Arquivos para : natureza

Especialmente os bispos católicos do terceiro mundo querem democracia popular, Estado social

O movimento dos bispos católicos do Terceiro mundo foi bem sintetizado no texto da “Mensagem dos bispos do Terceiro Mundo” (um documento firmado por Dom Hélder e outros bispos em 1968), onde é bem clara a defesa de uma boa democracia popular com economia mista, Estado social:

“… a Igreja, de um século para cá, tem tolerado o capitalismo com o empréstimo a juros legais e outros uso dele, pouco conformes com a moral dos Profetas e do Evangelho. Mas, ela não pode senão regozijar-se ao ver aparecer no meio dos homens outro sistema social menos distante desta moral. Caberá aos cristãos de amanhã, segundo a iniciativa de Paulo VI, reconduzir as suas verdadeiras fontes cristãs essas correntes de valores cristãos que são a solidariedade, a fraternidade (cf. “Ecclesiam Suam”). Os cristãos têm o dever de mostrar que “o verdadeiro socialismo é o cristianismo integralmente vivido, na justa repartiçaõ dos bens e a igualdade fundamental”. Longe de nós mostrar-nos contrários a ele; é, antes, necessário que adiramos com alegria, como a uma forma de vida melhor adaptada a nosso tempo e mais conforme com o Espírito do Evangelho” (“Cuadernos de Marcha, n. 9, janeiro de 1968. De Camilo Torres a Helder Câmara)”.

O documento de Dom Hélder foi aprovado por Bispos, Cardeais e grandes teólogos, do mundo todo, pois Dom Hélder tinha articulações no mundo todo. Dom Hélder foi um dos expoentes do Concílio Vaticano II, fazendo uma verdadeira teia (aliança) com bispos do mundo todo. As milhares de “Circulares”, redigidas por Dom Hélder, mostram estas articulações. Há milhares de textos de Dom Hélder, publicados recentemente, em vários volumes, com estas “Circulares”, tipo “cartas” ou “diário”, dirigidas a família espiritual de Dom Hélder. 

No fundo, este documento apenas colocava em prática as ideias expostas por Pio XII, na Mensagem de Natal de 1944, em 24.12.1944, com o título de “Benignitas et humanitas” (“Benigna e humana”), onde Pio XII destaca que a democracia é “um postulado natural”, um governo adequado à natureza humana, à “razão”.

Pio XII acusou os governos ditaduras de serem a causa da 2 Guerra Mundial, pois ditaduras são formas de “monopólio” de “poder”, um poder “incontrolável e intangível” ao controle do povo. io XII pregava um governo baseado na “liberdade e na dignidade dos cidadãos”, na “aprovação e no consentimento” do povo. 

Solução de economia mista, como surgiu

No fundo, sempre existiu. Reflete a natureza social e pessoal da pessoa humana, à imagem da Trindade. Então, a economia deve ser o máximo possível personalizada com o máximo possível de socialização, em boa síntese. No fundo, é o modelo de economia baseado no bem comum, que é uma síntese do bem pessoal, familiar e social. 

A economia sempre foi baseada no bem comum. Há estatais (bens comuns) até nas menores aldeias, como as terras de caça, os rios, ferramentas importantes, obras públicas gerais, serviços como segurança, saúde, educação etc. O Banco do Brasil é de 1808, bem antes de Marx. A CEF é da metade do século XIX.

No Brasil, boa parte das ferrovias já foi estatal, tal como a navegação comercial de alto mar (Loyd) e a costeira (a Costeira). Idem para telégrafos, correio, escolas públicas, hospitais públicos etc. Tudo isso é profundamente tradicional, e não coisas marxistas. 

O capitalismo, no início do século XIX, atrapalhou isso. No entanto, aos poucos, as estatais e a presença do Estado foi retornando. Basta pensar na construção de obras como o canal do Panamá ou do Suez, por recursos estatais, sendo obras, canais, públicos, estatais. O mesmo para ferrovias. O mesmo para a Previdência social, seguros sociais. Depois, a legislação trabalhista etc.

A apologia da economia mista foi apontada por grandes economistas como List, Sismondi, Buchez, Blanc, Stuart Mill e outros. E foi adotada, como modelo de transição para o socialismo, tanto por Karl Kautsky, quanto por Bernstein, Jaures, os trabalhistas etc. Virou a corrente possibilista, oportunista etc.

Depois, foi defendida mesmo por Lenin, no NEP, que era economia mista. O NEP tinha estatais, e tinha camponeses e pequenas e médias empresas familiares. Bukharin e outros defenderam a continuidade do NEP. O mesmo fez Tito. Nasser, toda a corrente terceiro-mundista, Mandela, o nacionalismo, o trabalhismo etc. E foi a mesma fórmula da doutrina social da Igreja.

Barbosa Lima Sobrinho mostrou que a base do desenvolvimento japonês foi a economia mista, estatais, ampla intervenção estatal. O modelo japonês, tal como o modelo dos países do Norte da Europa, da Irlanda, do Canadá, da Austrália, da Noruega, da Suécia, do Irã, tudo isso tem como núcleo a ideia de economia mista. O mesmo na Índia, com os Gandhi. 

Naomi Klein, no livro “Economia do desastre”, defende economia mista. O mesmo para os grandes economistas dos EUA, como Stiglitz, Galbraith, o próprio Samuelson.

O mesmo vale para Keynes e Laski, na Inglaterra. E para o New Deal de Roosevelt, tendo, no Brasil, o getulismo (trabalhismo e nacionalismo) de Getúlio. É a mesma ideia do modelo de Peron, o modelo de Cardenas no México, o melhor da experiência do Chile, do Uruguai etc. 

O tomismo aberto, sincrético, eclético, democrático, realista, de Leonel Franca

Para o grande padre Leonel Franca, amigo de Alceu e de Getúlio Vargas, a essência do tomismo é ecumênica, porque este é uma concepção “aberta e criativa” do “realismo”. O realismo, por sua vez, no prisma da teoria do conhecimento, é a filosofia implícita no cristianismo e também a base do jusnaturalismo. O jusnaturalismo realista e cristão tem fundamento na “natureza das coisas”, que “ensina”, cf. lição de São Paulo, na primeira carta aos coríntios (11,14).

O padre Franca elogiava também um filósofo francês chamado Victor Cousin (1792-1867), formulador do “ecletismo”, que atuou como um esboço de ecumenismo na filosofia. O próprio Cousin (autor da obra “Curso de História da Filosofia”, em oito tomos, de 1815-1829) definia seu ecletismo do seguinte modo: “em geral, na história da filosofia, estamos a favor” das idéias baseadas “na razão”. Para isso, recomendava o discernimento “do verdadeiro e do falso” que há “nas diversas doutrinas”, depurando, pela análise, e aceitando o que há de legítimo em todas as correntes, para gerar “uma doutrina melhor e mais vasta” (cf. foi exposto no livro “Primeiros ensaios de filosofia”, de Cousin).

Este é também o bom ecletismo de um Cícero e de Santo Tomás de Aquino, é o bom ecletismo do tomismo aberto, que era a corrente do padre Leonel Franca, de Maritain e de um Alceu.

Cousin foi Ministro da Educação, na França, após a revolução de 1830. Sua escola eclética e espiritualista (no sentido de cristã) também prova que os católicos sempre aceitaram, com base nas idéias específicas e em germe no catolicismo, a democracia. Cousin ensinava que: “o Estado constituído de acordo com as normas da moral é aquele em que todos participam o mais intensamente possível dos destinos da pátria e o conduzem para onde lhes apraz, na corrente da via, na consciência dos deveres públicos”.

A graça nunca anula a natureza, e sim a aperfeiçoa. O cristianismo quer aperfeiçoar as faculdades naturais

Pio XI, na “Divini Illius Magistri” (31.12.1929), ressalta que Deus, “a Divina Bondade”, difunde “os abundantes auxílios da graça” para suprir e apoiar “as forças da natureza humana”, para “incutir nas almas” “bons costumes”, boas idéias e boas práticas, “virtudes”, atos de bondade para consigo mesmo, com a família, o próximo e com a sociedade. Pio XI, no item 10 desta encíclica, foi bem claro: “o verdadeiro cristão, longe de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir suas faculdades naturais, desenvolve e aperfeiçoa as faculdades, coordenando-as com a vida sobrenatural”.

O Direito é o conjunto das regras nascidas das exigências (necessidades) da natureza humana

“O Direito está necessariamente fundado, em última instância, sobre a ordem ontológica [a natureza], sua estabilidade, sua imutabilidade. Em toda parte onde os homens e os povos estão agrupados em comunidades jurídicas, não são eles, precisamente, homens, com uma natureza humana substancialmente idêntica? As exigências [necessidades, aspirações, ideias práticas etc ] que decorrem desta natureza são as normas últimas do Direito. Tão diversas como possa ser a formulação dessas exigências em Direito positivo, segundo os tempos e os lugares, segundo o grau de evolução e de cultura, seu núcleo central, porque exprime a ‘natureza’, é sempre o mesmo” (Pio XII, Alocução para o VI Congresso Internacional de Direito Penal, 3-10-53, “Discorsi e Radiomessaggi”, voI. XV, p. 348).

João Paulo II atestou o diálogo estoico cristão, desde o início da Igreja

João Paulo II, ainda na “Fides et ratio” (1998), atesta a ligação dos textos de São Paulo com o estoicismo:

22. S. Paulo, no primeiro capítulo da carta aos Romanos, ajuda-nos a avaliar melhor quanto seja incisiva a reflexão dos Livros Sapienciais. Desenvolvendo com linguagem popular uma argumentação filosófica, o Apóstolo exprime uma verdade profunda: através da criação, os “olhos da mente” podem chegar ao conhecimento de Deus. Efetivamente, através das criaturas, Ele faz intuir à razão o seu “poder” e a sua “divindade” (cf. Rm 1, 20). Deste modo, é atribuída à razão humana uma capacidade tal que parece quase superar os seus próprios limites naturais: não só ultrapassa o âmbito do conhecimento sensorial, visto que lhe é possível refletir criticamente sobre o mesmo, mas, raciocinando a partir dos dados dos sentidos, pode chegar também à causa que está na origem de toda a realidade sensível. Em terminologia filosófica, podemos dizer que, neste significativo texto paulino, está afirmada a capacidade metafísica do homem.

36. Os Atos dos Apóstolos testemunham que o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com “alguns filósofos epicuristas e estóicos” (17, 18). A análise exegética do discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares, predominantemente de origem estoica. Certamente isso não se deu por acaso; os primeiros cristãos, para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas “Moisés e os profetas” nos seus discursos, mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rm 1, 19-21; 2, 14-15; At 14, 16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento natural tinha degenerado em idolatria (cf. Rm 1, 21-32), o Apóstolo considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos mistéricos, conceitos mais respeitosos da transcendência divina”.

O papa João Paulo II, tal como autores como Champlin (um autor ortodoxo grego, bem aberto e próximo da Igreja), descreveram corretamente que São Paulo usou “idéias populares, predominantemente de origem estoica” (inclusive texto de Cleantes), para deixar claro a importância da razão e da harmonia da razão com a fé. Por exemplo, em I Cor 2,14-15, São Paulo usa a expressão “a própria natureza das coisas” “ensina”. Esta expressão é claramente estóica. São Paulo também combinava uma concepção de predestinação divina (atuação divina, Providência, planos, desígnios de Deus) com a liberdade humana, uma síntese que os melhores estoicos fizeram também.

Uma síntese de idéias hebraicas com idéias estóicas também faz parte dos textos dos melhores fariseus, especialmente Flávio Josefo, mas também em Filon, tal como também no Talmud. Por exemplo, o rabi Akiva escreveu “tudo está previsto e foi dado o livre arbítrio”. Este texto está registrado no “Pirkei Aboth” Avot (3,5), o texto mais importante do Mishna (compilado em 220 d.C., usando textos bem antigos). O Mishna é a parte mais importante dos dois Talmudes. No Mishnah, dividido em várias partes, a parte mais relevante no aspecto ético é o Nezikin, a quarta ordem (“seder”, livro no sentido amplo) do Mishnah, sobre danos. No Nezikin, há o tratado “Pirkei Avot”, que tem menos de 30 páginas, mas tem enorme importância para a ética.

Pular para a barra de ferramentas