Paul Lafargue, o genro de Marx, escreveu o texto “Porque a burguesia crê em Deus” (publicado, no Brasil, na revista “Divulgação marxista”, n. 09, novembro de 1946, p. 7 a 9).

Vejamos um trecho deste texto de Lafargue: “… os homens de ciência, com raríssimas exceções, vivem sob o encanto desta crença” (em Deus), “todos os sábios reconhecem que Deus é mais ou menos necessário para o bom funcionamento da engrenagem social e para a moralidade das massas populares”.

Lafargue reconheceu que Robespierre e Napoleão viam a religião como necessária.

Constatou também que “Voltaire, Rousseau, Turgot e outros não chegaram jamais à negação de Deus”.

Se Lafargue tivesse lido Turgot mais atentamente, veria que este fez um excelente elogio do cristianismo como a principal fonte do progresso social.

Quanto ao número de cientistas católicos, basta citar alguns, dentre milhares: Pasteur, Pascal, Volta, Galvani, André Marie Ampère (1775-1836), Copérnico, Galileu, Mendel, Lavoisier, Descartes, Secchi (vide “A unidade das forças físicas”, 1865), Bartolomeu de Gusmão e outros.

O genro de Marx também lembrou que “Cabanis, Maine de Biran, de Gerando” e outros “retrataram-se publicamente de suas doutrinas ímpias”.

O velho Georges Cabanis (1757-1808), no final da vida, escreveu o livro “Carta sobre as causas primeiras” (1806), onde elogia a religião natural, a ética cristá e admite a existência independente da alma. Mesmo em seu livro “Relatório do físico e do moral do homem” (1802) não há uma declaração clara de ateísmo.

Cabanis interpretou o próprio pensamento nesta obra, publicada após sua morte, deixando claro suas diferenças e divergências com Holbach e Lamettrie.

Biran e Gerando permaneceram religiosos durante toda a vida.

Maine de Biran (1766-1824) redigiu obras genais como “A influência do hábito” (1802), “A decomposição do pensamento” (1805) ou “Relações entre o físico e o moral” (1814).

Lafargue reconheceu ainda o “deísmo dos homens de gênio como Cuvier, Goffroy, Saint Hillaire, Faraday e Darwin”. Por fim, Lafargue reconheceu que:

a leitura da Bíblia pelos assalariados contém perigos que Rockefeller soube apreciar e, a fim de remediá-los, o grande “Trustman” organizou um “trust” para a publicação das bíblias populares, expurgadas das queixas contra as iniqüidades dos ricos e dos protestos de cólera contra o escândalo de sua fortuna”.

Neste último ponto, Lafargue admitiu que a Bíblia tem textos contra os ricos, ou seja, contra a concentração de bens em mãos privadas, contra as opressões etc.

Ernest Belfort Bax (1854-1926) e Emile Vandervelde (1866-1938) censuraram Paul Lafargue, o genro de Marx, por este não entender a importância dos “princípios éticos”, que, para estes socialistas, eram conceitos universais e necessários e essenciais inclusive para a crítica do capitalismo.

Nisto, Bax e Vandervelde deixaram explícitas as bases éticas de suas idéias socialistas. O livro de Bax, “A ascensão e queda dos anabatistas” deixa explícita esta linha ética.

De fato, as correntes do socialismo democrático, lá por 1870, já estavam se reaproximando do catolicismo, defendendo reformas sociais graduais, democracia, possibilismo, “oportunismo”, gradualismo, trabalhismo, personalismo etc, isso na Inglaterra, na França, na Suiça e outros países.

A esta crítica, Paul Lafargue, o genro de Marx, respondeu:

Por Deus! Tal como os filósofos mais espirituais, eu não posso me evadir de meu meio social: é necessário sofrer as idéias correntes, cada um as corta a sua medida e toma seus conceitos individuais para criticar as idéias e as ações dos outros”.

A discordância de Lafargue era apenas que não considerava estes conceitos como os “axiomas da matemática”, pois achava que estes variavam nos lugares e épocas.

Conclusão: Lafargue não sabia, mas o jusnaturalismo adotado na doutrina da Igreja atende a seu pleito, pois admite claramente, na linha dos textos de Tomás de Aquino e de outros Doutores, a variabilidade, a flexibilidade do direito natural e, assim, da própria doutrina social.

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