Arquivos para : A “Fórmula” de Estado social ligado a ÉTICA, pois todas as virtudes (regras práticas da vida) são pro democracia popular, socialismo democrático

Paulo VI e Paul Bourget, boas lições

Paulo VI ensinou que a “concepção cristã”, a filosofia cristã e a doutrina social da Igreja, tal como a ética cristã e natural, sempre parte “da dignidade humana e da sua perfectibilidade”, destacando a importância de um “paciente aprendizado de virtudes naturais e sobrenaturais”, “progressiva e cheia de confiança”.

Como ensinou Paul Bourget (1822-1887), no livro “O demônio do meio dia”, ou vivemos de acordo com nossas idéias ou terminamos por pensar da forma como vivemos (“cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu”). Bourget deixou vários romances, como “A Etapa”, “Cosmopolis”, “Um santo” e outras.

Todas as virtudes exigem democracia popular, bem comum

A ética cristã e natural pode ser resumida como a ética do amor (da caridade, “ágape”, da bondade, misericórdia, bondade), da justiça, prudência, fortaleza e temperança, tal como das demais subvirtudes, que são desdobramentos destas quatro virtudes fundamentais, cardeais. Em outras palavras, é a ética das regras racionais e supra-racionais exigidas pelo bem comum.

Pio XII resumiu bem: “nossa concepção cristã não admite nem oposição nem alternativa. Amor ou direito, mas a síntese fecunda: amor e direito”. Pio XII, numa carta a Charles Flory (em 07.07.52): “para ser autenticamente verdadeira, a caridade deve ter sempre em conta a justiça a instaurar e não se limitar a paliar as desordens e as insuficiências de uma condição injusta”. Charles Flory foi presidente, durante quinze anos, das Semanas Sociais, na França, pronunciando as conferências inaugurais destas Semanas, de 1945 a 1959. Flory escreveu obras como “Le catholicisme social devant la crise de civilisation” (Paris, Ed. Chronique social, 1960).

João XIII, na “Mater et Magistra” (n. 39), destacou como “toda a atividade econômica” e social deve ser “regida” pelas “normas supremas” da “justiça” e da “caridade”. Em outras palavras, a atividade econômica e social deve ser controlada, conscientemente, pela sociedade, pelas regras (ideias práticas, obrigações, deveres) exigidas (necessárias) para a manutenção, proteção, ampliação, aprofundamento e promoção do bem comum.

As idéias complexas da caridade e da justiça têm uma relação semelhante à da razão e da fé, são complementares. Isso ocorre porque, no fundo, as duas virtudes magnas são, no aspecto das idéias, regras (idéias) práticas exigidas (adequadas) para o bem comum. As pessoas que pautam a vida por estas regras praticam boas condutas e, pela prática reiterada, bons hábitos, bons costumes.

O termo “virtude” significa, assim, as boas regras (idéias práticas boas, boas moções, boas percepções), as boas condutas e os bons hábitos e costumes, como consta em praticamente todos os dicionários.

A justiça é o conjunto das regras racionais do bem comum. A caridade é o conjunto ds regras racionais e supra-racionais (indo além da justiça, por dentro desta) do bem comum. O termo “caridade” recebeu outros sinônimos, como “amor”, “bondade”, “misericórdia”, “compaixão” etc. No fundo, significa fazer o bem, buscar o bem geral, de forma racional e supra-racional.

A relação caridade e justiça tem a mesma estrutura da relação entre a graça e a natureza, tal como entre a fé e a razão. No fundo, a fé é a razão iluminada pela fé, pela Revelação. A natureza redimida, banhada pela graça, é a natureza elevada, aperfeiçoada, pois a esfera (vida) sobrenatural é a natureza banhada pela graça, não é apenas a graça, e sim o composto da natureza humana banhada e tendo participação na natureza (no poder) divina, em Deus.

Leão XIII, na “Grande est notre joie”, ensinou, na mesma linha: “o concurso da caridade, que vai mais além da justiça” (a caridade é supra-justiça) e “a comum dignidade da natureza humana” foi “elevada ainda pela redenção do Filho de Deus”.

O Catecismo da Igreja Catolica, neste sentido, ensina: “o ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos de fato cheguem a todos conforme a justiça e com a ajuda da caridade. (CIC §2459)

As virtudes humanas existiam antes da Revelação. Virtudes são regras racionais exigidas pela natureza, pela vida, pelo bem da própria pessoa, da família e da sociedade (regras do bem geral, do bem comum). A prática das regras gera atos de virtude, que, repetidos, geram hábitos. Por isso, também está correto dizer que virtudes são bons hábitos, hábitos de fazer boas obras, ações adequadas ao próprio bem, da família e da sociedade. Estes hábitos geram “disposições” nas almas, que também são chamadas de “virtudes” (disposições para o bem, encarnar regras, embeber idéias práticas com o sangue e os afetos).

A Revelação, a graça e os sacramentos apenas reforçam (ampliam, aperfeiçoam, regeneram) as forças naturais, especialmente da razão, da vontade e dos afetos, não as substituem, porque Deus quer a cooperação humana na salvação, quer o mérito humano, correspondendo ao mérito divino. A graça não tira a liberdade, e sim a confirma e a amplia. A graça requer a cooperação humana, a ação humana, o diálogo com o próximo e com Deus.

O processo de deificação (santificação), como ensinou o Pseudo-Dionísio o Aeropagita, tem três etapas: a purificação (“katarsis”, “catarse”) pela prática de virtudes (formação de bons hábitos, bons costumes), gerando a disposição para a graça; iluminação e perfeição. A “hierarquia celeste” e a “hierarquia eclesiástica”, tal como toda hierarquia, visa a deificação humana, a melhoria da vida, assegurar vida plena e abundante para todos.

João Paulo II também ensinou, no discurso aos operários da fábrica Solvay (cf. “L´Osservatore Romano”, 28.03.82), que “o amor” “anima a justiça, a inspira, descobre, aperfeiçoa, torna possível, respeita, eleva e supera”, “não a exclui, não a absorve, não a substitui; pelo contrário, pressupõe-na e exige-a, porque não existe verdadeiro amor, verdadeira caridade, sem justiça”, concluindo que “a justiça” é “a medida mesma da caridade”.

As virtudes são regras pró bem comum, pró democracia popular

As quatro virtudes cardeais listadas por Platão, por Aristóteles e pelos estóicos estão também na Bíblia (cf. “Sabedoria” 8,7; 1 Pr 14,15; Lv 19,15; Cl 4,1; Sl 118; Jo 16,33; Tt 2,12; Eclo 18, 30 e em centenas de versículos).

A primeira das virtudes naturais e cardeais é a “prudência” (a “regra certa da ação”, cf. Aristóteles), que aperfeiçoa a “logiskikón”, a mente, detalhando as regras na aplicação da regra do bem comum aos casos particulares. A prudência foi definida pelo “Catecismo da Igreja Católica” (n. 1806) como a aplicação “dos princípios morais aos casos particulares”, “sobre o bem a praticar e o mal a evitar”, na luta entre o Bem (comum) e o Mal.

A segunda virtude é a justiça, ou seja, o conjunto de regras (ideias) práticas, nascidas do povo, para o bem comum.

Há também a “temperança” e a “fortaleza” (coragem). Estas duas virtudes exigem o controle racional sobre os apetites, paixões, movimentos corporais e psíquicos, agressividade, concupiscência, afetos, desejos, paixões, imaginação etc. O termo “concupiscência” significa apenas o movimento do apetite sensível para seu objeto, sendo algo natural, desde que nos limites da razão, do bem comum.

Como ensinou o “Catecismo da Igreja Católica” (n. 1808), “a fortaleza” é a regra da “firmeza”, da “constância na procura do bem”, nos faz “vencer o medo, inclusive da morte”, “suportar a provação e as perseguições”, nos move mesmo ao “sacrifício” da “vida para defender” “causas justas” (“no mundo, tereis tribulações, mas tende coragem; eu venci o mundo”, disse Cristo, em Jo 16,33).

A “temperança” “modera a atração pelos prazeres”, “procura o equilíbrio no uso dos bens criados”, “assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade” (n. 1809, do “Catecismo”). Temperança é “moderação”, “sobriedade”, equilíbrio.

As “virtudes” são “adquiridas pela educação, por atos deliberados”, pela “perseverança”, “são purificadas e elevadas pela graça”, “forjam o caráter”, “facilitam a prática do bem” (n. 1810).

Estes pontos da ética hebraica e cristã eram racionais e, assim, são também encontrados na ética da Paidéia. Ou por força da razão ou da difusão das idéias hebraicas e cristãs no mundo, reaparecem em toda parte. Por exemplo, nos textos de Jigoro Kano, o codificador do judô, no Japão. Como ensina Jigoro Kano, no livro “Energia mental e física” (São Paulo, Ed. Pensamento, 2008, p. 108), “o propósito maior do estudo do judô” é que a pessoa “deve se aprimorar e contribuir para a sociedade”. Cabe a todos “desenvolver bons hábitos diários”, como “a simplicidade e a moderação”, “ao pensar em você, sempre tenha os outros e a toda a sociedade em mente”. Jigoro difundiu o ideal de “uma vida simples e modesta”, “desenvolver e acumular a energia necessária para usar pelo bem da sociedade, o que também trará muitos benefícios a você”. O ideal do judô, tal como também do escotismo, é o ideal de “uma vida simples e modesta”, “pelo bem da sociedade”, “valorizando a honra e a integridade”, “com as mais nobres intenções”.

A quintessência da ética é o conjunto das regras (idéias, depois atos) racionais, sociais e práticas, para pautar a vida, em prol da concretização do bem comum. Em termos clássicos, as virtudes são as regras racionais do bem comum e são a base humana da salvação, com o auxílio da graça. No fundo, as “virtudes” (as quatro cardeais e outras dezenas, que são outras condutas do bem) são “ações boas” (do bem). São atos (poderes) bons, racionais e supra-racionais, exigidos pelo bem comum. Esta concepção está nos textos éticos dos Santos Padres, inclusive na obrinha “Pastor”, de Hermas.

Aplicando esta estrutura geral ética ao poder temporal, fica claro que os poderes públicos devem ser racionais e adequados ao bem comum, devem ser atos de virtudes (atos para a concretização do bem comum), e não atos de pecados (“scelus”, em latim), injustiças e vícios (de individualismo, “tirania”, “oligarquia” etc).

Intrínseco a esta concepção clássica e hebraica há uma concepção democrática do poder, que exige que o poder seja racional, dialógico (movido pelo logos, pelo diálogo) e pautado pelo bem comum.

Conclusão: o poder deve ser ético, ou seja, deve ser sujeito às regras (idéias, percepções) racionais presentes na consciência do povo, deve ser fruto das ideias do povo. Estas regras, no prisma objetivo, foram chamadas de “virtudes” ou de “leis naturais”, sendo as idéias gerais, presentes na consciência do povo, de todos. Em outras palavras, o poder público deve ser sujeito às idéias verdadeiras, criativas e reais que brotam, a cada momento, da consciência das pessoas, do povo. O poder deve ser pautado pela consciência de todos, do povo.

A esta consciência, Rousseau chamava de “vontade geral”, decorrente das idéias gerais, presentes em todos. A concepção clássica, hebraica, cristã e muçulmana sobre o poder é uma concepção intrinsecamente democrática, pois ensina que o poder deve ser sujeito à consciência de todos, ao bem de todos, às idéias, percepções e regras exigidas pelo bem comum (o bem de cada pessoa, de cada família, de cada bairro, de cada cidade, de cada região, país, continente e da humanidade).

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