Arquivos para : desigualdade

A tradicionalidade da Teologia da libertação, totalmente ortodoxa

As idéias de militância e participação política, de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino, inspiraram as bases da Ação Católica no Brasil, como fica claro nos textos de Alceu e do cardeal Leme (movido pelas idéias de Pio XI). Estas ideias respaldaram as grandes reformas sociais feitas pelo Trabalhismo nacionalista, no Brasil, pelo getulismo, especialmente o Estado social, a economia mista, o distributismo e a democracia participativa (voto feminino etc). 

Estas idéias foram respaldadas por textos papais. Da mesma forma, a teologia da libertação bem amparo nos textos papais. Como, por exemplo, a alocução “O genuíno significado da libertação cristã” (Roma, 31.07.1974), do papa Paulo VI. Neste documento, este papa destacava que coincide “o conceito de libertação com o de salvação; e assim se compreende como possa falar-se de teologia da libertação”.

O Papa Paulo VI lembrou que a concepção social da Igreja “proíbe-nos cristalizarmos o aspecto estático das condições humanas quando estas fomentam a desigualdade e a riqueza egoísta”.

Logo, a doutrina da Igreja condena as cristalizações jurídicas e econômicas de estruturas más, como o latifúndio, os monopólios privados (trustes e cartéis) e o próprio conceito de capital e de propriedade quiritária.

Esta foi a linha do melhor da doutrina social da Igreja, a linha de Buchez, Leroux, Ozanam, Dupanloup, Lacordaire, do bispo Ketteler, de Tocqueville, Manning e de muitos outros expoentes da doutrina social da Igreja e do socialismo utópico, de feição cristã (“pré-marxista”, vindo antes de Marx, cf. lições do padre Fernando Bastos de Ávila).

Paulo VI acrescentou que “as estruturas jurídicas que se hajam tornado opressivas e injustas deverão, sim submeter-se… à sábia, coerente e ativa crítica dos princípios sociais e religiosos cristãos, ensinados e proclamados com coragem evangélica”.

Assim, a conclusão é clara e foi bem enunciada por Paulo VI:

“as estruturas jurídicas deverão ser reformadas mediante uma ação esclarecida e forte dos cidadãos bons e livres, para os quais aqueles mesmos princípios cristãos, longe de serem um obstáculo que estorva, podem constituir luz inspiradora e incomparável estímulo para a regeneração tenaz de uma sociedade moderna e pacífica, ordenada segundo uma justiça constantemente atualizada e um amor sempre fraterno e cívico”.

A expressão “uma justiça constantemente atualizada” lembra a lição de Pio XII, sobre a variabilidade dos princípios e das regras naturais e racionais de conduta, ou seja, a relativa mutabilidade da lei natural (cf. “Suma Teológica”, I-II, q. 94, a. 4), tal como o esforço constante da Justiça distributiva, para proteger e promover a igualdade social.

O que não muda são princípios mais abstratos e gerais como o da destinação universal dos bens, da igualdade, da liberdade, da dignidade da pessoa humana, do primado da inteligência e do trabalho etc.

Conclusão: o humanismo da Paidéia, em síntese com o humanismo hebraico, é a base filosófica do cristianismo, formando o humanismo cristão, que é a “filosofia cristã”.

Este ponto foi bem destacado por Santo Agostinho. Por isso, houve a recepção da Paidéia e o bom uso da razão. O cristianismo contém um reformismo radical e constante, que exige reformas contínuas, graduais, permanentes e diárias. A ética cristã exige, enfim, o melhoramento constante das pessoas, das estruturas sociais e das sociedades.

A meu ver, o ideal histórico concreto, hoje, da Doutrina social da Igreja, é uma grande Democracia participativa-popular, um amplo Estado social, distributismo por renda estatal para todos e outros benefícios, esquerda penal pela abolição gradual dos presídios, economia mista com boas estatais etc. 

Jackson de Figueiredo elogiou a crítica do capitalismo, feita pelos socialistas

A reaproximação entre catolicismo e socialismo está também nos textos de Jackson de Figueiredo.

Por exemplo, no livro “A questão social na filosofia de Farias Brito” (Rio de Janeiro, Tip. Revista dos Tribunais, 1919, pp. 68-69), Jackson, um grande sergipano, escreveu que o socialismo era “justo na parte referente à crítica da organização das sociedades atuais”, mas insuficiente no receituário, “falta o elemento reconstrutor”, um “ideal poderoso e fecundo” (ideal no sentido de utopia, de plano, diretrizes a serem concretizadas).

Jackson também escreveu: “ninguém deve nem tem o direito [natural] de acumular mais do que é necessário para satisfação de suas necessidades”.

Há a mesma tese no livro de Afonso Celso, “Porque me ufano do meu país”.

Segundo Jackson, a desigualdade “prova evidentemente que a sociedade deve ser reformada”, “assegurando a cada um, na comunhão social, o pão de cada dia”.

Jackson estava certo: a sociedade deve ser uma comunhão, comunidade.

O “pão de cada dia” são os bens necessários para uma vida digna e são destinados a todas as pessoas, sendo esta uma das finalidades do Estado.

Farias Brito elogiava Jackson pela “proposição que tem alguma coisa do clarão vertiginoso do relâmpago: a consciência é Deus em nós”. Esta frase expressa bem o jusnaturalismo presente nos textos e nas pessoas ligadas a Jackson.

Pular para a barra de ferramentas