Arquivos para : divina

Os agentes públicos devem ser servidores do povo, do bem comum

Como explicou Pio XI, na encíclica “Ad salutem humani generis” (1930), os agentes do Estado (“os governantes”) “receberam o poder de Deus”, por mediação da sociedade, “para que seus atos contribuam” para “secundar [colaborar, cooperar, trabalhar com Deus] os desígnios da Divina Providência, da qual” devem ser “colaboradores”, estando vinculados ao “fim supremo assinado aos homens”, que é “procurar o bem estar temporal” das pessoas (“dos cidadãos”).

Nesta encíclica, Pio XI frisa que os agentes públicos não devem “fazer nem ordenar coisa alguma que possa redundar em detrimento das leis da justiça e caridade”, ou seja, não devem infringir às regras do bem comum (que são as regras da caridade e da justiça).

A obrigação do Estado é a de assegurar e promover o bem de todos, difundindo, ao povo, os bens materiais, intelectuais etc. Difundindo os bens materiais (casas, alimento, roupas, renda etc) culturais, educacionais e morais (fornecendo “meios de conhecer e conseguir os bens imperecíveis”).

Panenteísmo, Deus presente em tudo, diferente de tudo

A Cabala, que condensa o ideário místico dos hebreus, é uma prova clara da influência da Paidéia. Várias idéias da Cabala são idéias estóicas e semitas, como a idéia da “corporalidade” de Deus, destacando que os estóicos ensinavam que há corpos imateriais. Da mesma forma, o panenteísmo da Cabala é a interpretação correta do “panteísmo” estóico: o mundo existe em Deus, que é onipresente, estando Deus imanente e transcendente ao mundo (“Deus é o lugar do mundo, mas o mundo não é Seu lugar”). Lembro que a Igreja também ensina a onipresença divina, Deus está presente em tudo, sem ser o tudo, sendo mais que o Tudo, mas estando no tudo, no todo. 

Deus está por trás (na essência, pela onipresença, sendo também transcendente) do mundo, como Razão, ordenando-o, conservando, melhorando e sempre aperfeiçoando o mundo. No mesmo sentido, o livro de Max Scheler, “O lugar do homem na natureza”, é panenteísta, e não panteísta. A “quebra de vasos” (“Shevirat há-kelim”), expressão cabalista para uma catástrofe primordial, é usada para designar o pecado original de parte dos Anjos, que trouxe desordem ao universo, devendo este ser restaurado, redimido (“Tikun”). Nestas ideias, há ideias cristãs, meio distorcidas, mas há um fundo correto, que é preciso distinguir, separando o trigo do joio. 

Os anjos e a autonomia humana, a democracia etc.

Como ensinou Bento XVI, num discurso de 30.09.2007, os “anjos” são “mensageiros”, mediadores, que “ajudam” cada pessoa a “encontrar sua verdadeira natureza, a si mesmas, a viver a idéia que Deus tem delas”. Os “anjos” “falam ao homem de seu verdadeiro ser, do que em sua vida frequentemente fica coberto e sepultado”. Os Anjos são membros da Grande República Celestial, do Grande Coro de Vozes do Universo, que tem Deus como centro, estando Deus presente em cada membro da Grande República, pois Deus distribui seu poder divinizando Seus Filhos.

A Bíblia diz que, no futuro, teremos corpos espirituais, “como os anjos”, ao modo dos anjos. São Tomás descreveu estes corpos, tendo agilidade (rapidez), passando dentro das coisas (sutileza), sendo invulneráveis (não sendo passíveis de destruição, corrupção) e tendo poder sobre as coisas (controle sobre o universo). 

Deus chama ao poder divino também a Igreja invisível, dispersa na terra (“semente” e “início” do Reino, cf. Vaticano II), abarcando as pessoas boas e racionais de todas as partes, pois a graça opera junto com a razão, salvando bons muçulmanos, bons hindus, bons marxistas, bons confucianos etc. A Igreja visível, na terra, é apenas uma parte bem menor da Igreja, da Grande Assembleia. Esta parte ora, dialoga constantemente com Deus, que atende os pleitos, que integra os pleitos na história do universo.

O poder divino acolhe a vontade humana, atuando pela Providência e também por milagres, pois Deus quer que as pessoas participem das decisões, do poder divino, aberto a todos. O poder divino é participativo e é exemplo para o poder humano, que deve integrar todas as pessoas. Os milagres são prefigurações do controle sobre as coisas, que teremos no futuro, ampliando o controle atual, via corpos. 

Conclusão: a Igreja é o “Reino de Deus”, a República popular divina, a “Cidade de Deus” (cf. Santo Agostinho), sendo a Grande República, a Comunhão (Comunidade, vida em comunhão de bens e de mútua ajuda) do Pão e do Amor, a Grande Pólis, de uma grande Poliarquia movida pelo diálogo. O povo é soberano porque Deus habita, em regra, no povo.

Deus fez o povo para participar em todo poder, inclusive no poder divino. Fomos feitos para o autogoverno, com base na autonomia, nas decisões por diálogo, para o co-governo do universo, em diálogo com Deus e com o próximo.

O que é a Parusia, união do Céu com a Terra, novos Ceus e nova terra, plenitude

A parusia significa o auge da reconciliação entre o Céu e a terra, a reconciliação de Prometeu, como explicou Roberto Lyra Filho, um dos maiores juristas, que deixou textos sobre teologia da libertação. O Céu é o contrário do inferno (negação da natureza, isolamento, ódio ao próximo, ao outro). Trata-se, assim, da plenitude (da perfeição, da bondade, o aperfeiçoamento pela eternidade) da vida humana, da glorificação da criação, da obra do Criador. Por esta razão, Roberto Lyra Filho usou o título de “A reconciliação de Prometeu” para seu ensaio de teologia da libertação com direito alternativo. Em outros termos, o Céu é a libertação, a perfeição do ser humano e do universo, a ordenação racional da criação para o bem comum. A ampliação da presença divina na natureza, algo que é um processo pela eternidade, para adequar a criação ao atributo maior do Criador, que é a bondade (tornar tudo regrado pelo bem comum, ampliando o bem a cada momento).

O ideal da parusia, do Reino dos Céus, é baseado na autodeterminação (na libertação), no autogoverno pessoal e social, na autonomia, na autogestão pessoal e social, participativa, com planificação participativa, com comunhão de bens e de vida. Este é, também, nosso ideal político, jurídico, econômico e pedagógico: o máximo de autonomia pessoal e social, liberdade, autogestão, com planificação participativa, com comunhão. Nos termos de Dom Hélder, é um ideal do máximo de personalização com o máximo de socialização, numa boa síntese que retrata a plenitude da natureza pessoal e social do ser humano.

Clodovis Boff constatou também que a parte boa (o trigo) das idéias de Rousseau tem origem no jusnaturalismo, da Paidéia e do pensamento judaico-cristão. O jusnaturalismo ensina que o consenso racional e consciente (participação), em torno do bem comum, é a base natural e racional da legitimidade do poder. Esta parte boa das idéias de Rousseau já estava presente, em germe, nas mais antigas aldeias, cidades sumérias, cidades fenícias, nas cidades (nos ordenamentos jurídicos positivos) gregas e antigas (inclusive hebraicas), tal como nos parlamentos, cidades, universidades, ordens e congregações europeus. Exemplos disso são as estruturas das cidades-estados da Itália, a estrutura da Suiça, a Carta Magna de 1215, o parlamento da Islândia etc.

Pular para a barra de ferramentas