Segundo o cardeal de Lubac, o socialismo foi uma forma de secularização da esperança hebraica-cristã. 

A maioria dos socialistas da França tentou conciliar o socialismo com a liberdade e a religião.

A tendência é antiga, como prova o exame das idéias de Morelly, Rousseau, Mably, o Círculo Social dos Padres Fauchet e Boneville, Leclerc, Robespierre (o jacobinismo é claramente pró-socialista), o padre Jacques Roux, Babeuf e Buonarotti.

Na mesma corrente, há ainda o elo representado por Charles Péguy e Jaurès. Péguy, em 1897, escreve “Joana d`Arc”, sua primeira obra. Em 1910, Péguy converte-se ao catolicismo e escreve duas obras: “O Mistério da Caridade de Joana d`Arc” e “Nossa Juventude”, mostrando que o catolicismo é perfeitamente conforme com o socialismo e o republicanismo.

O amor a Joana d`Arc simboliza bem a luta contra o imperalismo, o capitalismo e o latifúndio.

O livro de Shaw sobre Joana d’Arc (tal como os de Mark Twain e Érico Veríssimo sobre esta santa) mostra o papel de Joaninha contra o imperalismo e o feudalismo (a centralização monárquica na França foi uma luta dos camponeses, dos artesãos e dos pequenos burgueses contra os senhores feudais, como apontou o próprio Marx, que também elogiou Joana d’Arc).

Péguy gostava de Jaurès (este teve um neto de Marx como aliado) e seguiu este até se desentenderem, devido a algumas leis anticlericais e por outras razões.

Péguy e Jaurès, no entanto, em um ponto, sempre estiveram juntos, souberam conciliar o socialismo com a democracia e a religião.

Bergson, Marc Sangnier, Péguy, Maritain, Mounier, o abade Pierre e outros também são estrelas da mesma constelação.

Nikolai Aleksandrovitch Berdiaev (1874-1948) foi um russo, nascido em Kiev, que defendeu idéias socialistas na juventude, sendo expulso da Universidade de Kiev, em 1898. Foi depois desterrado para uma província. Converteu-se e viveu sempre como cristão. Em 1922, saiu da Rússia e permaneceu quase toda a vida em Paris. Berdiaev reconheceu verdades contidas no marxismo, por exemplo, a crítica ao individualismo e à coisificação (reificação) das pessoas. Disse que o marxismo vive do que combate e ignora: basicamente do caráter existencial das pessoas (cf. consta no excelente “Dicionário de filosofia”, de J. Ferrater Mora, Edições Loyola, São Paulo, 2000, no verbete sobre Berdiaev).

Defendeu que o ser humano é naturalmente comunitário e, por isso, busca a comunhão com o próximo e com Deus e somente vive bem em formas comunitárias e cooperativas. Escreveu obras como “A verdade e a falsidade do comunismo”, onde reconheceu várias verdades contidas no marxismo.

Jacques Maritain (1882-1973), como Alceu (na juventude e na velhice), foi socialista quando era adolescente. Adotou uma forma de socialismo democrático, com abertura à religião, inspirado em Jaurès e Péguy.

Maritain escreveu, quando tinha apenas 16 anos, uma carta a um operário, Baton, esposo da cozinheira na casa de seus pais, onde diz: “serei socialista e viverei para a revolução”.

Em 1901, Maritain conheceu Raíssa Oumansoff, sua futura esposa, uma judia russa. O episódio que os uniu foi quererem escrever um artigo de protesto contra a perseguição dos socialistas na Rússia. Maritain atacou duramente o nazismo, o fascismo e a ditadura de Franco, na Espanha, redigindo manifestos a favor dos republicanos espanhóis. Depois, defendeu a Resistência Francesa e a colaboração entre católicos e comunistas contra os nazistas. Adotava uma forma de personalismo comunitário com base nos direitos humanos e queria que a sociedade se transformasse em uma “comunidade de homens livres”, de produtores (trabalhadores) livres, sem reificação.

Jean Lacroix (autor de “Marxismo, existencialismo, personalismo, presença da eternidade no tempo”, Paz e Terra, 1967) foi outro pensador católico de esquerda (1900-1986). Fazia parte desta grande corrente representada por Péguy, Maritain e Mounier (é co-fundador da revista Esprit). Adotava uma forma de personalismo comunitário socialista: “o coletivismo revolucionário deve acabar no personalismo socialista”, defendendo que “o progresso não constitui um mito e existe um sentido na história”. A idéia de “sentido” na história é a idéia de plano, um plano cooperativo e participativo, de Deus, que requer a liberdade humana. Foi um bom discípulo de Blondel, Renouvier, Carlos Secrétan (1815-1895, discípulo de Leibnitz, tendo escrito o livro “Os direitos da humanidade”, em 1890), Laberthonniere e Scheler, que eram ligados à Igreja.

Sobre Marc Sangnier, vale a pena ler o elogio que S. Pio X fez do movimento Sillon, em um documento de 1904. Sangnier permaneceu na Igreja e foi uma liderança católica importante na França. Alguns erros menores não prejudicam as grandes verdades expostas por Sangnier e pelo Sillon. São Pio X condenou alguns erros do Sillon, mas reconheceu a boa fé e as boas idéias de Sangnier.

A condenação de Pio X foi infeliz, pois possibilitou que os burgueses usassem a condenação contra a ala mais comprometida da Igreja.

Sangnier queria a democratização de todas as relações sociais. Tinha um programa belíssimo, pugnando pela democratização de todas as relações sociais, inclusive das relações de produção. Queria que as unidades produtivas tivessem estruturas cooperativas, comunitárias e democráticas.

Simone Weil (1909-1943) foi uma linda judia parisiense (parecida, em alguns pontos, com Edith Stein, que morreu nas câmaras de gás de Auschwitz). Simone lecionou filosofia desde 1931. Nos anos de 1934-1935, trabalhou como operária voluntária numa fábrica (é uma precursora dos padres operários franceses). Em 1936, uniu-se ao grupo republicano espanhol, ligado à CNT. De 1937 a 1939, após ir até Assis, a cidade de São Francisco, aproximou-se do cristianismo. Foi perseguida pelos nazistas por ser judia. Participou da Resistência Francesa, ao lado do Frei dominicano Perrin e morreu de tuberculose, em Ashford.

Simone foi discípula de Alain, o principal intelectual do radicalismo, que também tinha afinidades com a doutrina da Igreja na defesa da liberdade e da difusão dos bens (e na luta pela democracia).

Simone sempre foi anticapitalista, pois era personalista e lutou por uma sociedade personalista e comunitária. O ecumenismo desta militante, que morreu praticamente de fome, gerou textos de sínteses entre o melhor do pensamento grego, budista, radical, anarquista, socialista, personalista e o cristianismo.

Emmanuel Mounier (1905-1950), no artigo “Fidelité” (publicado na revista “Esprit”, de fevereiro de 1950), defendeu formas de luta conjunta, estratégica, entre os personalistas cristãos (que assimilavam o melhor do existencialismo) e os marxistas humanistas, uma aliança que surgiu nos anos de Resistência Francesa, contra o nazismo. Defendia também o surgimento de “um novo socialismo”:

O personalismo considera, com efeito, que as estruturas do capitalismo são um obstáculo ao movimento de libertação do homem e que devem ser destruídas e substituídas por uma organização socialista da produção e do consumo. Este socialismo não foi inventado por nós… e comporta, sob o ângulo humano, exigências capitais. Não deve substituir o imperialismo dos interesses privados pela tirania dos poderes coletivos; é preciso, pois, encontrar uma estrutura democrática, sem debilitar o rigor das medidas que devem ser tomadas para instalar e defender suas primeiras conquistas” (do livro “O que é o personalismo?”).

Mounier escreveu várias obras, como “O pensamento de Charles Péguy” (1931), “Da propriedade capitalista à propriedade humana”(1934), “Revolução personalista e comunitária” (1935), “Anarquia e personalismo”(1937), “Liberdade sob condições” (1946) e outras.

Na obra sobre a propriedade, Mounier criticou a propriedade capitalista e desenvolveu as grandes teses do cristianismo. Foi discípulo de Jacques Chevalier, Maritain, Berdiaev, Santo Agostinho, Bergson, Péguy e outros. Combateu o regime de Franco, na Espanha. Participou da Resistência Francesa, contra os nazistas. Queria refazer o Renascimento. Tinha ódio do capitalismo pela desordem estabelecida (injustiça institucionalizada) e pelo primado do dinheiro (do capital). Lutou pela paz, defendeu o anticolonialismo, a escola pública pluralista etc. Deixou discípulos, como Jean Marie Doménach, Marrou, Jean Hau, Albert Béguin e milhões de leitores gratos.

Para Mounier, tal como os Santos Padres, todas as pessoas têm um direito natural primário (ius naturae) aos bens necessários para uma vida digna. Este direito natural decorre do destino comum dos bens da terra para servir às necessidades, ao bem (cada necessidade tem como contrapartida bens) de todos, para que todos vivam dignamente.

Os bens supérfluos estão totalmente sujeitos à comunidade, ao uso comum.

A sociedade pode e deve ter controle sobre os bens supérfluos para atender a todos. Mesmo o Estado “não tem domínio sobre as coisas”, pois os bens pertencem à sociedade (domínio eminente da sociedade, que decorre da soberania da mesma, do povo).

O Estado pode apenas administrar estes bens e a melhor gestão dos mesmos ocorre por formas de autogestão (cooperativas sujeitas a planos estatais e/ou estatais sujeitas a co-gestão dos trabalhadores), de gestão (também formas de planificação dentro das unidades produtivas), com base no trabalho pessoal (primado do trabalho e do aspecto subjetivo do trabalho, cf. João Paulo II), sujeitas a formas de planificação participativas. Estas idéias foram acatadas principalmente por influência do frei dominicano Georg Renard, que escreveu obras socialistas e queria transformar todas as unidades produtivas em cooperativas e/ou fundações.

Emmanuel Mounier, que exerceu muitíssima influência no ideário político do Uruguai e de outros países, seguiu as idéias de Buchez. Mounier descreveu muito bem o domínio eminente da sociedade, como prova o texto abaixo. O personalismo comunitário de Mounier tem Buchez como precursor principal. Buchez, Marc Sangnier, Mounier, Maritain e Alceu Amoroso Lima são elos importantes entre a doutrina social da Igreja e a teologia da libertação.

Alino Lorenzon, no livro “Atualidade do pensamento de Emmanuel Mounier” (Editora Unijuí – Ihuí, RS, 1996, pp. 95, 119-120), traz algumas boas informações sobre Mounier:

Mounier aconselha àqueles que pretendem ultrapassar o marxismo sem conhecê-lo a fundo uma atitude independente e aberta.

“Um pensamento vivo somente é ultrapassado pela sua própria nascente (…).

Ajudemos antes o marxismo, através de nossos questionamentos, através de nossas elucidações, através de nossa contribuição a se ultrapassar a si mesmo, vale dizer, a lutar contra suas próprias cristalizações, a se desembaraçar das contaminações do momento, a descobrir ou a admitir (como toda hipótese científica) perspectivas que antes de mais nada não tinha visado, enfim a desenvolver a força inventiva de suas próprias descobertas”.(…)

Na tese de doutoramento em Sociologia do professor Luiz Alberto Gómez de Souza, intitulada “A JUC: os estudantes católicos e a políti­ca”, as referências a citações de textos de Mounier, fundamentando a reflexão e o engajamento dos jucistas, aparecem de maneira insistente, ao longo de boa parte da obra. Para ilustrar nossa afirmação, transcreve­mos apenas uma citação. “Se de um lado Maritain e seu Humanismo integral tinham inspirado os movimentos social-cristãos e os parti­dos democrata-cristãos (do Chile, da Venezuela) e mesmo da seção paulista do (PDC brasileiro), a ação dos militantes da JUC, sobretudo em Belo Horizonte e em São Paulo, se orientava mais pelo pensamento de Mounier, num compro­misso que pouco a pouco se ia explicitando como personalista e socialista”.

É que a influência do pensamento e do testemunho de Mounier já vinha inspirando na Europa toda uma série de discussões no campo teo­lógico e filosófico, muito importantes. Apenas duas citações ilustram a constatação.

“Mounier é considerado um dos precursores leigos do concílio Vaticano II. Entre as muitas pessoas que o afirmam, podemos lembrar o padre Chenu, o padre Ganne e o padre M. Vincent, que apresentou, em 1977, na Universidade Católica de Louvaina, uma tese de doutorado em Teologia tendo por título ‘As orientações personalistas da Gaudium et Spes’. O padre Chenu sublinha a importância de Mounier sobretudo para as relações com os não cristãos, a abertura da Igreja para o mundo, o acontecimento, como sinal dos tempos, e a laicidade, como presença atuante dos cristãos no mundo “.

O socialismo personalista e humanista de Mounier, combinado com o distributismo e outras correntes socializantes, auxilia na aplicação dos textos subversivos do Evangelho, para superar o capitalismo, o imperialismo e o latifúndio.

Bergson, no livro “As duas fontes da moral e da religião”, comparou a influência das doutrinas dos Antigos com a do Evangelho: “Foi preciso esperar até o cristianismo para que a idéia da fraternidade universal, que implica na igualdade de direitos e inviolabilidade das pessoas, se tornasse operante. Dir-se-á que a ação foi muita lenta: com efeito, dezoito séculos passaram… mas ela não deixou por isso de começar com o ensinamento do Evangelho para continuar indefinidamente. Outra coisa é um ideal simplesmente apresentado aos homens por sábios dignos de admiração, outra coisa o ideal lançado ao mundo através de uma mensagem carregada de amor e que pede o amor” (Paris, Alcan, p. 75).

A França foi o país berço do socialismo. Onde houve o maior esforço para conciliar o socialismo com a liberdade e a democracia. Basta considerar Vitor Hugo, Louis Blanc, Jaurès e mesmo Sartre. Vitor Hugo, Louis Blanc e outros sempre foram teístas e adoradores do Deus verdadeiro.

Jaurès esforçou-se por elaborar uma síntese, ligada a Benoit Malon, que conciliaria a religião, o socialismo e a democracia.

Jaurès foi panteísta, reconhecendo a imanência de Deus, somente faltando o reconhecimento da transcendência.

Sartre, na maior parte de sua vida, buscou a reconstituição da Frente Popular e a conciliação do socialismo com a liberdade, com a democracia.

François Mauriac, apesar de erros antropológicos em alguns de seus romances (pessimismo), sempre tentou se inspirar em Marc Sangnier, buscando uma política pró-socialista e pró-democracia, inspirada nas Sagradas Escrituras, principalmente no Sermão da Montanha.

Os católicos, na França, deram exemplos e idéias ao mundo todo. François Mitterrand, mesmo pertencendo a uma parte do Partido Socialista mais laica, apontou fontes variadas para o socialismo francês, destacando as fontes cristãs.

Karl Marx, numa carta a J. B. Schweitzer (o sucessor de Lassalle, que foi educado em escola jesuíta), de 24.01.1865, sobre a morte de Proudhon, escreveu que Proudhon distinguiu-se de outros socialistas. Os textos de Proudhon seriam distintos por: “…terem sido escritos na França numa época em que os socialistas franceses julgavam oportuno fazer constar que seus sentimentos religiosos os situavam acima do voltaireanismo burguês do século XVIII e do ateísmo alemão do século XIX”.

Marx viu corretamente, pois, afinal de contas, permaneceu de outubro de 1843 a 02 de fevereiro de 1845 em Paris. Os “socialistas franceses” tinham “sentimentos religiosos”. Vale a pena lembrar que, segundo Lênin, o marxismo tem três fontes: o socialismo francês, a economia política inglesa (na verdade, os socialistas ricardianos, que eram inspirados na religião) e a filosofia alemã (totalmente religiosa, basta pensar em Hegel, que Lênin e Marx chamavam de “idealista”).

Segundo Marx, os “socialistas franceses” pré-marxistas tinham “sentimentos religiosos”, exceto Proudhon. Na verdade, mesmo Proudhon tinha idéias e sentimentos religiosos, expressos em várias obras. Por exemplo, no livro mais importante de Proudhon, “O que é a propriedade?”, escrita em 1840, o mesmo, quase no fechamento do livro, tece um bom elogio a Deus. Vejamos:

Oh, Deus da liberdade! Deus da igualdade! Tu, que hás colocado em meu coração o sentimento da justiça antes que minha razão chegasse a compreende-la, ouve minha ardente súplica! Tu és quem me há inspirado quando acabo de escrever. Tu hás formado meu pensamento, dirigido meu estudo, privado meu coração de más paixões, a fim de que publique tua verdade ante o amo e o escravo. Tenho falado segundo a energia e a capacidade que tu me hás concedido; a Ti cabe acabar tua obra. Tu sabes, Deus da liberdade, se me guiei pelo interesse próprio ou por tua glória. Pereça meu nome e que a humanidade seja livre! Veja eu, desde um obscuro rincão, instruído ao povo, aconselhado por leais, protetores, conduzido por corações desinteressados! Acelera, se é possível, o tempo de nossa provação, afoga na igualdade o orgulho e a avareza; confunde esta idolatria da glória que nos retém na objeção, ensina a estes pobres filhos teus que no seio da liberdade não haverá heróis nem grandes homens.

“Inspira ao poderoso, ao rico, a aquele cujo nome jamais pronunciarão meus lábios em tua presença, sentimentos de horror a suas rapinas; sejam eles os que peçam que se lhes admita a restituição e absolva-lhes seu imediato arrependimento de todas suas culpas. Então, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, se confundirão em inefável fraternidade, e todos juntos, entoando um hino novo, te erigirão o altar, oh Deus de liberdade e de igualdade!”.

Este texto mostra como Proudhon foi influenciado pela leitura dos Santos Padres, quando trabalhava numa gráfica, em sua juventude.

Proudhon teve aliados católicos, como Charles François Chevé (1813-1865), um socialista católico, que dirigiu o jornal Voix du Peuple (Voz do povo), com Proudhon.

Chevé foi inclusive citado por Marx, nos “Grundrisse”, o que mostra como exerceu influência em seu tempo e como algumas da idéias de Proudhon tinham afinidade com as da Igreja..

A teoria do domínio eminente da sociedade, TRADICIONAL NA IGREJA, a base da propriedade comunitária, foi também defendida por Proudhon. Este, no livro “Teoria da propriedade”, 1866, mostra que a “posse” (o uso, o controle dos bens pelas pessoas), que defendia nas primeiras obras, poderia ser obtida pela forma jurídica de uma pequena propriedade limitada, socializada, como função social, regulamentada pelo direito econômico.

Ou seja, para Proudhon, no fundo, o importante é que as formas jurídicas de uso (controle) dos bens garantam que os bens estejam a serviço, acessíveis a todos. Proudhon defendia a difusão dos bens, com pequenas propriedades e empresas com co-propriedade, agrupadas em federações industriais-agrícolas, que seriam uma mistura de cooperativas com sindicatos. Desta forma, não havendo assalariados, o resultado seria o planejamento geral e setorial, por ramos da produção, planejamento dos trabalhadores, com o trabalho associado e autogerido. Estas idéias eram perfeitamente adequadas e coerentes com o cristianismo, como foi apontado por Mounier e outros pensadores da Igreja.

Proudhon, em 1844, em seus “Cadernos de Notas”, escreveu: “Pregam, neste momento, não sei quantos novos Evangelhos: Evangelho segundo Buchez; Evangelho segundo Pedro Leroux; Evangelho segundo Lamennais, Considérant, Madame George Sand, Madame Flora Tristan, Evangelho segundo Pecqueur e outros muitos. Não tenho a ambição de aumentar o número destes loucos” (Carnets, Paris, Rivière, 1960, vol. I, p. XIV”.

Buchez, Pedro Leroux, Lamennais, Considérant, George Sand, Flora Tristan, Pecqueur e outros foram socialistas religiosos. Não tinham Evangelhos próprios e sim interpretações próprias do Evangelho.

Marx admitiu, nesta mesma carta que foi publicada no jornal de Schweitzer (o SocialDemokrat) que “os socialistas franceses”, em geral, tinham sentimentos religiosos de 1840 a 1865, mais ou menos.

Proudhon mudou suas opiniões religiosas. No início, era panteísta, especialmente quando era amigo de Marx e lia Feuerbach (discípulo de Spinoza, como Moses Hess). Depois, adotou um tipo de maniqueísmo estranho, parecido com a opinião dos frankistas. Tal como estes, considerava que o mundo estaria invertido. Que o Deus das religiões positivas era na verdade o Mal, era opressor. Esta opinião estava presente em algumas maçônicas. E também em Proudhon e nos frankistas. Há um fundo religioso nestas idéias (combate à idolatria) que deve ser sempre ressaltado.

No livro “Obras completas de Juan Donoso Cortés” (vol. II, editado pela BAC, em Madri, em 1970, na pág. 565), há, numa nota de rodapé, uma informação colhida em G.D.H. Cole, da obra “Historia del Pensamiento socialista” (Fondo, México,1957, t. I, p. 202), que merece ser referida. Segundo Cole, Proudhon nunca negou a existência do Deus verdadeiro e pensava que a esse Deus se deve dar um culto, ainda que subjetivo e pessoal.

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