O Socialismo Católico é a principal fonte do Socialismo, na Alemanha, inclusive Lassalle e o partido de Marx

Buchez foi chamado, por Marx, de o chefe do partido socialista católico. Da mesma forma, Buchez é a fonte da fórmula do cooperativismo apoiado e coordenado pelo Estado, segundo Marx

Buchez (1796-1866) desenvolveu as idéias cristãs, católicas e socialistas de Saint-Simon.

Em 01.05.1821, Buchez, com Saint-Amand Bazard e Jacques-Thomas Flotard, criou, em Paris, a Carbonária, uma sociedade secreta ligada a Carbonária italiana.

Em 1832, Buchez criou as primeiras associações cooperativas de produção, como destacou Charles Gide.

Em 1838-1840, Buchez escreveu o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso”, que influenciou o general Abreu e Lima e Antônio Pedro de Figueiredo, no Brasil.

De maio de 1847 a julho de 1848, Buchez dirigiu, com Jules Bastide, “A Revista nacional”, representando a tendência cristã-democrata e socialista.

A linha que passa entre Santo Tomás Morus, Mably, o bispo Gregório, Buchez, Lamennais, Ketteler, Sangnier, Maritain, Mounier, João XXIII, Vaticano II, teologia política européia etc representa, a meu ver, a linha dourada que gerou a teologia da libertação e o socialismo participativo, que associa democracia política, econômica, social e cultural.

Marx citou Buchez desde suas primeiras obras.

Por exemplo, Marx menciona Buchez no livro “Sobre a questão judaica”, na “A sagrada família”, na “Ideologia Alemã”, nos capítulos 24 e 28 de “O Capital”.

Marx citou, nos primeiros escritos, especialmente o livro “História Parlamentar da Revolução Francesa”, em 40 volumes, editado em Paris, de 1834 a 1838, por Buchez e P. C. Roux-Lavergne.

Buchez representava as idéias dos socialistas cristãos da década de 30 do século XIX e redigiu um bom elogio dos jacobinos durante a Revolução Francesa.

Engels, numa carta de 16.09.1846 ao Comitê de correspondência dos comunistas, fala sobre a uma discussão na redação do jornal “Fraternidade”, entre socialistas materialistas e “espiritualistas”. Os “espiritualistas” eram editores ligados às idéias religiosas-socialistas de Pierre Leroux, do “socialismo cristão” de Philippe Buchez e Felicite Lamennais. Além destes, existiam Sismondi, Buret, Pecqueuer, Vidal, as canções de Beranger, as novelas de Georges Sand, o jornal “Democracia Pacífica” de Considerant,

Dois anos após a morte de Lassalle, em 1868, Marx, em carta (de 13.10.1868) a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale na direção do Partido Lassalista, diz que Buchez tinha sido o “líder do socialismo católico francês”:

“Depois de um sono de quinze anos [1868 menos 15, igual a 1843], o movimento operário foi tirado de seu torpor, na Alemanha, por Lassalle–e este é seu mérito imperecível. No entanto, ele cometeu grandes erros, pois ele se deixou dominar pelas circunstâncias do momento. Ele fez de um ponto de partida insignificante–sua oposição a um anão como Schulze-Delitzsch–o ponto central de sua agitação: a ajuda do Estado, em vez da ação autônoma do proletariado. Em resumo, ele [Lassalle] repetiu simplesmente a fórmula que Buchez, o chefe do socialismo católico francês, tinha lançado desde 1843 (…). Enfim, ele combinou a fórmula de Buchez–assistência do Estado às sociedades operárias–com a reivindicação cartista do sufrágio universal, sem perceber que as condições não eram as mesmas na Alemanha e na Inglaterra”.

Como fica claro, Marx, como Rosa de Luxemburgo, sabia que existiam várias correntes de socialismo.

E sabia que uma destas correntes, o SOCIALISMO CATÓLICO, já existia em 1843, quando Marx nem tinha ainda criado as bases do “socialismo marxista”, que são frágeis, pois o próprio Marx, em 1882, um ano antes de morrer, no último escrito econômico, sobre Wagner, diz que não existia um socialismo marxista, um projeto delineado de Estado ou sociedade socialistas. Marx cuidava principalmente da crítica ao capital.

Segundo Marx, o movimento operário na Alemanha dormitava desde 1843 e foi “acordado” por Lassalle, inspirado por Buchez.

Há a mesma conclusão no livro “Crítica ao Programa de Gotha”. E Engels escreveu no mesmo sentido, frise-se.

O que Ketteler via de bom em Lassalle era, assim, o núcleo de idéias oriundo de Buchez, também presente nos textos de Luís Blanc e de Lamennais.

Engels, numa carta de 18-28.03.1875, a Bebel diz que a fórmula de Lassale (formação de cooperativas de trabalhadores com apoio do Estado) foi roubada por Lassale de Buchez.

Ou seja, BUCHEZ, o Socialismo católico, é a origem direta do primeiro partido operário na Alemanha, em 1863, criado por Lassalle.

Engels combateu uma tese errada de Lassale, com base em velhos textos marxistas, onde este dizia que “frente à classe operária, todas as outras não formam mais que uma massa reacionária”.

Vejamos alguns trechos desta carta de Engels, com ciência de Marx:

“Esta tese só é exata em alguns casos excepcionais, por exemplo, em uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou em um país onde não tenha sido a burguesia somente a criadora do Estado e da sociedade, feitos à sua imagem e semelhança, e si que depois dela tenha vindo a pequena burguesia democrática e haja levado até suas últimas conseqüências a mudança operada. Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia pertencesse a esta massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata haver marchado ombro a ombro com ela, com o Partido Popular, durante vários anos? Como poderia o jornal “O Estado Popular” (“Volksstaat”) tomar a quase totalidade de seu conteúdo político da “Gazeta Renana” (“Frankfurter Zeitung”), jornal democrático pequeno-burguês? E como podem incluir neste mesmo programa sete reivindicações, pelo menos, que coincidem direta e literalmente com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno burguesa? Refiro-me às sete reivindicações políticas, entre as quais não há uma só que não seja democrática-burguesa. (…)

Em quarto lugar, o programa coloca como única reivindicação social a ajuda estatal lassalleana, em sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez.

CONCLUSÃO: o partido lassalista usou, assim, em seu programa, idéias do Partido Popular do sul da Alemanha, onde vários católicos também militavam e, como único ponto social, usou a fórmula de Buchez de formação de cooperativas e sociedades operárias com o apoio do Estado. A mesma fórmula usada por Louis Blanc também.

O partido lassalista fundiu-se com o partido de Marx, em 1875, e no “Programa de Gotha”, de 1875, usou a fórmula de Buchez.

A fórmula de Buchez, como será visto abaixo, também era praticamente o pilar do programa da 1ª Internacional.

No “Manifesto” da 1ª Internacional, há um elogio das cooperativas, que devem ser apoiadas pelo Estado, para que a produção cooperativa seja nacional.

Marx, no livro “A guerra civil na França” (1870), esboça as linhas gerais do modelo de socialismo: seria baseado em Comunas, no “regime comunal” (ou “Constituição comunal”) em cada pequena cidade ou vila. Estas elegeriam todos os cargos locais e enviariam deputados para a “delegação nacional”, em Paris, deputados com “mandat impératif” (mandado imperativo, como na Idade Média), podendo ser destituídos a qualquer momento. Dentro das comunas, haveria a “emancipação econômica do trabalho” com base em “sociedades cooperativas”, que “regulariam a produção nacional num plano comum”.

No Programa de Gotha há também o mesmo ponto.

Na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875, Marx reconhece que é a fórmula de Buchez que está na origem da tese de substituir o patronato por cooperativas de produção, com a ajuda do Estado. 

Em 1879, Matheus Basílio (Júlio) Guesde (n 1845), Gabriel Deville e outros lançam um programa socialista, onde escrevem:

“o solo e outros instrumentos de produção, isto é, o capital mobiliário e imobiliário, devem ser retomados pela sociedade e restar propriedade da nação, para serem postos à disposição dos grupos produtores”, “a revolução que queremos não atinge unicamente os desocupados, mas também a feudalidade territorial, industrial e comercial, que sucedeu a antiga feudalidade da nobreza e da espada”.

Se o termo “retomado” fosse substituído por controlado seria praticamente a fórmula de Buchez e também de Cabet e Luís Blanc.

Numa linha semelhante, Benoit-Malon, socialista com religiosidade, queria um socialismo baseado num “humanismo ético e social”, “síntese de todas as atividades progressivas da humanidade”.

Malon tinha religiosidade. Henri-Louis Tolain (1828-1897) também defendeu o cooperativismo e o campesinato.

Marc Sangnier, o principal líder do “Sillon” (Sulco, grupo de leigos católicos na França), em novembro de 1907, escreveu: “a transformação social que nós anelamos, camaradas, aspira ao progresso do indivíduo, não a sua absorção. Desejamos que as fábricas, as minas e as indústrias pertençam a grupos de trabalhadores”. No fundo, “desejamos…libertar aos proletários do patronato”.

Guesde e Marc Sangnier escreveram, em 1905, o livro “Cristianismo e socialismo”. Guesde, em 1903, protestou, no congresso operário de seu partido, em Reims (quando houve a fusão do grupo guesdista com o grupo blanquista e o comunista) contra as leis que cerceavam o direito de associação das associações religiosas.

Foi esta também a linha de Charles Gide, socialista cooperativista cristão.

O movimento “sindicalista”, na França, tinha o mesmo ideal, expresso no artigo segundo dos Estatutos da Confederação do Trabalho: “a desaparição do salariado e do patronato”. Era também o ideal do socialismo de guilda (que teve Bertrand Russell) e de Ketteler, La Tour du Pin, Albert de Mun, Buchez, Luis Blanc e outros.

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