Arquivos para : A “Fórmula” católica-ortodoxa-luterana-anglicana de extenso Estado social e econômico e economia mista, dos Expoentes da Doutrina Social da Igreja

A grande lição democrática, de Frei Marsílio de Pádua, um grande teólogo católico

Um exemplo da influência democrática de Aristóteles, como apontou João Paulo II, é o livro de Marsilio de Pádua, “Defensor da paz” (24.06.1324), onde este frade franciscano, nos anos 1300, fiel aos ideais democráticos de São Francisco de Assis (e de Santo Antônio de Pádua), defendia a soberania da sociedade (do povo, da “universitas civium”, defendia a Democracia).

As idéias principais de Marsílio são baseadas nos textos de Aristóteles (chamado com respeito de o “Filósofo”). Marsílio cita 81 vezes o livro “Política” e 14 vezes a “Ética a Nicômaco”.

Marsílio citava, também, outras obras de Aristóteles, como a “Retórica”, a “Física”, a “Metafísica”, “Da alma”, “Da geração” e “Analíticos” etc.

Marsílio citava, ainda, Cícero e Sêneca, dois autores estóicos (Cícero combinava uma platonismo aberto com estoicismo, a mesma linha de Filon de Alexandria). Como era católico, Marsílio citava os livros dos Santos Padres, especialmente de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo, Santo Isidoro de Sevilha, São Bernardo, Egídio Romano, Tiago de Viterbo, as “Decretais” de Graciano e outras obras dos Santos Padres, para abonar a tese da soberania da sociedade, do povo.

Marsílio, seguindo a tradição bíblica e dos Santos Padres (com respaldo também nas idéias gregas e romanas, especialmente Aristóteles, Cícero e Sêneca), demonstrou que as leis positivas, tal como todas as instituições políticas e jurídicas, devem ser ditames (regras, idéias) práticos da razão, das ideias prática do povo e, se forem assim, serão também a expressão da vontade de Deus. Em outras palavras, utilizava o conteúdo da máxima “vox populi, vox Dei”.

Marsílio, no livro “O defensor da paz” (Petrópolis, Ed. Vozes, 1997, pp. 124-125), citava Aristóteles:

“… no livro IV da “Ética a Nicômaco, cap. 5º, no tratado sobre a Justiça, [Aristóteles] ter declarado: “Por esse motivo não permitimos que um homem governe senão de acordo com a razão (Aristóteles, “Ética a Nicômaco”, V, 11), isto é, a lei” [lei natural e a positiva, baseada na natural, na razão] (…). O Filósofo [Aristóteles] manifesta idêntica opinião no capítulo 9º desse livro ao dizer: “De fato, querer que o espírito governe, é de certa forma o mesmo que desejar que Deus e as leis governem” (…)

Em seguida, explicando seu ponto de vista, [Aristóteles] acrescenta: “Porque a lei é razão isenta de toda paixão (Aristóteles, “Política”, III, 16), como se quisesse dizer que a lei é razão ou conhecimento sem a influência do apetite”.

Marsílio ressaltou que “o objetivo precípuo da lei” positiva, do Estado, “é concorrer para o bem comum e para o que é justo na cidade”. Assim, os atos que proporcionam e garantem o bem comum chamam-se de justos, dado que a justiça tem como objeto o bem comum. Como fica evidente, é a doutrina social clássica da Igreja.

O livro de Marsílio foi condenado pelo Vaticano não por estas teses corretas (o bom trigo), mas sim por favorecer as pretensões do Imperador, do partido gibelino, que tentava controlar a Igreja, cerceando a independência da Igreja. Marsílio chegou a defender que o Imperador poderia até destituir e corrigir o Papa e também disse que os textos papais e da Igreja estavam subordinados ao Imperador. Estes erros, joio, sim, foram condenados pelo Vaticano, pois a Bíblia e a fé não estão sujeitas ao poder temporal.

O poder temporal é que está sujeito, naturalmente, à consciência das pessoas.

O livro de Marsílio tem duas partes: a primeira, sobre a teoria política baseada em Aristóteles; a segunda, sobre a estrutura da Igreja. Na primeira parte, Marsílio exagerava o poder do Imperador e permitia ingerência estatal indevida na Igreja. Na segunda parte, defendia o poder dos bispos (especialmente através dos Concílios) e ataca o Vaticano.

Marsílio respeitava o papa como o bispo de Roma e até o primado do Papa, mas o subordinava ao Imperador e aos demais bispos reunidos. Por estas razões foi condenado. Suas idéias democráticas são idéias clássicas e dos Santos Padres e não foram condenadas. A parte boa de Marsílio é a defesa do Colégio de Bispos, que devem ter ampla parte na gestão da Igreja, na forma de Sínodos (Conferências Episcopais), e na forma de Colégios de Padres, nas Dioceses. 

A condenação do livro de Marsílio ocorreu pelos erros acima especificados, especialmente na parte sobre eclesiologia (subordinação da Igreja ao Estado, quando estes devem ser independentes entre si) e na parte sobre o exagero do poder do Imperador.

Marsílio permaneceu católico durante toda a vida e suas idéias políticas eram baseadas em Aristóteles, Sêneca, Cícero, Santo Agostinho e os Santos Padres, que eram as mesmas fontes e idéias presentes nos textos de Santo Tomás de Aquino e neste ponto estava certo, expressando, assim, pontos da Doutrina social da Igreja.

Conclusão: os textos de Marsílio sobre a origem e a natureza das leis positivas, como expressão da razão, presente em todos, no povo, foram retirados da Bíblia, dos Santos Padres e de autores gregos e romanos, como Aristóteles e Cícero, de fontes aristotélicas e estóicas, junto com os dados da Bíblia.

A tese da soberania do povo está também, implícita, nos textos de Santo Tomás de Aquino, tal como, mais tarde, na Escola de Salamanca e foram revividos nos textos de Suárez e Bellarmino. Estes escritores católicos ensinavam que a razão, presente em todos (este ponto era frisado contra os averroístas), é a base da consciência da sociedade e esta é a matriz, a rainha natural, da sociedade e do Estado.

Grandes padres – o abade de Saint Pierre, Galiani, Antônio Genovesi, Mably, Condillac, Raynal, Sieyes, Jacques Roux, bispo Gregório e outros

O Abade de Saint Pierre queria um Estado mundial. Correto. Foi elogiado por Rousseau, a quem influenciou.

Galiani, Mably e Genovesi queriam uma síntese de economia mista, com protecionismo, proteção estatal, intervenção estatal e difusão de bens. 

O abade Raynal atacou duramente o colonialismo. Mostrou que a exploração dos países mais pobres só traz ruínas. 

O abade Condillac e seu irmão Mably conciliaram o melhor do empirismo com o amor ao raciocínio dedutivo, numa linha que Leibnitz apreciaria, se estivesse vivo nesta época. 

Os padres Sieys, Jacques Roux e o bispo Gregório, tal como centenas de outros padres e milhões de leigos, foram responsáveis pelo melhor da Revolução Francesa, contando com leigos muito religiosos, como Robespierre. 

Em outras postagens, vou detalhar a contribuição de cada um destes padres. Os Curas da Revolução de 1817, no Brasil, também dirigiram uma das melhores revoluções. 

O bom Plano de Rousseau – Economia mista, difusão de bens, Estado social amplo. Democracia popular

Rousseau, no livro “Projeto de Constituição, para a Córsega”, escreveu: “minha pretensão [projeto, plano, ideia-mestra] não é destruir totalmente a propriedade privada, porque isso é impossível, e sim encerrá-la em um marco mais estrito, dar-lhe uma medida, uma regra, um freio, que a contenha, que a dirija, que a subjugue e a mantenha sempre subordinada ao bem público [bem comum, de todos]. Quero, em uma palavra, que a propriedade do Estado seja tão grande e tão forte, e a dos cidadãos tão pequena e tão débil quanto possível” (e difundida, distribuída, morcillada, completo eu…). 

Na mesma obra, Rousseau explica: “É necessário que todo o mundo viva e que ninguém se enriqueça. Eis aqui o princípio fundamental da propriedade da nação e a política que eu proponho”, meu “objetivo”.  

Enfim, economia mista, distributismo, Estado social, democracia popular.

A mesma meta do abade Mably, precursor de Rousseau. Rousseau aprendeu isso em obras como “Dúvidas propostas aos filósofos economistas sobre a ordem natural e essencial das sociedades políticas”, obra de Mably com críticas aos erros dos fisiocratas. 

No livro “Discurso sobre a origem da desigualdade”, Rousseau critica a propriedade capitalista, e não a propriedade artesã, campesina, da pequena burguesia, dos artistas, dos técnicos, dos intelectuais, das famílias. Critica a grande propriedade fundada no trabalho alheio e na usurpação dos bens destinados a todos. A boa linha de Mably, grande precursor da Doutrina social da Igreja. A linha bíblica, de Cristo, dos Santos Padres. 

A minha meta, também. E, acredito, a meta dos melhores expoentes da doutrina social da Igreja. 

A boa lição democrata popular, de José Honório Rodrigues, grande historiador brasileiro

Como ensinava José Honório Rodrigues, em “Conciliação e reforma no Brasil”, a “minoria dominante” (os ultra ricos, o grande capital, o latifúndio e as multinacionais) “nunca viu” o povo como “criatura de Deus, nunca o reconheceu”, pois esta minoria ínfima (0,01% da população), que empesta o cenário cultural e público, é “alienada, antiprogressista e antinacional”, entreguista, traíra, golpista etc.

José Honório Rodrigues, na linha de Alceu, ensinava que o povo deve, a cada dia, organizar-se, para combater os usurpadores de sua soberania, combater os opressores que controlam o Estado para manterem suas fortunas obscenas, a acumulação obscena. Os pobres devem controlar o Estado, para tirarem o supérfluo dos ricos, para termos igualdade social.

Padre Luiz Couto, um padre deputado federal pelo PT. Uma estrela dos direitos humanos e sociais

Resultado de imagem para padre luiz couto

O padre Jacques Roux, uma das lideranças clericais da Revolução Francesa

Na Revolução Francesa, o padre Jacques Roux foi o principal líder intelectual e prático dos enraivecidos, “enragés”, sendo, assim, uma das principais lideranças intelectuais da Revolução. Vários livros foram escritos sobre o padre Roux. Por exemplo, Dommanget (M.), “Jacques Roux, le curé rouge”, “O cura vermelho” (Paris, 1848; Markov (W), “Jacques Roux Scripta et Acta” (Berlim Est., 1969); Markow (W), “Die Freiheiter des Priesters Roux” (Berlim, 1967); ou Rose (R.–.), “The Enragés: Socialists of the French Revolution?” (Melbourne, 1965).

George Woodcock, no livro “Anarquismo” (vol. I, Porto Alegre, Ed. L&PM, 1983), escreveu boa síntese sobre o padre Jacques Roux:

“Jacques Roux, o mais célebre dos Enragés, era um dos sacerdotes da revolução, um padre da zona rural que, mesmo antes de chegar a Paris em 1790, já havia sido acusado de incitar os camponeses do seu distrito a queimar e pilhar os castelos dos proprietários que tentavam fazer valer seus direitos aos tributos senhoriais:

“A terra pertence a todos” [princípio cristão da destinação universal dos bens], teria ele dito aos seus paroquianos.

Continuou a ser padre depois da Revolução, na qual parece ter visto um reflexo do espírito do Cristianismo: certa vez, definiu sua tarefa como sendo “a de tornar os homens tão iguais entre si quanto são iguais por toda a eternidade diante de Deus”.

Helvetius nunca foi ateu, e foi avô de um grande católico, chamado Albert de Mun

Claude-Adrien Helvétius (1715-1771) não foi materialista, e sim teísta, seguidor do empirismo ligado a Locke, que teve, como expoente maior, o padre Condillac. Helvetius seguia principalmente os livros do padre Etienne de Condillac, “Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos” de 1746 e “Tratado das sensações”, 1754. Condillac era irmão do abade Mably, outro grande precursor da doutrina social da Igreja. 

As obras principais do próprio Helvétius foram “Do espírito” (Paris, 1758) e o “Tratado sobre o homem, suas faculdades intelectuais e sua educação” (Londres, 1772, póstuma). Nestes livros, o ponto central é o utilitarismo, com base nos textos dos empíricos e dos iluministas cristãos escoceses. A “utilidade” social ou comum é uma expressão sinônima de “bem comum”. No fundo, é a ideia de Cícero e da Bíblia, o bem comum (o que é útil a todos) é a base de toda a ética. 

Leão XIII, na “Immortale Dei”, também ensinou que “a soberania não está ligada a nenhuma forma política”, estas são variáveis e históricas, flexíveis, adaptáveis. O ponto central é que todas as formas políticas devem promover “a utilidade” social, o “bem comum”. Stuart Mill mostrou como o utilitarismo interpretado de forma ética, utilitarismo ético, tem mesmo uma base correta, sendo o mesmo que o eudemonismo aristotélico, platônico e estoico. 

O bisneto de Helvétius foi Adrián Albert Maria de Mun (1841-1914), expoente da doutrina social da Igreja e do socialismo cristão. Mun também defendeu a tese do primado do bem comum, que é a mesma tese de Helvétius, sobre o primado do interesse geral, da sociedade.

De Mun, num artigo publicado no jornal da “Associação Católica”, em 15.09.1878, disse: “nos chamam de socialistas, porque pomos de relevo o que há de legítimo nas reivindicações dos operários”. Em 1885, publicou o livro “A questão operária” e, mais tarde, apoiou o movimento republicano na França, seguindo a orientação de Leão XIII.

No livro de Will e Ariel Durant, “A história da civilização” (Rio de Janeiro, Ed. Record, 1965, vol. IX, “A era de Voltaire”, pp. 622-632), há um bom resumo das idéias de Helvétius, com a conclusão: “ele não era um ateísta” (p. 627). Helvétius, quando seu livro “Do espírito” foi proibido, em 1758, protestou, dizendo:

“De que impiedade podem me acusar? Em nenhuma parte deste trabalho neguei a Trindade ou a divindade de Jesus, ou a imortalidade da alma, ou a ressurreição dos mortos, ou qualquer outro artigo do credo papal; consequentemente, de forma alguma ataquei a religião”.

Em seguida, Helvétius escreveu uma carta a um padre, retratando-se de qualquer erro e assinou um texto ressaltando sua religiosidade etc. Como escreveu Will Durant, Helvétius “não era um ateu”, ele elogiava o cristianismo e queria uma “religião universal”, baseada na “moralidade natural”: “um homem honesto irá sempre obedecer à sua razão…”, porque “Deus é o autor da razão humana” (cf. p. 627). Também escreveu: “a religião não é mais que a perfeição da moral humana” e a religião natural “consiste na moralidade fundada sobre os verdadeiros princípios” da razão.

No final do livro “Do espírito” (São Paulo, Ed. Abril, 1984), Helvétius elogiou as “leis naturais” com as quais Deus, a “Inteligência suprema”, organiza a natureza: “Toda a natureza depende” do “Ser inteligente” e “supremo”, que “dá o movimento e a vida a toda a matéria” e “não há um átomo dessa matéria que não seja dependente dessa Inteligência infinita, que não seja por ela governado e regido”. No fim do livro, há capítulos onde responde à censura de materialismo e impiedade, demonstrando o “absurdo dessas acusações”.

Nesta mesma obra, Helvétius escreveu um capítulo de elogio aos jesuítas e à República dos guaranis, com os títulos: “Que nada prova melhor o poder prodigioso da legislação do que o governo dos jesuítas”. Reconheceu, também, na mesma linha de Pombal, que “os jesuítas” fizeram “os reis tremerem” e que executaram “os maiores atentados” (regicidas). Helvétius redigiu capítulos específicos sobre estes “grandes atentados”, e “Que estes atentados podem ser igualmente inspirados pelas paixões pela glória, pela ambição e pelo fanatismo”.

Um capítulo importante, a meu ver, tem o título “Que sem os jesuítas não se teria jamais conhecido todo o poder da legislação”. Nesta mesma obra, chama os jesuítas de “regicidas”, reconhecendo implicitamente que as idéias políticas de Suárez ordenam a resistência aos tiranos e às leis iníquas.

Seguindo as idéias de Hutcheson, do iluminismo cristão escocês, Helvétius ensinava:

“Para ser virtuoso é necessário unir a nobreza da alma com uma mente esclarecida. Quem quer que combine esses dons conduz-se de acordo com as normas da utilidade pública [da utilidade social, de todos, do bem comum]. Esta utilidade [o bem comum] é o princípio de todas as virtudes humanas, ea fundação de toda a legislação…Todas as leis devem seguir um único princípio, a utilidade do público [da sociedade]–isto é, do maior número de pessoas sob o mesmo governo… Esse princípio contém toda a moralidade e toda a legislação” [textos da obra “Do espírito”, pp. 6 e 17].

Helvétius, na tradição ética, tem idéias socialistas, condenando a “desigual repartição” dos bens, a divisão da sociedade entre os que “não têm o que é necessário para a vida” e os que vivem mergulhados “na superfluidade”. A “solução” é “multiplicar o número de proprietários, promovendo-se uma nova distribuição da terra”, “quando a terra de um homem ultrapassa um certo número de acres, ela deveria ser taxada numa proporção que excedesse à sua renda”. A “redistribuição” dos bens deve “ser executada por meio de contínuas” “alterações”. É a mesma ideia bíblica, de Moisés. 

Periódicas distribuições é o núcleo da fórmula antiga de Moisés, exposta no início da Bíblia (especialmente em “Levíticos” 25,10). No ano sabático, as famílias recebiam de volta suas terras (o principal meio de produção na época) cedidas, os servos e escravos recuperavam a liberdade e as dívidas eram perdoadas. Esta fórmula dava ao Estado o dever (a função) de efetuar periodicamente redistribuições de bens, para evitar dois males: a miséria e a acumulação (riqueza privada).

O ponto essencial nos textos de Helvétius é a relação entre a ética e a política. Para ele, todas as pessoas tendem a seguir os interesses privados, a buscar o prazer pessoal e cabe à ética cercear estes interesses para adequá-los aos interesse geral, da sociedade.

A função principal do Estado é, através da legislaçaõ, regrar os interesses individuais, harmonizando-os e, assim, promover o interesse geral. Ou seja, cabe a própria sociedade, pela mediação do Estado, pela legislação e pela educaçao, adequar (limitar, regrar) os interesses individuais ao interesse geral, no fundo, ao bem comum, pois o interesse geral é justamente o bem comum. A ferramenta mais importante do Estado é a educação (para formar “almas sábias e virtuosas”).

Conclusão: as melhores idéias de Helvétius (especialmente a idéia do primado do bem comum, da utilidade de todos) não eram novas, seus textos foram denominados, pelo próprio Voltaire (teísta, também), como uma “omelete” (“omelet”), uma mistura de idéias antigas (ovos antigos, ideias cristãs), com algumas novas ideias cristãs, como o iluminismo escoces. 

Boas lições políticas de São Pio X

São Pio X, na alocução consistorial “Primum vos” (de 09.11.1903), sintetizou bem as proposições principais do cristianismo: “é nossa missão e nossa obrigação iluminar” [ampliar as luzes] “as noções [idéias] fundamentais da ordem natural [da razão] e da ordem revelada [as idéias reveladas], que estão, hoje em dia, obscurecidas e borradas por todas as partes”.

Pio X completou: “a Igreja” “não estorva”, e sim, “ao contrário, favorece uma autêntica e sincera liberdade, que permite a todos o bem e a justiça”. Afinal, “a fé” não é “contrária à ciência”.

No fundo, completou Pio X, “a verdade é que a fé favorece, e não pouco, o desenvolvimento da ciência”, dado que, mesmo “prescindindo das realidades sobrenaturais”, “são muitas e muito importantes as coisas da ordem natural que podem conhecer a razão humana; mas, ajudada pela fé, pode a razão alcançar um conhecimento mais seguro e claro delas”.

Não há “contradição entre a verdade natural e a verdade sobrenatural, pois as duas procedem da mesma fonte última que é Deus” (a voz humana foi feita para atuar em dueto, num coro, com a voz divina). Assim, “os inventos humanos, os descobrimentos da experiência, o progresso das ciências, em uma palavra, tudo o que contribui para melhorar a vida moral humana, merece a plena aprovação de Nós”. E, “mais ainda, devemos fomentá-lo, seguindo nisso o exemplo de nossos predecessores”.

A síntese do Padre Charles Antoine, no livro “Curso de economia social”, muito lido e acatado

O padre jesuíta Charles Antoine escreveu uma obra importante chamada “Curso de economia social”, que foi elogiada por um dos principais teóricos cooperativistas, Charles Gide. Gide é considerado o principal teórico cooperativista e defendia um socialismo cooperativista, desenvolvendo idéias de Buchez, Lamennais, Owen, Fourier e outros socialistas cristãos, tal como as idéias dos cooperativistas de Rochdale, de 1844. Buchez é bem anterior.

Antoine expôs, num bom texto, o que chamou de “movimento democrático universal”, do qual a democracia liberal e o socialismo são apenas “etapas”.

Antoine concordava com vários “remédios propostos pela escola socialista”, como, “por exemplo, as resoluções do Congresso Socialista de Marselha, de setembro de 1892”, que pediam mais democracia e medidas de “proteção das mulheres e dos meninos, a regulamentação do trabalho da noite”, a ampliação da legislação do trabalho etc, tal como o combate à “especulação”, aos “monopólios e açambarcamentos”. A conclusão de Antoine era clara: “não podemos deixar de aprovar estas medidas”.

Mais adiante, Antoine, com base num texto de Leão XIII, destaca “a existência de um movimento democrático universal”:

“… é preciso ter em conta um fato importante: a existência de um movimento democrático universal. Discuta-se o que se queira, a etimologia, o valor, a conveniência e a oportunidade da palavra democracia, não por isso deixa de ser menos certo o fato desse movimento democrático universal, afirmado nestes mesmos termos pelo Santo Padre a Monsenhor Doutrelox (Bispo de Liége, Carta Pastoral, 14-02-1894, p. 21)”.

O “movimento socialista” foi considerado corretamente, pelo padre Antoine, como um capítulo do “movimento democrático e operário”. Os tipos concretos de propostas socialistas tinham erros (desprezo da pessoa e da liberdade) e boas idéias, mas o ponto essencial é que “o movimento democrático e operário” era benéfico, tendo idéias corretas, em meio a idéias erradas como o anticlericalismo:

“Graças a esta confusão, operário honrados e bons, que de maneira alguma participam das doutrinas coletivistas, se unem, no entanto, ao partido socialista operário, para fazer com que triunfem as reivindicações operárias que consideram justas”. “O movimento operário é a conseqüência da evolução social e da transformação econômica do mundo moderno”.

Esta é a mesma opinião expressa por Alceu Amoroso Lima, quando, em várias obras, descreveu o movimento de democratização que deve atingir o processo produtivo, social, cultural etc.

Alceu defendeu a fórmula distributista para superar o capitalismo liberal e o estatal, pugnando pela difusão da democracia nas relações produtivas (através de boas estatais, formas de co-gestão, de autogestão e de planejamento participativo) e no Estado. Alceu queria uma Democracia popular, um socialismo de economia mista, participativo, democrático, popular. 

João XXIII, na “Mater et magistra”, também descreveu o movimento de ascensão dos trabalhadores (tal como das mulheres e das nações do terceiro mundo), já antes referido pelo padre Charles Antoine, com base nos textos de Leão XIII.

O socialismo mencionado de forma crítica pelo padre Antoine era o socialismo mesclado com atéismo e ditaduras. O próprio Antoine reconheceu as idéias e as reivindicações corretas do movimento operário e do movimento socialista.

Pio XI, na “Quadragesimo anno”, também ressaltou a convergência histórica entre catolicismo e socialismo democrático, destacando inclusive a tese comum da estatização dos meios de produção e dos recursos cujo controle propiciasse excesso de poder. Há a mesma constatação nos textos de João XXIII e de Paulo VI. Neste sentido, Leônidas de Rezende – em obras da década de 50, do século passado – também demonstrou a convergência entre socialistas, positivistas e católicos.

O Desembargador Osny Duarte Pereira (no prefácio de seu livro sobre o ferro e a indústria siderúrgica) também elogiou Pio XI por este papa ter defendido a estatização e a socialização dos bens materiais que atribuíam um poder excessivo aos particulares.

Conclusão: há uma linha (plano) histórica e evolutiva (providencial, pela mediação da liberdade humana) no movimento histórico da humanidade. É um movimento de democratização, de ascensão do homem comum, do trabalhador, dos “humildes” e “pobres”, como está claro no cântico de Maria.

O movimento democrático (na esfera política, econômica, cultural, educacional, das comunicações, étnico etc) visa à superação do liberalismo (de abolição do latifúndio e das grandes fortunas privadas), em prol de uma democracia popular e participativa, ou seja, instaurar e criar formas de socialismo humanista, participativo e democrático compatíveis com o “movimento democrático universal” (cf. Marciano Vidal).

O movimento democrático atinge todas as nações, pois nasce do movimento consciente das pessoas em busca de libertações, da luta consciente contra todas as formas de opressão. Neste sentido, a consciência é elástica, as provações tendem à purificação, à melhoria do ser humano.

A influência boa do catolicismo sobre Garibaldi e outros expoentes da democracia popular no século XIX

Giuseppe Garibaldi (1807-1882) defendia uma democracia social avançada. Em 1833, aderiu ao movimento “Jovem Itália”, de Mazzini (um homem profundamente religioso, ainda que heterodoxo), que sucedera ao movimento carbonário (o carbonarismo era todo empapado de catolicismo, até mesmo em seus ritos, senhas, juramentos e costumes). Em 1834, Garibaldi teve que refugiar-se no Brasil, onde lutou sob o comando de Bento Gonçalves da Silva (1788-1849, com boa religiosidade), na Revolução Farroupilha. Auxiliou Canabarro na tomada de Laguna. Conheceu Anita Garibaldi em 1839, que passou a ser sua esposa. Saindo do Brasil, Garibaldi foi para o Uruguai, onde formou a Legião italiana, para lutar contra Rosas. Mais tarde, foi um dos líderes da campanha pela unficação da Itália, com Mazzini, Cavour e várias lideranças católicas.

Garibaldi foi grão-mestre da maçonaria, sob os ritos religiosos de Misraim e de Memphis, que se fundiram no rito Memphis-Misraim. Mesmo sendo maçon, foi influenciado pelo catolicismo, como será mostrado abaixo. 

Yvonne Capuano, na obra “De sonhos e utopias – Anita e Giuseppe Garibaldi” (São Paulo, Companhia Melhoramentos, 1999), demonstrou os sentimentos religiosos de Garibaldi, hauridos de sua genitora, Rosa, usando textos de uma autobiografia do próprio Garibaldi:

“Dona Rosa, sempre lembrada com admiração por Garibaldi, foi assim citada em suas Memórias:

“Rosa Raimondi, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça do que eu. Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será de ter tornado desgraçados os seus últimos dias! Só Deus sabe quanto ela sofreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o imenso amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento bom, confesso-o e com bastante ufania, é a ela a quem o devo. O seu caráter angélico devia forçosamente deixar-me alguns vestígios. Não será à sua piedade pelos desgraçados, à sua compaixão pelos infelizes, que devo este amor pela pátria, amor que me mereceu a afeição e simpatia dos meus compatriotas? Não sou supersticioso, mas devo dizer que, nas circunstâncias mais críticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento das tempestades, quando as balas caíam em volta de mim como saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do Senhor, orando pelo filho de suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me sucederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando semelhante anjo orava por mim. (GARIBALDI, 1907, p. 25)”.

Desde 1833, Garibaldi travou conhecimento com carbonários, ligados a Giuseppe Mazzini. Foi assim que adotou os princípios de igualdade, fraternidade e humanidade, seguidos pelos mazzinianos, que lideravam o movimento “Jovem Itália”. O programa deste movimento era republicano e a divisa era a expressão “Deus e Povo”, na linha de um antigo padre católico alemão e do movimento renano católico, que, com certeza, influenciou o próprio Karl Marx. Frise-se: Marx viveu os primeiros anos imerso em áreas católicas, inclusive seu Ginásio era um Ginásio católico, tendo como colegas seminaristas, inclusive o futuro Bispo católico de Trier. 

Garibaldi também foi influenciado por Emile Barrault, um sansimoniano, que se inspirava principalmente no livro “O novo cristianismo”, de Saint-Simon. O sansimoniano era um movimento político cristão que defendia um Estado interventor. Garibaldi, em suas “Memórias”, transcreveu as palavras de Barrault:

“O homem que defende a sua pátria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso e injusto no segundo; mas o homem que, tornando-se cosmopolita, adota a todas por pátria e vai oferecer a sua espada e o seu sangue ao povo que luta contra a tirania, é mais que um soldado: é um herói. (Apud GARIBALDI, 1907, p. 33)”.

Garibaldi procurou Mazzini e foi batizado como filiado à Jovem Itália. Fez o juramento seguinte: “Invoco sobre a minha cabeça a ira de Deus, o abomínio dos homens e a infâmia do perjúrio, se eu trair, no todo ou em parte, o meu juramento”.

Garibaldi participou do Congresso Internacional da Paz, em Genebra, em 1867, onde também esteve Bakunin e outros revolucionários com religiosidade (Louis Blanc, Stuart Mill e Pierre Leroux). Garibaldi apresentou um programa para a paz mundial, com vários itens:

“I–Todas as nações são irmãs; II–Uma guerra entre elas é impraticável; III–Todas as querelas que possam surgir entre elas deverão ser julgadas pelo Congresso; IV–Seus membros serão designados por sociedades democráticas de todos os povos; V–Cada nação terá um voto no Congresso, não importando o número de seus habitantes; (…)

VII–A religião de Deus será adotada pelo Congresso e todos os seus membros deverão propagá-la pelo mundo; VIII–O Congresso ordenará como sacerdotes homens da elite, da ciência e da inteligência; IX– Haverá farta propaganda democrática através da instrução, da educação e da virtude; X– Somente a democracia, pondo por terra as mentiras e o despotismo, poderá reparar o flagelo da guerra; XI–Somente o escravo terá direito de fazer guerra contra o seu tirano”.

Em 1872, alguns meses após a morte de Mazzini, Garibaldi redigiu uma proclamação, onde desenvolve algumas propostas mazzinianas:

(…) A reabilitação intelectual deve ser completada também para alívio o proletariado que, do trabalho que cria a riqueza, nem sempre ganha para combater a fome. Tal medida deve ser diligenciada. Para esta consideração devemos combater o absurdo sistema dos impostos, especialmente aquele cruel e imoral que grava o pão cotidiano, a taxa sobre o sal e todos os que indiretamente oneram o pobre, como o imposto alfandegário de consumo. Substitua-se o imposto único pelo princípio lógico da tributação progressiva.

A redução dos impostos depende muito da redução das exageradíssimas despesas. As dificuldades financeiras exigem também a descentralização, que deveria ter por base a administração municipal, como acontece nas mais gloriosas tradições da nossa Itália e no moderno exemplo da América. Devemos aspirar à completa aplicação das liberdades inatas e reconhecidas. Cesse de ser uma mentira o direito de reunião e a liberdade da imprensa. Devemos também aderir calorosamente ao sufrágio universal. Ele eleva a dignidade dos cidadãos e dos deserdados, restituindo-lhes o direito fundamental, excluídos somente os analfabetos. Por isso que o proletariado, até agora excluído da representação legislativa, poderá reclamar a justiça”.

Numa linha próxima de Garibaldi, Abraham Lincoln, Emílio Castelar, Garibaldi, John Stuart Mill, Louis Blanc, Magalhães Lima, Emilio Laveleye (1822-1892), Jaurès, Benoit Malon, Eça de Queiroz (no final da vida), Oliveira Lima (de Portugal), Walt Whitman, Guerra Junqueiro (no final da vida), Victor Hugo, Eugenio Sue, e vários outros personagens conciliavam sentimentos e idéias religiosas com um pensamento democrático socialista.

José Pereira de Sampaio Bruno (1857-1915), republicano português, escreveu obras como “A idéia de Deus” (1902), “A questão religiosa” (1907) e mesmo bons textos sobre profecia, onde elabora considerações ortodoxas sobre a liberdade condicionada pelo bem comum, pela sociedade.

Sebastião de Magalhães Lima (nascido em 1850, no Rio de Janeiro, mas atuando sempre em Portugal) foi senador e Ministro da Instrução em Portugal, tendo deixado obras como “O socialismo na Europa”, “Pela pátria e pela república”, “A federação ibérica”, “O primeiro de maio” ou “O livro da paz”, onde mesclava socialismo, democracia e um fundo espiritualista-religioso.

Obras como “O socialismo na Europa” de Magalhães Lima; “O socialismo integral” de Benoit Malon (discípulo do socialista religioso, Constantin Pecqueur); “História do socialismo”, de Jaurès; ou “O socialismo contemporâneo” de Emilio Laveleye eram recomendadas pelo Partido Socialista Brasileiro, de 1902, como pode ser lido no jornal “O Estado de São Paulo”, de 28.08.1902 (do livro de Edgar Carone, “Movimento operário no Brasil”, Rio de Janeiro, Difel, pp. 322-327).

Louis Blanc, no livro “Catecismo dos socialistas” (1849), escreveu: “O socialismo tem por fim realizar entre os homens as quatro máximas fundamentais do Evangelho: 11. Amai-vos uns aos outros; 21. Não façais a outrem o que não quereis que vos façam; 31. O primeiro dentre vós deve ser o servidor de todos os outros; e 41. Paz aos homens de boa vontade”.

Constantin Pecqueur escreveu, no livro “Dos interesses do comércio, da indústria e da agricultura”: “Se nos perguntam de quem procedemos, qual é nossa origem ou nossa filiação, responderíamos: Jesus Cristo, Rousseau, toda a revolução francesa, Saint-Simon e Fourier”. Benoit Malon escreveu obras como “Constantin Pecqueur, o socialista integral”, “Moral social”, “História da agiotagem”, “Socialismo integral” e outras, expondo uma árvore genealógica bem parecida com a exposta neste livro.

Emílio Castelar, num discurso do Parlamento espanhol, onde pediu a abolição imediata da escravidão, também ressaltava que o cristianismo proclamou a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Vitor Hugo (1802-1885): “a igualdade perante a lei é a igualdade diante de Deus, traduzida em linguagem política” (do livro “Literatura e filosofia”, n. 83).

Conclusão: os principais democratas do século XIX, tal como dos séculos XVIII e XX, eram cristãos ou teístas, conciliando fortes idéias e sentimentos religiosos com o amor à democracia e ao povo.

— Updated: 13/02/2020 — Total visits: 64,858 — Last 24 hours: 31 — On-line: 0
Pular para a barra de ferramentas