gefireus de origem”, de origem fenícia.

Os heróis da Democracia grega, de Atenas, com estátuas em homenagem pela superação da tirania e pela adoção da democracia, são heróis de origem fenícia. 

Segundo Heródoto, a adoção da Democracia em Atenas ocorreu por causa de uma aliança dos democratas com os persas, quando “Mardônio chegou à Jônia”, obedecendo a Ciro, o Grande, libertador dos judeus. Vejamos o texto de Heródoto:

…vou narrar um caso que muito surpreenderá os Gregos, que não acreditaram que Otanes expôs, ao Conselho dos Sete Persas, a opinião de que os Persas deveriam se reger pela democracia. De fato, Mardônio destituiu todos os tiranos dos Jônios e, nas suas cidades, estabeleceu governos democráticos” (cf. “História”, Livro VI, 43.1). 

O general de Ciro, Mardônio, destituiu todos os tiranos da Jônia e nas cidades estabeleceu governos democráticos, cf. Heródoto. 

Ciro primeiro derrotou o reino da Lídia. Depois, derrotou o rei babilônico Nabonido. A  conquista da Lídia, vizinha aos gregos, foi que deu força a Ciro. O filho de Ciro, Cambises, conquistou o Egito, em 524 a.C.

Na Grécia propriamente dita, também havia influência egípcia e fenícia, bem remota e presente.

A cunhagem de moedas tem origem asiática também, pois é uma invenção lídia, lá por 640 a 630 a.C, tendo sido adotada pelos persas e depois pelos gregos. O mesmo vale para o alfabeto, de origem semita. 

A influência egípcia e fenícia está presente na cidade de Micenas, a 90 km de Atenas, pois Micenas, a base da civilização minóica, estava ligada a Creta (daí, a lenda do Minotauro e o papel de Teseu, libertador da Grécia). O rei Agamenon era rei de Micenas, sendo, nas narrativas de Homero, a base política principal da Grécia.

Há uns 25 km de Atenas, havia Tebas, o centro político da Beócia (terra de Hesíodo, de Hércules, de Plutarco, de Antígona e outros), cidade fundada por Cadmo, um fenício. Tebas era uma cidade de origem fenícia, uma colônia fenícia, e foi Tebas quem gerou o alfabeto grego, que é o alfabeto fenício, adotado e alterado em pontos ínfimos. E Tebas é a sede de quase todas as grandes peças de teatro clássicas, de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes etc. 

A escrita grega vem da Fenícia, pela mediação de Cadmo, pois Tebas era uma colônia fenícia. Os dramas do ciclo de Édipo, dos grandes dramaturgos gregos (Ésquilo, Sófocles, principalmente, ocorrem em Tebas, mostrando a importância desta cidade. O drama de Antígona ocorre em Tebas, antiga colônia fenícia.

A criação da escrita fonética (registro de fonemas, facilitado pela estrutura consonantal das línguas semitas) foi uma criação semita, lá por 1.500 a.C. (cf. inscrições em Biblos, cidade ao lado de Tiro), com base na escrita cuneiforme da Suméria, da região ao lado de Ur, terra aramaica de Abraão. Os elamitas, semitas, foram a principal base da melhoria, formulação e divulgação do alfabeto silábico cuneiforme, que gerou o alfabeto de Biblos, de 20 e poucas letras, sendo esta a fonte principal do alfabeto fenício e hebraico (e aramaico). 

A escrita cuneiforme ugarítica, com 30 letras, derivada do alfabeto silábico cuneiforme, é a forma histórica conhecida da primeira escrita fonética. Foi usada de 1.500 a 1.200 a.C., gerando o alfabeto fenício-amaraico (língua irmã do aramaico e do hebraico), lá por 1.000 a.C.. Depois, a escrita fenícia foi adotada pelos gregos, lá por 800 a 700 antes de Cristo.

O alfabeto sumério-ugarítico e fenício, especialmente com base nas línguas semitas (aramaicas), foi também adotado pelos hebreus.

Os hebreus podem ter gerado de forma simultânea o alfabeto. Foi também adotada pelos árabes, tal como pelos latinos e pelos cristãos orientais (na forma aramaica).

O alfabeto fenício-semita, aramaico, foi adotado também na Índia, no bakhti, a primeira forma escrita, baseada neste alfabeto ugarítico-fenício, gerado no complexo cultural sumério, aramaico, semita e hebraico. A cultura indiana recebeu influências do Crescente Fértil, influência semita. A religião hindu, o hinduísmo, tal como o budismo, tem matrizes fenícias, pela escrita adotada, e pelos vínculos entre a área cultural persa-semita (elamita) e a Índia, por causa da invasão dos ários (de origem na área da Pérsia, inclusive perto do Tigre e Eufrates e o Mar Morto), origem dos “ários” (o termo ariano vem dos povos iranianos, com vasta influência semita). Os nazistas distorceram e não entenderam que boa parte da cultura ariana tem origem semita.

A Jônia, a base principal da cultura “grega”, a área que gerou a filosofia grega (não foi em Atenas, e sim na Ásia, na Jônia, onde é a Turquia hoje) sempre esteve banhada pela influência asiática-semita. Esteve sob controle hitita, depois persa-fenício (pois os persas controlavam a Fenícia) de 557 a 479 a.C., tal como de 387 a.C. até ser libertada e colocada sob o controle de Alexandre, o grande.

Os persas, tal como antes os fenícios, estavam em ligação com os hebreus, que estavam dispersos entre os assírios desde 722 a.C. e também cativos na Babilônia, desde 586 a.C.

Nos séculos VIII, VII e VI a.C., boa parte da Paidéia foi gestada na Jônia, na Ásia, mais do que na Grécia. Outra parte brotou do sul da Itália, área ligada aos fenícios, especialmente o pitagorismo. A importância da área da Jônia fica clara até nas narrativas sobre Tróia, pois Tróia fica na Jônia, na Ásia, na Turquia, hoje. 

A filosofia “grega” nasce nas cidades jônias e em relação com a Itália do sul, com a Sicília e a Sardenha, áreas em estreito contato com os fenícios e com o Oriente.

Na Itália, os etruscos, povo que deu origem aos romanos, tinha também origem na Ásia Menor, como explicou Heródoto. Os etruscos eram originários da Cária, uma região ao sul da Jônia. A Cária era chamada, originalmente, de Fenícia, pois era uma colônia fenícia, logo, semita.

São Paulo, um filósofo estoico de Tarso, fariseu, que manteve estas ideias, ao se tornar católico, cristão

São Paulo nasceu em Tarso (cf. At 9,11) lá por 5 d.C. e teria vivido ali até aos 20 anos, até 15 d.C. Depois, partiu para Jerusalém, onde morava uma irmã sua, casada, cujo sobrinho salvou a vida de São Paulo, anos depois. Em Jerusalém, permaneceu de 25 d.C. até cerca de 33 ou 36 d.C, tendo sido aluno do grande Gamaliel, “o rabino erudito mais ilustre de seu tempo” (cf. David H. Stern, “Comentário judaico do Novo Testamento”, Belo Horizonte, Ed. Atos, 207, p. 337, sendo Stern um “judeu messiânico”, um judeu cristão).

São Paulo nasceu na cidade de Tarso, que tinha mais cultura do que talvez houvesse em Alexandria. Foi aluno do principal rabino de seu tempo, o que mostra bem como age a Providência, usando meios naturais como mediações.

Lá por 36 d.C., São Paulo converteu-se e foi assassinado em 67 ou 68 d.C., uns três anos depois do assassinato de Sêneca.

São Paulo fundia, em si mesmo, o melhor da Paidéia e o melhor do pensamento hebraico, tendo como professor Gamaliel, o neto do grande Hilel. Gamaliel salvou São Pedro e os Apóstolos (cf. At 5,34) e há uma tradição que diz que Gamaliel teria se convertido e sido batizado, junto com Nicodemo.

Tarso foi a cidade onde Antônio encontrou Cleópatra, em 41 a.C., tendo feito de Tarso a capital do que seria seu império asiático.

Júlio César também esteve em Tarso, lá por 47 a.C. Augusto (63 a.C. a 14 d.C.) concedeu a cidadania romana aos habitantes de Tarso, o que foi a origem da cidadania romana de São Paulo. A razão para isso deve-se à gratidão que tinha pelo estóico Atenodoro, que nasceu em Tarso.

Atenodoro de Tarso (74 a.C. a 7 d.C.) foi um dos professores de Augusto e foi tutor de Marcelo, sobrinho de Augusto. Atenodoro deixou conselhos éticos a Augusto, conselhos em harmonia com as idéias hebraicas, como: “quando estiveres irado, César, nada digas e nada faças até que tenhas repetido as letras do alfabeto” e “vive de tal modo com os homens como se Deus te visse; fala de tal modo com Deus como se os homens estivessem ouvindo”. Augusto também nomeou Nestor, de Tarsos, para ser o tutor (professor) de seu filho ou sobrinho.

Atenodoro de Tarso, como Cícero, foi aluno de Posidônio, em Rhodes. Posidônio, por sua vez, foi aluno de Panécio. Ora, Panécio era discípulo de Antípater de Tarso. Cícero foi aluno de Posidônio, o que mostra o tanto que o pensamento de Cícero tem origem em Tarso, a cidade de São Paulo, que Cícero governou, em 51 a.C.

Posidônio (135-50 a.C.) nasceu em Apaméia, cidade da Síria, pertinho de Jerusalém, que fica a uns 200 quilômetros de Tarso e 150 km de Chipre. Posidônio é o exemplo perfeito do estóico ligado à tradição de Crisipo. Afinal, Posidônio combinava, numa síntese, estoicismo, aristotelismo e platonismo. Esta síntese está também em Plutarco, Tácito, Galeno, no Pseudo-Dionísio e, depois, em São João Damasceno e Boécio, preparando o que se convencionou chamar de “filosofia cristã”, bem expressa na síntese tomista, .

Atenodoro, no final da vida, voltou a Tarso e ajudou a expulsar Boethus, um tirano. Atenodoro teria auxiliado Cícero na confecção do livro “Dos deveres” (o mesmo título da obra de Antípater de Tiro, outro estóico), livro que influenciou profundamente os Santos Padres (especialmente Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Lactâncio e São Jerônimo). Atenodoro foi o mestre de Apolônio de Epiro.

Em 50 a.C., Atenodoro foi para Roma para ser o professor de Augusto, permanecendo em Roma até 33 a.C. Atenodoro faleceu com 82 anos e era amigo de Estrabão. Houve ainda outro Atenodoro de Tarso, que tinha o apelido de Cordilion. Este segundo Atenodoro era o encarregado da Biblioteca de Pérgamo e era também estóico. Este segundo Atenodoro foi levado para Roma, por Catão de Útica e teria ajudado Cícero na redação do livro “Dos ofícios”, na parte que resume das idéias de Posidônio.

A região em torno de Tarso era uma área onde o estoicismo era bastante cultivado e estas idéias, com certeza, influenciaram São Paulo.

O estoicismo é uma filosofia influenciada desde a origem pelas idéias asiáticas, elamitas, fenícias, dos caldeus, dos persas e também dos hebreus e, por esta razão, pelas idéias em comum, era a filosofia preferida dos Santos Padres (na parte ética) e está presente na lista de virtudes e de vícios, nos textos de São Paulo etc. Após a conversão, São Paulo retornou a Tarso, por algum tempo, para refugiar-se, para refletir, unindo o melhor da Paidéia com o melhor do pensamento hebraico.

As raízes semitas do estoicismo, o que explica a razão do catolicismo e do judaísmo terem acolhido boa parte do estoicismo

O estoicismo nasceu em áreas de cultura semita e fenícia, com base na cultura fenícia-semita. O fundador do estoicismo, Zenão, nasceu em Chipre, terra totalmente influenciada pelos fenícios e judeus, bem perto de Tarso, a cidade natal de São Paulo.

Este ponto foi bem demonstrado pelo padre Eleutério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, vol. I, pp. 25-32). O estoicismo desenvolveu-se, desde as origens, com base em homens banhados pela cultura fenícia-semita, existente na Fenícia (ao lado da Judéia).

Nasceu em lugares banhados pela cultura fenícia e hebraica (tendo grandes colônias hebraicas), como o Chipre, Tarso, Síria e em várias áreas da Palestina e da Mesopotâmia. Todas estas áreas eram banhadas pelas idéias semitas, presentes nas idéias persas, fenícias, assírias e outras.

Houve também influência semita (hebraica) clara nos textos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio (e os três foram influenciados pelo cristianismo, pois mencionam os “galileus”, os cristãos). O mesmo ocorre com Tácito, Galeno, Plutarco, Plotino e outros autores.

Os principais estoicos são homens nascidos na região de Tarso e de Chipre. Esta região tinha tantos judeus que, em 117, estes atacaram os romanos, participando da guerra judaica, contra os romanos. Outros estoicos eram da Síria, da Fenícia, região banhada pelas idéias hebraicas e semitas, presentes na cultura Cananeia-fenícia. Uma prova disso é o o fato do nome principal de Deus, na cultura fenícia, ser “El”, como é na Bíblia.

O nome principal da divindade, na Bíblia, é “El” e isso permanece mesmo quando o culto a Baal prepondera, em conflito com “El”, mas sendo afirmado que Baal nasce de “El” (ver, a propósito, os conflitos de Elias com os sacerdotes de Baal).

Seria possível citar mais de vinte grandes estoicos de origem na cultura semita. Basta, para ilustrar, citar Zenão de Chipre (o fundador do estoicismo), Crisipo (o principal formulador do estoicismo) e mesmo Posidônio, que nasceu na Síria. A região entre Jerusalém e a Síria deu origem também a autores como Porfírio, que nasceu em Tiro, cidade fenícia, ligada culturalmente aos hebreus. A Cilícia era tanto ligada aos hebreus que Polemon II, rei da Cilícia, casou-se com Berenice, irmã de Herodes Agripa II.

Outros grandes estoicos tem origem na Espanha, terra colonizada primeiro pelos fenícios, totalmente influenciada pela cultura fenícia-semita, inclusive por judeus. Os fenícios estavam presente na Grécia, também, pois o alfabeto grego é o alfabeto fenício e Tebas (a cidade base das grandes peças de teatro gregas) é uma colônia fenícia, foi fundada pelos fenícios. Os fenícios também participaram do surgimento da democracia na Grécia, derrotando o tirano que escravizava Atenas e a tornando uma democracia.

Os fenícios também estavam presentes na Lídia, em Sardes, onde também existiam judeus. Fenícios e judeus estavam presentes no Império assírio, babilônico, persa etc. Mesmo Homero, na “Ilíada”, menciona os fenícios, como grandes navegantes. 

Tarso era uma das maiores cidades do mundo, tendo mais de 500.000 habitantes, na época de Cristo. Tarso, Pérgamo e Antioquia, juntas, faziam bom contraponto a Alexandria e a Roma, deixando para trás cidades como Corinto e Éfeso, que eram enormes também.

Xenofonte passou por Tarso, lá por 401 a.C., com os dez mil gregos, citados na “Anabase”. Tarso é mencionada com Tarsis, em Gn 10,4; tal como em 2 Macabeus 4,30-36. Tarso era protegida por Augusto, pois era a terra natal de Atenodoro, um estóico, professor de Augusto. Augusto mantinha relações de amizade com Herodes, que tinha escritores como Nicolau de Damasco (n. em 64 a.C.), um filósofo e um historiador, autor de uma História universal de 144 livros e de uma biografia de Augusto. Josefo utilizou vários textos de Nicolau de Damasco.

Theodore Reinach (1860-1928) escreveu um livro chamado “Textos de autores gregos e romanos relativos ao judaísmo” mostrando as ligações antigas entre o judaísmo e a filosofia grega, especialmente o estoicismo. Theodore era irmão de Solomon (arqueólogo e historiador) e de Joseph Reinach, o chefe de Gabinete de Gambetta. Theodore dirigiu, por anos, a “Revista de Estudos Gregos”. Seus estudos mostram a mesma tese dos Santos Padres: o pensamento judaico influenciou o pensamento grego e romano, por dentro, auxiliando a luz natural da razão a gerar ideias bem próximas do cristianismo, preparando o surgimento do cristianismo.

No mundo judaico, o cristianismo foi, no prisma humano, a continuidade do movimento dos fariseus (“perushim”). Estes já estavam realizando sínteses com a Paidéia, adotando um ecletismo filosófico que juntava as idéias estóicas, platônicas etc e o mesmo ocorria com os essênios.

Os fariseus são a base dos essênios e dos zelotes, pois essênios e zelotes são variações do movimento fariseu. O helenismo e as idéias hebraicas já estavam em diálogo intenso antes do helenismo e, principalmente, depois.

No mundo judaico, uma parte dos sábios passou a adotar nomes gregos no século III a.C., tal como antes adotara nomes egípcios, babilônicos e persas. Antígnos de Sochos é tido como o primeiro a adotar um nome grego e dois de seus discípulos, Tsadoc e Betus, romperam com a Torah oral (“Lei oral”, defendida pelos fariseus e pelos católicos) e adotaram o hedonismo, as idéias de Epicuro (foram chamados de “epikaros”, de epicureus).

Segundo o Talmud, Tsadoc e Betus foram os fundadores das seitas dos saduceus e dos betusianos. No caso dos saduceus, houve erros, pois rejeitaram o substrato estoico contido na crença dos fariseus. Os fariseus eram a seita mais próxima do cristianismo, ponto que Cristo destacou. 

O Talmud chama a pessoa que ataca a fé de “o epicurista”. Só este fato já demonstra bem o elogio fariseu das idéias estóicas no Talmud. Flávio Josefo chamava os fariseus de “os estoicos hebreus”. 

Os rabinos, tradicionalmente, chamam de “apiqoros” (epicureus) as pessoas que negavam a vida após a morte. Também usaram o termo “apiqoros” para designar os pagãos. Esta crítica rabínica aos epicureus é outro sinal claro do amor judaico ao estoicismo, de fundo semita, também.

Conclusão – a filosofia cristã e hebraica é formada de uma síntese do melhor da Paideia com o melhor do Tradição hebraica, sendo uma síntese eclética, unindo os melhores textos dos órficos, dos pitagóricos, do platônicos, dos aristotélicos e dos estoicos e, depois, do hermetismo. O mesmo vale para o pensamento muçulmano, como pode ser visto nos melhores textos da comunidade muçulmana no Cairo.

No fundo, é praticamente o credo da última fase de Diderot, que morreu panteísta e adepto de Seneca, estoico. 

Mably, Rousseau, Marat e Paine defenderam economia mista, com Estado social

Mably fundamentava suas idéias políticas nos seguintes autores, citados por ele mesmo, nesta ordem: “Políbio, Tucídides, Plutarco, Tito Lívio, Salústio e Tácito”, que ele “lia todos os dias” e “todos os dias encontrava alguma nova luz que ele não havia percebido antes”. Também destacava “o tratado das Leis de Platão e sua República” e o livro “Política” de Aristóteles.

Mably, como os santos Padres, mesclava o melhor da Paidéia com as idéias bíblicas, semita-hebraicas e, com estas fontes, defendia economia mista, distributismo e Estado social.

O ideal de Mably era uma “República federativa”, de fundo pequeno burguês, camponês e artesã, formada por pequenos proprietários e tendo vasto patrimônio público aberto a todos. No fundo, este ideal é o ideal histórico da Doutrina Social da Igreja, como pode ser visto até nos textos de De Gaulle. Também era o ideal de Rousseau, exposto principalmente nos livros “Projeto de constituição para a Córsega” e projeto de constituição para a Polônia.

Também era o ideal de Paul Jean Marat, que deixou ótimos textos, inclusive penais, junto com textos horríveis sobre guilhotinas (joio….). Em parte, era o ideal de Thomas Paine, inclusive nos seus textos sobre renda universal, a ser dada pelo Estado, para erradicar a miséria. 

Rousseau apenas repetia as lições de Platão, de Aristóteles e da própria Bíblia, nas leis de Moisés, nas regras do livro “Provérbios”, nos textos dos Profetas, nas lições do próprio Cristo e de Maria, sobre a difusão de bens para todos, adotando o critério bíblico de “a cada um, de acordo com suas necessidades” (cf. “Atos dos Apóstolos”, capítulos 2 e 4, lição duas vezes repetida, tendo Marx colhido da Bíblia a regra principal da divisão dos bens). 

O elogio constante da Igreja aos grandes filósofos da humanidade, como Cícero, os estoicos, Platão e outros

Como explicou Pio XI, na “Urbi Arcano” (27.12.1922), os primeiros princípios são “os princípios de justiça, que os próprios filósofos pagãos, como Cícero, reconheceram”, chamando-os de “lei eterna” (“eterna” por vim do Eterno, de Deus), “lei universal”, “comum a todos” (daí, “common law), de “lei natural”. Dentre os jusnaturalistas, há estrelas como: Sófocles, Protágoras, Heráclito, Sócrates, Platão, Xenofonte (autor de “Hieron” ou “Da tirania”), Pitágoras, Anaxágoras, os cínicos, os estóicos, os epicureus, Cícero, Plutarco e centenas de outros grandes escritores, formando a parte mais relevante da Paidéia, incorporada pelo cristianismo, como explicou Werner Jaeger, em suas boas obras.

Como ensinaram os Santos Padres e os grandes escolásticos, a expressão “lei natural”, no sentido estrito, significa “os primeiros princípios da razão prática, evidentes pelos termos, ou as conclusões que necessariamente se seguem deles” (cf. Duns Scotus), em outras palavras, as ideias práticas da pessoa comum, dos trabalhadores.

Em sentido lato (amplo), pertence à lei natural tudo que tem consonância com os primeiros princípios, ou seja, com os princípios gerais de ética e de direito, comuns a todas as pessoas e povos. Os princípios atuam como uma luz geral que produz outras normas (regras) menores. Os primeiros princípios são evidentes e estão presentes na maior parte das pessoas, no povo. 

Conclusão: lei natural são as ideias práticas do povo, a constante entre as variabilidade humana, a média, as ideias normais e cotidianas do povo, as ideias mais comezinhas e simples, compartilhadas até pelas crianças. 

A linda cultura clássica, sempre útil, boa e atual

O amor dos papas italianos, a maior parte dos Papas, na verdade de todos os Papas, pela cultura clássica mostra bem o amor da Igreja pela cultura clássica. Todo o Renascimento mostra isso. E teve como epicentro a Itália, a Igreja. A Igreja sempre apreciou autores como Virgílio, Cícero, Horácio, Catão, Plutarco, Varrão e outros. Este amor à cultura faz parte intrínseca e essencial do catolicismo, um movimento de universalismo, de ecumenismo, de ecletismo verdadeiro. Um exemplo do apreço católico a Cícero e a Sêneca é o livro “Ensinamentos dos antigos”, de Frei Bartolomeo dea San Concordio (1262-1347), que traz textos destes dois autores, mais textos de Ovídio e outros. O bispo Dom Martins Terra, no DF, é outro bom exemplo, pena que não se tenha dedicado quase nada à questão social, um erro, mas pelo menos foi correto ao amar e difundir a cultura clássica, em seus vários livros. 

Pular para a barra de ferramentas