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A ação de Deus é por dentro, atua dentro das pessoas, nos melhorando

Pio XI, na “Divini Illius Magistri” (31.12.1929), ressalta que Deus, “a Divina Bondade”, difunde “os abundantes auxílios da graça” para suprir e apoiar “as forças da natureza humana”, para “incutir nas almas” “bons costumes”, boas idéias e boas práticas, “virtudes”, atos de bondade para consigo mesmo, com a família, o próximo e com a sociedade.

Pio XI, no item 10 desta encíclica, foi bem claro: “o verdadeiro cristão, longe de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir suas faculdades naturais, desenvolve e aperfeiçoa as faculdades, coordenando-as com a vida sobrenatural”.

A graça nunca anula a natureza, e sim a aperfeiçoa. O cristianismo quer aperfeiçoar as faculdades naturais

Pio XI, na “Divini Illius Magistri” (31.12.1929), ressalta que Deus, “a Divina Bondade”, difunde “os abundantes auxílios da graça” para suprir e apoiar “as forças da natureza humana”, para “incutir nas almas” “bons costumes”, boas idéias e boas práticas, “virtudes”, atos de bondade para consigo mesmo, com a família, o próximo e com a sociedade. Pio XI, no item 10 desta encíclica, foi bem claro: “o verdadeiro cristão, longe de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir suas faculdades naturais, desenvolve e aperfeiçoa as faculdades, coordenando-as com a vida sobrenatural”.

A Igreja adota a teoria das quatro virtudes cardeais, junto com as virtudes decorrentes destas quatro

São Paulo, na “Carta a igreja em Éfeso” (5,9), resume a lista das virtudes de uma pessoa da seguinte forma: “andai como filhos da Luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. Vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios”.

Na “Carta aos filipenses” (cf. Fp 4,8), São Paulo ensina:

tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”.

O texto acima tem o mesmo conteúdo que a ética de Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” (livro I, 13): Há também pontos semelhantes com a ética de Cícero e de Sêneca.

O termo “virtude” (“aretè”) aparece na Bíblia, como ser visto em 1 Ped 2,9, 2 Ped 1,3-5 ou Fp 4,8. O trecho mais importante é 1 Pd 2,9, pois é uma citação de Isaías 43,21 (da “Septuaginta”; tal como 42,8-12; e 63,7) como o sentido de “atos dignos de louvor” (em hebraico, “te hillah”; “aretas”, em grego). No livro apócrifo “Macabeus 4”, há o termo “aretè”, com claríssima ligação com os estoicos. No livro “Sabedoria” (5,13), a virtude (“aretè”) é o contrário da “maldade”, sendo atos (a prática) de bondade, do bem. O livro “Sabedoria” (4,1) ensina que a prática das virtudes gera a “imortalidade”. O livro “Sabedoria” adota a classificação clássica das quatro virtudes cardeais (cf. 8,7).

Virtudes são disposições para fazer o bem, praticar atos bons

O conceito clássico mais apurado sobre as virtudes foi dado por Aristóteles. Por ser a melhor expressão racional, este conceito foi acolhido na cultura hebraica, cristã e muçulmana. Para provar isso, basta lembrar os três filósofos mais importantes destas culturas: Maimônides (o Rambam, na cultura judaica), Avicena e Averróes (na cultura muçulmana) e Santo Tomás de Aquino e Suarez, ns cultura cristã.

O conceito clássico e hebraico de virtude foi também consagrado no “Catecismo da Igreja Católica”, no item 1803, “a virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem”, “praticar atos bons”, “dar o melhor de si”, “procurar”e “escolher” o bem, “na prática”. Com uma “vida virtuosa”, pautada pelo bem comum, nos tornamos “semelhante a Deus”.

As virtudes são “perfeições habituais da inteligência e da vontade, que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão [virtudes naturais] e a fé [virtudes sobrenaturais]”.

A “pessoa virtuosa” age “livremente” na “prática do bem”. Além disso, “as virtudes morais são adquiridas humanamente”, são os frutos e os germes de atos moramente bons”, “dispõem todas as forças do ser humano para” a “comunhão com o amor divino” (“Catecismo”, n. 1804).

Deste conceito, decorre a regra que, o poder, como qualquer outro ato ou prática humana, deve estar sujeito às virtudes, deve estar sujeito às regras racionais e sociais exigidas pelo bem comum, o poder deve estar sujeito à sociedade organizada, para que todo poder sirva ao bem comum.

A quintessência do jusnaturalismo do melhor da Paidéia, da Bíblia e do cristianismo é justamente a valorização da consciência (especialmente da razão), em sua função de conhecimento, de obtenção da verdade (idéias verdadeiras, reais), como guia da vida.

Paulo VI e Paul Bourget, boas lições

Paulo VI ensinou que a “concepção cristã”, a filosofia cristã e a doutrina social da Igreja, tal como a ética cristã e natural, sempre parte “da dignidade humana e da sua perfectibilidade”, destacando a importância de um “paciente aprendizado de virtudes naturais e sobrenaturais”, “progressiva e cheia de confiança”.

Como ensinou Paul Bourget (1822-1887), no livro “O demônio do meio dia”, ou vivemos de acordo com nossas idéias ou terminamos por pensar da forma como vivemos (“cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu”). Bourget deixou vários romances, como “A Etapa”, “Cosmopolis”, “Um santo” e outras.

Todas as virtudes exigem democracia popular, bem comum

A ética cristã e natural pode ser resumida como a ética do amor (da caridade, “ágape”, da bondade, misericórdia, bondade), da justiça, prudência, fortaleza e temperança, tal como das demais subvirtudes, que são desdobramentos destas quatro virtudes fundamentais, cardeais. Em outras palavras, é a ética das regras racionais e supra-racionais exigidas pelo bem comum.

Pio XII resumiu bem: “nossa concepção cristã não admite nem oposição nem alternativa. Amor ou direito, mas a síntese fecunda: amor e direito”. Pio XII, numa carta a Charles Flory (em 07.07.52): “para ser autenticamente verdadeira, a caridade deve ter sempre em conta a justiça a instaurar e não se limitar a paliar as desordens e as insuficiências de uma condição injusta”. Charles Flory foi presidente, durante quinze anos, das Semanas Sociais, na França, pronunciando as conferências inaugurais destas Semanas, de 1945 a 1959. Flory escreveu obras como “Le catholicisme social devant la crise de civilisation” (Paris, Ed. Chronique social, 1960).

João XIII, na “Mater et Magistra” (n. 39), destacou como “toda a atividade econômica” e social deve ser “regida” pelas “normas supremas” da “justiça” e da “caridade”. Em outras palavras, a atividade econômica e social deve ser controlada, conscientemente, pela sociedade, pelas regras (ideias práticas, obrigações, deveres) exigidas (necessárias) para a manutenção, proteção, ampliação, aprofundamento e promoção do bem comum.

As idéias complexas da caridade e da justiça têm uma relação semelhante à da razão e da fé, são complementares. Isso ocorre porque, no fundo, as duas virtudes magnas são, no aspecto das idéias, regras (idéias) práticas exigidas (adequadas) para o bem comum. As pessoas que pautam a vida por estas regras praticam boas condutas e, pela prática reiterada, bons hábitos, bons costumes.

O termo “virtude” significa, assim, as boas regras (idéias práticas boas, boas moções, boas percepções), as boas condutas e os bons hábitos e costumes, como consta em praticamente todos os dicionários.

A justiça é o conjunto das regras racionais do bem comum. A caridade é o conjunto ds regras racionais e supra-racionais (indo além da justiça, por dentro desta) do bem comum. O termo “caridade” recebeu outros sinônimos, como “amor”, “bondade”, “misericórdia”, “compaixão” etc. No fundo, significa fazer o bem, buscar o bem geral, de forma racional e supra-racional.

A relação caridade e justiça tem a mesma estrutura da relação entre a graça e a natureza, tal como entre a fé e a razão. No fundo, a fé é a razão iluminada pela fé, pela Revelação. A natureza redimida, banhada pela graça, é a natureza elevada, aperfeiçoada, pois a esfera (vida) sobrenatural é a natureza banhada pela graça, não é apenas a graça, e sim o composto da natureza humana banhada e tendo participação na natureza (no poder) divina, em Deus.

Leão XIII, na “Grande est notre joie”, ensinou, na mesma linha: “o concurso da caridade, que vai mais além da justiça” (a caridade é supra-justiça) e “a comum dignidade da natureza humana” foi “elevada ainda pela redenção do Filho de Deus”.

O Catecismo da Igreja Catolica, neste sentido, ensina: “o ponto decisivo da questão social é que os bens criados por Deus para todos de fato cheguem a todos conforme a justiça e com a ajuda da caridade. (CIC §2459)

As virtudes humanas existiam antes da Revelação. Virtudes são regras racionais exigidas pela natureza, pela vida, pelo bem da própria pessoa, da família e da sociedade (regras do bem geral, do bem comum). A prática das regras gera atos de virtude, que, repetidos, geram hábitos. Por isso, também está correto dizer que virtudes são bons hábitos, hábitos de fazer boas obras, ações adequadas ao próprio bem, da família e da sociedade. Estes hábitos geram “disposições” nas almas, que também são chamadas de “virtudes” (disposições para o bem, encarnar regras, embeber idéias práticas com o sangue e os afetos).

A Revelação, a graça e os sacramentos apenas reforçam (ampliam, aperfeiçoam, regeneram) as forças naturais, especialmente da razão, da vontade e dos afetos, não as substituem, porque Deus quer a cooperação humana na salvação, quer o mérito humano, correspondendo ao mérito divino. A graça não tira a liberdade, e sim a confirma e a amplia. A graça requer a cooperação humana, a ação humana, o diálogo com o próximo e com Deus.

O processo de deificação (santificação), como ensinou o Pseudo-Dionísio o Aeropagita, tem três etapas: a purificação (“katarsis”, “catarse”) pela prática de virtudes (formação de bons hábitos, bons costumes), gerando a disposição para a graça; iluminação e perfeição. A “hierarquia celeste” e a “hierarquia eclesiástica”, tal como toda hierarquia, visa a deificação humana, a melhoria da vida, assegurar vida plena e abundante para todos.

João Paulo II também ensinou, no discurso aos operários da fábrica Solvay (cf. “L´Osservatore Romano”, 28.03.82), que “o amor” “anima a justiça, a inspira, descobre, aperfeiçoa, torna possível, respeita, eleva e supera”, “não a exclui, não a absorve, não a substitui; pelo contrário, pressupõe-na e exige-a, porque não existe verdadeiro amor, verdadeira caridade, sem justiça”, concluindo que “a justiça” é “a medida mesma da caridade”.

Leão XIII defendeu economia mista, centrada no bem comum, destinação universal dos bens etc

A concepção econômica e política cristã foi resumida por Leão XIII, na “Humanum genus” (itens 34 e 35). Leão XIII parte do verdadeiro agostinianismo, da lição de Santo Agostinho: “a doutrina do Evangelho” é “útil à sociedade”, pois auxilia na organização da sociedade, estruturando o “Estado” com “fundamento estável”, pelo ensinamento da teoria “das virtudes” e pelo combate aos “vícios” (evitando a “impunidade dos vícios”, da opressão). Virtudes são atos racionais e adequados ao bem comum. A lista das virtudes, presente na Bíblia, coincide, em linhas gerais, com o melhor da Paidéia, indo além. A lista das virtudes é a lista do que é bom, do que é adequado ao bem comum, ao bem de todos. O cristianismo ensina o que é “necessário ao bem estar comum” das pessoas. Assim, a concepção política e econômica da Igreja é a concepção natural e humanista. 

Como explicou Leão XIII, o poder público, em termos gerais, é querido por Deus, porque, “pela vontade de Deus”, os seres humanos “nascem para a sociedade civil”. Por natureza, “os homens são todos iguais entre si”, mas “a própria sociedade” “se desfaz” se não estiver organizada, como um “corpo humano”, onde as partes estão “conjugadas entre si”, atuando em prol do bem comum, para suprir e prover, para todos, o que é “útil e necessário à vida”. A sociedade deve estar organizada para uma “cooperação para o bem comum”, de forma harmoniosa, à “imagem de uma cidade bem constituída e conforme à natureza”.

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