O grande Michael Moore, democrata popular católico dos EUA e irlandês. Um cineasta genial.

Michael Moore continua inconformado com a América. E não é porque ele elegeu seu candidato nas duas últimas eleições, o presidente Barack Obama, que o premiado documentarista está achando que tudo anda às mil maravilhas em seu país.

Mas em seu novo filme, “Where to Invade Next?” (“Onde Invadir Agora?”, em tradução livre), o diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9” resolveu criticar os Estados Unidos de maneira diferente.

Lançado em Los Angeles durante o AFI Fest (American Film Institute Festival), o longa mostra Moore adotando, segundo sua declaração, a comédia. “Porque quero que as pessoas vejam o meu filme e riam. A vida anda muito dura para fazê-la ainda mais pesada. E as pessoas não têm mais tanto dinheiro para ir ao cinema. Quis fazer algo mais atrativo”, diz ele.

Só que ele faz a plateia rir de uma maneira enviesada. Ao viajar por diversos países do mundo (a maioria da Europa Ocidental e um africano, a Tunísia), “invadindo-os” como o título sugere, Moore vai coletando exemplos de política e administração pública que funcionam nestes lugares e que deveriam ser usados para melhorar os Estados Unidos.

E é nesse jogo que nasce a triste comédia americana. Quando o diretor chega à Itália e mostra que os italianos têm 13º salário e 30 dias de férias remuneradas, a plateia que lotava a sessão ria com um ar de “ah, tá bom que isso um dia vá acontecer aqui”.

Quando dizia-se que na Alemanha é proibido por lei que o funcionário receba um e-mail fora de seu horário de trabalho, mais risos. Duas horas de almoço? Gargalhadas.

“Acho que meus filmes sempre foram, direta ou indiretamente, comédias. Você não acha que George W. Bush é um dos maiores comediantes que este país já viu? E ele aparece muito nos meus outros filmes”, ironizou Moore, enquanto dava entrevistas no tapete vermelho.

Cena do documentário “Where to Invade Next?”, novo filme do cineasta Michael Moore

À medida que o filme avança, no entanto, os risos começam a dar espaço aos aplausos. À política antidrogas de Portugal, que há 15 anos não prende uma pessoa por porte de entorpecentes e cuja polícia não acredita em pena de morte. Ao modelo educacional finlandês, que cria os melhores alunos do mundo sem nunca dar lição de casa.

O critério de seleção dos países que apareceram no filme, segundo o diretor, foi o seguinte: “Tinha que ser um país divertido. Por isso o Reino Unido ficou de fora. Não há nada de engraçado em David Cameron [premiê britânico]. Ele e Tony Blair tentaram se parecer tanto com os Estados Unidos que não há nada mais a se aprender com eles.”

Felizmente para nós, o Brasil entrou no grupo dos países divertidos, que têm algo a ensinar aos americanos. No filme, o país é citado duas vezes, ainda que de passagem, quando Moore elogia lugares em que a universidade é pública e em que se vota aos 16 anos.

Questionado pela reportagem do UOL sobre por que acha que o voto aos 16 anos é algo positivo, respondeu: “Os jovens aprendem a votar cedo, e quanto mais cedo criam o hábito, mais vão participar da vida política.”

Seu principal exemplo é a Islândia, que em 1973 elegeu sua primeira mulher presidente e que tem, em algumas de suas maiores empresas, mulheres como diretoras. 

Deste país também vem o exemplo de como se tratar corrupção e dos abusos da especulação financeira: cadeia. Os banqueiros que quebraram o país em 2009 estão todos presos —exceto pelo único banco que não quebrou na época e que, curiosamente, é liderado por mulheres.

E se você achava que apenas brasileiros usam o futebol como metáfora para a vida, veja como Moore explicou a uma jornalista britânica por que os americanos tinham tanta dificuldade em aceitar a existência de sistemas de saúde e educacional públicos.

“Basicamente, para mim, o que explica isso é a diferença entre o futebol europeu e o nosso futebol [o futebol chamado americano]. O futebol de vocês, que nós chamamos de ‘soccer’ é baseado no conceito de ‘nós’. O nosso é baseado no conceito do ‘eu’. Eu tenho a bola e danem-se o resto de vocês. Eu estou tentando é fazer as pessoas operarem mais no sistema do ‘nós’ neste país.”

E quando lhe perguntam se ele não está apenas olhando o lado positivo dos outros países, usa a jardinagem como figura de linguagem: “Meu objetivo com o filme é apenas colher as flores, não as ervas daninhas.

O filme ainda não tem data de estreia no Brasil.

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