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Os anjos e a autonomia humana, a democracia etc.

Como ensinou Bento XVI, num discurso de 30.09.2007, os “anjos” são “mensageiros”, mediadores, que “ajudam” cada pessoa a “encontrar sua verdadeira natureza, a si mesmas, a viver a idéia que Deus tem delas”. Os “anjos” “falam ao homem de seu verdadeiro ser, do que em sua vida frequentemente fica coberto e sepultado”. Os Anjos são membros da Grande República Celestial, do Grande Coro de Vozes do Universo, que tem Deus como centro, estando Deus presente em cada membro da Grande República, pois Deus distribui seu poder divinizando Seus Filhos.

A Bíblia diz que, no futuro, teremos corpos espirituais, “como os anjos”, ao modo dos anjos. São Tomás descreveu estes corpos, tendo agilidade (rapidez), passando dentro das coisas (sutileza), sendo invulneráveis (não sendo passíveis de destruição, corrupção) e tendo poder sobre as coisas (controle sobre o universo). 

Deus chama ao poder divino também a Igreja invisível, dispersa na terra (“semente” e “início” do Reino, cf. Vaticano II), abarcando as pessoas boas e racionais de todas as partes, pois a graça opera junto com a razão, salvando bons muçulmanos, bons hindus, bons marxistas, bons confucianos etc. A Igreja visível, na terra, é apenas uma parte bem menor da Igreja, da Grande Assembleia. Esta parte ora, dialoga constantemente com Deus, que atende os pleitos, que integra os pleitos na história do universo.

O poder divino acolhe a vontade humana, atuando pela Providência e também por milagres, pois Deus quer que as pessoas participem das decisões, do poder divino, aberto a todos. O poder divino é participativo e é exemplo para o poder humano, que deve integrar todas as pessoas. Os milagres são prefigurações do controle sobre as coisas, que teremos no futuro, ampliando o controle atual, via corpos. 

Conclusão: a Igreja é o “Reino de Deus”, a República popular divina, a “Cidade de Deus” (cf. Santo Agostinho), sendo a Grande República, a Comunhão (Comunidade, vida em comunhão de bens e de mútua ajuda) do Pão e do Amor, a Grande Pólis, de uma grande Poliarquia movida pelo diálogo. O povo é soberano porque Deus habita, em regra, no povo.

Deus fez o povo para participar em todo poder, inclusive no poder divino. Fomos feitos para o autogoverno, com base na autonomia, nas decisões por diálogo, para o co-governo do universo, em diálogo com Deus e com o próximo.

A Ekklesia, Marilena Chauí e a Democracia popular

Os cristãos, ao se congregarem, formavam como que uma cidade dentro da cidade maior, usando o nome familiar em todo mundo antigo, o nome-símbolo da democracia representativa, “Ecclesia”.

Marilena Chaui, no livro “Convite à filosofia” (São Paulo, Ed. Ática, 1995, p. 388), viu corretamente a ligação do nome “Igreja” com os lugares da democracia direta e indireta, na Grécia, entre os judeus e entre os romanos, tal como entre os sumérios, fenícios, egípcios, hititas etc:

A comunidade é a Ekklesia, isto é, a assembléia dos fiéis, a Igreja. E esta é a designada como Reino de Deus. Povo, lei, assembléia e reino: essas palavras indicam, por si mesmas, a vocação política do cristianismo, pois escolhe para referir-se a si mesmo os vocábulos da tradição política judaica e romana”.

O termo “Igreja” significa “assembléia”. Tem várias acepções conexas, com nuanças importantes. Usado num contexto, designa a Igreja gloriosa, composta de “multidões de almas, ignoradas sobre a terra” e cujo “número ultrapassa todos os cálculos humanos” (cf. Pio XII, no “Discurso aos esposos”, em 08.05.1940), sendo que esta “multidão” é composta de “gente de toda tribo, língua, povo e nação” (cf. Ap 5,9). As pessoas foram feitas por Deus para o co-governo do universo, para participarem da gestão do universo, junto com Deus, ponto bem claro nas cartas de São Pedro, na Bíblia.

Há também a Igreja no purgatório (“guehinom”, em hebraico), a antessala, átrio do Céu, onde devem existir mais gente ainda (na concepção ortodoxa e de Russell Norman Champlin (um grande teólogo ortodoxo, bem próximo da Igreja Católica), quase todos os mortos estão se aperfeiçoando, purificando-se, como um grande purgatório).

Os mortos no Céu e no purgatório, que é a Ante-Sala do Céu, participam mais plenamente do governo do universo, da história, ao modo dos anjos (sereis “como anjos”, diz a Bíblia), como mediadores, como protagonistas co-governantes e co-julgadores do universo. Deus sempre ouve as pessoas, especialmente as que estão unidas a si (cf. “Apocalipse”, n. 4), também sentadas em “tronos”, co-regendo, co-julgando, cultivando o universo, difundindo o bem, a vida.

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