Todas as virtudes exigem democracia popular, bem comum

A ética cristã e natural pode ser resumida como a ética do amor (da caridade, “ágape”, da bondade, misericórdia, bondade), da justiça, prudência, fortaleza e temperança, tal como das demais subvirtudes, que são desdobramentos destas quatro virtudes fundamentais, cardeais. Em outras palavras, é a ética das regras racionais e supra-racionais exigidas pelo bem comum.

Pio XII resumiu bem: “nossa concepção cristã não admite nem oposição nem alternativa. Amor ou direito, mas a síntese fecunda: amor e direito”. Pio XII, numa carta a Charles Flory (em 07.07.52): “para ser autenticamente verdadeira, a caridade deve ter sempre em conta a justiça a instaurar e não se limitar a paliar as desordens e as insuficiências de uma condição injusta”. Charles Flory foi presidente, durante quinze anos, das Semanas Sociais, na França, pronunciando as conferências inaugurais destas Semanas, de 1945 a 1959. Flory escreveu obras como “Le catholicisme social devant la crise de civilisation” (Paris, Ed. Chronique social, 1960).

João XIII, na “Mater et Magistra” (n. 39), destacou como “toda a atividade econômica” e social deve ser “regida” pelas “normas supremas” da “justiça” e da “caridade”. Em outras palavras, a atividade econômica e social deve ser controlada, conscientemente, pela sociedade, pelas regras (ideias práticas, obrigações, deveres) exigidas (necessárias) para a manutenção, proteção, ampliação, aprofundamento e promoção do bem comum.

As idéias complexas da caridade e da justiça têm uma relação semelhante à da razão e da fé, são complementares. Isso ocorre porque, no fundo, as duas virtudes magnas são, no aspecto das idéias, regras (idéias) práticas exigidas (adequadas) para o bem comum. As pessoas que pautam a vida por estas regras praticam boas condutas e, pela prática reiterada, bons hábitos, bons costumes.

O termo “virtude” significa, assim, as boas regras (idéias práticas boas, boas moções, boas percepções), as boas condutas e os bons hábitos e costumes, como consta em praticamente todos os dicionários.

A justiça é o conjunto das regras racionais do bem comum. A caridade é o conjunto ds regras racionais e supra-racionais (indo além da justiça, por dentro desta) do bem comum. O termo “caridade” recebeu outros sinônimos, como “amor”, “bondade”, “misericórdia”, “compaixão” etc. No fundo, significa fazer o bem, buscar o bem geral, de forma racional e supra-racional.

A relação caridade e justiça tem a mesma estrutura da relação entre a graça e a natureza, tal como entre a fé e a razão. No fundo, a fé é a razão iluminada pela fé, pela Revelação. A natureza redimida, banhada pela graça, é a natureza elevada, aperfeiçoada, pois a esfera (vida) sobrenatural é a natureza banhada pela graça, não é apenas a graça, e sim o composto da natureza humana banhada e tendo participação na natureza (no poder) divina, em Deus.

Leão XIII, na “Grande est notre joie”, ensinou, na mesma linha: “o concurso da caridade, que vai mais além da justiça” (a caridade é supra-justiça) e “a comum dignidade da natureza humana” foi “elevada ainda pela redenção do Filho de Deus”.

O Catecismo da Igreja Catolica, neste sentido, ensina: “o ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos de fato cheguem a todos conforme a justiça e com a ajuda da caridade. (CIC §2459)

As virtudes humanas existiam antes da Revelação. Virtudes são regras racionais exigidas pela natureza, pela vida, pelo bem da própria pessoa, da família e da sociedade (regras do bem geral, do bem comum). A prática das regras gera atos de virtude, que, repetidos, geram hábitos. Por isso, também está correto dizer que virtudes são bons hábitos, hábitos de fazer boas obras, ações adequadas ao próprio bem, da família e da sociedade. Estes hábitos geram “disposições” nas almas, que também são chamadas de “virtudes” (disposições para o bem, encarnar regras, embeber idéias práticas com o sangue e os afetos).

A Revelação, a graça e os sacramentos apenas reforçam (ampliam, aperfeiçoam, regeneram) as forças naturais, especialmente da razão, da vontade e dos afetos, não as substituem, porque Deus quer a cooperação humana na salvação, quer o mérito humano, correspondendo ao mérito divino. A graça não tira a liberdade, e sim a confirma e a amplia. A graça requer a cooperação humana, a ação humana, o diálogo com o próximo e com Deus.

O processo de deificação (santificação), como ensinou o Pseudo-Dionísio o Aeropagita, tem três etapas: a purificação (“katarsis”, “catarse”) pela prática de virtudes (formação de bons hábitos, bons costumes), gerando a disposição para a graça; iluminação e perfeição. A “hierarquia celeste” e a “hierarquia eclesiástica”, tal como toda hierarquia, visa a deificação humana, a melhoria da vida, assegurar vida plena e abundante para todos.

João Paulo II também ensinou, no discurso aos operários da fábrica Solvay (cf. “L´Osservatore Romano”, 28.03.82), que “o amor” “anima a justiça, a inspira, descobre, aperfeiçoa, torna possível, respeita, eleva e supera”, “não a exclui, não a absorve, não a substitui; pelo contrário, pressupõe-na e exige-a, porque não existe verdadeiro amor, verdadeira caridade, sem justiça”, concluindo que “a justiça” é “a medida mesma da caridade”.

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