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A linha católica de SUPERAÇÃO DO CAPITALISMO, a linha de Alceu, Dom Hélder e de João XXIII

Alceu Amoroso Lima, em suas cartas a sua filha, uma monja contemplativa internada num mosteiro, no livro “Cartas do pai”, abria sua alma.

Nas cartas a filha, por exemplo, em 21.01.1959, dizia apoiar um “socialismo não-comunista” (que não estatizasse todos os bens), um socialismo democrático, economia mista, distributista, avançado, Democrático, “como o de Nenni” (Pietro Nenni, 1891-1980, secretário do Partido Socialista Italiano, que combateu o fascismo, tal como as tropas de Franco, na Espanha).

Alceu defendia a aliança entre o PDC na Itália (“apertura a sinistra”, “abertura a esquerda”) e o PSI, tendo as mesmas ideias da esquerda do PDC da itália. Em 1963, na Itália, o PDC tinha 38% dos votos e o PCI tinha 25%.

Mais tarde, com Aldo Moro, com apoio de Alceu, na década de 70 do séc. XX, o PDC buscou uma aliança com o PCI, para superar o capitalismo, aliança que Alceu defendeu, tal como defendeu o governo de Allende, no Chile.

Alceu vibrou com a visita do genro (Alexei Adjubei, na época diretor do jornal “Izvestia”) e da filha de Kruschev, Rada, a João XXIII, no Vaticano, em março de 1963, onde foram recebidos por João XXIII.

O “Diário” de João XXIII mostra a importância desta visita histórica, tendo escrito João XXIII, “quando se souber o que eu disse e o que ele, Adjubei, disse, penso que” meu nome será “abençoado”.

João XXIII diz, no “Diário”, “deploro e lamento aqueles que se prestaram” a estas críticas injustas, “ignoro e esqueço”.

Lembro que Adjubei esteve no Brasil em 1963, convidado por João Goulart, tendo sido muito bem recebido por San Thiago Dantas, um grande católico, ligado a Alceu e a Dom Hélder e a João Goulart. 

Alceu era apoiador apaixonado de João XXIII, a “linha Roncalli-Montini” (João XXIII e Paulo VI, preparando a sucessão de Paulo VI) e crítico de uma parte do Vaticano, a “Junta do Coice”, a ala ligada Ottaviani e Tardini, a parte reacionária, vencida no Vaticano 2. Os relatórios de Dom Hélder mostram a batalha da parte melhor no Vaticano 2, tendo Dom Hélder sido um dos campeões das melhores reformas no Vaticano 2.

No Brasil, Alceu era mais ligado a AP e a parte do PDC mais a esquerda, como Paulo de Tarso (nascido em 1926, foi Ministro da Educação, de João Goulart, de junho a outubro de 1963) e Plínio de Arruda Sampaio, a parte do PDC ligada ao PTB, aliada de João Goulart.

Alceu defendeu todos os atos bons do governo de Getúlio Vargas, como o governo de Juscelino, tal como a posse de João Goulart, e foi contra o golpe de 64.

No final da vida, em 1983, com uns 90 anos, Alceu tornou a declarar que era socialista católico, aconselhando o voto no PT. Pontes de Miranda também morreu como socialista católico, a mesma linha que adoto. 

Alceu, no início dos anos 60, lutou por uma aliança entre Arraes, San Thiago Dantas, Edgar de Matta Machado etcf, para evitar o golpe de 64. Alceu chegou a auxiliar os esforços de Carvalho Pinto e de Magalhaes Pinto (este em MG), para combater a candidatura de Carlos Lacerda e tentar levar um pedaço da UDN a apoiar Juscelino, em 1965.   

Na carta de 16.01.1964, Alceu diz que a UDN era o partido do “direitismo integral”, pior que o “PSD, mais jeitoso e maleável” em alianças com o PTB. Alceu diz que “não é a toa que na UDN, pouco a pouco, se refugiaram todos os ricos e reacionários”.

Nas cartas a filha, Alceu sempre ataca Carlos Lacerda, a quem chama de Hitler, várias vezes, tal como de golpista etc. Em todas as cartas, ataca a TFP, de “Plínio, Sigaud, Mayer e companhia”, tal como faz duras críticas ao Cardeal Jaime Câmara e também a Dom Vicente Scherer.

Alceu criticava sempre Gustavo Corção, o padre Leme Lopes, Sobral e outros reacionários, setores minoritários da Igreja, cooptados pela CIA e pelos ricos.

Alceu diz que aderiu a esquerda em 1936, embora, mesmo antes, já tivesse posições pro socialismo na juventude e no início da década de 30, como pode ser visto no livro “Política”, onde defende a estatização dos bancos e de outros grandes bens produtivos, vasta legislação trabalhista, Previdência etc. 

Alceu defendeu sempre Dom Hélder Câmara.

Como pode ser visto na Carta de 24.11.1963, Alceu defendia, em 1963, a linha de “João XXIII, Kruschev, MacMillan e Kennedy”. MacMillan era Harold MacMillan (1894-1986), primeiro Ministro da Grã-Bretanha, de 1957 a 1963, pelo Partido Trabalhista Ingles.

Alceu era defensor da esquerda do Partido Democrático nos EUA, do Partido Trabalhista inglês, e apreciava Kruschev, pela crítica deste aos erros de Stalin, pela luta em prol da Paz etc. 

Alceu, como está na carta de 07.02.1964, lembrou que escreveu um artigo, no começo do governo de Eurico Gaspar Dutra (1883-1974, governo de 1946 a 1951), lá por “1946 ou 1947”, defendendo a legalização do Partido Comunista no Brasil, usando os mesmos argumentos, lembra Alceu, de um “editorial do Jornal do Brasil”, de 07.02.1964. 

Getúlio Vargas, em 1950, aceitava apoiar Barbosa Lima Sobrinho como candidato a Presidente

Getúlio Vargas foi eleito Presidente da república, em 03.10.1950, com 48,7% dos votos, derrotando a UDN de Eduardo Gomes, o PSD de Cristiano Machado e João Mangabeira, do PSB.

Como explica Léo de Almeida Neves, no livro “Destino do Brasil: Potência Mundial, a Era Vargas continua” (Rio, Ed. Graal, 1995, com prefácio de Fernando Gasparian), Getúlio Vargas, em 1950, não queria ser candidato.

Getúlio, já com quase 70 anos, disse, nas reuniões do PTB, que admitia apoiar vários nomes como candidato do PTB.

Getúlio apoiava nomes como Barbosa Lima Sobrinho, Osvaldo Aranha, Joaquim Pedro Salgado Filho, Valter Jobim, Nereu Barros e até Góis Monteiro. Lembro que Barbosa Lima Sobrinho, um grande católico nacionalista e trabalhista, era getulista ferrenho, o mesmo para Pontes de Miranda e outros grandes juristas.

Barbosa Lima Sobrinho foi candidato pelo MDB, em 1973, a vice-presidente, junto com Ulisses Guimarães.  

O principal, para Getúlio, era a elaboração de um “programa de governo”, que “sintetizasse as aspirações do povo brasileiro”.

Getúlio queria um grande “Plano Nacional de Eletrificação” do Brasil, o mesmo ideal de Alceu, no livro “Política”, em 1932.

Getúlio Vargas queria a reforma agrária. Getúlio criou o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), para criar colônias agrícolas (reforma agrária, agrovilas), tal como a Carteira Agrícola do Branco do Brasil, que serviria para financiar a compra de pequenas propriedades rurais. Getúlio propos a criação do Serviço Social Rural (SSR), aprovado em 1952.

Getúlio fez ainda o Plano Nacional de Carvão, a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), a Comissão Nacional de Política Agrária, o Banco do Nordeste, o BNDES, a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a Eletrobrás, a Usina Siderúrgica de Volta Redonda, a nacionalização do subsolo, quase toda a legislação trabalhista, a base da legislação previdenciária, a base dos Estatutos dos Servidores Públicos (o primeiro em 1938, depois outro em 1952), toda a estrutura dos concursos públicos etc. 

Getúlio criou a Fábrica Nacional de Motores (FNM), estatal criada para dar ao Brasil uma indústria de motores, de trens, carros, tudo estatal. Isso, para se contrapor a General Motors dos EUA, para criar carros estatais, onibus, e motores estatais.

A FNM, em seu governo, começou a produzir tratores rurais, tal como poderia criar locomotivas para trens, metros e VLTs. Uma das primeiras coisas que fez a ditadura em 64, foi privatizar a FNM, atendendo pleito dos EUA.

Getúlio criou as leis para conter a remessa de lucros e foi derrubado por isso.

Getúlio tentou dar organização estatal a agricultura, criando o Plano do Trigo e Institutos estatais para cada produto rural (acúcar, café, pinho, trigo etc). 

Como não foi possível um consenso, teve que sair candidato pelo PTB, com apoio do PSP de Adhemar de Barros e de parte boa do PSD.

Notem que o PSP de Adhemar de Barros abrigava, na época, inclusive deputados comunistas, pois o PCB estava cassado.

Assim, a candidatura de Getúlio era popular, ligado aos trabalhistas. 

Franklin Delano Roosevelt também demonstra que a Democracia política e econômica tem origem religiosa e racional

Franklin Roosevelt constatou as origens religiosas e racionais da democracia política e econômica, e governou numa aliança com a Igreja Católica nos EUA, pois, na época, quase todos os católicos votavam no Partido Democrático. 

A origem religiosa da democracia nos EUA foi também constatada e ensinada por Woodrow Wilson e por quase todos os presidentes dos EUA. Foi constatado especialmente por Franklin D. Roosevelt (1882-1945).

Roosevelt governou os EUA de 1933 a 1945 (organizando o “New Deal”, Novo Pacto, elogiado, apoiado e copiado por Getúlio Vargas) e foi um dos melhores presidentes dos EUA, ao lado de Washington, Lincoln e Jefferson.

Os católicos militavam tanto no Partido Democrático que duas vezes lançaram um candidato católico à presidência, pelo Partido Democrático. A segunda vez foi com Al Smith, um católico de origem irlandesa, em 1928, com pleno apoio de Franklin Roosevelt. Ao não se eleger, Al Smith apoiou Franklin Roosevelt em 1932, como candidato dos católicos estadunidenses, á presidência, tendo sido eleito. 

Roosevelt, num discurso no 4º. Centenário de impressão da tradução inglesa da Bíblia, em 06.10.1935, disse:

“Nos dias formadores da República, a influência decisiva que a Bíblia exerceu sobre os patriarcas da nação está ostensivamente evidente”.

“Para Washington, ela continha preceitos morais certos e seguros que constituíram a base de sua ação. O que daí surgiu transcende todos os outros livros, por mais elevados que fossem os seus pensamentos. Para sua sagaz percepção moral e para os seus princípios religiosos eram os “apoios indispensáveis” da prosperidade política, os “pilares essenciais da sociedade civil”. Esclarecido como era Jefferson sobre os melhores filósofos da antiguidade, voltou-se ele para a Bíblia como fonte de seu raciocínio e seus pensamentos mais elevados. Referindo-se aos sublimes ensinamentos do Mestre, disse ele: “Ele colocou Suas inquirições no coração do homem; erigiu Seu tribunal na região de seus pensamentos e purificou as águas na nascente da fonte”. Além disso, afirmava ele que a Bíblia continha o sistema ético mais nobre que o mundo havia conhecido. Sua própria compilação dos trechos selecionados desse livro, no que é conhecido como “a Bíblia de Jefferson”, evidencia a profunda reverência que lhe tributava”.

Franklin Roosevelt, no discurso sobre “as quatro liberdades”, em 06.01.1941, reconheceu que “nossa nação colocou seu destino nas mãos, nas cabeças e nos corações de seus milhões de homens e mulheres, e colocou sua fé na liberdade sob a direção de Deus. A liberdade é a supremacia, em toda parte, dos direitos do homem. Nosso apoio é dado aos que lutam para obter tais direitos ou para preservá-los”.

A “Carta pastoral” dos Bispos católicos do EUA, de novembro de 1984, elogiou o New Deal, o governo de Franklin Roosevelt, de 1932 a 1943:

“171. Como nação, os Estados Unidos goza de considerável experiência quanto às tentativas de gerar emprego e de reduzir o desemprego. De 1932 até o final de 1943, os Estados Unidos empreenderam uma série de programas de assistência mediante a oferta de trabalho e de obras públicas, que ainda servem de lição para os nossos dias”.

Nestes mesmos anos, os textos de Pio XII sobre a democracia ecoavam em bom coro com os textos de Roosevelt (este chegava a puxar orações no rádio, rezando com o povo).

As idéias de Roosevelt sobre a democracia, que deve colocar o “destino” da sociedade “nas mãos, nas cabeças e nos corações de seus milhões de homens e mulheres” é exatamente o ensinamento do jusnaturalismo democrático, exposto por Protágoras, Sófocles, Platão, Aristóteles, os estóicos e também na Bíblia, com destaque para os textos de São Paulo.

Franklin Roosevelt, Abraham Lincoln (Marx enviou uma boa carta apoiando os esforços abolicionistas deste presidente) e Thomas Jefferson foram os melhores presidentes dos EUA. Ele uniam bem democracia e cristianismo.

Kennedy e Carter também uniam democracia e cristianismo e também foram elogiados até por Fidel Castro. Kennedy foi assassinado pelos méritos que tinha, tal como foram assassinados seu irmão, Robert Kennedy, praticamente junto com Malcolm X e Luther King. 

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