O grande padre Eleuthério Elorduy, uma das estrelas estoicas da Igreja

O padre Eleuthério Elorduy, no livro “El estoicismo” (Madrid, Ed. Gredos, 1972, Tomo II, p. 319), resume bem o primado da sabedoria, que é a razão prática das pessoas (do povo, a base da justificação da democracia), das idéias do bem comum, da subjetividade do trabalhador e da pessoa no processo histórico e social, com as seguintes palavras:

A sabedoria divina, que é o mesmo que o Summum Bonum [o Bem Supremo, a fonte de todo bem, do bem geral, comum] ou o Amor de Deus, é energia radiante e universal comunicadora de perfeição na ordem da atividade individual das pessoas e no coletivo dos corpos sociais. Esta é a visão compartilhada por Sêneca, testemunha deste fenômeno nas grandes domus da Roma de 63-64, como de Agostinho, em sua doutrina universal da “Cidade de Deus”. A visão metafísica do Bem supremo e da Sabedoria divina, Causa Primeira e Agente [Motor] universal, desdobra-se no mundo da realidade pela via da participação – por aderência a Deus em Agostinho e por irradição da “Ratio” [Razão, Logos] em Sêneca – fundamentando a base ontológica de toda perfeição física, moral, social e política, tanto na ordem das naturezas específicas recebidas na criação, como na elevação sobrenatural que em Sua Providência [a “tensão” da Providência] pode Deus estabelecer…(…).

A semelhança do cristianismo com o estoicismo neste ponto implica uma aproximação da filosofia estóica com a teologia Patrística, estudada com grande erudição por Stelzenberger, Spanneut e Pohlenz”.

O padre Eleuthério (Eleuthério em grego é liberdade) deu continuidade ao estoicismo católico, presente nos Santos Padres, em Montaigne, em Descartes, em Justos Lipsos e outros grandes católicos. 

A ideia de “tensão” ou “tonus” mostra como a Energia Divina atua, mais forte que a Endorfina, uma Endorfina, a ação da Graça (do Espírito, cf. Hegel, o Espírito Santo) atua inebriando, energizando, eletrificando, dando brilho, luz, força, energia, ânimo ao ser humano. 

Os hebreus e os cristãos sempre estão abertos às idéias verdadeiras, que formam a “Sabedoria”, como ensinam os livros sapienciais da Bíblia. Estas idéias são salvíficas, são geradoras do bem comum. Os cristãos e os hebreus, tal como os grandes filósofos da antiguidade (inclusive o hinduísmo, no Bhagavad Gita, Confúcio, Buda e outros) sabem que a verdade (as idéias verdadeiras e boas) é a fonte normal do bem comum, é salvífica, liberta (“conhecereis a verdade e esta vos libertará”, cf. Jesus).

Os hebreus deram um grande exemplo de abertura e ecumenismo na tradução da “Septuaginta”, lá por 285 a.C., realizando, na tradução, uma síntese com as idéias da Paidéia.

A “Septuaginta” tem importância essencial, pois foi o texto mais usado pelos Apóstolos e talvez até por Jesus Cristo. A difusão do cristianismo ocorreu pela mediação da “Septuaginta”, já numa forma de síntese entre idéias hebraicas e da Paidéia.

A própria Bíblia contém a incorporação de idéias da Paidéia mais antiga, especialmente do melhor da cultura mesopotâmica (de Ur, Harã e outras cidades, especialmente fenícias e da antiga Síria, Aram, aramaicos), tal como do Egito e da cultura de Canaã. A Bíblia, inclusive o Antigo Testamento, foi formada com base no material das culturas da Antiguidade, com a ajuda da inspiração.

A inspiração divina incide sobre a razão (por dentro), a natureza, sobre pessoas concretas, mergulhadas em seus habitats culturais, em seus húmus culturais. O mesmo ocorre com a graça, com a profecia, pois o “sobrenatural” é a ação divina sobre a natureza, sem destruir a criação do próprio Deus, e sim a elevando, aperfeiçoando-a, por dentro, por inculturação.

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