As ideias mais importantes do socialismo têm origem em grandes Católicos, na Igreja Católica

A “doutrina social” da Igreja, desde o início da formulação mais moderna, que apenas reprisa o melhor da Bíblia e da Paideia, exposta por autores como Mably, o bispo Gregório, Lamennais, Buchez e Keteller, tem conteúdos semelhantes com a teologia da libertação

O termo “socialismo” nasceu nos meios religiosos italianos, lá por 1820. Nasceu em repúdio às ideias liberais de Adam Smith, Ricardo, dos Fisiocratas etc, ideias que atacam a doutrina tradicional da Igreja, defendendo o individualismo, o capitalismo. 

Depois, foi ressuscitado por alguns owenistas religiosos, em 1827. Também foi a linha de Saint-Simon, a linha de um socialismo inspirado nas idéias cristãs, expostas em seu último livro de cristianismo social.

Frise-se: Owen, Saint Simon, Fourier e outros eram profundamente religiosos, tal como era a Liga dos Justos, que Marx apenas deu sequência, pois a antiga Liga, chefiada por Weitling, e mesmo antes de Weitling, seguia as ideias de Lamennais, um padre católico. 

Pierre Leroux (1798-1871) continuou a linha de Saint-Simon, tendo, em paralelo, a ação de homens como Buchez e Etienne Cabet, que foram grandes cristãos.

Leroux, católico e com boa religiosidade, foi o principal divulgador do termo, usando-o a partir de 1832.

Os seguidores de Fourier também passaram a usar esta palavra, para se autodenominarem, especialmente Victor Considerant (cujos textos cristãos mereceriam ser reunidos para serem lidos nas CEBs).

Owen consagrou o termo “socialismo” em 1841.

Os livros de Owen são éticos e têm um fundo religioso, especialmente seus primeiros e últimos textos, de utopia social e religiosa. O mesmo ocorre com Considerant, Leroux e Fourier. Há o mesmo no melhor do iluminismo, basta pensar em Mably, Montesquieu, Morelly, o padre Raynal e outras estrelas católicas. 

Os textos de Leroux são os mais importantes na difusão do socialismo pré-marxista, de feitio cristão.

Os títulos de seus livros falam por si mesmo: “Do cristianismo e de sua origem democrática”, “Uma religião nacional ou do culto” (1844), “Da plutocracia ou dos governos dos ricos” (1848) e outras.

Leroux era sansimoniano e se inspirava nos textos de Saint-Simon, que era, por sua vez, também um grande autor socialista cristão, que se inspirou nos textos de Bonald, sobre o primado da sociedade.

A religiosidade de Saint-Simon é mais do que explícita e o mesmo vale para Enfantin, seu principal seguidor. Saint Simon acreditava em Santos, em almas “mortas” vivas etc, bem católico. 

François Huet, um católico social, no livro “O reino social do cristianismo” (1853, livro lido por Marx), usava a expressão “socialismo cristão”. Numa linha paralela com Leroux, houve os textos de Buchez.

No Brasil, o socialismo também nasce na forma utópica, cristã.

O general Abreu e Lima, que lutou ao lado de Bolivar, escreveu o livro “O socialismo”. Além disso, homens como Antônio Pedro Figueiredo, o principal ideólogo da Revolução Praieira, em 1848, na cidade de Recife, tentaram colocar em prática as idéias de uma democracia social.

O livro de Tiago Adão Lara, “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo” (São João del Rei MG, Ed. Faculdade Dom Bosco, 1977), ilustra bem a presença do socialismo cristão na vida política brasileira. Mais tarde, há homens como João Mangabeira, Alceu e centenas de outros escritores.

Buchez (1796-1865) era discípulo de Saint-Simon (1760-1825).

Simon foi um cristão socialista, com firmes crenças religiosas. Saint-Simon não usava o termo “socialista”, e sim “cristão”. Sua última obra tem o título “Novo cristianismo” e é a mais religiosa e avançada de sua bibliografia. Os sansimonianos eram todos religiosos, a começar por Enfantin.

Tal como seu mestre imediato, Saint-Simon, Buchez unia catolicismo e sansimonismo.

A influência de Buchez foi tamanha que foi chamado, por Marx, de “o chefe do partido socialista católico”. Buchez ensinava que “o objetivo humano do cristianismo é o mesmo que o da Revolução [Francesa]: o primeiro é que inspirou o segundo” (cf. “Traité de la politique”, t. III, p. 504).

Marx e Engels fizeram dezenas de referências aos textos de Buchez, em cartas e livros.

Marx o cita desde o livro “Sobre a questão judaica” (texto de abril ou maio de 1843), como historiador da Revolução Francesa.

Marx o chamava de chefe da escola francesa católica-revolucionária, do “partido socialista católico”.

Ao lado de Buchez militavam homens como Pierre Pradié (1816-1892), um advogado de esquerda, republicano, deputado na Assembléia Geral da 2ª República, tendo Buchez presidido a Assembléia, em 1848.

Desde 1831, Buchez, em várias obras, como o livro “Ensaio de um tratado completo de filosofia do ponto de vista do catolicismo e do progresso” (1838-1840), desenvolveu suas idéias sobre cooperativas de produção com apoio do Estado.

Esta foi a fórmula usada por Louis Blanc e por Lassale, como reconheceu Marx, no texto “Crítica ao Programa de Gotha”.

Buchez tem também o mérito de ter sido o precursor da defesa das cooperativas de produção. Seu trabalho não era apenas teórico, pois, em 1834, ele auxiliou a criação de uma cooperativa de trabalhadores, que continuou a existir até 1873. A cooperativa de Rochedale, para comparar, era apenas de consumo e foi criada em 1844, em Manchester.

Numa linha paralela, Lamennais defendeu o cooperativismo com apoio de um Estado democrático, em obras como “A questão do trabalho” (1848).

A idéia de cooperativas com o apoio do Estado também foi adotada por Luís Blanc, que era teísta, tal como por Ledru-Rollin.

Num parêntese, é bom recordar que no próprio texto do “Manifesto Comunista”, Marx e Engels consideraram o “partido democrático” e popular de Louis Blanc, aliado e discípulo de Buchez, como o partido aliado, na França.

A tese da difusão das cooperativas com apoio estatal está presente também nos textos de Etienne Cabet e reaparece, mais tarde, nos textos de Lassalle, de Ketteler e dos socialistas cristãos, na Inglaterra, influenciados por Lamennais e outros.

A fórmula de Buchez de cooperativismo com intervenção e apoio do Estado consta também do “Programa de Gotha” de 1875 e também no “Manifesto” da 1ª Internacional.

Luís Blanc foi teísta durante toda a vida e há autores que consideram que foi ele que cunhou o termo “capitalismo”, para significar o sistema econômico liberal.

Blanc e Victor Hugo eram amigos, teístas e socialistas democráticos, adotando a mesma fórmula de Buchez. No século XX, o cooperativismo foi bem defendido por Antônio Sérgio, um socialista cooperativista.

Conclusão: Karl Marx, em carta de 13.10.1868, a Johann B. Schweitzer, o sucessor de Lassale, tal como em outros textos (“Crítica ao programa de Gotha”), reconheceu que Buchez foi o precursor das idéias de Lassale.

Marx citou Buchez em várias obras como “A questão judaica”, “A ideologia alemã”, “A sagrada família”, “Crítica ao Programa de Gotha” e em outras, mostrando, assim, que recebeu também a influência das idéias católicas de Buchez.

Frise-se que Marx teve professores padres jesuítas, na Escola média onde cursou, em Trier, dos 12 aos 18 anos. E esta Escola média era um antigo Colégio Jesuíta.

Quase todos os colegas de Marx, na escola média, eram SEMINARISTAS CATÓLICOS, inclusive o futuro Bispo de Trier. Marx era amigo de um excelente padre jesuíta, que o influenciou muito, e do qual ele faz menção em cartas posteriores.

Vou tratar deste padre jesuíta, em outro post. O método de Marx de fazer apontamentos é o Método jesuíta de fichar, de transcrever trechos mais importantes das obras lidas. Marx cultivou este método a vida toda. 

Em várias obras, Marx e Engels reconheceram que o núcleo do pensamento de Lassale tinha origem em Buchez e, por isso, chamaram Lassale de plagiário.

O próprio Schweitzer, nos passos de Lassalle, elogiava a santidade de Ketteler e o considerava como aliado.

Schweitzer escreveu obras como “O espírito do tempo e o cristianismo” (1861) e “Lucinda” (1864). Bebel, em sua autobiografia, “Minha vida” (3 vols., Stuttgart, 1910-1914), lembra que Schweitzer usava o nome de Ketteler para fortalecer o partido fundado por Lassalle.

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