Norman Mailer também mostrou que a Democracia popular nasce de fontes cristãs, hebraicas e do melhor da Paidéia ampla. 

Norman Mailer, escritor norte-americano engajado, cristão de esquerda, da esquerda do Partido Democrático, escreveu o livro “Os exércitos da noite” (publicado no Brasil com o título “Os degraus do Pentágono”, Rio de Janeiro, Ed. Record, sem data).

Neste livro, descreveu a marcha sobre o Pentágono (sede do Ministério da Defesa dos EUA, das Forças Armadas), ocorrida em outubro de 1967, com grande participação dos católicos, quacres, marxistas, socialistas etc.

A marcha foi contra a guerra do Vietnam e contra o imperialismo.

Os católicos dos EUA também rejeitaram a “guerra” (invasão) do golfo, na década de 80, contra o Iraque, tal como o Vaticano rejeitou a segunda invasão do Iraque, mais recentemente.

Scot Turow, outro bom escritor, no livro “As leis de nossos pais”, também examinou a história do movimento de esquerda nos EUA retratando a vida de um senador estadual cristão-maoísta, ligado ao movimento negro. Recomendo a obra. 

Estes dois escritores, tal como John Grisham (em seus romances jurídicos), explicitam bons aspectos do jusnaturalismo ético, de origem cristão, que está na origem do sistema do “common law”, a base jurídica da democracia nos países anglo-saxões.

Mailer era um cristão de esquerda, numa linha bem próxima do teísmo de Stuart Mill, de H.G.Wells (1866-1946) e outros. Morreu acreditando num Deus que “está fazendo o melhor que Ele ou Ela consegue fazer”, num Deus que luta ao nosso lado, o lado do povo, do negro, do trabalhador.

Como o próprio Mailer disse, numa entrevista (que colhi no livro de John Buffalo Mailer, “O grande vazio”, São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 2006, p. 176), “a ideia de que pode haver uma colaboração entre Deus e a humanidade tem o potencial de criar, no futuro, um partido religioso de esquerda”.

Mailer também escreveu o livro “O Evangelho segundo o Filho”, destacando Cristo como um “Deus existencial”, que “fez o possível”, que é o que devemos todos fazer, nas circunstâncias mais difíceis. Este escritor engajado tinha “a fé em que Deus está tentando fazer a melhor criação possível, lutando contra grandes forças adversas. Acredito que existe um diabo fazendo oposição a Ele”.

Mailer descreveu a atuação conjunta do padre Rice, do Dr. Spock (um grande pediatra estadunidense), de Noam Chomski (n. 1928) e outros.

Mailer termina seu livro com estas palavras (p. 312):

“A América – a terra onde uma nova espécie de homem nascera da ideia de que Deus está presente em todos os homens, não só na compaixão, mas também no poder, e de que a nação pertence, assim, ao povo; pois a vontade do povo (se às algemas de sua vida puder ser dada a arte de girarem por si mesmas) era, então, a vontade de Deus. Grande e perigosa ideia! Se as algemas não giram, então a vontade do povo poderá ser a vontade do Diabo! Quem pode, agora, saber onde está o que? As algemas são controladas por mentirosos. (…)”.

“Deus se contorce em suas garras de ferro. Quebremos os grilhões. Livrai-nos da nossa maldição. Pois temos que ir até o final da estrada e alcançar aquele mistério onde a coragem, a morte e o sonho de amor nos prometem que poderemos, enfim, dormir”.

Teologicamente, o texto é perfeito, digno do texto dos Santos Padres, católicos.

Deus está presente em todas as pessoas, pela imanência, um dos atributos divinos ligados à ubiquidade. Por conta disso, os outros atributos divinos também estão presentes: bondade, amor, poder, justiça etc. Este é um dos principais fundamentos teológicos que explicam a razão da nação (do Povo, da sociedade) ter o direito e o dever de autogovernar-se.

Esta lição consta nos textos da Bíblia, da Paidéia, dos Santos Padres, tal como está claro nos escritos de Santo Isidoro, Santo Tomás de Aquino, Santo Tomás Morus, Gil Vicente, Cervantes e também de Camões. Está também nos melhores textos de Erasmo de Rotterdam, Francisco de Vitória, Francisco Suárez, Bellarmino, Francisco Manuel de Melo e em praticamente todos os santos e doutores da Igreja.

Na p. 86, Mailer transcreveu o discurso do capelão de Yale, Padre Coffin:

“Segundo a lei vigente – continuou Coffin – para que um homem seja qualificado por objeções de consciência, tem que crer em Deus. Poderá haver coisa eticamente mais absurda? (…). Como cristão, estou convencido de que não crer em Deus é um terrível infortúnio, mas não é, automaticamente, um defeito ético. Entretanto, apesar de numerosos apelos de entidades religiosas, o Congresso preferiu, na primavera passada, estabelecer o serviço militar optativo unicamente para os pacifistas absolutos. Isso constitui outro absurdo, pois os direitos de um homem cuja consciência o proíbe de participar de uma determinada guerra são tão dignos de respeito quanto os direitos de um homem cuja consciência o proíbe de participar de todas as guerras”.

Mailer redigiu uma obra contendo a vida de Cristo, contada na primeira pessoa e também outra obra sobre a juventude de Hitler, com a influência de demônios na formação hitleriana.

Mailer destacou-se por atacar o “capitalismo das grandes corporações”, “totalitário”, defendendo as pequenas empresas, a pequena burguesia e os artesãos, tal como faz a Doutrina social da Igreja, o “socialismo” humanista, o populismo, o trabalhismo etc.

Conclusão: a oposição à guerra imperialista, no Vietnam (tal como o combate ao racismo, ao imperialismo, ao capitalismo das grandes corporações e às atrocidades no Iraque etc), teve como motor (causa teórica) o melhor do cristianismo, inclusive a teoria da desobediência civil: as leis, situações jurídicas e ordens injustas não devem ser obedecidas.

As leis positivas, tal como as situações jurídicas mesmo cristalizadas, endurecidas, só têm validade ética se servirem ao florescimento da vida de todos, se coincidirem com as regras conducentes ao bem comum, presentes na consciência viva do povo, dos trabalhadores, da sociedade.

Guerras imperialistas e ofensivas – tal como multinacionais imperialistas, o FMI, os latifúndios e o sistema capitalista, com o consumismo, a extração da mais-valia e outros males – são gravíssimos pecados sociais e justificam a desobediência civil e até revoluções.

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