Arquivos para : Leonardo Boff

Nossos grandes intelectuais do Brasil, ligados a esquerda católica

Do 247 – “Dezenas de artistas e intelectuais se unem contra a ameaça que ronda o futuro do País e assinam um manifesto contra a candidatura de alguém que “defende a quartelada, renega os horrores da ditadura, aplaude a tortura”;

“Não há espaço nem tempo para a omissão. Ser omisso diante do perigo que nos ameaça significa, em termos concretos, concordar com essa ameaça”,

afirmam; entre os signatários estão Emir Sader, Leonardo Boff, Chico Buarque, Maria Thereza Goulart e Marieta Severo; confira a íntegra”.

A lista de signatários contra Bolsonazi mostra alguns de nossos grandes intelectuais, como Boff e outros representantes da ética social católica.

E mostram pessoas ligadas a grande católicos trabalhistas como João Goulart, Severo Gomes e Sérgio Buarque de Holanda, grandes católicos sociais, pro economia mista, amplo Estado social e democracia popular. 

O Grande Projeto social da Igreja, pluralista, mas com linhas claras a favor do povo

A 2ª. Semana Social, em 1993, como pode ser visto na revista SEDOC (n. 239, de julho/agosto de 1993, p. 95), expõe claramente o ideal histórico da Igreja, no documento “Para uma democracia”, anticapitalista, com participação e difusão de “bens, serviços e poder”.

A cada sete de setembro, a CNBB repisa a mesma mensagem, também repisada nas Campanhas da Fraternidade.

Junte todos os documentos da CNBB, todos os artigos dos bispos católicos, e há o esboço de uma Democracia popular participativa, um vasto Estado social e econômico, trabalhista, economia mista, nacionalista, populista, campesino, cooperativista, operário, artesão, pequeno burguês etc. 

Há a mesma concepção e o mesmo ideal de uma democracia popular real, na linha editorial das principais revistas, jornais e editoras católicas. 

Há a mesma linha em revistas francesas, como “Lumiére et Vie”, ligadas a homens como Christian Duquoc e outros.

Esta é, no fundo, a mesma linha do MST, dos Fóruns Sociais, da Assembléia Popular e de outras organizações ligadas à Igreja.

Também era este, grosso modo, o ideal de homens como Darcy Ribeiro, Brizola, Severo Gomes, Monteiro Lobato, Cândido Portinari (1903-1962), José Carlos de Assis, Ariano Suassuna, Henfil, Betinho, Frei Betto, Leonardo Boff, Clodovis Boff e outros.

O sonho (plano geral) da Democracia popular participativa, de um extenso Estado social planificador

O ideal da democracia popular, social e participativa é também a fórmula dos melhores teólogos da libertação: Clodovis Boff, Gustavo Gutierrez, Enrique Dussel, Comblin, Jon Sobrino (n. em 1938, de El Salvador), Juan Luis Segundo, Leonardo Boff, Frei Betto e outros.

Há o mesmo anseio (plano geral, linhas gerais) nos teólogos mais próximos ao socialismo, como Ernesto Cardenal, o jesuíta Gonzalo Arroyo, Hugo Assmann, José Porfírio Miranda (1924-2001, ex-jesuíta, mexicano), Sérgio Torres, José Miguel Torres ou Pablo Richard.

O padre José Porfírio Miranda deixou obras gigantescas, como “Marx e a Bíblia” e “Cristianismo de Marx”, que mereciam mais reedições.

Havia o mesmo ideal em Paul Tillich (1886-1965), luterano, expoente do movimento socialista cristão, na Alemanha, que ensinava que a religião faz parte intrínseca do núcleo de cada cultura, de cada consciência.

No fundo, a democracia popular e social era o sonho (plano geral, linhas gerais na consciência) dos Panteras Negras, de Martin Luther King (1929-1968), Coretta Scott (esposa de Luther King) e também de Malcom X, pessoas de fé, com grande engajamento social. Era o mesmo sonho de Gandhi, Mandela e outros grandes líderes religiosos e populares.

Rui Barbosa e a Tradição da Igreja, em busca do ideal concreto histórico de um grande Estado social

Rui Barbosa, um dos maiores católicos do Brasil, foi candidato a Presidente do Brasil, em 1919. Pois bem, na plataforma de 1919, Rui atacou a “concepção individualista dos direitos humanos” e se declarou democrata social (nome, na época, para socialista democrático) católico.

O individualismo capitalista, núcleo do liberalismo econômico, foi criticado por autores como Adam Müller (1779-1829), Buchez, Ketteler, Ozanam, Comte, Duguit e outros grandes autores.

Rui Barbosa destacava a importância da “transformação incomensurável nas noções jurídicas”, com a expansão dos “direitos sociais”, onde “a esfera do individuo tem por limites inevitáveis, de todos os lados, a coletividade”. Esta tendência representava, para Rui, o fato que “o direito vai cedendo à moral, o indivíduo à associação, o egoísmo à solidariedade humana. Estou, senhores, com a democracia social”, a democracia social da Igreja, do Cardeal Mercier e de outros.

Rui disse, então: “aplaudo no socialismo o que ele tem de são, de benévolo, de confraternal, de pacificador”.

Disse também que o socialismo, quando busca distribuir os bens e “obstar a que se concentrem, nas mãos de poucos, somas tão enormes de capitais” “tem razão” (cf. vol. XLVI, tomo I, das “obras completas”, “Campanha presidencial” de 1919, Rio de Janeiro, Ed. MEC, 1956, p. 81).

No mesmo sentido de Rui, há os textos de Clóvis Bevílaqua (filho de um padre, padre errado, mas padre…), sobre o primado da ética sobre o direito e a importância do direito ser ético e social. O conceito de Bevílaqua sobre o direito é um conceito cristão. Em frases como “o direito” é “um processo de adaptação das ações humanas à ordem pública”, Bevílaqua adota o conceito de ordem em Santo Agostinho, a ordem é a organização da sociedade para o bem comum.

A luta por uma democracia social e popular avançada, um extenso Estado social, economia mista, democracia popular participativa, é o ideal histórico dos principais católicos e cristãos militantes, como mostram os textos de grandes estrelas do catolicismo. 

Estrelas como: Alceu, Barbosa Lima Sobrinho (dando continuidade á linha católica de Barbosa Lima, de Getúlio Vargas e outros grandes católicos), Miguel Arrais, Ariano Suassuna, Frei Betto, Betinho, Henfil, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo Freire, Paulo de Tarso Santos, Marcos Arruda, Leonardo Boff, Márcia Miranda, Clodovis Boff, Paulo Fernando C. Andrade, Paulo Bonavides (por exemplo, “Do Estado liberal ao Estado social”), padre Aloísio Guerra (“A Igreja está com o povo”, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1963), João e Francisco Mangabeira, Cândido Portinari (um pouco católico, pois é nosso maior pintor de arte sacra e dos oprimidos), San Tiago Dantas, Brizola (católico no início, depois metodista, sendo que o metodismo é bem próximo do catolicismo), nossos grandes bispos e arcebispos, especialmente Dom Hélder Câmara (ver sua entrevista na revista “Veja”, em 1978, com o elogio de um “socialismo humano”).

Há a mesma linha nos melhores textos da CNBB, em Medellin, Puebla e também nos melhores textos papais, como será demonstrado neste blog, em milhares de postagens. 

A teologia da libertação é a enfatização da ética social já presente na teologia tradicional

O reconhecimento da “liberdade” (do desejo de libertação, de plenificação) das pessoas, especialmente da liberdade política, consta claramente nos textos de Leão XIII. Está patente, também, na prática deste Papa, em seus movimentos de aproximação com a República francesa; tal como na atuação conjunta com Bismarck na gestação de leis sociais na Alemanha.

A Igreja, na França e na Alemanha (e o mesmo ocorreu em todas as partes), se aproximava do melhor do pensamento socialista, pois o melhor do pensamento socialista tem amplas fontes cristãs e hebraicas. 

Leão XIII recomendou a Albert Mun que não criasse um partido católico confessional e, implícito nesta recomendação, havia o apreço e o reconhecimento da liberdade política das pessoas, das nações.

O padre Lamennais (1782-1854), se estivesse vivo, teria gostado muito de Leão XIII, tal como Marc Sangnier teria beijado as mãos de João XXIII e abraçado os teólogos da libertação.

Antes de Marx, Lamennais descreveu a escravidão atual dos trabalhadores, com as seguintes palavras:

o capitalista e o proletário têm, entre si, efetivamente, as mesmas relações existentes entre o senhor e o escravo das sociedades antigas.

O que é o escravo perante o senhor? Um instrumento de trabalho, uma parte e a mais preciosa de sua propriedade… e o que é o proletário em vista do capitalismo? Um instrumento de trabalho. Livre no direito atual, legalmente livre em sua pessoa, ele não é realmente a propriedade vendável ou comprável de quem o emprega. Mas esta liberdade é fictícia. O corpo não é escravo, mas a vontade o é. (…) As cadeias do escravo moderno são a fome”.

Por estes e outros textos, Tolstoi amava Lamennais, tal como amava os textos cristãos socialistas de Ruskin, de Dickens e outros grandes luminares. 

Alceu e o Episcopado latino-americano seguiram a linha de Leão XIII. Por isso, Alceu nunca apreciou a ideia de um partido católico, confessional. Foi esta a linha do Cardeal Leme sobre a LEC, que dava continuidade às idéias do padre Júlio Maria, de Dom Vital e de Dom Antônio Costa (vide a Pastoral conjunta dos bispos após a instauração da República). Mesmo o Partido Democrata Cristão era um partido secular, não confessional.

A lição do padre Júlio Maria, de Dom Hélder e da CNBB é clara: os leigos cristãos, como todas as pessoas, têm o dever de participarem ativamente da vida política (e econômica, cultural etc) de suas comunidades, difundindo os ideais (idéias) cristãos e humanas sobre justiça e liberdade. 

Ideais de justiça e liberdade são uma expressão para algo mais concreto, o ideal concreto dos católicos, ideais de Democracia social-popular participativa, de economia mista, de distributismo, de cooperativismo, de boas estatais etc.

A militância pode ser feita em todos os partidos políticos que não tiverem idéias programáticas contrárias à ética, ao bem comum.

Partidos neoliberais ou que defendam formas autoritárias de socialismo não são recomendáveis, pois são traições ao povo, aos trabalhadores.

A atuação política deve ser (em regra) pacífica, usando a pressão moral libertadora (o diálogo, a resistência pacífica), nas palavras de Dom Hélder. A atuação deve ser, por inculturação, por dentro, como agem o sal, o fermento ou as sementes (cf. lições bíblicas).

A Pastoral de Dom Sebastião Leme, de 1916, tem pontos ainda atuais e preparou a formação do getulismo, do trabalhismo, do nacionalismo, os grandes ideais de Getúlio Vargas.

Na mesma linha há os grandes textos, ainda atuais, do padre Júlio Maria, que partem da ligação intrínseca entre povo e Igreja, que, no fundo, exprime a ligação entre povo e Deus. O padre Comblin escreveu bons textos sobre esta ligação, que é sintetizada no ditado “a voz do povo é a voz de Deus”.

Dom Hélder, especialmente após 1934, deu continuidade a esta linha da Igreja como fermento numa massa, como conscientizadora. Estas matrizes geraram a teologia da libertação, que tem conteúdos novos, mas com raízes antiqüíssimas. Trata-se da mesma seiva que inspirava Abraão, Israel, José do Egito, Moisés, Davi, Judite, Isaías, Jeremias, os Macabeus, Maria, Cristo, os Apóstolos, os Mártires, os Santos Padres, Santo Tomás de Aquino e outros, como veremos neste blog, em outras postagens. 

Leonardo Boff, num artigo publicado na revista “Rainha” (em 19.12.1984), ensinou corretamente: “a teologia da libertação não quer ser uma alternativa da teologia tradicional”, e sim “acentuar aqueles elementos que já se encontram na teologia tradicional, porém não foram ainda enfatizados e explicitados na sua dimensão social, política, estrutural”.

Outras grandes estrelas em prol da Democracia social, do Estado social

Dentre os que defendem Democracia popular (real, participativa) e Estado social, destaco o Grupo Emaús, formado em 1974. Um grupo de teólogos, agentes pastorais e cientistas sociais: Frei Betto, Leonardo Boff, padre Ernnane Pinheiro, Oscar Beozzo, Luiz Alberto Gómez de Souza, Pedro Ribeiro de Oliveira, Luiz Eduardo Wanderley, João Batista Libânio, Luiz Dulci e outros. 

Além destes, vale a pena lembrar de nomes como Plínio de Arruda Sampaio, Ariano Suassuna, João Pedro Stédile, Fábio Konder Comparato, Dalmo Dallari, Ivo Lesbaupin e outros. 

Alguns dos grandes expoentes da Democracia Popular no Brasil, estrelas, faróis

Dom Hélder Câmara, Alceu Amoroso Lima, Frei Betto, Dom Luciano Mendes de Almeida, Cândido Mendes de Almeida, Sérgio Buarque de Holanda, o melhor do ISEB, Betinho (Herbert José de Souza), Henfil, Dalmo de Abreu Dallari, José Oscar Beozzo, Fábio Konder Comparato, Antônio Cândido de Mello e Souza, Maria Victoria de Mesquita Benevides, Frei Clodovis Boff, Leonardo Boff, Francisco Whitaker Ferreira, Alberto Torres, Barbosa Lima Sobrinho, Eduardo Suplicy, Goffredo da Silva Telles Jr, Emir Sader, Plínio de Arruda Sampaio, Alberto Pasqualini, Otto Maria Carpeaux, Pontes de Miranda, Osny Duarte Pereira, Sérgio Magalhães, Domingos Velasco, Francisco Mangabeira, João Goulart, General Horta Barbosa, Patrus Ananias, Paulo Freire e outros. 

Manoel Bonfim, Celso Furtado, Theotônio dos Santos, Paul Israel Singer, Azis Nacib Ab´Saber, Alfredo Bosi, José Luís Fiori, Michael Lowy, Juarez Guimarães, Marilena de Souza Chaui, Maria da Conceição Tavares, Brizola, Darcy Ribeiro, Roberto Cochrane Simonsen, Aloizio Mercadante e outros.  

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