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Oxfam – fortuna dos oito maiores bilionários do mundo é maior que o patrimônio de três bilhões e meio de pessoas

Falta de tributação e de intervenção estatal geram monstruosidades.

Em 16 de janeiro de 2017, em Davos, no Forum econômico mundial, a Oxfam, uma ong ligada aos pobres, “apontou que a fortuna das oito pessoas mais ricas do mundo (US$ 426 bilhões) é igual [maior, na verdade…] ao patrimônio da metade mais pobre da população mundial, o equivalente a 3,6 bilhões de pessoas (US$ 409 bilhões)”.

Repetindo: oito bilionários infectos têm mais patrimônio que três bilhões e meio de pessoas.

Oito bilionários têm 426 bilhões de dólares. Já três bilhões e meio de pessoas pobres têm, juntando tudo, 409 bilhões de dólares…

Os nomes e rostos dos oito sanguessugas são bem conhecidos: Bill Gates, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg.

A doutrina da Igreja sempre criticou a ideologia do Estado mínimo, do Estado só para ultra ricos

A tradição democrática tem fundo cristão, sendo distinta do liberalismo econômico, como foi demonstrado por Franklin Roosevelt, Henry Wallace (ver “O século do homem do povo”, Rio, Ed. José Olympio, 1944), Dewey, Bertrand Russel, pelos socialistas americanos etc.

Há o mesmo ensinamento nos textos de Samuel Silva Gotay, no livro “O pensamento cristão revolucionário na América Latina e no Caribe” (São Paulo, Ed. Paulinas, 1985). No fundo, esta é a “tradição ética anticapitalista da Igreja”, como foi apontada por Michael Lowy e Christopher Hill.

A influência católica sobre o Partido Democrático dos EUA e os democratas de esquerda que militam neste partido, como Sanders

Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) foi professor de direito e também Presidente (democrata) dos EUA, de 1913 a 1921. Este presidente visitou Bento XV, em 1919, demonstrando a linha bem semelhante que os unia.

Os célebres “catorze pontos”, propostos por Wilson, foram precedidos pelas propostas de Bento XV, de desarmamento, arbitragem e criação de um organismo internacional para abolir todas as guerras. A Igreja apoiou a criação da ONU, para banir as guerras, desarmar as nações, extinguir as Forças Armadas ou reduzir estas a forças de dez mil homens ou algo assim, para implantar formas de arbitragem. A Igreja participou de várias arbitragens, para evitar guerras, por bons acordos. 

Woodrow escreveu várias obras importantes que refletem o pensamento de parte importante dos democratas norte-americanos (do “Partido Democrata”). O sistema de voto distrital, nos EUA (tal como na Inglaterra), gera o bipartidarismo e inibe as forças políticas (por isso, Raul Pilla, nosso maior parlamentarista, cristão, defendia o parlamentarismo com sistema proporcional). Por conta do engessamento, o Partido Democrático, nos EUA, é bem heterogêneo. Existem democratas tão ruins quanto os republicanos, mas há também bons quadros e boas idéias, democratas de esquerda como Sanders, que militam naquele Partido, por falta de opção.

Historicamente, o voto católico, nos EUA, vai, na maior parte, para o Partido Democrático. Isto fica bem claro na história do Estado de Nova Iorque, onde a aliança entre católicos e democratas data da maciça entrada de irlandeses e da militância católica. Também fica patente no apoio a Al Smith, Franklin Roosevelt, a Adlai Stevenson, Kennedy, George Stanley McGovern (candidato meio esquerda, do Partido Democrata, em 1972) ou mesmo a Jimmy Carter.

A linha dos democratas, nos EUA, passa por Jefferson, Wilson, o “New Deal” de Franklin Roosevelt, o “Fair Deal” de Harry Truman, a pregação de Kennedy, a “Grande sociedade” de Lyndon Johnson (com imensos defeitos, mas melhor que Barry Goldwater, seu adversário em 1964), o ideário de McGovern, Carter e Obama. Os Clinton foram coniventes e, hoje, o mundo vê com esperança o governo de Obama Hussein Barack.

Wilson, no livro “O Estado” (Madrid, Librería General de Victoriano Suárez, 1922, pp 24-25), examinou as “teorias relativas à origem do Estado”, concluindo que a teoria jusnaturalista-contratualista é “a mais famosa e a mais importante”. Demonstrou, com base em dados históricos, que esta teoria tem base na Paidéia e na Bíblia.

Os pensadores democráticos mais renomados, para Wilson, seriam “Hooker, Hobbes, Locke e Rousseau”. As obras fundamentais seriam: o livro “Política eclesiástica” de Hooker (que segue uma matriz nitidamente escolástica), o “Leviatã” de Hobbes, o livro “Sobre o governo civil” de Locke e o “Contrato Social” de Rousseau.

O que Wilson não examinou a fundo foram as fontes escolásticas, patrísticas, gregas e bíblicas de Hooker, Locke e Rousseau, e também dos textos racionais de Hobbes (os erros horríveis deste são só dele). A maior parte destas fontes tem matriz cristã, hebraica ou na Paidéia (combinada com a religiosidade grega, próxima da cristã, como frisou Dom Martins Terra).

Wilson resume a teoria “tradicional” da democracia (a teoria jusnaturalista, como também ensinou Schumpeter, como será demonstrado em outra postagem) dizendo que esta “parte” (tem como premissa) “sempre de que existe fora, e por cima das leis dos homens, um direito natural” (logo, parte da tese jusnaturalista) e diz que mesmo Hobbes “considerava que este direito compreendia a justiça, a equidade, a modéstia, o perdão, em suma, fazer aos demais o que queremos que estes façam por nós” (ou seja, da “regra áurea” e democrática do Evangelho, resumindo os dez mandamentos, segundo Cristo).

Para Wilson, a teoria democrática clássica diz que “a lei humana” devia “conformar-se” a estas virtudes (ou seja, com as idéias práticas e juízos racionais presentes na consciência de todos e conexos com as necessidades de todos). No fundo, esta é a doutrina social católica sobre o poder, a teoria clássica e tradicional da Igreja, sobre o poder. O jusnaturalismo democrático popular da Igreja. 

Wilson redigiu, na pág. 28 da obra referida, um capítulo com o título “a verdade nas teorias” onde recusava a existência de um “contrato original”, adotando uma fundamentação jusnaturalista da democracia, na linha aristotélica. Ele chega a citar a frase de Aristóteles: “o homem é, por natureza, um animal político”, uma frase usada por Aquino, reiteradas vezes.

Em 1913, Woodrow Wilson proferiu as seguintes palavras sobre a situação dos EUA, mostrando que há algumas luzes entre os democratas (há também bons textos de Franklin Roosevelt, Kennedy, Carter e de outros autores):

Os fatos da situação são os seguintes: um número relativamente pequenos de homens controla as matérias-primas deste país; um número relativamente pequeno de homens controla a força hidráulica… que o mesmo número de homens controla em grande parte as ferrovias; que, por acordo entre si, controlam preços e que o mesmo grupo controla os maiores créditos do país. Os donos do governo dos Estados Unidos são os capitalistas e industriais”.

Da mesma forma, há excelentes textos de Franklin Roosevelt e de seu grande vice-presidente, Henry Wallace (“a democracia é a única expressão política verdadeira do cristianismo”). As obras de Arthur Schlesinger Jr (professor da Universidade de Nova Iorque) demonstram que o Partido Democrata, nos EUA, tem, em sua história e ideário, a tradição jusnaturalista cristã de Thomas Jefferson e de Jackson, adversária do grande capital e do latifúndio.

Neste mesmo sentido, vale a pena ler os livros de Michael Moore; de Michael Harrington (socialista de formação católica, entre os jesuítas); tal como as obras de Schlesinger, como “A era de Jackson” e “A era de Roosevelt”. Há as mesmas idéias nos livros históricos de Gore Vidal (atacando corretamente o grande capital) e nos textos de Norman Mailer, cristão de esquerda. Mais ou menos na mesma linha houve ainda Stevenson, candidato a Presidente em 1952 e 1956, sendo torpeado pelo FBI. 

Galbraith, ligado a Kennedy, também deixou bons textos sobre a importância do controle de preços e sobre a iniquidade do liberalismo, como consta no livro “A sociedade justa – uma perspectiva humana” (livro elogiado até por Dom Pedro Casaldáliga).

Outro autor que redigiu textos jusnaturalistas foi Walter Lippmann (apesar de limitações e erros do neoliberalismo), especialmente o livro “A reconstrução da sociedade” (Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1961, p. 286), onde elogia o jusnaturalismo como a base filosófica que proporciona base teórica para o controle social sobre o Estado, “realizar o que Platão chamava de vitória da persuasão sobre a força”, do diálogo, da razão, sobre a força, o poder, para subordinar o poder à razão, ao diálogo, sendo esta a essência da democracia, ponto que o velho Sócrates intuiu corretamente.

O partido Democrático é controlado pelos capitalistas, como acentua Michael Moore (de formação católica), mas oferece um certo espaço de militância anti-capitalista. A maior parte dos negros e dos católicos, nos EUA, militam no Partido Democrático, por não terem outra alternativa no sistema majoritário (que o PFL/DEM sonha implantar no Brasil). Há uma tradição democrática anticapitalista nos EUA, como pode ser visto no movimento dos “Cavaleiros do Trabalho” (a primeira organização operária nos EUA, que foi liderada por um católico e teve o apoio de Leão XIII e o elogio de Lenin).

O populismo e o agrarismo (basta pensar em Henry Wallace) são outros movimentos populares anticapitalistas. O populismo teve, como grande liderança, William Briant. Estes movimentos ainda influenciam parte do povo americano. Da mesma forma, os movimentos negros e chicanos (com lideranças católicas e camponesas como César Chavez) também são anticapitalistas.

A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, existente até hoje, com Convenções nacionais), o movimento de Luther King, dos Muçulmanos Negros, dos Panteras Negros e de Malcom X, tal como igrejas ligadas à teologia negra e a teologia da libertação nos EUA, são movimentos democráticos e anticapitalistas, ligados à esquerda do Partido Democrático.

As idéias de “dispersão do poder” na sociedade (distributismo dos bens e do poder) estão claras nas melhores obras de Jefferson, que Alceu Amoroso Lima tanto elogiava. Alceu também ensinava que o Partido Democrata, nos EUA, tinha algumas boas tradições, sendo um mal bem menor que o Partido Republicano, o partido do grande capital, de Nixon, Reagan, dos Busch, do horrendo Trump e de outros fantoches do capital.

Conclusão: para o constitucionalista Wilson, os Estados surgem espontaneamente e naturalmente pela agregação e se organizam pela reflexão racional, pelo consentimento. Estruturam-se de acordo com as idéias e as necessidades do povo, e isso é exatamente o que defende a doutrina social da Igreja.

Wilson teve seus méritos, pois também defendeu a formação de uma Sociedade das Nações (o embrião da ONU, preconizada por Vitória, Suárez, Grócio, o abade de Saint Pierre e por Taparelli) e, depois de muita pressão das sufragistas (há um filme lindo sobre esta luta), terminou por aceitar o voto feminino.

O grande Michael Moore, democrata popular católico dos EUA e irlandês. Um cineasta genial.

Michael Moore continua inconformado com a América. E não é porque ele elegeu seu candidato nas duas últimas eleições, o presidente Barack Obama, que o premiado documentarista está achando que tudo anda às mil maravilhas em seu país.

Mas em seu novo filme, “Where to Invade Next?” (“Onde Invadir Agora?”, em tradução livre), o diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9” resolveu criticar os Estados Unidos de maneira diferente.

Lançado em Los Angeles durante o AFI Fest (American Film Institute Festival), o longa mostra Moore adotando, segundo sua declaração, a comédia. “Porque quero que as pessoas vejam o meu filme e riam. A vida anda muito dura para fazê-la ainda mais pesada. E as pessoas não têm mais tanto dinheiro para ir ao cinema. Quis fazer algo mais atrativo”, diz ele.

Só que ele faz a plateia rir de uma maneira enviesada. Ao viajar por diversos países do mundo (a maioria da Europa Ocidental e um africano, a Tunísia), “invadindo-os” como o título sugere, Moore vai coletando exemplos de política e administração pública que funcionam nestes lugares e que deveriam ser usados para melhorar os Estados Unidos.

E é nesse jogo que nasce a triste comédia americana. Quando o diretor chega à Itália e mostra que os italianos têm 13º salário e 30 dias de férias remuneradas, a plateia que lotava a sessão ria com um ar de “ah, tá bom que isso um dia vá acontecer aqui”.

Quando dizia-se que na Alemanha é proibido por lei que o funcionário receba um e-mail fora de seu horário de trabalho, mais risos. Duas horas de almoço? Gargalhadas.

“Acho que meus filmes sempre foram, direta ou indiretamente, comédias. Você não acha que George W. Bush é um dos maiores comediantes que este país já viu? E ele aparece muito nos meus outros filmes”, ironizou Moore, enquanto dava entrevistas no tapete vermelho.

Cena do documentário “Where to Invade Next?”, novo filme do cineasta Michael Moore

À medida que o filme avança, no entanto, os risos começam a dar espaço aos aplausos. À política antidrogas de Portugal, que há 15 anos não prende uma pessoa por porte de entorpecentes e cuja polícia não acredita em pena de morte. Ao modelo educacional finlandês, que cria os melhores alunos do mundo sem nunca dar lição de casa.

O critério de seleção dos países que apareceram no filme, segundo o diretor, foi o seguinte: “Tinha que ser um país divertido. Por isso o Reino Unido ficou de fora. Não há nada de engraçado em David Cameron [premiê britânico]. Ele e Tony Blair tentaram se parecer tanto com os Estados Unidos que não há nada mais a se aprender com eles.”

Felizmente para nós, o Brasil entrou no grupo dos países divertidos, que têm algo a ensinar aos americanos. No filme, o país é citado duas vezes, ainda que de passagem, quando Moore elogia lugares em que a universidade é pública e em que se vota aos 16 anos.

Questionado pela reportagem do UOL sobre por que acha que o voto aos 16 anos é algo positivo, respondeu: “Os jovens aprendem a votar cedo, e quanto mais cedo criam o hábito, mais vão participar da vida política.”

Seu principal exemplo é a Islândia, que em 1973 elegeu sua primeira mulher presidente e que tem, em algumas de suas maiores empresas, mulheres como diretoras. 

Deste país também vem o exemplo de como se tratar corrupção e dos abusos da especulação financeira: cadeia. Os banqueiros que quebraram o país em 2009 estão todos presos —exceto pelo único banco que não quebrou na época e que, curiosamente, é liderado por mulheres.

E se você achava que apenas brasileiros usam o futebol como metáfora para a vida, veja como Moore explicou a uma jornalista britânica por que os americanos tinham tanta dificuldade em aceitar a existência de sistemas de saúde e educacional públicos.

“Basicamente, para mim, o que explica isso é a diferença entre o futebol europeu e o nosso futebol [o futebol chamado americano]. O futebol de vocês, que nós chamamos de ‘soccer’ é baseado no conceito de ‘nós’. O nosso é baseado no conceito do ‘eu’. Eu tenho a bola e danem-se o resto de vocês. Eu estou tentando é fazer as pessoas operarem mais no sistema do ‘nós’ neste país.”

E quando lhe perguntam se ele não está apenas olhando o lado positivo dos outros países, usa a jardinagem como figura de linguagem: “Meu objetivo com o filme é apenas colher as flores, não as ervas daninhas.

O filme ainda não tem data de estreia no Brasil.

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